D-us Muda de Ideia?

“Acendeu-se a ira de D-us porque ele ia.” (Números 22:22)

Há uma pergunta escondida no coração desta história, e ela é maior do que Balaão. É uma das perguntas mais difíceis que se pode fazer sobre D-us: existe diferença entre aquilo que Ele quer e aquilo que Ele permite? Porque se não existe, então tudo o que acontece é vontade divina, e o mal se torna obra de D-us. Mas se existe, então há coisas que acontecem dentro do mundo de D-us sem que sejam o desejo de D-us, e precisamos entender como isso é possível sem que Ele deixe de ser soberano. A cena de Balaão foi construída, com uma precisão quase cruel, para nos forçar a encarar exatamente esse mistério.

Comecemos pela contradição, porque ela é real e não devemos suavizá-la cedo demais. À primeira embaixada de Moabe, D-us responde sem qualquer ambiguidade: “não irás com eles, porque este povo é bendito.” A palavra é definitiva. Não há cláusula, não há exceção, não há um “talvez mais tarde”. E, no entanto, quando a segunda comitiva chega, mais numerosa e mais honrada, D-us diz: “levanta-te e vai com eles.” O leitor pisca. A ordem se inverteu. E antes que ele consiga acomodar essa inversão, o texto acrescenta o golpe: Balaão levanta-se, sela sua jumenta, parte, e “acendeu-se a ira de D-us porque ele ia”. A mesma viagem foi proibida, depois autorizada, e depois punida. Três atitudes divinas sobre um único ato. O que devemos fazer com isso?

A resposta mais preguiçosa é dizer que D-us mudou de ideia, que a segunda delegação, mais imponente, de algum modo O demoveu. Mas essa leitura é impossível, e não apenas por razões teológicas. É impossível porque destrói a própria história. Se D-us mudou de ideia sob pressão, então Balaão tinha razão em insistir, e a insistência foi recompensada, e a ira que se segue não faz sentido nenhum. Não. Para que a narrativa seja coerente, precisamos aceitar uma verdade mais fina e mais incômoda: D-us não mudou. A permissão que Ele concedeu não era a revogação do “não”. Era outra coisa inteiramente. Era o “não” tomando uma forma nova, uma forma que Balaão, no seu íntimo, havia solicitado.

Aqui é preciso ir devagar, porque tudo depende de uma distinção que a nossa língua torna difícil. Quando dizemos que D-us “quer” algo, usamos uma única palavra para cobrir duas realidades muito diferentes. Há aquilo que D-us deseja, aquilo que reflete o Seu caráter, aquilo para o qual Ele criou o mundo. E há aquilo que D-us tolera, aquilo que Ele permite existir dentro do mundo por respeito à liberdade das criaturas que o habitam. A primeira é a Sua vontade. A segunda é a Sua permissão. E o abismo entre as duas é o espaço onde vive toda a liberdade humana. D-us quis que Balaão ficasse. D-us permitiu que Balaão fosse. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e só parecem contradição para quem imagina que a soberania divina consiste em impedir que qualquer criatura jamais faça algo contrário ao Seu desejo.

Mas por que D-us permitiria algo que não quer? Aqui tocamos no ponto mais delicado, e o mais bonito. Porque a alternativa seria pior. Um D-us que impedisse pela força toda escolha contrária à Sua vontade não teria criado pessoas. Teria criado marionetes. O amor, para ser amor, precisa poder ser recusado, e a obediência, para ser obediência, precisa poder ser negada. Ao dar ao homem a capacidade de dizer “não” a D-us, D-us assumiu o risco terrível de que o homem o dissesse. E quando o homem o diz, e insiste, e recusa a resposta clara que já recebeu, D-us não o esmaga. Ele recua um passo e permite que a criatura experimente o caminho que ela mesma escolheu. Os sábios do Talmud captaram isso numa frase que deveria nos assombrar: “o homem é conduzido pelo caminho que escolhe trilhar.” Note-se o verbo. O homem escolhe, e depois é conduzido. Há uma condução divina até no erro, mas é uma condução que apenas confirma a direção que o próprio homem apontou. D-us não arrasta ninguém para o precipício. Mas também não constrói uma cerca em volta de quem corre insistentemente na sua direção.

Foi exatamente isso o que aconteceu com Balaão, e o texto nos deixa vê-lo desde o começo. Repare no pedido que ele faz à segunda comitiva: “ficai também esta noite, para que eu saiba o que mais o Senhor me dirá.” Ouça o que está por baixo dessas palavras educadas. Ele já sabia o que o Senhor lhe diria, porque o Senhor já lhe dissera. O primeiro “não” fora completo. Não havia mais nada a saber. Quando alguém que já recebeu uma resposta clara volta a perguntar, não está buscando informação. Está buscando uma resposta diferente. Balaão não estava consultando a vontade de D-us. Estava esperando que ela se dobrasse à sua. E é precisamente aí, e não na estrada, que o seu coração se decidiu. Quando finalmente ouviu “vai”, ele ouviu o que já havia decidido ouvir. A ira divina não recaiu sobre o ato de partir. Recaiu sobre o desejo antigo que tornara aquela partida inevitável.

Há uma verdade sobre a natureza humana escondida nesse pedido de “mais uma noite”, e ela nos expõe a todos. Aprendemos a fazer com D-us aquilo que a criança faz com os pais: quando a mãe diz não, corre-se ao pai. Oramos sobre uma decisão, recebemos uma resposta que não nos agrada, e então oramos de novo, com outras palavras. Perguntamos a outro amigo. Abrimos a Escritura à procura de um versículo mais simpático. Chamamos isso de “buscar confirmação”, mas raramente é isso. Na maioria das vezes é negociação. E o perigo dessa negociação é que ela quase sempre tem sucesso, porque D-us, respeitando a nossa liberdade, acaba por nos deixar seguir. O “sim” que arrancamos à força tem a aparência exata de uma bênção. Só o tempo, e às vezes um anjo com a espada erguida no meio do caminho, revela que era outra coisa.

E é por isso que a palavra mais difícil de ouvir, em qualquer idioma, é “não”. Não porque seja áspera, mas porque exige de nós a única coisa que o nosso orgulho não quer dar: a rendição da nossa vontade a uma vontade maior. Dizer “sim, Senhor” quando Ele diz “sim” é fácil, pois nada nos custa. O caráter de uma pessoa não se mede pela alegria com que aceita o que deseja. Mede-se pela serenidade com que aceita o que não deseja. Toda a vida diante de D-us se resume, no fundo, a essa única disciplina: perguntar querendo obedecer, e não perguntar esperando negociar. São duas orações que usam as mesmas palavras e vêm de dois corações opostos. Uma diz “que se faça a Tua vontade”. A outra diz “que se faça a minha, e que Tu a chames de Tua”.

Convém, porém, guardar-nos de um mal-entendido, porque nem todo “não” de D-us é castigo, e nem toda porta fechada é rejeição. Aqui a história de Balaão se abre para uma consolação que ela mesma não desenvolve, mas que atravessa toda a Escritura. Quando D-us nos nega algo, a nossa suposição imediata é que fomos recusados, esquecidos, talvez punidos. Mas o “não” divino é, com muito mais frequência, um ato de cuidado. O rabino Jonathan Sacks contou certa vez ter perguntado à diretora de um centro de reabilitação de jovens o que, afinal, os fazia mudar de vida. A resposta o acompanhou para sempre: “provavelmente somos as primeiras pessoas que os amaram de forma incondicional, e as primeiras que se importaram o bastante para lhes dizer não.” Pense nisso. Aqueles jovens vinham de um mundo que sempre lhes dissera “sim”, que nunca lhes negara nada, e esse “sim” ilimitado os estava destruindo. O amor que os salvou foi um amor capaz de recusar. O “não”, ali, não era o oposto do cuidado. Era a sua forma mais alta.

De modo que temos, diante de nós, dois tipos de “não” e dois tipos de “sim”, e a maturidade espiritual consiste em saber distingui-los. Há o “não” que é proteção, a porta que D-us fecha porque atrás dela há um abismo que não vemos. E há o “sim” que é apenas permissão, a porta que Ele abre com tristeza porque insistimos tanto em atravessá-la que impedir-nos significaria destruir a nossa liberdade. O primeiro parece dureza e é misericórdia. O segundo parece bênção e é advertência. Balaão recebeu um “não” que era cuidado e o tratou como obstáculo. Depois recebeu um “sim” que era permissão e o tratou como aprovação. Errou nas duas leituras, e por isso precisou de uma jumenta que enxergava mais do que ele, e de um anjo de espada em punho, para finalmente compreender que a vontade que ele tomara por barreira era a única coisa que tentara salvá-lo.

Há uma última ironia que a narrativa guarda para o fim, e ela desmascara a raiz de todo o problema. O maior vidente de sua época, o homem cuja fama de enxergar o invisível cruzara fronteiras, cavalga completamente cego, enquanto o animal debaixo dele vê o anjo com clareza. O conhecimento espiritual, descobrimos, não garante a sensibilidade espiritual. É perfeitamente possível saber muito sobre D-us e não perceber que Ele está, naquele instante, de pé no meio do nosso caminho, tentando nos deter. Balaão sabia falar em nome de D-us. O que ele não sabia era ouvir quando D-us lhe dizia “não”. E talvez seja essa a lição mais desconcertante da história inteira: que o dom de proclamar a vontade divina e a humildade de aceitá-la são coisas distintas, e que a segunda, sem a qual a primeira se torna perigosa, é a mais rara das duas.

Vivemos numa época que ergueu o desejo à condição de oráculo. Ensinaram-nos que querer algo com intensidade suficiente é, por si só, uma forma de sabedoria, que o coração não erra, que a persistência de um anseio prova a sua legitimidade. É a filosofia de Balaão elevada a virtude. E dentro dessa lógica quase não sobra espaço para o “não”, pois todo “não” passou a soar como repressão, e toda barreira como injustiça. Perdemos, com isso, a capacidade de reconhecer a diferença entre a voz que confirma o que já decidimos e a voz que nos chama a algo que não escolheríamos. Confundimos a permissão com a bênção, e depois nos espantamos quando o caminho que tanto exigimos termina exatamente onde um anjo, muito antes, havia tentado nos impedir de chegar.

Balaão precisou de um jumento que falava e de uma humilhação pública diante de servos pagãos para enxergar o que estava diante dele o tempo todo. Nós não precisamos esperar tanto. A pergunta que a história deixa aberta, e que ela se recusa deliberadamente a responder em nosso lugar, não é se D-us muda de ideia. É se seríamos capazes, ao ouvir o Seu “sim”, de reconhecer quando Ele nos abençoa e quando apenas, com tristeza, nos entrega ao caminho que já havíamos escolhido antes mesmo de perguntar. E, mais fundo ainda: se seríamos capazes, ao ouvir o Seu “não”, de compreender que talvez seja essa, e não a permissão que tanto desejamos, a forma mais alta do Seu amor.

Adivalter Sfalsin

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