Uma Narrativa Incompleta e Perigosa
A chamada “Teologia da Substituição” ensina que a Igreja substituiu Israel nas promessas e propósitos de D‑us. Em sua forma mais simples, essa doutrina declara que o povo judeu, ao rejeitar Jesus como Messias, foi rejeitado por D‑us, sendo a Igreja agora o “novo Israel”, herdeira das alianças, das bênçãos e da missão salvífica. Essa visão não é apenas teologicamente frágil, ela é historicamente danosa e espiritualmente empobrecedora. Ela se sustenta em cinco pilares principais:
- D‑us rejeitou o povo judeu como instrumento dos Seus propósitos por terem rejeitado o Messias;
- As alianças feitas com os patriarcas foram anuladas;
- A Igreja assumiu o lugar de Israel como povo da aliança;
- Todas as promessas feitas a Israel agora pertencem à Igreja; e
- O moderno Estado de Israel não tem qualquer relevância especial nos planos divinos.
Essa teologia moldou séculos de doutrina cristã, influenciou decisões políticas e alimentou um antissemitismo teológico sutil, mas devastador. Basta abrir a Bíblia para perceber algo revelador: a divisão entre “Velho” e “Novo” Testamento. Essa separação, embora aparentemente neutra, carrega uma carga cultural que posiciona o Antigo como ultrapassado e o Novo como superior. Muitos absorvem inconscientemente a ideia de que o Antigo Testamento é uma sombra descartável, e que Israel perdeu sua relevância. Mas essa separação entre os testamentos não foi feita desde o início. Nos primeiros tempos da igreja, a única “Bíblia” usada era o que hoje chamamos de Antigo Testamento. A distinção entre “Antigo” e “Novo” começou a surgir por volta do século II, especialmente como reação a um homem chamado Marcião, que tentou rejeitar completamente o Antigo Testamento e excluir o D‑us de Israel da fé cristã. A Igreja, em resposta, começou a organizar melhor os escritos apostólicos e adotou os termos “Antigo” e “Novo Testamento”. Contudo, a forma como essa separação foi estabelecida acabou reforçando um viés antissemita. O “Antigo” passou a ser visto como judaico, imperfeito, enquanto o “Novo” foi exaltado como espiritual, cristão, superior. Essa dicotomia falsa criou uma teologia em que o Novo cancela o Antigo, quando, na verdade, eles estão profundamente conectados. O Novo cumpre o que o Antigo prometeu. Essa leitura promove um orgulho espiritual que distancia o cristão de suas raízes bíblicas e deturpa o caráter do próprio D‑us.
Essa herança de descontinuidade entre os testamentos teve efeitos práticos desastrosos. Durante séculos, o cristianismo institucional contribuiu para perseguições contra os judeus, acusando-os de “deicidas” e negando sua continuidade como povo da aliança. Esse tipo de teologia influenciou desde sermões medievais até políticas públicas, e até hoje afeta a forma como o povo judeu é visto no contexto cristão. Em vez de enxergar Israel como raiz viva da fé, muitos ainda o tratam como escombro do passado.
Boa parte dessa distorção vem da influência da filosofia grega sobre a teologia cristã. A tradição helenística, presente nos escritos dos chamados “pais da igreja”, Clemente de Alexandria, Justino Mártir, Basílio e Agostinho, reinterpretou a Bíblia com categorias filosóficas. D‑us passou a ser visto como uma “Primeira Causa”, um “Ser Perfeito”, inatingível, com atributos abstratos e impessoais. Em contraste, a Bíblia apresenta um D‑us pessoal, envolvido na história, que escolhe uma família, a de Abraão, e com ela estabelece um relacionamento íntimo, com promessas específicas, mandamentos concretos e presença real. Essa escolha foi o início de uma missão redentora universal, mas que passa pelo particular. Como Ele disse a Abraão: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gênesis 12:3).
A Teologia da Substituição ignora que a aliança com Abraão foi unilateral. Em Gênesis 15, D‑us ordena a Abraão que prepare animais para um pacto, um ritual comum na antiguidade em que duas partes passavam entre os corpos partidos, assumindo obrigações mútuas. Mas, nesse caso, Abraão é colocado para dormir:
“E pondo-se o sol, um profundo sono caiu sobre Abrão…” (Gênesis 15:12).
Ele não passa entre os animais. Apenas D‑us o faz, representado por um fogo. Isso significa que Ele mesmo arcaria com as consequências do pacto, mesmo sabendo que o homem falharia. Mais tarde, Ele reafirma:
“Estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência… por aliança perpétua” (Gênesis 17:7).
A palavra hebraica para “perpétua” é olam (עוֹלָם), que significa eternidade, continuidade, tempo indefinido. O Novo Testamento usa o termo grego aiōn (αἰών), como em Hebreus 13:8:
“Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente”.
Se D‑us pode romper uma aliança que chamou de eterna, como confiar que manterá Sua promessa de vida eterna para conosco?
Outro erro grave da teologia substitucionista é tratar Israel como uma sombra que perdeu sua função após Cristo. O teólogo Robert Reymond, por exemplo, escreveu que todas as promessas feitas à terra de Israel devem ser vistas como sombras, e que os cristãos são os verdadeiros herdeiros dessas promessas. Isso apaga a raiz da fé cristã. Paulo advertiu: “Não te glories contra os ramos, e, se contra eles te gloriares, não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz a ti” (Romanos 11:18). E reforça: “Porventura rejeitou D‑us o seu povo? De modo nenhum” (v.1). “O endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado” (v.25). A eleição de Israel está em suspensão parcial, com propósito. A rejeição não é total, nem definitiva. É fundamental reconhecer que, se o evangelho chegou até os gentios, isso se deu por meio de uma minoria fiel do povo judeu. Foram judeus que escreveram o Novo Testamento, que pregaram em Jerusalém e além, que sofreram perseguições e espalharam a mensagem do Messias. Negar a centralidade de Israel é ignorar a própria origem da fé cristã.
A teologia da substituição promove uma narrativa truncada: D‑us criou o mundo, o homem pecou, então enviou Jesus para salvar. Mas essa versão ignora a centralidade de Israel. A perspectiva hebraica vê a Bíblia como uma história contínua, com início, meio e fim. D‑us escolheu um povo para abençoar todas as nações, fez alianças com Noé, Abraão, e Israel, renovando-as ao longo da história. O Messias, descendente de Abraão e Davi, veio para cumprir essas promessas. Yeshua disse: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas, não vim para revogar, mas para cumprir” (Mateus 5:17). Ele não veio substituir, mas revelar a plenitude daquilo que já estava em andamento.
Ao contrário do D‑us abstrato dos filósofos, o D‑us de Israel:
1- Liberta (Êxodo 20:2)
2- Habita entre o povo (Êxodo 29:46)
3- Santifica (Levítico 11:45)
4- Sustenta órfãos e viúvas (Salmo 146:9)
5- E continua chamando Israel de “meu povo” (Romanos 11:1).
Ele caminha com Seu povo, não os abandona.
Paulo, após seu encontro com Yeshua, jamais abandonou sua identidade judaica. Ele guardava o sábado (Atos 13:14), circuncidou Timóteo (Atos 16:3), e sua Bíblia era o Tanakh. Sua teologia não substitui Israel, mas inclui os gentios no plano divino. “Vocês estavam sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa…” (Efésios 2:12). Agora, por meio de Yeshua, fomos enxertados, não como substitutos, mas como participantes. Reconhecer o papel contínuo de Israel na história da redenção não é apenas uma questão teológica, mas uma postura de humildade espiritual. É aceitar que fomos enxertados numa história que começou muito antes de nós, e que ainda está em andamento. É também um antídoto contra o orgulho religioso que, ao longo da história, gerou divisão, perseguição e cegueira espiritual.
A Teologia da Substituição apresenta um D‑us incoerente, que quebra alianças eternas. A aliança com Israel é unilateral, perpétua e irrevogável. Nós, gentios, fomos enxertados na oliveira cultivada, mas a raiz continua sendo Israel. Ignorar isso é não apenas ingratidão espiritual, mas um erro exegético. Como Paulo advertiu: “Não quero, irmãos, que ignoreis este segredo… para que não presumais de vós mesmos” (Romanos 11:25). Que sejamos humildes e gratos à fidelidade de D‑us, que jamais rejeitou Seu povo, e jamais quebrará Sua palavra.
Adivalter Sfalsin

