Quando as Nações Voltaram a Ouvir

De Babel ao Sinai e do Sinai a Pentecostes: a história escondida nos “filhos de D-us”

Por que a Torá diz que as fronteiras dos povos foram traçadas segundo o número dos filhos de D-us

Reflexões sobre Ha’azinu (Dai ouvidos), Devarim (Deuteronômio) 32:7–12

“Quando o Altíssimo distribuía as heranças às nações, quando separava os filhos dos homens, estabeleceu os limites dos povos segundo o número dos filhos de D-us. Porque a porção de HaShem é o Seu povo; Jacó é o quinhão da Sua herança.”
Deuteronômio 32:8–9

Há uma ironia discreta no nome desta parashá (porção da Torá). Ha’azinu vem da raiz azan, ligada a ozen (ouvido), e não significa apenas “ouvi”: significa inclinar o ouvido, aproximar a orelha, prestar atenção àquilo que de outro modo passaria despercebido. Moisés inicia seu último canto pedindo exatamente isso. E o canto começa com uma ordem que parece simples demais para abrir um poema de despedida: “Lembra-te dos dias da antiguidade, atenta para os anos de geração em geração; pergunta a teu pai, e ele te informará” (Deuteronômio 32:7). Antes de qualquer doutrina, um exercício de memória. Como se o que vem a seguir só pudesse ser compreendido por quem estiver disposto a recuar bastante no tempo, até um acontecimento que a maioria dos leitores atravessa sem notar.

  1. Uma palavra que altera o mapa

A maioria das traduções de Deuteronômio 32:8 diz que o Altíssimo estabeleceu as fronteiras dos povos “segundo o número dos filhos de Israel”. Essa é a leitura preservada pelo Texto Massorético, fundamento da maior parte das traduções modernas da Bíblia Hebraica. Entretanto, manuscritos mais antigos preservam uma leitura diferente.

Um manuscrito de Deuteronômio encontrado entre os Manuscritos do Mar Morto traz benei Elohim, “filhos de D-us” ou “seres divinos”. A antiga tradução grega conhecida como Septuaginta apresenta a expressão “anjos de D-us”, aparentemente interpretando a mesma tradição textual. Em seu estudo sobre a passagem, Michael Heiser argumenta que “filhos de D-us” é provavelmente a leitura mais antiga e explica melhor o paralelismo dos versículos 8 e 9.

Há também uma razão narrativa importante. O versículo descreve um acontecimento ocorrido quando as nações foram divididas, muito antes do nascimento de Jacó e, portanto, antes que existissem os “filhos de Israel”. Dizer que as fronteiras foram estabelecidas conforme os filhos de Israel exigiria que o texto estivesse antecipando uma realidade futura. É possível, mas “filhos de D-us” se encaixa mais diretamente na cena descrita.

A expressão benei Elohim não apresenta esses seres como divindades iguais a HaShem. Na linguagem bíblica, elohim pode descrever habitantes do mundo espiritual sem lhes atribuir a natureza incomparável, a autoridade absoluta ou o poder criador de HaShem. É a mesma expressão que aparece em Jó, quando os benei ha’Elohim se apresentam diante de HaShem (Jó 1:6) e quando as estrelas da manhã cantam juntas na fundação do mundo (Jó 38:7). Eles pertencem ao domínio celestial; somente HaShem é o Altíssimo, o Criador e o soberano sobre todos.

Vale notar qual título divino o texto escolhe nesse exato momento. Não é o Nome pessoal, e não é Elohim: é Elyon (Altíssimo). É o mesmo título que Malki-Tsedeq (Melquisedeque) emprega ao bendizer Abrão, sacerdote de El Elyon, “o Possuidor dos céus e da terra” (Gênesis 14:19). Elyon não é o D-us de um povo entre outros. É o Soberano que está acima de qualquer fronteira que Ele mesmo venha a traçar. Quando a Torá quer falar da repartição de toda a humanidade, alcança justamente o Nome que nenhuma nação pode reivindicar como propriedade sua.

Essa pequena alteração textual abre diante de nós um mapa muito maior. Deuteronômio 32:8 não estaria apenas dizendo que D-us determinou as fronteiras geográficas dos povos. Estaria descrevendo a divisão das nações entre poderes celestiais subordinados, enquanto HaShem reservou para Si uma porção particular:

“Porque a porção de HaShem é o Seu povo; Jacó é o quinhão da Sua herança.”
Deuteronômio 32:9

O hebraico aqui é mais concreto do que as traduções deixam ver. “Porção” traduz chelek, a parte que cabe a alguém numa repartição. E “quinhão” traduz chevel, palavra que significa, ao pé da letra, corda. Não qualquer corda, mas o cordel que os antigos estendiam sobre o solo para medir e demarcar uma herança. É a mesma imagem que aparece no salmista quando diz que “as cordas me caíram em lugares deliciosos” (Salmo 16:6). Enquanto os territórios eram distribuídos, HaShem estendeu Sua própria corda de medir sobre uma única família. E o detalhe que costura tudo está em Deuteronômio 4:19, onde o mesmo verbo aparece: o exército dos céus foi “repartido”, chalak, a todos os povos. A raiz é idêntica à de chelek. Aquilo que Ele repartiu entre as nações e aquilo que Ele reservou para Si são descritos com a mesma palavra, e é justamente esse eco que faz a diferença entre as duas coisas saltar aos olhos.

As nações receberam seus territórios. Os seres celestiais receberam as nações. HaShem, porém, escolheu para Si um povo que ainda não existia.

Para compreender quando isso aconteceu, precisamos voltar a uma torre.

  1. A torre que pretendia impedir a dispersão

Depois do dilúvio, D-us repetiu à família de Noé o mandamento dado no princípio: “Frutificai, multiplicai-vos e enchei a terra” (Bereshit, Gênesis, 9:1). A humanidade deveria espalhar-se, ocupar a criação e refletir a autoridade do Criador por toda a terra.

Babel foi uma resistência organizada a esse propósito.

“Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo topo chegue aos céus; façamos para nós um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra.”
Gênesis 11:4

O problema da torre não era sua altura. Nenhuma construção humana poderia ameaçar fisicamente o trono de D-us. O texto, aliás, faz questão de sublinhar isso com uma ironia quase sorridente: a torre cujo topo alcançaria os céus obriga HaShem a descer para vê-la. “E desceu HaShem para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam” (Gênesis 11:5). Do ponto de vista do céu, o arranha-céu da humanidade precisa ser procurado.

O problema estava naquilo que a cidade representava: centralização, autonomia e a recusa coletiva de encher a terra.

“Façamos para nós um nome” era uma tentativa de produzir identidade sem o Criador. A humanidade desejava permanecer unida, mas era uma unidade organizada em torno da desobediência. Pretendia alcançar o céu enquanto recusava o mandato recebido do céu.

O hebraico guarda ainda uma última ironia. Eles queriam um shem, um nome. O que receberam foi Bavel, e o narrador liga esse nome ao verbo balal, confundir, misturar. Onde se buscava um nome imortal, restou uma palavra que significa confusão. A humanidade que falava “uma só língua e um só vocabulário” (Gênesis 11:1) descobriu que unidade sem submissão não é comunhão, é apenas coordenação, e coordenação se desfaz.

D-us então confundiu a linguagem dos construtores e os dispersou. Aquilo que eles mais temiam tornou-se precisamente o seu castigo:

“Dali os espalhou HaShem sobre a face de toda a terra; e cessaram de edificar a cidade.”
Gênesis 11:8

Gênesis descreve a dispersão horizontal: povos, línguas e territórios. Deuteronômio 32 parece revelar a dimensão vertical do mesmo acontecimento: essas nações foram distribuídas segundo o número dos benei Elohim.

A dispersão, portanto, não teria sido apenas linguística e geográfica. Segundo a leitura defendida por Heiser, D-us entregou as nações à administração de seres celestiais subordinados. Deuteronômio 4:19–20 apresenta uma distinção semelhante: os povos estão associados ao exército dos céus, enquanto Israel é retirado do Egito para tornar-se a herança particular de HaShem.

Isso não significa necessariamente que todos esses seres já fossem rebeldes no momento da distribuição. O texto permite compreender que receberam uma autoridade delegada e depois a corromperam. O Salmo 82 os apresenta governando injustamente, favorecendo os perversos e abandonando o necessitado. O salmo abre com uma cena de tribunal celestial, onde Elohim se levanta na assembleia divina, “no meio dos elohim”, e ali profere o veredito:

“Até quando julgareis injustamente e favorecereis a causa dos ímpios? Defendei o fraco e o órfão; fazei justiça ao aflito e ao necessitado.”
Salmo 82:2–3

O salmo termina pronunciando a sentença contra esses poderes e pedindo que D-us recupere aquilo que fora entregue:

“Levanta-Te, ó D-us, julga a terra, pois Tu possuirás todas as nações.”
Salmo 82:8

O verbo final é nachal, herdar, tomar posse daquilo que foi repartido. É a mesma raiz que descreve Jacó como a herança de HaShem em Ha’azinu. O salmista não pede que as nações sejam destruídas. Pede que sejam reaveadas. Guarde essa oração, porque a Escritura ainda vai respondê-la.

Babel dividiu a humanidade em nações. As nações ficaram sob governantes celestiais que não permaneceram fiéis. Mas D-us não abandonou definitivamente os povos. Logo após a dispersão de Gênesis 11, Ele chamou um homem em Gênesis 12.

  1. O povo escolhido para devolver a bênção

A eleição de Abraão não foi uma rejeição permanente das nações. Foi o início do plano para recuperá-las.

“Farei de ti uma grande nação, e te abençoarei, e engrandecerei o teu nome; e serás uma bênção […] e em ti serão abençoadas todas as famílias da terra.”
Gênesis 12:2–3

Babel havia dito: “Façamos para nós um nome.” D-us disse a Abraão: “Engrandecerei o teu nome.”

A distância entre as duas frases é a distância entre construir e receber. Um nome fabricado precisa de tijolos, betume e vigilância permanente; um nome dado precisa apenas de confiança. E há um detalhe fácil de perder: a promessa a Abraão menciona “todas as famílias da terra”, exatamente o vocabulário usado em Gênesis 10 para catalogar os povos dispersos. A bênção foi endereçada, desde o primeiro instante, à lista inteira.

Em Babel, a humanidade tentou construir uma grande cidade para evitar a dispersão. Com Abraão, D-us começou a formar uma grande nação por meio da qual alcançaria todas as famílias dispersas. A resposta de D-us ao orgulho das nações foi escolher uma família que deveria viver pela confiança.

Essa família desceu ao Egito, tornou-se numerosa, foi escravizada e depois retirada “da fornalha de ferro” para tornar-se a herança de HaShem. É precisamente essa história que a canção de Ha’azinu relembra:

“Achou-o numa terra deserta, numa solidão de uivos desolados; cercou-o, instruiu-o e guardou-o como a menina dos Seus olhos.”
Deuteronômio 32:10

A expressão traduzida por “menina dos olhos” é ishon eino, e ishon é o diminutivo de ish, homem. Literalmente, “o homenzinho do Seu olho”: a figura minúscula que alguém enxerga refletida na pupila de quem o encara de perto. Para ver esse pequeno reflexo, é preciso estar a poucos centímetros de distância. A imagem não fala apenas de algo precioso e protegido. Fala de proximidade. O povo é descrito como aquilo que aparece nos olhos de D-us quando Ele se aproxima o bastante para ser olhado de volta.

Os dois versículos seguintes completam a cena, e são o coração da porção:

“Como a águia desperta o seu ninho, paira sobre os seus filhotes, estende as suas asas, toma-os e os leva sobre as suas penas […] Assim só HaShem o guiou, e não havia com ele deus estranho.”
Deuteronômio 32:11–12

“Não havia com ele deus estranho”, el nechar. Depois de tudo o que o versículo 8 insinuou, a frase deixa de ser uma formalidade litúrgica e passa a ser uma declaração de estatuto. As nações tinham seus administradores celestiais. Israel não tinha nenhum. Nenhum intermediário, nenhuma potestade regional, nenhum ser delegado entre o povo e o Altíssimo. Essa é a diferença que Ha’azinu está desenhando: não que Israel fosse melhor, mas que Israel foi conduzido diretamente, badad, a sós com Aquele que o encontrou no deserto.

Israel não foi escolhido porque já era uma civilização poderosa. Foi encontrado no deserto, sem terra e completamente dependente. HaShem formou para Si um povo no lugar onde nenhuma nação poderia sobreviver por seus próprios recursos.

A eleição de Israel, portanto, nunca deveria ser entendida como simples privilégio étnico. Israel era a porção particular de HaShem, mas carregava uma responsabilidade universal. A família escolhida deveria tornar-se o instrumento pelo qual as famílias dispersas seriam novamente abençoadas.

Por isso, quando Israel chegou ao Sinai, D-us não o chamou apenas de Sua propriedade particular:

“Vós Me sereis um reino de sacerdotes e uma nação santa.”
Shemot (Êxodo) 19:6

Um sacerdote existe para servir diante de D-us em favor de outros. Se toda a nação era chamada para uma função sacerdotal, então sua eleição possuía um horizonte maior do que ela própria. Um sacerdócio sem ninguém para quem ministrar seria uma contradição. Israel foi separado dentre as nações para que, por seu intermédio, o conhecimento de HaShem voltasse às nações.

E foi no Sinai que as línguas de Babel reapareceram.

  1. A voz que se dividiu sem se fragmentar

O texto de Êxodo diz algo incomum sobre a revelação:

“Todo o povo via as vozes, as chamas, o som do shofar e o monte fumegando.”
Êxodo 20:18

O hebraico utiliza o plural qolot, “vozes” ou “sons”. O povo não apenas ouviu a voz; de alguma maneira, viu as vozes em meio ao fogo. A frase resiste à correção. Seria mais simples supor um deslize do redator, mas a mesma palavra qol serve, no hebraico, tanto para a voz humana quanto para o trovão, e o texto insiste em manter os sentidos embaralhados. No Sinai, ouvir e ver deixam de ser experiências separadas.

Séculos depois, a tradição judaica refletiu sobre esse plural. Em Shemot Rabbah 5:9, Rabi Yochanan ensina que a voz divina saía e se dividia em setenta vozes, correspondentes às setenta línguas das nações, para que todos os povos pudessem ouvi-la. Essa não é uma afirmação explícita do livro de Êxodo, mas uma antiga interpretação judaica da dimensão universal da revelação do Sinai. Outra tradição, preservada no Talmud (Shabat 88b), aproxima a mesma cena de Jeremias 23:29 e compara a palavra divina ao martelo que golpeia a rocha e a faz explodir em incontáveis fagulhas, sem que nenhuma delas seja menos fogo que a original.

O número setenta não é casual. Em Gênesis 10, a chamada Tabela das Nações apresenta tradicionalmente setenta povos. Depois dessa lista vem Babel, onde as línguas são confundidas e as nações espalhadas. Assim, quando a tradição rabínica fala da voz do Sinai dividindo-se em setenta línguas, ela está aproximando deliberadamente os dois acontecimentos.

Em Babel, uma língua tornou-se muitas e produziu incompreensão. No Sinai, uma voz tornou-se muitas sem deixar de ser uma.

Em Babel, a multiplicação das línguas dispersou. No Sinai, a multiplicação da voz tornou a revelação compreensível.

Em Babel, os homens tentaram subir ao céu para fazer seu próprio nome. No Sinai, D-us desceu sobre o monte para revelar o Seu Nome.

Há ainda uma expressão que a própria Torá deixa em aberto. Ao recordar o Sinai, Moisés diz que HaShem falou “com grande voz”, e acrescenta duas palavras difíceis: velo yasaf. Podem significar “e não acrescentou mais” (Deuteronômio 5:22), e é assim que muitas traduções entendem. Mas o Targum de Ônquelos, a antiga versão aramaica lida nas sinagogas, traduz por “e não cessou”. A voz que trovejou no monte, segundo essa leitura, nunca parou de soar. Ela apenas deixou de ser ouvida por quem parou de inclinar o ouvido, que é exatamente o que o nome desta parashá pede.

A Torá foi confiada particularmente a Israel, mas a voz que a pronunciava não podia ser aprisionada dentro das fronteiras de uma única língua. A eleição permanecia particular; o propósito continuava universal.

Todavia, o sinal do Sinai ainda aguardava outro acontecimento. Muitos séculos depois, judeus procedentes de diversas nações voltariam a reunir-se em Jerusalém para celebrar Shavuot (Festa das Semanas), a festividade associada à entrega da Torá. E novamente apareceriam fogo, voz e línguas.

  1. Quando o fogo pousou sobre pessoas

Atos 2 começa com os discípulos de Yeshua (Jesus), lido como o judeu do primeiro século que de fato era, reunidos durante Shavuot:

“Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente veio do céu um som, como de um vento impetuoso […] e apareceram-lhes línguas como de fogo, que se distribuíram, e sobre cada um deles pousou uma.”
Atos 2:1–3

Convém lembrar que “Pentecostes” é apenas o nome grego da festa, pentēkostē, “quinquagésima”, a contagem dos cinquenta dias a partir do ômer. Os presentes não estavam inaugurando uma data nova. Estavam em Jerusalém para a festa de sempre, na manhã em que o calendário de Israel comemorava a entrega da Torá.

A cena possui o vocabulário do Sinai: reunião, som vindo do céu, manifestação divina, fogo e voz. Mas existe uma diferença decisiva. No Sinai, o fogo desceu sobre a montanha. Em Jerusalém, o fogo pousou sobre pessoas.

A montanha tornou-se uma comunidade viva.

Os discípulos começaram a falar em outras línguas, e judeus da diáspora, provenientes de muitas regiões, ouviram “cada um em sua própria língua” as grandezas de D-us (Atos 2:6–11). Lucas escreve que estavam em Jerusalém homens piedosos “de todas as nações que há debaixo do céu” (Atos 2:5), e a expressão não é decorativa: é a mesma usada em Deuteronômio 4:19 para descrever os povos repartidos sob o exército dos céus. O narrador, então, faz o que nenhum outro escritor bíblico havia feito. Enumera a lista. Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia, da Capadócia, do Ponto, da Ásia, do Egito, da Líbia, de Roma, de Creta e da Arábia. É uma tabela das nações, escrita outra vez, agora ao contrário: em vez de povos saindo de uma cidade, povos convergindo para uma.

Atos não declara diretamente: “esta é a reversão de Babel”. Essa conclusão nasce da justaposição das imagens. Contudo, o contraste é difícil de ignorar.

Em Babel, as pessoas falavam, mas deixaram de compreender umas às outras. Em Jerusalém, pessoas de diferentes línguas ouviram e compreenderam a mesma mensagem.

O grego marca essa diferença com precisão. A palavra usada para as línguas de fogo é glōssa, que designa ao mesmo tempo o órgão e o idioma. Mas quando a multidão relata o que aconteceu, Lucas escolhe dialektos, o falar próprio de cada região, aquilo que hoje chamaríamos de língua materna. Não foi um esperanto celestial. Cada um ouviu no sotaque de casa.

Pentecostes não aboliu as línguas. O milagre não obrigou todos a voltar a falar um único idioma. Partos continuaram partos, medos continuaram medos, árabes continuaram árabes. D-us não destruiu a diversidade das nações; atravessou essa diversidade com uma mensagem que todos podiam compreender.

Por isso, talvez seja mais exato dizer que Pentecostes não apagou Babel: começou a desfazer sua maldição. A diversidade permaneceu; a incompreensão deixou de ser uma barreira. A humanidade não foi reunida em torno de uma torre construída de baixo para cima, mas em torno de uma voz enviada do alto.

Também não foi por acaso que isso aconteceu em Shavuot. O mesmo padrão atribuído pela tradição judaica ao Sinai reaparece diante dos olhos dos discípulos: fogo que se distribui, voz que se multiplica e povos que escutam em suas próprias línguas.

No Sinai, a voz de D-us foi descrita como destinada às setenta línguas. Em Jerusalém, essas línguas começaram efetivamente a anunciar as obras de D-us.

A promessa feita a Abraão estava atravessando as fronteiras.

  1. As nações que pertencem novamente ao Altíssimo

Vistos separadamente, Babel, Sinai e Pentecostes parecem episódios muito diferentes. Um fala de uma torre, outro de uma montanha e o terceiro de uma casa em Jerusalém. Quando colocados lado a lado, porém, formam um único movimento.

Em Babel, as nações são dispersas.

No Sinai, uma nação é formada para servir como reino sacerdotal.

Em Pentecostes, representantes das nações começam a ouvir novamente a voz de D-us.

A progressão vai da fragmentação à vocação e da vocação à restauração. O que fora dividido em Gênesis 11 começa a ser reunido em Atos 2, não por meio de uniformidade política ou cultural, mas por meio do Espírito de D-us.

Entre o Sinai e Jerusalém, porém, há um gesto que raramente é lido dentro desse mapa. Antes de enviar os doze ao mundo, Yeshua separa outro grupo e o envia adiante de Si: setenta discípulos (Lucas 10:1), o número exato das nações da Tabela. Eles voltam admirados com a autoridade que receberam, e a resposta que ouvem parece grande demais para uma missão tão breve: “Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago” (Lucas 10:18). Se as nações estavam sob poderes celestiais que se corromperam, então setenta enviados não são um detalhe administrativo. São uma declaração de intenções.

Isso também ilumina a missão entregue pelos discípulos de Yeshua. A mensagem deveria partir de Jerusalém, atravessar a Judeia e Samaria e alcançar “os confins da terra” (Atos 1:8). Não se tratava simplesmente de expansão geográfica. Era uma reivindicação das nações que haviam permanecido sob poderes espirituais corrompidos.

Foi assim que os primeiros discípulos leram o madeiro. Paulo escreve que ali os principados e potestades foram despojados e expostos publicamente (Colossenses 2:15), e lembra que a luta do povo de D-us nunca foi contra carne e sangue, mas contra autoridades e poderes espirituais nas regiões celestes (Efésios 6:12). Não é uma linguagem mitológica solta no ar. É a continuação exata da cena do Salmo 82. E quando Yeshua, ressuscitado, declara que “toda a autoridade Me foi dada no céu e na terra” e ordena que sejam feitos discípulos “de todas as nações” (Mateus 28:18–19), a oração do salmista recebe sua resposta. Levanta-Te, ó D-us, e possui todas as nações. A autoridade que fora delegada volta às mãos de quem a delegou, e o primeiro uso que Ele faz dela é enviar mensageiros aos povos.

O Salmo 82 havia pedido que D-us Se levantasse e herdasse todas as nações. Ha’azinu havia revelado que elas foram distribuídas entre os benei Elohim. Os profetas anunciaram um tempo no qual os povos voltariam a buscar HaShem. Pentecostes apresenta os primeiros frutos dessa restauração: homens provenientes das nações, reunidos em Jerusalém, ouvindo em suas línguas as grandezas do D-us de Israel.

E o próprio canto de Moisés já sabia como terminaria. Ha’azinu, que se abre distribuindo as nações entre poderes celestiais, se encerra com uma convocação: “Alegrai-vos, ó nações, com o Seu povo” (Deuteronômio 32:43). Não é por acaso que Paulo cite exatamente esse versículo ao explicar por que os povos foram alcançados (Romanos 15:10). A resposta estava guardada no fim da mesma canção que descrevera o problema. Quem inclinou o ouvido até o último verso já tinha ouvido.

No fim da história bíblica, a diversidade de Babel não desaparece. João contempla uma multidão “de todas as nações, tribos, povos e línguas” diante do trono (Apocalipse 7:9). As línguas continuam existindo, mas já não servem à separação. Todas participam da mesma adoração.

Talvez esse seja o detalhe mais belo. A redenção não termina com todos falando a mesma língua; termina com todas as línguas voltadas para o mesmo Rei.

Babel tentou produzir unidade sem submissão a D-us. Sinai revelou a voz de D-us por meio de um povo escolhido. Pentecostes fez essa voz atravessar novamente as fronteiras das nações.

A torre dividiu as línguas. A montanha anunciou que a voz não pertencia a uma só língua. E, em Jerusalém, o fogo mostrou que nenhuma língua permaneceria para sempre distante demais para ser alcançada.

Vivemos, de certo modo, na sombra das duas cenas ao mesmo tempo. Nunca houve tanta ligação entre os povos: traduzimos qualquer frase em segundos, falamos simultaneamente com o outro lado do planeta, construímos torres de vidro e de dados que sobem bem mais alto do que qualquer tijolo cozido de Sinear. E, no entanto, é difícil não notar que a compreensão não cresceu na mesma proporção. Continuamos capazes de ouvir tudo e de entender pouco. Talvez porque a técnica resolva a transmissão, mas não a atenção, e Babel nunca foi um problema de acústica.

Ha’azinu não começa pedindo que alguém fale. Começa pedindo que alguém incline o ouvido. Se a antiga leitura estiver certa, e o Targum também, então a grande voz do Sinai jamais cessou; ela apenas continua a atravessar fronteiras que insistimos em considerar intransponíveis. A pergunta que sobra, portanto, não é se D-us ainda fala às nações. É se, no meio de tanto ruído que nós mesmos fabricamos, ainda somos daqueles que inclinam o ouvido.

Adivalter Sfalsin

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.