A Árvore de Ouro no Deserto

A Árvore de Ouro no Deserto

Reflexões sobre Números 8:1–4

“Quando fizeres subir as lâmpadas, as sete lâmpadas iluminarão para a frente da Menorá (Candelabro).” (Números 8:2)

1. Uma instrução que não é apenas uma instrução

Existe algo incomum no verbo hebraico que abre este versículo. A instrução não diz simplesmente hadlek, “acende”. Diz beha’alotchá, “quando fizeres subir”. O mesmo verbo, alá, que descreve a subida de fumaça de um sacrifício, a ascensão ao Templo, a elevação de algo em direção ao divino. Aarão não simplesmente acende lâmpadas. Ele as faz subir.

É uma diferença pequena em português. No hebraico, é uma distinção teológica. O ato físico de acender é inseparável de um movimento de direção: para cima, para a frente, em direção à presença. E a Torá ainda especifica que as sete chamas devem iluminar el mul pnei, “para diante do rosto” da Menorá. A luz não é dispersa. Ela tem uma direção. Ela aponta para algo.

Há ainda um detalhe na instrução que facilmente passa despercebido. Os sete braços da Menorá foram construídos de forma que as seis chamas laterais se inclinassem levemente em direção ao braço central. Não sete chamas apontando em sete direções diferentes. Sete chamas convergindo para um único centro. A pluralidade não se dispersa. Ela se unifica.

Essa estrutura já nos diz que a Menorá não foi feita para iluminar um ambiente. Foi feita para apontar.

2. A árvore que ninguém percebe

A descrição completa da Menorá aparece em Êxodo 25. Ela é feita de uma única peça de ouro batido, mikshah, sem soldas, sem junções, sem partes separadas. Do caule central brotam seis braços, três de cada lado. Cada braço carrega cálices em forma de flor de amêndoa, gevi’im meshukadim, com botões e pétalas abertas. O tronco central tem quatro desses cálices florais. O peso total era de um talento de ouro puro, kikar zahav tahor, cerca de 34 quilos. Era um objeto que não se movia com leveza.

Quanto mais se lê a descrição, menos ela parece um candelabro. Ela parece uma árvore. Uma árvore de ouro, com tronco, galhos, flores abertas, brotando de uma única raiz, sem costura, como se tivesse crescido assim.

A escolha da amêndoa não é ornamental. A amendoeira, shaked em hebraico, é a primeira árvore a florescer no inverno israelense, antes que qualquer outro sinal de primavera apareça. O mesmo radical aparece em Jeremias 1:11–12, onde D-us mostra ao profeta um ramo de amendoeira e diz: “Bem viste, porque Eu estou vigilante sobre a Minha palavra para cumpri-la.” A palavra hebraica para “vigilante”, shoked, soa quase idêntica a shaked, amendoeira. A Menorá carrega nas suas flores a mesma mensagem do profeta: D-us que floresce antes do tempo, que age antes que alguém perceba que a primavera está chegando.

E a memória que toda essa vegetação de ouro desperta é precisa: no Gan Eden (Jardim do Éden), havia uma árvore no centro do jardim. Não a Árvore do Conhecimento, que ficou famosa pelo resultado. A Árvore da Vida, etz hachayim, que garantia a continuidade da existência em comunhão com D-us. Depois da rebelião no jardim, os querubins foram posicionados para bloquear o acesso a ela. No Mishkan (Tabernáculo), os querubins voltam a aparecer, desta vez sobre a Arca da Aliança, com as asas abertas sobre o lugar onde a Shechiná (Presença Divina) repousava. E no centro do espaço sagrado, uma árvore de ouro torna a brilhar.

O Mishkan não é apenas um lugar de culto. É um Gan Eden portátil. E a Menorá no coração do seu espaço é a Árvore da Vida recolocada dentro do alcance de Israel.

3. Para quem brilha a luz

Uma pergunta que os sábios judeus fizeram com seriedade: para quem a Menorá iluminava? O Criador das estrelas não precisa de uma lâmpada. O que sustenta o universo não depende de uma chama de azeite para enxergar.

A resposta emerge da própria planta do Mishkan. A Menorá ficava no lado sul do espaço sagrado. A Mesa dos Pães da Presença ficava ao norte. A entrada, ao leste. A Menorá iluminava, portanto, em direção à Mesa, em direção ao pão, em direção à vida cotidiana sustentada pela presença de D-us. Ela não iluminava D-us. Ela iluminava Israel.

O azeite usado nas lâmpadas também carrega seu próprio peso. Não qualquer azeite. A Torá especifica shemen zayit zach, “azeite de oliva puro”, prensado a frio, sem aquecimento, sem mistura. O processo de extração preservava a clareza do azeite porque qualquer impureza fazia a chama fumegar e escurecer em vez de iluminar. A pureza do azeite não era uma exigência ritual arbitrária. Era uma condição técnica para que a luz funcionasse como luz.

O Kohen (Sacerdote) que acendia a Menorá todas as manhãs não estava fazendo um favor a D-us. Estava recebendo um. Estava sendo posicionado diante do símbolo mais concentrado da Shechiná dentro do Mishkan, encarregado de não deixar apagar aquilo que ele próprio não havia acendido pela primeira vez. A chama original, segundo a tradição, veio do próprio céu no dia da inauguração do Mishkan. O Kohen apenas a mantinha viva.

4. O que Zacarias viu

Séculos depois, o profeta Zacarias recebe uma visão: uma Menorá de ouro, com sete lâmpadas, e duas oliveiras ao lado, alimentando-a continuamente com azeite sem que ninguém precise encher o reservatório. Quando ele pergunta o significado, a resposta chega não como explicação, mas como declaração:

“Não por força nem por poder, mas pelo Meu Espírito.” (Zacarias 4:6)

O contexto da visão é importante. Zacarias profetizava num momento em que Israel havia retornado do exílio babilônico e tentava reconstruir o Templo com recursos mínimos, liderança frágil e oposição externa constante. A pergunta não declarada por trás de toda aquela geração era: como uma chama tão pequena pode sobreviver num vento tão grande? A visão da Menorá autoabastecida era a resposta: não pela quantidade de azeite que vocês conseguem reunir.

A visão coloca em questão algo que a prática ritual poderia obscurecer: quem, afinal, sustenta a chama? O Kohen a acende. Mas o azeite não vem do Kohen. As oliveiras que alimentam a visão de Zacarias não são regadas por mãos humanas. A Shechiná que ilumina o caminho de Israel não é produto do esforço sacerdotal.

A Menorá, vista assim, é o símbolo de uma dependência. Não uma dependência humilhante, mas uma dependência que liberta: a chama não depende da perfeição de quem a acende. Depende da fonte que a alimenta.

5. O que fazer com uma chama que não vem de você

Vivemos num mundo que define orientação pela capacidade de cada um de gerar sua própria luz. O bem-sucedido é aquele que produz clareza, que sabe para onde vai, que não precisa ser iluminado por nada externo. A Menorá conta uma história diferente: a luz que realmente orienta não vem de dentro. Ela vem de uma fonte que precede o acendedor.

Isso não é passividade. O Kohen ainda precisa agir. O verbo ainda é beha’alotchá, “quando fizeres subir”. Mas o movimento de Aarão não produz a luz. Ele a posiciona. Há uma diferença entre ser a fonte e ser o responsável por não bloquear a fonte. O azeite impuro fumega. O azeite puro ilumina. O trabalho do Kohen era, em grande parte, garantir que nada contaminasse o que já estava lá.

A Menorá ficava dentro do Mishkan, no espaço onde a Shechiná habitava. Sua luz não era para ser vista de fora. Era para quem entrava. E a pergunta que fica, depois de tudo isso, não é se D-us ainda ilumina. É se você ainda tem coragem de se aproximar o suficiente para ser iluminado.

Adivalter Sfalsin

O Que Você Carrega?

Podcast: Torá, Sinai E Chamado

Pip: Raízes Hebraicas — onde um trecho de logística do deserto e um feriado que a maioria das igrejas não sabia que estava perdendo chegam na mesma semana para te fazer repensar o que você carrega, literalmente e não.

Mara: Adivalter Sfalsin publica dois textos esta semana: um mergulho na parashá Nasô e o que ela diz sobre herança e responsabilidade, e um diagnóstico sobre Shavuot, o calendário hebraico e o fio que o cristianismo foi cortando sem perceber. Vamos começar com o que os levitas carregavam no deserto.

O Peso de Carregar o que Você Não Criou

Pip: A parashá Nasô traz uma lista de funções logísticas — quem carrega qual parte do Tabernáculo durante a marcha. Não há batalha, não há milagre. A questão que o texto levanta é: o que significa ser a geração que sustenta, e não a que constrói?

Mara: O post parte do verbo central da porção. O contexto é o campo semântico de nasô em hebraico: "Carregar, no vocabulário hebraico, nunca é uma ação neutra. Sempre implica relação. Sempre implica que algo foi transferido de um lugar para outro, e que quem carrega agora responde por aquilo que sustenta."

Pip: Ou seja, não é trabalho braçal anônimo. É uma forma de responsabilidade que define quem você é — mesmo sem plateia, mesmo sem reconhecimento.

Mara: E o texto vai além: os filhos de Merari carregavam as tábuas e as bases, estruturas pesadas e sem brilho. Sem elas, as cortinas bordadas dos filhos de Gérshon não tinham onde ser suspensas. A beleza dependia do que era invisível.

Pip: O deserto, por definição, não aplaude.

Mara: Exatamente — e é essa a virada do argumento. O que está em jogo não é expressão individual, mas continuidade de algo que nenhuma geração criou e que nenhuma pode recriar sozinha. Esse peso de herança é o que nos leva direto ao próximo tema.

Shavuot: O Dia que o Calendário Esqueceu

Pip: Shavuot chegou e a maioria das igrejas não sabia. O texto não trata isso como acusação — trata como diagnóstico. A pergunta real é: como um calendário inteiro desaparece da consciência de quem deveria conhecê-lo?

Mara: O post data o processo: no Concílio de Niceia, em 325 d.C., Constantino torna oficial a separação do calendário judaico, e a linguagem dele é reveladora. O texto cita diretamente: "seria indigno que cristãos seguissem o costume dos judeus, que haviam manchado suas mãos com um crime nefando."

Pip: O que significa que a ruptura não foi litúrgica. Foi política, construída sobre desprezo declarado.

Mara: E o que veio no lugar tem história documentada. O Natal em 25 de dezembro coincide com o Natalis Solis Invicti romano. A Páscoa vinculada à deusa saxônica Eostre está em Beda, o Venerável, no século VIII. O post é claro: não é conspiração, é história ordinária de culturas se absorvendo.

Pip: O problema não é a absorção. É que ela aconteceu enquanto os moedim, as festas bíblicas, eram esvaziados.

Mara: E há uma ironia específica em Atos 2 que o texto destaca. Os discípulos não estavam celebrando "Pentecostes" — estavam em Jerusalém porque era Shavuot, observando uma das três festas de peregrinação da Torá. O fogo não desceu sobre um culto improvisado. Desceu sobre um povo que mantinha o ritmo do tempo sagrado.

Pip: O paralelo com o Sinai é o núcleo do argumento: fogo, vento e a voz de D-us gravada em pedra no Sinai; fogo, vento e a voz de D-us derramada em pessoas em Atos 2.

Mara: O post cita Jeremias 31:33 como o elo: "Porei minha lei no seu interior e a escreverei no seu coração." Shavuot e Pentecostes, na leitura do texto, não são dois eventos parecidos. São o mesmo movimento de D-us em dois registros do mesmo ritmo.

Pip: E sem o calendário que preserva esse fio, o crente fica com eventos isolados onde havia narrativa contínua.

Mara: O post encerra com uma imagem precisa: é como conhecer as notas de uma sinfonia sem saber que elas pertencem a uma composição. Os sons existem. A música, não. E a pergunta que fica é o que aconteceria se o cristianismo voltasse a conhecer a árvore, não apenas o fruto.


Pip: Duas semanas, um deserto e um calendário perdido. O que une os dois textos é a mesma pergunta: o que acontece quando uma geração decide que não é sua responsabilidade carregar o que recebeu?

Mara: A resposta, nos dois casos, é que algo simplesmente cessa. Nos vemos no próximo episódio.

O Que Você Carrega?

O Que Você Carrega?

Reflexões sobre Bamidbar (Números) 4:21–37

Há uma estranheza discreta neste trecho que merece ser notada antes de qualquer interpretação.

O texto não descreve heróis. Não há batalha, nem milagre, nem revelação no cume de uma montanha. O que há é uma lista de atribuições logísticas: qual família carrega qual parte do Tabernáculo durante a marcha pelo deserto. Os filhos de Gérshon transportam as cortinas e as coberturas. Os filhos de Merari ficam responsáveis pelas tábuas, as barras, as colunas, as bases. Tudo medido, nomeado, registrado.

A tendência natural é deslizar por este capítulo como quem folheia a seção de regulamentos de um manual operacional.

Mas algo no texto resiste a essa leitura rápida.

O Peso da Palavra

O verbo que aparece no coração desta porção é nasô, que dá nome à parashá inteira. Em hebraico, nasô (נָשָׂא) não significa apenas “carregar” no sentido físico. O campo semântico da palavra é mais amplo: levantar, elevar, suportar, tomar sobre si. É o mesmo verbo que aparece quando alguém “eleva” o rosto de outro em sinal de favor, e também quando alguém “suporta” o peso de uma culpa.

Carregar, no vocabulário hebraico, nunca é uma ação neutra. Sempre implica relação. Sempre implica que algo foi transferido de um lugar para outro, e que quem carrega agora responde por aquilo que sustenta.

Os levitas não constroem o Tabernáculo. Não o projetam. Não decidem sua forma. Recebem o que foi construído por outros e assumem a responsabilidade de mantê-lo intacto enquanto o povo se move.

Isso, por si só, já contraria algo que a modernidade valoriza profundamente.

Originalidade Como Virtude Única

Existe uma pressão contemporânea quase impossível de nomear sem simplificá-la. Ela afeta quem trabalha, quem estuda, quem cria, quem prega, quem educa. A pressão de que o que conta é o novo. Que o legítimo é o original. Que herdar e preservar é uma forma menor de existir, uma espécie de espera pela própria voz.

A Torá não conhece essa hierarquia.

O capítulo de hoje registra com a mesma seriedade os números dos que transportam e a natureza do que transportam. Cada homem entre trinta e cinquenta anos, em condições de servir. Cada um com uma função específica que não se sobrepõe à do vizinho. Não há espaço para improvisação, porque o que está em jogo não é a expressão individual de ninguém. É a continuidade de algo que nenhum deles criou e que nenhum deles pode recriar.

Há gerações que edificam. Há gerações que nasô, que levantam o que receberam e o transportam até o próximo ponto de chegada, sem saber onde esse ponto fica.

O Deserto Como Teste de Estrutura

O deserto não é, na Torá, um símbolo de caos. É o lugar onde a ausência de ancoragem externa revela o que existe, ou não existe, no interior de um povo.

No deserto não há cidade, não há templo fixo, não há território. O que existe é o Tabernáculo móvel, a presença que acompanha porque foi projetada para acompanhar. E o que garante que essa presença continue chegando ao próximo acampamento são homens anônimos, registrados por nome somente em listas como esta, que sabem exatamente o que lhes cabe carregar.

A liberdade que o Êxodo inaugurou não era a ausência de forma. Era a possibilidade de uma forma que corresponde à realidade mais profunda de quem se é.

Israel não atravessa o deserto como uma multidão dispersa. Atravessa organizado, cada família no seu lugar, cada levita com o seu peso. E esse peso não é uma imposição que diminui o portador. É uma responsabilidade que o define.

O Que Se Perde Quando Ninguém Quer Carregar

Existe algo que só existe enquanto há quem o sustente. Não metaforicamente. Em termos práticos e imediatos: certas formas de conhecimento, certas práticas, certas memórias coletivas simplesmente cessam quando a geração que as recebeu decide que não é sua responsabilidade transmiti-las.

Os filhos de Merari carregavam as tábuas e as bases. Estruturas pesadas, sem brilho, funcionalmente indispensáveis. Sem elas, não havia onde suspender as cortinas bordadas pelos filhos de Gérshon. A beleza dependia do que era invisível e pesado.

Nem toda contribuição é visível. Mas a ausência de certas contribuições invisíveis torna as visíveis impossíveis.

A Torá registra os filhos de Merari com a mesma atenção que registra os filhos de Gérshon. O texto não faz distinção de prestígio. Faz distinção de função.

E talvez seja isso o que fica, ao final deste trecho administrativo que resiste a ser apenas administrativo: a pergunta sobre o que cada um está disposto a carregar quando não há plateia para ver o esforço.

Porque o deserto, por definição, não aplaude.

Adivalter Sfalsin

O Dia que a Igreja Esqueceu

O Dia que a Igreja Esqueceu

Hoje é Shavuot.

6 de Siván, 5786. O quinquagésimo dia após a Páscoa. O dia em que, segundo a memória coletiva de Israel, o Sinai tremeu, fogo desceu sobre a montanha e uma voz atravessou o deserto em setenta línguas ao mesmo tempo. O dia em que um povo de ex-escravos se tornou uma nação convocada para ser luz. A maioria das igrejas ao redor do mundo não sabe que hoje é esse dia. Isso, por si só, merece uma pausa. Não como acusação. Como diagnóstico.

O que foi perdido e quando

O processo pelo qual o cristianismo foi se distanciando do seu calendário original não aconteceu de uma só vez. Ele foi gradual, e por isso mesmo quase invisível. No final do segundo século, começa a surgir pressão em algumas comunidades para separar a Páscoa cristã do calendário judaico. No Concílio de Niceia, em 325 d.C., o imperador Constantino torna isso oficial e o faz com uma linguagem que vale a pena examinar de perto. Em carta circular aos bispos após o concílio, ele escreve que seria indigno que cristãos seguissem “o costume dos judeus”, que haviam “manchado suas mãos com um crime nefando.” A separação, portanto, não foi apenas litúrgica. Foi deliberadamente política. E foi construída sobre desprezo. A Torá conhece bem esse padrão. Não é a primeira vez que algo perde seu nome, muda de endereço e esquece de onde veio.

O que ficou e o que veio no lugar

O calendário cristão que emergiu desse processo não é neutro. O Natal fixado em 25 de dezembro coincide com o Natalis Solis Invicti, o nascimento do sol invicto, celebração do solstício de inverno no mundo romano, oficializada por Aureliano em 274 d.C. A Páscoa vinculada à deusa saxônica Eostre, com seus símbolos de fertilidade primaveril, está documentada em Beda, o Venerável, já no século VIII. Isso não é conspiração. É história ordinária de como culturas se absorvem mutuamente. O problema não está em que isso aconteceu. O problema está em que aconteceu enquanto os moedim, as festas bíblicas, eram sistematicamente esvaziadas de sentido ou abandonadas por completo. Substituímos o calendário da revelação pelo calendário da cultura. E mal percebemos.

O nome que foi trocado mas o evento que permanece

Há uma ironia discreta em Atos 2 que a maioria dos leitores atravessa sem ver. O texto diz que os discípulos estavam reunidos “no dia de Pentecostes.” Lucas, que escreve em grego para leitores helenizados, usa o termo que seu público vai reconhecer: Pentekostē, “cinquenta”. Mas os discípulos não estavam celebrando “Pentecostes”. Eles estavam em Jerusalém porque era Shavuot. Eram judeus fiéis observando uma das três festas de peregrinação ordenadas pela Torá. A cena de Atos 2 só é possível porque existia uma estrutura, um calendário, uma convocação, uma memória coletiva, que reunia aquelas pessoas naquele lugar naquele dia. O fogo não desceu sobre um culto improvisado. Desceu sobre um povo que mantinha o ritmo do tempo sagrado. E o paralelo com o Sinai não é coincidência nem alegoria pós-fato. No Sinai, fogo e vento e a voz de D-us escrita em pedra, a Torá gravada no exterior. Em Atos 2, fogo e vento e a voz de D-us derramada em pessoas, a Torá gravada no interior, no coração. É o cumprimento literal do que Jeremias havia prometido séculos antes: “Porei minha lei no seu interior e a escreverei no seu coração.” (Jeremias 31:33) Shavuot e Pentecostes não são dois eventos diferentes que se parecem. São o mesmo movimento de D-us, acontecendo em dois registros do mesmo ritmo.

A ausência que não dói porque não é sentida

O que perturba não é que a Igreja comemora datas de origem pagã. O que perturba é que ela o faz sem perceber, enquanto o calendário bíblico permanece invisível, não por rejeição consciente, mas por ignorância acumulada ao longo de gerações. Quando um cristão celebra o Natal em 25 de dezembro, ele não está fazendo algo deliberadamente errado. Ele está participando de uma tradição que lhe foi entregue. O problema é mais sutil: a mesma pessoa, em geral, não sabe que hoje é Shavuot. Não sabe que cinquenta dias atrás era Pessach. Não sabe que existe um fio que conecta a saída do Egito, o Sinai, a ressurreição e Atos 2 num único movimento narrativo que o calendário hebraico preserva intacto. E esse fio não é decorativo. Ele carrega uma teologia inteira.

A contagem do Omer,  os cinquenta dias entre Pessach e Shavuot — existe precisamente para comunicar que a liberdade não se encerra na saída do Egito. Sair da escravidão é apenas o começo. Os quarenta e nove dias que seguem são um período de preparação, de afinação interior, de movimento em direção à revelação. Israel saiu do Egito como povo liberto, mas chegou ao Sinai como povo convocado. A liberdade encontrou seu propósito na aliança. Sem Shavuot, o Êxodo é apenas fuga. Com Shavuot, ele é vocação. Quando o calendário hebraico desaparece da consciência cristã, essa tensão some junto. Resta a cruz, que é central e insubstituível,  mas sem o fio que a conecta ao Sinai, ao Êxodo, à promessa de Jeremias e ao fogo de Atos 2. O crente fica com eventos isolados onde havia uma narrativa contínua. Com celebrações sem estrutura onde havia um ritmo. Com respostas onde deveria haver também perguntas abertas. Ela perdeu a estrutura que dá sentido aos eventos. É como conhecer as notas de uma sinfonia mas não saber que elas pertencem a uma composição. Os sons existem. A música, não.

Uma pergunta que não fecha

Shavuot é chamada, na tradição rabínica, de Zman Matan Torateinu, o tempo da entrega da nossa Torá. É o dia em que o céu desceu à terra. Em que o invisível tocou o visível. Em que uma aliança foi inscrita primeiro na pedra e depois, segundo a promessa profética, no coração humano. O movimento foi sempre de cima para baixo. De D-us em direção ao homem. Da revelação em direção à vida concreta. Houve momentos na história em que algo dessa memória foi parcialmente recuperado. A Reforma do século XVI, com todo o seu peso e todas as suas limitações, devolveu ao leigo o acesso direto ao texto hebraico. Lutero aprendeu hebraico com rabinos. Calvino estruturou Genebra ao redor de uma leitura sistemática da Torá e dos Profetas. Os puritanos ingleses chegaram a nomear seus filhos com nomes hebraicos e debatiam se o sábado deveria ser observado no sétimo dia. Não eram movimentos perfeitos, e alguns cometeram erros graves. Mas cada um, a seu modo, sentiu que havia uma raiz perdida que precisava ser reencontrada. Nenhum chegou até Shavuot. Mas todos apontaram na mesma direção: de volta à fonte. E então a pergunta que este dia coloca, neste 22 de maio de 2026, para qualquer pessoa que se chame cristã:

Se foi a festa hebraica que criou o contexto para o fogo de Atos 2, se foi o calendário de Israel que mantinha aquelas pessoas reunidas no lugar certo, no momento certo, o que aconteceria com o cristianismo se ele recuperasse esse fio? Não como nostalgia arqueológica, não como judaização forçada, mas como o ato simples de lembrar de onde veio a raiz que sustenta o ramo?

O que aconteceria se, em vez de apenas comemorar o fruto, voltássemos a conhecer a árvore?

Adivalter Sfalsin

Quanto Voce Vale

Quanto você vale?

O deserto, o profeta e a cruz têm a mesma resposta

Reflexões sobre Bamidbar (Números) 3:40–51

Há um momento no texto de hoje que parece apenas contábil e que, se lido com atenção, revela uma das afirmações mais radicais de toda a Escritura.

D-us manda Moisés contar os primogênitos de Israel. São 22.273 homens. Depois manda contar os levitas. São 22.000. A diferença é de 273 e esses 273 não têm levita que os substitua. Então é preciso resgatá-los. Cinco siclos de prata por cabeça, pagos a Arão e seus filhos.

A precisão aritmética não é detalhe decorativo. É o ponto.

Porque o que o texto está dizendo, na sua linguagem mais direta e sem ornamento teológico, é que todo primogênito de Israel pertence a D-us. Não como metáfora. Não como homenagem litúrgica. Pertence. E pertencimento, no vocabulário bíblico, nunca é categoria administrativa. É categoria relacional. Antes de qualquer conquista, antes de qualquer mérito acumulado, antes de qualquer título que o mundo possa conceder ou retirar, existe uma anterioridade que nenhum contrato humano produziu.

O texto não explica o motivo neste capítulo, mas a memória coletiva de Israel carregava a razão sem precisar de explicação. Na última noite no Egito, quando o anjo passou e os primogênitos egípcios morreram, os primogênitos israelitas foram poupados. Não pela virtude deles. Não pela sua força. Pelo sangue no umbral da porta. Pela graça que chegou antes que qualquer um pudesse fazer por merecer.

Quando alguém é salvo de uma morte que era certa, algo muda na lógica do pertencimento.

Você não é mais apenas filho de seu pai. Você é alguém que deveria ter morrido e não morreu. E isso cria uma realidade que nenhuma moeda consegue simplesmente cancelar. D-us não ignora essa conta. Mas também não a usa para destruir. Ele a transforma em vocação: você sobreviveu para algo. Os levitas tomam o lugar dos primogênitos, uma tribo inteira como substituto simbólico de uma geração inteira. E os 273 que sobram pagam cinco siclos de prata cada um. A conta é fechada com misericórdia e com seriedade ao mesmo tempo. Ninguém é descartado. Ninguém é esquecido. Ninguém é arredondado para baixo.

Há uma frase que o texto repete com uma insistência que não parece acidental: Eu sou o Senhor.

Não como ameaça. Como contexto. Como declaração de anterioridade. Eu estava antes. Eu salvei antes. O pertencimento não nasce da dependência presente. Nasce da salvação passada que o homem, ocupado demais com o que construiu depois, frequentemente esquece.

A prata e o que ela carrega

Existe um fio que percorre toda a Escritura e que a prata ajuda a rastrear.

Em Êxodo 30, cada israelita pagava meio siclo de prata como kofer nefesh, resgate da alma, no momento do censo. Em Números 3, os 273 primogênitos pagam cinco siclos cada um. A prata, ao longo de toda a narrativa bíblica, aparece associada a redenção e pureza. O Salmo 12 compara a palavra de D-us à prata refinada sete vezes no cadinho. Não é ornamento poético. É vocabulário teológico consistente: a prata é o metal do resgate, do que foi perdido e restaurado, do que foi contaminado e purificado.

Essa lógica reaparece séculos depois, num texto perturbador do profeta Zacarias.

No capítulo 11, Zacarias descreve um pastor que cuida de um rebanho destinado ao abate. O pastor é rejeitado pelo próprio povo que deveria proteger. Quando pede seu salário, recebe trinta moedas de prata. E D-us responde com ironia pesada: “Esse belo preço com que me avaliaram.” (Zacarias 11:13)

Trinta moedas era, segundo a legislação do Êxodo, o valor de compensação por um escravo ferido por um boi. Era o piso legal. O valor que a sociedade atribuía a uma vida descartável. Zacarias então joga as moedas na casa do Senhor, para o oleiro.

O texto de Zacarias é denso e os estudiosos debatem seu significado preciso dentro do próprio livro do profeta. Mas a imagem que ele cria é clara: trinta moedas de prata como avaliação irônica e insuficiente de uma vida que valia infinitamente mais. A prata do resgate transformada na prata do desprezo.

O momento em que o fio se inverte

Mateus conhecia Zacarias. E quando registra que os líderes religiosos pagaram a Judas trinta moedas de prata para entregar Jesus, ele está fazendo algo deliberado para seus leitores. Não está simplesmente narrando um fato histórico. Está posicionando o evento dentro de uma memória muito mais longa.

O que torna isso explícito é o que acontece depois. Judas, arrependido, devolve as moedas ao Templo. Os sacerdotes, impedidos pela lei de devolver dinheiro de sangue ao tesouro sagrado, usam as moedas para comprar o campo de um oleiro. Mateus então cita Zacarias diretamente: “E tomaram as trinta moedas de prata, o preço daquele que foi avaliado.” (Mateus 27:9)

Leitores do primeiro século com formação nas Escrituras não precisavam de nota de rodapé. Eles ouviam trinta moedas, oleiro, casa do Senhor e o circuito se fechava internamente. Mateus está identificando um padrão: a mesma lógica perversa de avaliar uma vida pelo preço mínimo, o mesmo dinheiro terminando no recinto sagrado, o mesmo campo do oleiro. E está dizendo que esse padrão chegou ao seu ponto mais agudo e mais irreversível na história de Jesus.

Mas aqui está a inversão que a leitura superficial pode perder.

Em Números 3, a prata vai do homem para D-us, como resgate de vidas humanas que pertenciam a Ele. A direção é ascendente: o homem paga para reconhecer um pertencimento que sempre existiu.

Em Zacarias e em Mateus, a prata vai de humanos para humanos, como avaliação de uma vida que eles querem eliminar. A direção é horizontal e redutora: o homem atribui preço ao que não tem preço.

E então, na leitura que os primeiros seguidores de Jesus faziam do evento da cruz, a direção se inverte uma vez mais, agora de forma definitiva. O resgate não vem do homem para D-us. Vem de D-us para o homem. Não são cinco siclos pagos por 273 primogênitos que não tinham substituto. É uma vida entregue como substituto de todos os que não tinham como pagar a própria conta.

A lógica de Números 3 não desaparece. Ela chega ao seu ponto de maior amplitude.

Paulo em Corinto

Quando Paulo escreve para a congregação mista de Corinto, ele usa essa linguagem sem citar nenhum texto específico. “Fostes comprados por preço” (1 Coríntios 6:20). A congregação tinha membros com formação judaica, que conheciam a cadeia inteira desde o Êxodo, e membros gentios que vinham de um mundo onde compra e venda de escravos era realidade cotidiana e normalizada.

Para os primeiros, a frase ativava a memória longa: o kofer nefesh, os cinco siclos, o pertencimento que precede a performance. Para os segundos, soava de forma diferente mas igualmente direta: você pertence a alguém. Mas o resultado desse pertencimento não é servidão. É libertação. E o preço foi pago por Outro.

Paulo não está construindo uma doutrina sistemática nessa frase. Está fazendo algo mais imediato: reorientando a identidade de pessoas que viviam num mundo que definia valor pela posição social, pela etnia, pela liberdade ou escravidão jurídica, pela capacidade de produzir e acumular. Vocês foram comprados. Isso significa que vocês pertencem. E pertencer a D-us, dentro da lógica que corre desde o deserto de Bamidbar até o campo do oleiro em Mateus, é a única forma de pertencimento que nenhuma circunstância externa consegue desfazer.

Quando identidade nasce da posse, qualquer perda destrói o homem por dentro, não porque ele ficou mais pobre, mas porque ele ficou literalmente menor. Quando nasce da performance, o fracasso não é um revés, é uma ameaça existencial. Mas quando nasce do resgate, quando o homem compreende que havia uma conta que ele não poderia pagar e que foi paga por Outro, então até o deserto ganha uma estrutura habitável. Porque o que define quem ele é não está em nenhuma terra que ainda não alcançou.

O que os 273 carregaram consigo

Os primogênitos que pagaram cinco siclos de prata saíram dali com algo que o dinheiro não costuma comprar. A consciência de que haviam sido contados. De que sua ausência teria sido notada. De que existia Alguém para quem a diferença entre 22.273 e 22.000 não era simplesmente ignorada.

Ser contado, no sentido mais profundo que o hebraico conhece, é ser visto.

Trinta moedas de prata tentaram dizer que uma vida podia ser avaliada pelo preço mínimo legal. Os cinco siclos de Números dizem o oposto: que nenhuma vida fica de fora da conta. Que o céu não arredonda vidas para baixo.

E talvez essa seja a pergunta que Bamidbar coloca diante de cada um de nós: você sabe que foi contado? Não pela sua produção. Não pelo que acumulou. Mas porque há Alguém para quem o preço de uma vida jamais é o mínimo legal. E que, quando a conta chegou ao seu ponto mais alto, não mandou ninguém pagar por você.

Pagou Ele mesmo.

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Quando uma civilização perde a alma

Quando uma civilização perde a alma

Levítico 26:3–27:34 

“Se andardes nos meus estatutos, guardardes os meus mandamentos e os cumprirdes, então eu vos darei as chuvas a seu tempo, e a terra dará a sua colheita, e a árvore do campo dará o seu fruto.” — Levítico 26:3–4

“Mesmo assim, estando eles na terra dos seus inimigos, não os rejeitarei nem os destruirei totalmente, anulando a minha aliança com eles; porque Eu sou o Senhor seu D-us.” — Levítico 26:44

A leitura diária da Torá de hoje encerra praticamente o livro de Levítico com um dos textos mais profundos e estruturalmente importantes de toda a Bíblia. Aqui encontramos bênçãos, advertências, colapso social, exílio, arrependimento e restauração organizados dentro de uma única estrutura de aliança. Este não é apenas um texto religioso antigo. É uma análise extremamente sofisticada da natureza humana, da fragilidade das sociedades e da relação entre moralidade e sobrevivência coletiva. Levítico 26 não apresenta um universo caótico. O texto assume que existe uma ordem moral incorporada à própria realidade. A ideia central é simples e ao mesmo tempo profundamente desconfortável: sociedades não entram em colapso apenas por problemas econômicos ou militares. Primeiro elas entram em colapso espiritualmente e moralmente. Primeiro desaparece a verdade. Depois desaparece o senso moral. Depois desaparece a capacidade de distinguir o bem do mal. E somente então o colapso se torna visível.

A modernidade gosta de imaginar o ser humano como essencialmente racional, iluminado e progressivamente evolutivo. A Bíblia possui uma visão muito mais sóbria. Ela reconhece a inteligência humana, mas também reconhece a capacidade quase infinita do homem de justificar sua própria corrupção enquanto continua se considerando virtuoso. Esse talvez seja um dos grandes paradoxos da história: o ser humano consegue desenvolver tecnologia avançada sem necessariamente desenvolver sabedoria moral. Pode conquistar oceanos, dividir o átomo, alcançar o espaço e construir sistemas globais de comunicação, enquanto continua incapaz de governar corretamente o próprio coração. A Escritura constantemente insiste que conhecimento técnico e maturidade moral não são a mesma coisa. Uma civilização pode crescer externamente enquanto apodrece internamente.

No pensamento moderno, religião frequentemente é tratada como algo privado, subjetivo, emocional e desconectado das estruturas concretas da sociedade. Mas no pensamento bíblico isso seria incompreensível. Na Torá, a aliança afeta agricultura, economia, tribunais, sexualidade, comércio, liderança, tratamento dos vulneráveis e administração da terra. Tudo está conectado. A Bíblia não separa espiritualidade de realidade prática porque entende que ideias sempre produzem consequências concretas. Toda sociedade é construída sobre algum fundamento moral, mesmo quando afirma não possuir nenhum. E aqui encontramos um dos pontos centrais de Levítico: o universo moral não é neutro. Existe uma ordem na criação. O texto não apresenta bênçãos como mágica religiosa nem prosperidade automática. A ideia é muito mais profunda do que isso. Quando a Torá fala de chuva no tempo certo, segurança na terra e estabilidade coletiva, ela descreve uma sociedade funcionando em harmonia com princípios corretos. Em outras palavras, o pecado não destrói apenas indivíduos. Ele desorganiza realidades inteiras.

Hoje muitas pessoas acreditam que moralidade é apenas construção social, algo mutável segundo conveniência cultural. Mas Levítico apresenta outra visão: existem princípios tão fundamentais à sobrevivência humana quanto leis físicas. Uma sociedade pode ignorá-los por um tempo, mas não indefinidamente. Assim como alguém pode desafiar a gravidade apenas até certo ponto antes da queda inevitável, civilizações também podem desafiar princípios morais apenas até determinado limite antes da desintegração interna. O problema é que o colapso moral raramente parece colapso no começo. Frequentemente ele se apresenta como liberdade, progresso, autonomia ou adaptação cultural.

Uma das partes mais perturbadoras de Levítico 26 é justamente sua progressão gradual. O texto repete continuamente: “Se ainda assim não me ouvirdes…”. Isso revela algo profundamente humano: o coração raramente endurece de uma só vez. O mal quase nunca entra na sociedade anunciando-se como mal. Ele geralmente chega vestido de conveniência, pragmatismo, necessidade ou progresso. Primeiro vêm pequenas concessões. Depois racionalizações. Depois normalizações. Até que finalmente aquilo que deveria causar horror passa a parecer perfeitamente aceitável. Talvez o aspecto mais perigoso do pecado não seja sua violência inicial, mas sua capacidade de se tornar comum. O ser humano possui uma habilidade impressionante de adaptar sua consciência ao ambiente ao redor. Aquilo que antes escandalizava passa a divertir. Aquilo que antes era reconhecido como destrutivo passa a ser celebrado. E então algo extremamente estranho acontece: a sociedade continua funcionando externamente enquanto começa a colapsar internamente. As ruas continuam cheias. Os mercados continuam ativos. A tecnologia continua avançando. As instituições continuam de pé. Mas a alma coletiva já começou a se deteriorar.

Existe um detalhe fascinante quando conectamos Levítico à narrativa do Êxodo. O Egito era uma civilização construída sobre tijolos. Isso pode parecer insignificante à primeira vista, mas talvez exista aqui uma metáfora muito mais profunda do que imaginamos. Tijolos são uniformes. Mesmo formato. Mesmo tamanho. Mesma função. Eles são produzidos para serem empilhados. Mas pedras naturais não funcionam assim. Cada pedra possui forma própria, peso próprio, marcas próprias e imperfeições próprias. Talvez exatamente por isso pedras naturais sejam muito menos convenientes para impérios centralizadores. Porque sistemas humanos de poder frequentemente dependem de padronização. Todo império tende a desejar pensamento uniforme, comportamento uniforme, linguagem uniforme e submissão uniforme. O objetivo é transformar pessoas em peças organizáveis, empilháveis e substituíveis. A escravidão no Egito não estava ligada apenas ao trabalho físico. Ela envolvia transformação da identidade humana. O sistema precisava converter pessoas em ferramentas de produção.

E talvez seja impossível ler isso sem pensar no mundo moderno. Hoje os métodos mudaram, mas a pressão pela uniformização continua existindo. Algoritmos moldam comportamento. O consumo redefine identidade. Ideologias exigem conformidade. Sistemas econômicos frequentemente reduzem valor humano à produtividade. A cultura constantemente tenta transformar pessoas em números. O problema é que seres humanos feitos à imagem de D-us não foram criados para existir como tijolos. A visão bíblica preserva individualidade, responsabilidade moral e dignidade pessoal diante do Criador. Talvez por isso impérios frequentemente entrem em conflito com a visão bíblica, porque a Torá limita o poder absoluto dos sistemas sobre o indivíduo.

Na Bíblia, exílio nunca é apenas geográfico. O exílio começa internamente antes de se tornar externo. Uma pessoa pode continuar vivendo na própria terra e ainda assim já estar espiritualmente exilada. O que é o exílio senão a perda de pertencimento, direção e identidade? Por isso a narrativa bíblica inteira parece estruturada ao redor desse movimento: saída do Éden, dispersão humana, escravidão, exílio, retorno e restauração. O ser humano constantemente constrói civilizações enquanto permanece internamente desorientado. Existe produção sem significado. Entretenimento sem paz. Informação sem sabedoria. Conexão digital sem verdadeira comunhão humana. Talvez nunca tenhamos vivido em uma época tão conectada tecnologicamente e ao mesmo tempo tão fragmentada espiritualmente.

Muitos leem Levítico 26 apenas como um texto de punição severa, mas isso ignora completamente o centro do capítulo. O versículo mais importante talvez seja justamente: “não os rejeitarei nem os destruirei totalmente”. Isso muda tudo. Porque revela que o juízo bíblico não é apresentado como explosão emocional descontrolada. A disciplina divina possui propósito corretivo. A vingança humana normalmente busca destruição. A disciplina bíblica busca restauração. Essa diferença é fundamental. O texto não termina em abandono definitivo. Termina em esperança. E isso talvez revele algo extremamente profundo sobre a própria natureza do amor. O amor verdadeiro não consiste em permitir autodestruição sem confronto. Um médico que se recusa a diagnosticar uma doença por medo de ofender o paciente não está demonstrando compaixão. Está abandonando a pessoa ao avanço silencioso da enfermidade. Da mesma forma, a Bíblia frequentemente apresenta o juízo como revelação da realidade, não como crueldade arbitrária.

Os Profetas posteriormente desenvolverão exatamente essa lógica de Levítico. Eles repetem constantemente que D-us rejeita culto vazio, que sacrifícios não substituem justiça e que espiritualidade sem verdade é hipocrisia. Isso continua extremamente atual. Existe enorme tendência humana de utilizar religião como aparência externa enquanto arrogância, exploração, corrupção, desonestidade e crueldade continuam intactas. Mas a santidade bíblica nunca foi apenas ritual. Ela envolve dinheiro, linguagem, sexualidade, justiça, honestidade, negócios, cuidado com vulneráveis e responsabilidade moral. Tudo pertence a D-us.

Nos ensinamentos de Jesus essa lógica não desaparece. Ela se aprofunda. Jesus constantemente conecta fruto e consequência, verdade e prática, interior e exterior, coração e comportamento. Em Mateus 7, por exemplo, Ele declara que não basta ouvir. É necessário praticar. A famosa imagem da casa construída sobre a rocha possui exatamente a lógica de Levítico: a estabilidade depende do fundamento correto. Da mesma forma, João 15 utiliza a imagem da videira. O ramo desconectado da fonte inevitavelmente seca. A crise humana não é apenas comportamental. Ela é também desconexão da fonte da vida.

O livro termina falando sobre votos, dedicação, consagração e pertencimento. E isso não é acidental. Depois de tratar pureza, justiça, idolatria, economia, santidade, corrupção e restauração, Levítico encerra perguntando implicitamente: “A quem sua vida pertence?”. Porque no final toda civilização organiza sua existência ao redor daquilo que considera sagrado. Toda sociedade possui seus altares. A diferença é que alguns altares são visíveis e outros não. Uns sacrificam animais. Outros sacrificam verdade. Outros sacrificam identidade. Outros sacrificam crianças. Outros sacrificam dignidade humana. Outros sacrificam a própria alma em troca de poder, prazer ou aceitação cultural.

Levítico nos força a encarar uma pergunta extremamente desconfortável: o que ocupa o centro da nossa civilização? Porque aquilo que ocupa o centro inevitavelmente moldará tudo ao redor. E talvez seja exatamente por isso que o texto termina não com destruição definitiva, mas com esperança. Mesmo após rebelião, endurecimento e exílio, a aliança ainda permanece. A restauração continua possível.

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Marta e Maria

Quando o Fazer se Desconecta: Uma Leitura Profunda de Marta e Maria

A história de Marta e Maria, narrada no Evangelho de Lucas, atravessou séculos sendo lida quase sempre da mesma maneira: como um contraste entre duas posturas opostas. De um lado, Marta, ocupada, inquieta, absorvida pelo serviço; do outro, Maria, silenciosa, atenta, sentada aos pés de Jesus. A tradição cristalizou essa leitura como uma espécie de escolha inevitável. Ou se vive para agir, ou se vive para contemplar. Mas talvez essa seja precisamente a simplificação que o próprio texto resiste em sustentar.

Quando nos aproximamos da narrativa com maior atenção ao seu contexto histórico, cultural e literário, algo mais sutil começa a emergir. Não estamos diante de uma rivalidade entre irmãs, mas de uma tensão mais profunda, menos visível e, por isso mesmo, mais perturbadora. Trata-se de uma tensão que não separa pessoas, mas atravessa o interior de uma delas.

O cenário é, à primeira vista, comum. Um mestre itinerante entra em uma aldeia e é recebido em uma casa. No mundo do primeiro século, essa cena não tinha nada de extraordinário. Mestres percorriam vilas e cidades ensinando, e a hospitalidade não era apenas um gesto de cortesia, mas uma responsabilidade moral e espiritual. Receber alguém como Jesus implicava abrir espaço não apenas na casa, mas na própria vida. Nesse sentido, o serviço de Marta não é um detalhe secundário da narrativa. Ele é parte essencial dela. Sem esse acolhimento, não há encontro.

Enquanto Marta se ocupa com as exigências concretas dessa hospitalidade, Maria assume uma posição que, no contexto da época, carrega um significado técnico. Ela se senta aos pés do mestre. Não se trata apenas de proximidade física, mas de uma postura de discipulado. Sentar-se aos pés era tornar-se aluno, aprendiz, alguém disposto a ouvir e a ser formado. Há, aqui, um gesto silencioso, mas carregado de implicações. Em um ambiente onde o acesso ao ensino formal da Torá era mais restrito para mulheres, essa escolha não é apenas pessoal. Ela é, de certo modo, disruptiva.

Mas a narrativa não se desenvolve como um elogio simples da atitude de Maria em detrimento de Marta. O ponto de inflexão surge quando Marta, já sobrecarregada, se aproxima de Jesus e verbaliza sua frustração. Sua pergunta não é apenas prática. Ela revela algo mais profundo, uma sensação de injustiça, de desequilíbrio, talvez até de invisibilidade. “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe servir sozinha?” Não é apenas um pedido de ajuda. É um apelo por reconhecimento.

A resposta de Jesus, no entanto, desloca completamente o eixo da questão. Ele não entra na lógica da divisão de tarefas, nem oferece uma solução organizacional. Em vez disso, volta-se para o estado interior de Marta. “Marta, Marta, estás ansiosa e agitada com muitas coisas.” A repetição do nome não carrega reprovação, mas proximidade. Há, nesse chamado, algo quase terapêutico. Jesus não corrige a ação de Marta. Ele revela a condição a partir da qual essa ação está sendo realizada.

O verbo utilizado para descrever Marta, no texto grego, sugere alguém sendo puxado em várias direções ao mesmo tempo. Não se trata apenas de estar ocupada, mas de estar fragmentada. É como se sua atenção estivesse dispersa, dividida, incapaz de se fixar em um centro. O problema, portanto, não é o serviço em si, afinal, o próprio Jesus frequentemente se apresenta como aquele que serve, mas a maneira como esse serviço se tornou um lugar de dispersão interior.

Nesse ponto, a narrativa começa a se reorganizar. O contraste não está entre ação e contemplação, mas entre dois estados do ser, um centrado e outro fragmentado. Maria, ao sentar-se e ouvir, encontra um ponto de unidade. Marta, ao multiplicar suas tarefas, perde esse ponto de referência. O que está em jogo não é o que cada uma faz, mas de onde cada uma faz.

Essa leitura ganha ainda mais força quando observamos a posição da história dentro do próprio Evangelho. Logo antes desse episódio, encontra-se a parábola do bom samaritano, uma das mais contundentes afirmações da importância da ação concreta em favor do outro. A sequência não parece acidental. Primeiro, o chamado para agir. Depois, o convite para ouvir. Não como alternativas excludentes, mas como dimensões que se iluminam mutuamente. O fazer sem o ouvir corre o risco de se tornar desorientado. O ouvir sem o fazer corre o risco de permanecer estéril.

Talvez uma das razões pelas quais essa passagem foi tão frequentemente interpretada como um conflito entre duas formas de vida esteja na maneira como, ao longo da história, nos habituamos a pensar em termos de oposição. A influência de categorias que separam o espiritual do material, o interior do exterior, a contemplação da ação, acaba projetando sobre o texto uma tensão que ele próprio não afirma. No horizonte cultural em que a narrativa surgiu, a vida não era vivida em compartimentos estanques, mas como uma totalidade integrada.

É nesse sentido que a afirmação de Jesus, de que Maria escolheu “a boa parte”, precisa ser compreendida com cuidado. Não se trata necessariamente de uma comparação absoluta, como se uma escolha fosse superior à outra em todos os contextos. Pode-se entender, antes, como uma validação do momento. Há um tempo para servir, e há um tempo para parar e ouvir. Interromper Maria naquele instante seria perder algo essencial. Mas isso não transforma Marta em exemplo negativo, nem seu serviço em erro.

A força do texto está precisamente na recusa de simplificações. Marta não é rejeitada. Maria não é idealizada de forma isolada. Ambas representam dimensões reais e necessárias da experiência humana e espiritual. O que a narrativa expõe é o perigo de uma ação que se desconecta do seu centro, que deixa de fluir de um lugar de escuta e passa a ser movida pela ansiedade.

Essa leitura torna a história surpreendentemente contemporânea. Em um mundo marcado pela aceleração constante, pela pressão por produtividade e pela multiplicidade de demandas, é fácil reconhecer em Marta algo de profundamente familiar. A sensação de estar sempre ocupado, sempre correndo, sempre respondendo a algo e, ao mesmo tempo, cada vez mais distante de um ponto de estabilidade interior. O risco não é apenas fazer demais, mas fazer sem presença.

Maria, por sua vez, não representa fuga ou passividade, mas uma escolha deliberada de atenção. Sentar-se, ouvir, permanecer são atos que, em um contexto de dispersão, tornam-se quase subversivos. Não porque substituam a ação, mas porque a fundamentam.

No fim, a pergunta que essa passagem levanta não é se devemos ser mais como Marta ou mais como Maria. Essa dicotomia, embora sedutora, perde de vista o movimento mais profundo do texto. A verdadeira questão é outra, mais incômoda e mais essencial: de onde nasce aquilo que fazemos?

Se o fazer nasce da ansiedade, ele tende a fragmentar. Se nasce da escuta, ele tende a integrar. E talvez seja essa a “boa parte” de que Jesus fala, não uma atividade específica, mas um modo de estar, um centro a partir do qual a vida se organiza.

Assim, Marta e Maria deixam de ser opostas e passam a ser inseparáveis. Não como alternativas, mas como dimensões de uma mesma vocação. Ouvir e agir, receber e servir, parar e movimentar-se, tudo isso faz parte de uma espiritualidade que não divide, mas une. Uma espiritualidade em que o silêncio não anula a ação, e a ação não sufoca o silêncio, mas ambos se sustentam mutuamente.

E é nesse equilíbrio delicado, entre o que fazemos e o que nos forma, que talvez se encontre, ainda hoje, o verdadeiro sentido da narrativa.

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Falou perdeu

Não Lance Suas Pérolas ao Porcos

Uma leitura didática de Mateus 7:6

Há certos ensinamentos que, por serem repetidos com frequência, tornam-se invisíveis, não porque sejam obscuros, mas porque parecem simples demais para exigir atenção. Um deles encontra-se em Evangelho de Mateus 7:6: “Não deis aos cães as coisas santas, nem lanceis as vossas pérolas aos porcos.” A leitura comum entende este versículo como um conselho de prudência, não falar de coisas importantes com quem não irá apreciá-las. Essa leitura não é incorreta, mas como frequentemente acontece, ela é insuficiente. O texto permite, e talvez exija, uma leitura mais precisa.

A expressão “coisas santas” traduz o grego τὸ ἅγιον (to hagion), que significa aquilo que foi separado, consagrado, retirado do uso comum. No mundo bíblico, algo santo não é apenas religioso, é algo distinguido por seu valor e, portanto, requer tratamento adequado. No hebraico do Antigo Testamento, o equivalente é קֹדֶשׁ (qodesh), que carrega a mesma ideia, separação para um propósito específico. Assim, “coisas santas” não são apenas doutrinas, podem ser uma convicção profunda, uma decisão importante, um processo ainda em formação, ou até aspectos da própria vida interior. Em termos simples, aquilo que não deve ser tratado como trivial.

A segunda imagem, a pérola, é ainda mais específica. Em grego, μαργαρίτας (margaritas) refere-se a uma pedra preciosa, mas diferente do ouro ou do diamante, a pérola possui uma característica singular, ela é formada dentro de um organismo vivo. Não é encontrada pronta, é produzida. Esse detalhe, muitas vezes ignorado, altera a leitura do texto. A pérola não representa apenas algo valioso, representa algo que foi gerado ao longo do tempo, em um ambiente protegido, é, por assim dizer, um valor em processo.

Esse ponto merece atenção especial. Porque, se a pérola representa algo em formação, então o ensinamento de Jesus não está apenas lidando com valor, mas com vulnerabilidade. Algo que ainda está sendo construído é, por definição, mais sensível à interferência externa do que algo já consolidado. Uma ideia ainda não testada, uma decisão ainda não executada, uma mudança ainda não estabilizada, tudo isso pode ser facilmente afetado por fatores externos que, em outro momento, não teriam impacto algum.

A dificuldade moderna com este versículo geralmente começa com os termos “cães” e “porcos”. Eles soam como insultos, mas no contexto do século I, são categorias funcionais. Os “cães”, do grego κύσιν (kysin), não são animais domésticos, mas cães de rua, associados à desordem e à impureza. Os “porcos”, χοίροις (choirois), são, para o pensamento judaico, animais que não distinguem o que pisam, não possuem critérios de valor. O ponto não é insultar pessoas, mas descrever um tipo de relação com o valor, aquilo que não reconhece o que é precioso, aquilo que não distingue entre o comum e o consagrado.

A leitura mais comum transforma o versículo em uma regra social, não fale com pessoas erradas, mas o texto parece apontar para algo mais técnico. Ele não diz apenas que a pérola será ignorada, diz que será pisada, e que pode haver reação contra quem a ofereceu, isso sugere que o problema não é apenas falta de apreciação, é incompatibilidade entre o valor oferecido e a capacidade de quem o recebe.

Se juntarmos os elementos do texto, surge um princípio simples, aquilo que é valioso, especialmente quando ainda está em formação, não deve ser exposto indiscriminadamente. A razão não é elitismo, é fragilidade. Uma ideia em desenvolvimento, uma mudança pessoal, uma decisão ainda não consolidada, tudo isso pode ser facilmente afetado por ceticismo, incompreensão e julgamentos prematuros. O problema não é que essas reações sejam sempre mal-intencionadas, é que elas são estruturalmente inadequadas para lidar com algo ainda incompleto.

É nesse ponto que o exemplo de José, no Livro de Gênesis 37, se torna particularmente esclarecedor. José recebe um sonho, uma visão de futuro na qual ele ocupa uma posição de autoridade. A narrativa não apresenta o sonho como ilusório, pelo contrário, ao longo do texto, fica claro que aquilo representa uma realidade que virá a se cumprir. O problema não está no conteúdo do sonho, mas no momento e no ambiente em que ele é compartilhado.

José, ainda jovem, relata o sonho aos seus irmãos. Esse detalhe é crucial. Ele expõe algo que ainda está em fase inicial a um grupo que não possui a estrutura emocional nem a disposição para receber aquilo. Os irmãos não apenas não compreendem, eles reagem com inveja e hostilidade. A narrativa descreve um aumento progressivo de rejeição que culmina em um ato concreto, José é lançado em um poço e posteriormente vendido como escravo.

É importante observar que o sonho não é cancelado. O destino de José não é anulado. Mas o caminho até ele se torna significativamente mais longo e mais difícil. O que poderia ter se desenvolvido de forma direta passa por um processo de atraso e complicação.

Isso sugere que a exposição prematura não destrói necessariamente o que é verdadeiro, mas pode alterar drasticamente o percurso até a sua realização.

Esse padrão não é exclusivo dessa narrativa. Ele reflete uma realidade mais ampla, processos em formação precisam de condições específicas para se desenvolverem de forma saudável. Quando essas condições são violadas, o desenvolvimento não cessa automaticamente, mas se torna instável.

No pensamento do período do Segundo Templo, a fala não é um ato neutro. A palavra, דָּבָר (davar) em hebraico, e λόγος (logos) em grego, carrega a ideia de ação, não apenas de comunicação. Dizer algo é, em certo sentido, colocá-lo em movimento no mundo. Isso ajuda a entender por que o silêncio pode ter uma função prática, não apenas espiritual ou moral.

Silenciar não significa esconder por medo, mas proteger por discernimento. Há momentos em que a melhor forma de preservar algo é limitar a sua exposição.

Se lido dessa forma, o ensinamento de Jesus Cristo em Mateus 7:6 não é sobre rejeitar pessoas, é sobre proteger processos. A pérola não deixa de ter valor porque foi mal recebida, mas pode ser danificada no processo. O problema, portanto, não está apenas em quem recebe, mas no momento em que algo é oferecido.

Essa leitura também corrige um equívoco comum, a ideia de que compartilhar tudo imediatamente é sinal de autenticidade ou transparência. Embora a abertura seja importante, ela precisa ser acompanhada de discernimento. Nem toda verdade precisa ser dita a qualquer pessoa, em qualquer momento.

O princípio pode ser resumido em três movimentos simples. Primeiro, reconhecer o que é valioso, nem tudo na vida tem o mesmo peso, e algumas coisas exigem cuidado especial. Segundo, proteger o que ainda está em formação, projetos, decisões e mudanças precisam de tempo antes de serem expostos. Terceiro, discernir o momento de compartilhar, aquilo que já está consolidado pode ser exposto sem o mesmo risco.

Há uma diferença significativa entre esconder algo por insegurança e preservar algo por sabedoria. O primeiro nasce do medo, o segundo nasce do entendimento do processo. O ensinamento de Jesus Cristo em Mateus 7:6 não é uma advertência contra as pessoas, é uma orientação sobre como lidar com aquilo que ainda está se tornando o que deve ser. Nem tudo que é valioso deve ser imediatamente compartilhado, nem tudo que começa está pronto para ser visto. E talvez, muitas coisas que parecem ter falhado não foram destruídas, apenas expostas antes do tempo.

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Você é de esquerda… ou de direita? (

Você é de esquerda… ou de direita?

(Eclesiastes 10:2)

A pergunta, no nosso tempo, raramente é neutra. Ela carrega consigo todo um universo de associações políticas, ideológicas e identitárias. Ser de esquerda ou de direita tornou-se uma forma de situar-se no mundo, de definir posicionamentos, de delimitar fronteiras. Ao ouvi-la, quase automaticamente, pensamos em partidos, em debates públicos, em conflitos sociais. Escolhemos um lado, ou pelo menos sentimos a pressão de fazê-lo. No entanto, há um texto antigo que utiliza exatamente essa mesma linguagem — direita e esquerda — e que, surpreendentemente, não tem qualquer relação com política. Ou, melhor dizendo, não com a política no sentido em que estamos acostumados a entender. O texto afirma: “O coração do sábio está à sua direita, mas o coração do tolo está à sua esquerda” (Eclesiastes 10:2). À primeira leitura, pode parecer que estamos diante de mais uma divisão clara, quase instintiva: direita como o lado certo, esquerda como o lado errado. Uma leitura simples, direta, aparentemente suficiente. Mas essa interpretação, embora comum, não resiste a um exame mais cuidadoso, porque projeta sobre o texto categorias modernas que simplesmente não estavam presentes quando ele foi escrito.

Para compreender o que realmente está sendo dito, é necessário fazer algo que nem sempre estamos dispostos a fazer: suspender a nossa leitura imediata e voltar ao contexto original. O significado de um texto não começa em nós, nem nas nossas associações contemporâneas, mas no ambiente em que aquelas palavras foram pronunciadas pela primeira vez. No hebraico, a palavra traduzida como “coração” é lev. E aqui já encontramos uma primeira correção importante. Para a mentalidade moderna, o coração está frequentemente ligado às emoções, aos sentimentos, às reações afetivas. Mas no pensamento hebraico, lev não é o centro das emoções; é o centro da vontade. É o lugar onde decisões são formadas, onde valores são estabelecidos, onde a direção da vida é definida. Não se trata de algo instável ou passageiro, mas de um núcleo estrutural da pessoa. É, por assim dizer, o ponto de origem das escolhas antes mesmo de se tornarem visíveis como ações.

Isso significa que o texto não está falando sobre como alguém se sente, mas sobre como alguém está orientado. O sábio, descrito pela palavra hebraica chakham, não é simplesmente alguém que possui conhecimento teórico ou intelectual. A raiz do termo aponta para alguém habilidoso, alguém que sabe lidar com a realidade de forma adequada, como um artesão que entende o material com que trabalha. Sabedoria, nesse sentido, não é acumular informações, mas saber posicionar-se corretamente diante da vida. Já o tolo, chamado de kesil, não é alguém ignorante ou incapaz. Pelo contrário, é alguém obstinado, alguém que resiste à correção, alguém que se fixa numa direção e se recusa a ajustá-la. O problema do tolo não é falta de conhecimento, mas falta de disposição para reorientar-se.

Quando chegamos às palavras “direita” (yamin) e “esquerda” (semol), a diferença entre a leitura comum e a leitura contextual torna-se ainda mais evidente. No mundo antigo, a direita era o lado da força, da honra, da prontidão para agir. Era com a mão direita que se empunhavam ferramentas, que se selavam acordos, que se transmitiam bênçãos. Estar à direita significava estar no lugar de confiança, no lugar de competência, no lugar de alinhamento com a ordem das coisas. A esquerda, por outro lado, não era necessariamente maligna. Não carregava uma condenação moral automática. Mas era o lado menos favorecido, o lado deslocado, o lado que não estava plenamente preparado. Não se trata, portanto, de uma divisão entre bem e mal, mas entre alinhamento e desalinhamento, entre estar corretamente posicionado e estar fora de posição.

E é aqui que o texto revela a sua profundidade. Ele não está interessado em classificar pessoas de acordo com comportamentos visíveis. Não pergunta o que alguém fez, nem quais decisões tomou em momentos específicos. Ele aponta para algo mais constante e mais difícil de identificar: a direção do coração. “O coração do sábio está à sua direita” significa que o centro da sua vontade está orientado de forma correta, alinhado com aquilo que é verdadeiro e durável. “O coração do tolo está à sua esquerda” indica que esse mesmo centro está deslocado, fora de alinhamento, mesmo que externamente nada pareça imediatamente errado.

Essa distinção é mais exigente do que qualquer divisão moral simplista, porque desmonta a ideia confortável de que nossos erros são apenas episódios isolados. Tendemos a pensar em falhas como acontecimentos pontuais, desvios ocasionais que não comprometem necessariamente o todo. Mas o texto sugere algo diferente: que as nossas ações são manifestações de uma orientação mais profunda. O que fazemos não surge do nada; surge da direção para a qual estamos inclinados. E essa direção, muitas vezes, opera de forma silenciosa, quase imperceptível.

Essa ideia é reforçada pelo versículo anterior, que fala de uma mosca morta que corrompe o perfume. A imagem é deliberadamente simples, quase banal, mas a implicação é profunda: algo pequeno, ao entrar no lugar errado, compromete o todo. Em seguida, o texto mostra que essa corrupção não é externa, mas interna. Está na posição do coração. E no versículo seguinte, essa desorientação se torna visível: o tolo caminha, e a sua falta de direção se revela não porque ele a anuncia, mas porque ela inevitavelmente se manifesta ao longo do caminho.

O ponto central, portanto, não é uma escolha dramática entre o bem e o mal, mas uma orientação contínua. Um desvio mínimo, quase imperceptível, pode não fazer diferença no início, mas ao longo do tempo conduz a um destino completamente diferente. Um viajante que se desvia apenas um grau da rota dificilmente perceberá a diferença nos primeiros passos, mas, ao final da jornada, estará em um lugar totalmente distinto. O mesmo ocorre com o coração. Ele não aponta apenas nos grandes momentos de decisão; aponta constantemente, nas pequenas inclinações, nas preferências silenciosas, nas escolhas que ninguém observa.

E talvez seja por isso que o texto não nos confronta com acusações diretas, mas com uma pergunta implícita. Não pergunta se somos bons ou maus, nem se acertamos ou erramos. Pergunta algo mais fundamental: para onde estamos orientados? Porque, no fim, não somos conduzidos apenas pelas ideias que afirmamos defender, mas pela direção para a qual o nosso coração, esse centro silencioso da vontade, está continuamente apontando. E essa é uma questão que não pode ser respondida com facilidade, nem com slogans, nem com posicionamentos externos. Ela exige algo mais raro: atenção, honestidade e disposição para reconhecer que, muitas vezes, o maior perigo não está nas escolhas evidentes, mas na direção quase invisível que determina todas elas.

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Justice dos fariseus

A Justiça que Excede: Entre o Mérito Humano e o Dom Divino

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.” (Mateus 5:20)

Há afirmações de Jesus que não apenas instruem, mas desestabilizam profundamente as nossas categorias mentais. Esta é uma delas. À primeira vista, suas palavras parecem impor uma exigência quase impossível. Os escribas e fariseus eram, em seu tempo, o padrão máximo de rigor religioso. Dedicavam-se à Lei com precisão, disciplina e zelo incomparáveis. Se alguém representava a fidelidade espiritual, eram eles. E, no entanto, Jesus declara que essa justiça, aparentemente exemplar, não é suficiente. A reação imediata diante desse texto costuma ser de perplexidade. Se nem os mais religiosos alcançavam o padrão exigido, que esperança restaria aos demais? A conclusão apressada, e perigosamente comum, é imaginar que Jesus estaria elevando ainda mais o nível de exigência: mais regras, mais esforço, mais desempenho espiritual. Contudo, essa leitura entra em conflito direto com uma das verdades mais centrais das Escrituras, a de que a salvação não é conquistada por mérito, mas recebida como graça. Como afirma o apóstolo Paulo: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de D-us. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8–9).

Diante dessa aparente tensão, torna-se evidente que há algo mais profundo em jogo. Como frequentemente ocorre nos ensinamentos de Jesus, a chave para a compreensão não está na superfície das palavras, mas no seu contexto e nas camadas de significado que elas carregam. No caso de Mateus 5:20, duas expressões são fundamentais: “justiça” e “reino dos céus”. No contexto judaico do período do Segundo Templo, a palavra traduzida como “justiça” remete ao conceito hebraico de tsedaká. Trata-se de um termo rico e multifacetado. Por um lado, refere-se à própria justiça de D-us, Sua fidelidade, Sua ação salvadora em favor do Seu povo. Por outro, passou a designar também as práticas de justiça humana, especialmente atos de caridade, generosidade e devoção religiosa. Para os fariseus, essa dimensão prática era central. A vida espiritual se organizava em torno de três pilares: oração, jejum e esmolas. A tsedaká, nesse sentido, tornava-se visível, mensurável, observável. No entanto, é precisamente aqui que Jesus introduz uma ruptura. O problema não estava nas práticas em si, mas na confiança depositada nelas. A justiça dos fariseus era, em grande medida, externa, uma expressão visível de devoção que, muitas vezes, não correspondia a uma transformação interior. O próprio Jesus denuncia essa desconexão em outro momento: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque limpais o exterior do copo e do prato, mas por dentro estais cheios de rapina e intemperança” (Mateus 23:25). A aparência de justiça escondia um vazio interior.

A segunda expressão-chave, “reino dos céus”, também exige atenção. Longe de se referir apenas a um destino futuro após a morte, essa expressão, no Evangelho de Mateus, frequentemente aponta para uma realidade presente, o governo de D-us já em ação, a comunidade messiânica que vive sob Sua autoridade. Entrar no reino, portanto, não é apenas uma questão de localização futura, mas de participação atual em uma nova realidade espiritual. Com essas duas chaves em mãos, a declaração de Jesus começa a revelar sua verdadeira profundidade. Ele não está exigindo uma justiça maior em quantidade, mas uma justiça diferente em natureza. Trata-se de um contraste entre dois tipos de justiça: uma baseada no esforço humano e outra que nasce da relação com D-us.

O apóstolo Paulo, escrevendo anos depois, articula essa mesma distinção com clareza: “Porquanto, não conhecendo a justiça de D-us e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de D-us” (Romanos 10:3). De um lado, está a tentativa humana de construir mérito; do outro, a disposição de receber aquilo que D-us oferece gratuitamente. Essa inversão é decisiva. A justiça que excede a dos fariseus não é alcançada por meio de maior rigor religioso, mas por meio de uma transformação interior que começa com a fé. Não se trata de fazer mais, mas de confiar de forma diferente. O foco deixa de ser o desempenho e passa a ser a dependência. Como já antecipava o profeta Ezequiel: “Dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo” (Ezequiel 36:26). A mudança verdadeira não é superficial; ela brota de dentro. Isso não significa que as obras perdem valor. Pelo contrário, elas assumem o seu lugar correto. Como escreve Tiago: “A fé, se não tiver obras, é morta em si mesma” (Tiago 2:17). No entanto, a ordem dos fatores é fundamental. As obras não são a causa da salvação, mas sua consequência. Não somos aceitos por D-us porque fazemos o bem; fazemos o bem porque fomos alcançados por Sua graça. A justiça que excede, portanto, não é uma escalada mais exigente rumo a D-us, mas um convite a abandonar a ilusão da autossuficiência. É um chamado à humildade. Como afirma a Escritura: “D-us resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tiago 4:6). O caminho não é subir mais alto, mas descer — descer do orgulho, da confiança em si mesmo, da necessidade de provar valor.

Nesse sentido, as palavras de Jesus deixam de ser um peso e se tornam um convite libertador. Ele não está impondo um padrão inalcançável, mas revelando que o caminho baseado no mérito sempre foi, desde o início, insuficiente. A verdadeira justiça não se constrói; ela se recebe. E isso nos conduz a uma pergunta inevitável, que ultrapassa o campo da teoria e alcança a prática da vida diária: em que temos confiado? Na nossa disciplina, nas nossas boas intenções, na nossa aparência espiritual? Ou na justiça que vem de D-us, não como recompensa, mas como dom?

A resposta a essa pergunta redefine não apenas a nossa compreensão teológica, mas a própria maneira como vivemos

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Water into Wine

The Sign Many Did Not See

There are certain events in the Bible that, at first glance, seem simple. A gesture of kindness, an act of compassion, perhaps a small miracle to solve a social problem. The first miracle of Jesus—turning water into wine at a wedding in the small town of Cana—is often understood in exactly that way. A couple was about to suffer public embarrassment because the wine had run out, and Jesus quietly resolves the problem. And then the story seems to end there.

But the Gospel of John rarely tells stories merely to recount events. John does not call the works of Jesus “miracles”. He calls them signs. And a sign does not exist for its own sake. It always points to something greater.

If we look more carefully, we begin to realise that the first miracle of Jesus is not simply about wine. It is about the entire story of creation, the fall, and redemption.

The Gospel of John opens with words that echo something very ancient:“In the beginning was the Word.”

Those words immediately take us to the first verse of the Bible:“In the beginning God created the heavens and the earth.”

John did not choose this language by accident. He wants the reader to understand that when Jesus enters human history, something similar to creation is happening once again.

The world that God had created as good had become a broken world. The light had been overshadowed by the darkness of sin. Yet John announces something extraordinary:“The light shines in the darkness, and the darkness has not overcome it.”

This is not merely the arrival of another prophet. It is the Creator Himself entering His creation in order to restore it.

If we follow carefully the events of the first chapter of John, we notice something intriguing. The evangelist begins to mark time.“The next day…”, the text says.Then again: “The next day…”.And once more: “The next day…”.

Then, when we arrive at the following chapter, we read:“On the third day there was a wedding at Cana in Galilee.”

When we count these days carefully, something remarkable emerges. The wedding takes place on the seventh day of the narrative sequence.

For any reader familiar with the book of Genesis, this is hardly accidental.

In the first creation, God works for six days and, on the seventh, enters His rest. And at the end of the creation story we find a wedding. Adam meets Eve, and human history begins.

Now, in the Gospel of John, the new creation also culminates in a wedding.

During the celebration in Cana, a simple but socially embarrassing problem arises: the wine has run out.

Mary approaches Jesus and simply says,“They have no wine.”

At first glance, Jesus’ reply seems unusual:“Woman, what has this to do with me? My hour has not yet come.”

The word “woman” may sound abrupt to modern ears, but in the biblical context it echoes an ancient language—the language of Genesis.

In Genesis we encounter another woman. She also speaks to the man. But in that story the invitation leads to the fall. The woman tells the man to eat from the forbidden fruit, and human history descends into sin.

Now, in Cana, another woman speaks to a man. But this man is described in the Scriptures as the last Adam.

And this time the result is not a fall. It is the revelation of the glory of God.

John then mentions what appears to be a small detail, yet one full of meaning: there were six stone jars standing there, used for the Jewish rites of purification.

These jars were part of everyday religious life. They were used in ceremonial washings that symbolised spiritual purity.

But Jesus does not ask for new vessels. He uses precisely these jars. He commands that they be filled with water—and then He turns the water into wine.

The gesture is profoundly symbolic. It is as though Jesus were saying that the ancient rituals pointed towards something greater, yet they were never the final destination.

When the master of the feast tastes the wine, he makes a curious observation. He says that people normally serve the good wine first, and later the inferior wine. But in this case, the best wine has been kept until the end.

Those words echo far beyond that wedding celebration.

For centuries the story of redemption had unfolded through the law, the sacrifices, and the ancient covenants. All of these were good, but they were also preparation.

Now something better had arrived.

The wine points forward to something Jesus would later explain at the Last Supper:“This cup is the new covenant in my blood.”

True purification would not come through ritual washings. It would come through the sacrifice of the very Lamb of God.

John also invites us to notice the numbers. There were six jars. The miracle happens on the seventh day.

Six represents human effort—always incomplete.Seven represents the rest of God.

What human effort cannot complete, God completes.

True rest is not found in human works, but in the work of Christ.

There is yet another detail. John tells us that the wedding took place on the third day.

For anyone reading the Gospel as a whole, this expression echoes something that is still to come. On the third day, the Lamb of God would rise again.

Thus, even in the first miracle, John is quietly pointing towards the climax of the story: the cross and the resurrection.

John himself concludes by saying that this was the first of the signs through which Jesus revealed His glory.

The miracle was not merely about wine.

It was a sign that creation was being renewed.A sign that the old order was giving way to something greater.A sign that the Creator had entered His own creation in order to restore it.

Perhaps the most remarkable thing about this miracle is that it does not end at that wedding feast.

The transformation of water into wine is only an image of a far greater transformation.

God did not come merely to transform water.He came to transform human lives.

Darkness into light.Death into life.Sinners into children.

At Cana, the guests tasted an extraordinary wine.But through Christ, the whole world has been invited to something far greater—the new creation.

And, as we discovered at that ancient wedding feast,God truly saved the best until last.

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Primeiro Milagre

O Sinal que Muitos Não Viram

Há certos acontecimentos na Bíblia que, à primeira vista, parecem simples. Um gesto de bondade, um ato de compaixão, talvez um pequeno milagre para resolver um problema social. O primeiro milagre de Jesus, transformar água em vinho em um casamento na pequena cidade de Caná, muitas vezes é entendido exatamente assim. Um casal estava prestes a sofrer uma humilhação pública porque o vinho havia acabado, e Jesus, discretamente, resolve o problema. E então a história parece terminar ali. 

Mas o Evangelho de João raramente conta histórias apenas para narrar acontecimentos. João não chama os milagres de Jesus de “milagres”. Ele os chama de sinais. E um sinal não existe por si mesmo. Ele sempre aponta para algo maior. Se olharmos com mais atenção, perceberemos que o primeiro milagre de Jesus não é apenas sobre vinho. Ele é sobre toda a história da criação, da queda e da redenção. O Evangelho de João começa com palavras que ecoam algo muito antigo. “No princípio era o Verbo.” Essas palavras nos levam imediatamente ao primeiro versículo da Bíblia: “No princípio criou Deus os céus e a terra.” João não escolheu essa linguagem por acaso. Ele quer que o leitor entenda que, quando Jesus entra na história humana, algo semelhante à criação está acontecendo novamente.

O mundo que Deus havia criado bom havia se tornado um mundo quebrado. A luz havia sido obscurecida pelas trevas do pecado. Mas João anuncia algo extraordinário: “A luz brilha nas trevas, e as trevas não a venceram.” Não é apenas um novo profeta que chegou. É o próprio Criador entrando na sua criação para restaurá-la. Se acompanharmos cuidadosamente os acontecimentos do primeiro capítulo de João, encontramos algo curioso. O evangelista começa a marcar o tempo: “No dia seguinte…”, diz o texto. Depois novamente: “No dia seguinte…”. E mais uma vez: “No dia seguinte…”. Então, ao chegarmos ao capítulo seguinte, lemos: “No terceiro dia houve um casamento em Caná da Galileia.”

Quando contamos cuidadosamente esses dias, percebemos algo surpreendente. O casamento acontece no sétimo dia da sequência narrativa. Para qualquer leitor familiarizado com o livro de Gênesis, isso dificilmente pode ser coincidência. Na primeira criação, Deus trabalha seis dias e, no sétimo, entra em descanso. E no final da história da criação encontramos um casamento. Adão encontra Eva, e a humanidade começa. Agora, no Evangelho de João, a nova criação também culmina com um casamento. 

Durante a festa em Caná, surge um problema simples, mas socialmente constrangedor: o vinho acabou. Maria se aproxima de Jesus e diz apenas: “Eles não têm vinho.” A resposta de Jesus parece estranha à primeira vista: “Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não chegou a minha hora.” A palavra “mulher” pode soar rude aos ouvidos modernos, mas no contexto bíblico ela ecoa uma linguagem antiga, a linguagem de Gênesis.

Em Gênesis encontramos outra mulher. Ela também fala ao homem. Mas naquela história, o convite leva à queda. A mulher diz ao homem para comer do fruto proibido, e assim a história humana mergulha no pecado. Agora, em Caná, outra mulher fala ao homem. Mas este homem é chamado nas Escrituras de o último Adão. E desta vez o resultado não é queda. É revelação da glória de Deus.

João menciona então um detalhe aparentemente pequeno, mas cheio de significado: havia ali seis talhas de pedra usadas para os rituais de purificação dos judeus. Essas talhas faziam parte da vida religiosa cotidiana. Eram usadas em lavagens cerimoniais que simbolizavam pureza espiritual. Mas Jesus não pede taças novas. Ele usa exatamente essas talhas. Ele manda enchê-las de água. E então transforma a água em vinho. O gesto é profundamente simbólico. É como se Jesus estivesse dizendo que os antigos rituais apontavam para algo maior, mas nunca foram o destino final. Quando o mestre da festa prova o vinho, ele faz uma observação curiosa. Ele diz que normalmente as pessoas servem primeiro o vinho bom e depois o inferior. Mas, neste caso, o melhor vinho foi servido por último.

Essa frase ecoa muito além daquela festa. Durante séculos, a história da redenção havia sido construída através da lei, dos sacrifícios e das alianças antigas. Tudo isso era bom, mas também era preparação.Agora, algo melhor havia chegado. O vinho aponta para algo que Jesus explicaria mais tarde na última ceia: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue.” A purificação definitiva não viria através de rituais. Viria através do sacrifício do próprio Cordeiro de Deus.

João também nos convida a perceber os números. Havia seis talhas. O milagre acontece no sétimo dia. Seis representa a obra humana, sempre incompleta. Sete representa o descanso de Deus. Aquilo que o esforço humano não consegue completar, Deus completa. O verdadeiro descanso não está nas obras humanas, mas na obra de Cristo. Há ainda outro detalhe. João diz que o casamento ocorreu no terceiro dia. Para quem lê o Evangelho inteiro, essa expressão ecoa algo que ainda está por vir. No terceiro dia, o Cordeiro de Deus ressuscitaria. Assim, já no primeiro milagre, João está discretamente apontando para o clímax da história: a cruz e a ressurreição. O próprio João conclui dizendo que este foi o primeiro dos sinais de Jesus e que, por meio dele, Jesus manifestou a sua glória. O milagre não era apenas sobre vinho. Era um sinal de que a criação estava sendo renovada. Um sinal de que a antiga ordem estava dando lugar a algo maior. Um sinal de que o Criador havia entrado em sua própria criação para restaurá-la.

Talvez o mais impressionante sobre esse milagre seja que ele não termina naquela festa. A transformação da água em vinho é apenas uma imagem de uma transformação muito maior. Deus não veio apenas transformar água. Ele veio transformar vidas humanas. Trevas em luz. Morte em vida. Pecadores em filhos. Em Caná, os convidados apenas provaram um vinho extraordinário. Mas, através de Cristo, o mundo inteiro foi convidado para algo ainda maior, para a nova criação.

E, como descobrimos naquela antiga festa, Deus realmente guardou o melhor para o final.

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RESTAURANDO AS NAÇÕES

RESTAURANDO AS NAÇÕES

A Trombeta e o Caminho

Marcos 16 e Mateus 28 sob a luz da missão

Há algo de profundamente humano na nossa tendência de simplificar aquilo que é, por natureza, rico e multifacetado. Gostamos de fórmulas. Gostamos de resumos. Gostamos de transformar mistérios vivos em esquemas organizados. E assim, quando falamos da chamada “Grande Comissão”, frequentemente a comprimimos numa única frase: “Ide e fazei discípulos”.

Mas as Escrituras, como quase sempre, resistem à nossa pressa.

Quando abrimos o Evangelho de Marcos e o Evangelho de Mateus, descobrimos que a missão final confiada aos discípulos não é apresentada como um monólogo uniforme, mas como duas vozes que, embora harmoniosas, possuem timbres distintos. Marcos não soa como Mateus. E Mateus não ecoa Marcos.

Talvez devêssemos começar reconhecendo que isso não é um problema a ser resolvido, mas um presente a ser recebido.

Marcos escreve como quem toca uma trombeta numa colina ventosa. Seu Evangelho é rápido, quase ofegante. A narrativa se move como se o tempo estivesse comprimido. Milagres surgem com a força de relâmpagos. Conflitos se acumulam. A cruz aproxima-se com inevitável gravidade. E então, ao final, lemos:

“Ide por todo o mundo e proclamai o evangelho a toda a criação.”

(Marcos 16:15)

Não há discurso prolongado. Não há instruções detalhadas sobre métodos. Há um imperativo que soa como ordem militar.

O verbo grego central — κηρύξατε — não é delicado. Ele não sugere conversa tranquila ao redor de uma mesa. Ele remete ao arauto que entra na praça pública e declara algo que não lhe pertence. O arauto não pede permissão para ajustar a mensagem ao gosto da multidão. Ele anuncia.

É como se Marcos nos lembrasse que o evangelho não começou como uma reflexão privada, mas como uma proclamação ousada.

E então nos voltamos para Mateus.  Em Mateus, o tom muda. O Cristo ressuscitado não apenas envia; Ele estrutura. Lemos:

“Portanto, indo, fazei discípulos de todas as nações…”

(Mateus 28:19)

O verbo aqui não é “proclamai”, mas μαθητεύσατε — “fazei discípulos”. A ênfase desloca-se do anúncio inicial para o processo contínuo. O discipulado não é um instante, mas um caminho. Ele envolve batismo, ensino, obediência. Ele exige tempo.

Se Marcos soa como trombeta, Mateus parece mais um arquiteto desenhando uma casa.

Não se trata de contradição, mas de profundidade. Marcos descreve o momento em que a porta é aberta. Mateus descreve o que acontece depois que alguém atravessa essa porta. Talvez possamos imaginar dois erros igualmente possíveis.

O primeiro erro seria ler apenas Marcos. Nesse caso, poderíamos concluir que a missão consiste meramente em falar, quanto mais rápido e para mais pessoas, melhor. A ênfase estaria na quantidade do anúncio. O perigo seria transformar o evangelho em algo que ecoa alto, mas não cria raízes.

O segundo erro seria ler apenas Mateus. Nesse cenário, poderíamos tornar-nos tão preocupados com processos, estruturas e acompanhamento que esqueceríamos a urgência da proclamação. O evangelho poderia tornar-se um projeto interno, cuidadosamente cultivado, mas raramente anunciado com ousadia.

Ambos os extremos empobrecem a missão.

Há ainda um detalhe que merece atenção: o alcance da mensagem. Mateus fala em “todas as nações”. Marcos fala em “toda a criação”.

A diferença é sutil, mas sugestiva. Mateus pensa em povos, etnias, comunidades humanas. Marcos amplia o horizonte para algo quase cósmico. “Toda a criação” sugere que o evangelho não diz respeito apenas à reorganização de grupos religiosos, mas à restauração do mundo ferido. Em Marcos, o Reino confronta demônios, doenças e morte. Não é apenas um sistema de ideias; é poder que invade a realidade.

Talvez por isso o texto mencione sinais que acompanham os que creem. Não como espetáculo, mas como confirmação. Onde o Reino é anunciado, algo acontece. A proclamação não é vazia.

Mas voltemos à diferença essencial.

Marcos enfatiza o momento da decisão. “Quem crer… será salvo.” O anúncio cria crise. Ele divide. Ele exige resposta.

Mateus enfatiza o amadurecimento. “Ensinando-os a guardar…” O discipulado forma caráter. Ele constrói hábitos. Ele transforma desejos.

Marcos trata da conversão como porta.

Mateus trata da conversão como início de jornada.

E talvez seja aqui que o equilíbrio se torna mais precioso.

 Vivemos numa época que aprecia slogans, mas desconfia de processos longos. Ao mesmo tempo, apreciamos profundidade, mas evitamos declarações firmes. Oscilamos entre falar demais sem acompanhar, ou acompanhar indefinidamente sem proclamar.

As duas vozes dos Evangelhos nos corrigem.

Marcos nos lembra que o evangelho deve ser anunciado. Não sussurrado como opinião pessoal, mas proclamado como verdade que não depende de nossa aprovação.

Mateus nos lembra que a fé não floresce num único momento de entusiasmo. Ela precisa de ensino. Precisa de comunidade. Precisa de obediência concreta.

Se retirarmos a trombeta, a casa nunca será habitada.

Se retirarmos a casa, a trombeta ecoará no vazio.

 Há também algo profundamente consolador na promessa final de Mateus: “E eis que estou convosco todos os dias.” O anúncio pode parecer assustador. O discipulado pode parecer exaustivo. Mas ambos são sustentados pela presença daquele que envia.

Marcos termina com movimento. Mateus termina com companhia.

E talvez essa seja a imagem mais completa da missão: um povo que caminha pelo mundo anunciando uma boa notícia, enquanto aprende, passo a passo, a viver sob o senhorio daquele que caminha com eles.

Não precisamos escolher entre proclamar e discipular. Precisamos lembrar que a missão começa com voz e continua com vida.

A trombeta chama.

O caminho permanece aberto.

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Fazei Discípulos

A Grande Comissão e o Desfazer de Babel

Há textos que, de tão repetidos, se tornam invisíveis aos nossos olhos. Nós os citamos com facilidade, os transformamos em lema, os comprimimos em três ou quatro verbos rápidos — “ide, pregai, batizai, ensinai” — e, sem perceber, simplificamos aquilo que o próprio texto constrói com densidade e cuidado. Mateus 28:19–20 é um desses casos. A chamada Grande Comissão costuma ser lida como um chamado urgente à movimentação, quase como se o centro fosse o deslocamento geográfico. Mas quando voltamos ao grego, quando observamos a estrutura da frase e o campo semântico das palavras usadas, descobrimos algo mais profundo, mais orgânico e, acima de tudo, mais paciente. O centro não é simplesmente ir; o centro é formar discípulos. E essa diferença muda tudo.

O texto grego apresenta um verbo principal que carrega o peso da ordem: μαθητεύσατε (mathēteúsate), “fazei discípulos”. Esse é o imperativo. Ao redor dele orbitam particípios que explicam como essa ordem se concretiza. O primeiro é πορευθέντες, “indo” ou “tendo ido”. Aqui já há uma correção importante: “ide” não é o eixo da frase; é um pressuposto circunstancial. O foco não é o ato de viajar como fim em si mesmo, mas o que acontece enquanto se vai. É como se o texto dissesse: “à medida que vocês forem”, “no caminho”, “onde estiverem”. A missão não é turismo religioso, nem expansão territorial vazia. É atividade relacional, formativa, que inevitavelmente exigirá movimento porque o alvo não está confinado a um único povo.

Em seguida aparecem dois particípios no presente: βαπτίζοντες, “batizando”, e διδάσκοντες, “ensinando”. O aspecto presente sugere continuidade, processo, característica habitual. Discipulado, portanto, não é um evento pontual encerrado numa decisão emocional; é trajetória sustentada por marcos objetivos e prática constante. O batismo marca publicamente a identidade; o ensino sustenta a formação ao longo do tempo. O texto não permite reduzir a fé a um instante. Ele a define como caminho.

Quando Mateus escreve μαθητεύσατε πάντα τὰ ἔθνη, literalmente “fazei discípulos todas as nações”, surge a questão da preposição em português: “em” todas as nações ou “de” todas as nações? No grego, “todas as nações” está no acusativo como objeto direto do verbo. A ênfase não é território, mas povos. O sentido mais fiel é “fazei discípulos dentre todas as nações” ou “de todos os povos”. Aqui entra o termo ἔθνη, que não corresponde ao conceito moderno de Estado-nação com fronteiras e passaporte. Refere-se a povos, etnias, grupos humanos. A comissão, então, não é meramente geográfica; é a abertura radical do povo de D-us para além de Israel, a expansão do “nós”. O que antes estava concentrado agora se alarga.

É nesse ponto que a conexão com Babel se torna teologicamente luminosa. Em Gênesis 11, a humanidade se une para exaltar a si mesma; a consequência é dispersão, confusão de línguas, fragmentação. A Grande Comissão não apaga as línguas nem uniformiza culturas, mas convoca todos os povos a uma unidade que não nasce da arrogância humana, e sim da obediência ao Rei. Babel produz incomunicabilidade; a comissão convoca para comunhão. Babel centraliza o nome humano; a comissão introduz “para dentro do nome” do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Se Babel é dispersão por orgulho, a comissão é reunião por fidelidade. Não é uniformização cultural; é comunhão de lealdade.

O verbo μαθητεύω aprofunda essa visão. Ele não significa apenas “ensinar algo”, mas “tornar alguém discípulo”, isto é, aprendiz vinculado a um mestre. O discípulo não é consumidor de informação religiosa; é alguém que passa a caminhar num caminho, que aprende por convivência, observação, correção e prática. Discipulado envolve mesa, estrada, conflito, perdão, repetição. Envolve ver como o mestre responde sob pressão, como trata o fraco, como lida com poder e dinheiro. É formação de caráter, não mera transmissão de dados. Por isso o texto especifica: “ensinando-os a guardar” (τηρεῖν). O ensino tem alvo moral. Não é apenas saber; é obedecer, preservar, viver. A meta não é erudição religiosa, mas fidelidade concreta.

Quando o texto acrescenta “tudo quanto vos ordenei”, amplia ainda mais o escopo. Não é discipulado seletivo, onde cada um escolhe o que combina com sua personalidade e ignora o que confronta sua vaidade. É totalidade. Essa totalidade ecoa o Sinai. No Sinai, um povo foi formado por meio de mandamentos, identidade e vocação. Em Mateus, o Ressuscitado ordena que se ensine a guardar tudo o que Ele ordenou. É como se o Sinai se ampliasse: não mais restrito a um único povo, mas aberto a todos os povos. A comissão se torna, assim, um Sinai expandido, onde a revelação não é abolida, mas aprofundada na pessoa do Messias.

O batismo “para dentro do nome” reforça essa dimensão de identidade. Não é etiqueta social nem ritual vazio. É transição de pertencimento, juramento público de lealdade, incorporação numa nova realidade. O discípulo passa a carregar um nome maior que o seu próprio. Em contraste com a autonomia moderna que diz “minha fé é só minha”, Mateus descreve integração numa comunidade marcada por ensino e prática.

A promessa final — “eu estou convosco todos os dias, até a consumação do século” — equilibra o peso da ordem. Fazer discípulos dentre todos os povos é tarefa impossível se depender apenas da força humana. A presença prometida sustenta o processo. A missão é longa porque a formação é lenta; e a formação é possível porque a presença é constante.

Essa leitura também corrige distorções contemporâneas. Primeiro, missão não é apenas deslocamento; é formação. Segundo, discipulado não é decisão instantânea; é caminho perseverante. Terceiro, ensino não é acumular informação; é aprender a guardar. E, ao mesmo tempo, ela nos convida a revalorizar presença e convivência, a tratar pessoas e não “alvos”, e a aceitar o longo prazo como parte da fidelidade.

A Grande Comissão, portanto, não é simples slogan expansionista. É convocação paciente à formação de um povo que atravessa etnias sem apagar culturas, que desfaz Babel não por uniformização, mas por lealdade comum. É o chamado para que, enquanto vamos, tornemos pessoas aprendizes do Rei, incorporadas a um nome e formadas numa obediência que abrange “tudo”. E talvez a maior correção que esse texto nos oferece seja esta: a obra que ele descreve não cabe numa noite, nem numa campanha, nem numa estratégia de marketing. Ela exige anos, comunidade, constância. Exige vida compartilhada. E é precisamente nessa lentidão que a fidelidade se prova.

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Virar a Outra Face

Virar a Outra Face Não Significa o Que Você Pensa

Entre os ensinamentos mais citados de Jesus, poucos alcançaram tamanha notoriedade quanto a exortação registrada em Evangelho de Mateus 5:39: 

“Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.”

 Ao longo da tradição cristã, essa passagem foi frequentemente interpretada como um chamado à passividade absoluta diante da agressão. Em muitos círculos, tornou-se sinônimo de resignação, submissão e renúncia à autodefesa. Entretanto, uma análise histórica, cultural e linguística mais rigorosa sugere que tal leitura pode ser não apenas simplificadora, mas hermeneuticamente inadequada. A questão que se impõe é a seguinte: estaria Jesus propondo uma ética de passividade, ou articulando uma forma radical de resistência não violenta inserida no contexto específico da cultura mediterrânea do primeiro século?

O Problema Hermenêutico: Quando a Tradução Apaga a Cultura. A dificuldade na interpretação de Mateus 5:39 não reside primariamente na tradução lexical das palavras, mas na tradução cultural do gesto descrito. O leitor contemporâneo, distante da estrutura social da Palestina do século I, tende a projetar categorias modernas de violência e autodefesa sobre o texto. Contudo, o ambiente social do período era estruturado por aquilo que estudiosos denominam “cultura da honra e da vergonha”. Nesse sistema, honra não era mero sentimento subjetivo, mas capital simbólico. Representava status público, reconhecimento social e legitimidade dentro da comunidade. Perder a honra significava sofrer rebaixamento público. A vergonha, por sua vez, não era experiência privada, mas exposição social. É nesse contexto que o gesto de “bater na face direita” adquire significado específico.

A Especificidade da “Face Direita”. O texto não menciona simplesmente um golpe, mas um golpe direcionado à face direita. Essa precisão é fundamental. Em uma sociedade predominantemente destra, para atingir a face direita de alguém utilizando a mão direita, o gesto mais natural seria um tapa com o dorso da mão. Tal gesto possuía conotação social clara: era um ato de humilhação, utilizado por um superior para rebaixar um inferior. Não se tratava de uma agressão física típica de confronto entre iguais, mas de um gesto simbólico destinado a afirmar hierarquia. Portanto, o cenário descrito por Jesus não é primariamente o de violência física indiscriminada, mas o de humilhação pública intencional.

Análise Lexical: στρέφω e ἄλλην. O verbo empregado no texto grego é στρέφω (strephō), no imperativo aoristo: στρέψον. O campo semântico do verbo inclui:

• girar

• voltar-se

• mudar de direção

• redirecionar

O termo não sugere imobilidade passiva, mas ação deliberada de mudança de postura. Adicionalmente, a palavra traduzida como “a outra” é ἄλλην (allēn), acusativo feminino de ἄλλος, indicando alteridade qualitativa — “outra de natureza distinta” — e não mera repetição quantitativa. Assim, a construção textual aponta menos para a ideia de “receber outro golpe” e mais para a introdução de uma resposta alternativa. A Ética da Resistência Criativa, Se considerarmos o contexto cultural e a análise lexical, o ensinamento de Jesus pode ser entendido como uma estratégia de resistência não violenta dentro de uma estrutura social opressiva. No mundo mediterrâneo antigo, diante da humilhação, as opções predominantes eram duas:

1. Retaliação violenta para restaurar a honra.

2. Submissão que confirmava a inferioridade imposta.

Jesus propõe uma terceira via. Ao “virar a outra face”, o indivíduo não revida violentamente, mas tampouco aceita a lógica da inferiorização. O gesto funciona como interrupção do roteiro esperado pelo agressor. Essa resposta expõe a injustiça do ato e desloca a dinâmica de poder, sem reproduzir o mecanismo de violência. A expressão “não resistais ao mal” também deve ser cuidadosamente examinada. O verbo utilizado, ἀντιστῆναι (resistir), pode denotar oposição violenta ou confronto militar. Assim, o ensinamento não necessariamente elimina toda forma de resistência, mas especificamente a resistência que reproduz o mesmo padrão violento. Jesus não legitima a perpetuação da injustiça; ele deslegitima a reprodução do mal como método de enfrentamento.

Teologicamente, essa passagem articula uma ética que combina três elementos centrais:

1. Rejeição da violência como instrumento de restauração da dignidade.

2. Afirmação da dignidade do oprimido.

3. Desestabilização simbólica das estruturas opressivas.

Essa ética não pode ser reduzida a fraqueza ou resignação. Trata-se de uma forma sofisticada de resistência moral. Ao recusar-se a participar da lógica da vingança, o discípulo encarna uma alternativa que aponta para a realidade do Reino de Deus, onde poder não se confunde com dominação.

Atualidade do Ensino, Embora a cultura da honra do primeiro século não seja idêntica à sociedade contemporânea, seus mecanismos simbólicos permanecem presentes. Humilhações públicas, ataques à reputação e dinâmicas de exclusão continuam operando sob novas formas, inclusive digitais. A tentação de reagir impulsivamente permanece. A instrução de Jesus continua desafiadora: resistir sem se tornar aquilo que se combate.

A leitura tradicional de “virar a outra face” como convite à passividade ignora elementos culturais e linguísticos essenciais ao texto. Uma análise mais atenta revela que Jesus não está promovendo submissão acrítica à violência, mas propondo uma forma radical de resistência ética. Trata-se de interromper o ciclo da humilhação e da retaliação mediante uma resposta que reafirma a dignidade sem reproduzir o mal. Tal interpretação não diminui a radicalidade do ensino; ao contrário, a intensifica. Pois exige não apenas coragem física, mas maturidade moral e domínio interior. É precisamente essa radicalidade que torna essa palavra, ainda hoje, tão difícil.

Autor: Adivalter Sfalsin

Série: Palavras Difíceis de Jesus – Parte 8

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Casas no ceus

Morada no Céu?

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 6

Moradas no Céu

Há frases de Jesus que, de tão familiares, corremos o risco de não mais ouvi-las. Elas se acomodam em nossa memória como um móvel antigo na sala: sabemos que está ali, mas raramente paramos para examiná-lo de perto. “Na casa de meu Pai há muitas moradas” é uma dessas frases. Tão repetida em funerais, consolos e hinos, que quase se tornou um lugar-comum da fé cristã. Ainda assim, por muitos anos, confesso que ela me intrigou profundamente.Que tipo de morada seria essa? Uma casa? Um quarto? Uma mansão celestial? E, sobretudo, como conciliar a ideia de uma “casa”, algo concreto, delimitado, material, com o céu, que geralmente imaginamos como espiritual, etéreo e não físico? Talvez o problema não estivesse na promessa de Jesus, mas nas lentes com que aprendemos a lê-la.

Vivemos, quase sem perceber, sob a herança de uma mentalidade que separa radicalmente o espiritual do material. Para nós, o céu costuma ser o “lugar das coisas boas”, enquanto a terra seria o palco provisório das coisas ruins. O corpo é visto como um invólucro descartável; a matéria, como um mal necessário; e a salvação, como uma fuga bem-sucedida deste mundo para outro melhor. Essa forma de pensar não nasceu nas Escrituras hebraicas, mas no mundo greco-romano, profundamente dualista. Jesus, porém, não pensava assim. Quando Ele diz: “Na casa de meu Pai há muitas moradas”, está falando como um judeu do primeiro século, imerso numa cosmovisão que não separava céu e terra como compartimentos rivais, mas os via como realidades destinadas, um dia, a se encontrar plenamente. Isso muda tudo.

A palavra traduzida por “casa” no texto grego é oikia, termo que não se limita a uma construção física. Pode significar lar, família, ambiente de pertencimento. É o tipo de palavra que aponta menos para paredes e telhados, e mais para vínculos. Em hebraico, a ideia correspondente é bayit, que igualmente pode significar casa ou família. Não é difícil perceber que Jesus não está descrevendo um condomínio celestial, mas algo muito mais pessoal.

Já a palavra “moradas” (monē) aparece pouquíssimas vezes no Novo Testamento, apenas duas. E isso, por si só, deveria nos tornar cautelosos antes de construir doutrinas inteiras sobre imóveis celestiais. O curioso é que a outra ocorrência da palavra está no mesmo capítulo, alguns versículos adiante. Jesus diz: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada”.

Aqui, qualquer ideia de arquitetura literal simplesmente desmorona. Deus não está procurando um endereço no céu, nem um quarto para descansar. Ele está falando de presença, de comunhão, de relacionamento. A “morada” não é um espaço geográfico, mas um espaço relacional.

Isso nos leva a um ponto essencial: desde o início da história bíblica, Deus não se apresenta como alguém distante, satisfeito em observar o mundo de longe. Pelo contrário, Ele é um Deus que se aproxima, que caminha, que habita. No Éden, é descrito como aquele que “andava pelo jardim”. No deserto, pede a Israel que construa um miškān, um tabernáculo, não porque precisasse de abrigo, mas para “habitar no meio deles”. A intenção nunca foi o edifício em si, mas o relacionamento que ele simbolizava.

O tabernáculo, e mais tarde o templo, não existiam para manter Deus confinado, mas para lembrar o povo de que Ele desejava estar próximo. Eram sinais visíveis de uma realidade invisível: Deus escolhe viver com o seu povo.

Quando chegamos ao Novo Testamento, essa lógica não é abandonada, ela é radicalizada. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós.” A mesma ideia de habitação reaparece, agora não mais em tendas ou templos, mas em um corpo humano. Deus não apenas visita; Ele assume nossa condição. Não apenas se aproxima; Ele se envolve.

Se lermos João 14 com atenção, perceberemos que Jesus não está tentando satisfazer a curiosidade dos discípulos sobre o “além”. Ele está preparando seus corações para uma ausência física iminente, assegurando-lhes que essa ausência não significaria abandono. O centro do capítulo não é o destino pós-morte, mas a continuidade do relacionamento: amar, obedecer, permanecer, habitar.

A pergunta, então, talvez não seja “onde ficarei depois que morrer?”, mas “com quem estou aprendendo a viver agora?”. Ter uma mansão no céu é uma imagem reconfortante, sem dúvida, mas não é o cerne da promessa. O cerne é pertencer à casa do Pai, e casa, nas Escrituras, sempre foi mais sobre pessoas do que sobre lugares.

Curiosamente, o movimento da história bíblica nunca é o de almas subindo para escapar da terra, mas o de Deus descendo para restaurá-la. O clímax do Apocalipse não é a humanidade abandonando o mundo, mas a Nova Jerusalém descendo do céu. O destino final não é uma eternidade flutuando longe da criação, mas uma criação renovada, reconciliada, finalmente cheia da presença de Deus.

Talvez tenhamos entendido tudo ao contrário. Talvez o céu não seja o lugar para onde vamos morar, mas a realidade que vem habitar conosco.

Nada disso diminui a esperança cristã, pelo contrário, a torna mais concreta, mais robusta, mais enraizada na história. Não esperamos escapar do mundo, mas vê-lo curado. Não aguardamos apenas um endereço futuro, mas um relacionamento que começa agora e atravessa a morte sem ser interrompido.

Jesus não estava oferecendo chaves de mansões, mas convidando seus discípulos a viverem como membros da casa do Pai. E isso, convenhamos, é muito mais exigente, e muito mais belo.

A. Sfalsin

Fundo da Agulha

Camelo e o fundo da agulha: Não é literal

Entendendo as Palavras Difíceis de Jesus

O camelo pelo fundo de uma agulha

Há ensinamentos de Jesus que confortam.

Há outros que inquietam.

E há aqueles que, se levados a sério, desmontam silenciosamente as estruturas nas quais construímos nossa segurança.

Entre estes últimos estão Suas palavras em Mateus 19:23–24:

“Em verdade vos digo que é difícil para um rico entrar no Reino dos céus. E ainda vos digo: é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de D-us.”

Poucas frases foram tão repetidas e, ao mesmo tempo, tão mal compreendidas.

A leitura mais comum imagina um camelo tentando atravessar o minúsculo orifício de uma agulha de costura. A conclusão parece óbvia: trata-se de algo fisicamente impossível; logo, o ensino seria uma forma extrema de dizer que o rico está condenado. Mas interpretações apressadas costumam revelar mais sobre nossa impaciência do que sobre o texto em si.

Jesus não falava para confundir, mas para revelar. Quando utilizava imagens fortes, não o fazia para encerrar o pensamento, e sim para iniciá-lo.

O erro dessa leitura literal não está apenas na imagem exagerada, mas no que ela ignora. Jesus nunca falou de forma abstrata. Suas parábolas e metáforas nasciam da vida real, do cotidiano, de cenas conhecidas por seus ouvintes. Ele ensinava a partir daquilo que as pessoas viam, tocavam e experimentavam todos os dias.

Na antiguidade, as cidades possuíam grandes portões, fechados à noite por segurança. Quando isso acontecia, havia passagens estreitas por onde apenas pedestres podiam entrar, sem carga, sem animais, em posição baixa. A travessia exigia que tudo fosse deixado para trás. Um camelo, para passar por ali, teria de ser completamente descarregado e forçado a se curvar. Seria desconfortável, humilhante, difícil, mas não impossível.

E aqui chegamos ao ponto central.

Jesus não estava afirmando que os ricos estão automaticamente excluídos do Reino de D-us. Ele estava dizendo algo muito mais profundo e muito mais perturbador: ninguém entra no Reino carregando aquilo que acredita ser sua segurança.

A dificuldade não é a riqueza. A dificuldade é o que a riqueza faz com o coração humano.

Todo ser humano precisa de algo em que confiar. Quando não confiamos em D-us, acabamos confiando em outra coisa: dinheiro, status, controle, reputação, poder, inteligência, previsibilidade. A riqueza é especialmente perigosa porque funciona muito bem como substituto espiritual. Ela resolve problemas reais, oferece conforto imediato e cria a sensação de autonomia. E é justamente por isso que ela engana tão facilmente.

O rico não confia em D-us com mais dificuldade porque seja moralmente pior, mas porque tem mais coisas das quais precisa se desapegar. Quanto maior a carga, mais difícil se curvar. Quanto maior a ilusão de autossuficiência, mais estreita parece a porta.

O problema, portanto, não está no que se possui, mas no que se acredita não poder perder.

Jesus não ensina que os bens materiais são maus em si. Ele ensina que são péssimos senhores. Quando ocupam o lugar da confiança, tornam-se um fardo espiritual. Transformam-se na carga que impede o camelo de atravessar a passagem estreita.

E aqui, talvez, esteja a parte mais desconfortável desse ensino: todos somos ricos em alguma coisa.

Alguns em dinheiro.

Outros em orgulho.

Outros em controle moral.

Outros em certezas intelectuais.

Outros em imagem, status ou aprovação.

Todos nós carregamos algo que preferiríamos não soltar.

O Reino de D-us, porém, não se negocia. Ele não se adapta às nossas cargas; somos nós que precisamos nos adaptar a ele. A porta é estreita não porque D-us deseja excluir, mas porque o Reino é incompatível com a autossuficiência. Ele exige uma postura que nos custa caro: humildade.

Humildade, aqui, não é pensar mal de si mesmo, mas pensar menos em si mesmo. É reconhecer que tudo o que temos, inclusive aquilo que chamamos de mérito, é insuficiente como fundamento último da vida. É dobrar o pescoço, ajoelhar-se e admitir que não somos o centro do universo.

Assim como o camelo precisa ser esvaziado e forçado a se curvar para atravessar a passagem estreita, também nós precisamos nos despir da ilusão de controle. Precisamos aceitar o desconforto de depender de D-us. Precisamos renunciar à fantasia de que podemos atravessar o Reino do mesmo jeito que atravessamos o mundo.

O ensino de Jesus, longe de ser uma condenação aos ricos, é um convite radical à liberdade. Aquele que solta a carga descobre que ela nunca foi proteção; era peso. Aquele que se curva descobre que a verdadeira dignidade nasce da rendição.

No fim, a metáfora do camelo nos revela algo essencial sobre o Reino de D-us: não entram os fortes, entram os rendidos. Não entram os cheios, entram os vazios. Não entram os que se apoiam no que possuem, mas os que confiam em Quem os chama.

A verdadeira riqueza, portanto, não está no que acumulamos, mas no que estamos dispostos a entregar. E a verdadeira pobreza não é a falta de bens, mas a incapacidade de se curvar.

A porta continua estreita.

Mas continua aberta.

E atravessam por ela aqueles que, mesmo feridos pelo desconforto da renúncia, preferem entrar no Reino de D-us de joelhos a permanecer do lado de fora de pé.

Autor: Adivalter Sfalsin

“Ide, e dizei àquela raposa…”

“Ide, e dizei àquela raposa…”

“O insulto que se perdeu na tradução”

Há frases de Jesus que nos confortam como um cobertor numa noite fria. Outras, porém, fazem exatamente o oposto: nos acordam. Esta é uma delas. Quando Ele diz, com serenidade quase desconcertante, “Ide, e dizei àquela raposa…”, não está apenas respondendo a uma ameaça política. Está, como tantas vezes, revelando a anatomia oculta do poder humano e, se formos honestos, a nossa também.

A cena é simples. Alguns fariseus vêm alertar Jesus de que Herodes Antipas quer matá-lo. O aviso soa sério, quase protetor. Afinal, Herodes não era conhecido por delicadezas: mandara decapitar João Batista e governava com a aprovação de Roma. Mas Jesus não se apressa, não foge, não negocia. Ele responde com uma frase que, à primeira vista, parece quase irreverente: “Vão e digam àquela raposa…”. Em seguida, afirma que continuará seu trabalho, expulsando demônios, curando, avançando, até que seu tempo se cumpra.

Durante anos, muitos de nós lemos essa palavra “raposa” como sinônimo de astúcia. A raposa, afinal, é esperta; sobrevive pela inteligência, não pela força. Assim, imaginamos Jesus reconhecendo a sagacidade política de Herodes. Mas essa leitura, embora confortável, é profundamente enganosa. E aqui começamos a perceber que Jesus não está elogiando nada. Está desmascarando.

O problema nasce quando lemos Jesus apenas com óculos gregos, esquecendo que Ele falava como judeu a judeus, dentro de um mundo simbólico que tinha sua própria gramática moral. No imaginário grego, a raposa era de fato astuta, oportunista, rápida em aproveitar sobras deixadas por predadores maiores. Mas no universo hebraico, a palavra carrega um peso muito diferente. Ela não é apenas esperta; é pretensiosa. Não é apenas ardilosa; é moralmente pequena.

Os mestres judeus costumavam contrastar dois animais: o leão e a raposa. O leão simbolizava autoridade legítima, grandeza real, peso verdadeiro. A raposa, ao contrário, parecia maior do que realmente era. Seu pelo volumoso lhe dava aparência de importância, mas por dentro era frágil, esquelética. Assim, chamar alguém de raposa não era reconhecer sua inteligência, mas denunciar sua fraude. Era dizer: você parece grande, mas não é.

Há um provérbio antigo que diz: “Seja a cauda dos leões, e não a cabeça das raposas.” Melhor ocupar um lugar humilde entre os justos do que liderar, com pompa, um sistema corroído. Essa sabedoria não nasceu do cinismo, mas de um olhar lúcido sobre o caráter humano. Jesus conhecia bem essa tradição. E é com ela que Ele olha para Herodes.

Herodes Antipas se via, e queria ser visto, como um leão. Governante, construtor, herdeiro de uma dinastia. Mas sua linhagem contava outra história. Filho de Herodes, o Grande, neto de Antípatro, um idumeu convertido por conveniência, Herodes reinava não por promessa divina, mas por concessão romana. Ele ocupava um trono que não lhe pertencia. O trono de Davi fora prometido à linhagem de Jacó, não à de Esaú. Herodes carregava o título, mas não o direito; a coroa, mas não a legitimidade.

Quando Jesus o chama de raposa, portanto, não está fazendo um comentário zoológico, mas teológico. Está dizendo, em essência: você não é quem pensa ser. Seu poder é emprestado. Sua ameaça é vazia. Sua grandeza é inflada. Você governa, mas não reina. Parece leão, mas é raposa.

E aqui está o ponto que nos inquieta. Jesus não diz isso aos gritos, nem convoca uma revolta. Ele simplesmente continua seu trabalho. Enquanto Herodes ameaça, Jesus cura. Enquanto Herodes maquina, Jesus liberta. Enquanto Herodes pensa controlar a morte, Jesus anuncia vida. É uma inversão silenciosa, porém devastadora. O verdadeiro poder não se prova pela capacidade de matar, mas pela fidelidade à missão recebida.

Talvez seja por isso que essa passagem nos incomode tanto. Porque ela não fala apenas de Herodes. Fala de todos os sistemas, políticos, religiosos, pessoais, que se sustentam mais na aparência do que na verdade. Fala de líderes que usam títulos como peles volumosas, mas carecem de substância moral. Fala, se tivermos coragem de admitir, de nós mesmos.

Quantas vezes preferimos parecer do que ser? Quantas vezes inflamos nossa importância, nosso discurso, nossa autoridade, enquanto por dentro estamos espiritualmente frágeis? Quantas vezes nos contentamos em ser cabeças de raposas, desde que isso nos poupe a humildade de ser caudas de leões?

Jesus, o legítimo herdeiro do trono, age de modo oposto ao que esperaríamos. Ele não se impõe; se oferece. Não ameaça; serve. Não corre atrás do poder; caminha em obediência. E justamente por isso, Ele é livre. Herodes não pode apressar seu fim. Roma não pode frustrar sua missão. Nem mesmo a morte pode vencê-lo antes da hora. “Hoje e amanhã”, diz Ele, “faço o que vim fazer.” Não há arrogância nisso, apenas autoridade verdadeira.

Há algo profundamente libertador nessa postura. Jesus nos ensina que a fidelidade é mais poderosa que a força, e que a verdade, mesmo dita com suavidade, expõe toda pretensão. Ele não precisa provar que Herodes é uma raposa. Basta nomeá-lo. A luz, quando acesa, não precisa discutir com a escuridão.

Mas essa mesma luz se volta para nós. Ler essa passagem sem contexto é arriscado; ela vira pretexto para mal-entendidos. Com contexto, porém, ela se torna espelho. Obriga-nos a perguntar: onde estamos vivendo de aparência? Onde confundimos influência com legitimidade? Onde usamos o “pelo” da religiosidade para encobrir a falta de peso interior?

Crer em Jesus não é apenas admirar sua coragem diante de Herodes. É permitir que Ele redefina nossos critérios de grandeza. É aceitar que, no Reino de D-us, leões não rugem por autopromoção, e raposas não impressionam ninguém. O que conta é a verdade do coração, a retidão do caminho, a fidelidade silenciosa ao chamado.

Talvez, ao final, o maior escândalo dessa frase não seja Jesus chamar Herodes de raposa, mas o fato de Ele fazê-lo sem medo. Não porque fosse imprudente, mas porque sabia quem era, e quem Herodes não era. Essa segurança não vinha da política, nem da popularidade, nem da força. Vinha da convicção de estar alinhado com o propósito do Pai.

E isso, se formos honestos, é o convite mais desafiador de todos. Viver de tal modo que as raposas não nos intimidem, os leões falsos não nos impressionem, e a verdade de D-us seja suficiente para sustentar cada passo. Porque, no fim, o Reino não pertence aos que parecem grandes, mas aos que são fiéis.

E Jesus continua dizendo, ainda hoje: “Vão e digam àquela raposa…”, não para que temamos o poder, mas para que aprendamos a reconhecê-lo quando ele é apenas uma sombra bem penteada.

Adivalter Sfalsin

Levíticos faz sentido?

Levítico faz algum sentido?

A palavra sacrifício sofreu, ao longo do tempo, um curioso empobrecimento. Na linguagem comum, passou a significar quase exclusivamente perda: abdicar de algo bom para evitar algo pior, ou sofrer agora em troca de algum benefício futuro. É uma palavra associada a esforço, dor e, muitas vezes, ressentimento. Quando alguém diz “fiz um sacrifício”, geralmente quer dizer “paguei um preço que preferia não pagar”.

Entretanto, essa não é a gramática moral da Bíblia. O sistema sacrificial do Antigo Testamento não nasce da lógica da perda, mas da lógica da aproximação. O termo hebraico korban não descreve algo que é simplesmente destruído, mas algo que é trazido para perto. Sacrificar, nesse contexto, não é afastar-se da vida, mas aprender a se aproximar de D-us de maneira ordenada, consciente e responsável.

Essa constatação muda tudo. Ela nos impede de ler Levítico como um manual arcaico de rituais sangrentos e nos obriga a enxergá-lo como aquilo que realmente é: uma pedagogia espiritual cuidadosamente construída. Os cinco sacrifícios não são redundantes, nem arbitrários. Cada um responde a um tipo específico de desordem humana, e juntos formam um caminho, quase uma escada, de restauração e comunhão.

O primeiro grande erro moderno ao lidar com esse sistema é imaginar que todo sacrifício existe para lidar com pecado. Não é verdade. Alguns lidam com culpa, outros com dano, outros com gratidão, outros com consagração. Confundir tudo isso é como tratar todas as doenças com o mesmo remédio. A Torá é mais sutil do que isso.

A Chatat, geralmente traduzida como “oferta pelo pecado”, lida sobretudo com pecados cometidos por erro, descuido ou ignorância. O ponto central aqui não é a punição do indivíduo, mas a purificação do espaço sagrado. O pecado, na visão bíblica, não é apenas uma infração legal; é uma força contaminante. Ele desorganiza, polui, distorce. O sangue da Chatat não “compra” perdão, mas purifica aquilo que foi afetado pela falha humana. Trata-se menos de pagar uma dívida e mais de restaurar uma ordem.

Já a Asham, a oferta pela culpa, nos conduz a um território muito mais desconfortável: o da reparação. Aqui lidamos com pecados intencionais que causaram dano objetivo, roubo, fraude, mentira, abuso do que é sagrado. E o princípio é inescapável: arrependimento sem restituição é incompleto. Não basta confessar; é preciso devolver. Onde houve prejuízo real, a espiritualidade que ignora o conserto concreto do erro é uma espiritualidade vazia. A Asham nos lembra que D-us leva a sério tanto o coração quanto as consequências práticas do pecado.

Esse ponto é profundamente relevante para o mundo contemporâneo. Vivemos numa cultura que valoriza o discurso do arrependimento, mas frequentemente rejeita o custo da reparação. Queremos absolvição sem responsabilidade, reconciliação sem justiça. A Torá não permite esse atalho. Ela insiste que a restauração moral passa pelo enfrentamento honesto do dano causado.

Mas nem tudo no sistema sacrificial gira em torno de falhas. A ʿOlah, o holocausto, não é oferecida para corrigir um erro específico. Ela simboliza algo mais radical: a entrega total. Tudo sobe ao altar; nada é retido. A ʿOlah reorienta a vida inteira do adorador diante de D-us. É o reconhecimento de que o problema humano não é apenas que fazemos coisas erradas, mas que muitas vezes vivemos com o centro errado. Antes de lidar com atos isolados, é preciso alinhar a direção da existência.

A Minḥah, por sua vez, leva essa consagração ao território do cotidiano. Farinha, azeite, sal, elementos comuns, frutos do trabalho humano. Não há sangue aqui. O que se oferece é o ordinário. A mensagem é clara: a vida diária também pertence a D-us. O trabalho, o sustento, o esforço silencioso de cada dia não são espiritualmente neutros. Talvez esse seja um dos sacrifícios mais difíceis para o ser humano moderno, que facilmente entrega a D-us momentos extraordinários, mas resiste em consagrar a rotina.

E então chegamos à Shelamim, a oferta de comunhão. Diferente das outras, ela culmina numa refeição compartilhada. Parte vai ao altar, parte aos sacerdotes, parte ao ofertante e sua família. Aqui não há correção de erro, mas celebração de uma relação restaurada. Shalom não significa apenas ausência de conflito, mas inteireza, harmonia, plenitude. A Shelamim é o ponto de chegada, não o ponto de partida. Comunhão verdadeira pressupõe ordem restaurada.

Essa progressão revela algo fundamental: a Bíblia nunca apresentou o sacrifício como um mecanismo mágico. Não se trata de apertar os botões certos para obter um resultado automático. Por isso, a Torá faz distinções cuidadosas entre tipos de pecado. Há pecados cometidos por fraqueza, outros por descuido, outros ainda de forma intencional, mas com arrependimento. E há o pecado chamado de “mão alta”: rebelião consciente, desafiante e persistente contra D-us. Para esse, não havia sacrifício.

Isso não significa que D-us fosse menos gracioso no Antigo Testamento. Significa, antes, que o sacrifício sempre pressupôs um coração disposto a retornar. Onde não há arrependimento, o ritual perde sentido. Nenhuma liturgia é capaz de substituir um coração que se recusa a se submeter.

Essa lógica prepara o terreno para o Novo Testamento. A obra de Cristo não surge como uma ruptura arbitrária, mas como o cumprimento pleno de tudo aquilo que o sistema sacrificial ensinava. Nele, vemos a purificação da consciência (Chatat), a reparação do dano causado pelo pecado humano (Asham), a entrega total ao Pai (ʿOlah), a santificação da vida inteira (Minḥah) e o estabelecimento da paz entre D-us e a humanidade (Shelamim).

Por isso, a cruz não é um “atalho barato”. Ela não elimina a seriedade do pecado; ela a aprofunda. Mas também não reduz a fé a medo ou barganha. O sacrifício, agora, é deslocado do altar para a existência. Não oferecemos mais animais, mas somos chamados a oferecer a nós mesmos, de forma consciente, responsável e grata.

O sacrifício hoje não é manipulação religiosa, nem moeda de troca com D-us. É a vida vivida à luz da graça: um coração que reconhece seus limites, repara o que pode ser reparado, submete sua vontade e aprende a transformar o cotidiano em adoração. Como sempre foi, D-us não busca cinzas no altar, mas verdade no íntimo.

Nesse sentido, os cinco sacrifícios do Antigo Testamento não são relíquias obsoletas. São espelhos. Eles nos perguntam, ainda hoje, se queremos apenas aliviar a culpa, ou se estamos dispostos, de fato, a nos aproximar.  

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.”

(Mateus 5:20)

Essa afirmação de Jesus pode parecer desconcertante, especialmente à primeira leitura. Os escribas e fariseus eram vistos como os mais zelosos cumpridores da Lei. Se nem eles seriam aceitos no reino dos céus, que esperança teriam os demais?

Será que Jesus está exigindo uma religiosidade ainda mais rigorosa? Mais regras? Mais perfeição moral?

Essa é uma interpretação comum, mas levanta sérias tensões com outros ensinamentos fundamentais do Novo Testamento, que afirmam que a salvação é pela graça, e não por mérito (Efésios 2:8-9).

Como, então, devemos entender essa declaração?

A resposta está na compreensão do significado original da palavra “justiça” e na expressão “reino dos céus”.

No hebraico bíblico, o termo tsedakah significava, de forma ampla, retidão, salvação e o agir fiel de D-us. Era um conceito associado não apenas à conduta humana, mas à própria intervenção salvadora de D-us em favor do seu povo.

Contudo, nos dias de Jesus, o significado de tsedakah passou a incluir também um sentido mais específico e prático: caridade ou generosidade para com os pobres. Entre os fariseus, três práticas eram vistas como pilares da vida piedosa: oração, jejum e generosidade. Dentre essas, a generosidade tornou-se, em muitos círculos, a mais importante, pois era considerada uma expressão tangível do relacionamento com D-us.

Assim, quando Jesus diz que nossa “justiça” deve exceder a dos escribas e fariseus, ele está utilizando um jogo de palavras que sua audiência entendia perfeitamente.

Em Mateus 5:20, Jesus parece usar os dois sentidos da palavra tsedakah de forma intencional:

“Porque vos digo que, se a vossa tsedakah (generosidade) não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus (tsedakah como salvação).”

Em outras palavras, Jesus está dizendo: Se vocês confiarem apenas na generosidade visível, na religiosidade exterior, como forma de obter aceitação diante de D-us, jamais entrarão no reino. A verdadeira justiça não nasce da performance, mas da confiança na salvação que vem do próprio Senhor.

Essa justiça que “excede” é aquela que vem da fé, e não das obras, como bem enfatizou o apóstolo Paulo:

“Porquanto, não conhecendo a justiça de D-us, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de D-us.”

(Romanos 10:3)

Outro elemento fundamental para compreender essa passagem é o que Jesus quer dizer por “reino dos céus”. Em Mateus, essa expressão é usada para designar o movimento iniciado por Jesus, composto por seus discípulos e seguidores, aqueles que vivem sob o reinado de D-us aqui e agora. Entrar no “reino dos céus”, portanto, não significa simplesmente “ir para o céu” após a morte, mas tornar-se parte do povo que vive sob os princípios e a autoridade do Messias.

Dessa forma, podemos parafrasear Mateus 5:20 da seguinte forma:

“Se a sua generosidade, se o seu modo de viver, não for mais profundo do que o exibido pelos fariseus, se não estiver fundamentado na confiança na salvação de D-us, vocês não poderão fazer parte do meu reino e experimentar a verdadeira justiça do Senhor.”Jesus não está pedindo mais religiosidade. Ele está convidando para um tipo completamente diferente de justiça: aquela que nasce da graça, se expressa na fé, e se manifesta em uma vida transformada.A justiça dos fariseus era visível, admirada, meticulosa, mas também era muitas vezes vazia de misericórdia e confiança real em D-us. Eles praticavam a tsedakah da generosidade, mas ignoravam a tsedakah que vem de D-us. A verdadeira justiça, segundo Jesus, é fruto de um coração rendido, humilde, que sabe que não pode se salvar, mas que é movido a amar e servir porque foi alcançado pela misericórdia divina. Essa mensagem continua relevante. Ainda hoje, é fácil cair na tentação de pensar que podemos “compensar” nossas falhas com boas obras, ou que merecemos o favor de D-us por sermos “bons cristãos”.

Mas o evangelho nos lembra: não somos salvos porque fazemos o bem. Fazemos o bem porque fomos salvos. A graça de D-us é o ponto de partida, e não a recompensa final. A justiça que excede é aquela que nasce do encontro com Jesus, que nos transforma de dentro para fora, e nos convida a confiar menos em nós mesmos e mais na bondade de D-us. Quando Jesus diz que nossa justiça deve exceder a dos fariseus, Ele não está propondo uma nova escada para o céu. Está nos chamando para descer do nosso orgulho, abandonar as aparências e confiar na justiça que só Ele pode nos dar.

Essa é a justiça que nos faz parte do reino. Essa é a justiça que salva. Essa é a justiça que transforma.

Adivalter Sfalsin

Olho Bom Olho Mau

Olho Bom, Olho Mau

Entendendo as palavras difíceis de Jesus

Há palavras de Jesus que nos inquietam justamente porque parecem simples demais. Lemos, assentimos, seguimos adiante e só mais tarde percebemos que talvez não as tenhamos entendido de fato. O Sermão da Montanha é repleto desse tipo de afirmação: frases curtas, imagens cotidianas, mas carregadas de um peso moral que atravessa séculos.

Registrado em Mateus capítulos 5 a 7 e preservado de forma fragmentada em Lucas, o Sermão da Montanha não é um conjunto de ideais abstratos, nem um código ético inalcançável. Ele descreve como vive e como vê aquele que caminha sob o Reino de D-us. Trata-se menos de discursos espirituais elevados e mais de uma reeducação do olhar.

Ao lermos esse sermão, uma pergunta inevitável surge: será que ainda compreendemos o significado original das palavras de Jesus? A resposta, com toda honestidade, tende a ser negativa. Não por falta de fé, mas por causa da distância cultural e linguística que nos separa do texto.

O pensamento de Jesus foi concebido em hebraico, expresso em um ambiente judaico saturado das Escrituras, depois traduzido para o grego, passou pelo latim e, por fim, chegou às línguas modernas. Nesse longo percurso, especialmente as frases idiomáticas perderam parte de sua força original. Elas continuam corretas gramaticalmente, mas empobrecidas em significado.

Uma dessas expressões é a famosa declaração de Mateus 6:22–23:

“A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz;

se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso.

Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!”

Lida fora de seu contexto hebraico, essa passagem frequentemente é interpretada como algo místico, psicológico ou simbólico demais, como se Jesus estivesse falando de pensamentos positivos, percepção espiritual interior ou visão da alma. Contudo, nada disso estaria na mente de seus ouvintes originais.

Para um judeu do primeiro século, a expressão “olho bom” e “olho mau” não descrevia visão literal nem introspecção espiritual, mas sim uma postura moral diante da vida, especialmente em relação ao dinheiro, aos bens e ao próximo.

A chave para essa compreensão está no Tanakh, particularmente no livro de Provérbios, texto que os ouvintes de Jesus tinham profundamente internalizado.

“O que vê com bons olhos será abençoado, porque dá do seu pão ao pobre.”

(Provérbios 22:9)

Aqui, o “bom olho” é claramente associado à generosidade. Ver é agir. O olhar correto produz uma resposta correta.

O contraste aparece de forma igualmente clara:

“Não comas o pão daquele que tem o olhar maligno (olho mau), nem cobices as suas iguarias.”

(Provérbios 23:6)

E ainda:

“O que quer enriquecer depressa é homem de olho maligno (olho mau), mas não sabe que a pobreza há de vir sobre ele.”

(Provérbios 28:22)

O “olho mau” é a avareza, a mesquinhez, o desejo de reter para si mesmo. Não se trata de visão física, mas da disposição do coração. Até hoje, em hebraico moderno, chamar alguém de dono de um bom olho é elogiá-lo como alguém generoso; o olho mau permanece como sinônimo de egoísmo.

Com essa chave em mãos, o ensino de Jesus deixa de ser enigmático.

Observe a estrutura do texto em Mateus 6:

“Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.” (verso 21)

“A candeia do corpo são os olhos…” (versos 22 e 23)

“Ninguém pode servir a dois senhores… Não podeis servir a D-us e a Mamom.” (verso 24)

A passagem do olho bom e do olho mau está exatamente no centro. Ela não é um pensamento solto, mas a ponte que conecta tudo. Jesus começa falando do tesouro, termina falando de senhores, e no meio revela o critério moral que governa ambos.

O assunto é claro: nossa relação com o dinheiro, com os bens materiais e com o próximo.

A luz que ilumina todo o corpo não é conhecimento, nem espiritualidade abstrata. É a generosidade. As trevas que consomem o interior não são ignorância, mas a avareza disfarçada de prudência, sucesso ou até bênção.

E aqui Jesus oferece um contraste radical com a mentalidade moderna e com muitas pregações contemporâneas centradas na prosperidade individual. Ele não ensina que a bênção material é um fim em si mesma, mas que ela cria um dever social. Ser abençoado é tornar-se responsável.

O Reino de D-us, segundo Jesus, não gira em torno do ter, mas do dar. Não se mede pelo acúmulo, mas pela liberdade em repartir. Não se manifesta pelo discurso, mas pelo olhar treinado para enxergar o outro.

No fim, o olho bom é um diagnóstico espiritual simples e implacável. Ele revela a quem servimos, onde está nosso coração e que tipo de luz realmente habita em nós.

E se a luz que julgamos possuir produz trevas ao nosso redor, então, como o próprio Jesus advertiu, quão grandes são essas trevas.

Adivalter Sfalsin