Pecadinho ou Pecadão?

Explorando as 5 Palavras Mais Comuns para Pecado na Bíblia Hebraica

Se você passou muitos anos em uma igreja protestante, como eu, provavelmente já ouviu a frase: “Não existe pecadinho ou pecadão, todos são iguais.” No entanto, ao mergulharmos no texto hebraico do Antigo Testamento (Tanakh), vemos que a realidade é mais complexa. A língua hebraica utiliza diversas palavras para descrever diferentes formas de pecado, cada uma com seu significado específico e suas implicações. Cada termo carrega nuances que nos ajudam a entender melhor como o pecado é visto nas Escrituras e os diferentes tipos de impacto que ele pode ter. Convido você a explorar comigo as cinco palavras hebraicas mais utilizadas para descrever o pecado no Tanakh e a compreender mais profundamente a maneira como ele é retratado na Bíblia.

1. רָע (Ra) – Mal, Maldade

A palavra mais utilizada para descrever o pecado no Tanakh é Ra, aparecendo mais de 600 vezes. Este termo amplo refere-se ao mal em geral, englobando tanto a maldade moral quanto o impacto destrutivo das ações pecaminosas. Ra não se limita apenas ao pecado individual; ele também reflete a corrupção do coração e da sociedade como um todo. Em muitos casos, Ra é usado para descrever o mal absoluto e a inclinação humana para ações que se afastam da bondade de D-us.

O uso de Ra é particularmente notável em Gênesis 6:5, onde descreve a maldade generalizada da humanidade antes do Dilúvio: “O Senhor viu que a maldade (Ra) do homem se havia multiplicado na terra, e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração.” Aqui, o termo mostra a corrupção profunda que contaminou todas as esferas da vida humana. O impacto do mal descrito por Ra não é apenas espiritual, mas também físico e social, levando à destruição e ao juízo divino.

Este termo nos lembra que o pecado, em sua forma mais abrangente, é uma força destrutiva que afeta não apenas o indivíduo, mas toda a criação. O mal corrompe as relações humanas, destrói a justiça e a retidão, e desvia as pessoas do propósito divino para suas vidas.

2. חֵטְא (Chet) – Errar o Alvo

A segunda palavra mais comum para descrever pecado no Tanakh é Chet, que aparece cerca de 297 vezes. Chet carrega a ideia de “errar o alvo”, como quando um arqueiro erra seu tiro. Este conceito de pecado enfatiza a falha em alcançar o padrão moral que D-us estabeleceu. Chet abrange tanto pecados cometidos de forma não intencional quanto aqueles que resultam de fraqueza ou ignorância. Embora a intenção por trás do pecado seja relevante, o ato de errar o alvo é, em si, suficiente para desviar a pessoa do caminho de retidão.

Um exemplo de Chet aparece em Levítico 4:2, que descreve o pecado não intencional: “Quando uma pessoa pecar sem intenção, fazendo qualquer das coisas que o Senhor proíbe.” Mesmo que o pecado tenha sido cometido de forma acidental, ele ainda exige arrependimento e expiação. Chet nos ensina que não basta simplesmente evitar pecados intencionais; também devemos estar atentos aos nossos erros e falhas cotidianas, buscando continuamente corrigir nossos caminhos.

Na vida prática, Chet pode se manifestar em momentos em que agimos sem plena consciência das consequências de nossas ações. Embora esses pecados possam parecer menos graves, eles ainda distorcem nosso relacionamento com D-us e com os outros. O importante é reconhecer quando erramos o alvo e nos esforçar para realinhar nossas vidas com os propósitos divinos.

3. עָוֹן (Avon) – Iniquidade, Culpa

Avon, com cerca de 233 ocorrências, refere-se à iniquidade e à culpa resultante de ações deliberadas. Este termo carrega uma gravidade maior que Chet, pois implica intencionalidade. Avon é frequentemente usado para descrever uma corrupção moral profunda, na qual a pessoa sabe que está errada, mas persiste em seu comportamento. O pecado de Avon não apenas resulta em culpa pessoal, mas também pode afetar gerações futuras, pois a iniquidade dos pais pode ser transmitida aos filhos, conforme ensinado em Êxodo 20:5.

Em Isaías 53:5, Avon é usado para descrever a culpa que o Messias levaria sobre si: “Mas ele foi traspassado por causa das nossas transgressões, esmagado por causa das nossas iniquidades (Avon).” Aqui, vemos o peso de Avon como algo que exige uma solução divina, pois o ser humano, em sua falha moral, não consegue se libertar sozinho dessa culpa. A transgressão é profunda, e o arrependimento e o perdão de D-us são necessários para restaurar a alma.

Diferente de Chet, que pode ser uma falha não intencional, Avon é um pecado consciente, e suas consequências são mais graves. As escolhas morais que fazemos têm um impacto duradouro, tanto sobre nós quanto sobre os outros, e o pecado deliberado nos afasta de D-us de uma maneira que exige um esforço profundo de arrependimento.

4. רֶשַׁע (Resha) – Maldade, Injustiça

Com cerca de 263 ocorrências, Resha é uma palavra hebraica que descreve um nível elevado de maldade e injustiça. Resha muitas vezes se refere a ações que envolvem violência, opressão ou injustiça social. Enquanto Avon é mais focado na iniquidade pessoal e na culpa, Resha enfatiza o impacto social e coletivo do pecado, especialmente quando se trata de tratar os outros de forma injusta.

Em Provérbios 15:9, lemos: “O Senhor detesta o caminho do ímpio (Resha), mas ama quem busca a justiça.” Resha revela que o pecado não é apenas uma questão pessoal entre o indivíduo e D-us, mas também envolve a maneira como tratamos os outros. Injustiças sociais, opressão dos vulneráveis e a prática de maldade contra o próximo são todos aspectos de Resha. Este termo ressalta que D-us se importa profundamente com a justiça e a equidade na sociedade.

5. עָוֶל (Avel) – Injustiça, Transgressão

Finalmente, temos Avel, que aparece cerca de 53 vezes e está intimamente relacionado a Resha, embora com um foco maior na injustiça legal e social. Avel é muitas vezes usado para descrever situações em que líderes ou juízes pervertem a justiça, cometendo transgressões que prejudicam os inocentes ou favorecem os poderosos. O conceito de Avel nos lembra que o pecado não é apenas uma questão individual, mas pode se manifestar no sistema judicial e nas estruturas sociais.

Levítico 19:15 adverte: “Não cometam injustiça (Avel) no julgamento; nem favoreçam os pobres nem procurem agradar os grandes, mas julguem o próximo com justiça.” Avel destaca que D-us exige justiça e imparcialidade em todas as esferas da vida, e que a corrupção do sistema judicial é um pecado grave aos Seus olhos.

Este estudo das cinco palavras hebraicas mais comuns para pecado no Tanakh revela que o pecado não é uma questão simples de “certo ou errado.” Cada termo traz uma nova dimensão à nossa compreensão do pecado e suas consequências. Ra fala da maldade geral que destrói a bondade; Chet nos lembra de nossas falhas e de como podemos errar o alvo de D-us; Avon mostra a profundidade da culpa moral; Resha destaca a maldade e injustiça sociais; e Avel alerta para as consequências devastadoras da corrupção no sistema judicial.

Essas palavras nos ajudam a perceber que nem todo pecado é igual, e suas consequências variam. O pecado pode ter impactos profundos não apenas em nosso relacionamento com D-us, mas também em nossa vida comunitária e social. Ao compreender essas diferenças, podemos nos empenhar para viver de forma justa e reta, buscando sempre a retidão e o arrependimento quando falharmos.

Adivalter Sfalsin

O que a imoralidade sexual tem a ver com a idolatria?

Idolatria e Imoralidade: Um Laço Indissolúvel

A relação entre imoralidade sexual e idolatria é um tema que permeia profundamente a Bíblia, oferecendo uma visão de como ambos os pecados não apenas estão moralmente interligados, mas também têm uma origem comum. As narrativas do Bezerro de Ouro e de Baal Peor, na Torá, ilustram vividamente a perigosa conexão entre essas duas formas de traição. Embora possam parecer distintos — com a idolatria focada no âmbito espiritual e a imoralidade sexual nas relações humanas — ambos compartilham paralelos profundos que revelam a erosão dos compromissos sagrados. Ao examinarmos essas histórias, podemos ver que o mau uso da intimidade, seja com D-us ou com outra pessoa, traz consequências devastadoras.

Tanto na história de Baal Peor quanto no incidente do Bezerro de Ouro, os israelitas cometem atos de idolatria e imoralidade sexual, e os dois pecados acontecem de forma paralela, reforçando um ao outro. No caso de Baal Peor, a transgressão de Israel começa com a promiscuidade com as filhas de Moabe: “Israel se envolveu com as filhas de Moabe” (Números 25:1). A conduta sexual desencaminha os israelitas a sacrificarem aos deuses moabitas, Baal Peor, levando-os à idolatria: “Elas convidaram o povo para os sacrifícios aos seus deuses, e o povo comeu e se prostrou diante dos seus deuses” (Números 25:2). O pecado é desencadeado pela indulgência física, que rapidamente se transforma em traição espiritual. Por outro lado, no incidente do Bezerro de Ouro, a sequência é inversa. A idolatria — a construção e adoração do bezerro — vem primeiro, conforme descrito em Êxodo 32:6: “Levantaram-se no dia seguinte, ofereceram holocaustos e trouxeram ofertas pacíficas.” Esse ato de idolatria logo leva à imoralidade sexual: “O povo sentou-se para comer e beber, e levantou-se para se divertir” (Êxodo 32:6). A palavra “divertir” (hebraico: לִצְחַק, litzachek) carrega uma conotação de imoralidade sexual, como se vê em seu uso na história de José e a esposa de Potifar (Gênesis 39:17). Embora a ordem dos eventos seja diferente, os dois pecados estão interligados em ambos os casos, ilustrando como uma forma de traição inevitavelmente leva à outra.

Essa inversão na ordem dos pecados nos trás uma percepção profunda — idolatria levando à promiscuidade no Bezerro de Ouro e promiscuidade levando à idolatria em Baal Peor — não é meramente um recurso narrativo. Em vez disso, aponta para uma verdade mais profunda: idolatria e imoralidade sexual são, fundamentalmente, expressões de um mesmo problema subjacente. Independentemente de qual precede o outro, ambos refletem uma rejeição de relações sagradas e de aliança. A inversão deliberada da sequência na Torá ensina que essas transgressões não são isoladas; pelo contrário, alimentam-se mutuamente, revelando um ciclo de degradação espiritual e moral. No cerne dessa conexão está o mau uso da intimidade, seja em um relacionamento com D-us ou entre seres humanos. A atividade sexual, em seu contexto apropriado, é uma ferramenta poderosa para construir intimidade, confiança e amor dentro de uma relação comprometida. No entanto, quando é usada apenas para prazer físico, dissociada do contexto relacional e espiritual, ela se torna um ato superficial e egoísta. Da mesma forma, a idolatria distorce o ato sagrado de adoração. A adoração deve fomentar um relacionamento profundo e significativo com D-us, mas a idolatria a reduz a uma prática transacional, com o objetivo de manipular o divino para ganho pessoal. Em ambos os casos, seja na promiscuidade sexual ou na idolatria, a essência da transgressão é o egoísmo. O adúltero ou a pessoa promíscua busca apenas gratificação imediata, ignorando o significado mais profundo da intimidade. Da mesma forma, o idólatra não está interessado em um relacionamento genuíno com D-us, mas em usar o ritual como um meio de controlar o divino. Ambas as formas de imoralidade representam uma traição dos relacionamentos que deveriam ser honrados — a intimidade sexual entre parceiros e a intimidade espiritual com D-us.

A conexão entre imoralidade sexual e idolatria torna-se ainda mais clara quando consideramos o impacto que ambos têm nos relacionamentos sagrados. Após o Bezerro de Ouro e Baal Peor, a comunidade sofre consequências devastadoras. A ira de D-us é provocada, e o povo experimenta severas punições, incluindo uma praga que ceifa milhares de vidas. Após o incidente do Bezerro de Ouro, “cerca de três mil pessoas caíram naquele dia” (Êxodo 32:28), enquanto em Baal Peor, “vinte e quatro mil morreram na praga” (Números 25:9). Contudo, não são apenas as consequências externas que importam; é a destruição interna da confiança, lealdade e amor que define essas transgressões. A imoralidade sexual destrói a confiança e a santidade que deveriam existir entre os parceiros, reduzindo o relacionamento a um momento passageiro de satisfação física. Da mesma forma, a idolatria rompe a aliança entre D-us e Seu povo, substituindo-a por rituais vazios, desprovidos de conexão real. Ambos os atos são traições, e ambos levam à erosão da intimidade que sustenta esses relacionamentos.

O ato zeloso de Finéias, a conexão entre idolatria e imoralidade sexual é mais claramente demonstrada na resposta violenta de Finéias ao pecado de Baal Peor. A praga que devastava o acampamento israelita só termina quando Finéias pega uma lança e mata um casal envolvido em conduta sexual imprópria. “Finéias… levantou-se do meio da congregação, pegou uma lança na mão, seguiu o homem israelita até a tenda e os atravessou” (Números 25:7-8). Notavelmente, ele não mata um adorador de ídolos, mas um casal cuja promiscuidade simboliza a traição mais ampla da comunidade a D-us. Por que interromper um ato de imoralidade sexual encerraria uma praga causada pela idolatria? Porque, como o texto sugere, idolatria e imoralidade sexual são duas faces da mesma moeda. Ambas representam uma traição aos compromissos sagrados, e, ao abordar uma, Finéias resolve ambas. D-us recompensa Finéias com a “aliança de paz”, reconhecendo que, ao interromper esse ato público de traição, Finéias preservou o potencial de restauração da intimidade — tanto no relacionamento entre D-us e Israel quanto nos relacionamentos pessoais do povo: “Eis que lhe dou a minha aliança de paz” (Números 25:12). A aliança de paz é justamente aquilo que havia sido destruído tanto pela imoralidade sexual quanto pela idolatria: a paz que surge de um relacionamento profundo, comprometido e amoroso.

A justaposição desses dois pecados — imoralidade sexual e idolatria — na Torá nos ensina uma lição profunda sobre a natureza dos relacionamentos sagrados. Seja em nossa vida espiritual ou em nossos relacionamentos humanos, a intimidade deve ser tratada com reverência e cuidado. Quando abusamos das ferramentas da intimidade, seja através de conduta sexual inadequada ou de atos superficiais de adoração, traímos a essência desses relacionamentos e empobrecemos os laços que deveriam nos elevar. Os paralelos entre Baal Peor e o Bezerro de Ouro nos lembram que violações da moralidade sexual e da fidelidade espiritual estão intimamente conectadas. Uma forma de traição frequentemente leva à outra, e quando a intimidade é mal utilizada, todo o tecido do relacionamento — seja com D-us ou com outra pessoa — se desfaz. Devemos, portanto, ser vigilantes na preservação da santidade dessas ferramentas, usando-as para fortalecer, em vez de enfraquecer, os laços sagrados que compartilhamos com D-us e com o próximo.

Este texto é baseado em uma explicação dada por Immanuel Shalev. Adaptado e escrito por 

Adivalter Sfalsin.

Leitura recomendada: Para aprofundar-se no tema da idolatria e sua relevância do Éden até os dias atuais, convidamos você a ler o artigo “Idolatria: do Éden ao Presente”.

O Coração do Dízimo: Gratidão, Generosidade e Justiça

Dízimo e Prioridades em Deuteronômio 26:11-12: Uma Reflexão sobre os Mandamentos de D-us.


Deuteronômio 26:11-12 aborda um princípio essencial de gratidão, generosidade e cuidado comunitário. Nesses versículos, D-us ordena ao Seu povo que compartilhe as bênçãos que receberam com os outros, especialmente com os necessitados. O ato de dizimar não é apenas um dever religioso; é um reflexo da justiça de D-us e do Seu cuidado com os vulneráveis na sociedade. Vamos analisar os principais componentes dessas instruções e suas implicações para os dias de hoje.

O versículo 11 começa com um chamado à alegria: “E te alegrarás por todo o bem que o Senhor, teu D-us, te deu, a ti e à tua casa, tu, o levita e o estrangeiro que está no meio de ti.” O coração do dízimo é a gratidão. Ele nos lembra que tudo o que possuímos vem, em última análise, de D-us. Ao reconhecer isso, somos chamados não apenas a ser gratos, mas a compartilhar essas bênçãos com os outros, garantindo que ninguém seja excluído da alegria da comunidade.

O versículo 12 foca no dízimo do terceiro ano, frequentemente chamado de “Ano do Dízimo”. Nesse ano específico, os israelitas eram instruídos a reunir o aumento (um décimo da sua renda) e distribuí-lo a quatro grupos principais: os levitas, estrangeiros, órfãos e viúvas. Essas eram pessoas que não possuíam herança própria (como os levitas) ou que eram particularmente vulneráveis (estrangeiros, órfãos e viúvas). O objetivo era garantir que tivessem o suficiente para comer e viver bem em suas cidades.

As Três Prioridades do Dízimo
O contexto mais amplo do dízimo bíblico revela três prioridades principais para a distribuição do dízimo:

  1. Aos Pobres e Vulneráveis – O foco principal está em cuidar dos membros da comunidade que estão em necessidade. Isso inclui os pobres, os órfãos e as viúvas. Esses indivíduos muitas vezes não têm meios de sustento, e é responsabilidade dos fiéis garantir que suas necessidades sejam atendidas.
  2. Aos Levitas – Os levitas, como servos de tempo integral do Senhor, não possuíam terras nem produziam sua própria renda. Eles dependiam dos dízimos para seu sustento. No contexto moderno, isso corresponde ao apoio àqueles que dedicam suas vidas ao serviço espiritual e à liderança na comunidade.
  3. Ao Depósito Comum (O Templo) – O templo era o centro de adoração e sacrifícios do povo. Os dízimos eram dados para manter a logística do templo, garantindo que ele pudesse funcionar e fornecer um lugar de adoração para a nação. Hoje, isso pode ser entendido como o apoio às necessidades físicas de um local de culto ou reunião da comunidade, como a manutenção de edifícios ou programas.

É fundamental compreender que o ensinamento sobre o dízimo vai além da simples doação de 10% da renda. Essa porcentagem é apenas o ponto de partida que D-us estabelece para Seu povo. O verdadeiro objetivo do dízimo é nos formar como indivíduos generosos e compassivos em todos os aspectos da vida. D-us não deseja que cumpramos uma obrigação, mas que cultivemos um estilo de vida de generosidade que ultrapasse valores fixos.

D-us entende que, por natureza, temos a tendência de nos concentrar na acumulação de riquezas materiais, acreditando que isso nos proporcionará felicidade. Contudo, a mensagem bíblica desafia esse instinto. Ao compartilhar com os outros—especialmente com os pobres, os vulneráveis e aqueles que servem à comunidade—alinhamos nossos corações à vontade de D-us e encontramos a verdadeira alegria de uma vida abençoada. Infelizmente, muitos líderes religiosos manipulam essa fraqueza humana, distorcendo o mandamento de D-us ao ensinar que felicidade se encontra na posse de bens materiais, e que ser abençoado significa possuir o melhor que o mundo pode oferecer. Essa interpretação é uma corrupção dos princípios bíblicos.

Não devemos esquecer que quanto mais D-us abençoa uma pessoa, maior é a responsabilidade de ser generosa; a obrigação social de quem recebe mais é significativamente maior do que a de quem tem menos. Essa verdade muitas vezes passa despercebida por aqueles que veem os bens materiais apenas como um meio de satisfação pessoal, guiados por seus próprios egos e desejos.

D-us nos lembra que a verdadeira felicidade e realização não vêm da acumulação, mas do ato de compartilhar o que temos. Ao ordenar o dízimo e direcioná-lo aos necessitados, D-us está formando Seu povo para resistir ao materialismo e adotar uma postura de altruísmo.

Esse princípio é ecoado nos ensinamentos de Jesus no Novo Testamento. Como afirma o Evangelho de Mateus:
“O Rei dirá aos justos: ‘Venham, vocês que são abençoados por meu Pai, e recebam o Reino que lhes foi preparado desde o princípio. Eu estava com fome, sede, era estrangeiro, estava nu, doente e preso, e vocês cuidaram de mim.’ Os justos perguntarão: ‘Quando fizemos isso?’ O Rei responderá: ‘Sempre que fizeram isso a um dos menores destes, vocês o fizeram a mim.'”

Esse ensinamento enfatiza que o verdadeiro serviço a D-us se reflete em como tratamos os mais vulneráveis entre nós. Quando damos aos necessitados, estamos dando ao próprio D-us.

Em muitas comunidades modernas, essas prioridades mudaram. Muitas vezes, o foco está primeiro na manutenção das operações, seguido do pagamento de despesas administrativas ou de liderança. Somente se sobrar dinheiro é que ele pode ser usado para os pobres ou necessitados. Isso é o oposto do modelo bíblico.

Como mencionado na reflexão sobre esses versículos, muitas pessoas hoje encontram dificuldade em receber ajuda de sua comunidade. Muitas vezes são rejeitadas ou ignoradas ao buscar assistência. Isso está longe do coração do que D-us pretendia para Seu povo. Os pobres e vulneráveis deveriam ser uma prioridade, e não uma reflexão tardia.

Deuteronômio 26:13 nos dá um lembrete sério: aqueles que receberam muito são responsáveis pelo que fazem com isso. O dízimo é descrito como uma “porção sagrada” que pertence a D-us. Não distribuí-lo de acordo com Seus mandamentos não apenas negligencia os necessitados, mas também reflete uma falha em honrar as bênçãos de D-us.

A mensagem aqui é simples: quando falhamos em cuidar dos vulneráveis em nossa comunidade, estamos agindo de forma hipócrita. Proclamamos gratidão pelas bênçãos de D-us, mas falhamos em estender essa bênção aos outros. A verdadeira gratidão se manifesta em ação – compartilhando com os menos afortunados.

O sistema de dízimos não se trata de limitar a generosidade a um valor ou porcentagem fixa. É um ponto de partida, uma ferramenta para moldar nosso caráter em pessoas generosas e compassivas. Somos chamados a ser generosos não apenas no contexto do dízimo, mas em todas as nossas interações e encontros. Seja em nossas comunidades, locais de trabalho ou vidas pessoais, o princípio permanece o mesmo: para sermos verdadeiramente abençoados e viver uma vida plena, devemos aprender a dar aos outros.

Deuteronômio 26:11-12 nos desafia a repensar as prioridades de doação e generosidade dentro de nossas comunidades de fé. Os mandamentos de D-us são claros: os pobres, os vulneráveis e aqueles que O servem devem ser cuidados em primeiro lugar. Ao fazer isso, honramos as bênçãos que recebemos e criamos uma comunidade onde ninguém fica desamparado.

Ao refletirmos sobre esses versículos, devemos examinar nossas próprias vidas e as práticas de nossas comunidades. Estamos realmente vivendo o mandamento de cuidar dos pobres e vulneráveis entre nós? Estamos usando os recursos de D-us de maneira que reflita Seu coração de justiça e compaixão? E estamos permitindo que as instruções de D-us sobre o dízimo nos transformem em pessoas generosas, além dos 10%? Estas são as perguntas que todo crente e comunidade deve fazer ao buscar viver fielmente os mandamentos de D-us.

Adivalter Sfalsin

Você é Livre de Verdade?

Você é Livre de Verdade?

A liberdade é um conceito amplamente discutido e interpretado ao longo dos séculos, especialmente em contextos religiosos, filosóficos e sociais. A narrativa bíblica da libertação dos hebreus no Egito é um dos textos mais antigos que aborda a questão do livre-arbítrio, propondo reflexões profundas sobre o que significa, de fato, ser livre. Em Êxodo 8:1, o Senhor ordena a Moisés: “Vai a Faraó e dize-lhe: Assim diz o Senhor: Deixa ir o meu povo, para que me sirva.” Esse versículo, aparentemente simples, levanta questões complexas sobre a natureza da liberdade. Afinal, se D-us deseja que o povo saia do Egito para servi-Lo, onde está o livre-arbítrio?

A narrativa sugere que, embora os hebreus fossem libertos da servidão a Faraó, eles seriam, de certa forma, chamados para servir a outro Senhor, D-us. À primeira vista, isso pode parecer contraditório à ideia de liberdade plena. No entanto, a essência da questão reside no tipo de serviço e nas consequências que esse serviço traz. O povo tinha uma escolha: continuar servindo a Faraó, o símbolo do cativeiro e da opressão, ou seguir Moisés ao deserto, onde serviriam ao Senhor. O que está em jogo não é a ausência de servitude, mas sim a escolha de a quem servir. Como nos revela essa narrativa, a verdadeira liberdade não se encontra na rejeição de toda autoridade, mas na escolha do tipo de autoridade a qual nos submetemos.

A liberdade, aqui, não é a ausência de servidão, mas a capacidade de escolher a quem servir. E, nesse contexto, não servir a ninguém não é uma opção, não existe campo neutro. O indivíduo pode servir a Faraó, representando os seus próprios desejos, pecados, inclinações e limitações, ou pode servir a D-us, que oferece uma relação transformadora, mas ao mesmo tempo também desafiadora.

O Egito, nessa narrativa, funciona como uma metáfora para a escravidão espiritual. Embora o cativeiro seja opressor, ele é familiar e oferece uma falsa sensação de segurança. O deserto, por outro lado, representa a liberdade de um mestre tirano, mas uma liberdade ao mestre amoroso é cheia de incertezas, porque não conhecemos o futuro que Ele reservou. Ir para o deserto é optar pelo desconhecido, pelo risco, pela fé no que está por vir. No entanto, essa jornada também implica em um compromisso: servir a D-us, que nos chama para uma relação de entrega e dedicação.

A palavra hebraica utilizada no versículo, “ʿāḇaḏ” (עָבַד), significa trabalhar ou servir voluntariamente. Isso sugere que o serviço ao Senhor não é uma escravidão forçada, mas um convite a uma relação voluntária e transformadora. A ideia de servir, no contexto bíblico, é muito mais próxima de uma entrega consciente e dedicada, semelhante à dos levitas, que dedicavam suas vidas ao serviço de D-us.

Portanto, a narrativa propõe que a escolha é simples: servir a Faraó, ou seja, continuar preso aos próprios desejos e limitações, ou servir a D-us, o que implica em uma liberdade que transcende o plano terreno e que se constrói sobre a fé. A liberdade de escolha existe, mas a natureza humana implica que, de uma forma ou de outra, estaremos sempre sob alguma autoridade, seja a dos nossos desejos ou a de algo maior que nós mesmos.

Há, entretanto, uma grande diferença entre os dois tipos de serviço. Faraó, que aqui representa os pecados e as limitações humanas, oferece uma servidão que escraviza e aprisiona. D-us, por outro lado, quando aceita a nossa entrega, nos adota como filhos. O apóstolo Paulo, em sua carta aos Efésios, capítulo 1, versículo 5, diz: “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade.” Essa adoção não pode ser revogada, um aspecto interessante da prática romana, que Paulo utiliza como analogia. Enquanto um pai poderia desertar um filho de sangue, a adoção era irrevogável. Uma vez filho, sempre filho.

Portanto, a liberdade verdadeira está em escolher o Senhor que nos oferece uma relação de amor e compromisso eterno. Mesmo que a liberdade plena, no sentido de não servir a ninguém, seja impossível, a escolha de a quem servir define nossa condição espiritual e nossa vida. Servir a D-us é entrar em uma relação de adoção, onde o Senhor nos chama de filhos e nos garante uma liberdade que, ainda que dentro de uma servitude voluntária, é uma liberdade plena de propósito e significado. A verdadeira liberdade é estar livre de todo desejo que nos aprisiona. 

Adivalter Sfalsin

Idolatria: Do Éden ao Presente

Desde a infância, sempre me perguntei por que adultos se prostram diante de estátuas e símbolos, fazendo pedidos para suas necessidades mais diversas, desde curas até aspirações de ascensão social. De onde surgiu essa prática? Qual é o atrativo dos ídolos? Qual é o poder que eles possuem? E, principalmente, qual é a nossa relação com eles? A idolatria vai além de uma mera curiosidade histórica e possui profundas implicações para nossa compreensão da natureza humana e da espiritualidade. Ao examiná-la sob uma perspectiva bíblica, descobrimos suas origens, os perigos inerentes e os contrastes entre a adoração politeísta e monoteísta.

A idolatria pode ser rastreada desde o início da história humana. No Jardim do Éden, Adão e Eva viviam em um estado de provisão divina e em perfeita relação com D-us. Todas as suas necessidades eram atendidas pelo Criador, e eles desfrutavam de perfeita harmonia com Ele. Contudo, o desejo de autonomia os levou a buscar controle sobre seu próprio destino ao comerem do fruto da árvore do conhecimento, desobedecendo à proibição expressa de D-us:

“Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:17).

Esse ato refletiu um desejo profundo de controlar o próprio destino e obter um conhecimento que era reservado a D-us — a prerrogativa de determinar o que era bom ou mau. Essa busca por controle encapsula a essência da idolatria: o desejo de influenciar aspectos da vida que estão além do controle humano.

Ao longo da história, diferentes povos adoraram múltiplos deuses. Um soldado, por exemplo, poderia buscar proteção em batalha de uma divindade da guerra, enquanto um agricultor poderia rezar por uma colheita bem sucedida. Mas, em praticamente todas as culturas, um tipo de deus era comum: o deus da fertilidade. Os egípcios, nórdicos, etruscos, maias e cananeus — todos eles tinham divindades da fertilidade, pois a fertilidade era crucial para a sobrevivência e prosperidade. O mundo antigo era cheio de medos e incertezas, desde colheitas ruins que poderiam levar à fome até as altas taxas de mortalidade infantil. A adoração de ídolos oferecia uma forma de enfrentar esses medos, prometendo controle sobre a fertilidade e o sustento. Nos sistemas politeístas, a adoração girava em torno de apaziguar vários deuses para obter favores específicos. Essas relações eram transacionais, movidas pelo medo e interesse próprio. A atração pelo controle sobre aspectos incontroláveis da vida foi central para a adoração de ídolos. Os adoradores buscavam benefícios desses deuses, não por amor ou gratidão, mas para alcançar resultados específicos.

Em contraste, o monoteísmo, conforme ensinado na Bíblia, enfatiza um relacionamento pessoal com um D-us que é a fonte de toda a vida e bênçãos. Esse D-us não exige adoração transacional, mas deseja um relacionamento genuíno, assim como era no Jardim do Éden. O monoteísmo ensina que tudo vem de uma única fonte divina, e a adoração deve ser uma expressão de gratidão, em vez de um meio de manipular ou controlar.

A Bíblia condena a idolatria por várias razões: Ela viola o Primeiro Mandamento ao colocar outros deuses antes de Adonai.

“Não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo 20:3).

E o Segundo Mandamento ao fazer e adorar imagens esculpidas.

“Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu D-us, sou D-us zeloso, que visito a maldade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam” (Êxodo 20:4-5).

A adoração de ídolos muitas vezes leva a um significativo declínio moral e espiritual, associando-a a práticas corruptoras, como o sacrifício de crianças e a imoralidade sexual.

“Porque até os seus filhos e as suas filhas queimaram no fogo aos seus deuses. Tudo o que eu vos ordeno, observareis; nada lhe acrescentareis nem diminuireis” (Deuteronômio 12:31).

“E queimaram a seus filhos e as suas filhas no fogo, e usaram de adivinhações e de prognósticos; e venderam-se para fazer o que era mau aos olhos do Senhor, para o provocarem à ira” (2 Reis 17:17).

Na antiguidade, a adoração aos ídolos estava estritamente ligada à prática sexual em público e, muitas vezes, em grupo, um atrativo para manter o engajamento humano. Muitos templos tinham sacerdotes e sacerdotisas cuja função primária era seduzir novos adeptos com sua sensualidade exagerada. Na verdade, a adoração aos ídolos revela a essência caída da alma: sede por controle, insegurança e materialismo. O Salmo 115 descreve os ídolos como sendo feitos de prata e ouro, moldados pelas mãos dos homens. Embora possuam forma humana — com boca, olhos, ouvidos, nariz, mãos e pés — eles são incapazes de falar, ver, ouvir, cheirar, tocar ou andar. Esses objetos criados não têm vida própria, sendo totalmente impotentes. E o texto faz uma observação ainda mais incisiva: aqueles que adoram ídolos acabam se tornando como eles. Esses indivíduos perdem a sensibilidade espiritual, tornando-se espiritualmente cegos e surdos, incapazes de discernir a verdade.

“Os ídolos deles são prata e ouro, obra das mãos dos homens. Têm boca, mas não falam; olhos têm, mas não veem. Têm ouvidos, mas não ouvem; narizes têm, mas não cheiram. Têm mãos, mas não apalpam; pés têm, mas não andam; nem som algum sai da sua garganta. Semelhantes a eles se tornem os que os fazem, e todos os que neles confiam” (Salmo 115:4-8).

Essas práticas refletem uma degradação moral mais ampla que acompanha a adoração de deuses falsos. O adultério espiritual na idolatria significa uma traição do relacionamento com D-us, levando a uma bússola moral corrompida e a uma saída da retidão.

Engajar-se na idolatria pode resultar em uma profunda separação de D-us. A Bíblia adverte que a idolatria leva à cegueira espiritual e ao endurecimento do coração, dificultando a compreensão genuína e o relacionamento com o divino:

“Sim, endureceram o coração como diamante, para que não ouvissem a lei, nem as palavras que o Senhor dos Exércitos enviara pelo seu Espírito, mediante os profetas que nos precederam. Por isso, veio a grande ira do Senhor dos Exércitos” (Zacarias 7:12).

“Todos os artífices de imagens de escultura são vaidade, e as suas coisas mais desejáveis são de nenhum préstimo; e as suas próprias testemunhas nada veem, nem sabem, para que eles sejam confundidos” (Isaías 44:9-20).

Essa separação sublinha as sérias consequências de se afastar da verdadeira fonte de orientação e apoio espiritual.

Além disso, a Bíblia também descreve a idolatria como levando a consequências severas, incluindo julgamento e destruição divinos. Relatos históricos ilustram como a idolatria resultou na queda de nações e comunidades, demonstrando o poder destrutivo da desobediência aos mandamentos de D-us.

“Não farás aliança alguma com eles, nem com os seus deuses” (Êxodo 23:32).

“Porque fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses; assim a ira do Senhor se acenderia contra vós, e depressa vos consumiria” (Deuteronômio 7:4).

“E não andastes após outros deuses para os servirdes e para os adorardes, nem me provocastes à ira com as obras de vossas mãos para vosso próprio mal. Portanto, assim diz o Senhor dos Exércitos: Visto que não escutastes as minhas palavras” (Jeremias 25:6-7).

Essas consequências se manifestam tanto no plano espiritual quanto no material. A confiança nos ídolos frequentemente leva a uma segurança ilusória e mal direcionada. A Bíblia ensina que os ídolos são impotentes e incapazes de oferecer a verdadeira ajuda ou salvação que as pessoas buscam.

“Mas o Senhor está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra” (Habacuque 2:18-19).

“Os ídolos não podem andar, têm de ser levados nos ombros, porque não andam; não tenhais receio deles, pois não podem fazer mal, nem tampouco têm poder de fazer bem” (Jeremias 10:5).

A dependência desses objetos ou divindades impotentes pode resultar em profunda decepção e uma falsa sensação de segurança, pois eles não podem cumprir suas promessas ou oferecer verdadeiro apoio espiritual ou material. Além disso, a idolatria pode ter impactos sociais mais amplos, levando à corrupção moral e espiritual generalizada. A Bíblia alerta que a idolatria pode se espalhar pelas sociedades, corroendo valores religiosos e éticos e contaminando a verdadeira adoração.

“Não farás aliança alguma com eles, nem com os seus deuses. Na tua terra não habitarão, para que te não façam pecar contra mim; se servires aos seus deuses, certamente isso será um laço para ti” (Êxodo 23:33).

“30 E fez Acabe, filho de Onri, o que era mau aos olhos do Senhor, mais do que todos os que foram antes dele. E sucedeu que (como se fora pouco andar nos pecados de Jeroboão, filho de Nebate) ainda tomou por mulher a Jezabel, filha de Etbaal, rei dos sidônios; e foi e serviu a Baal, e o adorou.” (1 Reis 16:30-31).

Essa corrupção mina a integridade comunitária e a base moral compartilhada, essenciais para uma sociedade saudável.

Os princípios contra a idolatria permanecem relevantes hoje. A verdadeira adoração envolve reconhecer o controle absoluto de D-us e expressar gratidão, em vez de tentar manipular práticas espirituais para ganho pessoal. Rituais e sacrifícios devem ser expressões de amor e relacionamento, não ferramentas para alcançar objetivos pessoais. Evitar a idolatria significa rejeitar tentativas de controlar ou influenciar aspectos da vida além do nosso controle e nos encoraja a construir um relacionamento genuíno com D-us, a fonte de todas as bênçãos e a autoridade máxima em nossas vidas.

A idolatria não é apenas uma prática antiga, mas um reflexo das tendências humanas contínuas de buscar controle sobre aspectos da vida que permanecem além do nosso alcance. Os ensinamentos bíblicos sobre a idolatria oferecem um poderoso lembrete de seus perigos espirituais, morais e sociais. Compreender a diferença entre politeísmo e monoteísmo ajuda a iluminar por que adorar múltiplas divindades ou objetos físicos pode levar a profundas consequências, incluindo degradação moral e separação espiritual do único D-us verdadeiro. Ao prestar atenção a esses avisos, indivíduos e comunidades podem cultivar uma vida espiritual mais sincera e significativa, apreciando a importância de manter uma devoção pura e indivisa a D-us, evitando as armadilhas da confiança mal colocada em ídolos e da corrupção moral.

Adivalter Sfalsin

O que o Senhor espera de ti? Parte 2

Moisés e Miqueias oferecem resumos do que D-us pede de Seu povo, mas seus resumos parecem radicalmente diferentes. Moisés, em Deuteronômio 10:12, condensa todos os mandamentos em uma declaração concisa: “Agora, Israel, o que o Senhor teu D-us pede de ti senão que temas o Senhor teu D-us, que andes em todos os Seus caminhos, que O ames e sirvas ao Senhor teu D-us de todo o teu coração e de toda a tua alma.” Séculos depois, o profeta Miqueias oferece um resumo semelhante, mas com um foco drasticamente diferente. Em Miqueias 6:8, ele diz: “Ele te mostrou, ó homem, o que é bom; e o que o Senhor requer de ti? Que pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes humildemente com o teu D-us.”

Pode-se questionar se Miqueias estava alheio à declaração de Moisés, mas isso é altamente improvável. Como profeta, Miqueias certamente conhecia Moisés, o maior dos profetas. De fato, a linguagem de Miqueias parece ecoar a de Moisés. A formulação em Deuteronômio 10:12, “O que o Senhor teu D-us pede de ti?”, é notavelmente semelhante à formulação de Miqueias em Miqueias 6:8, “O que o Senhor requer de ti?”

Isso sugere que Miqueias não estava ignorando as palavras de Moisés, mas sim divergindo conscientemente delas. No entanto, isso levanta uma questão importante: Miqueias está contradizendo Moisés, ou existe uma conexão mais profunda entre suas mensagens?

Para resolver essa aparente contradição, precisamos analisar mais de perto as discrepâncias entre as mensagens de Moisés e Miqueias. A primeira diferença está na ênfase. O resumo de Moisés foca fortemente no relacionamento entre o homem e D-us, destacando a importância de temer a D-us, amá-Lo e servi-Lo de todo o coração e alma (Deuteronômio 10:12-13). Miqueias, por outro lado, desloca o foco para a justiça social, clamando por justiça, misericórdia e humildade diante de D-us (Miqueias 6:8).

Mas as diferenças vão além do conteúdo de suas listas. Seus públicos também diferem. Moisés se dirige a “Israel”, o povo escolhido, enquanto Miqueias fala ao “homem”, ou à humanidade em geral. Essa distinção é sutil, mas significativa. Moisés fala aos israelitas como um grupo específico com um pacto único com D-us, enquanto Miqueias amplia o escopo para incluir as obrigações universais dos seres humanos.

Outra diferença está nos verbos usados para descrever as expectativas de D-us. Moisés usa a palavra “pede” (shoel em hebraico), implicando um pedido (Deuteronômio 10:12). Miqueias usa a palavra “requer” (doresh em hebraico), que é mais forte e implica uma exigência (Miqueias 6:8). Isso sugere que Miqueias não está apenas repetindo a mensagem de Moisés, mas sim construindo sobre ela ao abordar uma dimensão diferente da expectativa divina.

As diferenças de linguagem e ênfase entre Moisés e Miqueias sugerem que eles estão abordando diferentes aspectos da mesma verdade fundamental. Moisés fala sobre o que D-us pede especificamente ao povo hebreu, enquanto Miqueias aborda o que D-us exige de toda a humanidade. Um israelita é tanto uma pessoa quanto um membro de um povo escolhido, e cada identidade traz obrigações diferentes. O resumo de Moisés foca no que D-us pede dos israelitas como um povo de aliança, enquanto Miqueias fala sobre o que D-us exige de todas as pessoas como seres humanos.

A mensagem de Miqueias pode ser entendida como um comentário sobre a de Moisés. Quando Moisés conclui seu resumo dizendo que os mandamentos de D-us são “para o teu próprio bem” (Deuteronômio 10:13), Miqueias retoma essa ideia e elabora sobre o que esse “bem” (tov em hebraico) envolve. De acordo com Miqueias, o bem que D-us deseja vai além das obrigações rituais dos israelitas. Envolve viver uma vida de justiça, misericórdia e humildade – qualidades que definem nossas obrigações morais como seres humanos.

Para compreender completamente a conexão entre Moisés e Miqueias, precisamos olhar para o contexto mais amplo de Miqueias 6. Neste capítulo, D-us apresenta uma queixa contra Israel, convocando as montanhas e colinas para testemunhar Seu caso contra eles (Miqueias 6:1-2). D-us questiona por que Seu povo se cansou Dele, apesar de todo o bem que Ele fez por eles. Ele os lembra da libertação do Egito e da orientação de líderes como Moisés, Arão e Miriam (Miqueias 6:3-4). Curiosamente, Ele também menciona como frustrou as tentativas de Balaque e Balaão de amaldiçoar Israel (Miqueias 6:5).

Essa referência a Balaão pode parecer estranha, mas na verdade contém a chave para entender a mensagem de Miqueias. Balaão, um profeta não israelita, foi contratado para amaldiçoar Israel, mas acabou abençoando-os. Uma de suas bênçãos inclui as famosas palavras: “Quão formosas são as tuas tendas, ó Jacó, as tuas moradas, ó Israel” (Números 24:5). Miqueias parece estar fazendo alusão a essa bênção quando usa a frase “o que é bom” (mah tov em hebraico) em Miqueias 6:8. A referência à tentativa fracassada de Balaão de amaldiçoar Israel ressalta a ideia de que o favor de D-us não pode ser comprado com ofertas ou sacrifícios – um tema que Miqueias enfatiza quando rejeita a ideia de apaziguar D-us com sacrifícios extravagantes, como rios de óleo ou o sacrifício do primogênito (Miqueias 6:6-7).

Miqueias rejeita a noção de que ofertas extravagantes podem demonstrar a devoção a D-us. Em vez disso, ele redireciona o foco para o básico: justiça, bondade e humildade. Estes não são atos extraordinários de devoção, mas sim virtudes fundamentais que refletem a integridade de uma pessoa como ser humano. Em Miqueias 6:8, o profeta enfatiza que D-us não está buscando demonstrações excessivas de religiosidade, mas sim as qualidades que formam o alicerce da vida moral e ética.

Assim, a mensagem de Miqueias complementa a de Moisés. Enquanto Moisés delineia as obrigações religiosas de Israel como um povo de aliança, Miqueias nos lembra que D-us também exige decência humana básica de todas as pessoas. Ambos os profetas falam de diferentes aspectos da expectativa divina, mas juntos, eles formam um quadro completo do que significa viver uma vida que agrada a D-us.

Voltando à menção estranha de Balaão em Miqueias 6:5, vemos que essa referência é central para o argumento de Miqueias. A história de Balaão serve como um lembrete de que o favor de D-us não pode ser manipulado por meio de sacrifícios ou ofertas. Em vez disso, o verdadeiro desejo de D-us é que Seu povo viva com justiça, demonstre misericórdia e ande humildemente com Ele. Dessa forma, Miqueias reforça a mensagem central da Torá: ser uma boa pessoa significa viver uma vida que reflete os valores fundamentais de justiça, bondade e humildade.

As lições de Moisés e Miqueias ressoam profundamente em nossas vidas diárias. Moisés nos lembra de nossas responsabilidades pactuais – nossa necessidade de reverenciar, amar e servir a D-us com todo o nosso coração e alma. Isso nos ensina a importância de alinhar nossas vidas com os princípios divinos e cultivar uma conexão espiritual profunda. No entanto, Miqueias nos desafia a lembrar que a verdadeira bondade também está em como tratamos os outros. Justiça, bondade e humildade não são apenas ideais religiosos, mas formas práticas e cotidianas de viver com significado.

Isso nos ensina que nossas vidas espirituais não podem ser separadas de nossas ações éticas. Ser uma boa pessoa não é medido apenas por rituais religiosos ou grandes gestos, mas pelos pequenos e consistentes atos de integridade e compaixão que refletem a bondade de D-us no mundo. Seja defendendo a justiça, mostrando bondade a um estranho ou praticando humildade em nossos relacionamentos, cumprimos o desejo de D-us de sermos seres humanos melhores. Esse equilíbrio – entre servir a D-us e servir aos outros – é o que, em última análise, nos torna completos, tanto como pessoas de fé quanto como cidadãos do mundo. 

Esse texto é baseado num estudo do Rabbi David Fohrman, onde ele discute as diferenças entre os 2 textos de  Deuteronômio 10 e Miqueias 6. Adaptado e traduzido por:

Adivalter Sfalsin

Leia também; 

O que o Senhor espera de ti? Parte 1

A Bênção de D-us: Compreendendo a Distinção entre Bārak e ʾĀšar

Bendito és Tu, Senhor; ensina-me os teus estatutos.** (Salmo 119:12 NASB)

Em hebraico, existem duas palavras que são traduzidas como “bendito”: ʾāšār e bārûk. A primeira, ʾāšār, é utilizada em versículos como o Salmo 1:1 e se aplica aos seres humanos. A segunda, bārûk, aparece no versículo acima e é direcionada a D-us. Embora a diferença entre essas duas palavras não seja clara em português, compreender essa distinção é fundamental para entender seu uso nas escrituras.

Existem dois verbos hebraicos que significam “abençoar”: bārak e ʾāšar. Mas qual é a diferença entre eles? O verbo bārak é utilizado quando D-us abençoa alguém, expressando um ato de generosidade divina que não depende de mérito humano. Por outro lado, o verbo ʾāšar nunca é usado por D-us, pois é associado a um estado de desejo humano. Quando alguém abençoa a D-us, o verbo é sempre bārak, nunca ʾāšar. Uma razão para essa distinção é que ʾāšar está ligado ao desejo humano de alcançar uma condição invejável: “digno de ser invejado é o homem que confia no Senhor”. D-us, por sua natureza, não almeja o que é humano e, portanto, nunca usa ʾāšar para abençoar.

Além disso, a iniciativa de usar bārak sempre vem de D-us, que concede Suas bênçãos independentemente de qualquer ação humana. Já ʾāšar requer uma ação positiva do homem para que se torne “bendito”. Bārak é mais uma bênção, enquanto ʾāšar é uma congratulação. No grego, bārak é traduzido como *eulogētos*, e ʾāšar como *makarios*. 

Para ser considerado “bendito” (ʾāšrê), o homem precisa realizar ações positivas e seguir os caminhos de D-us. Por exemplo, um homem bendito é aquele que confia em D-us sem duvidar, conforme indicado nos seguintes versículos:

– “Provai, e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nele confia.” (Salmos 34:8)

– “Bem-aventurado o homem que põe no Senhor a sua confiança, e que não respeita os soberbos nem os que se desviam para a mentira.” (Salmos 40:4)

– “Bem-aventurado o homem cuja força está em ti, em cujo coração estão os caminhos aplanados.” (Salmos 84:5)

– “O que atenta prudentemente para o assunto achará o bem, e o que confia no Senhor será bem-aventurado.” (Provérbios 16:20)

Outro exemplo de uma pessoa “bendita” é aquela que segue a autoridade das revelações de D-us, seja através de sua Torá, seus mandamentos ou suas palavras, conforme mencionado em versículos como:

– “Bem-aventurados os retos em seus caminhos, que andam na Torá do Senhor.” (Salmos 119:1)

Ajudar os pobres também é um ato que leva a ser considerado bendito:

– “Bem-aventurado é aquele que atende ao pobre; o SENHOR o livrará no dia do mal.” (Salmo 41:1)

– “O que despreza ao seu próximo peca, mas o que se compadece dos humildes é bem-aventurado.” (Provérbios 14:21)

Por outro lado, o Salmo 1 destaca a ideia de que “bendito é o homem que não faz” certas coisas, como se associar aos ímpios:

– “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.” (Salmos 1:1)

O salmo termina afirmando que os ímpios serão isolados no final, pois não estarão presentes no julgamento e perecerão.

De acordo com Harrison, a tradução para o grego usa *eulogētos* para bārak e *makarios* para ʾāšar. Todas as Bem-aventuranças começam com *makarios*, lembrando-nos de que essas não são dádivas divinas, mas algo que se conquista com esforço humano. Contudo, aqui a ideia central é mostrar nossa gratidão a D-us. Essa é a verdadeira resposta que podemos oferecer: nosso louvor. É crucial lembrar que D-us nunca chama o homem de “bendito” com o termo ʾašrê, pois Suas bênçãos são uma graça imerecida, que não depende de nosso esforço. Em resposta, devolvemos a D-us o que Ele nos oferece, louvando-O com a mesma palavra. Você e eu podemos encontrar felicidade (ʾašrê) por meio de nossos esforços, mas tudo isso depende, no fim das contas, da benevolência de D-us. Por isso, cantamos: “Bendito és Tu.”

Este texto é baseado em um artigo que li do Ph.D. Skip Moen, publicado em 17 de julho de 2024.

Adivalter Sfalsin

Dois Homens, Um Caminho e Dois Destinos: Uma Viagem entre Altruísmo e Egoísmo

O artigo de hoje é baseado na análise do rabino David Fohrman sobre os paralelos entre os textos de Gênesis 22 e Números 22. As histórias de Balaão e Abraão na Bíblia oferecem paralelos notáveis que destacam diferenças significativas em seus papéis e destinos. Embora ambos os personagens sejam apresentados em momentos críticos, suas abordagens às instruções divinas e suas motivações revelam lições profundas sobre caráter e obediência. Este artigo explora essas diferenças e as lições que podemos extrair para nossas vidas.

Abraão e Balaão são descritos levantando-se cedo e preparando seus jumentos para cumprir missões que envolvem instruções divinas. Em Gênesis, Abraão “levantou-se cedo pela manhã e selou seu jumento” (Gênesis 22:3) para realizar o sacrifício de seu filho Isaac, enquanto, em Números, Balaão “levantou-se cedo pela manhã e selou sua jumenta” (Números 22:21) para amaldiçoar os israelitas. Ambos são acompanhados por dois jovens em suas jornadas, um detalhe que acentua a semelhança entre as duas histórias.

Apesar dessas semelhanças, os destinos dos dois personagens divergem drasticamente. A missão de Abraão é interrompida por um anjo que o testa em sua fé e obediência. O teste culmina na confirmação de sua lealdade a D-us, demonstrada pela disposição de sacrificar seu filho. A intervenção do anjo, nesse caso, serve para validar a fé inabalável de Abraão.

Por outro lado, Balaão também enfrenta uma intervenção divina quando um anjo aparece para impedir que ele amaldiçoe os israelitas. No entanto, essa intervenção destaca a resistência de Balaão em compreender e aceitar plenamente a vontade de D-us. Embora Balaão seja um profeta, suas ações revelam uma tentativa de manipular os comandos divinos para atender a seus próprios interesses, o que contrasta com a atitude de Abraão.

A obediência de Abraão a D-us é um exemplo de verdadeira submissão. Ele segue as instruções divinas sem questionar, mesmo quando isso implica um grande sacrifício pessoal. Abraão demonstra uma compreensão clara da vontade de D-us e age de acordo com ela, sem permitir que seus próprios desejos influenciem suas ações.

Em contraste, Balaão tenta manipular as instruções divinas. Embora afirme seguir a vontade de D-us, ele busca reinterpretar e ajustar as palavras divinas para satisfazer seus próprios interesses. Quando D-us lhe diz inicialmente para não ir com os mensageiros de Balaque, Balaão volta a perguntar, na esperança de obter permissão para agir conforme seus próprios desejos. Sua relutância em aceitar a vontade divina revela uma falta de humildade e uma tendência ao autoengano.

Abraão não é influenciado pelo ganho material. Sua principal preocupação é cumprir a vontade de D-us, sem buscar recompensas pessoais. Sua vida é marcada pelo altruísmo e pelo desejo de justiça, guiado por um senso de missão divina.

Balaão, por outro lado, demonstra um forte desejo de riqueza e reconhecimento. Ele expressa interesse por uma casa cheia de ouro e prata, revelando que suas verdadeiras motivações são guiadas pelo desejo de ganho pessoal. Esse foco em riquezas demonstra uma falha moral significativa e ofusca sua capacidade de agir de acordo com a vontade divina.

Lições dos Sábios: A Mishnah*, no tratado Avot 5:19, faz uma comparação entre Abraão e Balaão com base em suas características morais e espirituais. Os discípulos de Abraão são definidos por humildade e integridade, enquanto os discípulos de Balaão são marcados por arrogância e autoengano. O maior erro de Balaão é mentir para si mesmo sobre o verdadeiro significado das instruções divinas. Para ver e seguir a vontade de D-us claramente, é necessário retirar o ego da equação e agir com sinceridade.

A comparação entre Abraão e Balaão, oferece lições valiosas sobre caráter e obediência. Abraão é um exemplo de humildade, altruísmo e verdadeira obediência a D-us, enquanto Balaão representa arrogância, autoengano e a tendência de manipular comandos divinos para ganho pessoal. Ao refletirmos sobre essas histórias, somos incentivados a cultivar qualidades de humildade e integridade, buscando uma compreensão clara e honesta da vontade de D-us em nossas vidas. Essas lições são atemporais e oferecem um guia moral para enfrentar os desafios da vida com retidão e fé. Perguntamo-nos, então: que tipo de discípulo você deseja ser?

Adivalter Sfalsin

* A Mishnah é um dos textos centrais da lei e tradição judaica. É uma compilação de leis orais, tradições e ensinamentos que foram transmitidos de geração em geração e eventualmente escritos por volta do ano 200 d.C.

A Parábola do Filho Pródigo: O Pai Amoroso, Parte 4

A parábola do Filho Pródigo, contada por Jesus no Evangelho de Lucas (15:11-32), é amplamente reconhecida por sua profunda mensagem de arrependimento e redenção. No entanto, ao olharmos mais de perto a história através dos olhos do pai, descobrimos uma dimensão igualmente poderosa de amor incondicional, misericórdia e compaixão. Este artigo se propõe a explorar a narrativa do ponto de vista do pai, oferecendo uma reflexão sobre suas ações e atitudes. 

Essa parábola, comumente conhecida como o Filho Pródigo, na verdade, foca-se na bondade do pai. Um título mais apropriado para essa parábola seria O Pai Amoroso, que representa o amor de D-us por nós.

Desde o início da parábola, o pai é confrontado com um pedido profundamente ofensivo. Seu filho mais novo exige sua parte na herança, um ato que, na cultura judaica do século I, era equivalente a desejar a morte do pai. Tal pedido não apenas insultava a autoridade paterna, mas também desestabilizava a segurança financeira da família. No entanto, em um ato surpreendente de generosidade, o pai concede ao filho sua parte da herança sem protestar.

Essa resposta do pai é contrária às expectativas culturais da época. Em vez de punir ou rejeitar o filho, ele escolhe o caminho do amor e da liberdade, permitindo que o jovem siga seu próprio caminho. Essa decisão, embora aparentemente permissiva, reflete um profundo respeito pela autonomia do filho e uma confiança de que o amor paternal poderá, um dia, trazer o filho de volta.

Enquanto o filho mais novo embarca em uma jornada de autodescoberta e eventual decadência, o pai permanece em casa, aguardando pacientemente seu retorno. A parábola não detalha os sentimentos internos do pai durante essa espera, mas podemos inferir sua dor e preocupação. O amor de um pai não se extingue com a distância ou com as ações impetuosas de um filho.

Diariamente, o pai provavelmente olhava para o horizonte, esperando um sinal de seu filho. Esse ato de espera simboliza a esperança contínua e o desejo de reconciliação. A espera paciente do pai é um testemunho de sua fé inabalável no retorno do filho e na eventual restauração do relacionamento.

Quando o filho mais novo, tendo desperdiçado sua herança, decide retornar, o pai toma uma ação extraordinária. Ao avistar seu filho à distância, o pai corre ao seu encontro. Naquela sociedade, para um homem mais velho correr era culturalmente indigno e humilhante. As vestimentas longas usadas naquela época, parecidas com saias modernas, tornavam difícil correr sem levantar as roupas. Ao fazer isso, o pai expõe suas pernas, um ato considerado indecoroso e inaceitável. Essa atitude revela não apenas a profundidade de seu amor e compaixão, mas também seu desejo de proteger o filho do julgamento e ridículo da comunidade. Ele abraça o jovem e o cobre de beijos, um gesto que sinaliza não apenas perdão, mas também uma aceitação total e incondicional. Este momento de reencontro é carregado de emoção, mostrando a profundidade do amor paternal.

O pai não apenas perdoa o filho, mas também celebra seu retorno com uma festa grandiosa. Ele ordena que o melhor manto seja trazido, que um anel seja colocado no dedo do filho e que sandálias sejam colocadas em seus pés. Cada um desses gestos é simbólico da restauração da dignidade e do status do filho dentro da família. O anel, em particular, representa a autoridade e a aceitação total do filho como membro da família.

A celebração é um ato de júbilo que contrasta fortemente com a expectativa de punição ou recriminação. O pai convida toda a comunidade para participar da alegria do retorno do filho, destacando que a redenção é um motivo de celebração coletiva.

A resposta do filho mais velho à celebração revela outra dimensão do amor e da sabedoria do pai. O filho mais velho, ressentido, recusa-se a participar da festa, sentindo-se injustiçado. Novamente, o pai demonstra paciência e compreensão. Ele sai para encontrar o filho mais velho e implora que ele entre e compartilhe da alegria.

Neste diálogo, o pai reafirma seu amor por ambos os filhos. Ele reconhece a lealdade do filho mais velho, mas também explica que a celebração é apropriada porque o irmão perdido foi encontrado. Este ato final de mediação sublinha a busca do pai por harmonia e reconciliação familiar.

Os dois filhos na parábola simbolizam maneiras distintas de viver. O filho mais jovem opta por abandonar os ensinamentos do pai, rejeitando os padrões e valores morais em busca de uma realização que só poderia ser alcançada através de uma relação íntima com seu pai. Em contrapartida, o filho mais velho representa aqueles que permanecem na casa do pai, observando os mandamentos e tentando seguir os preceitos e ensinamentos, mas cujo coração está distante do pai, sem desenvolver uma relação próxima, apesar de estarem fisicamente presentes.

A Parábola do Filho Pródigo oferece uma visão profunda sobre a dinâmica familiar e o amor incondicional de um pai. As ações do pai desafiam as normas culturais e revelam uma generosidade e compaixão extraordinárias. A história nos lembra que, independentemente de quão longe nos afastemos, sempre há uma oportunidade de redenção e renovação. O amor inabalável do pai na parábola reflete o amor divino, convidando-nos a abraçar o perdão, a reconciliação e a graça em nossas próprias vidas.

Os filhos representam os extremos do espectro do pecado: um abandona os preceitos do Senhor e vive uma vida de pecado longe da casa do pai, enquanto o outro simboliza os religiosos que dedicam seu tempo à observância dos mandamentos, guardando-os quase que como uma obrigação, sem sinceridade; ele também vive em pecado, apesar de estar próximo ao pai. Ambos estão errados, vivendo em extremos opostos. A mensagem de Jesus é um chamado para uma vida íntima com D-us. De uma forma típica dos rabinos do primeiro século, ele não conclui a parábola, deixando-a aberta para interpretação e conclusão conforme a decisão de cada um dos seus ouvintes. O convite está feito; o desfecho dessa parábola depende do ouvinte. O mesmo se aplica a nós: qual filho escolheremos ser?

Adivalter Sfalsin

Confissão de Davi: Uma Lição para os Tempos Modernos.

“Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim” (Salmos 51:3).

“Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” (Salmos 51:5).

Nesse salmo, Davi abre o coração e implora ao Senhor por perdão devido ao seu relacionamento ilícito com Bate-Seba.

Ao afirmar que foi “formado em iniquidade”, Davi não está sugerindo que seus pais tiveram uma relação ilícita ao concebê-lo. Em vez disso, ele reconhece que nasceu com traços de intensa paixão em seu caráter. Neste salmo de confissão, ele assume total responsabilidade por seu comportamento, mesmo reconhecendo que algumas características são hereditárias. Davi não tenta se justificar, mas busca unicamente o perdão. Ele declara: “Pequei! Sou culpado, perdoe-me!”.

Que pensamento refrescante e edificante! Esta atitude é sublime e admirável, especialmente quando contrastada com o comportamento moderno de transferir a culpa para os outros. Em muitos aspectos da psicologia contemporânea, os pais são frequentemente usados como bode expiatório para justificar o mau comportamento dos filhos. A sociedade é responsabilizada pelos delinquentes e marginais, aqueles em liderança são responsabilizados pela opressão dos liderados, e sempre alguém é considerado responsável pelas culpas dos malfeitores, nunca eles próprios. Na verdade, quando não assumimos os nossos erros, criamos uma barreira para o auto crescimento, ficamos imaturos, emocionalmente crianças eternas.

Esse contraste também é evidente desde o início da história bíblica. No Jardim do Éden, quando Adão e Eva pecaram ao comer do fruto proibido, ambos tentaram transferir a culpa. Adão culpou Eva e, indiretamente, D-us: “A mulher que me deste por companheira deu-me da árvore, e eu comi” (Gênesis 3:12). Eva, por sua vez, culpou a serpente: “A serpente me enganou, e eu comi” (Gênesis 3:13). Este comportamento de transferência de culpa é diametralmente oposto ao que Davi demonstra em seu salmo de confissão.

Este salmo instrutivo nos ensina sobre o arrependimento sincero, conhecido em hebraico como “Teshuvá”. É muito simples: você errou? Assuma o seu erro, volte ao princípio do seu caráter humano, não procure alguém para culpar e arrependa-se. Isso é o que o Senhor espera de você.

Leia também: O que é que o Senhor espera de ti?

Davi, em Salmos 51, nos dá um poderoso exemplo de humildade e autoconfissão. Ele não se esconde atrás de justificativas ou culpas transferidas. Ao contrário, ele reconhece sua falibilidade humana e se prostra diante de D-us em busca de perdão. Esse exemplo é vital para todos nós, mostrando que o caminho para a redenção começa com o reconhecimento de nossas próprias falhas e uma genuína busca pelo perdão divino.

Este salmo, portanto, não só é um modelo de confissão pessoal, mas também um guia espiritual que nos orienta sobre a importância da responsabilidade pessoal e do arrependimento sincero. Que possamos aprender com Davi e aplicar esses princípios em nossas vidas, buscando sempre a verdade e a retidão diante de D-us.


Adivalter Sfalsin

A Parábola do Filho Pródigo: Justiça Própria, Orgulho e Graça – Parte 3

A Parábola do Filho Pródigo: Justiça Própria, Orgulho e Graça. A parábola do Filho Pródigo oferece uma visão rica sobre as dinâmicas familiares e culturais, especialmente quando analisada através da perspectiva do filho mais velho. Suas ações e reações, embora menos discutidas, carregam lições morais importantes. Aqui estão algumas reflexões sobre a atitude do filho mais velho e as lições que podemos extrair:

Na cultura judaica do século I, o filho mais velho tinha o papel de mediador e guardião da harmonia familiar. Seu silêncio diante da demanda do irmão mais novo por herança é, portanto, uma violação de seu dever. Esta atitude revela a importância de entender e cumprir nossas responsabilidades dentro do contexto familiar e social. A omissão de responsabilidade é, em si, uma forma de negligência e desrespeito. Essa reflexão nos leva a questionar até que ponto estamos conscientes de nossas responsabilidades e como nossa omissão pode impactar negativamente aqueles ao nosso redor.

Ao aceitar a divisão da herança sem protesto, o filho mais velho demonstra uma forma de cumplicidade passiva, possivelmente motivada por interesse pessoal, já que ele teria direito a dois terços da herança. Isso nos ensina sobre os perigos da ganância e da indiferença moral. Agir apenas em benefício próprio, mesmo que de forma passiva, pode ser tão prejudicial quanto atos de desrespeito mais explícitos. Sua atitude mostra um apego excessivo aos bens materiais. Ao focar nos ganhos financeiros, ele negligencia os valores familiares e emocionais. A lição aqui é a importância de priorizar relações humanas e valores morais sobre os bens materiais. A verdadeira riqueza está nos relacionamentos e no cumprimento de deveres morais. Esta reflexão é especialmente relevante em uma sociedade contemporânea que muitas vezes valoriza o sucesso material acima das conexões humanas.

Ele demonstra ressentimento quando o irmão pródigo retorna e é recebido com uma festa. Este ressentimento destaca a importância de compreender e aceitar a graça e o perdão. Em vez de celebrar a reconciliação e o retorno do irmão, ele se sente injustiçado. O versículo 29 diz: “Mas ele respondeu ao seu pai: ‘Olha! Todos esses anos tenho trabalhado como um escravo ao teu serviço e nunca desobedeci às tuas ordens. Mas tu nunca me deste nem um cabrito para eu festejar com os meus amigos”. Devemos aprender a perdoar e a alegrar-nos com a redenção alheia, em vez de cultivar sentimentos de amargura. O uso da palavra “escravo” é significativo, pois ressalta que o filho mais velho percebia seu trabalho como uma obrigação árdua e opressiva, em vez de um ato de amor e devoção ao pai. Essa percepção é fundamental para entender a mentalidade do filho mais velho. Ele não vê seu serviço como um ato de amor ou lealdade voluntária, mas como uma carga pesada e um dever imposto. Essa mentalidade reflete uma visão transacional da relação com o pai, baseada em mérito e recompensa, em vez de uma relação amorosa e graciosa.

O ressentimento do filho mais velho serve como um lembrete de que a inveja e o ciúme podem obscurecer nossa capacidade de reconhecer e celebrar a bondade e a misericórdia. Sua reação é marcada por um senso de justiça própria. Ele acredita que, por sempre ter obedecido, merece mais reconhecimento e recompensas. Este orgulho impede-o de ver a situação através da lente do amor e da compaixão. A lição aqui é que a justiça própria e o orgulho nos cegam para a verdadeira natureza do amor e da graça. Assim como o filho mais velho, precisamos aprender sobre a graça e a compaixão demonstradas pelo pai. A capacidade de perdoar e acolher sem reservas é um valor central da parábola. Assim, somos lembrados da importância de sermos compassivos e generosos, mesmo quando nos sentimos lesados ou injustiçados. A justiça própria pode levar à rigidez moral e à incapacidade de perceber a necessidade de graça e perdão para todos, inclusive para nós mesmos.

Jesus estava ministrando a um grupo diversificado de pessoas, incluindo publicanos (cobradores de impostos) e pecadores, que se aproximavam para ouvi-lo. Os fariseus e escribas, líderes religiosos da época, criticavam Jesus por acolher essas pessoas e comer com elas. Eles murmuravam contra Jesus, questionando por que ele se associava com pecadores. Em resposta às críticas dos fariseus e escribas, Jesus conta uma série de três parábolas, todas com o tema da misericórdia e do arrependimento:

Parábola da Ovelha Perdida (Lucas 15:3-7): Um pastor deixa noventa e nove ovelhas para buscar uma que se perdeu, e há grande alegria quando a encontra. Esta parábola ilustra o valor individual de cada ser humano e a alegria no céu por um pecador que se arrepende.

Parábola da Dracma Perdida (Lucas 15:8-10): Uma mulher procura diligentemente uma moeda perdida e celebra com alegria quando a encontra. Esta história reforça a ideia da busca incessante por aquilo que é valioso e o júbilo ao encontrá-lo, simbolizando a alegria divina ao recuperar o perdido.

Parábola do Filho Pródigo (Lucas 15:11-32): Um filho mais jovem desperdiça sua herança em uma terra distante, mas é recebido com alegria e perdão pelo pai quando retorna arrependido. Esta parábola é uma poderosa narrativa sobre arrependimento, perdão e restauração.

Na parábola do Filho Pródigo, a figura do filho mais velho representa os fariseus e escribas, que se sentem injustiçados pela recepção misericordiosa que Jesus dá aos pecadores arrependidos. Muitas pessoas religiosas se sentem mais justificadas por estarem cumprindo as normas religiosas esperadas. Elas podem se identificar com o filho mais velho, acreditando que a sua obediência e diligência nas práticas religiosas as tornam merecedoras de reconhecimento e bênçãos. No entanto, a parábola desafia essa visão ao mostrar que a verdadeira justiça divina não está baseada apenas na obediência estrita às normas, mas na capacidade de perdoar, amar incondicionalmente e acolher com generosidade. Este chamado à compaixão e à graça nos lembra que a essência da fé vai além do cumprimento das regras e está enraizada em atitudes de amor e misericórdia para com todos. Assim, a parábola desafia tanto os líderes religiosos quanto os fiéis a reavaliar suas atitudes e abrir seus corações para a verdadeira essência do amor divino.

Além disso, a parábola nos convida a refletir sobre como tratamos aqueles que consideramos desviados ou menos dignos. Em um contexto contemporâneo, isso pode se traduzir em uma chamada à inclusão, aceitação e apoio aos marginalizados e vulneráveis em nossa sociedade. A atitude do pai, que corre ao encontro do filho pródigo, nos desafia a sermos proativos em nossa compaixão e generosidade, acolhendo os outros com braços abertos e corações cheios de amor.

A atitude do filho mais velho na parábola do Filho Pródigo revela lições profundas sobre responsabilidade, ganância, justiça própria e a necessidade de compaixão e graça. Esta narrativa nos desafia a refletir sobre nossas próprias atitudes e a buscar uma compreensão mais profunda do amor ao próximo e da reconciliação, tanto no contexto familiar quanto no espiritual. Ela nos lembra que todos, independentemente de nossos erros ou dos caminhos que escolhemos, são merecedores de amor e perdão, e que a verdadeira fé vai além do cumprimento das regras e está enraizada em atitudes de amor e misericórdia para com todos.

No próximo artigo, iremos explorar o amor incondicional do pai.

Adivalter Sfalsin

Nota: Sou profundamente grato àqueles que me ajudaram a entender as parábolas dentro de seu contexto adequado, incluindo Dr. Dwight Pryor, Dr. David Divin, Dr. Skip Moen e outros.

O filho prodigo, verdadeiro arrependimento

A Parábola do Filho Pródigo: O Verdadeiro Arrependimento – Parte 2

O filho prodigo, verdadeiro arrependimento

Seguindo o tema abordado anteriormente sobre o filho pródigo, agora vamos explorar a parábola sob a perspectiva histórica e cultural, destacando nuances que frequentemente passam despercebidas. A análise através da lente hebraica revela detalhes valiosos que nos ajudam a desvendar camadas mais profundas dessa narrativa tão conhecida. Inspirados pelas reflexões do renomado Dr. Kenneth Bailey em seu livro “Poet and Peasant”, nosso objetivo hoje é aprofundar nossa compreensão dessa história cativante, contextualizando-a dentro de seu cenário histórico e cultural. Esta jornada de exploração promete enriquecer nossa visão sobre a essência e a mensagem subjacentes dessa parábola atemporal.

Lucas 15:11-12 cria o cenário: “Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe.’ O pai então dividiu os bens entre eles.” Este pedido, embora aparentemente normal para os leitores modernos, foi extraordinariamente ofensivo em seu contexto histórico. Dr. Bailey, um especialista em cultura do Oriente Médio, destaca a raridade e a gravidade de tal demanda. Em sua extensa pesquisa, ele encontrou apenas dois casos de um filho que pediu sua herança enquanto o pai ainda estava vivo. Este ato era equivalente a desejar a morte do pai, um insulto sem precedentes nas tradições judaicas e do Oriente Médio.

Na cultura judaica, a iniciativa do pai é essencial na distribuição da herança, e isso é tipicamente feito para evitar disputas futuras, nunca a pedido do filho. Além disso, o pai mantém o direito de viver dos produtos da terra, mesmo após transferir a propriedade. Ao pedir e depois dispor de sua herança, o filho mais jovem não só desrespeita seu pai, mas também põe em risco a estabilidade financeira futura do pai. Esta ação teria sido chocante e profundamente ofensiva para a audiência original de Jesus.

O que se segue é ainda mais notável do que o pedido do filho: a resposta do pai. Contrariamente às expectativas culturais de raiva e punição, o pai concede ao pedido em um ato profundo de amor e generosidade. Esta concessão é voluntária, apesar do comportamento ofensivo do filho, ela desafia todas as normas culturais. A resposta do pai ilustra um ato extraordinário de graça, destacando a profundidade de seu amor e o potencial para a reconciliação apesar da provocação severa.

A parábola também critica sutilmente o comportamento do filho mais velho. De acordo com as expectativas culturais, o filho mais velho deveria ter protestado contra a divisão da herança e agido como mediador para restaurar a harmonia familiar. Em vez disso, seu silêncio e aceitação de sua parte indicam uma cumplicidade passiva e uma violação do dever familiar. Segundo a lei judaica no século I, o filho mais velho tinha direito a dois terços da herança, enquanto o filho mais novo receberia um terço. Ao permanecer em silêncio, o filho mais velho não estava apenas negligenciando seu dever, mas também garantindo seu ganho financeiro. Esta omissão é tão nociva quanto a transgressão do filho mais novo, revelando uma forma diferente, mas igualmente prejudicial de desrespeito ao pai.

À medida que a história se desenrola (Lucas 15:13-16), o filho mais novo desperdiça sua riqueza em uma terra distante, eventualmente encontrando-se desamparado e trabalhando como cuidador de porcos. Este detalhe, particularmente ressonante na cultura judaica onde os porcos são animais impuros, o porco pela sua impureza vive alienado de tudo que é divino, assim como esse jovem, sublinha sua degradação total. A fome que se abate exacerba sua situação, levando-o a um estado de desespero onde ele inveja a comida dos porcos.

Desesperado e faminto, ele anseia comer as alfarrobas que os porcos comiam. As alfarrobas, bem conhecidas no Oriente Médio, vêm em duas variedades: cultivadas e selvagens. As alfarrobas cultivadas são doces e nutritivas, frequentemente vistas como um deleite. No entanto, durante um estado de fome, essas não seriam desperdiçadas com porcos. Em vez disso, os porcos vasculhariam arbustos de alfarroba selvagem, que produzem vagens amargas e nutricionalmente pobres. Este tipo de comida mostra a extrema degradação da situação do rapaz. Uma prática comum no Oriente Médio para livrar-se de uma pessoa indesejada é atribuir-lhe uma tarefa intolerável. Imagine o cenário, um jovem judeu vivendo em uma terra estrangeira junto aos gentios, indesejado e perdido. O cidadão que empregou o rapaz provavelmente esperava que ele rejeitasse esse trabalho humilhante. Oferecer esse tipo de trabalho a um judeu teria sido uma afronta e uma indicação de que ele não era bem-vindo nessa terra distante. No entanto, em seu desespero, ele aceita até mesmo isso. Sua associação com porcos e sua fome pelas vagens não comestíveis refletem sua profunda queda da graça e a extensão de sua alienação de sua cultura e família.

O termo hebraico “ele caiu em si” significa um momento de autoconscientização, despertar, frequentemente associado ao arrependimento na literatura rabínica. No entanto, o termo usado aqui não é o padrão “Teshuva” (arrependimento), o termo sugere que o arrependimento do filho é incompleto e seletivo. O filho reconhece sua situação desesperadora—fome e pobreza—mas não há remorso genuíno por ter ofendido o seu pai. Sua motivação para voltar é impulsionada pela necessidade física em vez de arrependimento sincero. A proposta do filho de se tornar um servo contratado é estratégica nos versículos 18-19. 

“18 Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti; 19 Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros (servo contratado).”

No século I havia 3 tipos de servos:

1 – O governante da casa: Esse morava na propriedade por muitos anos e era íntimo do proprietário, fazia parte da casa, era tratado de forma semelhante a um membro da família.

2 – O trabalhador braçal: Era subordinado ao governante, realizava tarefas servis e repetitivas.

3 – O servo contratado: Era altamente valorizado com habilidades específicas em grande demanda como decoradores, pintores, pedreiros e artesãos, esses estariam socialmente par a par com o empregador, vivendo na mesma propriedade por longos períodos dependendo da extensão dos projetos a serem executados, mas independentemente, ganhando bons salários. Algumas traduções trazem a palavra “jornaleiro”, a palavra em grego é “misthios”, “μισθός” que se traduz como diarista. Como os projetos eram geralmente extensos, esses contratados acabavam vivendo próximo à propriedade do empregador por um longo tempo, geralmente em uma acomodação separada da principal.

O filho pródigo visa viver de forma independente, evitando interações diárias com seu pai e o irmão. Quer ganhar bons salários, potencialmente reembolsando seu pai e cumprindo sua obrigação moral de cuidar de seu pai na velhice. Quer manter seu orgulho e independência, evitando submissão ou humilhação completa. Essencialmente, ele buscava ganhar sua salvação através de boas ações, arrependendo-se superficialmente sem perder a dignidade. O arrependimento deve ser seguido por ação prática para ser verdadeiro. A determinação do filho de agir—levantando-se e retornando ao pai—demonstra sua disposição de tomar medidas em direção à reconciliação, mesmo que suas motivações sejam mistas.

No retorno do filho, as ações do pai são significativas: O ato do pai de correr é culturalmente indigno e humilhante para um homem mais velho. Tentar correr com uma vestimenta longa, parecida com as saias modernas, era bem difícil, além de ser vergonhoso mostrar as pernas em público, mas o pai faz isso por compaixão e amor para poupar seu filho do julgamento e ridículo da comunidade. Da forma aglomerada que as casas nas vilas eram construídas indica que a volta do filho foi um evento público, todos presenciaram. As ações do pai foram feitas para proteger seu filho do julgamento severo da comunidade. Os beijos repetidos indicavam a reconciliação e a cura da brecha entre pai e filho, mostrando relacionamentos restaurados.

No versículo 21, o filho começa seu discurso ensaiado, mas omite o pedido para ser um servo contratado. 

“21 E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho.”

Esta omissão reflete uma mudança genuína de coração, provocada pelo ato de amor sem precedentes do pai. Aqui ele se arrepende de verdade. Aceita sua indignidade e está disposto a abraçar a filiação, implicando arrependimento completo.

As ordens do pai para vesti-lo com sua melhor roupa, colocar um anel em seu dedo e sandálias em seus pés significam restauração completa ao estado pleno, tanto na casa quanto na comunidade. Ao vesti-lo com suas melhores vestes e dar-lhe o anel de autoridade, o pai demonstra publicamente o estado restaurado do filho, garantindo que a comunidade também aceite a reconciliação.

O pedido do filho mais novo e ações subsequentes são uma verdadeira afronta quando vista dentro da perspectiva cultural. A resposta do pai mostra um ato de graça radical. O silêncio do filho mais velho é igualmente ofensivo e mostra o seu apego aos bens materiais. Essa mensagem é atemporal e nos ensina sobre o arrependimento, a graça e como o amor profundo pode superar até mesmo as mais profundas brechas nos relacionamentos.

Isso evidencia minuciosamente que a nossa salvação advém da submissão ao amor que Ele tem por nós, em vez de tentarmos obter graça por meio das nossas realizações. Uma lição que deve estar constantemente em nossas mentes porque, durante fases de nossas vidas, agimos exatamente como o filho pródigo, mas podemos estar certos de que o amor do Pai excede todas as nossas expectativas.

No próximo artigo, iremos explorar um pouco mais o papel do filho mais velho.

Adivalter Sfalsin

Nota: Sou profundamente grato àqueles que me ajudaram a entender as parábolas dentro de seu contexto adequado, incluindo Dr. Dwight Pryor, Dr. David Divin, Dr. Skip Moen entre outros.

O Filho Pródigo: Uma Jornada da Decepção à Redenção – Parte 1

O Filho Pródigo: Uma Jornada da Decepção à Redenção – Parte 1

A parábola do Filho Pródigo, uma das histórias mais pungentes e poderosas contadas por Jesus na Bíblia, serve como uma lição atemporal sobre as consequências de viver uma mentira e a transformação profunda que vem com o arrependimento genuíno. A narrativa, encontrada no Evangelho de Lucas (15:11-32), encapsula as lutas do filho mais novo, que embarca em uma jornada cheia de vaidade, materialismo e prazeres efêmeros, apenas para se encontrar em um estado de desespero e miséria. É nesta descida que ele percebe a vacuidade de suas buscas e toma a decisão crucial de retornar à realidade e buscar perdão. Esta parábola não só ilustra uma jornada pessoal, mas também reflete nosso relacionamento com D-us, lembrando-nos que nos afastar Dele frequentemente leva a um profundo sentimento de vazio.

No coração da história do Filho Pródigo está o fascínio de uma falsa realidade, onde a riqueza material e os prazeres temporários são erroneamente equiparados à verdadeira felicidade e realização. O filho mais novo, ansioso para se libertar das restrições percebidas da casa de seu pai, exige sua herança prematuramente. Este ato impulsivo simboliza uma rejeição dos valores e responsabilidades que lhe foram incutidos. Armado com sua recém-adquirida riqueza, ele se aventura em uma terra distante, imaginando uma vida de liberdade e indulgência.

Inicialmente, a vida do filho parece glamourosa. Cercado por supostos amigos e envolvido em gastos extravagantes, ele é cativado pela ilusão de alegria que os bens materiais e os prazeres hedonistas proporcionam. No entanto, esta fachada é insustentável. À medida que a parábola se desenrola, sua riqueza diminui, e os falsos amigos desaparecem, revelando a fundação superficial sobre a qual sua felicidade temporária foi construída.

O ponto de virada na jornada do Filho Pródigo ocorre quando ele se encontra destituído, trabalhando em uma terra estrangeira e ansiando para encher seu estômago com as vagens dadas aos porcos. Esta imagem nítida destaca a severidade de sua queda e o vazio da vida que ele havia escolhido. Neste momento de necessidade profunda e reflexão, o filho percebe a vaidade de suas buscas anteriores. A riqueza material que uma vez prometeu satisfação provou ser efêmera, deixando-o em um estado de fome física e espiritual.

Esta realização é um momento crucial de clareza. Despido de suas ilusões, o filho confronta a dura realidade de suas escolhas e a profundidade de sua decepção. Ele reconhece que a verdadeira fonte de sua miséria não é meramente sua falta de riqueza, mas o abandono de seus valores e a separação de seu relacionamento com seu pai. Esta jornada espelha nossas próprias jornadas espirituais, onde afastar-se de D-us em busca de desejos mundanos frequentemente nos deixa espiritualmente falidos e distantes de nossa verdadeira fonte de realização.

A decisão do Filho Pródigo de retornar para casa marca o início de sua jornada de volta à realidade e ao caminho do arrependimento. Reconhecendo seus erros e o mal que causou, ele resolve buscar o perdão de seu pai, mesmo que isso signifique retornar como um servo em vez de um filho. Esta humildade e contrição são centrais para sua transformação. O ato de arrependimento não é apenas um retorno à proximidade física, mas uma reconciliação sincera com seu pai e uma reaproximação dos valores que ele outrora rejeitou.

Ao retornar, o pai do filho o recebe de braços abertos, simbolizando a graça infinita e o perdão que aguardam aqueles que verdadeiramente se arrependem. Este ato de amor e aceitação incondicional reforça a mensagem de que, não importa o quão longe alguém se afaste, a oportunidade de redenção e uma vida renovada está sempre disponível. A parábola destaca que o amor de D-us por nós permanece firme, e Ele está sempre pronto para nos receber de volta de braços abertos quando escolhemos nos arrepender e voltar para Ele.

A parábola do Filho Pródigo transcende seu contexto bíblico, oferecendo lições atemporais para a sociedade contemporânea. Em uma era onde o materialismo e a gratificação instantânea frequentemente dominam as narrativas culturais, a história serve como um lembrete pungente dos perigos de viver uma mentira. A busca por riqueza e prazer, embora atraente, pode levar a uma existência vazia se divorciada de valores mais profundos e relacionamentos significativos.

Além disso, a parábola ressalta a importância da autoconsciência e da humildade em reconhecer nossos erros. É somente através de uma reflexão honesta e uma disposição para confrontar nossas próprias falhas que podemos começar o processo de arrependimento genuíno e transformação. A resposta do pai na história destaca o poder do perdão e a possibilidade de renovação, encorajando os indivíduos a buscar reconciliação e abraçar a oportunidade de uma segunda chance.

Embora tradicionalmente conhecida como a Parábola do Filho Pródigo, um título mais adequado poderia ser a Parábola do Pai Perdoador. Esta mudança de ênfase destaca o profundo amor e misericórdia demonstrados pelo pai, que são centrais para a narrativa. A disposição do pai para perdoar e restaurar seu filho ao status anterior destaca a profundidade de seu amor e a graça infinita que ele estende. Isso reflete a natureza de D-us, que está sempre pronto para perdoar e nos abraçar quando retornamos a Ele com um coração arrependido.

Em conclusão, a jornada do Filho Pródigo da decepção à redenção é um poderoso testemunho do poder transformador do arrependimento e do amor inabalável do pai perdoador. Ela nos desafia a examinar nossas próprias vidas, reconhecer as falsas realidades que podemos estar vivendo e ter a coragem de retornar ao nosso verdadeiro eu. Ao fazer isso, podemos encontrar uma realização genuína e restaurar os relacionamentos que mais importam, particularmente nosso relacionamento com D-us.

Author: Adivalter Sfalsin

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 9: “Grão de Mostarda”

A metáfora do grão de mostarda é uma das mais conhecidas e, talvez, uma das mais mal compreendidas parábolas ensinadas por Yeshua. Em Mateus 17:20, Ele afirma: “Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível.” Para muitos, a interpretação imediata foca no tamanho diminuto da semente de mostarda. No entanto, uma análise mais profunda revela que Yeshua não estava se referindo apenas ao tamanho, mas à qualidade da fé que os discípulos deveriam possuir. As parábolas do Reino em Mateus 13, Marcos 4 e Lucas 13 situam essa metáfora no contexto de algo pequeno que se torna grandioso, representando o Reino dos Céus. Vamos explorar as características do grão de mostarda e como essas características desafiam Seus seguidores em sua caminhada espiritual.

Uma Fé Resistente 

A primeira característica notável do grão de mostarda é sua resistência. Essa semente é conhecida por sua durabilidade; mesmo se pisada ou queimada, ela não se quebra. Isso nos ensina que nossa fé deve ser resiliente. Em nossa jornada espiritual, enfrentamos adversidades, dúvidas e tribulações. Yeshua nos chama a ter uma fé que resista a essas provações, uma fé que permaneça inabalável mesmo diante das maiores dificuldades. A resistência do grão de mostarda também nos lembra que a fé não é medida por momentos de euforia espiritual, mas pela firmeza nos momentos de prova. Quando os ventos contrários sopram, quando o desânimo bate à porta, é essa fé resistente que nos mantém firmes no caminho.

Um Crescimento Rápido e Vigoroso

Outra lição que podemos aprender com o grão de mostarda é seu rápido crescimento e sua força. Quando plantada, essa pequena semente se transforma em uma grande árvore em um curto período de tempo. Yeshua está nos ensinando que nossa fé deve crescer de maneira constante e robusta. Uma fé dinâmica e em contínuo desenvolvimento é essencial para um seguidor de Yeshua. Não devemos nos contentar com uma fé estagnada, inerte ou limitada, mas buscar constantemente o crescimento espiritual. Isso significa aprofundar nosso relacionamento com D-us, expandindo nossa compreensão e vivência dos ensinamentos do Senhor. Não se trata de uma fé que cresce apenas em conhecimento teórico, mas em experiência viva com D-us. Uma fé que nos leva a confiar mais, a servir mais e a amar mais. Assim como o grão de mostarda se espalha e influencia seu ambiente, nossa fé deve impactar o mundo ao nosso redor.

Pureza e Genuinidade da Fé

A terceira e mais surpreendente característica do grão de mostarda é sua pureza. É a única semente no mundo que não é híbrida; ela não se mistura com outras sementes. Esse aspecto destaca a necessidade de termos uma fé genuína e íntegra. Yeshua nos chama a manter nossa fé sem contaminação, sem ser misturada com doutrinas errôneas ou práticas inconsistentes com os ensinamentos bíblicos. Nossa fé deve ser autêntica, refletindo total confiança em D-us e uma adesão fiel aos Seus mandamentos. Num mundo onde tantas influências tentam nos afastar do verdadeiro evangelho, é essencial que cultivemos uma fé pura. Isso significa examinar constantemente nossas crenças, alinhar nossa vida à Palavra de D-us e evitar os modismos espirituais que nos afastam da simplicidade do evangelho.

O Desafio Prático da Fé

Compreender o que Yeshua realmente quis dizer ao comparar nossa fé a um grão de mostarda nos coloca diante de um grande desafio:

  1. Cultivar uma fé resiliente – Precisamos reforçar constantemente nossa confiança em D-us e Sua palavra, mesmo quando enfrentamos provas intensas.
  2. Buscar um crescimento contínuo – Nossa vida espiritual deve ser marcada por progresso e fortalecimento. Isso significa nos aproximarmos de D-us por meio da oração, do estudo da Bíblia e da comunhão com outros seguidores de Yeshua. Uma fé que cresce não apenas transforma nossa vida, mas também impacta aqueles ao nosso redor.
  3. Manter a pureza da fé – Em um mundo repleto de diferentes ideologias e crenças, preservar a integridade da nossa fé é essencial. Devemos estar atentos às influências que permitimos em nossas vidas, garantindo que nossa fé permaneça verdadeira e inabalável.

A metáfora do grão de mostarda é um chamado para uma fé de qualidade excepcional. Yeshua nos desafia a desenvolver uma fé resistente, em crescimento e pura. Esses aspectos são fundamentais para uma vida vibrante e eficaz no Reino de D-us. Ao aceitar esse desafio, nos tornamos mais próximos do que D-us deseja que sejamos e mais capazes de realizar Sua vontade em nossa vida, trazendo o Reino dos Céus para a Terra. Que possamos, a cada dia, buscar essa fé que, embora pequena em seu início, se transforma em algo grandioso e poderoso, capaz de mover montanhas.

Adivalter Sfalsin

A Profunda Conexão entre Shavuot e Pentecostes: Um Olhar Desafiador sobre a Continuidade Espiritual

A Profunda Conexão entre Shavuot e Pentecostes: Um Olhar Desafiador sobre a Continuidade Espiritual

A Profunda Conexão entre Shavuot e Pentecostes: Um Olhar Desafiador sobre a Continuidade Espiritual

Sabia que pentecostes é a mesma festa chamada Shavout na bíblia? Pentecostes, ou Πεντηκοστή (Pentekostē), significa “cinquenta”. Esta festa judaica ocorre 50 dias após a Páscoa, celebrando a colheita dos primeiros frutos e a entrega dos 10 mandamentos no Monte Sinai. No cristianismo, Pentecostes marca a descida do Espírito Santo sobre os discípulos de Jesus, 50 dias após sua ressurreição, esses mesmo os discípulos faziam a contagem do Omer.

Shavuot esse ano começa ao pôr do sol na terça-feira, 11 de junho de 2024, e termina ao anoitecer na quinta-feira, 13 de junho de 2024. No calendário gregoriano, temos muitas festividades recorrentes, todas com sua importância e papel. Mas já parou para pensar que não temos nenhuma festa que comemora a revelação dos 10 mandamentos à humanidade ou do dia de pentecostes? Esse dia tão importante não deveria ser comemorado? Será que essa comemoração já existe na Bíblia e não percebemos?

Para aqueles que não estão familiarizados com o Velho Testamento, a ligação entre o judaísmo e o cristianismo pode parecer distante e desconexa. No entanto, um exame atento das festividades de Shavuot e Pentecostes revela uma profundidade espiritual e histórica que une essas duas tradições de forma indelével. Essa conexão não só enriquece a compreensão de ambas as festas bíblicas, mas também desafia nossa percepção de continuidade e revelação divina.

Investigando a Conexão

Em Levítico 23:15-21, detalha-se a celebração da Festa das Semanas e a oferta das primícias, onde o Senhor ordena que se conte 7 semanas por 7 vezes e, no dia 50, Ele entregaria os 10 mandamentos. Essa festa é conhecida como Festa das Semanas ou Shavuot em hebraico. Nesse dia, D-us se revela através de línguas de fogo, marcando a entrega dos Dez Mandamentos no Monte Sinai, sete semanas após a saída do Egito e a primeira Páscoa. Esses mandamentos representam a aliança entre D-us e o povo de Israel, fornecendo diretrizes espirituais e éticas que moldaram a identidade judaica e, por consequência, influenciando todos os outros povos.

Este evento é considerado o nascimento de Israel como nação, chamada a ser “luz para as nações” (Isaías 49:6). A tradição rabínica descreve a voz de D-us como martelos que faziam o Monte Sinai tremer, lançando faíscas (línguas de fogo) em 70 idiomas, simbolizando a universalidade dos 10 mandamentos.

No primeiro século, a língua predominante já não era o hebraico, mas sim o aramaico e o grego. Portanto, Shavuot foi traduzida para Pentecostes, que em grego é Πεντηκοστή (Pentekostē), significando 50, portanto em Atos 2 lemos o termo Shavout foi traduzido para pentecostes mas a festa é exatamente a mesma.

Existem vários paralelos espirituais nesse acontecimento. Assim como a revelação dos mandamentos divinos no Monte Sinai, a descida do Espírito Santo em Atos 2 ocorreu com línguas de fogo, tremor e um vento forte. Línguas de fogo desceram sobre os discípulos, simbolizando a capacitação para levar a mensagem de Jesus a todas as nações. Na revelação do Monte Sinai, D-us forja um novo povo entre os pagãos para servi-Lo e ser luz para as nações. No Pentecostes, D-us novamente separa uma porção do Seu povo para levar as boas novas a todas as nações, servindo de luz. Este evento pode ser visto como uma inversão da confusão de línguas na Torre de Babel (Gênesis 11:1-9), onde os povos foram separados; agora, em Pentecostes, existe uma promessa de D-us de reunir os povos.

Ele também celebra-se a entrega dos primeiros grãos e frutos da terra, algo muito simbólico para o Pentecostes porque na ressurreição de Jesus muitos outros santos foram ressuscitados junto com ele (Mateus 27:52), marcando as primícias dos mortos que ressuscitariam no futuro vindouro e na descida do Espírito Santo 3 mil pessoas foram salvas. 

Além disso, a conexão entre Shavuot e Pentecostes possui profundas implicações teológicas e simbólicas. Primeiramente, a continuidade da Revelação sugere que, para os judeus que creram em Jesus como o Messias, a descida do Espírito Santo não substitui os 10 Mandamentos, mas os complementa. Isso implica uma continuidade na revelação divina, que agora abrange outros povos. Tal inclusão revela o amor de D-us por toda a humanidade, acolhendo todos aqueles que o buscam, independentemente de sua origem.

Ademais, a unidade espiritual destacada pela celebração de Pentecostes durante Shavuot reforça a ideia de que o cristianismo não surgiu isoladamente, mas está enraizado na tradição judaica. Essa ligação promove um diálogo inter-religioso baseado em compreensão e respeito mútuos, reconhecendo a herança comum e a continuidade espiritual que une ambas as tradições. Assim, a conexão entre Shavuot e Pentecostes não apenas enriquece a compreensão teológica, mas também fortalece os laços espirituais entre judaísmo e cristianismo, promovendo uma visão mais inclusiva e unificada da revelação divina.

A profunda conexão entre Shavuot e Pentecostes desafia os leitores a reconsiderar a relação entre judaísmo e cristianismo. Ao reconhecer a continuidade espiritual e histórica entre essas duas tradições, somos convidados a apreciar a riqueza e a complexidade da revelação divina. Essa compreensão não apenas enriquece nossa fé, mas também promove um senso de unidade e propósito compartilhado na busca pela verdade espiritual.

Somos incitados a refletir sobre a beleza e a profundidade dessa ligação, reconhecendo que, em última análise, ambas as tradições compartilham uma missão comum: revelar o amor e a sabedoria de D-us para toda a humanidade. Diante disso, é pertinente questionar por que celebramos festividades de origens pagãs, como o Natal, enquanto negligenciamos a comemoração da entrega dos Dez Mandamentos – um evento central que simboliza a continuidade e a profundidade espiritual do Pentecostes. Este chamado à reflexão busca ressaltar a importância de valorizar e celebrar momentos que verdadeiramente representam a essência da nossa fé e a revelação divina.

Author: Adivalter Sfalsin

A metáfora do camelo passando pelo buraco da agulha nos ensina sobre a importância da humildade e da renúncia ao excesso de apego material para alcançarmos a vida espiritual plena. Devemos seguir o exemplo do camelo, desapegar-nos do supérfluo e nos curvar diante da grandiosidade divina, lembrando que a verdadeira riqueza está na humildade e na obediência a D-us, não nas posses materiais.

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 8: “Camelo pelo fundo de uma agulha”

A metáfora do camelo passando pelo buraco da agulha nos ensina sobre a importância da humildade e da renúncia ao excesso de apego material para alcançarmos a vida espiritual plena. Devemos seguir o exemplo do camelo, desapegar-nos do supérfluo e nos curvar diante da grandiosidade divina, lembrando que a verdadeira riqueza está na humildade e na obediência a D-us, não nas posses materiais.
“Camelo pelo fundo de uma agulha”

As palavras de Jesus em Mateus 19:23-24:

“Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no reino dos céus. E, outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de D-us.” Muitas vezes são interpretadas de forma literal constatando o tamanho enorme de um camelo e o pequeno furo de uma agulha, concluindo que é impossível o camelo representado pelo rico entrar no reino do céus. No entanto, essa interpretação superficial ignora o contexto cultural e histórico rico em que essa frase foi dita, levando a uma compreensão distorcida da mensagem de Jesus. A mensagem na verdade aborda o tema da humildade e submissão a D-us.

O fundo da agulha que Jesus estava se referindo era aos portões das cidades. Nos tempos antigos, esses portões tinham duas grandes portas me uma das portas havia um buraco chamado “buraco da agulha”, destinada apenas à passagem de pedestres quando os portões grandes estavam fechados. Fazer um camelo passar pelo buraco da agulha exigiria que o animal deixasse sua carga e dobrasse suas patas e pescoço, uma tarefa árdua que muitas vezes deixava arranhões. 

O ensinamento de Jesus não era impossível para os ricos entrarem no reino de céus, mas sim um lembrete de que todos, ricos ou pobres, precisariam largar seus fardos, dobrar seus pescoços em obediência, ajoelhar-se diante de D-us e reconhecê-Lo como o caminho para a salvação. A entrada para o reino de D-us é estreita e requer humildade e obediência para se submeter à vontade Divina. Assim, é importante compreender que a riqueza ou a pobreza não são os fatores determinantes para a salvação, mas sim a disposição de cada indivíduo em seguir os ensinamentos de D-us.

A metáfora do camelo passando pelo buraco da agulha nos convida a uma profunda reflexão sobre a importância da humildade e da renúncia ao apego às coisas materiais no caminho da salvação. Ao dizer que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus, Jesus nos mostra que a verdadeira riqueza está na simplicidade e na entrega a D-us, não nas posses materiais.

Assim como o camelo precisa se despojar de sua carga e se curvar humildemente para passar pelo estreito buraco da agulha, somos chamados a nos desapegar de nossas próprias “cargas” – seja o orgulho, a ganância, a vaidade ou qualquer forma de apego excessivo aos bens materiais – e nos submeter com humildade e obediência à vontade divina.

É importante lembrar que não se trata de abandonar completamente os bens materiais, mas de colocá-los em seu devido lugar, compreendendo que são recursos a serem usados com sabedoria em serviço aos outros e para a glória de D-us. A humildade nos convida a reconhecer que somos simples instrumentos nas mãos de D-us, e a renúncia ao excesso de apego material nos liberta para uma vida mais plena de significado e propósito.

Portanto, ao refletir sobre a lição do camelo e do buraco da agulha, somos desafiados a cultivar a humildade, a simplicidade e a generosidade em nosso caminho espiritual, para que possamos estar mais abertos à graça divina e ao verdadeiro tesouro que está no Reino dos céus. É ao nos desapegarmos do que é efêmero e nos voltarmos para o que é eterno que nos aproximamos da plenitude da vida espiritual e da comunhão com D-us. Que possamos seguir o exemplo do camelo, despojando-nos do supérfluo e nos curvando com sinceridade diante da grandiosidade divina.

A entrada para o reino de D-us não está aberta aos soberbos e aos que se prendem às riquezas terrenas, mas sim àqueles que, como o camelo que se submete ao desconforto e à renúncia, estão dispostos a seguir o caminho da humildade e da entrega total à vontade Divina. Portanto, lembremo-nos sempre de que a verdadeira riqueza está na humildade de coração e na obediência a D-us, não nas posses materiais que eventualmente nos separam Dele.

Autor: Adivalter Sfalsin

Entendedo as Palavras dificeis de Jesus - Virar a outra face

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 7 “Virar a outra face”

Entendedo as Palavras dificeis de Jesus - Virar a outra face

As palavras de Jesus em Mateus 5:39, “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;”, muitas vezes são interpretadas como uma ordem passiva para aceitar a agressão sem revidar. No entanto, essa interpretação superficial ignora o contexto cultural e histórico rico em que essa frase foi dita, levando a uma compreensão distorcida da mensagem de Jesus.

Para desvendar a verdadeira essência dessa passagem, é crucial mergulharmos no mundo antigo e na cultura da honra e da vergonha que permeava a sociedade da época. Essa cultura ditava as normas sociais e as expectativas de comportamento, moldando profundamente as interações entre as pessoas.

Ao analisar as palavras de Jesus através da lente da cultura da honra e da vergonha, podemos entender sua mensagem de forma mais profunda. Jesus não estava defendendo a submissão passiva à violência, mas sim desafiando as normas sociais arraigadas que perpetuavam a vingança e a hostilidade.

Frases idiomáticas podem se tornar um verdadeiro desafio para desvendar a mensagem subjacente. Jesus as utilizava frequentemente para elucidar verdades para seus ouvintes, porém, para o leitor moderno, elas podem causar confusão quando o contexto no qual foram ditas é ignorado. Uma frase idiomática é uma expressão ou conjunto de palavras que possuem um significado figurado específico, divergindo de sua interpretação literal. Essas expressões são características de uma língua ou cultura específica e, muitas vezes, não podem ser traduzidas diretamente para outras línguas sem que se perca seu significado original. As frases idiomáticas são frequentemente utilizadas para transmitir ideias de forma mais colorida, vívida ou expressiva.

Geralmente, esse texto é referido como se fosse uma proibição à autodefesa, mas esse texto não está falando de tomar um tapa literalmente. A palavra grega usada para “face direita” é DEXIA SIAGON (δεξιὰν σιαγόνα), ou seja, um lugar de honra ou autoridade, ou seja, alguém que tenta ferir a sua honra, a sua autoridade. Quando Jesus fala em oferecer a outra face, a palavra grega é STEPSON, que quer dizer virar as costas para alguém, ou seja, dar as costas. Então, traduzindo essa expressão idiomática de Jesus, se alguém tentar ferir a sua honra, a sua autoridade, vire as costas para ele, evite conflitos, evite disputas, e não alimente o sentimento de vingança quando alguém tentar desonrar você.

Compreendendo o Contexto Cultural: Honra, Vergonha e Agressão. Na sociedade da época de Jesus, a honra era um bem precioso, definindo a posição social e o respeito de um indivíduo. A vergonha, por outro lado, era vista como uma mancha na reputação, causando humilhação e ostracismo. Essa dinâmica social moldava as relações interpessoais, onde ofensas e agressões eram frequentemente respondidas com retaliação proporcional ou até mesmo excessiva, perpetuando um ciclo de violência e vingança.

O Insulto por Trás do Tapa na Face Direita. Um aspecto crucial para entender a profundidade da instrução de Jesus é o significado do gesto de “bater na face direita”. Na cultura da honra e da vergonha predominante, um tapa com o dorso da mão era considerado um insulto grave, especialmente se direcionado à bochecha direita. Essa era a face considerada mais honrosa, pois era o lado que um guerreiro usava para proteger seu coração. Levar um tapa na bochecha direita, portanto, era um ataque direto à honra e dignidade da pessoa, um ato de humilhação pública.

Ao usar essa imagem vívida, Jesus não apenas estava falando sobre a dor física de um tapa, mas sim sobre a profunda humilhação e vergonha que tal ato infligia. Oferecer a outra face, nesse contexto, representava um desafio radical às normas sociais da época. Era um ato de recusar a vergonha imposta pelo agressor, mantendo a própria honra e dignidade através da compaixão e do perdão.

Além da Não Resistência: Quebrando o Ciclo da Vingança. O trecho que menciona Jesus vai além da mera passividade em face da agressão. Ele não está apenas dizendo que os cristãos não devem revidar fisicamente, mas sim que devem evitar a busca por vingança em qualquer forma. Em uma cultura onde a honra era defendida com unhas e dentes, a ideia de não revidar era vista como fraqueza e submissão.

No entanto, Jesus propôs um caminho alternativo: o da compaixão, do amor e da quebra do ciclo de violência. Ao oferecer a outra face, o indivíduo demonstrava força interior, recusando-se a ser dominado pela raiva e pelo desejo de retaliação.

A Relevância Atual da Mensagem de Jesus. Embora o contexto cultural da época de Jesus seja muito diferente do nosso, sua mensagem central permanece atemporal: a superação da violência através da compaixão, do perdão e do amor. Em um mundo marcado por conflitos e hostilidades, o convite de Jesus para “virar a face” nos convida a refletir sobre nossas próprias respostas à agressão e buscar caminhos alternativos para a resolução de conflitos, construindo um mundo mais pacífico e justo.

Um Convite à Transformação Interior. Em última análise, a instrução de Jesus para “virar a face” não se limita a uma mera ação física. É um convite a uma transformação interior, a uma mudança de postura diante da ofensa e da agressão. Trata-se de cultivar a compaixão, o perdão e a capacidade de superar a raiva e o ressentimento.

Ao oferecer a outra face, o indivíduo demonstra a força interior de não ser dominado pela ira e pelo desejo de vingança. Essa atitude desafia as normas sociais baseadas na honra e na vergonha, abrindo caminho para a construção de relacionamentos mais pacíficos e compassivos.

Assim, ao compreendermos o contexto cultural e a profundidade da mensagem de Jesus em Mateus 5:39, somos convidados não apenas a refletir sobre nossas próprias atitudes em face da agressão, mas também a abraçar um caminho de compaixão, perdão e amor, construindo um mundo mais justo e pacífico para todos.

Autor: Adivalter Sfalsin

A Última Gota D'água

A Última Gota D’água

A Última Gota D'água

A Última Gota D’água: Quando o Ponto de Ruptura Transforma Vidas

A expressão “última gota d’água” deriva de uma metáfora que representa um recipiente gradualmente preenchido até transbordar com a última gota. Esse recipiente simboliza a paciência, a tolerância ou a capacidade de suportar uma situação incômoda ou estressante. A imagem de um copo ou jarro que transborda ao receber uma última gota refere-se metaforicamente ao ponto em que dificuldades acumuladas atingem um ponto crítico. A “última gota d’água” é o catalisador que provoca uma reação significativa, representando o fator final, aparentemente pequeno, que desencadeia uma mudança profunda devido ao acúmulo prévio de tensões.

Significado e Implicações

A expressão é usada para descrever o momento em que uma pessoa ou situação chega ao seu limite de paciência ou capacidade de tolerância. A última gota, embora possa parecer insignificante por si só, causa um transbordamento ou colapso devido à acumulação de todas as pequenas gotas anteriores. Esse momento pode desencadear uma série de eventos que levam a mudanças positivas ou negativas, possuindo um grande poder de reconstruir ou destruir completamente, dependendo das ações subsequentes.

Para alguns, a última gota representa a coragem necessária para sair de uma situação tóxica e buscar uma vida mais autêntica e satisfatória. Para outros, pode resultar em uma queda ainda mais profunda na desesperança e resignação.

Exemplos Bíblicos

A Bíblia está repleta de exemplos que ilustram o conceito da “última gota d’água”. Um exemplo marcante é a história de Moisés liderando o povo de Israel através do deserto após a fuga da escravidão no Egito. Após inúmeras provações e desafios, a última gota ocorreu quando Moisés desceu do Monte Sinai com as tábuas da lei de Deus e encontrou o povo adorando um bezerro de ouro. Em Êxodo 32:19-20, está escrito:

“E aconteceu que, chegando ele ao arraial e vendo o bezerro e as danças, acendeu-se o furor de Moisés, e arremessou as tábuas das suas mãos, e quebrou-as ao pé do monte, e tomou o bezerro que tinham feito, e queimou-o no fogo, moendo-o até que se tornou em pó; e o espargiu sobre as águas e deu-o a beber aos filhos de Israel.”

Esse incidente desencadeou uma série de eventos que eventualmente levaram à revelação do caráter benigno de Deus, oferecendo uma segunda chance ao povo ao escrever outras tábuas com os Dez Mandamentos.

Intercessão e Consequências

Precedente a esse evento, nos versículos de 7 a 14, vemos que, num momento de grande tensão, enquanto Moisés estava no Monte Sinai recebendo os mandamentos de Deus, o povo de Israel se corrompeu, fazendo e adorando um bezerro de ouro. Deus, furioso, ordenou a Moisés que descesse imediatamente. Moisés, amando profundamente seu povo, intercedeu junto a Deus, argumentando que destruir os israelitas faria com que os egípcios pensassem que Deus os havia tirado do Egito apenas para matá-los no deserto. Moisés lembrou a Deus das promessas feitas a Abraão, Isaque e Israel sobre a multiplicação de sua descendência e a posse da terra prometida.

Com suas palavras cheias de fervor e lembrança das antigas promessas, Moisés conseguiu acalmar a ira de Deus, poupando o povo e reafirmando seu compromisso com as promessas feitas aos seus ancestrais. Esse exemplo nos ensina que as consequências da última gota d’água estão diretamente ligadas à nossa decisão no momento da ruptura, com potencial para destruição ou reconstrução.

Reflexões e Oportunidades

A “última gota d’água” nos lembra da importância de prestar atenção aos sinais de alerta em nossas vidas e buscar ajuda quando necessário. É um lembrete poderoso de que, mesmo nos momentos mais sombrios, sempre há esperança de renovação e transformação. Se tivermos a reação correta, aquilo que parece ser um fim pode se transformar numa experiência positiva e revigorante.

Em última análise, a “última gota d’água” é mais do que uma simples metáfora – é um fenômeno universal que encapsula a complexidade da experiência humana. Ao reconhecer e responder a esses momentos de ruptura, podemos encontrar oportunidades para crescimento, cura e renovação em nossas vidas. Como os ortopedistas dizem:

“Quando quebramos um osso ele se cura mais forte do que antes, dependendo de como você o trate. No início, você tem que ser muito cuidadoso com ele. Se você o ignorar, não cuidar dele, não prestar atenção à sua dieta, evitar o fisioterapeuta, então, certamente, não ficará mais forte do que antes. Mas, se você cuidar bem dele, com delicadeza no começo, seguir toda a sua terapia e se esforçar para fortalecê-lo novamente… então sim, ele pode ficar mais forte do que era antes. Quanto mais você usá-lo, mais forte ele fica.”

Assim, a última gota pode ser o início de um novo capítulo, uma nova página em nossas vidas. A escolha é nossa.

Autor: Adivalter Sfalsin

Questões da Vida

Com alguma relutância, compartilho um diálogo profundo que tive com minha filha de 10 anos. Acredito que as lições contidas neste breve diálogo podem ensinar-nos muito sobre as questões mais profundas que enfrentamos. Era dia 25 de março, por volta das 17 horas, quando me encontrava com minha filha numa sala de espera, após 22 horas intensas de vários exames médicos para determinar o tratamento a ser adotado. Ambos estávamos visivelmente cansados, evitando muita conversa na tentativa de poupar a pouca energia restante. Então, surpreendentemente, o silêncio foi quebrado com a seguinte pergunta:

O Diálogo

Minha filha: “Pai, eu acho que não devíamos mais servir ao nosso Deus.”

Eu: Porquê?

Minha filha: “Esse Deus não é bom, Ele faz-nos sofrer. Quando tiraram meu sangue, doeu muito, e Ele não aliviou minha dor quando eu pedi.”

Como responder a uma menina de 10 anos de forma simples para questões tão complexas? Esse era o meu desafio.

Eu: Olha, filha, o mesmo Deus que nos dá o sol também nos dá a chuva. Na vida, temos tristezas e alegrias, dor e prazer, assim como existem pessoas boas e más. O fato de sentires dor não significa que Ele não nos ame. Além disso, a pequena dor que sentiste é para melhorar tua saúde.

Minha filha: “Ah, papai, tive uma boa ideia para dar a Deus.”

Eu: Então, que ideia é essa?

Minha filha: “Sabes que disseste que existem pessoas boas e más? Vou dar a ideia de dividir o mundo em dois, um lado só com pessoas boas e do outro só com pessoas más, assim não haverá tantos problemas.”

Eu: Com um certo riso, respondi: “É, tua ideia é ótima, mas Ele prometeu fazer isso no futuro, separar aqueles que amam o Senhor daqueles que O desprezam.”

Minha filha: “Então, por que Ele não faz isso agora?”

Eu: Sinceramente, não sei, mas com certeza o fará.

Após esse breve diálogo, fiquei pensativo, transportado anos atrás, ao início da minha juventude quando fazia esse tipo de perguntas. Fiquei surpreso ao notar que uma menina de 10 anos já faz perguntas tão profundas e tão comuns a todos nós. Ao tentar desdobrar as questões fundamentais contidas em tais perguntas inocentes, cheguei à conclusão de que, na verdade, ela estava questionando questões relacionadas com o propósito da vida, como: Porque sofremos e qual será nosso destino?

Questões da Vida

Em poucas perguntas, ela tocou nas questões mais profundas da vida, que são:

  1. De onde viemos? Origem.
  2. Porque estamos aqui? Propósito.
  3. Para onde vamos? Destino.
  4. Porque sofremos? Justiça.

Essas questões são as mais básicas da vida e certamente, se ainda não as fizeste, em algum ponto da tua vida as farás.

Perspectivas Filosóficas

Para aqueles que têm uma mente voltada para a ciência, a resposta desta é insatisfatória, porque lida apenas com a questão da origem, deixando de lado as outras três. Ao tentar explicar a origem da humanidade através de acontecimentos aleatórios e teorias questionáveis, deixa de fora as questões mais importantes, como propósito, destino e justiça.

Os famosos filósofos gregos, como Aristóteles, Platão e Heráclito, que tanto influenciaram o pensamento ocidental, tentaram responder a essas questões com uma visão dualista do mundo, onde o mundo é dividido em material versus espiritual, sendo que o material é inferior e o espiritual, superior.

Perspectiva Bíblica

A visão bíblica da vida é muito mais abrangente ao responder essas questões, de forma coerente, ela responde aos anseios mais profundos do ser humano. Do Gênesis ao Apocalipse, a Bíblia responde a essas questões de forma coerente e concisa.

  1. Origem – Ao criar o ser humano “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gênesis 1:26), Deus responde à primeira questão – Origem.
  2. Propósito – O sábio Salomão conclui o livro de Eclesiastes destacando que a vida se resume a honrar a Deus em nossos pensamentos e guardar Seus mandamentos, porque um dia estaremos diante do trono divino para prestar contas.
  3. Destino – O último livro da Bíblia, o Apocalipse, discute o que irá acontecer no fim dos tempos. Após o retorno de Jesus, os céus e a terra que conhecemos serão destruídos e um novo céu e uma nova terra serão criados eternamente.
  4. Justiça – A busca pela justiça pressupõe que haja uma ordem moral universal que nos permite fazer tal pergunta; se há uma ordem moral universal, deve necessariamente haver um doador dessa ordem. Na visão bíblica, esse agente é Deus. Quando presenciamos injustiça ou o sofrimento de um inocente, algo dentro de nós grita estridentemente dizendo que algo está errado. Esse algo é o pecado, a desobediência ao Senhor.

Paulo, grande conhecedor do Tanakh (Velho Testamento), declarou: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor.” (Romanos 6:23).

Este versículo ressalta a mensagem central do texto: a busca pelo propósito da vida e a resposta às questões fundamentais da existência. Enquanto discutimos origem, propósito, destino e justiça, é importante reconhecer que, através da fé em Cristo, Deus oferece não apenas vida eterna, mas vida em abundância. O versículo enfatiza que o propósito de Jesus não é apenas proporcionar vida, mas também proporcioná-la em abundância, contrastando com o propósito do ladrão, que é roubar, matar e destruir.

Assim, a mensagem central do texto é que, apesar das incertezas e dificuldades da vida, encontrar o propósito verdadeiro e a plenitude de vida está em conhecer e seguir a Cristo. É Ele quem oferece não apenas respostas às questões mais profundas da existência, mas também a promessa de vida em abundância, que transcende as limitações deste mundo e nos conduz à verdadeira realização e significado.

Autor: Adivalter Sfalsin

O Poder da Gratidão: Encontrando Contentamento no Presente

Em Provérbios 30:8-9, o escritor ora fervorosamente: “Afasta de mim a falsidade e a mentira; não me dês nem a pobreza nem a riqueza; dá-me apenas o pão de cada dia. Senão, tendo demais, te negaria e diria: ‘Quem é o Senhor?’ Ou, tendo menos, eu me tornaria ladrão e desonraria o nome do meu Senhor.”

Esta oração levanta uma questão crucial: Estamos satisfeitos com o nosso pão diário, ou estamos incessantemente perseguindo o vento?

A sociedade atual parece estar obcecada com direitos, ignorando as obrigações. Ela transita de ordens pré-estabelecidas para a desordem total, dos deveres para os direitos do indivíduo, e da obediência a autoridades pré-estabelecidas para a autodeterminação. Em meio a essa mudança cultural, o conceito de gratidão parece escasso. Muitas vezes, sentimo-nos com direito a restituição por injustiças passadas ou exigimos afirmação de nossas identidades auto-percebidas, negligenciando a virtude da gratidão e a própria realidade de quem somos.

O sábio pregador em Provérbios busca equilíbrio em sua oração. Ele não deseja nem riqueza excessiva nem pobreza extrema, reconhecendo os perigos de ambos, que podem afastá-lo do Senhor. Ele entende que um excesso de riquezas pode levar ao esquecimento do Senhor, enquanto a pobreza pode tentar alguém a desonrar o Senhor através da desonestidade.

A busca por equilíbrio é relevante hoje como foi na antiguidade. A gratidão é a pedra angular do contentamento e da alegria, independentemente da abundância material. A ingratidão, por outro lado, gera descontentamento, levando as pessoas a ignorar suas bênçãos e a buscar perpetuamente mais, numa perseguição ao vento.

Fatores psicológicos contribuem para essa predisposição. Os seres humanos se adaptam rapidamente a circunstâncias positivas, levando à desvalorização de bênçãos que antes eram apreciadas. O pensamento comparativo fomenta a ingratidão quando as pessoas percebem os outros como tendo mais do que eles. Uma sociedade que prega somente o direito do indivíduo alimenta ainda mais a ingratidão, enquanto a dissonância cognitiva e o medo da vulnerabilidade de ser grato a alguém inibem expressões de gratidão.

Ao contrário, um coração grato promove uma visão positiva da vida. Provérbios 15:13 afirma de forma apropriada: “Um coração alegre deixa o rosto feliz, mas a tristeza deixa o coração abatido.”

Em Provérbios 30:8-9, o pedido do escritor por “mas dá-me apenas o meu pão diário” implica que aprender a valorizar o que se tem no momento presente, independentemente do que os outros possam ter ou do que se poderia alcançar. Compreender plenamente que a vida se desenrola no “agora”, o único momento verdadeiramente seguro que possuímos. O passado é apenas memória, o futuro é incerto; portanto, só podemos viver e aproveitar o presente. Sou grato por acordar todas as manhãs com saúde e cercado por aqueles que me amam. Quando percebemos que o que temos é apenas o momento presente, que o passado e o futuro são construções da mente, e que nossa perspectiva é moldada pela porção diária de bênçãos que o Senhor nos concede, é quando a verdadeira transformação começa. Quanto aos meus planos e sonhos, eles continuam a existir e devem ser perseguidos? Sim, mas não são o propósito último da vida. Eles podem ser boas motivações para nos manter no caminho certo, mas é na gratidão pelo presente que encontramos a verdadeira plenitude.

É interessante notar que o Senhor requer que demos graças após termos comido. Deuteronômio 8:10 diz: “E comerás e te fartarás, e bendirás ao Senhor teu D-us pela boa terra que te deu.” Embora, através da tradição, tenhamos alterado este mandamento e muitas vezes agradecemos ao Senhor antes de comermos, perdendo o propósito principal da bênção. Nossa inclinação natural é esquecer do Senhor quando tudo está bem, quando estamos saciados, e buscá-lo quando precisamos de algo. Portanto, criar o hábito de agradecer ao Senhor quando estamos saciados nos ensina que mesmo na abundância precisamos agradecê-lo e buscá-lo, reconhecendo que tudo o que temos e somos vem Dele.

Em última análise, praticar gratidão e empatia pode transformar perspectivas, promovendo contentamento e alegria em meio às incertezas da vida. Ao abraçar o conceito de “pão diário”, as pessoas podem cultivar um espírito de gratidão, levando a uma existência mais plena e significativa.

Autor: Adivalter Sfalsin De Assis