Emunah 2

Você Crê em D-us?

Por que a geração que viu o mar se abrir ainda foi acusada de incredulidade

Reflexões sobre Devarim (Deuteronômio) 1:19-33, com Shemot (Êxodo) 4, 14 e 19

“E nem assim confiastes no SENHOR vosso D-us.” (Deuteronômio 1:32)

Há uma frase no primeiro capítulo de Deuteronômio que deveria nos deter no meio do caminho, e quase nunca detém. Moisés, de pé nas planícies de Moabe, olha para trás sobre quarenta anos e nomeia o crime que custou a uma geração inteira a entrada na terra. Não foi idolatria. Não foi rebelião. Foi incredulidade. O que faltou a eles foi אֱמוּנָה, emunah (fé, fidelidade).

Agora repare com quem ele está falando. São as pessoas que viram o Egito se desfazer praga após praga. Caminharam entre paredes de água. Comeram um pão que aparecia no chão todas as manhãs como geada. Estiveram diante de uma montanha que ardia e tremia enquanto uma voz saía dela. E Moisés lhes diz que não creram em D-us?

Se crer significa acreditar que D-us existe, a acusação é um absurdo. Não havia um único ateu naquele acampamento. Fosse o que fosse que eles tivessem perdido, não era a convicção de que D-us estava ali. Logo, a palavra precisa significar outra coisa, e essa outra coisa é exatamente o ponto em que a maioria de nós errou silenciosamente a vida inteira.

O hebraico nos ajuda. Emunah vem da raiz אמן, aman, e a Torá usa essa palavra num lugar que nada tem a ver com sentimento religioso. Durante a batalha contra Amaleque, Moisés ergue as mãos, cansa, e Aarão e Hur sustentam seus braços firmes. O texto diz que suas mãos permaneceram emunah até o pôr do sol (Êxodo 17:12). Firmes. Confiáveis. Sem vacilar. A palavra não descreve uma opinião a respeito de D-us. Descreve uma qualidade de sustentação.

Tire essa palavra do mundo dos braços e coloque-a no mundo das pessoas e você terá algo muito mais exigente que uma concordância. Emunah é a firmeza de quem apoia todo o seu peso em outro. É confiança com o corpo dentro. E foi precisamente isso que aquela geração se recusou a fazer. Chegaram à fronteira da terra, olharam para os gigantes e se recusaram a se apoiar.

Aqui está o que merece nossa atenção. Quando Moisés faz a acusação, ele não exige um salto no escuro. Ele argumenta. Ele aponta evidências. O SENHOR vosso D-us, que vai adiante de vós, ele pelejará por vós, conforme tudo o que fez convosco no Egito, diante dos vossos olhos; e no deserto, onde vistes que o SENHOR vosso D-us vos levou, como um homem leva seu filho (Deuteronômio 1:30-31). Ou seja: vocês tinham fundamento. Vocês tinham todas as razões. É isso que torna a recusa culpável. A fé, na boca de Moisés, não é uma virtude que flutua solta, sem razões. É o que uma pessoa razoável faz com as razões que já possui.

E a própria Torá constrói essas razões diante dos nossos olhos. A palavra emunah aparece três vezes na narrativa do Êxodo, e cada aparição marca uma descoberta diferente, como se a fé estivesse sendo montada peça por peça, na ordem exata em que uma pessoa precisaria delas.

A primeira está no início de tudo. Moisés chega aos anciãos com os sinais, e o povo creu, porque o SENHOR havia visitado os filhos de Israel e havia visto a sua aflição (Êxodo 4:31). Esse é o primeiro pilar, e ele é o amor. Antes de eu poder confiar em você, preciso saber que você me vê. Que o meu sofrimento registra alguma coisa em você. Que eu não sou um arredondamento estatístico no seu universo. Um D-us que existe mas não se importa é um D-us sobre o qual ninguém em sã consciência apoiaria o peso.

A segunda vem no mar. As águas se fecham sobre os carros de guerra e o povo creu no SENHOR e em Moisés, seu servo(Êxodo 14:31). Isso é poder. Importar-se não basta. Já conheci pessoas que me amavam sinceramente e não podiam fazer absolutamente nada por mim, e aquele amor, por mais real que fosse, não era algo em que eu pudesse me apoiar. Compaixão sem capacidade é um amigo num velório. Necessária, e insuficiente.

A terceira acontece no Sinai, e é a que esquecemos. D-us diz a Moisés que virá numa nuvem espessa para que o povo o ouça falando, e assim creiam em ti para sempre (Êxodo 19:9). O que ficou provado ali? Que o abismo podia ser atravessado. Que um D-us absolutamente diferente de nós, invisível, intocável, podia de fato se fazer entender por um homem, e um homem podia de fato entendê-lo. Chame esse terceiro pilar de compreensão. Porque eu posso saber que você me ama, e saber que você é forte, e ainda assim recuar se suspeitar que você não capta de verdade aquilo de que eu preciso. Amor, poder, compreensão. Retire um dos três e a confiança se torna irracional. Coloque os três de pé e a confiança se torna razoável, mas não se torna automática.

E aqui está a parte difícil, que nenhuma quantidade de evidência elimina. Mesmo com os três pilares erguidos, o ato de apoiar-se continua sendo um ato. Ele custa alguma coisa. Colocar o seu destino nas mãos de outro é perder o controle, e perder o controle se parece desconfortavelmente com perder a si mesmo. É sempre mais fácil permanecer onde se está e chamar isso de prudência. A geração dos espias olhou para a terra e preferiu o Egito, porque o Egito era uma miséria que eles já sabiam como sobreviver.

Agora observe o que veio em seguida, porque é a coisa mais arrepiante de todo o relato. Tendo recusado, eles precisaram explicar a recusa a si mesmos. E em vez de dizer a coisa honesta, que estavam com medo, disseram isto: Porquanto o SENHOR nos odeia, tirou-nos da terra do Egito, para nos entregar nas mãos dos amorreus, para nos destruir(Deuteronômio 1:27). Eles não apenas deixaram de confiar. Eles demoliram o primeiro pilar. Reescreveram cada bondade que já haviam recebido como prova de ódio. É isso que a covardia faz quando não admite o próprio nome. Ela volta ao registro do passado e edita fora o amor.

Repare no que de fato disparou o colapso. Não foi uma derrota. Foi uma espera. Quarenta dias de silêncio enquanto os espias estavam fora, e nesse intervalo o povo teve que sustentar uma conclusão sobre o caráter de D-us sem que nada de novo chegasse para confirmá-la. A demora é o verdadeiro laboratório da emunah, porque os três pilares são todos provados no passado, e a espera acontece sempre no presente.

E é exatamente sobre esse intervalo que Yeshua (Jesus) constrói uma de suas parábolas mais desconfortáveis. Ele fala de uma viúva que procura um juiz para obter justiça, e de um juiz que não teme a D-us nem respeita ninguém. Vale a pena reparar em quem é esse juiz à luz dos três pilares. Ele não tem amor, porque o texto diz expressamente que não se importa. Não tem compreensão, porque nunca escuta o caso dela de verdade. Tem apenas poder, e é a única coisa que tem. Um pilar de três. E ainda assim, à força de insistência, a viúva consegue o que pede. Então Yeshua vira o argumento do menor para o maior: se até um homem assim acaba fazendo justiça, o que dizer daquele que reúne os três? E não fará D-us justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam de dia e de noite? (Lucas 18:7).

A viúva é a figura da emunah porque ela sustenta o peso durante o intervalo. Ela não recebeu nenhuma evidência nova. Ninguém lhe disse que a coisa daria certo. Ela apenas continuou apoiando-se naquilo que já sabia, dia após dia, sem sinal, sem confirmação, sem resposta. As mãos de Moisés erguidas até o pôr do sol e a viúva voltando à porta do juiz pela vigésima vez são a mesma imagem. Firmeza sustentada em pleno silêncio.

E o oposto dela, na parábola, não é o cético. É a pessoa que interpreta a demora como veredito. Que raciocina, com toda a calma, que se a resposta não veio é porque o juiz não se importa. Aí está a antiga sentença voltando com voz moderna. Porquanto o SENHOR nos odeia. É o pilar do amor sendo derrubado para que uma indisposição pareça uma percepção lúcida. Foi assim que a geração do deserto perdeu a terra, e é assim, ainda hoje, que se perde a confiança durante uma espera.

É por isso que Yeshua encerra a parábola não com uma promessa, mas com uma pergunta suspensa no ar: Contudo, quando vier o Filho do Homem, encontrará fé sobre a terra? (Lucas 18:8). A palavra grega ali é πίστις, pistis, a mesma que os tradutores gregos da Torá usaram para verter emunah. Ele não está perguntando se as pessoas ainda acreditarão que D-us existe. Crença na existência de D-us nunca esteve em falta. Ele está perguntando se alguém ainda estará apoiando o peso quando a resposta demorar a chegar.

Os três pilares, é claro, se reúnem num único lugar nos evangelhos. Yeshua chora diante de um túmulo, e isso é amor. Chama o morto para fora dele, e isso é poder. É chamado o Verbo que se fez carne, a própria expressão de D-us armando sua tenda entre nós, e isso é compreensão. Todas as razões que alguém poderia pedir, entregues numa única vida. A evidência foi fornecida. O apoiar-se não foi feito em nosso lugar.

Portanto a pergunta não é aquela que costumamos nos fazer quando o assunto da fé aparece numa conversa. A pergunta não é se você acredita que D-us existe. Até a geração que comeu o maná dava conta disso, e não salvou nenhum deles.

Ele perguntou se encontraria fé sobre a terra. Então aqui está a versão menor e muito mais incômoda da pergunta dele. No último silêncio longo pelo qual você passou, quando nada chegava e nada era explicado, você manteve o seu peso onde estava, ou voltou discretamente ao registro da sua vida e começou a editar fora o amor?

Adivalter Sfalsin

O Peso da Palavra

O Peso da Palavra

Por que a Bíblia trata uma promessa quebrada como uma dessacralização, e não como uma simples falha de caráter

Reflexões sobre Números 30:2-32:42

“Quando um homem fizer um voto ao Senhor, ou jurar um juramento, ligando a sua alma com obrigação, não profanará a sua palavra; segundo tudo o que saiu da sua boca, fará.” (Números 30:2)

Israel está acampado nas planícies de Moabe. O censo foi feito, as tribos foram contadas, a guerra é questão de dias, e o leitor espera instruções militares. Estratégia, logística, direito de conquista. Em vez disso, a Bíblia para tudo e legisla sobre palavras ditas em voz baixa, dentro de casa, sem testemunha alguma.

Há uma segunda estranheza, ainda maior, na primeira linha. O texto não usa a fórmula habitual, “fala aos filhos de Israel”. Ele começa assim: וַיְדַבֵּר מֹשֶׁה אֶל רָאשֵׁי הַמַּטּוֹת, vayedaber Moshe el rashei hamatot (e falou Moisés aos chefes das tribos). É a única porção de números que se abre dirigindo-se primeiro aos líderes.

Guarde as duas perguntas, porque o texto só as responderá no fim. Por que aqui, às vésperas da terra? E por que a eles, antes de todos?

A leitura mais imediata do versículo é moral e um pouco entediante: cumpra o que promete, seja um homem de bem. Correto, e quase inútil, porque ignora exatamente aquilo que o hebraico está gritando.

A Bíblia poderia ter escrito שָׁבַר, shavar (quebrar, despedaçar). Seria o verbo natural, e é o verbo que quase todas as traduções acabam usando. Mas o texto diz לֹא יַחֵל דְּבָרוֹ, lo yachel devaro, e o verbo ali é חלל, chalal (profanar, dessacralizar, tornar comum o que era santo). É o verbo do Shabat profanado em Shemot (Êxodo) 31:14, do santuário profanado, do Nome profanado em Vayikrá (Levítico) 22:32. É o termo técnico para arrastar o sagrado até o terreno do banal.

E aqui está o ponto que muda tudo. Ninguém profana o que já era comum. O verbo carrega uma premissa escondida, e a premissa é mais audaciosa do que o mandamento: antes de ordenar qualquer coisa, o versículo afirma que a tua palavra é santa.

É essa afirmação, e não a ordem, que precisa ser explicada. Duas perguntas, portanto, e nesta ordem. Em que sentido a palavra de um homem poderia ser santa? E o que exatamente se perde quando ela cai?

Uma palavra pode ser santa?

A Bíblia poderia ter começado descrevendo D-us modelando montanhas e acendendo estrelas. Começa com uma voz. וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים, vayomer Elohim (e disse D-us). Nas cosmogonias vizinhas, criar é vencer: o mundo nasce de um cadáver esquartejado, de um combate, de deuses que se sobrepõem uns aos outros. Na Bíblia nada luta, nada resiste, nada negocia. O Criador fala e a realidade responde.

Não é acidente que o hebraico use דָּבָר, davar, tanto para “palavra” quanto para “coisa”. A língua não possui uma expressão para aquilo que seria “apenas uma palavra”. Dizer, no universo bíblico, é um modo de fazer.

E é justamente esse D-us que fala quem cria alguém à Sua imagem. O Targum de Onkelos, a antiga tradução aramaica lida nas sinagogas, percebeu a implicação e fez algo ousado com Bereshit (Gênesis) 2:7. Onde o hebraico diz que o homem se tornou נֶפֶשׁ חַיָּה, nefesh chayah (alma vivente), o Targum traduz: רוּחַ מְמַלְּלָא, ruach memalela (espírito que fala). Não é tradução literal. É uma tese sobre a natureza humana. O que nos separa do animal não é a inteligência. É a fala, e a primeira tarefa dada a Adão confirma: dar nome aos animais, o que na Escritura nunca significa etiquetar, mas ordenar e exercer autoridade delegada.

Só que a semelhança termina onde deveria começar a decepção. Nenhuma frase humana acende uma estrela. E então em que sentido a nossa fala poderia herdar alguma coisa daquela?

A resposta é mais estranha do que parece, e a filosofia moderna levou milênios para formulá-la. J. L. Austin observou que existem frases que não descrevem coisa alguma: elas fazem. Quando o juiz declara “absolvido”, a situação jurídica daquele homem muda naquele instante. Quando duas pessoas sob a Chupá (dossel nupcial) assumem publicamente sua aliança, não estão relatando um casamento, estão passando a estar casadas. Quando alguém diz “eu farei”, algo que não existia dois segundos antes passa a existir: uma obrigação.

Aí está. Não fabricamos estrelas, mas fabricamos deveres, e um dever é tão real quanto uma pedra, com a diferença de que ninguém pode tocá-lo. O ser humano é a única criatura capaz de criar realidade invisível apenas abrindo a boca. Nisso, e não em outra coisa, a sua palavra é parente da Palavra que fez o mundo.

E a Bíblia sabe o preço disso. Números 30 usa três termos técnicos, e o terceiro é o mais revelador: אִסָּר, issar, que as traduções amaciam para “obrigação”, mas que vem do verbo אָסַר, asar (amarrar, atar). A expressão completa é לֶאְסֹר אִסָּר עַל נַפְשׁוֹ, le’esor issar al nafsho, e o sentido bruto é atar uma amarra sobre a própria alma. Como נֶפֶשׁ, nefesh, antes de significar alma, significava garganta, fôlego, o lugar por onde o ar passa, o texto descreve uma corda amarrada em torno do exato órgão com que se fala. Quem promete estrangula voluntariamente uma parte da própria liberdade.

Essa é a primeira resposta. A palavra humana é santa porque cria, e porque criar custa.

Falta a segunda pergunta, e é nela que o versículo se fecha como um mecanismo.

Yeshayahu (Isaías) 55:11 declara: כֵּן יִהְיֶה דְבָרִי אֲשֶׁר יֵצֵא מִפִּי לֹא יָשׁוּב אֵלַי רֵיקָם, ken yihyeh devari asher yetze mipi lo yashuv elai reikam (assim será a minha palavra que sair da minha boca; não voltará para mim vazia). Três elementos: davar, o verbo יָצָא, yatzá (sair), e פֶּה, peh (boca). A palavra sai da boca e chega. Não retorna רֵיקָם, reikam (vazia, de mãos abanando). Essa é a assinatura da fala divina. Não a força, não o volume. A chegada.

Agora releia o final do nosso versículo no hebraico: כְּכֹל הַיֹּצֵא מִפִּיו יַעֲשֶׂה, k’chol hayotzê mipiv ya’asseh (conforme tudo o que sai da sua boca, fará). Os mesmos três elementos, na mesma ordem. A palavra, a saída, a boca.

O que a Bíblia está exigindo, portanto, não é honestidade no sentido cartorial do termo. É imitação. Que a palavra que sai da tua boca se comporte como a que sai da d’Ele, isto é, que percorra a distância entre o dito e o feito, e chegue.

E então a resposta à segunda pergunta se monta sozinha. Se a marca da palavra santa é não voltar vazia, a palavra profanada é precisamente a que voltou vazia. Esvaziada. Oca.

Repare no que o hebraico faz com isso. Da mesma raiz ח־ל־ל vem o substantivo חָלָל, chalal, que significa duas coisas ao mesmo tempo: o oco, o furado, e o cadáver, o traspassado no campo de batalha. Perfurar e esvaziar são, em hebraico, o mesmo gesto. E o leitor não precisa ir longe para ouvir o eco: no capítulo seguinte, na campanha contra Midiã, o texto fala repetidamente dos חַלְלֵיהֶם, chaleleihem (os seus mortos, os traspassados). A mesma raiz, agora com corpos no chão.

Uma promessa quebrada não é uma promessa que se partiu ao meio. É uma promessa que continua de pé, com a forma perfeitamente intacta, e por dentro não tem nada. É o cadáver de uma palavra.

De que é feita uma civilização?

Se tudo isso for verdade, uma consequência inteiramente prática se segue, e é ela que explica por que este capítulo aparece exatamente onde aparece.

Existe um mundo que não podemos tocar e dentro do qual passamos o dia. Você entra num avião porque acredita que o piloto fará o que prometeu. Deposita o dinheiro num banco porque acredita que ele existirá amanhã. Atravessa uma ponte porque supõe que alguém, há vinte anos, fez o seu trabalho direito quando ninguém estava olhando. Retire a confiança e nada disso acontece. A maior riqueza de uma nação não está guardada nos seus cofres. Está no espaço invisível entre os seus cidadãos, e esse espaço é feito de palavras que chegaram.

O hebraico chama isso de אֱמוּנָה, emunah (fidelidade, confiabilidade), e da mesma raiz א־מ־ן vêm outras duas palavras que dizem tudo: אֱמֶת, emet (verdade), e אָמֵן, amen, que repetimos sem pensar e que significa, ao pé da letra, “isto é firme, isto sustenta”. Verdade, em hebraico, não é primeiramente a correspondência exata entre a frase e o fato. O grego pensa assim e chama a verdade de ἀλήθεια, alētheia (o desvelado, o não esquecido), algo que se mostra ao olhar. O hebraico pensa com o corpo. Emet é aquilo em que você se apoia sem cair. É a viga que aguenta o telhado, o degrau que não cede.

É por isso que uma palavra quebrada machuca de um jeito tão particular. Não foi um erro de informação. Foi um degrau que cedeu debaixo do pé de alguém que confiou.

E é por isso, também, que existem apenas três maneiras de organizar seres humanos.

A primeira é a anarquia, e a Bíblia a retrata antes do dilúvio: a terra encheu-se de חָמָס, chamas (violência, rapina). Cada um faz o que quer, ninguém confia em ninguém, e Thomas Hobbes deu ao resultado o nome definitivo, a guerra de todos contra todos.

A segunda é a tirania, e a Bíblia a retrata no Egito. Há ordem, mas não há confiança. Obedece-se por medo, e a espada substitui a consciência. Daí a lei silenciosa que governa todas as nações: quanto menor a confiança, maior o governo. Menos honestidade, mais contratos. Menos palavra, mais tribunais, mais burocracia, mais câmeras. A liberdade encolhe na exata medida em que a confiança evapora.

A terceira é a בְּרִית, berit (aliança), que em hebraico não se assina, se corta: a expressão é כָּרַת בְּרִית, karat berit, e em Genesis 15 os animais são partidos e as partes dispostas no chão, porque passar entre elas equivale a dizer, sem palavras, que eu me torne como estes pedaços se eu quebrar a minha palavra. Homens livres, limitando a si mesmos, porque consideram sagrada a própria fala. É a única forma de convivência que diminui a necessidade de ser governada.

E agora as duas perguntas do início se respondem sozinhas.

Por que aqui, às vésperas da terra? Porque uma conquista feita por um povo cuja palavra não chega não produz uma nação. Produz outro Egito, com bandeiras diferentes. Israel podia tomar cidades sem isto. Não podia construir uma civilização sem isto. Muralhas seguram inimigos, não seguram uma sociedade.

E por que aos chefes das tribos, antes de todos? Porque a profanação da palavra é como a água: corre de cima para baixo. O homem que tem poder para prometer e não cumprir sem sofrer consequência alguma é justamente aquele que ensina a nação inteira que promessas são ornamento. Moisés começa pelo topo porque é do topo que a corrosão desce.

Não é por acaso que Yirmeyahu (Jeremias), ao anunciar a aliança futura, não promete leis novas. Promete o mesmo texto em outro lugar: “porei a minha Bíblia no interior deles e a escreverei em seus corações” (Jeremias 31:33). A melhor sociedade nunca será a que tem mais policiais, e sim a que precisa de menos, não porque abandonou a lei, mas porque a interiorizou.

Por que ainda juramos?

Há um versículo em Vayikrá que raramente é lido ao lado da nossa porção bíblica, e deveria ser. “Balanças justas, pesos justos, efa justa e הִין צֶדֶק, hin tzedek (him justo) tereis” (Levítico 19:36). É legislação sobre comércio: não adultere as medidas, não raspe um grama do peso de bronze.

Os sábios, no Talmud (Bava Metzia 49a), notaram que הִין, hin (uma medida de volume), soa quase igual a הֵן, hen (sim). E leram assim: que o teu sim seja justo, e que o teu não seja justo. No mesmo fôlego em que proíbe a balança viciada, a Bíblia proíbe a palavra viciada. São o mesmo crime, cometido em materiais diferentes. Raspar um grama do peso e raspar um pouco da promessa é a mesma operação.

É exatamente nesse debate que Yeshua (Jesus) entra. No judaísmo do primeiro século, os juramentos haviam se tornado um sistema barroco: jurava-se pelo céu, pela terra, por Jerusalém, pela própria cabeça, cada fórmula com um grau distinto de obrigatoriedade, o que na prática permitia ao homem esperto prometer com uma fórmula fraca e escapar depois. E Ele diz: ἔστω δὲ ὁ λόγος ὑμῶν ναὶ ναί, οὒ οὔ, estō de ho logos hymōn nai nai, ou ou (seja a vossa palavra sim, sim; não, não), acrescentando que o que passa disso, τὸ περισσόν, to perisson (o excedente), vem do maligno (Mateus 5:37).

Ele não está abolindo a Bíblia sobre os votos, que prevê votos santos e juramentos legítimos. Está lendo Levítico 19 como os sábios liam, hen tzedek, e levando essa leitura ao seu destino. O juramento nunca foi o remédio. O juramento é o sintoma.

E o sintoma tem uma lógica econômica implacável. Quando uma moeda perde valor, imprime-se mais. Quando a palavra perde peso, imprimimos mais palavra: juramos pelo céu, pela terra, por Jerusalém, e hoje por contratos de quarenta páginas, cláusulas penais, firmas reconhecidas, testemunhas, termos de uso aceitos sem leitura. A inflação de juramentos é o boletim médico de uma civilização cuja fala adoeceu. O ideal para o qual Números 30 sempre apontou é o do homem cujo caráter é tão conhecido que um “sim” seco pesa tanto quanto um documento lavrado.

E a Bíblia, fiel ao seu método, testa a tese na narrativa imediatamente a seguir. Mal terminam as leis dos votos, aparecem Rúben e Gade pedindo a terra do outro lado do Jordão, e a negociação inteira depende de uma única variável, que não é militar: eles cumprirão a palavra?

Há um detalhe delicioso no hebraico da cena. Eles propõem construir “currais para o nosso gado e cidades para as nossas crianças” (32:16). Moisés concorda, mas responde invertendo a ordem: “edificai cidades para as vossas crianças e currais para as vossas ovelhas” (32:24). Ele não corrigiu o conteúdo. Corrigiu a sequência, porque a ordem em que colocamos as palavras revela a ordem em que colocamos os amores, e um homem que menciona o rebanho antes dos filhos disse mais do que pretendia. E o epílogo vem gerações depois, em Yehoshua (Josué) 22, quando aquelas tribos são dispensadas para casa porque guardaram tudo o que prometeram. Levaram anos. Mas voltaram.

Resta o fundamento último, e sem ele todo o resto seria apenas boa cidadania.

A Bíblia inteira é a história de um D-us que não profana a Sua palavra. A promessa a Abraão, o Êxodo, a preservação de Israel no exílio, a esperança messiânica: o fio que costura as Escrituras é a fidelidade divina, e os profetas só podiam denunciar a nação com aquela ferocidade porque sabiam que Ele jamais abandonaria a aliança. A carta aos Hebreus capta o ponto com precisão quase jurídica ao observar que, não havendo ninguém maior por quem jurar, D-us jurou por Si mesmo (Hebreus 6:13). O fiador é o próprio prometente, o que seria a garantia mais frágil do mundo, se Ele fosse como nós.

A nossa fidelidade, portanto, nunca é a origem da aliança. É uma resposta.

E o Brit Chadashá (Novo Testamento) costura o fio de volta exatamente na raiz que já encontramos. Paulo, defendendo-se da acusação de ser homem de palavra vacilante, escreve que em Yeshua não houve sim e não, porque quantas são as promessas de D-us, nele está o ναί, nai (sim), e por isso, por meio dele, o ἀμήν, amēn (Segunda Carta aos Coríntios 1:19-20). E o Apocalipse lhe dará um título que parece erro de tradução até que se conheça o hebraico: ὁ Ἀμήν, ὁ μάρτυς ὁ πιστός, ho Amēn, ho martys ho pistos (o Amém, a testemunha fiel), em Apocalipse 3:14.

Ele não é apenas alguém que cumpre a Sua palavra. Ele é o Amém de D-us. É a firmeza em pessoa, o degrau que não cede, a emet com rosto. Os discípulos de Yeshua sempre entenderam que o madeiro foi o lugar onde uma palavra dada foi cumprida ao preço máximo, quando teria sido tão simples, e tão humano, deixá-la voltar vazia.

Talvez seja essa a razão pela qual a Bíblia escolheu chalal e não shavar. Os sábios chamam de חִלּוּל הַשֵּׁם, chillul HaShem (profanação do Nome), a mais grave das transgressões, porque não termina na vítima: quando alguém que se diz servo do D-us fiel dá a palavra e não cumpre, o dano sobe. E o oposto, קִדּוּשׁ הַשֵּׁם, kiddush HaShem (santificação do Nome), acontece em lugares muito menos épicos do que imaginamos. Acontece quando alguém aparece na segunda-feira, como havia dito, para terminar um trabalho que ninguém estava fiscalizando.

Vivemos numa época que aprendeu a falar em excesso e a pesar de menos. Prometemos “vamos marcar”, “eu te aviso”, “a gente se fala”, e ninguém espera que aconteça, nem se ofende quando não acontece, porque combinamos em silêncio que essas frases não são palavras, são ruídos educados. E a cada rodada dessa desvalorização precisamos de mais cláusulas, mais provas, mais câmeras, exatamente como uma economia em colapso precisa de notas com mais zeros.

Uma civilização não desmorona primeiro quando os muros caem. Ela começa a ruir quando as suas palavras ficam ocas, e ainda permanece de pé por um tempo, com a forma perfeita e nada por dentro, como um chalal, até que alguém a empurre de leve.

D-us criou o universo dizendo “haja”. Nós não fazemos estrelas nem oceanos, mas todos os dias, com a boca, construímos ou destruímos o outro mundo, aquele em que as famílias permanecem inteiras, os negócios prosperam, as amizades resistem e as alianças atravessam gerações. É o único material de construção que nos foi entregue à imagem d’Ele.

E a pergunta que a porção bíblica deixa aberta, e que nenhum comentarista pode responder no nosso lugar, talvez não seja se ainda deixamos de falar a verdade. Talvez seja se ainda acreditamos que a nossa palavra é santa o suficiente para ser profanada.

Adivalter Sfalsin

O Silêncio Divino: Refletindo Sobre Nossas Orações

Por Que D-us Não Responde nossas Orações: Barreiras a Serem Quebradas para uma Conexão Mais Profunda

Muitos de nós passamos por momentos em que nossas orações parecem não ser respondidas, o que nos leva a questionar se D-us realmente está ouvindo ou se algo está bloqueando nossa comunicação. A Bíblia sugere que atitudes e ações específicas podem criar barreiras que nos impedem de experimentar o poder completo da oração. Ao explorar esses possíveis obstáculos, podemos entender melhor como abrir o caminho para um relacionamento mais profundo e uma vida de oração mais rica.

No centro de uma oração eficaz está a fé. Hebreus 11:6 nos lembra que “sem fé é impossível agradar a D-us.” A verdadeira fé vai além de uma resposta emocional; é um compromisso profundo em confiar em Sua existência e no poder para agir em nossas vidas. Essa crença não é apenas um exercício intelectual ou fruto de pensamento positivo; é uma confiança firme, baseada nas promessas divinas e nas experiências históricas de Seu povo, especialmente em Sua aliança com Israel. A experiência dos israelitas, como vista em Deuteronômio 1:45, ilustra que abrigar dúvidas ou descrenças pode criar uma barreira, impedindo D-us de responder às orações. Portanto, aproximar-se do Altíssimo exige uma crença firme em Suas promessas e uma confiança inabalável em Sua disposição de ouvir e responder. Em hebraico, o conceito de fé é capturado principalmente pela palavra אֱמוּנָה (emunah), que transmite muito mais do que uma simples crença. Em vez de significar apenas um consentimento mental, emunah incorpora confiança, firmeza e lealdade comprometida. Esta palavra tem sua raiz em אָמַן (aman), que significa “apoiar” ou “tornar firme,” enfatizando um sentido de confiabilidade, estabilidade e fidelidade. A fé, nesse sentido, não é passiva, mas envolve confiança ativa, lealdade e dedicação. O pensamento hebraico visualiza a fé como uma fundação firme ou um caminho seguro, algo que se pode “caminhar” ou “se apoiar”. Essa perspectiva ressalta que a fé não é apenas intelectual, mas também relacional e prática. Emunah exige participação ativa; é demonstrada por meio de nossas ações, escolhas e compromisso de viver alinhado aos caminhos de D-us. Assim, a verdadeira fé molda nossas vidas, enraizando-nos em uma confiança que é confiável e orientadora, aproximando-nos do Criador.

O pecado também pode se tornar um obstáculo. Isaías 59:1-2 explica que o pecado nos separa do Senhor, obscurecendo nossa linha de comunicação. Quando escolhemos conscientemente ações que contradizem Seus ensinamentos, nossas orações podem se tornar abafadas. Salmos 66:18 reforça essa verdade: “Se eu tivesse guardado iniquidade no meu coração, o Senhor não teria me ouvido.” Através do arrependimento genuíno e de um afastamento sincero do pecado, limpamos o caminho. O arrependimento não é simplesmente um pedido de desculpas; é um compromisso sincero de mudança. Ao abandonar o pecado, removemos obstáculos que podem comprometer nossa conexão espiritual, permitindo que nossas orações sejam ouvidas. Um espírito de obediência é igualmente essencial. D-us valoriza a obediência, e quando desconsideramos Sua orientação, corremos o risco de bloquear nossa comunicação. Provérbios 1:24-28 destaca que, quando ignoramos os chamados de D-us, Ele pode não responder aos nossos clamores em tempos de necessidade. A obediência não é apenas uma demonstração de respeito, mas uma maneira de nos abrirmos à Sua sabedoria. Tiago 1:22 nos aconselha a sermos “praticantes da palavra, e não apenas ouvintes.” Quando alinhamos nossas ações com Sua vontade, convidamos as respostas divinas às nossas orações, fortalecendo nosso vínculo espiritual.

Além disso, nossas ações em relação aos outros, especialmente aqueles em necessidade, têm um impacto profundo em nossa vida espiritual. Provérbios 21:13 diz: “Quem fecha os ouvidos ao clamor do pobre também clamará e não será ouvido.” A compaixão e a generosidade são expressões fundamentais de nossa fé, lembrando-nos de que o nosso tratamento para com os outros reflete diretamente nosso relacionamento espiritual. Quando abrimos nossos corações e mãos para aqueles ao nosso redor, cultivamos um espírito de bondade que é honrado, o que aprofunda nossa vida espiritual e fortalece nossa conexão na oração. Nossos relacionamentos, especialmente dentro do casamento, influenciam nossa vida espiritual. A qualidade de nosso relacionamento conjugal pode refletir e afetar nossa relação com o divino. Em 1 Pedro 3:7, os maridos são instruídos a honrar suas esposas para que suas orações não sejam impedidas. Esse princípio se aplica a todos os relacionamentos, lembrando-nos de que o amor e o respeito estão no cerne de uma vida espiritual saudável. Efésios 5:25-28 enfatiza a importância do amor altruísta, ressaltando que um casamento respeitoso reflete o amor divino e fortalece o vínculo espiritual. Ao cultivar harmonia e compaixão em nossos relacionamentos, criamos uma atmosfera onde nossas orações têm mais ressonância.

A autenticidade e as motivações são componentes vitais para uma oração eficaz. D-us valoriza sinceridade e humildade, rejeitando demonstrações vazias de fé. Isaías 1:15 revela a resposta divina à adoração insincera: “Quando estendeis as mãos, escondo de vós os olhos.” A hipocrisia, onde as ações não condizem com as crenças, enfraquece nossa conexão espiritual. Jesus aborda isso em Mateus 6:5, lembrando-nos de que a verdadeira oração não é sobre exibição pública, mas sobre honestidade de coração. Da mesma forma, nossas motivações na oração devem refletir um desejo genuíno de alinhamento com a vontade de D-us, e não a busca por ganhos pessoais. Tiago 4:3 adverte: “Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites.” Quando nossas intenções são egoístas, perdemos o verdadeiro propósito da comunhão com o Altíssimo. 1 João 5:14 nos assegura que, ao orarmos conforme Sua vontade, podemos nos aproximar com confiança. Um coração focado em glorificar a D-us e servir aos outros traz profundidade às nossas orações, fortalecendo nossa espiritualidade e conexão com o sagrado.

Além de evitar essas barreiras, a Bíblia enfatiza que uma vida de retidão amplifica o poder da oração. Tiago 5:16 escreve: “A oração do justo é poderosa e eficaz,” destacando que uma vida reta fortalece nossas orações. Embora sejamos considerados justos por meio de Cristo, Tiago aponta para uma justiça prática — um compromisso diário de viver segundo os padrões de D-us. O profeta Elias exemplificou isso quando suas orações sinceras foram respondidas com fogo divino, mostrando o impacto de uma vida dedicada. Viver uma vida justa, livre de compromissos e alinhada com os valores espirituais, permite que nossas orações tenham peso e influência. Salmos 34:15 afirma: “Os olhos do Senhor estão sobre os justos, e os seus ouvidos atentos ao seu clamor.” Ao nos comprometermos com uma vida reta, criamos uma linha de comunicação ininterrupta com o divino, onde nossas orações podem trazer mudanças reais.

Ao abordar essas barreiras, abrimos o caminho para uma vida de oração mais eficaz e gratificante. A retidão prática é mais do que crença; é um compromisso de se alinhar com a vontade divina, promovendo uma conexão ininterrupta. Quando eliminamos a descrença, o pecado persistente, a desobediência, o descaso, a desonra, a hipocrisia e as motivações egoístas, cultivamos um coração sincero que convida a presença de D-us. Uma vida de fé autêntica, arrependimento diário e desejo de viver de acordo com os padrões divinos traz poder transformador às nossas orações.

Adivalter Sfalsin