Uma Vírgula, duas Teologias

Uma Vírgula, duas Teologias

O Poder de uma Vírgula: Como um Pequeno Sinal Mudou a Teologia

Se você já brigou com um professor de gramática sobre a necessidade de uma vírgula, prepare-se para algo ainda mais sério: uma pequena vírgula em Lucas 23:43 deu origem a duas teologias totalmente diferentes! Isso mesmo. Um simples detalhe de pontuação dividiu estudiosos, igrejas e até mesmo algumas amizades ao longo da história.

Vamos explorar esse mistério linguístico e ver como algo tão pequeno pode gerar implicações gigantescas.

O Texto em Grego era sem Vírgulas, sem Espaços, sem Problemas? Antes de apontarmos dedos para os tradutores modernos, precisamos entender como eram os manuscritos originais. O livro de Lucas possivelmente escrito originalmente em hebraico, mas esse é uma assunto para outro artigo,  e depois traduzido para o grego em grego koiné, esses primeiros manuscritos (chamados unciais) tinham algumas particularidades curiosas:

  • Tudo em letras maiúsculas (como se os escritores estivessem SEMPRE GRITANDO!);
  • Sem espaços entre as palavras (o que faz a leitura parecer um jogo de quebra-cabeça);
  • Sem pontuação (então, nada de vírgulas para organizar as ideias).

Os manuscritos mais antigos, como o Códice Sinaítico e o Códice Vaticano, seguem esse padrão. A ideia era que o leitor, com base no contexto, soubesse onde terminava uma frase e começava outra. Agora imagine a responsabilidade do tradutor: uma simples escolha de vírgula pode mudar tudo.  Alem disso, os manuscritos originais não tinham divisão de capítulos e versículos! Eles foram adicionados muito tempo depois:

Capítulos: Criados pelo bispo Stephen Langton em 1227 d.C.  e os Versículos: Introduzidos por Robert Estienneem 1551 d.C. Isso demonstra que, por muitos séculos, os leitores da Bíblia liam os textos como um fluxo contínuo, sem as divisões que usamos hoje.

Lucas 23:43: A Polêmica da Vírgula

Jesus está na cruz, cercado por dois ladrões. Um deles, arrependido, pede: “Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino.” E Jesus responde:

“Em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso.”

Mas peraí… essa vírgula estava mesmo aí no original? Não. Como não havia pontuação, os tradutores tiveram que decidir onde colocar a vírgula.

Primeira opção: Vírgula antes de “hoje”

“Em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso.” Significado: O ladrão estaria com Jesus no paraíso naquele mesmo dia. Isso sugere que, ao morrer, a alma do ladrão foi imediatamente para a presença de D-us. Defendida por: Igrejas católicas, ortodoxas e grande parte das igrejas protestantes tradicionais.

Segunda Opção: Vírgula depois de “hoje”

“Em verdade te digo hoje, estarás comigo no paraíso.” Significado: Jesus estava dizendo a promessa naquele dia, mas o cumprimento aconteceria no futuro (por exemplo, na ressurreição). Defendida por: Testemunhas de Jeová, Adventistas do Sétimo Dia e outros grupos que acreditam que os mortos “dormem” até a ressurreição.

Existem argumentos Bíblicos de Ambos os Lados

A favor da vírgula antes de “hoje” (entrada imediata no paraíso)

  1. Padrão da expressão de Jesus
    • Sempre que Jesus diz “Em verdade te digo”, Ele nunca adiciona “hoje” depois.
  2. Significado de “paraíso”
  1. 2 Coríntios 12:4 fala do “paraíso” como um lugar celeste.
  2. Apocalipse 2:7 fala do “paraíso de D-us”, sugerindo um destino imediato para os justos.
  3. Conforto imediato ao ladrão
  4. Jesus está consolando o ladrão na cruz. A promessa de algo imediato faz mais sentido no contexto.

A favor da vírgula depois de “hoje” (promessa futura)

  1. Os mortos “dormem” até a ressurreição
    • Eclesiastes 9:5: “Os mortos nada sabem.”
    • 1 Tessalonicenses 4:16-17: “Os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro.”
  2. Jesus não subiu ao céu no mesmo dia
  1. Em João 20:17, após a ressurreição, Jesus diz a Maria Madalena: “Ainda não subi para meu Pai.”
  2. Se Jesus não foi ao céu no dia da crucificação, como o ladrão poderia ter ido?
  3. O grego não tinha pontuação
  4. Como não havia vírgulas no texto original, a escolha da posição da vírgula é subjetiva.

Se você não pensava que uma vírgula poderia causar tanto debate, bem-vindo ao mundo da teologia! Esse caso mostra que a interpretação da Bíblia não é apenas uma questão de ler o texto, mas de entender o contexto e as escolhas dos tradutores. Essa discussão também nos ensina a sermos humildes no estudo das Escrituras. Não importa qual posição você defenda, o mais importante é estar disposto a aprender e a examinar a Palavra com coração aberto.

E então, você é do grupo “Vírgula Antes” ou “VírgulaDepois”? Independente da escolha, o que realmente importa é que a mensagem central continua a mesma: Jesus oferece redenção e a esperança da vida eterna para todos que O buscam com fé, seja hoje o no mundo por vir.

Agora, só tome cuidado ao escrever sua próxima mensagem. Afinal, uma vírgula pode mudar tudo! 😄

Adivalter Sfalsin

Tudo por uma pérola?

Tudo por uma pérola?

O Tesouro Escondido e a Pérola preciosa

Não há nada como a emoção de descobrir algo valioso—como encontrar uma nota de R$50 em um bolso de uma calça ou encontrar o último pedaço da sua pizza favorita quando achava que tinha acabado. Mas e se o tesouro que você encontrasse valesse tudo o que você possui? Esse é exatamente o ponto que Jesus destaca nas Parábolas do Tesouro Escondido e da Pérola preciosa (Mateus 13:44-46). Essas parábolas podem ser curtas, mas têm um impacto espiritual poderoso, desafiando-nos a repensar nossas prioridades e compromisso com o Reino dos Céus.

O Tesouro Escondido (Mateus 13:44) – Imagine que você está caminhando por um campo, distraído, quando—Bingo!—tropeça em um baú cheio de ouro. Em Israel no primeiro século, era comum enterrar objetos valiosos, já que não havia bancos disponíveis em cada esquina, muitas pessoas enterravam dinheiro, joias e bens preciosos para evitar que fossem roubados ou tomados por invasores. Fontes históricas, como Flávio Josefo e os Manuscritos do Mar Morto, confirmam que essa era uma medida de segurança amplamente adotada. Então, esse homem, percebendo o valor do que encontrou, enterra o tesouro novamente, vai e vende tudo o que tem e compra o campo legalmente. Perceba um detalhe: ele faz isso com alegria! Ele não lamenta o que perdeu—ele está radiante porque sabe que encontrou o melhor negócio da sua vida. 

A Pérola preciosa (Mateus 13:45-46) – Agora, conheça nosso segundo personagem—um comerciante que ganha a vida procurando pérolas preciosas. Diferentemente do primeiro homem, que encontra o tesouro por acaso, este está ativamente buscando algo valioso. Então, um dia, ele encontra a pérola—tão magnífica, tão rara, tão valiosa que ele vende tudo o que tem para comprá-la. Diferente da primeira parábola, a alegria não é mencionada explicitamente, mas sejamos honestos—ele deve estar extasiado com sua nova aquisição, tanto que vende tudo para adquiri-la. As pérolas eram símbolos de riqueza e status, sendo extremamente raras e caras. Comerciantes passavam anos viajando para encontrar as melhores pérolas. Assim, quando Jesus falou sobre um mercador que vende tudo para obter uma única pérola preciosa, seus ouvintes sabiam que era um sacrifício radical. 

Essas parábolas, portanto, não são histórias exageradas—elas refletem escolhas reais e decisivas que as pessoas daquela época poderiam enfrentar. A primeira lição essencial dessas parábolas é que o Reino dos Céus tem um valor absoluto e incomparável

  1. O Dilema entre Valor e Custo – Os estudiosos adoram debater: essas parábolas falam sobre o supremo valor do Reino ou sobre o custo do discipulado? Resposta: ambos! O Reino dos Céus é tão valioso que qualquer sacrifício exigido não apenas se justifica mas é um grande negócio. Yeshua nunca esconde o preço, mas Ele deixa claro: o que você ganha supera infinitamente o que você “perde” (Mateus 6:19-21).  “Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destruem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus (…). Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração.”

2. Compromisso e Sacrifício Radicais – As parábolas também deixam evidente que o Reino tem um custo. Em ambas as parábolas, os homens vendem tudo—sem meias-medidas, sem “vou guardar um pouco para garantir”. Yeshua reforça isso em Mateus 6:33: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” e Lucas 12:31: “Buscai antes o Reino de Deus, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”. Até mesmo Seus discípulos entenderam essa mensagem—Pedro diz em Mateus 19:27: “Olha, nós deixamos tudo para Te seguir!”. E Jesus não diz que ele está exagerando; em vez disso, assegura-lhe que tais sacrifícios trazem recompensas eternas (Mateus 19:28-30).

3. Trocando o Temporário pelo Eterno – Para um judeu do primeiro século, a ideia de sacrificar tudo pela sabedoria divina não era novidade. A literatura rabínica está cheia de histórias sobre sábios que renunciaram ao conforto material para estudar a Torá. Um relato famoso envolve o Rabino Johanan, se disse ter trocado o que foi criado em seis dias (o mundo) pelo que foi dado em quarenta dias (a Torá). Parece familiar? O princípio é o mesmo: trocar coisas menores pelo tesouro supremo.

4. O Reino dos Céus: Não Para Espectadores Casuais – Essas parábolas nos confrontam com uma verdade desconfortável: o chamado de Jesus para o Reino não é um convite casual—é um compromisso total. Não existe “vou seguir Yeshua enquanto for conveniente”. Ele é claro sobre o custo (Lucas 14:26-33), mas também sobre a recompensa (Mateus 6:19-21). Se hesitamos em abrir mão de nossos confortos, posses ou até mesmo de nossos próprios planos, precisamos nos perguntar: realmente entendemos o valor do que nos é oferecido?

Pensamento Grego vs. Pensamento Hebraico 

A ideia de sacrificar tudo por sabedoria não era estranha para os judeus do primeiro século, mas era muito diferente da visão da filosofia grega que influenciava e permeava a cultura hebraica de todos os lados. Enquanto os seguidores de Jesus estavam dispostos a renunciar tudo por um chamado divino, os filósofos peripatéticos (seguidores de Aristóteles) buscavam o conhecimento como uma jornada intelectual e racional, sem uma exigência de entrega total.

Os gregos buscavam a sabedoria pelo conhecimento racional, muitas vezes rejeitando a riqueza para focar na virtude e na razão. Jesus, porém, apresentou um chamado muito mais radical—não apenas intelectual, mas um chamado de entrega total a Deus. A filosofia grega valorizava o equilíbrio, mas Jesus exige compromisso total e inegociável.

É fácil concordar e dizer: “Sim, faz sentido!”, mas viver isso é outra história. O que te impede de se entregar completamente? Conforto? Segurança? Medo de perder algo? Talvez você esteja se agarrando a uma carreira, um sonho, um relacionamento ou simplesmente à ilusão de controle. Essas parábolas nos desafiam a refletir: estamos tratando o Reino como o maior tesouro de todos ou apenas como mais um item na lista de afazeres? As parábolas do Tesouro Escondido e da Pérola preciosa não são apenas histórias bonitas—elas exigem uma resposta. Seja encontrando o Reino por acaso ou buscando-o intencionalmente, o chamado é o mesmo: reconhecer seu valor e mergulhar de cabeça. O convite de Yeshua não é uma perda, mas uma troca—nossos tesouros passageiros pelo dEle, o eterno. E quando realmente entendemos isso, descobrimos que, como o homem do campo, podemos abrir mão de tudo com alegria.

Então, qual é o seu tesouro e você está disposto a trocá-lo por algo sublime e infinitamente maior?

Adivalter Sfalsin

Semente de mostarda

Pequenos Começos, Grandes Impactos

Você já se sentiu pequeno? Insignificante? Como se sua fé fosse apenas um grão minúsculo diante de uma montanha de desafios? Pois saiba que você não está sozinho. Até os discípulos tiveram aqueles momentos de “Senhor, estamos perdidos!” Antes de Jesus contar a Parábola da Semente de Mostarda, Ele compartilhou outras parábolas sobre o Reino—sementes caindo em diferentes solos, o joio crescendo com o trigo e uma lâmpada que deve brilhar no alto. Cada uma dessas histórias nos mostra como D-us tem uma forma única de estabelecer Seu Reino. 

E então, Jesus nos apresenta essa pequena, porém poderosa, parábola sobre a semente de mostarda—uma história tão curta e simples que é fácil ignorá-la. Mas não se engane. O impacto dessa parábola é como uma bomba. Prepare-se, pois vamos descobrir o que essa parábola significava naquela época e por que ainda é tão relevante hoje.

Vamos ao contexto. Jesus está na Galiléia, falando para uma multidão (como de costume), e decide descrever o Reino de D-us usando uma semente de mostarda:

“O Reino dos Céus é como um grão de mostarda, que um homem pegou e plantou em seu campo. Embora seja a menor de todas as sementes, quando cresce, torna-se a maior das hortaliças e se transforma em uma árvore, de modo que as aves do céu vêm fazer ninhos em seus ramos.”
(Mateus 13:31–32, cf. Marcos 4:30–32, Lucas 13:18–19)

Agora, se estivéssemos na plateia de Jesus, essa comparação nos surpreenderia—talvez até nos fizesse rir. Por quê? Porque as sementes de mostarda são minúsculas (cerca de 1-2 milímetros) e as plantas de mostarda… bem, parecem ervas daninhas. Elas não eram os majestosos cedros do Líbano ou as oliveiras imponentes que geralmente simbolizavam poder e grandeza. Não, Jesus escolheu a resistente e persistente mostarda, uma planta que se espalha rapidamente, invade os campos e é difícil de conter.

Se Jesus tivesse um consultor de marketing, ele provavelmente sugeriria algo como: “Senhor, que tal comparar o Reino a um carvalho imponente?” Mas Jesus escolheu a semente de mostarda de propósito—para desafiar as expectativas das pessoas.

Então, qual era a mensagem real de Jesus? Aqui estão três pontos-chave:

  1. O Reino começa pequeno – Ninguém esperava que o movimento do Messias começasse com um grupo de pescadores, cobradores de impostos e pecadores. Mas D-us ama pequenos começos. Ele não precisa de grandes exércitos, status social ou influência política para estabelecer Seu Reino. Ele começa com pessoas comuns, como você e eu.
  2. O crescimento é inevitável – A planta de mostarda pode começar pequena, mas uma vez que cria raízes, boa sorte em tentar pará-la! O Reino de D-us é assim. Uma vez plantado em nossos corações, em nossas famílias e em nossas comunidades, ele cresce—às vezes de forma discreta, às vezes de maneira disruptiva, mas sempre com poder. O Reino de D-us é imparável.
  3. Ele oferece refúgio – Jesus diz que a planta cresce tanto que as aves fazem ninhos em seus ramos. Isso não é apenas uma imagem poética—é uma referência profética a Ezequiel 17:22-24 e Daniel 4:10-12, onde árvores simbolizam grandes reinos que oferecem abrigo às nações. O Reino de D-us não é exclusivo—ele é um lugar de acolhimento para todos que buscam a D-us.

Agora que entendemos a metáfora, como podemos aplicá-la à nossa vida cotidiana?

  • Você se sente pequeno? Talvez suas orações pareçam fracas. Talvez seus esforços para compartilhar sua fé pareçam insignificantes. Fique firme! A semente de mostarda nos lembra que o tamanho não define o impacto—D-us sim.
  • Você está impaciente com o tempo de D-us? O crescimento leva tempo. Ninguém planta uma semente e acorda no dia seguinte com uma árvore gigante. Em um mundo de gratificação instantânea, precisamos lembrar que D-us opera no tempo d’Ele.
  • Você está abrindo espaço para os outros? Assim como a árvore oferece abrigo aos pássaros, o Reino de D-us deve ser um lugar de acolhimento, graça e inclusão. Estamos criando um ambiente onde outros podem crescer na fé? Note que devemos a incluir todos que buscam o Senhor com sinceridade,  mas não aceitar todos os comportamentos que vão diretamente contra os mandamentos divinos. 

Aqui está a grande questão: Confiamos no processo de D-us? Os discípulos provavelmente olharam ao redor e pensaram: “É só isso?” Mas hoje, bilhões seguem Yeshua. Talvez sua própria fé pareça fraca. Talvez você se sinta uma semente minúscula em um mundo gigantesco de problemas. Mas e se os maiores milagres de D-us começassem quando abraçamos nossa pequenez e confiamos em Sua grandeza? Você já entregou sua ideia de sucesso ao plano de D-us? Ou ainda está frustrado porque as coisas não estão crescendo rápido o suficiente?

Fé, como uma semente de mostarda, significa acreditar que D-us está agindo, mesmo quando ainda não podemos ver os resultados. 1 Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se veem. Hebreus 11:1

Sejamos sinceros: nem sempre a vida parece impressionante. Às vezes, a fé parece fraca, as orações parecem sem efeito e o progresso parece lento. Mas adivinhe? É assim que o Reino de D-us funciona!

  • Não se trata de começos grandiosos—mas de transformações duradouras.
  • Não se trata de resultados rápidos—mas de crescimento contínuo e inabalável.
  • Não se trata da nossa força—mas do poder de D-us operando através de nossa fidelidade.

Então, se hoje você se sente pequeno, invisível ou incerto—ótimo! Você está exatamente onde D-us gosta de começar Suas maiores obras. Plante a semente. Confie no processo. E veja D-us fazer o impossível.

Você não precisa forçar o Reino de D-us a crescer—ele crescerá. Sua missão? Permanecer firme. Continuar acreditando. Continuar semeando. Porque um dia, você olhará para trás e verá que a pequena semente de fé que plantou se tornou algo muito maior do que você imaginava.

E talvez, só talvez, você perceba que se tornou um abrigo para outros também.

Adivalter Sfalsin

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A Parábola do Filho Pródigo: O Pai Amoroso, Parte 4

A parábola do Filho Pródigo, contada por Jesus no Evangelho de Lucas (15:11-32), é amplamente reconhecida por sua profunda mensagem de arrependimento e redenção. No entanto, ao olharmos mais de perto a história através dos olhos do pai, descobrimos uma dimensão igualmente poderosa de amor incondicional, misericórdia e compaixão. Este artigo se propõe a explorar a narrativa do ponto de vista do pai, oferecendo uma reflexão sobre suas ações e atitudes. 

Essa parábola, comumente conhecida como o Filho Pródigo, na verdade, foca-se na bondade do pai. Um título mais apropriado para essa parábola seria O Pai Amoroso, que representa o amor de D-us por nós.

Desde o início da parábola, o pai é confrontado com um pedido profundamente ofensivo. Seu filho mais novo exige sua parte na herança, um ato que, na cultura judaica do século I, era equivalente a desejar a morte do pai. Tal pedido não apenas insultava a autoridade paterna, mas também desestabilizava a segurança financeira da família. No entanto, em um ato surpreendente de generosidade, o pai concede ao filho sua parte da herança sem protestar.

Essa resposta do pai é contrária às expectativas culturais da época. Em vez de punir ou rejeitar o filho, ele escolhe o caminho do amor e da liberdade, permitindo que o jovem siga seu próprio caminho. Essa decisão, embora aparentemente permissiva, reflete um profundo respeito pela autonomia do filho e uma confiança de que o amor paternal poderá, um dia, trazer o filho de volta.

Enquanto o filho mais novo embarca em uma jornada de autodescoberta e eventual decadência, o pai permanece em casa, aguardando pacientemente seu retorno. A parábola não detalha os sentimentos internos do pai durante essa espera, mas podemos inferir sua dor e preocupação. O amor de um pai não se extingue com a distância ou com as ações impetuosas de um filho.

Diariamente, o pai provavelmente olhava para o horizonte, esperando um sinal de seu filho. Esse ato de espera simboliza a esperança contínua e o desejo de reconciliação. A espera paciente do pai é um testemunho de sua fé inabalável no retorno do filho e na eventual restauração do relacionamento.

Quando o filho mais novo, tendo desperdiçado sua herança, decide retornar, o pai toma uma ação extraordinária. Ao avistar seu filho à distância, o pai corre ao seu encontro. Naquela sociedade, para um homem mais velho correr era culturalmente indigno e humilhante. As vestimentas longas usadas naquela época, parecidas com saias modernas, tornavam difícil correr sem levantar as roupas. Ao fazer isso, o pai expõe suas pernas, um ato considerado indecoroso e inaceitável. Essa atitude revela não apenas a profundidade de seu amor e compaixão, mas também seu desejo de proteger o filho do julgamento e ridículo da comunidade. Ele abraça o jovem e o cobre de beijos, um gesto que sinaliza não apenas perdão, mas também uma aceitação total e incondicional. Este momento de reencontro é carregado de emoção, mostrando a profundidade do amor paternal.

O pai não apenas perdoa o filho, mas também celebra seu retorno com uma festa grandiosa. Ele ordena que o melhor manto seja trazido, que um anel seja colocado no dedo do filho e que sandálias sejam colocadas em seus pés. Cada um desses gestos é simbólico da restauração da dignidade e do status do filho dentro da família. O anel, em particular, representa a autoridade e a aceitação total do filho como membro da família.

A celebração é um ato de júbilo que contrasta fortemente com a expectativa de punição ou recriminação. O pai convida toda a comunidade para participar da alegria do retorno do filho, destacando que a redenção é um motivo de celebração coletiva.

A resposta do filho mais velho à celebração revela outra dimensão do amor e da sabedoria do pai. O filho mais velho, ressentido, recusa-se a participar da festa, sentindo-se injustiçado. Novamente, o pai demonstra paciência e compreensão. Ele sai para encontrar o filho mais velho e implora que ele entre e compartilhe da alegria.

Neste diálogo, o pai reafirma seu amor por ambos os filhos. Ele reconhece a lealdade do filho mais velho, mas também explica que a celebração é apropriada porque o irmão perdido foi encontrado. Este ato final de mediação sublinha a busca do pai por harmonia e reconciliação familiar.

Os dois filhos na parábola simbolizam maneiras distintas de viver. O filho mais jovem opta por abandonar os ensinamentos do pai, rejeitando os padrões e valores morais em busca de uma realização que só poderia ser alcançada através de uma relação íntima com seu pai. Em contrapartida, o filho mais velho representa aqueles que permanecem na casa do pai, observando os mandamentos e tentando seguir os preceitos e ensinamentos, mas cujo coração está distante do pai, sem desenvolver uma relação próxima, apesar de estarem fisicamente presentes.

A Parábola do Filho Pródigo oferece uma visão profunda sobre a dinâmica familiar e o amor incondicional de um pai. As ações do pai desafiam as normas culturais e revelam uma generosidade e compaixão extraordinárias. A história nos lembra que, independentemente de quão longe nos afastemos, sempre há uma oportunidade de redenção e renovação. O amor inabalável do pai na parábola reflete o amor divino, convidando-nos a abraçar o perdão, a reconciliação e a graça em nossas próprias vidas.

Os filhos representam os extremos do espectro do pecado: um abandona os preceitos do Senhor e vive uma vida de pecado longe da casa do pai, enquanto o outro simboliza os religiosos que dedicam seu tempo à observância dos mandamentos, guardando-os quase que como uma obrigação, sem sinceridade; ele também vive em pecado, apesar de estar próximo ao pai. Ambos estão errados, vivendo em extremos opostos. A mensagem de Jesus é um chamado para uma vida íntima com D-us. De uma forma típica dos rabinos do primeiro século, ele não conclui a parábola, deixando-a aberta para interpretação e conclusão conforme a decisão de cada um dos seus ouvintes. O convite está feito; o desfecho dessa parábola depende do ouvinte. O mesmo se aplica a nós: qual filho escolheremos ser?

Adivalter Sfalsin

A Parábola do Filho Pródigo: Justiça Própria, Orgulho e Graça – Parte 3

A Parábola do Filho Pródigo: Justiça Própria, Orgulho e Graça. A parábola do Filho Pródigo oferece uma visão rica sobre as dinâmicas familiares e culturais, especialmente quando analisada através da perspectiva do filho mais velho. Suas ações e reações, embora menos discutidas, carregam lições morais importantes. Aqui estão algumas reflexões sobre a atitude do filho mais velho e as lições que podemos extrair:

Na cultura judaica do século I, o filho mais velho tinha o papel de mediador e guardião da harmonia familiar. Seu silêncio diante da demanda do irmão mais novo por herança é, portanto, uma violação de seu dever. Esta atitude revela a importância de entender e cumprir nossas responsabilidades dentro do contexto familiar e social. A omissão de responsabilidade é, em si, uma forma de negligência e desrespeito. Essa reflexão nos leva a questionar até que ponto estamos conscientes de nossas responsabilidades e como nossa omissão pode impactar negativamente aqueles ao nosso redor.

Ao aceitar a divisão da herança sem protesto, o filho mais velho demonstra uma forma de cumplicidade passiva, possivelmente motivada por interesse pessoal, já que ele teria direito a dois terços da herança. Isso nos ensina sobre os perigos da ganância e da indiferença moral. Agir apenas em benefício próprio, mesmo que de forma passiva, pode ser tão prejudicial quanto atos de desrespeito mais explícitos. Sua atitude mostra um apego excessivo aos bens materiais. Ao focar nos ganhos financeiros, ele negligencia os valores familiares e emocionais. A lição aqui é a importância de priorizar relações humanas e valores morais sobre os bens materiais. A verdadeira riqueza está nos relacionamentos e no cumprimento de deveres morais. Esta reflexão é especialmente relevante em uma sociedade contemporânea que muitas vezes valoriza o sucesso material acima das conexões humanas.

Ele demonstra ressentimento quando o irmão pródigo retorna e é recebido com uma festa. Este ressentimento destaca a importância de compreender e aceitar a graça e o perdão. Em vez de celebrar a reconciliação e o retorno do irmão, ele se sente injustiçado. O versículo 29 diz: “Mas ele respondeu ao seu pai: ‘Olha! Todos esses anos tenho trabalhado como um escravo ao teu serviço e nunca desobedeci às tuas ordens. Mas tu nunca me deste nem um cabrito para eu festejar com os meus amigos”. Devemos aprender a perdoar e a alegrar-nos com a redenção alheia, em vez de cultivar sentimentos de amargura. O uso da palavra “escravo” é significativo, pois ressalta que o filho mais velho percebia seu trabalho como uma obrigação árdua e opressiva, em vez de um ato de amor e devoção ao pai. Essa percepção é fundamental para entender a mentalidade do filho mais velho. Ele não vê seu serviço como um ato de amor ou lealdade voluntária, mas como uma carga pesada e um dever imposto. Essa mentalidade reflete uma visão transacional da relação com o pai, baseada em mérito e recompensa, em vez de uma relação amorosa e graciosa.

O ressentimento do filho mais velho serve como um lembrete de que a inveja e o ciúme podem obscurecer nossa capacidade de reconhecer e celebrar a bondade e a misericórdia. Sua reação é marcada por um senso de justiça própria. Ele acredita que, por sempre ter obedecido, merece mais reconhecimento e recompensas. Este orgulho impede-o de ver a situação através da lente do amor e da compaixão. A lição aqui é que a justiça própria e o orgulho nos cegam para a verdadeira natureza do amor e da graça. Assim como o filho mais velho, precisamos aprender sobre a graça e a compaixão demonstradas pelo pai. A capacidade de perdoar e acolher sem reservas é um valor central da parábola. Assim, somos lembrados da importância de sermos compassivos e generosos, mesmo quando nos sentimos lesados ou injustiçados. A justiça própria pode levar à rigidez moral e à incapacidade de perceber a necessidade de graça e perdão para todos, inclusive para nós mesmos.

Jesus estava ministrando a um grupo diversificado de pessoas, incluindo publicanos (cobradores de impostos) e pecadores, que se aproximavam para ouvi-lo. Os fariseus e escribas, líderes religiosos da época, criticavam Jesus por acolher essas pessoas e comer com elas. Eles murmuravam contra Jesus, questionando por que ele se associava com pecadores. Em resposta às críticas dos fariseus e escribas, Jesus conta uma série de três parábolas, todas com o tema da misericórdia e do arrependimento:

Parábola da Ovelha Perdida (Lucas 15:3-7): Um pastor deixa noventa e nove ovelhas para buscar uma que se perdeu, e há grande alegria quando a encontra. Esta parábola ilustra o valor individual de cada ser humano e a alegria no céu por um pecador que se arrepende.

Parábola da Dracma Perdida (Lucas 15:8-10): Uma mulher procura diligentemente uma moeda perdida e celebra com alegria quando a encontra. Esta história reforça a ideia da busca incessante por aquilo que é valioso e o júbilo ao encontrá-lo, simbolizando a alegria divina ao recuperar o perdido.

Parábola do Filho Pródigo (Lucas 15:11-32): Um filho mais jovem desperdiça sua herança em uma terra distante, mas é recebido com alegria e perdão pelo pai quando retorna arrependido. Esta parábola é uma poderosa narrativa sobre arrependimento, perdão e restauração.

Na parábola do Filho Pródigo, a figura do filho mais velho representa os fariseus e escribas, que se sentem injustiçados pela recepção misericordiosa que Jesus dá aos pecadores arrependidos. Muitas pessoas religiosas se sentem mais justificadas por estarem cumprindo as normas religiosas esperadas. Elas podem se identificar com o filho mais velho, acreditando que a sua obediência e diligência nas práticas religiosas as tornam merecedoras de reconhecimento e bênçãos. No entanto, a parábola desafia essa visão ao mostrar que a verdadeira justiça divina não está baseada apenas na obediência estrita às normas, mas na capacidade de perdoar, amar incondicionalmente e acolher com generosidade. Este chamado à compaixão e à graça nos lembra que a essência da fé vai além do cumprimento das regras e está enraizada em atitudes de amor e misericórdia para com todos. Assim, a parábola desafia tanto os líderes religiosos quanto os fiéis a reavaliar suas atitudes e abrir seus corações para a verdadeira essência do amor divino.

Além disso, a parábola nos convida a refletir sobre como tratamos aqueles que consideramos desviados ou menos dignos. Em um contexto contemporâneo, isso pode se traduzir em uma chamada à inclusão, aceitação e apoio aos marginalizados e vulneráveis em nossa sociedade. A atitude do pai, que corre ao encontro do filho pródigo, nos desafia a sermos proativos em nossa compaixão e generosidade, acolhendo os outros com braços abertos e corações cheios de amor.

A atitude do filho mais velho na parábola do Filho Pródigo revela lições profundas sobre responsabilidade, ganância, justiça própria e a necessidade de compaixão e graça. Esta narrativa nos desafia a refletir sobre nossas próprias atitudes e a buscar uma compreensão mais profunda do amor ao próximo e da reconciliação, tanto no contexto familiar quanto no espiritual. Ela nos lembra que todos, independentemente de nossos erros ou dos caminhos que escolhemos, são merecedores de amor e perdão, e que a verdadeira fé vai além do cumprimento das regras e está enraizada em atitudes de amor e misericórdia para com todos.

No próximo artigo, iremos explorar o amor incondicional do pai.

Adivalter Sfalsin

Nota: Sou profundamente grato àqueles que me ajudaram a entender as parábolas dentro de seu contexto adequado, incluindo Dr. Dwight Pryor, Dr. David Divin, Dr. Skip Moen e outros.

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 10: “Ide, e dizei àquela raposa…”

Naquele mesmo dia, chegaram uns fariseus, dizendo-lhe: ‘Sai e retira-te daqui, porque Herodes quer matar-te.’ E respondeu-lhes: ‘Ide, e dizei àquela raposa: Eis que eu expulso demônios e efetuo curas, hoje e amanhã, e no terceiro dia sou consumado.'” (Lucas 13:31-32)

Nessa passagem bíblica, Yeshua (Jesus) está sendo advertido pelos fariseus sobre a perseguição que Herodes Antipas havia lançado contra Ele. Então, Yeshua (Jesus) responde: “Ide, e dizei àquela raposa.” Mas o que Yeshua quis dizer com “dizei àquela raposa”?

Lembro-me dos meus anos de menino, quando me contavam histórias em que a raposa era apresentada como um animal sagaz, inteligente e astuto. Talvez essa seja a imagem que temos ao ler essa passagem bíblica. No entanto, vamos tentar colocá-la em seu contexto original no mundo hebraico/grego.

Conforme os estudos de David Bivin, “a metáfora ‘raposa’ provou ter um significado dúbio para falantes de línguas europeias. Muitos especialistas do Novo Testamento seguiram o sentido claro e amplamente conhecido da palavra grega sem primeiro fazer uma pergunta importante: ‘Como a palavra ‘raposa’ era usada pelos judeus?’ A resposta revela uma diferença no uso do hebraico e do grego, e deve servir como um lembrete de que sempre se deve interpretar as metáforas dentro do ambiente cultural adequado.”

No grego, a palavra raposa é “alōpēx”, associada à esperteza e ligeireza em ataques noturnos a outros animais, além de seu oportunismo em roubar presas já mortas por animais mais fortes. Portanto, os gregos associavam essas características a pessoas oportunistas, inteligentes e astutas.

Entretanto, a palavra raposa no hebraico é “שׁוּעָל” (shū’āl), que tem um significado muito mais amplo. Vejamos o uso mais abrangente nos escritos dessa época:

Como astúcia: Na Midrash R. Eleazar ben R. Shim’on [final do segundo século d.C.], disse: “Os egípcios eram astutos e é por isso que as Escrituras os comparam a raposas.” (Cântico dos Cânticos 2:15).

Como ardilosa: No comentário babilônico do Talmud (Berachot 61b), o Rabi Akiva contou uma parábola:

“Uma raposa estava caminhando ao longo de um rio e viu peixes correndo para lá e para cá. Ela disse: ‘Do que vocês estão fugindo?’

Disseram-lhe: ‘As redes que os humanos espalham para nós.’ Ela disse: ‘Por que vocês não vêm para a terra firme? Vamos viver juntos, como meus ancestrais viveram com seus ancestrais.’ Disseram-lhe: ‘És tu aquele de quem se diz que és o mais sábio dos animais? Você não é sábio, mas tolo! Se, em nosso ambiente de vida, temos motivos para ter medo, quanto mais no ambiente de nossa morte!’”

Como pretensão: No hebraico, o significado mais abrangente é extraído do contraste que os judeus faziam entre o leão e a raposa. Um homem com poder e maior excelência intelectual era comparado ao leão, enquanto um homem com menor excelência era associado à raposa. Aqueles que tinham a pretensão de ser algo que não eram, eram associados às raposas. O leão tem uma juba grande e pomposa; a raposa, por sua vez, é um animal esquelético, mas com um pelo grande e pomposo, aparentando ser grande e importante, mas sem consistência alguma.

Com conotação moral: O Rabino Mathia ben Harash disse: “Seja a cauda dos leões, e não a cabeça das raposas.” (Mishná Pirkei Avot 4:15). Isso propõe a ideia de que é melhor ser alguém de baixa posição, mas com uma vida moral e espiritual correta, do que estar entre aqueles de posições superiores e poderosos, mas vivendo uma vida degradada e corrompida.

Resumindo, o grego associa a raposa com astúcia e esperteza, enquanto o hebraico é mais abrangente, adicionando pretensão e conotação moral. O texto, ao ser traduzido para nossa língua, perdeu parte vital de seu significado, incluindo a verdadeira dinâmica da repreensão de Yeshua (Jesus), implicitamente dando um falso significado positivo à sua resposta, exatamente o inverso da intenção do Mestre.

Yeshua (Jesus) chamou Herodes de raposa depois que alguns fariseus relataram que Herodes queria matá-lo. A resposta de Jesus desafiou os planos de Herodes: “Diga a Herodes que primeiro tenho que trabalhar.” Mostrando aqui que Ele tinha o poder, e não Herodes; “dizei àquela raposa…”

Herodes se considerava um leão poderoso, mas Yeshua (Jesus) o rotulou de raposa, dando a entender que Herodes não era genuíno, verdadeiro e legítimo. Ele o comparou a uma raposa que, apesar de ardilosa, está moralmente corrompida, é pomposa e, acima de tudo, pretensiosa, sendo, na verdade, uma fraude.

Para entendermos as palavras de Yeshua (Jesus), devemos compreender quem era Herodes Antipas. Ele era filho de Herodes, o Grande, com Malthace (Samaritana), e neto de Antípatro, do povo idumeu ou edomita, descendentes diretos de Esaú, filho de Isaac e Rebeca, irmão gêmeo de Jacó. Antípatro se converteu ao judaísmo, e Herodes e seu filho Herodes Antipas se autointitulavam reis dos judeus por causa da herança de seus antepassados até Esaú, aquele que vendeu a primogenitura para seu irmão Jacó, mas nunca aceitou ter perdido. Na verdade, o trono de Davi tinha sido prometido por Deus para a linhagem de Jacó. Herodes Antipas se tornou um usurpador do trono, e o povo judeu não o aceitava como líder, muito menos como rei.

Yeshua, ao chamá-lo de raposa, estava se referindo a vários aspectos do poder usurpado e do caráter de Antipas. Antes de tudo, ele era ilegítimo e inapto para o cargo que ocupava. Como a imagem do rei era associada ao leão, ao rotulá-lo de raposa, Yeshua estava insinuando que Herodes era um pomposo pretensioso que só tinha poder por usurpação, um impostor. Assim como a raposa é pomposa, cheia de pelo no exterior, mas, na verdade, é um animal esquelético.

Yeshua (Jesus), o legítimo sucessor ao trono pela linhagem de Davi (Lucas 1:32), mostra sua autoridade ao responder e desafiar os planos de Antipas: “Diga a Herodes que primeiro tenho que trabalhar.” Jesus não estava insinuando que Herodes era astuto; ao contrário, Ele estava comentando sobre a inaptidão ou incapacidade de Herodes em cumprir sua ameaça. Todo o poder que ele tinha, só o tinha porque Deus havia permitido. Jesus questiona a linhagem, a estatura moral e a liderança do tetrarca, colocando-o “em seu lugar”. Isso se encaixa exatamente no quarto uso rabínico de “raposa” – conotação moral.

Vemos aqui a importância de entender o texto dentro de seu contexto cultural, histórico e linguístico. Caso contrário, corremos o risco de entender a passagem bíblica de forma errada, onde o texto, sem seu contexto, se torna um pretexto.

Autor:

Adivalter Sfalsin

[1a] David N. Bivin é um estudioso bíblico israelense-americano, membro da Escola de Pesquisa Sinótica de Jerusalém. Seu papel na Escola de Jerusalém envolve a publicação do jornal Jerusalem Perspective (Online) e a organização de seminários. Bivin é membro da Escola de Pesquisa Sinótica de Jerusalém, um grupo formado por acadêmicos judeus e cristãos dedicado a melhor compreender os Evangelhos Sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas).

[1b] Retirado do artigo: That Small-fry Herod Antipas, or When a Fox Is Not a Fox, no site http://www.jerusalemperspective.com

[2] A Mishná, (em hebraico משנה, “repetição”, do verbo שנה, ”shanah, “estudar e revisar”) é uma das principais obras do judaísmo rabínico, e a primeira grande redação na forma escrita da tradição oral judaica, chamada a Torá Oral.

[3] Antípatro era um Idumeu, que prosperou na corte dos últimos soberanos hasmoneus, passou a governar a Judeia após a ocupação romana e foi o pai de Herodes, o Grande. Foi posto por Pompeu como procurador da Palestina em 67 a.C.

[4] Edom, em hebraico, quer dizer “vermelho” porque Esaú tinha a cor avermelhada.

O filho prodigo, verdadeiro arrependimento

A Parábola do Filho Pródigo: O Verdadeiro Arrependimento – Parte 2

O filho prodigo, verdadeiro arrependimento

Seguindo o tema abordado anteriormente sobre o filho pródigo, agora vamos explorar a parábola sob a perspectiva histórica e cultural, destacando nuances que frequentemente passam despercebidas. A análise através da lente hebraica revela detalhes valiosos que nos ajudam a desvendar camadas mais profundas dessa narrativa tão conhecida. Inspirados pelas reflexões do renomado Dr. Kenneth Bailey em seu livro “Poet and Peasant”, nosso objetivo hoje é aprofundar nossa compreensão dessa história cativante, contextualizando-a dentro de seu cenário histórico e cultural. Esta jornada de exploração promete enriquecer nossa visão sobre a essência e a mensagem subjacentes dessa parábola atemporal.

Lucas 15:11-12 cria o cenário: “Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe.’ O pai então dividiu os bens entre eles.” Este pedido, embora aparentemente normal para os leitores modernos, foi extraordinariamente ofensivo em seu contexto histórico. Dr. Bailey, um especialista em cultura do Oriente Médio, destaca a raridade e a gravidade de tal demanda. Em sua extensa pesquisa, ele encontrou apenas dois casos de um filho que pediu sua herança enquanto o pai ainda estava vivo. Este ato era equivalente a desejar a morte do pai, um insulto sem precedentes nas tradições judaicas e do Oriente Médio.

Na cultura judaica, a iniciativa do pai é essencial na distribuição da herança, e isso é tipicamente feito para evitar disputas futuras, nunca a pedido do filho. Além disso, o pai mantém o direito de viver dos produtos da terra, mesmo após transferir a propriedade. Ao pedir e depois dispor de sua herança, o filho mais jovem não só desrespeita seu pai, mas também põe em risco a estabilidade financeira futura do pai. Esta ação teria sido chocante e profundamente ofensiva para a audiência original de Jesus.

O que se segue é ainda mais notável do que o pedido do filho: a resposta do pai. Contrariamente às expectativas culturais de raiva e punição, o pai concede ao pedido em um ato profundo de amor e generosidade. Esta concessão é voluntária, apesar do comportamento ofensivo do filho, ela desafia todas as normas culturais. A resposta do pai ilustra um ato extraordinário de graça, destacando a profundidade de seu amor e o potencial para a reconciliação apesar da provocação severa.

A parábola também critica sutilmente o comportamento do filho mais velho. De acordo com as expectativas culturais, o filho mais velho deveria ter protestado contra a divisão da herança e agido como mediador para restaurar a harmonia familiar. Em vez disso, seu silêncio e aceitação de sua parte indicam uma cumplicidade passiva e uma violação do dever familiar. Segundo a lei judaica no século I, o filho mais velho tinha direito a dois terços da herança, enquanto o filho mais novo receberia um terço. Ao permanecer em silêncio, o filho mais velho não estava apenas negligenciando seu dever, mas também garantindo seu ganho financeiro. Esta omissão é tão nociva quanto a transgressão do filho mais novo, revelando uma forma diferente, mas igualmente prejudicial de desrespeito ao pai.

À medida que a história se desenrola (Lucas 15:13-16), o filho mais novo desperdiça sua riqueza em uma terra distante, eventualmente encontrando-se desamparado e trabalhando como cuidador de porcos. Este detalhe, particularmente ressonante na cultura judaica onde os porcos são animais impuros, o porco pela sua impureza vive alienado de tudo que é divino, assim como esse jovem, sublinha sua degradação total. A fome que se abate exacerba sua situação, levando-o a um estado de desespero onde ele inveja a comida dos porcos.

Desesperado e faminto, ele anseia comer as alfarrobas que os porcos comiam. As alfarrobas, bem conhecidas no Oriente Médio, vêm em duas variedades: cultivadas e selvagens. As alfarrobas cultivadas são doces e nutritivas, frequentemente vistas como um deleite. No entanto, durante um estado de fome, essas não seriam desperdiçadas com porcos. Em vez disso, os porcos vasculhariam arbustos de alfarroba selvagem, que produzem vagens amargas e nutricionalmente pobres. Este tipo de comida mostra a extrema degradação da situação do rapaz. Uma prática comum no Oriente Médio para livrar-se de uma pessoa indesejada é atribuir-lhe uma tarefa intolerável. Imagine o cenário, um jovem judeu vivendo em uma terra estrangeira junto aos gentios, indesejado e perdido. O cidadão que empregou o rapaz provavelmente esperava que ele rejeitasse esse trabalho humilhante. Oferecer esse tipo de trabalho a um judeu teria sido uma afronta e uma indicação de que ele não era bem-vindo nessa terra distante. No entanto, em seu desespero, ele aceita até mesmo isso. Sua associação com porcos e sua fome pelas vagens não comestíveis refletem sua profunda queda da graça e a extensão de sua alienação de sua cultura e família.

O termo hebraico “ele caiu em si” significa um momento de autoconscientização, despertar, frequentemente associado ao arrependimento na literatura rabínica. No entanto, o termo usado aqui não é o padrão “Teshuva” (arrependimento), o termo sugere que o arrependimento do filho é incompleto e seletivo. O filho reconhece sua situação desesperadora—fome e pobreza—mas não há remorso genuíno por ter ofendido o seu pai. Sua motivação para voltar é impulsionada pela necessidade física em vez de arrependimento sincero. A proposta do filho de se tornar um servo contratado é estratégica nos versículos 18-19. 

“18 Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti; 19 Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros (servo contratado).”

No século I havia 3 tipos de servos:

1 – O governante da casa: Esse morava na propriedade por muitos anos e era íntimo do proprietário, fazia parte da casa, era tratado de forma semelhante a um membro da família.

2 – O trabalhador braçal: Era subordinado ao governante, realizava tarefas servis e repetitivas.

3 – O servo contratado: Era altamente valorizado com habilidades específicas em grande demanda como decoradores, pintores, pedreiros e artesãos, esses estariam socialmente par a par com o empregador, vivendo na mesma propriedade por longos períodos dependendo da extensão dos projetos a serem executados, mas independentemente, ganhando bons salários. Algumas traduções trazem a palavra “jornaleiro”, a palavra em grego é “misthios”, “μισθός” que se traduz como diarista. Como os projetos eram geralmente extensos, esses contratados acabavam vivendo próximo à propriedade do empregador por um longo tempo, geralmente em uma acomodação separada da principal.

O filho pródigo visa viver de forma independente, evitando interações diárias com seu pai e o irmão. Quer ganhar bons salários, potencialmente reembolsando seu pai e cumprindo sua obrigação moral de cuidar de seu pai na velhice. Quer manter seu orgulho e independência, evitando submissão ou humilhação completa. Essencialmente, ele buscava ganhar sua salvação através de boas ações, arrependendo-se superficialmente sem perder a dignidade. O arrependimento deve ser seguido por ação prática para ser verdadeiro. A determinação do filho de agir—levantando-se e retornando ao pai—demonstra sua disposição de tomar medidas em direção à reconciliação, mesmo que suas motivações sejam mistas.

No retorno do filho, as ações do pai são significativas: O ato do pai de correr é culturalmente indigno e humilhante para um homem mais velho. Tentar correr com uma vestimenta longa, parecida com as saias modernas, era bem difícil, além de ser vergonhoso mostrar as pernas em público, mas o pai faz isso por compaixão e amor para poupar seu filho do julgamento e ridículo da comunidade. Da forma aglomerada que as casas nas vilas eram construídas indica que a volta do filho foi um evento público, todos presenciaram. As ações do pai foram feitas para proteger seu filho do julgamento severo da comunidade. Os beijos repetidos indicavam a reconciliação e a cura da brecha entre pai e filho, mostrando relacionamentos restaurados.

No versículo 21, o filho começa seu discurso ensaiado, mas omite o pedido para ser um servo contratado. 

“21 E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho.”

Esta omissão reflete uma mudança genuína de coração, provocada pelo ato de amor sem precedentes do pai. Aqui ele se arrepende de verdade. Aceita sua indignidade e está disposto a abraçar a filiação, implicando arrependimento completo.

As ordens do pai para vesti-lo com sua melhor roupa, colocar um anel em seu dedo e sandálias em seus pés significam restauração completa ao estado pleno, tanto na casa quanto na comunidade. Ao vesti-lo com suas melhores vestes e dar-lhe o anel de autoridade, o pai demonstra publicamente o estado restaurado do filho, garantindo que a comunidade também aceite a reconciliação.

O pedido do filho mais novo e ações subsequentes são uma verdadeira afronta quando vista dentro da perspectiva cultural. A resposta do pai mostra um ato de graça radical. O silêncio do filho mais velho é igualmente ofensivo e mostra o seu apego aos bens materiais. Essa mensagem é atemporal e nos ensina sobre o arrependimento, a graça e como o amor profundo pode superar até mesmo as mais profundas brechas nos relacionamentos.

Isso evidencia minuciosamente que a nossa salvação advém da submissão ao amor que Ele tem por nós, em vez de tentarmos obter graça por meio das nossas realizações. Uma lição que deve estar constantemente em nossas mentes porque, durante fases de nossas vidas, agimos exatamente como o filho pródigo, mas podemos estar certos de que o amor do Pai excede todas as nossas expectativas.

No próximo artigo, iremos explorar um pouco mais o papel do filho mais velho.

Adivalter Sfalsin

Nota: Sou profundamente grato àqueles que me ajudaram a entender as parábolas dentro de seu contexto adequado, incluindo Dr. Dwight Pryor, Dr. David Divin, Dr. Skip Moen entre outros.

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 9: “Grão de Mostarda”

A metáfora do grão de mostarda é uma das mais conhecidas e, talvez, uma das mais mal compreendidas parábolas ensinadas por Yeshua. Em Mateus 17:20, Ele afirma: “Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível.” Para muitos, a interpretação imediata foca no tamanho diminuto da semente de mostarda. No entanto, uma análise mais profunda revela que Yeshua não estava se referindo apenas ao tamanho, mas à qualidade da fé que os discípulos deveriam possuir. As parábolas do Reino em Mateus 13, Marcos 4 e Lucas 13 situam essa metáfora no contexto de algo pequeno que se torna grandioso, representando o Reino dos Céus. Vamos explorar as características do grão de mostarda e como essas características desafiam Seus seguidores em sua caminhada espiritual.

Uma Fé Resistente 

A primeira característica notável do grão de mostarda é sua resistência. Essa semente é conhecida por sua durabilidade; mesmo se pisada ou queimada, ela não se quebra. Isso nos ensina que nossa fé deve ser resiliente. Em nossa jornada espiritual, enfrentamos adversidades, dúvidas e tribulações. Yeshua nos chama a ter uma fé que resista a essas provações, uma fé que permaneça inabalável mesmo diante das maiores dificuldades. A resistência do grão de mostarda também nos lembra que a fé não é medida por momentos de euforia espiritual, mas pela firmeza nos momentos de prova. Quando os ventos contrários sopram, quando o desânimo bate à porta, é essa fé resistente que nos mantém firmes no caminho.

Um Crescimento Rápido e Vigoroso

Outra lição que podemos aprender com o grão de mostarda é seu rápido crescimento e sua força. Quando plantada, essa pequena semente se transforma em uma grande árvore em um curto período de tempo. Yeshua está nos ensinando que nossa fé deve crescer de maneira constante e robusta. Uma fé dinâmica e em contínuo desenvolvimento é essencial para um seguidor de Yeshua. Não devemos nos contentar com uma fé estagnada, inerte ou limitada, mas buscar constantemente o crescimento espiritual. Isso significa aprofundar nosso relacionamento com D-us, expandindo nossa compreensão e vivência dos ensinamentos do Senhor. Não se trata de uma fé que cresce apenas em conhecimento teórico, mas em experiência viva com D-us. Uma fé que nos leva a confiar mais, a servir mais e a amar mais. Assim como o grão de mostarda se espalha e influencia seu ambiente, nossa fé deve impactar o mundo ao nosso redor.

Pureza e Genuinidade da Fé

A terceira e mais surpreendente característica do grão de mostarda é sua pureza. É a única semente no mundo que não é híbrida; ela não se mistura com outras sementes. Esse aspecto destaca a necessidade de termos uma fé genuína e íntegra. Yeshua nos chama a manter nossa fé sem contaminação, sem ser misturada com doutrinas errôneas ou práticas inconsistentes com os ensinamentos bíblicos. Nossa fé deve ser autêntica, refletindo total confiança em D-us e uma adesão fiel aos Seus mandamentos. Num mundo onde tantas influências tentam nos afastar do verdadeiro evangelho, é essencial que cultivemos uma fé pura. Isso significa examinar constantemente nossas crenças, alinhar nossa vida à Palavra de D-us e evitar os modismos espirituais que nos afastam da simplicidade do evangelho.

O Desafio Prático da Fé

Compreender o que Yeshua realmente quis dizer ao comparar nossa fé a um grão de mostarda nos coloca diante de um grande desafio:

  1. Cultivar uma fé resiliente – Precisamos reforçar constantemente nossa confiança em D-us e Sua palavra, mesmo quando enfrentamos provas intensas.
  2. Buscar um crescimento contínuo – Nossa vida espiritual deve ser marcada por progresso e fortalecimento. Isso significa nos aproximarmos de D-us por meio da oração, do estudo da Bíblia e da comunhão com outros seguidores de Yeshua. Uma fé que cresce não apenas transforma nossa vida, mas também impacta aqueles ao nosso redor.
  3. Manter a pureza da fé – Em um mundo repleto de diferentes ideologias e crenças, preservar a integridade da nossa fé é essencial. Devemos estar atentos às influências que permitimos em nossas vidas, garantindo que nossa fé permaneça verdadeira e inabalável.

A metáfora do grão de mostarda é um chamado para uma fé de qualidade excepcional. Yeshua nos desafia a desenvolver uma fé resistente, em crescimento e pura. Esses aspectos são fundamentais para uma vida vibrante e eficaz no Reino de D-us. Ao aceitar esse desafio, nos tornamos mais próximos do que D-us deseja que sejamos e mais capazes de realizar Sua vontade em nossa vida, trazendo o Reino dos Céus para a Terra. Que possamos, a cada dia, buscar essa fé que, embora pequena em seu início, se transforma em algo grandioso e poderoso, capaz de mover montanhas.

Adivalter Sfalsin

A metáfora do camelo passando pelo buraco da agulha nos ensina sobre a importância da humildade e da renúncia ao excesso de apego material para alcançarmos a vida espiritual plena. Devemos seguir o exemplo do camelo, desapegar-nos do supérfluo e nos curvar diante da grandiosidade divina, lembrando que a verdadeira riqueza está na humildade e na obediência a D-us, não nas posses materiais.

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 8: “Camelo pelo fundo de uma agulha”

A metáfora do camelo passando pelo buraco da agulha nos ensina sobre a importância da humildade e da renúncia ao excesso de apego material para alcançarmos a vida espiritual plena. Devemos seguir o exemplo do camelo, desapegar-nos do supérfluo e nos curvar diante da grandiosidade divina, lembrando que a verdadeira riqueza está na humildade e na obediência a D-us, não nas posses materiais.
“Camelo pelo fundo de uma agulha”

As palavras de Jesus em Mateus 19:23-24:

“Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no reino dos céus. E, outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de D-us.” Muitas vezes são interpretadas de forma literal constatando o tamanho enorme de um camelo e o pequeno furo de uma agulha, concluindo que é impossível o camelo representado pelo rico entrar no reino do céus. No entanto, essa interpretação superficial ignora o contexto cultural e histórico rico em que essa frase foi dita, levando a uma compreensão distorcida da mensagem de Jesus. A mensagem na verdade aborda o tema da humildade e submissão a D-us.

O fundo da agulha que Jesus estava se referindo era aos portões das cidades. Nos tempos antigos, esses portões tinham duas grandes portas me uma das portas havia um buraco chamado “buraco da agulha”, destinada apenas à passagem de pedestres quando os portões grandes estavam fechados. Fazer um camelo passar pelo buraco da agulha exigiria que o animal deixasse sua carga e dobrasse suas patas e pescoço, uma tarefa árdua que muitas vezes deixava arranhões. 

O ensinamento de Jesus não era impossível para os ricos entrarem no reino de céus, mas sim um lembrete de que todos, ricos ou pobres, precisariam largar seus fardos, dobrar seus pescoços em obediência, ajoelhar-se diante de D-us e reconhecê-Lo como o caminho para a salvação. A entrada para o reino de D-us é estreita e requer humildade e obediência para se submeter à vontade Divina. Assim, é importante compreender que a riqueza ou a pobreza não são os fatores determinantes para a salvação, mas sim a disposição de cada indivíduo em seguir os ensinamentos de D-us.

A metáfora do camelo passando pelo buraco da agulha nos convida a uma profunda reflexão sobre a importância da humildade e da renúncia ao apego às coisas materiais no caminho da salvação. Ao dizer que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus, Jesus nos mostra que a verdadeira riqueza está na simplicidade e na entrega a D-us, não nas posses materiais.

Assim como o camelo precisa se despojar de sua carga e se curvar humildemente para passar pelo estreito buraco da agulha, somos chamados a nos desapegar de nossas próprias “cargas” – seja o orgulho, a ganância, a vaidade ou qualquer forma de apego excessivo aos bens materiais – e nos submeter com humildade e obediência à vontade divina.

É importante lembrar que não se trata de abandonar completamente os bens materiais, mas de colocá-los em seu devido lugar, compreendendo que são recursos a serem usados com sabedoria em serviço aos outros e para a glória de D-us. A humildade nos convida a reconhecer que somos simples instrumentos nas mãos de D-us, e a renúncia ao excesso de apego material nos liberta para uma vida mais plena de significado e propósito.

Portanto, ao refletir sobre a lição do camelo e do buraco da agulha, somos desafiados a cultivar a humildade, a simplicidade e a generosidade em nosso caminho espiritual, para que possamos estar mais abertos à graça divina e ao verdadeiro tesouro que está no Reino dos céus. É ao nos desapegarmos do que é efêmero e nos voltarmos para o que é eterno que nos aproximamos da plenitude da vida espiritual e da comunhão com D-us. Que possamos seguir o exemplo do camelo, despojando-nos do supérfluo e nos curvando com sinceridade diante da grandiosidade divina.

A entrada para o reino de D-us não está aberta aos soberbos e aos que se prendem às riquezas terrenas, mas sim àqueles que, como o camelo que se submete ao desconforto e à renúncia, estão dispostos a seguir o caminho da humildade e da entrega total à vontade Divina. Portanto, lembremo-nos sempre de que a verdadeira riqueza está na humildade de coração e na obediência a D-us, não nas posses materiais que eventualmente nos separam Dele.

Autor: Adivalter Sfalsin

Entendedo as Palavras dificeis de Jesus - Virar a outra face

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 7 “Virar a outra face”

Entendedo as Palavras dificeis de Jesus - Virar a outra face

As palavras de Jesus em Mateus 5:39, “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;”, muitas vezes são interpretadas como uma ordem passiva para aceitar a agressão sem revidar. No entanto, essa interpretação superficial ignora o contexto cultural e histórico rico em que essa frase foi dita, levando a uma compreensão distorcida da mensagem de Jesus.

Para desvendar a verdadeira essência dessa passagem, é crucial mergulharmos no mundo antigo e na cultura da honra e da vergonha que permeava a sociedade da época. Essa cultura ditava as normas sociais e as expectativas de comportamento, moldando profundamente as interações entre as pessoas.

Ao analisar as palavras de Jesus através da lente da cultura da honra e da vergonha, podemos entender sua mensagem de forma mais profunda. Jesus não estava defendendo a submissão passiva à violência, mas sim desafiando as normas sociais arraigadas que perpetuavam a vingança e a hostilidade.

Frases idiomáticas podem se tornar um verdadeiro desafio para desvendar a mensagem subjacente. Jesus as utilizava frequentemente para elucidar verdades para seus ouvintes, porém, para o leitor moderno, elas podem causar confusão quando o contexto no qual foram ditas é ignorado. Uma frase idiomática é uma expressão ou conjunto de palavras que possuem um significado figurado específico, divergindo de sua interpretação literal. Essas expressões são características de uma língua ou cultura específica e, muitas vezes, não podem ser traduzidas diretamente para outras línguas sem que se perca seu significado original. As frases idiomáticas são frequentemente utilizadas para transmitir ideias de forma mais colorida, vívida ou expressiva.

Geralmente, esse texto é referido como se fosse uma proibição à autodefesa, mas esse texto não está falando de tomar um tapa literalmente. A palavra grega usada para “face direita” é DEXIA SIAGON (δεξιὰν σιαγόνα), ou seja, um lugar de honra ou autoridade, ou seja, alguém que tenta ferir a sua honra, a sua autoridade. Quando Jesus fala em oferecer a outra face, a palavra grega é STEPSON, que quer dizer virar as costas para alguém, ou seja, dar as costas. Então, traduzindo essa expressão idiomática de Jesus, se alguém tentar ferir a sua honra, a sua autoridade, vire as costas para ele, evite conflitos, evite disputas, e não alimente o sentimento de vingança quando alguém tentar desonrar você.

Compreendendo o Contexto Cultural: Honra, Vergonha e Agressão. Na sociedade da época de Jesus, a honra era um bem precioso, definindo a posição social e o respeito de um indivíduo. A vergonha, por outro lado, era vista como uma mancha na reputação, causando humilhação e ostracismo. Essa dinâmica social moldava as relações interpessoais, onde ofensas e agressões eram frequentemente respondidas com retaliação proporcional ou até mesmo excessiva, perpetuando um ciclo de violência e vingança.

O Insulto por Trás do Tapa na Face Direita. Um aspecto crucial para entender a profundidade da instrução de Jesus é o significado do gesto de “bater na face direita”. Na cultura da honra e da vergonha predominante, um tapa com o dorso da mão era considerado um insulto grave, especialmente se direcionado à bochecha direita. Essa era a face considerada mais honrosa, pois era o lado que um guerreiro usava para proteger seu coração. Levar um tapa na bochecha direita, portanto, era um ataque direto à honra e dignidade da pessoa, um ato de humilhação pública.

Ao usar essa imagem vívida, Jesus não apenas estava falando sobre a dor física de um tapa, mas sim sobre a profunda humilhação e vergonha que tal ato infligia. Oferecer a outra face, nesse contexto, representava um desafio radical às normas sociais da época. Era um ato de recusar a vergonha imposta pelo agressor, mantendo a própria honra e dignidade através da compaixão e do perdão.

Além da Não Resistência: Quebrando o Ciclo da Vingança. O trecho que menciona Jesus vai além da mera passividade em face da agressão. Ele não está apenas dizendo que os cristãos não devem revidar fisicamente, mas sim que devem evitar a busca por vingança em qualquer forma. Em uma cultura onde a honra era defendida com unhas e dentes, a ideia de não revidar era vista como fraqueza e submissão.

No entanto, Jesus propôs um caminho alternativo: o da compaixão, do amor e da quebra do ciclo de violência. Ao oferecer a outra face, o indivíduo demonstrava força interior, recusando-se a ser dominado pela raiva e pelo desejo de retaliação.

A Relevância Atual da Mensagem de Jesus. Embora o contexto cultural da época de Jesus seja muito diferente do nosso, sua mensagem central permanece atemporal: a superação da violência através da compaixão, do perdão e do amor. Em um mundo marcado por conflitos e hostilidades, o convite de Jesus para “virar a face” nos convida a refletir sobre nossas próprias respostas à agressão e buscar caminhos alternativos para a resolução de conflitos, construindo um mundo mais pacífico e justo.

Um Convite à Transformação Interior. Em última análise, a instrução de Jesus para “virar a face” não se limita a uma mera ação física. É um convite a uma transformação interior, a uma mudança de postura diante da ofensa e da agressão. Trata-se de cultivar a compaixão, o perdão e a capacidade de superar a raiva e o ressentimento.

Ao oferecer a outra face, o indivíduo demonstra a força interior de não ser dominado pela ira e pelo desejo de vingança. Essa atitude desafia as normas sociais baseadas na honra e na vergonha, abrindo caminho para a construção de relacionamentos mais pacíficos e compassivos.

Assim, ao compreendermos o contexto cultural e a profundidade da mensagem de Jesus em Mateus 5:39, somos convidados não apenas a refletir sobre nossas próprias atitudes em face da agressão, mas também a abraçar um caminho de compaixão, perdão e amor, construindo um mundo mais justo e pacífico para todos.

Autor: Adivalter Sfalsin

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 6 “Morada no Céu”

Morada no Céu

“Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar.” (João 14:2)

Este versículo me intrigou por muitos anos. Será que existem casas no céu onde todos iremos morar quando partirmos deste mundo material para o mundo espiritual? Como seria uma casa no mundo espiritual? Sempre achei um pouco confusa a ideia de conciliar a noção de “casa”, algo material, com o céu, algo espiritual. Meus questionamentos não eram infundados, e acredito que encontrei uma resposta mais coerente ao me aprofundar na raiz do versículo.

Para começar, a Bíblia foi escrita, em sua grande maioria, por judeus, sejam profetas, discípulos ou apóstolos. Embora partes do Novo Testamento tenham sido escritas em grego, foram escritas por judeus com uma cosmovisão hebraica, em contraste com o mundo greco-romano. Como já discuti esse assunto em outro artigo intitulado “Mente Hebraica x Greco-Romana” (https://raizeshebraicas.com/2013/10/12/mente-hebraica-x-grego-romana-integra/), não vou entrar em detalhes aqui. Apenas salientarei que a mentalidade hebraica é holística e a greco-romana é dualista. Na visão greco-romana, este mundo material é mal, caído e inferior; portanto, deve-se olhar para o mundo espiritual, que é perfeito e superior. Interpretar este versículo dentro dessa ótica nos conforta ao saber que temos uma mansão celestial esperando por nós quando morrermos, certo? Não tão rápido! Será que era isso mesmo que Yeshua estava dizendo nesse versículo e nesse capítulo?

Façamos uma análise desse versículo:

1. A palavra “casa” no grego é οἰκίᾳ (pronúncia – oikia), que vem do hebraico בָּתֵּימוֹ (pronúncia – bottermo), plural possessivo da palavra בַּיִת (bayit). Descreve uma habitação, mas também pode significar família ou lar.

2. A palavra “moradas” no grego é μοναὶ (pronúncia monē), que também indica habitação com uma pequena diferença. Esta é física, mas pode ser também relacional. A palavra mais próxima em hebraico é מִשְׁכָן (pronúncia miškān), que traduzimos como tabernáculo, e a palavra שָׁכַן (Sakan), habitar.

Os deuses na antiguidade eram territoriais e habitavam em templos ou casas; cada civilização tinha um ou mais deuses alinhados ao seu território e etnia. Com Israel não era diferente. Se você quisesse “visitar” o seu deus, precisava ir a Jerusalém. Na verdade, existe um mandamento para subir a Jerusalém três vezes ao ano, revelando a importância de visitar a “casa de Deus”. Em Êxodo 25:8, lemos: “E me farão um santuário (miškān), e habitarei (שָׁכַן) no meio deles.” Essa palavra “morada”, no grego μοναὶ (pronúncia monē), aparece somente duas vezes no Novo Testamento: aqui em João 14:2 e no versículo 23:“Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada (monē).” (João 14:23) Vemos claramente no versículo 23 que Yeshua se refere a um relacionamento e não a uma morada física. Devemos entender que Deus não precisa de uma habitação física para morar, afinal, Ele é o dono do universo. A função do tabernáculo era permitir que Ele tivesse uma relação próxima com o Seu povo. Relacionamento é a chave para entender a intenção de Deus ao mandar o povo judeu construir uma habitação para Ele. No Novo Testamento, esse objetivo continua o mesmo: relacionamento.

Da mesma forma que Deus habitou no tabernáculo no meio de Israel no deserto, Yeshua veio habitar no nosso meio (João 1:14): “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” Novamente, aqui se refere primordialmente ao relacionamento entre Deus e a humanidade, através da habitação física. Yeshua não apenas habitou em um corpo humano (casa, residência), mas relacionou-se conosco.

Enquanto as palavras “casa” e “morada” se referem a habitação e residência, nosso melhor entendimento das palavras do Mestre é relacionamento. Se lermos todo o capítulo de João 14, concluiremos que a ênfase é a relação com Deus e a observância dos mandamentos – Torá, que é a prova de que temos uma relação com o Criador. Não se trata de uma habitação futura em um mundo celestial e perfeito; a habitação não é geográfica, mas relacional. Ter um imóvel no céu não é tão importante quanto ter uma relação próxima com o Rei.

Observamos também que o movimento é sempre do alto, celestial, para o plano terreno. Deus sempre envia algo ou alguém para se relacionar conosco, desde o Jardim do Éden: “…Senhor Deus, que passeava no jardim pela viração do dia…” (Gênesis 3:8). Depois, vemos no fechamento triunfal em Apocalipse esse mesmo movimento, céu-terra: “E eu, João, vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu…” (Apocalipse 21:2). Esta frase idiomática parece indicar que nosso futuro será aqui, numa terra renovada, e a última visão de João em Apocalipse 21:1-3 é a nova Jerusalém descendo sobre a terra, e Deus finalmente habitando entre aqueles que O amam.

Portanto, não é minha intenção decepcionar aqueles que esperam morrer e ter uma habitação celestial, mas gostaria de estimular você a reavaliar o que crê e buscar entender as Escrituras em seu contexto histórico e cultural. Grandes surpresas agradáveis o esperam. Este segundo entendimento (terra-céu) é baseado num mundo dualístico que nasceu com os filósofos da Grécia antiga e não dentro da perspectiva bíblica hebraica. Só lembrando, Yeshua era judeu e não grego.

Autor: A. Sfalsin

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 5 “Pobres de espírito” Mateus 5

“Pobres de espírito” – O Sermão da Montanha é um discurso de Jesus encontrado no livro de Mateus nos capítulos 5-7 e em Lucas de forma fragmentada. Nesse discurso Ele aborda vários aspectos para que alcancemos uma vida justa e reta perante D’us, são lições não só de cunho moral mas também de conduta prática orientando aqueles que desejam andar conforme o “Reino de D’us”, onde devemos exibir um conjunto desses valores distintos.
Ao lermos o sermão da montanha, surge uma pergunta: Será que realmente entendemos tudo que está exposto nele? Minha primeira impressão é que não entendemos tudo claramente pela simples razão do texto original ter sido escrito em Hebraico (surpresa para muitos), depois ter sido traduzido para o Grego passando pelo Latin e finalmente chegando ao Português. Qualquer texto traduzido sofre mutações devido as diferenças nas estruturas da construção das línguas e principalmente quando se trata de frases idiomáticas.
Quero evidenciar, entre muitas frases idiomáticas no sermão da montanha essa que se refere aos “Pobres de espírito” em Mateus 5:3 (Versão Almeida Revista e Atualizada)

“Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;”

Essa frase idiomática, “Pobres de espírito” só pode ser entendida corretamente dentro do seu contexto original. Jesus quando ensinava lançava mão dos ensinamentos da Torá, os livros proféticos e os livros poéticos conhecido pelos judeus como Tanak, erradamente chamado de velho testamento pelos cristãos. Seus ouvintes tinham em mente todo o Tanak, portanto qualquer frase ou palavra proferida invocava a passagem bíblica em suas mentes.

O que significa ser “pobre de espírito”?
Quando Jesus usa este termo ele está fazendo uma alusão a uma série de passagens na Tanak.

Algumas delas;

1- “Porque a minha mão fez todas estas coisas, e assim todas elas foram feitas, diz o Senhor; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra.” Isaías 66:2

2- “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” Isaías 57:15

3- “Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus.” Salmos 51:17

4- “Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito.” Salmos 34:18.

Vemos que o assunto aqui é o arrependimento, fator indispensável para quem deseja entrar no “reino do céus”. Ser “pobre de espírito” significa alguém que se arrependeu de seus pecados, que se voltou a D’us, que ama sua palavra e que guarda seus mandamentos.
Ele fala de forma poética, maneira típica de ensinar verdades absolutas por ser fácil de memorização. O paralelismo é uma caraterística do hebraico com prosas e poesias, o que temos aqui nas bem-aventuranças é apenas um desenvolvimento pluralista progressivo. Jesus está essencialmente construindo sobre um pensamento e reforçando a mesma idéia com diferentes nuanças nas bem-aventuranças.

O que significa o termo “reino do céus”?
Para o judeu do primeiro século especialmente um rabino o “reino de D’us” se referia ao agora e não algo no futuro.
Vale a pena notar que os judeus usavam o termo “reino dos céus” e não o termo helenístico “reino de D’us”. Eles tinham aversão em usar a palavra “D’us” por respeito aos mandamentos para não tomar o nome de D’us em vão Êxodo 20:7 – parte dos 10 mandamentos. Mas como o texto foi traduzido do hebraico para o grego, que não tem esse cuidado, usar o termo “reino de D’us” não tinha nenhum peso, lembrando que os gregos usavam a palavra “deus” de forma cotidiana, eles tinham um deus para tudo, deus do sol, das lua, das estrelas, das mar, da terra, da fertilidade etc…

Concluindo “reino do céus” é “agora” no momento presente, se refere aquelas pessoas sobre as quais Deus está governando, aos “pobre de espírito” (arrependidos).
Portanto, bem-aventurados (felizes) são aqueles que se arrependem de seus pecados, que se voltam para D’us, amam sua palavra, guardam seus mandamentos porque essas são as pessoas sobre as quais Deus está governando (agora) e que estão demonstrando Seu domínio em suas vidas, (“reino do céus”).

Etimologia:

1- “Bem-aventurados” no grego = Makarios, no hebraico = Asher (abençoado, feliz, felizardo) não existe palavra em Português apropriada para expressar Asher. Alguns exemplos Salmos 114:15
2- Versículos de 3-12 são conhecidos como as beatitudes porque foi traduzido da versão latina conhecida como Vulgata (410 ad) de Jerônimo. Jerônimo traduziu a palavra Makarios do grego para o latin = beatus dando assim origem a palavra em português “beatitudes”.
3- “Reino do céus” no hebraico = malkhut ha-Shammayim

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 4 “Olho bom e olho mau” Mateus 6

O Sermão da Montanha é um discurso de Jesus encontrado no livro de Mateus nos capítulos 5-7 e em Lucas de forma fragmentada. Nesse discurso Ele aborda vários aspectos para que alcancemos um vida justa e reta perante D’us, são lições não só de cunho moral mas também de conduta prática orientando aqueles que desejam andar conforme o “Reino de D’us”, onde devemos exibir um conjunto desses valores distintos.
Ao lermos o sermão da montanha, surge uma pergunta: Será que realmente entendemos tudo que está exposto nele? Minha primeira impressão é que não entendemos tudo claramente pela simples razão do texto original ter sido escrito em Hebraico (surpresa para muitos), depois ter sido traduzido para o Grego passando pelo Latin e finalmente chegando ao Português. Qualquer texto traduzido sofre mutações devido as diferenças nas estruturas de construção das línguas e principalmente quando se trata de frases idiomáticas.
Quero evidenciar, entre muitas frases idiomáticas no sermão da montanha, essa que se refere ao “bom e mau olho”, em Mateus 6:22-23 (Versão Almeida Revista e Atualizada)

22 A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; 23 Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!

Essa frase enigmática, “bom e mau olho” só pode ser entendida corretamente dentro do seu contexto original. Jesus quando ensinava lançava mão dos ensinamentos da Torá, os livros proféticos e os livros poéticos conhecido pelos judeus como Tanak, erradamente chamado de velho testamento pelos cristãos. Seus ouvintes tinham mente todo o Tanak portanto qualquer frase ou palavra proferida invocava a passagem bíblica na mente de seus ouvintes. “Bom olho e mau olho” se refere as seguintes passagens:

1- “O que vê com bons olhos será abençoado, porque dá do seu pão ao pobre.” Provérbios 22:9

2- “Não comas o pão daquele que tem o olhar maligno (olho mau), nem cobices as suas iguarias gostosas.” Provérbios 23:6

3- “O que quer enriquecer depressa é homem de olho maligno (olho mau), porém não sabe que a pobreza há de vir sobre ele.” Provérbios 28:22

Nessa passagem vemos claramente que Provérbios se refere a generosidade como “bom olho” e avareza como “mau olho”. Até nos dias de hoje essa frase idiomática milenar é usada em Israel para se referir a uma pessoa generosa.

Se lermos os veículos 21-24 de Mateus em conjunto no seu contexto;

21 Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.
22 A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; 23 Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas! 24 Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom.

Vemos que o assunto aqui é nossa relação com o dinheiro, bens materiais e com o próximo. Diferentemente de muitas pregações tão comuns hoje em dia centradas na prosperidade material, no ter e no ego do homen, Jesus ensina que quando somos abençoados materialmente temos um dever social de ajudar aos outros, sendo generosos. São valores centrados no coletivo em contraste com o individualismo que reina atualmente. Estudo tirado do livro “Understanding the Difficult Words of Jesus” do Dr. Roy Blizzard.

Autor: Adivalter Sfalsin

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 3 “..não vim abolir a lei, mas cumprir” Mat 5:17

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 3 “..não vim abolir a lei, mas cumprir” Mat 5:17

Passei boa parte da minha vida ativamente participando de 2 denominações protestantes (Batista e Presbiteriana). Por ter um interesse peculiar nas sagradas escrituras alguns ANOS atrás me dediquei a estudar a raiz de minha fé, ou seja a língua hebraica. Certamente o Senhor criador é um D-us pessoal e por isso iniciou seu plano de salvação com um indivíduo que se tornou uma nação e abençoou todos os membros da raça humana com o advento da vida do Messias, salvador do povo judeu e dos gentios.

Descobri então que ao estudar a bíblia eu era fortemente influenciado por 2 milênios de tradição cristã e interpretações humanas dos “pais da igreja” fazendo com que meu raciocínio fosse exclusivamente Grego/Romano e tivesse uma perspectiva 100% Helenística da bíblia. Hoje ao aproximar-me da bíblia com uma perspectiva crescentemente  hebraica vejo que muitas das interpretações e doutrinas equivocadas ensinadas no mundo cristão protestante hoje é devido há anos de desentendimento entre a igreja e a sinagoga, muitos desses com conseqüências trágicas e até sangrentas. É de suma importância para uma interpretação saudável levar em conta que as culturas são diferentes, as formas de pensar, ver o mundo e D-us podem estar tão distante quanto o leste do oeste entre as culturas diversas. Por exemplo os Gregos estudavam afim de compreender, nos, os ocidentais, estudamos afim de  aplicarmos o conhecimento em coisas práticas, os hebreus estudavam afim de reverenciar. Reverência, temor e admiração vem por meio do estudo das escrituras que levam o indivíduo a obediência, então o estudo é a expressão maior de louvor que uma pessoa pode oferecer ao Senhor.

Ao lermos a bíblia é vital entendermos que seus escritores eram Judeus, raciocinavam em hebraico e transmitiram sua mensagem dentro desse contexto mesmo que para alguns deles como Paulo ao escrever suas cartas usava o grego como instrumento mas a linha de raciocínio era hebraica. Jesus e Paulo pertenciam a escola de pensamento dos fariseus cuja interpretação das escrituras era aceita pela maiorias dos seus contemporâneos e sem dúvida influenciou os autores dos evangelhos assim como Paulo.

É comumente afirmado entre cristãos protestantes o seguinte:

1- Uma nova aliança foi feita e a antiga já não tem significância, e não é a continuação da revelação da primeira aliança.

2 – Judaísmo é uma religião da lei e o cristianismo a religião da graça.

3 – Judaísmo ensina a ira do Senhor e o cristianismo ensina o amor do Senhor.

4 – Judaísmo a religião de um povo exclusivo, cristianismo a religião internacional.

5 – Judaísmo ensina que justiça é alcançada por meio de obras e cristianismo por meio da fé.

Resumindo, ensina-se que o D-us do velho testamento é para ser temido por sua ira e o do novo testamento como o D-us do amor. Parecem até dois D-uses distintos. Naturalmente algumas dessas afirmações não são explicitamente proclamadas nos púlpitos mas implicitamente é o que afirmam.

Na minha busca para entender essas diferenças descobri que tais não existem, o Judaísmo nunca foi uma religião baseada nas obras e sim na graça de D-us. Afinal, o que o povo judeu fez para merecer ser resgatado do Egito? Certamente que ao lermos o velho testamento nos confrontamos com passagens difíceis, por exemplo onde D-us instrui o povo a exterminar seus inimigos, incluindo mulheres, crianças e idosos.. são passagens extremamente difíceis de compreender mas não podemos descartar dezenas de outros livros e passagens só porque a nossa compreensão de algumas passagens são desafiadoras.

Jesus ao “pregar o evangelho” se referia diretamente ao velho testamento principalmente aos 5 primeiros livros que é chamado de Torá, ou Pentateuco  (livros de Moises). O livro que Jesus mais cita é Deuteronômio atestando a autenticidade e autoridade do mesmo, citando-o três vezes ao repelir as tentações de Satanás. (Mateus 4:1-11; Deuteronômio 6:13,16, 8:3). Também, Jesus respondeu à pergunta quanto a qual era o maior e o primeiro mandamento por citar Deuteronômio 6:5. (Marcos 12:30).

Paulo também cita Deuteronômio 30:12-14; 32:35, 36 (em Romanos 10:6-8 e Hebreus 10:30).

Hoje seriamos capazes de testificar o amor de D-us a alguém usando velho testamento? Certamente Jesus, Paulo e os apóstolos usados pelo espirito santo converteram multidões usando esse método.

Um dos versículos com interpretação equivocada que já testemunhei e o de Mateus 5:17. “Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir.”  – Nova versão internacional

Há aqueles que defendem que Jesus ao cumprir toda a lei mosaica (o Pentateuco ou Torá) Ele nos livrou do peso da lei e por isso não precisamos nos preocuparmos em obedece-la. Será que tal interpretação é valida? E o que dizer dos 10 mandamentos, que estão incluídos na lei?

Gostaria de propor uma análise na raíze do texto: Antes de tudo temos que considerar que evidências mostram que os evangelhos foram primeiramente escritos em Hebraico e depois traduzidos para o Grego, apesar de não termos os originais em Hebraicos hoje. Se tiver interesse nesse assunto indico a leitura do livro em Inglês (http://www.jerusalemperspective.com/products-page/ebooks/jesus-rabbi-and-lord/) Jesus Rabbi and Lord.

As três palavras fundamentais para entendermos essa declaração de Jesus são: Lei, abolir e cumprir.

LEI – diferente da conotação em português que é de algo obrigatório, pesado e punitivo, a palavra no hebraico (yarah) significa: instrução, retidão, vida, direção e ensino. A imagem é de uma flecha que é atirada em linha reta e acerta o alvo, sendo o alvo a vontade do Senhor. Então a “lei” nos ensina a andar corretamente a fim de obedecermos ao Senhor que amamos. O Salmista exclama no salmo 119:97  “Oh! Como eu amo a tua lei! Nela medito o dia inteiro.” Como ele pode amar a lei? Eu detesto a lei, ela me obriga a fazer coisas que não desejo. Mas se entendermos o contexto em que o salmista se expressa é fácil de compreender.

ABOLIR – no grego = Karalyõ – “interpretar incorretamente”. No hebraico = batel – abolir, cancelar e destruir. Portanto a pessoa cancela, destrói e abole quando se equivoca na interpretação do texto.

CUMPRIR – no grego = Pleroõ – se refere a interpretar a passagem corretamente. No hebraico = Kiyem – re-afirmar, apoiar, guardar, observar, celebrar. Tanto BATEL quanto KIYEM estão geralmente associadas ao contexto de interpretação das escrituras.

Como alguém pode observar a lei (as instruções) do Senhor se não compreender o que a lei requer dele(a)? Se houver algum equivoco na interpretação das escrituras, provavelmente não conseguira cumprir o mandamento do Senhor como e Seu intuito, ou em outras palavras – acertar o alvo, então a pessoa pode abolir “interpretar incorretamente” – cancelando o mandamento. Em contrapartida quando se compreende corretamente a intenção do Senhor em determinado mandamento então a pessoa consegue cumprir o mandamento ou Lei (Torá). Acerta o alvo!

Então o que Jesus está realmente dizendo é: “Não pensem que vim dar uma interpretação incorreta dos preceitos/ensinamentos ou dos Profetas; não vim para dar interpretação incorreta, mas sim para interpretar corretamente, re-afirmar, apoiar, guardar, observar e celebrar a Lei (Torá).”

Meu desejo é que através do estudo minucioso das escrituras no seu contexto cultural, lingüístico e espiritual possamos viver vidas frutíferas e maduras em reverencia ao Senhor.

A.S.A.

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 2 – “”Se a vossa justiça não exceder as dos escribas e fariseus” Mateus 5:20

Entendendo as Palavras Difíceis de Jesus – Parte 2

“Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus…” (Mateus 5:20)

Publicado por Adivalter Sfalsin

Baseado no livro Understanding the Difficult Words of Jesus – David Bivin

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.”

(Mateus 5:20)

Essa afirmação de Jesus pode parecer desconcertante, especialmente à primeira leitura. Os escribas e fariseus eram vistos como os mais zelosos cumpridores da Lei. Se nem eles seriam aceitos no reino dos céus, que esperança teriam os demais?

Será que Jesus está exigindo uma religiosidade ainda mais rigorosa? Mais regras? Mais perfeição moral?

Essa é uma interpretação comum, mas levanta sérias tensões com outros ensinamentos fundamentais do Novo Testamento, que afirmam que a salvação é pela graça, e não por mérito (Efésios 2:8-9).

Como, então, devemos entender essa declaração?

A resposta está na compreensão do significado original da palavra “justiça” e na expressão “reino dos céus”.

No hebraico bíblico, o termo tsedakah significava, de forma ampla, retidão, salvação e o agir fiel de Deus. Era um conceito associado não apenas à conduta humana, mas à própria intervenção salvadora de Deus em favor do seu povo.

Contudo, nos dias de Jesus, o significado de tsedakah passou a incluir também um sentido mais específico e prático: caridade ou generosidade para com os pobres. Entre os fariseus, três práticas eram vistas como pilares da vida piedosa: oração, jejum e generosidade. Dentre essas, a generosidade tornou-se, em muitos círculos, a mais importante — pois era considerada uma expressão tangível do relacionamento com Deus.

Assim, quando Jesus diz que nossa “justiça” deve exceder a dos escribas e fariseus, ele está utilizando um jogo de palavras que sua audiência entendia perfeitamente.

Em Mateus 5:20, Jesus parece usar os dois sentidos da palavra tsedakah de forma intencional:

“Porque vos digo que, se a vossa tsedakah (generosidade) não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus (tsedakah como salvação).”

Em outras palavras, Jesus está dizendo: Se vocês confiarem apenas na generosidade visível, na religiosidade exterior, como forma de obter aceitação diante de Deus, jamais entrarão no reino. A verdadeira justiça não nasce da performance, mas da confiança na salvação que vem do próprio Senhor.

Essa justiça que “excede” é aquela que vem da fé — e não das obras — como bem enfatizou o apóstolo Paulo:

“Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus.”

(Romanos 10:3)

Outro elemento fundamental para compreender essa passagem é o que Jesus quer dizer por “reino dos céus”. Em Mateus, essa expressão é usada para designar o movimento iniciado por Jesus, composto por seus discípulos e seguidores — aqueles que vivem sob o reinado de Deus aqui e agora.

Entrar no “reino dos céus”, portanto, não significa simplesmente “ir para o céu” após a morte, mas tornar-se parte do povo que vive sob os princípios e a autoridade do Messias.

Dessa forma, podemos parafrasear Mateus 5:20 da seguinte forma:

“Se a sua generosidade, se o seu modo de viver, não for mais profundo do que o exibido pelos fariseus — se não estiver fundamentado na confiança na salvação de Deus — vocês não poderão fazer parte do meu reino e experimentar a verdadeira justiça do Senhor.”

Jesus não está pedindo mais religiosidade. Ele está convidando para um tipo completamente diferente de justiça: aquela que nasce da graça, se expressa na fé, e se manifesta em uma vida transformada.

A justiça dos fariseus era visível, admirada, meticulosa — mas também era muitas vezes vazia de misericórdia e confiança real em Deus. Eles praticavam a tsedakah da generosidade, mas ignoravam a tsedakah que vem de Deus.

A verdadeira justiça, segundo Jesus, é fruto de um coração rendido, humilde, que sabe que não pode se salvar, mas que é movido a amar e servir porque foi alcançado pela misericórdia divina.

Essa mensagem continua relevante. Ainda hoje, é fácil cair na tentação de pensar que podemos “compensar” nossas falhas com boas obras, ou que merecemos o favor de Deus por sermos “bons cristãos”.

Mas o evangelho nos lembra: não somos salvos porque fazemos o bem. Fazemos o bem porque fomos salvos. A graça de Deus é o ponto de partida, e não a recompensa final.

A justiça que excede é aquela que nasce do encontro com Jesus, que nos transforma de dentro para fora, e nos convida a confiar menos em nós mesmos e mais na bondade de Deus.

Quando Jesus diz que nossa justiça deve exceder a dos fariseus, Ele não está propondo uma nova escada para o céu. Está nos chamando para descer do nosso orgulho, abandonar as aparências e confiar na justiça que só Ele pode nos dar.

Essa é a justiça que nos faz parte do reino. Essa é a justiça que salva. Essa é a justiça que transforma.

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Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 1 – Ligar e Desligar Mateus 16:19

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 1

Ligar e desligar

Mateus 16:19 – (leia todo o texto para entender o contexto desse versículo)

E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.

Os verbos traduzidos como ligar e desligar no original são amarrar e desamarrar que aparecem com mais de um significado no velho testamento, por exemplo:

Em Juízes 15:12 E disseram-lhe: “Descemos para te amarrar e te entregar nas mãos dos filisteus. “

Em Gênesis 49:11 “Ele amarrará o seu jumentinho à vide, e o filho da sua jumenta à cepa mais excelente; ele lavará a sua roupa no vinho, e a sua capa em sangue de uvas.”

Em Números 30:2 “E ordenou aos homens mais poderosos, que estavam no seu exército, que atassem a Sadraque, Mesaque e Abednego, para lançá-los na fornalha de fogo ardente.”

Em Daniel 3:20 “Quando um homem fizer voto ao Senhor, ou fizer juramento, ligando a sua alma com obrigação, não violará a sua palavra: segundo tudo o que saiu da sua boca, fará.”

Em 2 Reis 17:4 “Porém o rei da Assíria achou em Oséias conspiração; porque enviara mensageiros a Só, rei do Egito, e não pagava tributos ao rei da Assíria cada ano, como dantes; então o rei da Assíria o encerrou e aprisionou na casa do cárcere.” Quer dizer: Emprisionar.

Essa palavra ao chegar nos tempos de Yeshua (Jesus) havia adquirido mais um sentido, o de amarrar ou permitir, similarmente desamarrar ou proibir. Na literatura rabínica na maior parte dos textos o sentido é de permitir ou proibir. Rabinos e sábios na época de Yeshua (Jesus) eram constantemente solicitados para interpretar os mandamentos divinos em suas comunidades, com perguntas como “tal ação é permitida dentro da lei divina”? ou “tal ação pode me tornar ritualmente impuro? Etc… A bíblia proíbe o trabalho no sábado mas não define o que é trabalho, por esse motivo os sábios e rabinos eram chamados para interpretar o que constituía trabalho, desta forma “permitiam ou proibiam” (ligavam ou desligavam) algumas atividades.

Os tradutores gregos de Mateus 16:19 usaram as palavras “dein” e “luein” que significam amarrar e desamarrar embora o texto no seu contexto lingüístico significa permitir e proibir. Após essa consideração podemos concluir que Jesus estava dando a Pedro autoridade para tomar decisões em relação a vida da igreja, ele conferiu a Pedro o símbolo de autoridade “chaves do reino do céus”, “reino do céus” aqui é sinônimo da palavra D-us. Em suma o que Pedro proibisse  D-us proibiria e o que Pedro permitisse D-us permitiria em relação a regulamentação da vida da igreja.

O movimento que Yeshua (Jesus) criou, fenômeno chamado “os seguidores do caminho” era um novo capítulo na história judaica, novas situações iriam ocorrer onde esse movimento teria que tomar decisões únicas. Situações que a bíblia (Velho Testamento – Tanak) não havia instruções em como agir e até mesmo os sábios de Israel não saberiam o que fazer. Decisões teriam que ser tomadas e soluções teriam que ser encontradas e mais preocupante ainda o Mestre não estaria com eles fisicamente para ajudar em tais decisões, a responsabilidade seria de Pedro e de outros lideres desse novo movimento, contudo a afirmação de Yeshua (Jesus) dá legitimidade e afirma a autoridade de Pedro e dos lideres não deixando espaço para o medo em tomar decisões erradas. Autoridade foi dada para que ligassem (permitissem) ou desligassem (proibissem) com o aval do Senhor.

Os apóstolos assim como os sábios e rabinos eram solicitados para interpretarem as escrituras (velho testamento – Tanak) e principalmente a Torá (5 livros de Moisés), resolver disputas internas e encontrar respostas em tempos de crise. As vezes eram confrontados com pequenos problemas e reclamações como por exemplo em atos 6:1-6 onde houve murmuração dos gregos contra os hebreus na distribuição diária da comida as viúvas.

“Ora, naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desprezadas no ministério cotidiano.” Atos 6:1

As viúvas dos gregos estavam sendo desprezadas em relação em relação as viúvas dos judeus. Noutras ocasiões os problemas eram mais sérios algumas controvérsias com potencial para dividir a comunidade de forma irreparável. Uma dessas controvérsias é descrito em Atos 15 – a questão era se os judeus em suas sinagogas deveriam aceitar os gentios que tinham aceitado Yeshua (Jesus) como Senhor de suas vidas sem a exigência da circuncisão descrito na lei de Moisés (Torá). A decisão alcançada é um clássico exemplo de como a liderança desse novo movimento exercer sua autoridade de ligar (permitir) e desligar (proibir). Os discípulos e anciões se reuniram para discutir o problema, depois de muito debate Pedro se levanta e fala em Atos 15:1-11:

“1 Então alguns que tinham descido da Judéia ensinavam assim os irmãos: Se não vos circuncidardes conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos.

2 Tendo tido Paulo e Barnabé não pequena discussão e contenda contra eles, resolveu-se que Paulo e Barnabé, e alguns dentre eles, subissem a Jerusalém, aos apóstolos e aos anciãos, sobre aquela questão.

3 E eles, sendo acompanhados pela igreja, passavam pela Fenícia e por Samaria, contando a conversão dos gentios; e davam grande alegria a todos os irmãos.

4 E, quando chegaram a Jerusalém, foram recebidos pela igreja e pelos apóstolos e anciãos, e lhes anunciaram quão grandes coisas Deus tinha feito com eles.

5 Alguns, porém, da seita dos fariseus, que tinham crido, se levantaram, dizendo que era mister circuncidá-los e mandar-lhes que guardassem a lei de Moisés.

6 Congregaram-se, pois, os apóstolos e os anciãos para considerar este assunto.

7 E, havendo grande contenda, levantou-se Pedro e disse-lhes: Homens irmãos, bem sabeis que já há muito tempo Deus me elegeu dentre nós, para que os gentios ouvissem da minha boca a palavra do evangelho, e cressem.

8 E Deus, que conhece os corações, lhes deu testemunho, dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós;

9 E não fez diferença alguma entre eles e nós, purificando os seus corações pela fé.

10 Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós pudemos suportar?

11 Mas cremos que seremos salvos pela graça do Senhor Jesus Cristo, como eles também.” Atos 15:1-11

Depois Tiago em Atos 15:13-21.

“E, havendo-se eles calado, tomou Tiago a palavra, dizendo: Homens irmãos, ouvi-me:
Simão relatou como primeiramente Deus visitou os gentios, para tomar deles um povo para o seu nome.
E com isto concordam as palavras dos profetas; como está escrito:
Depois disto voltarei, e reedificarei o tabernáculo de Davi, que está caído, levantá-lo-ei das suas ruínas, e tornarei a edificá-lo.
Para que o restante dos homens busque ao Senhor, e todos os gentios, sobre os quais o meu nome é invocado, diz o Senhor, que faz todas estas coisas,
Conhecidas são a Deus, desde o princípio do mundo, todas as suas obras.
Por isso julgo que não se deve perturbar aqueles, dentre os gentios, que se convertem a Deus.
Mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da fornicação, do que é sufocado e do sangue.
Porque Moisés, desde os tempos antigos, tem em cada cidade quem o pregue, e cada sábado é lido nas sinagogas.”
Atos 15:13-21

Nessa situação a decisão de Pedro foi essencial e crucial levando em consideração que Yeshua (Jesus) deu a ele autoridade que afetaria o destino da comunidade daqueles que criam Nele. Pedro então permitiu (ligou) que os gentios entrassem na comunidade dos que criam em Yeshua (Jesus), uma sinagoga sem a necessidade de fazer a circuncisão.

Ele deliberou (permitiu) que o mandamento da circuncisão que era muito pesado para os gentios cumprirem v10 fosse abolido, sendo esse mandamento exclusivo para judeus dentro dos ensinamentos (Torah) de Moises. No v19 Pedro permitiu a entrada dos gentios sem o requerimento da circuncisão:
“Por isso julgo que não se deve perturbar aqueles, dentre os gentios, que se convertem a Deus”.

Mas no v20 Tiago proibiu (amarrou):
“Mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da prostituição, do que é sufocado e do sangue”
Gentios deveriam se distanciarem de cultos pagãos que envolviam prostitutas sacerdotisas em seus rituais, se absterem de comer carnes de animais que o sangue não tinha sido removido conforme descreve Lev 7:26
(carne sufocada) “E nenhum sangue comereis em qualquer das vossas habitações, quer de aves quer de gado.”

Da idolatria. “Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.” Êxodo 20:4

Depois da exposição de Pedro (permissão) e Tiago (proibição) o restante da liderança confirmou a decisão e depois toda a comunidade.

Tradução: A Sfalsin

Retirado do livro

Understanding the difficult words of Jesus

Autor: David Bivin

Entendendo as palavras difíceis de Jesus INTRODUÇÃO

Entendendo as palavras difíceis de Jesus

INTRODUÇÃO

Os evangelhos estão repletos de erros na tradução em Português, isso faz alguma diferença para o leitor? Considerando esses erros na tradução aqui e ali, eles dificultariam nosso entendimento da mensagem de Jesus? Existem passagens nos evangelhos que foram tão mal traduzidas que potencialmente podem causar dano a nossa compreensão e conseqüentemente a nossa vida espiritual.

Infelizmente a resposta para essas perguntas é positiva. Na verdade se a “igreja primitiva” tivesse entendido as palavras de Jesus no seu contexto hebraico, a maior parte das controvérsias teológicas nunca teriam acontecido.

Minha tentativa com essa serie é estudar os textos inseridos em seu contexto cultural, lingüístico e histórico. Evidentemente é uma tarefa de proporções gigantescas dado o enorme abismo cultural que existe entre nossa cultura e a dos hebreus no tempo do segundo templo. Mas vale a pena tentar, qualquer sugestão sadia é bem vinda.

Considerando as frases idiomáticas – qualquer língua carrega essas frases que revelam sua própria identidade cultural, quando essas frases são traduzidas palavra por palavra para uma outra língua ocorre então uma deficiência no sentido e compreensão das palavras. Nos evangelhos podemos ver inúmeras frases idiomáticas que estamos tão acostumados a ouvir que não damos conta de sua existência. Alguns exemplos de frases idiomáticas na bíblia.

Genesis: 6:8 Noé, porém, achou graça aos olhos do SENHOR. Ou simplesmente o Senhor amava Noé.

Genesis 4:1 E conheceu Adão a Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu à luz a Caim.

E Lucas 1:34 E disse Maria ao anjo: Como se fará isto, visto que não conheço homem algum? Ou Simplesmente: ter relações sexuais.

Lucas 16:23 E no inferno, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio. Ou Simplesmente: olhou.

Lucas 23:42 E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino. Ou Simplesmente: interceda junto ao Pai por mim, não faz sentido Jesus só se lembrar que encontrou com ele na cruz mas sim interceder por ele.

Genesis 30:22 E lembrou-se Deus de Raquel; e Deus a ouviu, e abriu a sua madre. Ou Simplesmente: o Senhor agiu em favor dela, não faz sentido o Senhor se lembrar porque ele não pode esquecer de nada, ele é onisciente.

Mateus 6:22

A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; Ou Simplesmente: se você for generoso.

Tradução: A Sfalsin

Tirado do livro

Understanding the difficult words of Jesus

Autor: David Bivin