Quem Dera

O Único Mandamento Que D-us Não Deu

Reflexões sobre Deuteronômio 5:22–33

“Quem dera que eles sempre tivessem este coração para Me temer e guardar todos os Meus mandamentos, para que tudo lhes corresse bem, a eles e a seus filhos, para sempre!”
— Deuteronômio 5:29

Há uma frase estranha escondida no relato do Sinai. Estranha não tanto pelo que diz, mas pelo modo como é dita. Tudo ao redor está no imperativo. Dez palavras pronunciadas com autoridade absoluta. Fogo sobre a montanha. Trovões. Um povo recuando de medo e suplicando que Moisés escute em seu lugar. A cena inteira parece construída com a gramática do comando.

Então, de repente, a voz muda.:

D-us não diz: “Fareis.”
Não diz: “Guardarás.”
Diz: “Quem dera.”

É fácil passar depressa por essas palavras, como se fossem apenas uma expressão piedosa, um suspiro divino colocado entre dois mandamentos. Mas um suspiro na boca do Todo-Poderoso deveria ser suficiente para nos fazer parar. A leitura mais imediata é também a mais reconfortante: D-us lamenta a inconstância humana. Ele contempla um povo tomado de temor naquele momento, sabendo que em breve esse mesmo povo irá falhar. Assim, extraímos do texto uma lição sobre perseverança, sobre não depender de emoções passageiras, sobre conservar a chama depois que a montanha esfria.

Tudo isso é verdadeiro. Mas talvez não seja ainda o centro da questão. Porque o versículo não fala apenas daquilo que o ser humano é incapaz de fazer. Ele revela algo que D-us, embora tenha poder para fazer, escolhe não tomar à força.

Quem dará?

A expressão hebraica traduzida como “quem dera” é mi yitten: literalmente, “quem dará?”. É a linguagem do anseio nas Escrituras. É a voz de Jó durante as suas noites, de Moisés cansado no deserto, de David chorando por Absalão. Mi yitten não é a expressão de quem simplesmente dá uma ordem. É a linguagem de quem deseja algo que não pode ser recebido pela força sem que, no mesmo instante, deixe de ser aquilo que se desejava. E é essa expressão que HaShem escolhe no mesmo capítulo em que a Sua voz faz o povo tremer. Existe ainda um detalhe que as traduções dificilmente conseguem preservar. O texto diz levavam zeh: “este coração deles”. O demonstrativo aponta para algo presente, quase como um dedo estendido. D-us não está descrevendo um coração ideal, pertencente a alguma humanidade futura e aperfeiçoada. Ele aponta para o coração que batia ali, naquele instante, ainda aquecido pelo temor daquele dia, e diz:

“Este. Quem dera que este coração permanecesse.”

A palavra usada é levav, escrita com dois bêts. A tradição judaica ouviu nessa forma uma referência ao coração dividido, ao coração que abriga dentro de si duas inclinações, cada uma puxando para um lado diferente. Isso torna o desejo divino ainda mais surpreendente. D-us não está pedindo um coração sem conflitos. Ele deseja um coração dividido que continue escolhendo.

Talvez seja justamente aqui que toda a passagem se abra.

D-us pode ordenar a mão, a boca e os pés. Pode ordenar o Shabat, o dízimo e o descanso da terra. Pode dizer ao ser humano o que deve fazer e o que deve evitar. Mas a permanência do coração pertence a outra categoria. Ela deixa de ser permanência no momento em que é imposta.

Um coração obrigado a permanecer não permaneceu. Foi apenas mantido no lugar.

E uma coisa mantida no lugar não é necessariamente fiel. Uma pedra também permanece onde foi colocada, mas ninguém elogia uma pedra pela sua lealdade.

Por isso, exatamente nesse ponto, o Legislador troca o imperativo pelo anseio. Isso não é impotência. É respeito pela natureza daquilo que Ele deseja. O amor pode ser ordenado como vocação, mas não pode ser produzido como se produz obediência exterior. Se for arrancado à força, já não será amor.

Talvez por isso o versículo seguinte fale de caminho, e não de salto:

“Andareis em todo o caminho…”
— Deuteronômio 5:33

Halach: andar.

Um verbo vagaroso, feito de passos repetidos. Passos comuns, quase sempre invisíveis, que não possuem o esplendor do fogo no Sinai. Afinal, é fácil tremer quando a montanha está em chamas. O difícil é caminhar quando o céu volta a parecer comum.

A Torá, porém, não deixa esse desejo suspenso no ar.

Vinte e cinco capítulos depois, já perto do fim do mesmo livro, Moisés retorna à palavra “coração” e faz uma promessa espantosa:

“HaShem, teu D-us, circuncidará o teu coração e o coração da tua descendência, para amares a HaShem, teu D-us, de todo o teu coração.”
— Deuteronômio 30:6

É a milat halev, a circuncisão do coração.

Aquilo que D-us desejou no capítulo cinco, Ele anuncia que realizará no capítulo trinta. O suspiro transforma-se em promessa. O anseio torna-se compromisso.

Há aqui um paradoxo que não devemos resolver depressa demais. D-us não força o coração a amá-Lo, mas também não abandona o coração à sua própria incapacidade. Ele não o arrasta como quem arrasta um prisioneiro, nem o observa de longe como um espectador indiferente. Ele faz algo mais profundo: transforma-o de tal maneira que o coração possa finalmente desejar aquilo para o qual foi criado.

Os profetas recebem essa linha e a levam adiante por meio de uma imagem material.

Jeremias fala de uma nova aliança, uma Brit Chadashá:

“Porei a Minha Torá no interior deles e a escreverei no coração deles.”
— Jeremias 31:33

Ezequiel torna a imagem ainda mais concreta:

“Tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne.”
— Ezequiel 36:26

A ironia é bela demais para ser acidental.

Poucos versículos antes do “quem dera”, Deuteronômio registra que D-us escreveu as dez palavras “em duas tábuas de pedra” (5:22). A pedra é um ótimo material para conservar uma inscrição. Ela pode guardar a palavra durante séculos.

Mas não pode amá-la.

A pedra preserva perfeitamente aquilo que jamais será capaz de obedecer.

O que os profetas anunciam, portanto, não é uma Torá diferente. É a mesma Torá escrita em outro material. O problema nunca esteve na palavra gravada, mas na superfície que a recebia. Era necessário que a inscrição deixasse de estar apenas diante do ser humano e passasse a existir dentro dele.

Séculos depois, durante uma noite de Páscoa em Jerusalém, Yeshua — Jesus, o judeu do primeiro século que de fato era — ergue a taça diante dos Seus discípulos e declara:

“Este cálice é a nova aliança no Meu sangue.”
— Lucas 22:20

Ele não inventa a expressão. Ele evoca Jeremias, e todos os que estavam à mesa conheciam o eco.

Mais tarde, escrevendo a uma comunidade confusa em Corinto, Paulo fecha o círculo:

“Vós sois carta… escrita não com tinta, mas pelo Espírito do D-us vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações.”
— 2 Coríntios 3:3

Sinai e Ezequiel encontram-se na mesma frase. A pedra e a carne. O mandamento exterior e o coração transformado. O desejo pronunciado no Sinai começa a encontrar a sua resposta.

Nossa época possui uma dificuldade particular para compreender isso, porque aprendemos a tratar a permanência como técnica.

Temos aplicativos que contam sequências de dias, metas de leitura, promessas de janeiro, tabelas, métodos e sistemas destinados a nos transformar em pessoas melhores. Nada disso é necessariamente ruim. A disciplina tem o seu lugar, e seria tolice desprezar instrumentos úteis simplesmente porque não podem realizar milagres.

O problema começa quando pedimos à técnica que faça o trabalho da transformação.

Existe uma diferença silenciosa entre disciplinar um comportamento e receber um coração novo. Podemos ensinar o corpo a repetir uma ação. Podemos organizar as horas, remover distrações e construir hábitos. Mas nenhuma dessas coisas, por si só, consegue produzir amor.

Quando confundimos as duas, surge um tipo particular de cansaço: o cansaço de quem vive permanentemente endividado com a sua versão mais inspirada. O homem de hoje é assombrado não apenas pelos seus pecados, mas também por todos os planos perfeitos que fez numa segunda-feira e abandonou antes do fim da semana.

O que resta da cena do Sinai, portanto, é menos uma exortação do que um convite ainda aberto.

D-us viu um coração que poderia ter fixado com uma palavra, mas escolheu desejá-lo. Porque uma ordem exige obediência; um desejo espera resposta. E aquilo que espera uma resposta concede ao outro a terrível e magnífica dignidade de poder oferecê-la.

Talvez a pergunta final não seja se conseguiremos permanecer por nossa própria força. A essa pergunta, a experiência humana já respondeu muitas vezes.

Talvez a verdadeira pergunta seja outra:

Alguma vez pedimos a Ele o coração que Ele mesmo confessou desejar nos dar?

Adivalter Sfalsin

Confiança que Transforma

Um Chamado à Obediência Motivada pelo Amor

“Sou Teu servo; dá-me entendimento para que eu conheça os Teus testemunhos” (Salmos 119:125).

Este versículo revela uma verdade profunda sobre a fé e a obediência: a tensão entre nosso desejo natural de entender e o chamado divino para confiar. Como seres humanos, ansiamos por respostas, clareza e garantias fundamentadas na lógica. No entanto, a vida de fé frequentemente nos convida a abrir mão dessa necessidade e abraçar uma motivação que transcende o entendimento—uma obediência motivada pelo amor.

Pense nisso: quando D-us pede algo de você, qual é a sua primeira reação? Você busca entender o “porquê” ou escolhe confiar e obedecer? Essa pergunta pode causar desconforto, mas tem como objetivo nos desafiar e inspirar crescimento. O chamado de D-us à obediência não é uma demanda arbitrária de submissão ou fé cega; é um convite para aprofundar sua confiança n’Ele. É um pedido para permitir que o amor e a reverência—não apenas a lógica—moldem sua resposta, mesmo quando Seus mandamentos parecem misteriosos ou difíceis de compreender.

O Salmo 119 nos apresenta três palavras hebraicas profundamente conectadas que revelam a riqueza dos mandamentos Divinos: mandamentos (mitzvot), testemunhos (edot) e estatutos (chukim). Essa perspectiva nos ajuda a enxergar a obediência em sua totalidade multifacetada. A vontade de D-us toca todas as partes de nosso ser: Seus mandamentos apelam à razão, Seus testemunhos à memória e à gratidão, e Seus estatutos à confiança e à fé. Juntos, eles nos lembram que a obediência é tanto racional quanto relacional, exigindo o envolvimento de nossas mentes, corações e almas.

Confiar Sem Todas as Respostas – A cultura moderna frequentemente nos ensina a exigir explicações e confiar em nosso próprio raciocínio antes de agir. Mas a obediência bíblica desafia essa abordagem, invertendo o paradigma. Pense em Noé: D-us ordenou que ele construísse uma arca em preparação para um dilúvio—um evento que, na época, parecia completamente improvável. Ainda assim, Noé obedeceu “tudo o que D-us lhe havia ordenado” (Gênesis 6:22). Sua obediência não era fruto de compreender o plano, mas de confiar no Planejador. Agora, pense em Pedro em Lucas 5:4–7. Após uma noite inteira de pesca sem sucesso, Jesus lhe pediu que lançasse as redes mais uma vez. A lógica e a experiência diziam a Pedro que isso era inútil. Ainda assim, ele de forma contra intuitiva respondeu: “Por causa da Tua palavra, lançarei as redes.” O resultado? Uma pesca milagrosa e abundante, além de todas as expectativas.

Essas histórias não falam de obediência cega, mas de uma fé ancorada no caráter comprovado de D-us. O chamado para obedecer sem todas as respostas nos desafia a focar menos no “porquê” e mais no “Quem”. Elas nos ensinam que confiar em D-us não requer entender tudo—requer confiar n’Ele com tudo.

A vida nem sempre é preto no branco, na sua maioria é cinza. Decisões éticas podem se tornar nebulosas e emocionalmente desafiadoras. Por exemplo, considere este cenário moralmente complexo: durante a Segunda Guerra Mundial, se soldados nazistas batessem à sua porta e perguntassem se você estava escondendo judeus—e você estivesse—o que seria obedecer a D-us? Dizer a verdade e possivelmente condenar vidas inocentes, ou mentir para protegê-las? A realidade infeliz de viver em um mundo caído é que a obediência nem sempre é simples. Questões sobre verdade, justiça e amor podem se enredar de maneiras que desafiam respostas fáceis. Devo dizer a verdade se isso colocará alguém em perigo? Devo perdoar quando tudo em mim clama por justiça? Em momentos como esses, Salmos 119:125 oferece uma âncora. O salmista não busca entendimento para questionar a autoridade de D-us, mas para discernir como obedecê-Lo corretamente. Este é o coração de um servo: não dúvida, mas um desejo por clareza. A palavra hebraica para “entendimento” aqui é bîn, que significa discernimento—a habilidade de distinguir entre opções e determinar o curso de ação mais sábio. O salmista também busca conhecimento (yādaʿ), que é a aplicação prática da sabedoria em relacionamentos e decisões do dia a dia. Na sua própria vida, onde você precisa desse tipo de discernimento? Quais situações desafiam sua compreensão sobre o que significa obedecer? Seja navegando por dilemas éticos, perdoando alguém que te feriu profundamente, ou entrando em um futuro incerto, esses momentos testam não apenas nossa fé, mas nossa disposição de confiar na orientação Divina.

A verdadeira obediência não é transacional—é relacional. Não se trata de seguir regras por medo de punição, mas de responder ao amor Divino com amor em retorno. O exemplo supremo disso é Yeshua (Jesus) no Jardim do Getsêmani. Ao enfrentar a realidade excruciante da cruz, Ele orou: “Meu Pai, se possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como Eu quero, mas sim como Tu queres” (Mateus 26:39). Sua obediência não foi meramente um dever; foi um ato de amor profundo—pelo Pai e por nós. Esse tipo de obediência tem um custo. Pode custar seu conforto, sua certeza ou até mesmo seu orgulho. Mas também oferece algo inestimável: uma intimidade mais profunda com D-us. Quando obedecemos motivados pelo amor, nos aproximamos mais do coração d’Ele. Começamos a ver que Seus mandamentos não são fardos, mas bênçãos, projetados para nos levar à plenitude da vida.

Onde D-us está te chamando a confiar e obedecer, mesmo quando isso não faz sentido? Talvez Ele esteja pedindo que você dê um passo de fé em uma nova direção, que perdoe alguém que te feriu, ou que abandone o desejo de controle. Seja qual for o chamado, não se trata de submissão cega, mas de alinhar seu coração com o d’Ele. O caminho da obediência motivada pelo amor não é fácil, mas é transformador. Noé, Pedro e Yeshua (Jesus) enfrentaram momentos em que a obediência exigiu que renunciassem à compreensão e confiassem inteiramente na sabedoria Divina. Sua confiança levou a resultados muito maiores do que poderiam imaginar: salvação, abundância e redenção.

Você dará o próximo passo em fé—não porque entende tudo, mas porque confia plenamente n’Aquele que te chama? O coração de um servo não pulsa com a necessidade de saber tudo, mas com o desejo de amar e honrar o Mestre. Que esse seja o ritmo da sua vida.

Adivalter Sfalsin

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