Uma questão de perspectiva.

 

 

Uma questão de perspectiva.

Na Bíblia duas civilizações se colidem em suas perspectivas e narrativas da experiência humana e em relação ao divino. Na narrativa dos gregos/romanos a máxima é a exaltação da expressão da beleza, do encanto, da admiração, o prazer por meios dos cinco sentidos e o dualismo. Em contraste, na narrativa dos hebreus a máxima é experimentar D-us através das experiencias diárias e o holismo.
Outro aspecto importante é entender que os hebreus estudavam para reverenciar ao divino, os gregos estudavam construir e acumular conhecimento. É nesse contexto cultural do primeiro e segundo século que surge os escritores do novo testamento na sua maioria esmagadora eram judeus e alguns gentios convertidos ao judaísmo. Isso quer dizer que eles podem até ter escrito em grego, mas pensavam em hebraico e lançavam não dos escrituras sagradas Tanak (Bíblia judaica) como base para expandir seus escritos e registrar os feitos do Messias.

Sem dúvida essas duas civilizações influenciam nossa cosmovisão, desejo explorar um aspecto que influi nossa perspectiva quando lemos a bíblia. Frequentemente somos ensinados que os atributos de D-us são qualidades atribuídas ao seu caráter divino e é de suma importância para qualquer cristão entendê-los. Normalmente esses atributos são divididos em 2 categorias;
1- Os atributos incomunicáveis de D-us: Onipresença, Onipotência, Onisciência, Soberania, Infinitude, Imutabilidade, Unidade, Eternidade, Asseidade etc…
2- Os atributos comunicáveis de D-us: Amor, Bondade, Misericórdia, Sabedoria, Justiça, Santidade, Veracidade, Liberdade, Paz etc…

Tipicamente com pouca variação esses atributos são ensinados na teologia sistemática cristã. Minha pergunta é: Essa é a maneira que o homem analisa, define, vê e sistematiza D-us, mas como será que D-us se revela ao homem?
É importante notar que há uma grande diferença entre a perspectiva grego/romana e hebraica. O grego está preocupado com a atribuição de valores, beleza e qualidades por isso que esses atributos são todos adjetivos. Ao contrário do grego o hebraico está preocupado com as ações, os verbos, o que se faz.
Por exemplo:
1- O grego define um dia agradável dessa forma: Que dia lindo, esplendido de sol quente!
2 – Já o hebraico, assim: Que dia de sol que sinto e que queima minha pele.

Enquanto o grego está preocupado com a qualidade do sol, “lindo, esplendido” o hebraico está preocupado com a ação do sol, “sinto, queima”

Mas o que D-us diz a respeito dele mesmo na bíblia? Vamos analisar a perspectiva de D-us ao se revelar ao homem, não esquecendo que essa perspectiva é hebraica.

1- “Eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito, para ser vosso Deus. Eu sou o Senhor vosso Deus” Números 15:41 , Êxodo 29:46, Levítico 11:45, Levítico 22:33, Verbo = Tirar, Fazer

2- “Vede agora que eu, eu o sou, e mais nenhum deus há além de mim; eu mato, e eu faço viver; eu firo, e eu saro, e ninguém há que escape da minha mão.” Deuteronômio 32:39 Verbo = Matar, fazer viver

3- “E ele lhes disse: Eu sou hebreu, e temo ao Senhor, o D-us do céu, que fez o mar e a terra seca.” Jonas 1:9 Verbo = Fazer

4- “Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há D-us; eu te cingirei, ainda que tu não me conheças;” Isaías 45:5

5- “Portanto o santificarás, porquanto oferece o pão do teu Deus; santo será para ti, pois eu, o Senhor que vos santifica, sou santo.” Levítico 21:8 Verbo = “santificar” = Separar para um propósito

6- “Porque eu sou o Senhor teu Deus, que agito o mar, de modo que bramem as suas ondas. O Senhor dos Exércitos é o seu nome.” Isaías 51:15 Verbo = Agitar

7- “E, acerca dos mortos que houverem de ressuscitar, não tendes lido no livro de Moisés como Deus lhe falou na sarça, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó?” Marcos 12:26 Verbo = Falar

8- “O Senhor guarda os estrangeiros; sustém o órfão e a viúva, mas transtorna o caminho dos ímpios.” Salmos 146:9 Verbo = Guarda (cuidar)

Como podemos observar acima D-us se revela em ações e algumas vezes em atributos que levam a ações. Como devemos nos relacionar com esse D-us? Ao atribuímos adjetivos a D-us constrói-se uma distância entre você e Ele, porque não podemos imitar Seus atributos, especialmente a perfeição.
E porque Ele se revela em ações? Eu suspeito que é mais fácil se relacionar ou imitar suas ações do que seus atributos, ao imitá-lo me torno semelhante a Ele e isso me aproxima.

Quando ele diz:
Portanto santificai-vos, e sede santos, pois eu sou o Senhor vosso Deus.” Levítico 20:7
Ou
“Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo.” 1 Pedro 1:16

Muitos de prontidão não conseguem se relacionar com esses versículos, primeiro porque a santidade é sinônimo de perfeição, que não é verdade; segundo, porque é um adjetivo, e adjetivos não são fáceis de imitar.
Na verdade a origem da palavra “santo” no hebraico não é um adjetivo mas sim um verbo קָדַשׁ qâdash = que quer dizer separar-se para um propósito específico, aqui está toda a diferença! Agora posso me relacionar melhor com o criador, Ele está me pedindo para fazer algo, um verbo, essa ação eu posso compartilhar com Ele e me tornar mais “igual” a Ele. Santificação?
Com certeza não posso tirar o povo do Egito nem abrir o mais vermelho, mas posso fazer justiça ao órfão e à viúva, amar ao estrangeiro, dando-lhe pão e roupa. Posso incorporar no meu dia a dia os valores morais ensinados na Torah, que são vitais para uma sociedade equilibrada, posso honrar meu pai e minha mãe, posso ser honesto nos meus negócios, ser fiel a minha esposa(o), praticar a justiça, amar a bondade, ser humilde, não fazer fofoca etc… Isso é o que ele pede de nós, não a perfeição.
Se entendermos isso, nossa familia, comunidade e sociedade se beneficiará muito com a presença de D-us agindo através de nossas ações.

“Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?”
Miquéias 6:8

O que D-us faz:
“Que faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa” Deuteronômio 10:18

O que eu posso fazer:
“A religião pura e imaculada para com D-us e Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo.” Tiago 1:27

Nosso desafio é entender essas diferenças, tentar entender o texto dentro do seu contexto histórico e cultural e depois aplicar em nossa vida, não impor ao texto nossa cosmovisão que é fortemente influenciada pela perspectiva grega.

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 6 “Morada no Céu”

Morada no Céu…
“Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar”
João 14:02

Esse versículo me intrigou por muitos anos, será que há casas no céu onde todos vamos morar quando partirmos desse mundo material para o mundo espiritual? Como seria uma casa no mundo espiritual? Sempre achei um pouco confuso a ideia e a conciliação das duas ideias “casa” que é algo material com o céu algo espiritual. Meus questionamentos não eram sem fundamento, penso que encontrei uma resposta mais coerente ao me aprofundar na raiz do versículo.
Para começar a Bíblia foi um livro escrito, na suma maioria esmagadora, por judeus, sejam profetas, discípulos ou apóstolos. Certo que partes do chamado “novo testamento” foi escrito em grego mas por judeus que tinham uma cosmovisão hebraica em contraste com o mundo grego romano. Como já discuti esse assunto noutro artigo intitulado: “Mente Hebraica x Grego-Romana” https://raizeshebraicas.com/2013/10/12/mente-hebraica-x-grego-romana-integra/ não vou entrar em detalhes, só salientar que a mentalidade Hebraica é holística e a grego/romana é dualista. Na visão grego romana, esse mundo material é mal, caído e inferior, portanto devo olhar para o mundo espiritual que é perfeito e superior, interpretando esse versículo dentro dessa ótica nos dá muito conforto em saber que temos uma mansão celestial esperando por nós quando morrermos, certo? Não tão rápido assim! Será que era isso mesmo que Yeshua estava dizendo nesse versículo e nesse capítulo?

Façamos uma análise desse versículo:
1 – A palavra “casa” no grego = οἰκίᾳ (pronúncia – oikia) plural possessivo que vem direto do hebraico = בָּתֵּימוֹ (pronúncia – bottermo) plural possessivo da palavra בַּיִת (bayit). Descreve uma habitação mas também quer dizer família ou lar.
2 – A palavra “moradas” no grego = μοναὶ (pronúncia monē) indica também habitação com uma pequena sutil diferença, essa é física mas pode também ser relacional. A palavra mais próxima em hebraico é מִשְׁכָן ((pronúncia miškān) que traduzimos como tabernáculo. E a plavra Sakan (שָׁכַן) habitar.
Em Êxodo 25:8 lemos: “E me farão um santuário (miškān), e habitarei (שָׁכַן ) no meio deles.”

Essa palavra morada, no grego = μοναὶ (pronúncia monē), aparece somente 2 vezes no novo testamento, aqui em João 14:2 e no versículo 23:

“Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada (monē).” V23

Vemos claramente no versículo 23 que Yeshua está se referindo a um relacionamento e não a uma morada física. Devemos entender que D-us não precisa de uma habitação física para morar, afinal ele é o dono do universo, a função do tabernáculo era pra que Ele pudesse ter uma relação próxima com o Seu povo. Relacionamento, é a chave para entendermos a intenção de D-us ao mandar o povo judeu construir uma habitação para Ele, quando chegamos no novo testamento esse objetivo continua o mesmo, relacionamento.
Da mesma forma que D-us habitou no tabernáculo no meio de Israel no deserto, Yeshua veio habitar no nosso meio João 1:14
“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.”
Novamente aqui está se referindo primordialmente ao relacionamento entre D-us e a humanidade, através da habitação física. Yeshua, não somente habitou em um corpo humano (casa, residência) mas relacionou-se conosco.
Enquanto as 2 palavras, casa e morada, se referem a habitação e residência, nosso melhor entendimento das palavras do mestre é relacionamento, se lermos todo o capítulo de João 14 vamos concluir que a ênfase é relação com D-us e observação dos mandamentos – Toráh, que é a prova que temos uma relação com o Criador. Não é uma habitação no futuro num mundo celestial e perfeito, a habitação não é geográfica mas sim relacional. Ter um imóvel no céu não é tão importante, mas ter uma relação próxima com o Rei sim.
Observamos também que o movimento é sempre do alto, celestial, para o plano terreno. D-us sempre envia algo ou alguém para se relacionar conosco, desde o jardim do Eden:
“…Senhor Deus, que passeava no jardim pela viração do dia…” Gen 3:8
Depois vemos no fechamento triunfal em Apocalipse esse mesmo movimento, céu – terra:
“….E eu, João, vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu…”Apocalipse 21:2
Essa frase idiomática parece nos indicar que nosso futuro será aqui numa terra renovada, a último visão de João em Apocalipse 21:1-3 é a nova Jerusalém descendo sobre a terra e D-us finalmente habitando entre aqueles que o amam. Portanto não é minha intenção decepcionar aqueles que estão esperando morrer e terem uma habitação celestial, mas gostaria de estimular a você reavaliar o que crê e buscar entender as escrituras em seu contexto histórico e cultural, grandes surpresas agradáveis te esperam.
Esse segundo entendimento (terra-céu) é baseado num mundo dualístico que nasceu com os filósofos da Grécia antiga e não dentro da perspectiva bíblica hebraica. Só lembrando Yeshua era judeu e não grego.

Autor: A Sfalsin