Quem Dera

O Único Mandamento Que D-us Não Deu

Reflexões sobre Deuteronômio 5:22–33

“Quem dera que eles sempre tivessem este coração para Me temer e guardar todos os Meus mandamentos, para que tudo lhes corresse bem, a eles e a seus filhos, para sempre!”
— Deuteronômio 5:29

Há uma frase estranha escondida no relato do Sinai. Estranha não tanto pelo que diz, mas pelo modo como é dita. Tudo ao redor está no imperativo. Dez palavras pronunciadas com autoridade absoluta. Fogo sobre a montanha. Trovões. Um povo recuando de medo e suplicando que Moisés escute em seu lugar. A cena inteira parece construída com a gramática do comando.

Então, de repente, a voz muda.:

D-us não diz: “Fareis.”
Não diz: “Guardarás.”
Diz: “Quem dera.”

É fácil passar depressa por essas palavras, como se fossem apenas uma expressão piedosa, um suspiro divino colocado entre dois mandamentos. Mas um suspiro na boca do Todo-Poderoso deveria ser suficiente para nos fazer parar. A leitura mais imediata é também a mais reconfortante: D-us lamenta a inconstância humana. Ele contempla um povo tomado de temor naquele momento, sabendo que em breve esse mesmo povo irá falhar. Assim, extraímos do texto uma lição sobre perseverança, sobre não depender de emoções passageiras, sobre conservar a chama depois que a montanha esfria.

Tudo isso é verdadeiro. Mas talvez não seja ainda o centro da questão. Porque o versículo não fala apenas daquilo que o ser humano é incapaz de fazer. Ele revela algo que D-us, embora tenha poder para fazer, escolhe não tomar à força.

Quem dará?

A expressão hebraica traduzida como “quem dera” é mi yitten: literalmente, “quem dará?”. É a linguagem do anseio nas Escrituras. É a voz de Jó durante as suas noites, de Moisés cansado no deserto, de David chorando por Absalão. Mi yitten não é a expressão de quem simplesmente dá uma ordem. É a linguagem de quem deseja algo que não pode ser recebido pela força sem que, no mesmo instante, deixe de ser aquilo que se desejava. E é essa expressão que HaShem escolhe no mesmo capítulo em que a Sua voz faz o povo tremer. Existe ainda um detalhe que as traduções dificilmente conseguem preservar. O texto diz levavam zeh: “este coração deles”. O demonstrativo aponta para algo presente, quase como um dedo estendido. D-us não está descrevendo um coração ideal, pertencente a alguma humanidade futura e aperfeiçoada. Ele aponta para o coração que batia ali, naquele instante, ainda aquecido pelo temor daquele dia, e diz:

“Este. Quem dera que este coração permanecesse.”

A palavra usada é levav, escrita com dois bêts. A tradição judaica ouviu nessa forma uma referência ao coração dividido, ao coração que abriga dentro de si duas inclinações, cada uma puxando para um lado diferente. Isso torna o desejo divino ainda mais surpreendente. D-us não está pedindo um coração sem conflitos. Ele deseja um coração dividido que continue escolhendo.

Talvez seja justamente aqui que toda a passagem se abra.

D-us pode ordenar a mão, a boca e os pés. Pode ordenar o Shabat, o dízimo e o descanso da terra. Pode dizer ao ser humano o que deve fazer e o que deve evitar. Mas a permanência do coração pertence a outra categoria. Ela deixa de ser permanência no momento em que é imposta.

Um coração obrigado a permanecer não permaneceu. Foi apenas mantido no lugar.

E uma coisa mantida no lugar não é necessariamente fiel. Uma pedra também permanece onde foi colocada, mas ninguém elogia uma pedra pela sua lealdade.

Por isso, exatamente nesse ponto, o Legislador troca o imperativo pelo anseio. Isso não é impotência. É respeito pela natureza daquilo que Ele deseja. O amor pode ser ordenado como vocação, mas não pode ser produzido como se produz obediência exterior. Se for arrancado à força, já não será amor.

Talvez por isso o versículo seguinte fale de caminho, e não de salto:

“Andareis em todo o caminho…”
— Deuteronômio 5:33

Halach: andar.

Um verbo vagaroso, feito de passos repetidos. Passos comuns, quase sempre invisíveis, que não possuem o esplendor do fogo no Sinai. Afinal, é fácil tremer quando a montanha está em chamas. O difícil é caminhar quando o céu volta a parecer comum.

A Torá, porém, não deixa esse desejo suspenso no ar.

Vinte e cinco capítulos depois, já perto do fim do mesmo livro, Moisés retorna à palavra “coração” e faz uma promessa espantosa:

“HaShem, teu D-us, circuncidará o teu coração e o coração da tua descendência, para amares a HaShem, teu D-us, de todo o teu coração.”
— Deuteronômio 30:6

É a milat halev, a circuncisão do coração.

Aquilo que D-us desejou no capítulo cinco, Ele anuncia que realizará no capítulo trinta. O suspiro transforma-se em promessa. O anseio torna-se compromisso.

Há aqui um paradoxo que não devemos resolver depressa demais. D-us não força o coração a amá-Lo, mas também não abandona o coração à sua própria incapacidade. Ele não o arrasta como quem arrasta um prisioneiro, nem o observa de longe como um espectador indiferente. Ele faz algo mais profundo: transforma-o de tal maneira que o coração possa finalmente desejar aquilo para o qual foi criado.

Os profetas recebem essa linha e a levam adiante por meio de uma imagem material.

Jeremias fala de uma nova aliança, uma Brit Chadashá:

“Porei a Minha Torá no interior deles e a escreverei no coração deles.”
— Jeremias 31:33

Ezequiel torna a imagem ainda mais concreta:

“Tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne.”
— Ezequiel 36:26

A ironia é bela demais para ser acidental.

Poucos versículos antes do “quem dera”, Deuteronômio registra que D-us escreveu as dez palavras “em duas tábuas de pedra” (5:22). A pedra é um ótimo material para conservar uma inscrição. Ela pode guardar a palavra durante séculos.

Mas não pode amá-la.

A pedra preserva perfeitamente aquilo que jamais será capaz de obedecer.

O que os profetas anunciam, portanto, não é uma Torá diferente. É a mesma Torá escrita em outro material. O problema nunca esteve na palavra gravada, mas na superfície que a recebia. Era necessário que a inscrição deixasse de estar apenas diante do ser humano e passasse a existir dentro dele.

Séculos depois, durante uma noite de Páscoa em Jerusalém, Yeshua — Jesus, o judeu do primeiro século que de fato era — ergue a taça diante dos Seus discípulos e declara:

“Este cálice é a nova aliança no Meu sangue.”
— Lucas 22:20

Ele não inventa a expressão. Ele evoca Jeremias, e todos os que estavam à mesa conheciam o eco.

Mais tarde, escrevendo a uma comunidade confusa em Corinto, Paulo fecha o círculo:

“Vós sois carta… escrita não com tinta, mas pelo Espírito do D-us vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações.”
— 2 Coríntios 3:3

Sinai e Ezequiel encontram-se na mesma frase. A pedra e a carne. O mandamento exterior e o coração transformado. O desejo pronunciado no Sinai começa a encontrar a sua resposta.

Nossa época possui uma dificuldade particular para compreender isso, porque aprendemos a tratar a permanência como técnica.

Temos aplicativos que contam sequências de dias, metas de leitura, promessas de janeiro, tabelas, métodos e sistemas destinados a nos transformar em pessoas melhores. Nada disso é necessariamente ruim. A disciplina tem o seu lugar, e seria tolice desprezar instrumentos úteis simplesmente porque não podem realizar milagres.

O problema começa quando pedimos à técnica que faça o trabalho da transformação.

Existe uma diferença silenciosa entre disciplinar um comportamento e receber um coração novo. Podemos ensinar o corpo a repetir uma ação. Podemos organizar as horas, remover distrações e construir hábitos. Mas nenhuma dessas coisas, por si só, consegue produzir amor.

Quando confundimos as duas, surge um tipo particular de cansaço: o cansaço de quem vive permanentemente endividado com a sua versão mais inspirada. O homem de hoje é assombrado não apenas pelos seus pecados, mas também por todos os planos perfeitos que fez numa segunda-feira e abandonou antes do fim da semana.

O que resta da cena do Sinai, portanto, é menos uma exortação do que um convite ainda aberto.

D-us viu um coração que poderia ter fixado com uma palavra, mas escolheu desejá-lo. Porque uma ordem exige obediência; um desejo espera resposta. E aquilo que espera uma resposta concede ao outro a terrível e magnífica dignidade de poder oferecê-la.

Talvez a pergunta final não seja se conseguiremos permanecer por nossa própria força. A essa pergunta, a experiência humana já respondeu muitas vezes.

Talvez a verdadeira pergunta seja outra:

Alguma vez pedimos a Ele o coração que Ele mesmo confessou desejar nos dar?

Adivalter Sfalsin

Emunah 2

Você Crê em D-us?

Por que a geração que viu o mar se abrir ainda foi acusada de incredulidade

Reflexões sobre Devarim (Deuteronômio) 1:19-33, com Shemot (Êxodo) 4, 14 e 19

“E nem assim confiastes no SENHOR vosso D-us.” (Deuteronômio 1:32)

Há uma frase no primeiro capítulo de Deuteronômio que deveria nos deter no meio do caminho, e quase nunca detém. Moisés, de pé nas planícies de Moabe, olha para trás sobre quarenta anos e nomeia o crime que custou a uma geração inteira a entrada na terra. Não foi idolatria. Não foi rebelião. Foi incredulidade. O que faltou a eles foi אֱמוּנָה, emunah (fé, fidelidade).

Agora repare com quem ele está falando. São as pessoas que viram o Egito se desfazer praga após praga. Caminharam entre paredes de água. Comeram um pão que aparecia no chão todas as manhãs como geada. Estiveram diante de uma montanha que ardia e tremia enquanto uma voz saía dela. E Moisés lhes diz que não creram em D-us?

Se crer significa acreditar que D-us existe, a acusação é um absurdo. Não havia um único ateu naquele acampamento. Fosse o que fosse que eles tivessem perdido, não era a convicção de que D-us estava ali. Logo, a palavra precisa significar outra coisa, e essa outra coisa é exatamente o ponto em que a maioria de nós errou silenciosamente a vida inteira.

O hebraico nos ajuda. Emunah vem da raiz אמן, aman, e a Torá usa essa palavra num lugar que nada tem a ver com sentimento religioso. Durante a batalha contra Amaleque, Moisés ergue as mãos, cansa, e Aarão e Hur sustentam seus braços firmes. O texto diz que suas mãos permaneceram emunah até o pôr do sol (Êxodo 17:12). Firmes. Confiáveis. Sem vacilar. A palavra não descreve uma opinião a respeito de D-us. Descreve uma qualidade de sustentação.

Tire essa palavra do mundo dos braços e coloque-a no mundo das pessoas e você terá algo muito mais exigente que uma concordância. Emunah é a firmeza de quem apoia todo o seu peso em outro. É confiança com o corpo dentro. E foi precisamente isso que aquela geração se recusou a fazer. Chegaram à fronteira da terra, olharam para os gigantes e se recusaram a se apoiar.

Aqui está o que merece nossa atenção. Quando Moisés faz a acusação, ele não exige um salto no escuro. Ele argumenta. Ele aponta evidências. O SENHOR vosso D-us, que vai adiante de vós, ele pelejará por vós, conforme tudo o que fez convosco no Egito, diante dos vossos olhos; e no deserto, onde vistes que o SENHOR vosso D-us vos levou, como um homem leva seu filho (Deuteronômio 1:30-31). Ou seja: vocês tinham fundamento. Vocês tinham todas as razões. É isso que torna a recusa culpável. A fé, na boca de Moisés, não é uma virtude que flutua solta, sem razões. É o que uma pessoa razoável faz com as razões que já possui.

E a própria Torá constrói essas razões diante dos nossos olhos. A palavra emunah aparece três vezes na narrativa do Êxodo, e cada aparição marca uma descoberta diferente, como se a fé estivesse sendo montada peça por peça, na ordem exata em que uma pessoa precisaria delas.

A primeira está no início de tudo. Moisés chega aos anciãos com os sinais, e o povo creu, porque o SENHOR havia visitado os filhos de Israel e havia visto a sua aflição (Êxodo 4:31). Esse é o primeiro pilar, e ele é o amor. Antes de eu poder confiar em você, preciso saber que você me vê. Que o meu sofrimento registra alguma coisa em você. Que eu não sou um arredondamento estatístico no seu universo. Um D-us que existe mas não se importa é um D-us sobre o qual ninguém em sã consciência apoiaria o peso.

A segunda vem no mar. As águas se fecham sobre os carros de guerra e o povo creu no SENHOR e em Moisés, seu servo(Êxodo 14:31). Isso é poder. Importar-se não basta. Já conheci pessoas que me amavam sinceramente e não podiam fazer absolutamente nada por mim, e aquele amor, por mais real que fosse, não era algo em que eu pudesse me apoiar. Compaixão sem capacidade é um amigo num velório. Necessária, e insuficiente.

A terceira acontece no Sinai, e é a que esquecemos. D-us diz a Moisés que virá numa nuvem espessa para que o povo o ouça falando, e assim creiam em ti para sempre (Êxodo 19:9). O que ficou provado ali? Que o abismo podia ser atravessado. Que um D-us absolutamente diferente de nós, invisível, intocável, podia de fato se fazer entender por um homem, e um homem podia de fato entendê-lo. Chame esse terceiro pilar de compreensão. Porque eu posso saber que você me ama, e saber que você é forte, e ainda assim recuar se suspeitar que você não capta de verdade aquilo de que eu preciso. Amor, poder, compreensão. Retire um dos três e a confiança se torna irracional. Coloque os três de pé e a confiança se torna razoável, mas não se torna automática.

E aqui está a parte difícil, que nenhuma quantidade de evidência elimina. Mesmo com os três pilares erguidos, o ato de apoiar-se continua sendo um ato. Ele custa alguma coisa. Colocar o seu destino nas mãos de outro é perder o controle, e perder o controle se parece desconfortavelmente com perder a si mesmo. É sempre mais fácil permanecer onde se está e chamar isso de prudência. A geração dos espias olhou para a terra e preferiu o Egito, porque o Egito era uma miséria que eles já sabiam como sobreviver.

Agora observe o que veio em seguida, porque é a coisa mais arrepiante de todo o relato. Tendo recusado, eles precisaram explicar a recusa a si mesmos. E em vez de dizer a coisa honesta, que estavam com medo, disseram isto: Porquanto o SENHOR nos odeia, tirou-nos da terra do Egito, para nos entregar nas mãos dos amorreus, para nos destruir(Deuteronômio 1:27). Eles não apenas deixaram de confiar. Eles demoliram o primeiro pilar. Reescreveram cada bondade que já haviam recebido como prova de ódio. É isso que a covardia faz quando não admite o próprio nome. Ela volta ao registro do passado e edita fora o amor.

Repare no que de fato disparou o colapso. Não foi uma derrota. Foi uma espera. Quarenta dias de silêncio enquanto os espias estavam fora, e nesse intervalo o povo teve que sustentar uma conclusão sobre o caráter de D-us sem que nada de novo chegasse para confirmá-la. A demora é o verdadeiro laboratório da emunah, porque os três pilares são todos provados no passado, e a espera acontece sempre no presente.

E é exatamente sobre esse intervalo que Yeshua (Jesus) constrói uma de suas parábolas mais desconfortáveis. Ele fala de uma viúva que procura um juiz para obter justiça, e de um juiz que não teme a D-us nem respeita ninguém. Vale a pena reparar em quem é esse juiz à luz dos três pilares. Ele não tem amor, porque o texto diz expressamente que não se importa. Não tem compreensão, porque nunca escuta o caso dela de verdade. Tem apenas poder, e é a única coisa que tem. Um pilar de três. E ainda assim, à força de insistência, a viúva consegue o que pede. Então Yeshua vira o argumento do menor para o maior: se até um homem assim acaba fazendo justiça, o que dizer daquele que reúne os três? E não fará D-us justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam de dia e de noite? (Lucas 18:7).

A viúva é a figura da emunah porque ela sustenta o peso durante o intervalo. Ela não recebeu nenhuma evidência nova. Ninguém lhe disse que a coisa daria certo. Ela apenas continuou apoiando-se naquilo que já sabia, dia após dia, sem sinal, sem confirmação, sem resposta. As mãos de Moisés erguidas até o pôr do sol e a viúva voltando à porta do juiz pela vigésima vez são a mesma imagem. Firmeza sustentada em pleno silêncio.

E o oposto dela, na parábola, não é o cético. É a pessoa que interpreta a demora como veredito. Que raciocina, com toda a calma, que se a resposta não veio é porque o juiz não se importa. Aí está a antiga sentença voltando com voz moderna. Porquanto o SENHOR nos odeia. É o pilar do amor sendo derrubado para que uma indisposição pareça uma percepção lúcida. Foi assim que a geração do deserto perdeu a terra, e é assim, ainda hoje, que se perde a confiança durante uma espera.

É por isso que Yeshua encerra a parábola não com uma promessa, mas com uma pergunta suspensa no ar: Contudo, quando vier o Filho do Homem, encontrará fé sobre a terra? (Lucas 18:8). A palavra grega ali é πίστις, pistis, a mesma que os tradutores gregos da Torá usaram para verter emunah. Ele não está perguntando se as pessoas ainda acreditarão que D-us existe. Crença na existência de D-us nunca esteve em falta. Ele está perguntando se alguém ainda estará apoiando o peso quando a resposta demorar a chegar.

Os três pilares, é claro, se reúnem num único lugar nos evangelhos. Yeshua chora diante de um túmulo, e isso é amor. Chama o morto para fora dele, e isso é poder. É chamado o Verbo que se fez carne, a própria expressão de D-us armando sua tenda entre nós, e isso é compreensão. Todas as razões que alguém poderia pedir, entregues numa única vida. A evidência foi fornecida. O apoiar-se não foi feito em nosso lugar.

Portanto a pergunta não é aquela que costumamos nos fazer quando o assunto da fé aparece numa conversa. A pergunta não é se você acredita que D-us existe. Até a geração que comeu o maná dava conta disso, e não salvou nenhum deles.

Ele perguntou se encontraria fé sobre a terra. Então aqui está a versão menor e muito mais incômoda da pergunta dele. No último silêncio longo pelo qual você passou, quando nada chegava e nada era explicado, você manteve o seu peso onde estava, ou voltou discretamente ao registro da sua vida e começou a editar fora o amor?

Adivalter Sfalsin

O Peso da Palavra

O Peso da Palavra

Por que a Bíblia trata uma promessa quebrada como uma dessacralização, e não como uma simples falha de caráter

Reflexões sobre Números 30:2-32:42

“Quando um homem fizer um voto ao Senhor, ou jurar um juramento, ligando a sua alma com obrigação, não profanará a sua palavra; segundo tudo o que saiu da sua boca, fará.” (Números 30:2)

Israel está acampado nas planícies de Moabe. O censo foi feito, as tribos foram contadas, a guerra é questão de dias, e o leitor espera instruções militares. Estratégia, logística, direito de conquista. Em vez disso, a Bíblia para tudo e legisla sobre palavras ditas em voz baixa, dentro de casa, sem testemunha alguma.

Há uma segunda estranheza, ainda maior, na primeira linha. O texto não usa a fórmula habitual, “fala aos filhos de Israel”. Ele começa assim: וַיְדַבֵּר מֹשֶׁה אֶל רָאשֵׁי הַמַּטּוֹת, vayedaber Moshe el rashei hamatot (e falou Moisés aos chefes das tribos). É a única porção de números que se abre dirigindo-se primeiro aos líderes.

Guarde as duas perguntas, porque o texto só as responderá no fim. Por que aqui, às vésperas da terra? E por que a eles, antes de todos?

A leitura mais imediata do versículo é moral e um pouco entediante: cumpra o que promete, seja um homem de bem. Correto, e quase inútil, porque ignora exatamente aquilo que o hebraico está gritando.

A Bíblia poderia ter escrito שָׁבַר, shavar (quebrar, despedaçar). Seria o verbo natural, e é o verbo que quase todas as traduções acabam usando. Mas o texto diz לֹא יַחֵל דְּבָרוֹ, lo yachel devaro, e o verbo ali é חלל, chalal (profanar, dessacralizar, tornar comum o que era santo). É o verbo do Shabat profanado em Shemot (Êxodo) 31:14, do santuário profanado, do Nome profanado em Vayikrá (Levítico) 22:32. É o termo técnico para arrastar o sagrado até o terreno do banal.

E aqui está o ponto que muda tudo. Ninguém profana o que já era comum. O verbo carrega uma premissa escondida, e a premissa é mais audaciosa do que o mandamento: antes de ordenar qualquer coisa, o versículo afirma que a tua palavra é santa.

É essa afirmação, e não a ordem, que precisa ser explicada. Duas perguntas, portanto, e nesta ordem. Em que sentido a palavra de um homem poderia ser santa? E o que exatamente se perde quando ela cai?

Uma palavra pode ser santa?

A Bíblia poderia ter começado descrevendo D-us modelando montanhas e acendendo estrelas. Começa com uma voz. וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים, vayomer Elohim (e disse D-us). Nas cosmogonias vizinhas, criar é vencer: o mundo nasce de um cadáver esquartejado, de um combate, de deuses que se sobrepõem uns aos outros. Na Bíblia nada luta, nada resiste, nada negocia. O Criador fala e a realidade responde.

Não é acidente que o hebraico use דָּבָר, davar, tanto para “palavra” quanto para “coisa”. A língua não possui uma expressão para aquilo que seria “apenas uma palavra”. Dizer, no universo bíblico, é um modo de fazer.

E é justamente esse D-us que fala quem cria alguém à Sua imagem. O Targum de Onkelos, a antiga tradução aramaica lida nas sinagogas, percebeu a implicação e fez algo ousado com Bereshit (Gênesis) 2:7. Onde o hebraico diz que o homem se tornou נֶפֶשׁ חַיָּה, nefesh chayah (alma vivente), o Targum traduz: רוּחַ מְמַלְּלָא, ruach memalela (espírito que fala). Não é tradução literal. É uma tese sobre a natureza humana. O que nos separa do animal não é a inteligência. É a fala, e a primeira tarefa dada a Adão confirma: dar nome aos animais, o que na Escritura nunca significa etiquetar, mas ordenar e exercer autoridade delegada.

Só que a semelhança termina onde deveria começar a decepção. Nenhuma frase humana acende uma estrela. E então em que sentido a nossa fala poderia herdar alguma coisa daquela?

A resposta é mais estranha do que parece, e a filosofia moderna levou milênios para formulá-la. J. L. Austin observou que existem frases que não descrevem coisa alguma: elas fazem. Quando o juiz declara “absolvido”, a situação jurídica daquele homem muda naquele instante. Quando duas pessoas sob a Chupá (dossel nupcial) assumem publicamente sua aliança, não estão relatando um casamento, estão passando a estar casadas. Quando alguém diz “eu farei”, algo que não existia dois segundos antes passa a existir: uma obrigação.

Aí está. Não fabricamos estrelas, mas fabricamos deveres, e um dever é tão real quanto uma pedra, com a diferença de que ninguém pode tocá-lo. O ser humano é a única criatura capaz de criar realidade invisível apenas abrindo a boca. Nisso, e não em outra coisa, a sua palavra é parente da Palavra que fez o mundo.

E a Bíblia sabe o preço disso. Números 30 usa três termos técnicos, e o terceiro é o mais revelador: אִסָּר, issar, que as traduções amaciam para “obrigação”, mas que vem do verbo אָסַר, asar (amarrar, atar). A expressão completa é לֶאְסֹר אִסָּר עַל נַפְשׁוֹ, le’esor issar al nafsho, e o sentido bruto é atar uma amarra sobre a própria alma. Como נֶפֶשׁ, nefesh, antes de significar alma, significava garganta, fôlego, o lugar por onde o ar passa, o texto descreve uma corda amarrada em torno do exato órgão com que se fala. Quem promete estrangula voluntariamente uma parte da própria liberdade.

Essa é a primeira resposta. A palavra humana é santa porque cria, e porque criar custa.

Falta a segunda pergunta, e é nela que o versículo se fecha como um mecanismo.

Yeshayahu (Isaías) 55:11 declara: כֵּן יִהְיֶה דְבָרִי אֲשֶׁר יֵצֵא מִפִּי לֹא יָשׁוּב אֵלַי רֵיקָם, ken yihyeh devari asher yetze mipi lo yashuv elai reikam (assim será a minha palavra que sair da minha boca; não voltará para mim vazia). Três elementos: davar, o verbo יָצָא, yatzá (sair), e פֶּה, peh (boca). A palavra sai da boca e chega. Não retorna רֵיקָם, reikam (vazia, de mãos abanando). Essa é a assinatura da fala divina. Não a força, não o volume. A chegada.

Agora releia o final do nosso versículo no hebraico: כְּכֹל הַיֹּצֵא מִפִּיו יַעֲשֶׂה, k’chol hayotzê mipiv ya’asseh (conforme tudo o que sai da sua boca, fará). Os mesmos três elementos, na mesma ordem. A palavra, a saída, a boca.

O que a Bíblia está exigindo, portanto, não é honestidade no sentido cartorial do termo. É imitação. Que a palavra que sai da tua boca se comporte como a que sai da d’Ele, isto é, que percorra a distância entre o dito e o feito, e chegue.

E então a resposta à segunda pergunta se monta sozinha. Se a marca da palavra santa é não voltar vazia, a palavra profanada é precisamente a que voltou vazia. Esvaziada. Oca.

Repare no que o hebraico faz com isso. Da mesma raiz ח־ל־ל vem o substantivo חָלָל, chalal, que significa duas coisas ao mesmo tempo: o oco, o furado, e o cadáver, o traspassado no campo de batalha. Perfurar e esvaziar são, em hebraico, o mesmo gesto. E o leitor não precisa ir longe para ouvir o eco: no capítulo seguinte, na campanha contra Midiã, o texto fala repetidamente dos חַלְלֵיהֶם, chaleleihem (os seus mortos, os traspassados). A mesma raiz, agora com corpos no chão.

Uma promessa quebrada não é uma promessa que se partiu ao meio. É uma promessa que continua de pé, com a forma perfeitamente intacta, e por dentro não tem nada. É o cadáver de uma palavra.

De que é feita uma civilização?

Se tudo isso for verdade, uma consequência inteiramente prática se segue, e é ela que explica por que este capítulo aparece exatamente onde aparece.

Existe um mundo que não podemos tocar e dentro do qual passamos o dia. Você entra num avião porque acredita que o piloto fará o que prometeu. Deposita o dinheiro num banco porque acredita que ele existirá amanhã. Atravessa uma ponte porque supõe que alguém, há vinte anos, fez o seu trabalho direito quando ninguém estava olhando. Retire a confiança e nada disso acontece. A maior riqueza de uma nação não está guardada nos seus cofres. Está no espaço invisível entre os seus cidadãos, e esse espaço é feito de palavras que chegaram.

O hebraico chama isso de אֱמוּנָה, emunah (fidelidade, confiabilidade), e da mesma raiz א־מ־ן vêm outras duas palavras que dizem tudo: אֱמֶת, emet (verdade), e אָמֵן, amen, que repetimos sem pensar e que significa, ao pé da letra, “isto é firme, isto sustenta”. Verdade, em hebraico, não é primeiramente a correspondência exata entre a frase e o fato. O grego pensa assim e chama a verdade de ἀλήθεια, alētheia (o desvelado, o não esquecido), algo que se mostra ao olhar. O hebraico pensa com o corpo. Emet é aquilo em que você se apoia sem cair. É a viga que aguenta o telhado, o degrau que não cede.

É por isso que uma palavra quebrada machuca de um jeito tão particular. Não foi um erro de informação. Foi um degrau que cedeu debaixo do pé de alguém que confiou.

E é por isso, também, que existem apenas três maneiras de organizar seres humanos.

A primeira é a anarquia, e a Bíblia a retrata antes do dilúvio: a terra encheu-se de חָמָס, chamas (violência, rapina). Cada um faz o que quer, ninguém confia em ninguém, e Thomas Hobbes deu ao resultado o nome definitivo, a guerra de todos contra todos.

A segunda é a tirania, e a Bíblia a retrata no Egito. Há ordem, mas não há confiança. Obedece-se por medo, e a espada substitui a consciência. Daí a lei silenciosa que governa todas as nações: quanto menor a confiança, maior o governo. Menos honestidade, mais contratos. Menos palavra, mais tribunais, mais burocracia, mais câmeras. A liberdade encolhe na exata medida em que a confiança evapora.

A terceira é a בְּרִית, berit (aliança), que em hebraico não se assina, se corta: a expressão é כָּרַת בְּרִית, karat berit, e em Genesis 15 os animais são partidos e as partes dispostas no chão, porque passar entre elas equivale a dizer, sem palavras, que eu me torne como estes pedaços se eu quebrar a minha palavra. Homens livres, limitando a si mesmos, porque consideram sagrada a própria fala. É a única forma de convivência que diminui a necessidade de ser governada.

E agora as duas perguntas do início se respondem sozinhas.

Por que aqui, às vésperas da terra? Porque uma conquista feita por um povo cuja palavra não chega não produz uma nação. Produz outro Egito, com bandeiras diferentes. Israel podia tomar cidades sem isto. Não podia construir uma civilização sem isto. Muralhas seguram inimigos, não seguram uma sociedade.

E por que aos chefes das tribos, antes de todos? Porque a profanação da palavra é como a água: corre de cima para baixo. O homem que tem poder para prometer e não cumprir sem sofrer consequência alguma é justamente aquele que ensina a nação inteira que promessas são ornamento. Moisés começa pelo topo porque é do topo que a corrosão desce.

Não é por acaso que Yirmeyahu (Jeremias), ao anunciar a aliança futura, não promete leis novas. Promete o mesmo texto em outro lugar: “porei a minha Bíblia no interior deles e a escreverei em seus corações” (Jeremias 31:33). A melhor sociedade nunca será a que tem mais policiais, e sim a que precisa de menos, não porque abandonou a lei, mas porque a interiorizou.

Por que ainda juramos?

Há um versículo em Vayikrá que raramente é lido ao lado da nossa porção bíblica, e deveria ser. “Balanças justas, pesos justos, efa justa e הִין צֶדֶק, hin tzedek (him justo) tereis” (Levítico 19:36). É legislação sobre comércio: não adultere as medidas, não raspe um grama do peso de bronze.

Os sábios, no Talmud (Bava Metzia 49a), notaram que הִין, hin (uma medida de volume), soa quase igual a הֵן, hen (sim). E leram assim: que o teu sim seja justo, e que o teu não seja justo. No mesmo fôlego em que proíbe a balança viciada, a Bíblia proíbe a palavra viciada. São o mesmo crime, cometido em materiais diferentes. Raspar um grama do peso e raspar um pouco da promessa é a mesma operação.

É exatamente nesse debate que Yeshua (Jesus) entra. No judaísmo do primeiro século, os juramentos haviam se tornado um sistema barroco: jurava-se pelo céu, pela terra, por Jerusalém, pela própria cabeça, cada fórmula com um grau distinto de obrigatoriedade, o que na prática permitia ao homem esperto prometer com uma fórmula fraca e escapar depois. E Ele diz: ἔστω δὲ ὁ λόγος ὑμῶν ναὶ ναί, οὒ οὔ, estō de ho logos hymōn nai nai, ou ou (seja a vossa palavra sim, sim; não, não), acrescentando que o que passa disso, τὸ περισσόν, to perisson (o excedente), vem do maligno (Mateus 5:37).

Ele não está abolindo a Bíblia sobre os votos, que prevê votos santos e juramentos legítimos. Está lendo Levítico 19 como os sábios liam, hen tzedek, e levando essa leitura ao seu destino. O juramento nunca foi o remédio. O juramento é o sintoma.

E o sintoma tem uma lógica econômica implacável. Quando uma moeda perde valor, imprime-se mais. Quando a palavra perde peso, imprimimos mais palavra: juramos pelo céu, pela terra, por Jerusalém, e hoje por contratos de quarenta páginas, cláusulas penais, firmas reconhecidas, testemunhas, termos de uso aceitos sem leitura. A inflação de juramentos é o boletim médico de uma civilização cuja fala adoeceu. O ideal para o qual Números 30 sempre apontou é o do homem cujo caráter é tão conhecido que um “sim” seco pesa tanto quanto um documento lavrado.

E a Bíblia, fiel ao seu método, testa a tese na narrativa imediatamente a seguir. Mal terminam as leis dos votos, aparecem Rúben e Gade pedindo a terra do outro lado do Jordão, e a negociação inteira depende de uma única variável, que não é militar: eles cumprirão a palavra?

Há um detalhe delicioso no hebraico da cena. Eles propõem construir “currais para o nosso gado e cidades para as nossas crianças” (32:16). Moisés concorda, mas responde invertendo a ordem: “edificai cidades para as vossas crianças e currais para as vossas ovelhas” (32:24). Ele não corrigiu o conteúdo. Corrigiu a sequência, porque a ordem em que colocamos as palavras revela a ordem em que colocamos os amores, e um homem que menciona o rebanho antes dos filhos disse mais do que pretendia. E o epílogo vem gerações depois, em Yehoshua (Josué) 22, quando aquelas tribos são dispensadas para casa porque guardaram tudo o que prometeram. Levaram anos. Mas voltaram.

Resta o fundamento último, e sem ele todo o resto seria apenas boa cidadania.

A Bíblia inteira é a história de um D-us que não profana a Sua palavra. A promessa a Abraão, o Êxodo, a preservação de Israel no exílio, a esperança messiânica: o fio que costura as Escrituras é a fidelidade divina, e os profetas só podiam denunciar a nação com aquela ferocidade porque sabiam que Ele jamais abandonaria a aliança. A carta aos Hebreus capta o ponto com precisão quase jurídica ao observar que, não havendo ninguém maior por quem jurar, D-us jurou por Si mesmo (Hebreus 6:13). O fiador é o próprio prometente, o que seria a garantia mais frágil do mundo, se Ele fosse como nós.

A nossa fidelidade, portanto, nunca é a origem da aliança. É uma resposta.

E o Brit Chadashá (Novo Testamento) costura o fio de volta exatamente na raiz que já encontramos. Paulo, defendendo-se da acusação de ser homem de palavra vacilante, escreve que em Yeshua não houve sim e não, porque quantas são as promessas de D-us, nele está o ναί, nai (sim), e por isso, por meio dele, o ἀμήν, amēn (Segunda Carta aos Coríntios 1:19-20). E o Apocalipse lhe dará um título que parece erro de tradução até que se conheça o hebraico: ὁ Ἀμήν, ὁ μάρτυς ὁ πιστός, ho Amēn, ho martys ho pistos (o Amém, a testemunha fiel), em Apocalipse 3:14.

Ele não é apenas alguém que cumpre a Sua palavra. Ele é o Amém de D-us. É a firmeza em pessoa, o degrau que não cede, a emet com rosto. Os discípulos de Yeshua sempre entenderam que o madeiro foi o lugar onde uma palavra dada foi cumprida ao preço máximo, quando teria sido tão simples, e tão humano, deixá-la voltar vazia.

Talvez seja essa a razão pela qual a Bíblia escolheu chalal e não shavar. Os sábios chamam de חִלּוּל הַשֵּׁם, chillul HaShem (profanação do Nome), a mais grave das transgressões, porque não termina na vítima: quando alguém que se diz servo do D-us fiel dá a palavra e não cumpre, o dano sobe. E o oposto, קִדּוּשׁ הַשֵּׁם, kiddush HaShem (santificação do Nome), acontece em lugares muito menos épicos do que imaginamos. Acontece quando alguém aparece na segunda-feira, como havia dito, para terminar um trabalho que ninguém estava fiscalizando.

Vivemos numa época que aprendeu a falar em excesso e a pesar de menos. Prometemos “vamos marcar”, “eu te aviso”, “a gente se fala”, e ninguém espera que aconteça, nem se ofende quando não acontece, porque combinamos em silêncio que essas frases não são palavras, são ruídos educados. E a cada rodada dessa desvalorização precisamos de mais cláusulas, mais provas, mais câmeras, exatamente como uma economia em colapso precisa de notas com mais zeros.

Uma civilização não desmorona primeiro quando os muros caem. Ela começa a ruir quando as suas palavras ficam ocas, e ainda permanece de pé por um tempo, com a forma perfeita e nada por dentro, como um chalal, até que alguém a empurre de leve.

D-us criou o universo dizendo “haja”. Nós não fazemos estrelas nem oceanos, mas todos os dias, com a boca, construímos ou destruímos o outro mundo, aquele em que as famílias permanecem inteiras, os negócios prosperam, as amizades resistem e as alianças atravessam gerações. É o único material de construção que nos foi entregue à imagem d’Ele.

E a pergunta que a porção bíblica deixa aberta, e que nenhum comentarista pode responder no nosso lugar, talvez não seja se ainda deixamos de falar a verdade. Talvez seja se ainda acreditamos que a nossa palavra é santa o suficiente para ser profanada.

Adivalter Sfalsin

Seu Passado Não Tem a Última Palavra

Seu Passado Não Tem a Última Palavra

Por que D-us nunca deixa uma genealogia ter a última palavra

Reflexões sobre Números 26:11 e 1 Crônicas 6:33–38

“Mas os filhos de Corá não morreram.” (Números 26:11)

Há um versículo escondido no meio de uma lista genealógica longa o suficiente para anestesiar o leitor mais determinado. Oito palavras em português. Em hebraico, apenas quatro: u’vnei Korach lo metu, “mas os filhos de Corá não morreram.” O texto não explica. Não elabora. Lança a frase como quem abre uma janela no escuro, e segue em frente. Mas quem para diante dessa janela começa a ver uma das histórias de redenção mais silenciosas e mais radicais de toda a Escritura.

Corá, cujo nome vem do shoresh hebraico que significa “careca” ou “gelo”, ficou para a memória de Israel como o arquétipo da rebelião contra a autoridade estabelecida por D-us. Movido pelo que o texto chama de anava (humildade) ao contrário, ou seja, pelo orgulho disfarçado de justiça, ele convocou duzentos e cinquenta homens para desafiar Moshê (Moisés) e Arão. A acusação parecia nobre: “Toda a congregação é santa” (Bamidbar 16:3). Mas o argumento era uma armadilha conceitual. Corá sabia que a congregação era santa; o que ele não aceitava era não ser o centro dela. Quando o julgamento chegou, a terra abriu a sua boca, e Corá desceu vivo ao sheol (o mundo dos mortos).

À primeira vista, é o fim de uma linhagem.

Mas D-us escreve histórias que nenhum genealogista humano escreveria.

Enquanto a terra fechava sob Corá, seus filhos ficaram de pé. O texto não diz por quê. Não atribui mérito especial a eles, não descreve uma conversão dramática, não constrói uma cena de arrependimento. Apenas registra o fato, com a sobriedade lapidar que a Torá reserva para as coisas que não precisam de explicação: não morreram. E esse silêncio é mais eloquente do que qualquer discurso que o texto pudesse ter posto ali.

O que acontece a seguir levaria gerações para se revelar plenamente.

Os filhos de Corá aparecem em 1 Crônicas servindo no Mishkan (Tabernáculo, literalmente “morada”) como porteiros e cantores. A família que um dia tentou tomar o sacerdócio pela força tornou-se guardiã da soleira. Não do altar, não do lugar santíssimo, mas do limiar, do ponto onde o mundo de fora encontra a Presença. Há uma precisão quase cirúrgica nessa ironia. Corá queria entrar mais fundo. Seus descendentes encontraram vocação na fronteira, recebendo os que chegavam.

E então vêm os Salmos.

O leitor que se familiariza com o saltério hebraico logo nota a rubrica בִּנֵי קֹרַח, Bnei Korach, “filhos de Corá”, encabeçando alguns dos textos mais intensos do livro inteiro. É deles o Salmo 42: “Como o cervo anseia pelas correntes das águas, assim a minha alma anseia por Ti, ó D-us.” É deles o Salmo 84: “Quanto são amáveis os Teus tabernáculos, ó HaShem dos Exércitos.” É deles o clamor por Sião, a saudade da Presença, o desejo que não se aquieta com nenhuma substituição. O pai desejou posição. Os filhos desejaram a Presença. A trajetória da linhagem fez uma curva de cento e oitenta graus, e o texto hebraico a documenta com a frieza objetiva de quem sabe que D-us não precisa de comentário.

A história, porém, ainda não terminou.

Séculos depois, nasce da linhagem de Corá um menino que a narrativa de Shmuel Alef (1 Samuel) vai apresentar com um cuidado quase incomum. Seu nome é Shmuel (Samuel). Enquanto Corá desafiou a autoridade que D-us havia estabelecido, Samuel tornou-se o homem que a restaurou em Israel num dos momentos mais fraturados da história do povo. Foi ele quem ouviu a voz do Eterno ainda menino, quando o próprio Éli já não ouvia mais. Foi ele quem conduziu Israel ao teshuvá (arrependimento, retorno). Foi ele quem ungiu Davi, o homem segundo o coração de D-us.

O sobrenome daquela família havia mudado. Não nos registros civis, onde a linhagem ainda se rastreava até Corá. Mas no vocabulário moral da Escritura, onde o que define uma vida não é de onde ela veio, mas o que ela escolheu obedecer.

Há uma tentação, especialmente nesta época, de tratar o passado como destino. A herança familiar funciona como diagnóstico: você é o produto daquilo que os que vieram antes de você fizeram ou deixaram de fazer. Há verdade suficiente nessa observação para torná-la sedutora. Carregamos marcas reais. Herdamos padrões, feridas, vocabulários emocionais que aprendemos antes de ter palavras para descrevê-los. Ninguém escolhe o ponto de partida.

Mas a Escritura, com a consistência de quem volta ao mesmo argumento em contextos diferentes, recusa-se a tratar o ponto de partida como ponto de chegada. Ela conhece demasiado bem a diferença entre o que explica e o que determina. Corá explica de onde vinham os seus filhos. Não determinou onde chegaram. E o espaço entre essas duas coisas, entre a herança recebida e o legado construído, é precisamente o espaço onde D-us trabalha com mais liberdade.

Em Yeshua (Jesus), o Messias que a Brit Chadashá (Novo Testamento) apresenta como o cumprimento de tudo o que a Torá antevia, essa lógica atinge sua forma mais radical. Nicodemos ouve que é preciso nascer de novo, nascer de cima, e não compreende como um homem pode entrar uma segunda vez no ventre da mãe (João 3:4). A pergunta revela o quanto tendemos a pensar o destino em termos de origem biológica. Yeshua propõe uma origem diferente, uma que nenhuma genealogia humana pode conceder nem nenhuma falha ancestral pode cancelar. O que nasce do Espírito é espírito, e o Espírito não consulta a árvore genealógica antes de agir.

A história de Corá e seus filhos não é, no fundo, uma história sobre rebelião. É uma história sobre o que D-us faz com o que a rebelião deixou para trás.

Os que desceram com Corá não voltaram. Mas os que ficaram de pé escolheram, geração após geração, construir algo que o pai nunca imaginou. E quando Samuel ungiu Davi num campo em Belém, havia nas veias daquele gesto um fio invisível que corria de volta até a terra que se abrira no deserto, atravessando décadas de fidelidade anônima, de serviço silencioso nas soleiras do Mishkan, de salmos escritos por homens cujo único título de nobreza era o desejo de estar perto de D-us.

Talvez a pergunta que esse versículo de oito palavras nos deixa não seja sobre Corá. Talvez seja sobre nós. Sobre o que fazemos com o que herdamos. Sobre se estamos, como os filhos de Corá, dispostos a ocupar um posto menor do que o que achamos merecer, se for o posto que D-us preparou, e a descobrir, com o tempo, que a proximidade da Presença compensa tudo o que a posição jamais poderia oferecer.

Porque a última palavra de uma história nunca pertence ao erro que a iniciou.

Ela pertence à graça que a redimiu.

Adivalter Sfalsin

“Ide, e dizei àquela raposa…”

“Ide, e dizei àquela raposa…”

“O insulto que se perdeu na tradução”

Há frases de Jesus que nos confortam como um cobertor numa noite fria. Outras, porém, fazem exatamente o oposto: nos acordam. Esta é uma delas. Quando Ele diz, com serenidade quase desconcertante, “Ide, e dizei àquela raposa…”, não está apenas respondendo a uma ameaça política. Está, como tantas vezes, revelando a anatomia oculta do poder humano e, se formos honestos, a nossa também.

A cena é simples. Alguns fariseus vêm alertar Jesus de que Herodes Antipas quer matá-lo. O aviso soa sério, quase protetor. Afinal, Herodes não era conhecido por delicadezas: mandara decapitar João Batista e governava com a aprovação de Roma. Mas Jesus não se apressa, não foge, não negocia. Ele responde com uma frase que, à primeira vista, parece quase irreverente: “Vão e digam àquela raposa…”. Em seguida, afirma que continuará seu trabalho, expulsando demônios, curando, avançando, até que seu tempo se cumpra.

Durante anos, muitos de nós lemos essa palavra “raposa” como sinônimo de astúcia. A raposa, afinal, é esperta; sobrevive pela inteligência, não pela força. Assim, imaginamos Jesus reconhecendo a sagacidade política de Herodes. Mas essa leitura, embora confortável, é profundamente enganosa. E aqui começamos a perceber que Jesus não está elogiando nada. Está desmascarando.

O problema nasce quando lemos Jesus apenas com óculos gregos, esquecendo que Ele falava como judeu a judeus, dentro de um mundo simbólico que tinha sua própria gramática moral. No imaginário grego, a raposa era de fato astuta, oportunista, rápida em aproveitar sobras deixadas por predadores maiores. Mas no universo hebraico, a palavra carrega um peso muito diferente. Ela não é apenas esperta; é pretensiosa. Não é apenas ardilosa; é moralmente pequena.

Os mestres judeus costumavam contrastar dois animais: o leão e a raposa. O leão simbolizava autoridade legítima, grandeza real, peso verdadeiro. A raposa, ao contrário, parecia maior do que realmente era. Seu pelo volumoso lhe dava aparência de importância, mas por dentro era frágil, esquelética. Assim, chamar alguém de raposa não era reconhecer sua inteligência, mas denunciar sua fraude. Era dizer: você parece grande, mas não é.

Há um provérbio antigo que diz: “Seja a cauda dos leões, e não a cabeça das raposas.” Melhor ocupar um lugar humilde entre os justos do que liderar, com pompa, um sistema corroído. Essa sabedoria não nasceu do cinismo, mas de um olhar lúcido sobre o caráter humano. Jesus conhecia bem essa tradição. E é com ela que Ele olha para Herodes.

Herodes Antipas se via, e queria ser visto, como um leão. Governante, construtor, herdeiro de uma dinastia. Mas sua linhagem contava outra história. Filho de Herodes, o Grande, neto de Antípatro, um idumeu convertido por conveniência, Herodes reinava não por promessa divina, mas por concessão romana. Ele ocupava um trono que não lhe pertencia. O trono de Davi fora prometido à linhagem de Jacó, não à de Esaú. Herodes carregava o título, mas não o direito; a coroa, mas não a legitimidade.

Quando Jesus o chama de raposa, portanto, não está fazendo um comentário zoológico, mas teológico. Está dizendo, em essência: você não é quem pensa ser. Seu poder é emprestado. Sua ameaça é vazia. Sua grandeza é inflada. Você governa, mas não reina. Parece leão, mas é raposa.

E aqui está o ponto que nos inquieta. Jesus não diz isso aos gritos, nem convoca uma revolta. Ele simplesmente continua seu trabalho. Enquanto Herodes ameaça, Jesus cura. Enquanto Herodes maquina, Jesus liberta. Enquanto Herodes pensa controlar a morte, Jesus anuncia vida. É uma inversão silenciosa, porém devastadora. O verdadeiro poder não se prova pela capacidade de matar, mas pela fidelidade à missão recebida.

Talvez seja por isso que essa passagem nos incomode tanto. Porque ela não fala apenas de Herodes. Fala de todos os sistemas, políticos, religiosos, pessoais, que se sustentam mais na aparência do que na verdade. Fala de líderes que usam títulos como peles volumosas, mas carecem de substância moral. Fala, se tivermos coragem de admitir, de nós mesmos.

Quantas vezes preferimos parecer do que ser? Quantas vezes inflamos nossa importância, nosso discurso, nossa autoridade, enquanto por dentro estamos espiritualmente frágeis? Quantas vezes nos contentamos em ser cabeças de raposas, desde que isso nos poupe a humildade de ser caudas de leões?

Jesus, o legítimo herdeiro do trono, age de modo oposto ao que esperaríamos. Ele não se impõe; se oferece. Não ameaça; serve. Não corre atrás do poder; caminha em obediência. E justamente por isso, Ele é livre. Herodes não pode apressar seu fim. Roma não pode frustrar sua missão. Nem mesmo a morte pode vencê-lo antes da hora. “Hoje e amanhã”, diz Ele, “faço o que vim fazer.” Não há arrogância nisso, apenas autoridade verdadeira.

Há algo profundamente libertador nessa postura. Jesus nos ensina que a fidelidade é mais poderosa que a força, e que a verdade, mesmo dita com suavidade, expõe toda pretensão. Ele não precisa provar que Herodes é uma raposa. Basta nomeá-lo. A luz, quando acesa, não precisa discutir com a escuridão.

Mas essa mesma luz se volta para nós. Ler essa passagem sem contexto é arriscado; ela vira pretexto para mal-entendidos. Com contexto, porém, ela se torna espelho. Obriga-nos a perguntar: onde estamos vivendo de aparência? Onde confundimos influência com legitimidade? Onde usamos o “pelo” da religiosidade para encobrir a falta de peso interior?

Crer em Jesus não é apenas admirar sua coragem diante de Herodes. É permitir que Ele redefina nossos critérios de grandeza. É aceitar que, no Reino de D-us, leões não rugem por autopromoção, e raposas não impressionam ninguém. O que conta é a verdade do coração, a retidão do caminho, a fidelidade silenciosa ao chamado.

Talvez, ao final, o maior escândalo dessa frase não seja Jesus chamar Herodes de raposa, mas o fato de Ele fazê-lo sem medo. Não porque fosse imprudente, mas porque sabia quem era, e quem Herodes não era. Essa segurança não vinha da política, nem da popularidade, nem da força. Vinha da convicção de estar alinhado com o propósito do Pai.

E isso, se formos honestos, é o convite mais desafiador de todos. Viver de tal modo que as raposas não nos intimidem, os leões falsos não nos impressionem, e a verdade de D-us seja suficiente para sustentar cada passo. Porque, no fim, o Reino não pertence aos que parecem grandes, mas aos que são fiéis.

E Jesus continua dizendo, ainda hoje: “Vão e digam àquela raposa…”, não para que temamos o poder, mas para que aprendamos a reconhecê-lo quando ele é apenas uma sombra bem penteada.

Adivalter Sfalsin

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 6 “Morada no Céu”

Morada no Céu

“Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar.” (João 14:2)

Este versículo me intrigou por muitos anos. Será que existem casas no céu onde todos iremos morar quando partirmos deste mundo material para o mundo espiritual? Como seria uma casa no mundo espiritual? Sempre achei um pouco confusa a ideia de conciliar a noção de “casa”, algo material, com o céu, algo espiritual. Meus questionamentos não eram infundados, e acredito que encontrei uma resposta mais coerente ao me aprofundar na raiz do versículo.

Para começar, a Bíblia foi escrita, em sua grande maioria, por judeus, sejam profetas, discípulos ou apóstolos. Embora partes do Novo Testamento tenham sido escritas em grego, foram escritas por judeus com uma cosmovisão hebraica, em contraste com o mundo greco-romano. Como já discuti esse assunto em outro artigo intitulado “Mente Hebraica x Greco-Romana” (https://raizeshebraicas.com/2013/10/12/mente-hebraica-x-grego-romana-integra/), não vou entrar em detalhes aqui. Apenas salientarei que a mentalidade hebraica é holística e a greco-romana é dualista. Na visão greco-romana, este mundo material é mal, caído e inferior; portanto, deve-se olhar para o mundo espiritual, que é perfeito e superior. Interpretar este versículo dentro dessa ótica nos conforta ao saber que temos uma mansão celestial esperando por nós quando morrermos, certo? Não tão rápido! Será que era isso mesmo que Yeshua estava dizendo nesse versículo e nesse capítulo?

Façamos uma análise desse versículo:

1. A palavra “casa” no grego é οἰκίᾳ (pronúncia – oikia), que vem do hebraico בָּתֵּימוֹ (pronúncia – bottermo), plural possessivo da palavra בַּיִת (bayit). Descreve uma habitação, mas também pode significar família ou lar.

2. A palavra “moradas” no grego é μοναὶ (pronúncia monē), que também indica habitação com uma pequena diferença. Esta é física, mas pode ser também relacional. A palavra mais próxima em hebraico é מִשְׁכָן (pronúncia miškān), que traduzimos como tabernáculo, e a palavra שָׁכַן (Sakan), habitar.

Os deuses na antiguidade eram territoriais e habitavam em templos ou casas; cada civilização tinha um ou mais deuses alinhados ao seu território e etnia. Com Israel não era diferente. Se você quisesse “visitar” o seu deus, precisava ir a Jerusalém. Na verdade, existe um mandamento para subir a Jerusalém três vezes ao ano, revelando a importância de visitar a “casa de Deus”. Em Êxodo 25:8, lemos: “E me farão um santuário (miškān), e habitarei (שָׁכַן) no meio deles.” Essa palavra “morada”, no grego μοναὶ (pronúncia monē), aparece somente duas vezes no Novo Testamento: aqui em João 14:2 e no versículo 23:“Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada (monē).” (João 14:23) Vemos claramente no versículo 23 que Yeshua se refere a um relacionamento e não a uma morada física. Devemos entender que Deus não precisa de uma habitação física para morar, afinal, Ele é o dono do universo. A função do tabernáculo era permitir que Ele tivesse uma relação próxima com o Seu povo. Relacionamento é a chave para entender a intenção de Deus ao mandar o povo judeu construir uma habitação para Ele. No Novo Testamento, esse objetivo continua o mesmo: relacionamento.

Da mesma forma que Deus habitou no tabernáculo no meio de Israel no deserto, Yeshua veio habitar no nosso meio (João 1:14): “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” Novamente, aqui se refere primordialmente ao relacionamento entre Deus e a humanidade, através da habitação física. Yeshua não apenas habitou em um corpo humano (casa, residência), mas relacionou-se conosco.

Enquanto as palavras “casa” e “morada” se referem a habitação e residência, nosso melhor entendimento das palavras do Mestre é relacionamento. Se lermos todo o capítulo de João 14, concluiremos que a ênfase é a relação com Deus e a observância dos mandamentos – Torá, que é a prova de que temos uma relação com o Criador. Não se trata de uma habitação futura em um mundo celestial e perfeito; a habitação não é geográfica, mas relacional. Ter um imóvel no céu não é tão importante quanto ter uma relação próxima com o Rei.

Observamos também que o movimento é sempre do alto, celestial, para o plano terreno. Deus sempre envia algo ou alguém para se relacionar conosco, desde o Jardim do Éden: “…Senhor Deus, que passeava no jardim pela viração do dia…” (Gênesis 3:8). Depois, vemos no fechamento triunfal em Apocalipse esse mesmo movimento, céu-terra: “E eu, João, vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu…” (Apocalipse 21:2). Esta frase idiomática parece indicar que nosso futuro será aqui, numa terra renovada, e a última visão de João em Apocalipse 21:1-3 é a nova Jerusalém descendo sobre a terra, e Deus finalmente habitando entre aqueles que O amam.

Portanto, não é minha intenção decepcionar aqueles que esperam morrer e ter uma habitação celestial, mas gostaria de estimular você a reavaliar o que crê e buscar entender as Escrituras em seu contexto histórico e cultural. Grandes surpresas agradáveis o esperam. Este segundo entendimento (terra-céu) é baseado num mundo dualístico que nasceu com os filósofos da Grécia antiga e não dentro da perspectiva bíblica hebraica. Só lembrando, Yeshua era judeu e não grego.

Autor: A. Sfalsin

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 10: “Ide, e dizei àquela raposa…”

“Naquele mesmo dia, chegaram uns fariseus, dizendo-lhe: ‘Sai e retira-te daqui, porque Herodes quer matar-te.’ E respondeu-lhes: ‘Ide, e dizei àquela raposa: Eis que eu expulso demônios e efetuo curas, hoje e amanhã, e no terceiro dia sou consumado.'” (Lucas 13:31-32)

Nessa passagem bíblica, Yeshua (Jesus) está sendo advertido pelos fariseus sobre a perseguição que Herodes Antipas havia lançado contra Ele. Então, Yeshua (Jesus) responde: “Ide, e dizei àquela raposa.” Mas o que Yeshua quis dizer com “dizei àquela raposa”?

Lembro-me dos meus anos de menino, quando me contavam histórias em que a raposa era apresentada como um animal sagaz, inteligente e astuto. Talvez essa seja a imagem que temos ao ler essa passagem bíblica. No entanto, vamos tentar colocá-la em seu contexto original no mundo hebraico/grego.

Conforme os estudos de David Bivin, “a metáfora ‘raposa’ provou ter um significado dúbio para falantes de línguas europeias. Muitos especialistas do Novo Testamento seguiram o sentido claro e amplamente conhecido da palavra grega sem primeiro fazer uma pergunta importante: ‘Como a palavra ‘raposa’ era usada pelos judeus?’ A resposta revela uma diferença no uso do hebraico e do grego, e deve servir como um lembrete de que sempre se deve interpretar as metáforas dentro do ambiente cultural adequado.”

No grego, a palavra raposa é “alōpēx”, associada à esperteza e ligeireza em ataques noturnos a outros animais, além de seu oportunismo em roubar presas já mortas por animais mais fortes. Portanto, os gregos associavam essas características a pessoas oportunistas, inteligentes e astutas.

Entretanto, a palavra raposa no hebraico é “שׁוּעָל” (shū’āl), que tem um significado muito mais amplo. Vejamos o uso mais abrangente nos escritos dessa época:

  1. Como astúcia: Na Midrash R. Eleazar ben R. Shim’on [final do segundo século d.C.], disse: “Os egípcios eram astutos e é por isso que as Escrituras os comparam a raposas.” (Cântico dos Cânticos 2:15).
  2. Como ardilosa: No comentário babilônico do Talmud (Berachot 61b), o Rabi Akiva contou uma parábola:
    “Uma raposa estava caminhando ao longo de um rio e viu peixes correndo para lá e para cá. Ela disse: ‘Do que vocês estão fugindo?’
    Disseram-lhe: ‘As redes que os humanos espalham para nós.’ Ela disse: ‘Por que vocês não vêm para a terra firme? Vamos viver juntos, como meus ancestrais viveram com seus ancestrais.’ Disseram-lhe: ‘És tu aquele de quem se diz que és o mais sábio dos animais? Você não é sábio, mas tolo! Se, em nosso ambiente de vida, temos motivos para ter medo, quanto mais no ambiente de nossa morte!’”
  3. Como pretensão: No hebraico, o significado mais abrangente é extraído do contraste que os judeus faziam entre o leão e a raposa. Um homem com poder e maior excelência intelectual era comparado ao leão, enquanto um homem com menor excelência era associado à raposa. Aqueles que tinham a pretensão de ser algo que não eram, eram associados às raposas. O leão tem uma juba grande e pomposa; a raposa, por sua vez, é um animal esquelético, mas com um pelo grande e pomposo, aparentando ser grande e importante, mas sem consistência alguma.
  4. Com conotação moral: O Rabino Mathia ben Harash disse: “Seja a cauda dos leões, e não a cabeça das raposas.” (Mishná Pirkei Avot 4:15). Isso propõe a ideia de que é melhor ser alguém de baixa posição, mas com uma vida moral e espiritual correta, do que estar entre aqueles de posições superiores e poderosos, mas vivendo uma vida degradada e corrompida.

Resumindo, o grego associa a raposa com astúcia e esperteza, enquanto o hebraico é mais abrangente, adicionando pretensão e conotação moral. O texto, ao ser traduzido para nossa língua, perdeu parte vital de seu significado, incluindo a verdadeira dinâmica da repreensão de Yeshua (Jesus), implicitamente dando um falso significado positivo à sua resposta, exatamente o inverso da intenção do Mestre.

Yeshua (Jesus) chamou Herodes de raposa depois que alguns fariseus relataram que Herodes queria matá-lo. A resposta de Jesus desafiou os planos de Herodes: “Diga a Herodes que primeiro tenho que trabalhar.” Mostrando aqui que Ele tinha o poder, e não Herodes; “dizei àquela raposa…”

Herodes se considerava um leão poderoso, mas Yeshua (Jesus) o rotulou de raposa, dando a entender que Herodes não era genuíno, verdadeiro e legítimo. Ele o comparou a uma raposa que, apesar de ardilosa, está moralmente corrompida, é pomposa e, acima de tudo, pretensiosa, sendo, na verdade, uma fraude.

Para entendermos as palavras de Yeshua (Jesus), devemos compreender quem era Herodes Antipas. Ele era filho de Herodes, o Grande, com Malthace (Samaritana), e neto de Antípatro, do povo idumeu ou edomita, descendentes diretos de Esaú, filho de Isaac e Rebeca, irmão gêmeo de Jacó. Antípatro se converteu ao judaísmo, e Herodes e seu filho Herodes Antipas se autointitulavam reis dos judeus por causa da herança de seus antepassados até Esaú, aquele que vendeu a primogenitura para seu irmão Jacó, mas nunca aceitou ter perdido. Na verdade, o trono de Davi tinha sido prometido por Deus para a linhagem de Jacó. Herodes Antipas se tornou um usurpador do trono, e o povo judeu não o aceitava como líder, muito menos como rei.

Yeshua, ao chamá-lo de raposa, estava se referindo a vários aspectos do poder usurpado e do caráter de Antipas. Antes de tudo, ele era ilegítimo e inapto para o cargo que ocupava. Como a imagem do rei era associada ao leão, ao rotulá-lo de raposa, Yeshua estava insinuando que Herodes era um pomposo pretensioso que só tinha poder por usurpação, um impostor. Assim como a raposa é pomposa, cheia de pelo no exterior, mas, na verdade, é um animal esquelético.

Yeshua (Jesus), o legítimo sucessor ao trono pela linhagem de Davi (Lucas 1:32), mostra sua autoridade ao responder e desafiar os planos de Antipas: “Diga a Herodes que primeiro tenho que trabalhar.” Jesus não estava insinuando que Herodes era astuto; ao contrário, Ele estava comentando sobre a inaptidão ou incapacidade de Herodes em cumprir sua ameaça. Todo o poder que ele tinha, só o tinha porque Deus havia permitido. Jesus questiona a linhagem, a estatura moral e a liderança do tetrarca, colocando-o “em seu lugar”. Isso se encaixa exatamente no quarto uso rabínico de “raposa” – conotação moral.

Vemos aqui a importância de entender o texto dentro de seu contexto cultural, histórico e linguístico. Caso contrário, corremos o risco de entender a passagem bíblica de forma errada, onde o texto, sem seu contexto, se torna um pretexto.

Autor:
Adivalter Sfalsin

[1a] David N. Bivin é um estudioso bíblico israelense-americano, membro da Escola de Pesquisa Sinótica de Jerusalém. Seu papel na Escola de Jerusalém envolve a publicação do jornal Jerusalem Perspective (Online) e a organização de seminários. Bivin é membro da Escola de Pesquisa Sinótica de Jerusalém, um grupo formado por acadêmicos judeus e cristãos dedicado a melhor compreender os Evangelhos Sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas).

[1b] Retirado do artigo: That Small-fry Herod Antipas, or When a Fox Is Not a Fox, no site http://www.jerusalemperspective.com

[2] A Mishná, (em hebraico משנה, “repetição”, do verbo שנה, ”shanah, “estudar e revisar”) é uma das principais obras do judaísmo rabínico, e a primeira grande redação na forma escrita da tradição oral judaica, chamada a Torá Oral.

[3] Antípatro era um Idumeu, que prosperou na corte dos últimos soberanos hasmoneus, passou a governar a Judeia após a ocupação romana e foi o pai de Herodes, o Grande. Foi posto por Pompeu como procurador da Palestina em 67 a.C.

[4] Edom, em hebraico, quer dizer “vermelho” porque Esaú tinha a cor avermelhada.