“Ide, e dizei àquela raposa…”

“Ide, e dizei àquela raposa…”

“O insulto que se perdeu na tradução”

Há frases de Jesus que nos confortam como um cobertor numa noite fria. Outras, porém, fazem exatamente o oposto: nos acordam. Esta é uma delas. Quando Ele diz, com serenidade quase desconcertante, “Ide, e dizei àquela raposa…”, não está apenas respondendo a uma ameaça política. Está, como tantas vezes, revelando a anatomia oculta do poder humano e, se formos honestos, a nossa também.

A cena é simples. Alguns fariseus vêm alertar Jesus de que Herodes Antipas quer matá-lo. O aviso soa sério, quase protetor. Afinal, Herodes não era conhecido por delicadezas: mandara decapitar João Batista e governava com a aprovação de Roma. Mas Jesus não se apressa, não foge, não negocia. Ele responde com uma frase que, à primeira vista, parece quase irreverente: “Vão e digam àquela raposa…”. Em seguida, afirma que continuará seu trabalho, expulsando demônios, curando, avançando, até que seu tempo se cumpra.

Durante anos, muitos de nós lemos essa palavra “raposa” como sinônimo de astúcia. A raposa, afinal, é esperta; sobrevive pela inteligência, não pela força. Assim, imaginamos Jesus reconhecendo a sagacidade política de Herodes. Mas essa leitura, embora confortável, é profundamente enganosa. E aqui começamos a perceber que Jesus não está elogiando nada. Está desmascarando.

O problema nasce quando lemos Jesus apenas com óculos gregos, esquecendo que Ele falava como judeu a judeus, dentro de um mundo simbólico que tinha sua própria gramática moral. No imaginário grego, a raposa era de fato astuta, oportunista, rápida em aproveitar sobras deixadas por predadores maiores. Mas no universo hebraico, a palavra carrega um peso muito diferente. Ela não é apenas esperta; é pretensiosa. Não é apenas ardilosa; é moralmente pequena.

Os mestres judeus costumavam contrastar dois animais: o leão e a raposa. O leão simbolizava autoridade legítima, grandeza real, peso verdadeiro. A raposa, ao contrário, parecia maior do que realmente era. Seu pelo volumoso lhe dava aparência de importância, mas por dentro era frágil, esquelética. Assim, chamar alguém de raposa não era reconhecer sua inteligência, mas denunciar sua fraude. Era dizer: você parece grande, mas não é.

Há um provérbio antigo que diz: “Seja a cauda dos leões, e não a cabeça das raposas.” Melhor ocupar um lugar humilde entre os justos do que liderar, com pompa, um sistema corroído. Essa sabedoria não nasceu do cinismo, mas de um olhar lúcido sobre o caráter humano. Jesus conhecia bem essa tradição. E é com ela que Ele olha para Herodes.

Herodes Antipas se via, e queria ser visto, como um leão. Governante, construtor, herdeiro de uma dinastia. Mas sua linhagem contava outra história. Filho de Herodes, o Grande, neto de Antípatro, um idumeu convertido por conveniência, Herodes reinava não por promessa divina, mas por concessão romana. Ele ocupava um trono que não lhe pertencia. O trono de Davi fora prometido à linhagem de Jacó, não à de Esaú. Herodes carregava o título, mas não o direito; a coroa, mas não a legitimidade.

Quando Jesus o chama de raposa, portanto, não está fazendo um comentário zoológico, mas teológico. Está dizendo, em essência: você não é quem pensa ser. Seu poder é emprestado. Sua ameaça é vazia. Sua grandeza é inflada. Você governa, mas não reina. Parece leão, mas é raposa.

E aqui está o ponto que nos inquieta. Jesus não diz isso aos gritos, nem convoca uma revolta. Ele simplesmente continua seu trabalho. Enquanto Herodes ameaça, Jesus cura. Enquanto Herodes maquina, Jesus liberta. Enquanto Herodes pensa controlar a morte, Jesus anuncia vida. É uma inversão silenciosa, porém devastadora. O verdadeiro poder não se prova pela capacidade de matar, mas pela fidelidade à missão recebida.

Talvez seja por isso que essa passagem nos incomode tanto. Porque ela não fala apenas de Herodes. Fala de todos os sistemas, políticos, religiosos, pessoais, que se sustentam mais na aparência do que na verdade. Fala de líderes que usam títulos como peles volumosas, mas carecem de substância moral. Fala, se tivermos coragem de admitir, de nós mesmos.

Quantas vezes preferimos parecer do que ser? Quantas vezes inflamos nossa importância, nosso discurso, nossa autoridade, enquanto por dentro estamos espiritualmente frágeis? Quantas vezes nos contentamos em ser cabeças de raposas, desde que isso nos poupe a humildade de ser caudas de leões?

Jesus, o legítimo herdeiro do trono, age de modo oposto ao que esperaríamos. Ele não se impõe; se oferece. Não ameaça; serve. Não corre atrás do poder; caminha em obediência. E justamente por isso, Ele é livre. Herodes não pode apressar seu fim. Roma não pode frustrar sua missão. Nem mesmo a morte pode vencê-lo antes da hora. “Hoje e amanhã”, diz Ele, “faço o que vim fazer.” Não há arrogância nisso, apenas autoridade verdadeira.

Há algo profundamente libertador nessa postura. Jesus nos ensina que a fidelidade é mais poderosa que a força, e que a verdade, mesmo dita com suavidade, expõe toda pretensão. Ele não precisa provar que Herodes é uma raposa. Basta nomeá-lo. A luz, quando acesa, não precisa discutir com a escuridão.

Mas essa mesma luz se volta para nós. Ler essa passagem sem contexto é arriscado; ela vira pretexto para mal-entendidos. Com contexto, porém, ela se torna espelho. Obriga-nos a perguntar: onde estamos vivendo de aparência? Onde confundimos influência com legitimidade? Onde usamos o “pelo” da religiosidade para encobrir a falta de peso interior?

Crer em Jesus não é apenas admirar sua coragem diante de Herodes. É permitir que Ele redefina nossos critérios de grandeza. É aceitar que, no Reino de D-us, leões não rugem por autopromoção, e raposas não impressionam ninguém. O que conta é a verdade do coração, a retidão do caminho, a fidelidade silenciosa ao chamado.

Talvez, ao final, o maior escândalo dessa frase não seja Jesus chamar Herodes de raposa, mas o fato de Ele fazê-lo sem medo. Não porque fosse imprudente, mas porque sabia quem era, e quem Herodes não era. Essa segurança não vinha da política, nem da popularidade, nem da força. Vinha da convicção de estar alinhado com o propósito do Pai.

E isso, se formos honestos, é o convite mais desafiador de todos. Viver de tal modo que as raposas não nos intimidem, os leões falsos não nos impressionem, e a verdade de D-us seja suficiente para sustentar cada passo. Porque, no fim, o Reino não pertence aos que parecem grandes, mas aos que são fiéis.

E Jesus continua dizendo, ainda hoje: “Vão e digam àquela raposa…”, não para que temamos o poder, mas para que aprendamos a reconhecê-lo quando ele é apenas uma sombra bem penteada.

Adivalter Sfalsin

Levíticos faz sentido?

Levítico faz algum sentido?

A palavra sacrifício sofreu, ao longo do tempo, um curioso empobrecimento. Na linguagem comum, passou a significar quase exclusivamente perda: abdicar de algo bom para evitar algo pior, ou sofrer agora em troca de algum benefício futuro. É uma palavra associada a esforço, dor e, muitas vezes, ressentimento. Quando alguém diz “fiz um sacrifício”, geralmente quer dizer “paguei um preço que preferia não pagar”.

Entretanto, essa não é a gramática moral da Bíblia. O sistema sacrificial do Antigo Testamento não nasce da lógica da perda, mas da lógica da aproximação. O termo hebraico korban não descreve algo que é simplesmente destruído, mas algo que é trazido para perto. Sacrificar, nesse contexto, não é afastar-se da vida, mas aprender a se aproximar de D-us de maneira ordenada, consciente e responsável.

Essa constatação muda tudo. Ela nos impede de ler Levítico como um manual arcaico de rituais sangrentos e nos obriga a enxergá-lo como aquilo que realmente é: uma pedagogia espiritual cuidadosamente construída. Os cinco sacrifícios não são redundantes, nem arbitrários. Cada um responde a um tipo específico de desordem humana, e juntos formam um caminho, quase uma escada, de restauração e comunhão.

O primeiro grande erro moderno ao lidar com esse sistema é imaginar que todo sacrifício existe para lidar com pecado. Não é verdade. Alguns lidam com culpa, outros com dano, outros com gratidão, outros com consagração. Confundir tudo isso é como tratar todas as doenças com o mesmo remédio. A Torá é mais sutil do que isso.

A Chatat, geralmente traduzida como “oferta pelo pecado”, lida sobretudo com pecados cometidos por erro, descuido ou ignorância. O ponto central aqui não é a punição do indivíduo, mas a purificação do espaço sagrado. O pecado, na visão bíblica, não é apenas uma infração legal; é uma força contaminante. Ele desorganiza, polui, distorce. O sangue da Chatat não “compra” perdão, mas purifica aquilo que foi afetado pela falha humana. Trata-se menos de pagar uma dívida e mais de restaurar uma ordem.

Já a Asham, a oferta pela culpa, nos conduz a um território muito mais desconfortável: o da reparação. Aqui lidamos com pecados intencionais que causaram dano objetivo, roubo, fraude, mentira, abuso do que é sagrado. E o princípio é inescapável: arrependimento sem restituição é incompleto. Não basta confessar; é preciso devolver. Onde houve prejuízo real, a espiritualidade que ignora o conserto concreto do erro é uma espiritualidade vazia. A Asham nos lembra que D-us leva a sério tanto o coração quanto as consequências práticas do pecado.

Esse ponto é profundamente relevante para o mundo contemporâneo. Vivemos numa cultura que valoriza o discurso do arrependimento, mas frequentemente rejeita o custo da reparação. Queremos absolvição sem responsabilidade, reconciliação sem justiça. A Torá não permite esse atalho. Ela insiste que a restauração moral passa pelo enfrentamento honesto do dano causado.

Mas nem tudo no sistema sacrificial gira em torno de falhas. A ʿOlah, o holocausto, não é oferecida para corrigir um erro específico. Ela simboliza algo mais radical: a entrega total. Tudo sobe ao altar; nada é retido. A ʿOlah reorienta a vida inteira do adorador diante de D-us. É o reconhecimento de que o problema humano não é apenas que fazemos coisas erradas, mas que muitas vezes vivemos com o centro errado. Antes de lidar com atos isolados, é preciso alinhar a direção da existência.

A Minḥah, por sua vez, leva essa consagração ao território do cotidiano. Farinha, azeite, sal, elementos comuns, frutos do trabalho humano. Não há sangue aqui. O que se oferece é o ordinário. A mensagem é clara: a vida diária também pertence a D-us. O trabalho, o sustento, o esforço silencioso de cada dia não são espiritualmente neutros. Talvez esse seja um dos sacrifícios mais difíceis para o ser humano moderno, que facilmente entrega a D-us momentos extraordinários, mas resiste em consagrar a rotina.

E então chegamos à Shelamim, a oferta de comunhão. Diferente das outras, ela culmina numa refeição compartilhada. Parte vai ao altar, parte aos sacerdotes, parte ao ofertante e sua família. Aqui não há correção de erro, mas celebração de uma relação restaurada. Shalom não significa apenas ausência de conflito, mas inteireza, harmonia, plenitude. A Shelamim é o ponto de chegada, não o ponto de partida. Comunhão verdadeira pressupõe ordem restaurada.

Essa progressão revela algo fundamental: a Bíblia nunca apresentou o sacrifício como um mecanismo mágico. Não se trata de apertar os botões certos para obter um resultado automático. Por isso, a Torá faz distinções cuidadosas entre tipos de pecado. Há pecados cometidos por fraqueza, outros por descuido, outros ainda de forma intencional, mas com arrependimento. E há o pecado chamado de “mão alta”: rebelião consciente, desafiante e persistente contra D-us. Para esse, não havia sacrifício.

Isso não significa que D-us fosse menos gracioso no Antigo Testamento. Significa, antes, que o sacrifício sempre pressupôs um coração disposto a retornar. Onde não há arrependimento, o ritual perde sentido. Nenhuma liturgia é capaz de substituir um coração que se recusa a se submeter.

Essa lógica prepara o terreno para o Novo Testamento. A obra de Cristo não surge como uma ruptura arbitrária, mas como o cumprimento pleno de tudo aquilo que o sistema sacrificial ensinava. Nele, vemos a purificação da consciência (Chatat), a reparação do dano causado pelo pecado humano (Asham), a entrega total ao Pai (ʿOlah), a santificação da vida inteira (Minḥah) e o estabelecimento da paz entre D-us e a humanidade (Shelamim).

Por isso, a cruz não é um “atalho barato”. Ela não elimina a seriedade do pecado; ela a aprofunda. Mas também não reduz a fé a medo ou barganha. O sacrifício, agora, é deslocado do altar para a existência. Não oferecemos mais animais, mas somos chamados a oferecer a nós mesmos, de forma consciente, responsável e grata.

O sacrifício hoje não é manipulação religiosa, nem moeda de troca com D-us. É a vida vivida à luz da graça: um coração que reconhece seus limites, repara o que pode ser reparado, submete sua vontade e aprende a transformar o cotidiano em adoração. Como sempre foi, D-us não busca cinzas no altar, mas verdade no íntimo.

Nesse sentido, os cinco sacrifícios do Antigo Testamento não são relíquias obsoletas. São espelhos. Eles nos perguntam, ainda hoje, se queremos apenas aliviar a culpa, ou se estamos dispostos, de fato, a nos aproximar.  

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.”

(Mateus 5:20)

Essa afirmação de Jesus pode parecer desconcertante, especialmente à primeira leitura. Os escribas e fariseus eram vistos como os mais zelosos cumpridores da Lei. Se nem eles seriam aceitos no reino dos céus, que esperança teriam os demais?

Será que Jesus está exigindo uma religiosidade ainda mais rigorosa? Mais regras? Mais perfeição moral?

Essa é uma interpretação comum, mas levanta sérias tensões com outros ensinamentos fundamentais do Novo Testamento, que afirmam que a salvação é pela graça, e não por mérito (Efésios 2:8-9).

Como, então, devemos entender essa declaração?

A resposta está na compreensão do significado original da palavra “justiça” e na expressão “reino dos céus”.

No hebraico bíblico, o termo tsedakah significava, de forma ampla, retidão, salvação e o agir fiel de D-us. Era um conceito associado não apenas à conduta humana, mas à própria intervenção salvadora de D-us em favor do seu povo.

Contudo, nos dias de Jesus, o significado de tsedakah passou a incluir também um sentido mais específico e prático: caridade ou generosidade para com os pobres. Entre os fariseus, três práticas eram vistas como pilares da vida piedosa: oração, jejum e generosidade. Dentre essas, a generosidade tornou-se, em muitos círculos, a mais importante, pois era considerada uma expressão tangível do relacionamento com D-us.

Assim, quando Jesus diz que nossa “justiça” deve exceder a dos escribas e fariseus, ele está utilizando um jogo de palavras que sua audiência entendia perfeitamente.

Em Mateus 5:20, Jesus parece usar os dois sentidos da palavra tsedakah de forma intencional:

“Porque vos digo que, se a vossa tsedakah (generosidade) não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus (tsedakah como salvação).”

Em outras palavras, Jesus está dizendo: Se vocês confiarem apenas na generosidade visível, na religiosidade exterior, como forma de obter aceitação diante de D-us, jamais entrarão no reino. A verdadeira justiça não nasce da performance, mas da confiança na salvação que vem do próprio Senhor.

Essa justiça que “excede” é aquela que vem da fé, e não das obras, como bem enfatizou o apóstolo Paulo:

“Porquanto, não conhecendo a justiça de D-us, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de D-us.”

(Romanos 10:3)

Outro elemento fundamental para compreender essa passagem é o que Jesus quer dizer por “reino dos céus”. Em Mateus, essa expressão é usada para designar o movimento iniciado por Jesus, composto por seus discípulos e seguidores, aqueles que vivem sob o reinado de D-us aqui e agora. Entrar no “reino dos céus”, portanto, não significa simplesmente “ir para o céu” após a morte, mas tornar-se parte do povo que vive sob os princípios e a autoridade do Messias.

Dessa forma, podemos parafrasear Mateus 5:20 da seguinte forma:

“Se a sua generosidade, se o seu modo de viver, não for mais profundo do que o exibido pelos fariseus, se não estiver fundamentado na confiança na salvação de D-us, vocês não poderão fazer parte do meu reino e experimentar a verdadeira justiça do Senhor.”Jesus não está pedindo mais religiosidade. Ele está convidando para um tipo completamente diferente de justiça: aquela que nasce da graça, se expressa na fé, e se manifesta em uma vida transformada.A justiça dos fariseus era visível, admirada, meticulosa, mas também era muitas vezes vazia de misericórdia e confiança real em D-us. Eles praticavam a tsedakah da generosidade, mas ignoravam a tsedakah que vem de D-us. A verdadeira justiça, segundo Jesus, é fruto de um coração rendido, humilde, que sabe que não pode se salvar, mas que é movido a amar e servir porque foi alcançado pela misericórdia divina. Essa mensagem continua relevante. Ainda hoje, é fácil cair na tentação de pensar que podemos “compensar” nossas falhas com boas obras, ou que merecemos o favor de D-us por sermos “bons cristãos”.

Mas o evangelho nos lembra: não somos salvos porque fazemos o bem. Fazemos o bem porque fomos salvos. A graça de D-us é o ponto de partida, e não a recompensa final. A justiça que excede é aquela que nasce do encontro com Jesus, que nos transforma de dentro para fora, e nos convida a confiar menos em nós mesmos e mais na bondade de D-us. Quando Jesus diz que nossa justiça deve exceder a dos fariseus, Ele não está propondo uma nova escada para o céu. Está nos chamando para descer do nosso orgulho, abandonar as aparências e confiar na justiça que só Ele pode nos dar.

Essa é a justiça que nos faz parte do reino. Essa é a justiça que salva. Essa é a justiça que transforma.

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Olho Bom Olho Mau

Olho Bom, Olho Mau

Entendendo as palavras difíceis de Jesus

Há palavras de Jesus que nos inquietam justamente porque parecem simples demais. Lemos, assentimos, seguimos adiante e só mais tarde percebemos que talvez não as tenhamos entendido de fato. O Sermão da Montanha é repleto desse tipo de afirmação: frases curtas, imagens cotidianas, mas carregadas de um peso moral que atravessa séculos.

Registrado em Mateus capítulos 5 a 7 e preservado de forma fragmentada em Lucas, o Sermão da Montanha não é um conjunto de ideais abstratos, nem um código ético inalcançável. Ele descreve como vive e como vê aquele que caminha sob o Reino de D-us. Trata-se menos de discursos espirituais elevados e mais de uma reeducação do olhar.

Ao lermos esse sermão, uma pergunta inevitável surge: será que ainda compreendemos o significado original das palavras de Jesus? A resposta, com toda honestidade, tende a ser negativa. Não por falta de fé, mas por causa da distância cultural e linguística que nos separa do texto.

O pensamento de Jesus foi concebido em hebraico, expresso em um ambiente judaico saturado das Escrituras, depois traduzido para o grego, passou pelo latim e, por fim, chegou às línguas modernas. Nesse longo percurso, especialmente as frases idiomáticas perderam parte de sua força original. Elas continuam corretas gramaticalmente, mas empobrecidas em significado.

Uma dessas expressões é a famosa declaração de Mateus 6:22–23:

“A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz;

se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso.

Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!”

Lida fora de seu contexto hebraico, essa passagem frequentemente é interpretada como algo místico, psicológico ou simbólico demais, como se Jesus estivesse falando de pensamentos positivos, percepção espiritual interior ou visão da alma. Contudo, nada disso estaria na mente de seus ouvintes originais.

Para um judeu do primeiro século, a expressão “olho bom” e “olho mau” não descrevia visão literal nem introspecção espiritual, mas sim uma postura moral diante da vida, especialmente em relação ao dinheiro, aos bens e ao próximo.

A chave para essa compreensão está no Tanakh, particularmente no livro de Provérbios, texto que os ouvintes de Jesus tinham profundamente internalizado.

“O que vê com bons olhos será abençoado, porque dá do seu pão ao pobre.”

(Provérbios 22:9)

Aqui, o “bom olho” é claramente associado à generosidade. Ver é agir. O olhar correto produz uma resposta correta.

O contraste aparece de forma igualmente clara:

“Não comas o pão daquele que tem o olhar maligno (olho mau), nem cobices as suas iguarias.”

(Provérbios 23:6)

E ainda:

“O que quer enriquecer depressa é homem de olho maligno (olho mau), mas não sabe que a pobreza há de vir sobre ele.”

(Provérbios 28:22)

O “olho mau” é a avareza, a mesquinhez, o desejo de reter para si mesmo. Não se trata de visão física, mas da disposição do coração. Até hoje, em hebraico moderno, chamar alguém de dono de um bom olho é elogiá-lo como alguém generoso; o olho mau permanece como sinônimo de egoísmo.

Com essa chave em mãos, o ensino de Jesus deixa de ser enigmático.

Observe a estrutura do texto em Mateus 6:

“Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.” (verso 21)

“A candeia do corpo são os olhos…” (versos 22 e 23)

“Ninguém pode servir a dois senhores… Não podeis servir a D-us e a Mamom.” (verso 24)

A passagem do olho bom e do olho mau está exatamente no centro. Ela não é um pensamento solto, mas a ponte que conecta tudo. Jesus começa falando do tesouro, termina falando de senhores, e no meio revela o critério moral que governa ambos.

O assunto é claro: nossa relação com o dinheiro, com os bens materiais e com o próximo.

A luz que ilumina todo o corpo não é conhecimento, nem espiritualidade abstrata. É a generosidade. As trevas que consomem o interior não são ignorância, mas a avareza disfarçada de prudência, sucesso ou até bênção.

E aqui Jesus oferece um contraste radical com a mentalidade moderna e com muitas pregações contemporâneas centradas na prosperidade individual. Ele não ensina que a bênção material é um fim em si mesma, mas que ela cria um dever social. Ser abençoado é tornar-se responsável.

O Reino de D-us, segundo Jesus, não gira em torno do ter, mas do dar. Não se mede pelo acúmulo, mas pela liberdade em repartir. Não se manifesta pelo discurso, mas pelo olhar treinado para enxergar o outro.

No fim, o olho bom é um diagnóstico espiritual simples e implacável. Ele revela a quem servimos, onde está nosso coração e que tipo de luz realmente habita em nós.

E se a luz que julgamos possuir produz trevas ao nosso redor, então, como o próprio Jesus advertiu, quão grandes são essas trevas.

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Escolhidos para Dar Fruto

Escolhidos para Dar Fruto

Eleição, Amor e o Deus que Escolhe para Incluir

Há algo silenciosamente perturbador nas palavras de Jesus: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi.” Elas nos incomodam porque, quase instintivamente, as escutamos com ouvidos modernos, e em grande parte, gregos. Na nossa forma habitual de pensar, escolher uma coisa significa rejeitar outra. Se escolho A, automaticamente excluo B e C. Escolher implica estreitamento, preferência implica perda, e eleição sugere exclusão. Trata-se de uma lógica limpa, racional, coerente, profundamente enraizada no pensamento ocidental e na maneira como fomos treinados a organizar o mundo.

Mas Jesus não falava como um filósofo grego. Ele falava como um judeu, de dentro das Escrituras de Israel. E no mundo hebraico, a ideia de escolha funciona de modo radicalmente diferente. Enquanto a mente grega tende a pensar em termos de ou/ou, definindo com precisão ao cortar alternativas, como Platão ao escolher a verdade em detrimento da ilusão, ou Aristóteles ao escolher a razão contra o caos, a mente hebraica pensa em termos de propósito e direção, não de abstração. Escolher, nesse horizonte, não é primeiramente excluir, mas designar para uma missão.

Quando Deus escolhe, Ele não estreita o círculo, Ele cria um canal. Essa diferença não é meramente estética ou conceitual. Ela altera profundamente a forma como lemos praticamente tudo o que Jesus diz, especialmente quando Ele afirma: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi.” Se ouvirmos essa frase com pressupostos gregos, é fácil concluir que alguns são escolhidos enquanto outros são rejeitados. Contudo, não é assim que a eleição opera nas Escrituras hebraicas.

Quando Deus escolheu Abraão, não o fez para abandonar o restante da humanidade. Pelo contrário, Abraão foi escolhido para que todas as famílias da terra fossem abençoadas por meio dele. Da mesma forma, Israel não foi escolhido como um tesouro privado de Deus, trancado longe das nações, mas como um povo sacerdotal, colocado no meio delas. A Lei dada no Sinai jamais imaginou Israel como uma elite espiritual isolada do mundo. Israel deveria ser luz, testemunha, um sinal vivo apontando para fora. Em outras palavras, Deus escolheu A precisamente para alcançar B e C. Trata-se de eleição pactual, não de seleção filosófica.

Quando Jesus pronuncia essas palavras em João 15, Ele não está inventando uma nova doutrina da eleição. Ele está recentrando o antigo chamado de Israel em Si mesmo. Os discípulos que O escutam são judeus que conhecem bem as Escrituras. Eles sabem que Israel é a videira escolhida de Deus e também conhecem o diagnóstico doloroso dos profetas, muitas vezes essa videira falhou em dar fruto. Por isso, quando Jesus se apresenta como a videira verdadeira, Ele não está rejeitando Israel, mas cumprindo Israel. A escolha continua, porém a fonte da vida agora está claramente definida.

“Eu vos escolhi”, Ele diz, não para vos tirar do mundo, mas para vos enviar ao mundo. “Eu vos designei para que vades e deis fruto.” Na imaginação hebraica, os escolhidos não são protegidos em estufas espirituais, eles são enviados. E o fruto ao qual Jesus se refere não é qualquer fruto. A cultura grega admirava brilho, velocidade e conquistas visíveis, enquanto as Escrituras hebraicas medem o sucesso pela fidelidade ao longo do tempo. É por isso que Jesus não fala de frutos impressionantes, mas de frutos que permanecem.

Os Salmos comparam o justo a uma árvore plantada junto a ribeiros de águas, que dá o seu fruto no tempo certo. A ênfase não está na produtividade constante, mas na perseverança. O que permanece importa mais do que o que impressiona. E esse fruto duradouro costuma parecer perigosamente comum: obediência praticada quando ninguém está olhando, amor sustentado quando é inconveniente, fidelidade preservada sob pressão. Não é o fruto da ambição, mas o fruto de permanecer.

Por isso, quando Jesus afirma: “Estas coisas vos mando, para que vos ameis uns aos outros”, Ele faz algo profundamente judaico. Ele reúne a Lei, não a abolindo nem a substituindo, mas destilando-a. Na Torá, o amor nunca é sentimental. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” não surge em poesia, mas em textos legais, entrelaçado a mandamentos sobre honestidade, justiça e cuidado com os vulneráveis. O amor é a aparência da Lei quando ela está viva. Jesus se posiciona firmemente nessa tradição, mas a aprofunda, fazendo de Si mesmo o ponto de referência. Amar como Ele ama não é sentir algo agradável, mas agir de modo pactual, permanecer fiel quando ir embora seria mais fácil. E a lógica é clara: o amor não é a recompensa por dar fruto, o amor é o fruto.

O mesmo princípio aparece na oração. Quando Jesus diz: “Para que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo conceda”, mais uma vez ouvidos gregos escutam uma técnica, enquanto ouvidos hebraicos escutam alinhamento. Pedir em nome de alguém não é acrescentar uma fórmula verbal, mas pedir como representante, dentro da autoridade, do caráter e do propósito daquele nome. No pensamento judaico, o nome expressa identidade, intenção e vocação. À medida que os discípulos vivem seu chamado, escolhidos para ir, designados para dar fruto, seus próprios desejos são transformados. A oração deixa de ser uma tentativa de persuadir Deus e passa a ser participação no que Deus já está fazendo.

Aqui está o centro de tudo: na mente grega, escolher elimina; na mente hebraica, escolher mobiliza. Deus escolheu Israel para que as nações não fossem esquecidas. Jesus escolheu Seus discípulos para que o mundo não fosse abandonado. A eleição não é um muro. É uma porta.

Para nós, discípulos modernos, isso tem consequências profundas. Muitos vivem presos entre ansiedade e orgulho, ansiedade perguntando-se se foram realmente escolhidos, orgulho imaginando que ser escolhido os torna superiores. Jesus desmonta ambos. Você é escolhido antes de agir, portanto não pode se gloriar. Você é escolhido para agir, portanto não pode se omitir. A vida cotidiana se torna sagrada não porque seja impressionante, mas porque é enviada. Amor, obediência e oração não são virtudes privadas; são os meios pelos quais Deus continua Seu propósito de alcançar o mundo.

No fim, a pergunta não é se o amor de Deus é exclusivo. A pergunta é se aqueles que foram escolhidos se lembrarão por que foram escolhidos. “Não fostes vós que me escolhestes”, diz Jesus, “mas fui eu que vos escolhi.” Não para fechar o círculo. Mas para abri-lo.

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Uma alianca eterna

Uma aliança eterna 

Há uma ideia curiosa, e perigosamente confortável, que muitos de nós carregamos sem jamais examiná-la com cuidado: a de que D-us ama enquanto somos razoavelmente fiéis, mas que, diante de falhas persistentes, Ele simplesmente se afasta. Não dizemos isso em voz alta; dizemos com o coração. Quando tropeçamos repetidas vezes, quando nossas orações se tornam mecânicas, quando a fé parece cansada, imaginamos que D-us, sendo perfeitamente justo, deve estar igualmente cansado de nós.

Essa ideia parece sensata porque é profundamente humana. Nós desistimos. Nós nos afastamos. Nós encerramos relações quando elas passam a custar demais. O erro começa quando supomos que D-us opera segundo a mesma lógica.

A Bíblia, no entanto, apresenta um D-us cuja fidelidade é tão radical que frequentemente nos constrange. Se quisermos entender esse ponto, precisamos abandonar abstrações e olhar para a história concreta. Poucos textos fazem isso de forma tão incisiva quanto o livro do profeta Book of Hosea. Ali, D-us não se limita a explicar Sua relação com Israel; Ele a encena. Ordena ao profeta que se case com uma mulher que será infiel. Não para romantizar a traição, mas para que o próprio profeta experimente o peso de amar alguém que não corresponde.

É difícil imaginar uma pedagogia mais desconcertante. D-us não escolhe uma metáfora elegante, mas uma vida marcada por dor real. O adultério de Gômer não é suavizado, assim como o pecado de Israel não é desculpado. Ainda assim, e aqui está o ponto decisivo, D-us não rompe a aliança. Ele se apresenta não como um juiz que cancela o contrato, mas como um marido ferido que se recusa a abandonar o vínculo.

Quando D-us diz: “Desposar-te-ei comigo para sempre” (Os 2:19), A expressão “para sempre” (לְעוֹלָם, le‘olam) não admite leitura provisória. A fidelidade Divina é apresentada como intrínseca ao próprio pacto, não como uma resposta condicional ao comportamento humano. Ele não está oferecendo uma promessa poética sujeita a revisão futura. Está afirmando algo sobre Si mesmo. O amor divino, em Oséias, não é uma reação ao bom comportamento humano; é uma decisão enraizada no caráter de D-us. Israel falha, repetidas vezes, mas a fidelidade divina não é colocada em votação.

Aqui somos forçados a distinguir duas coisas que frequentemente confundimos: contrato e aliança. Um contrato existe enquanto ambas as partes cumprem suas cláusulas. Uma aliança bíblica existe porque D-us decidiu permanecer fiel, mesmo quando a outra parte falha. Israel quebra sua parte do acordo; D-us, porém, não declara o pacto encerrado. Ele corrige, disciplina, afasta temporariamente, mas sempre com vistas à restauração. A própria Torá (Lei) já antecipava isso ao afirmar que, mesmo no exílio, D-us não rejeitaria Seu povo nem quebraria Sua aliança, “porque Eu sou o Senhor, vosso D-us” (Lv 26:44–45). Observe a lógica: a razão da fidelidade divina não está em Israel, mas em D-us.

É aqui que surge a pergunta que muitos evitam formular, talvez por medo de sua resposta. Se D-us tivesse abandonado Israel por causa de sua infidelidade, por que não faria o mesmo conosco? Se a repetição do pecado é suficiente para anular uma aliança, então nenhuma promessa divina é segura. A fé cristã se tornaria uma espécie de aposta espiritual, sustentada enquanto mantivermos um desempenho aceitável.

Paulo trata essa questão de forma direta e decisiva em Romanos 9–11, porque ela testa o próprio caráter de D-us e, portanto, a confiabilidade do evangelho. Em Romanos 11:1 ele formula a pergunta sem ambiguidades: “Teria D-us rejeitado o seu povo?” e responde: “De modo nenhum!” A expressão grega mē genoito é a negação mais enfática do Novo Testamento; não é um consolo pastoral vago, mas um princípio teológico: a hipótese de D-us ter abandonado Israel é inadmissível para a fé bíblica.

Mais adiante, Paulo fundamenta essa certeza em Romanos 11:29: “os dons e a vocação de D-us são irrevogáveis”. Esse versículo, no contexto, não se refere primariamente à Igreja, mas a Israel e à fidelidade de D-us às promessas históricas feitas aos patriarcas. O ponto de Paulo é que a permanência da aliança não depende da fidelidade de Israel, mas da fidelidade divina; não é recompensa por mérito humano, mas consequência do caráter imutável do D-us que promete e não volta atrás.

E isso não ameaça o evangelho, é exatamente o que o torna confiável para os gentios, eu e você. Se D-us pudesse revogar Sua promessa a Israel por causa da infidelidade humana, então o chamado cristão também estaria sujeito à revogação quando nós falhamos. Mas o Novo Testamento não permite essa conclusão: Paulo insiste que D-us não rejeitou Seu povo (Rm 11:1) justamente porque um D-us que desfaz Suas promessas diante da infidelidade não seria digno de confiança. Portanto, a continuidade da aliança com Israel funciona como garantia teológica de que o evangelho repousa na fidelidade de D-us, e não na constância humana.

A distinção entre disciplina e abandono também se torna crucial nesse ponto. Em Oséias, o deserto não é o lugar do esquecimento divino, mas o cenário do reencontro. D-us afasta para curar, não para descartar. O Novo Testamento retoma essa lógica ao afirmar que “o Senhor corrige a quem ama” (Hb 12:6). A correção é prova de relacionamento; o abandono seria a verdadeira condenação. Um D-us que ainda disciplina é um D-us que ainda se importa.

Essa coerência atravessa toda a Escritura. O mesmo D-us que permanece fiel a Israel é o D-us que, em Cristo, confirma Suas promessas. Paulo afirma que Jesus veio “por causa da fidelidade de D-us, para confirmar as promessas feitas aos patriarcas” (Rm 15:8). Cristo não aparece como o cancelador da antiga aliança, mas como sua revelação mais profunda. Aquilo que Oséias descreveu em termos conjugais, o evangelho revela em termos sacrificialmente concretos. Na cruz, D-us não abandona os infiéis; Ele assume o custo da infidelidade.

Negar a permanência da aliança com Israel pode parecer, à primeira vista, uma forma de exaltar a Igreja. Mas, na prática, enfraquece o próprio fundamento da fé cristã. Um D-us que descarta um povo por fracasso moral não oferece segurança alguma a outros povos igualmente falhos. A esperança cristã repousa precisamente no fato de que D-us não é como nós. Ele permanece quando falhamos, chama quando nos afastamos e restaura quando nos arrependemos.

A pergunta final, portanto, não é apenas teológica, mas existencial. Em que tipo de D-us estamos confiando? Em um que ama enquanto vale a pena, ou em um cuja fidelidade não depende do nosso desempenho? A Bíblia responde de forma consistente, do profeta Oséias ao apóstolo Paulo: confiamos em um D-us cuja fidelidade é unilateral, cuja aliança não é revogada e cujo amor não desiste. É essa fidelidade que sustenta Israel, que fundamenta a Igreja e que, em última instância, torna a fé cristã algo mais do que uma esperança frágil. É essa fidelidade que nos permite crer.

Adivalter Sfalsin

A Question of Perspective

A Question of Perspective

When we open the Bible, we often do not realise that we are entering a world that thinks in a very different way from our own. It is not merely a matter of language or ancient customs, but something deeper: a distinct way of seeing reality, the human being, and G-d Himself. Throughout the Scriptures, two great civilisations meet and, at times, come into tension. On one side stands the Greco-Roman heritage, so familiar to Western thought. On the other, the Hebrew worldview, which shapes the very language of the Bible.

The Greco-Roman tradition tends to look at the world through contemplation of form, beauty, harmony, and abstract qualities. The Greek ideal seeks to understand reality through categories, concepts, and attributes. Hebrew thought, by contrast, does not begin with ideas, but with life. It observes the world as something lived, experienced, and shaped by action. For the Hebrew mind, truth is not merely something to be defined, but something to be practised.

This difference also appears in the way each culture approaches study. For the Greeks, studying meant accumulating knowledge, organising ideas, and achieving intellectual understanding. For the Hebrews, studying was an act of reverence — a way of learning how to live before G-d. Knowledge did not have contemplation as its ultimate goal, but obedience. One learns in order to live rightly.

It is within this environment that the writers of the New Testament emerge. Although they wrote predominantly in Greek, they thought like Jews. Their mental categories were Hebrew. Their references were the Tanakh. They were not creating a new story disconnected from the previous one, but continuing the same narrative, now in the light of the revelation of the Messiah. Ignoring this is like trying to understand a musical piece by observing only its final notes, without knowing the theme that has sustained it from the beginning.

This tension between perspectives continues to influence us today, especially in the way we speak about G-d. We are often taught to describe Him through attributes. We say that G-d is omnipotent, omniscient, eternal, immutable. We also say that He is love, justice, mercy, holiness. These descriptions are not false. The problem arises when we imagine that they exhaust the way G-d reveals Himself.

Systematic theology organises these attributes with great precision, but it begins with a human question: how can we define G-d? The Bible, however, seems to begin with a different question: how does G-d act in history and in the lives of people? The difference is subtle, but decisive.

Greek thought prefers adjectives. Hebrew thought prefers verbs. The Greek asks what something is like. The Hebrew asks what something does. Imagine a sunny day. The Greek would describe it as beautiful, bright, pleasant. The Hebrew would describe it as that which warms the skin, lights the path, and makes the land produce. One looks at the quality of the sun. The other looks at the effect of the sun.

When we observe how G-d speaks about Himself in the Scriptures, this pattern becomes evident. He rarely presents Himself through abstract definitions. He presents Himself through what He has done and continues to do. “I am the Lord your G-d, who brought you out of the land of Egypt.” This is not a philosophical definition, but a historical act. “I kill and I make alive.” “I wound and I heal.” “I made the sea and the dry land.” “I am the Lord who sanctifies you.” “I stir up the sea.” “I speak.” “I protect the foreigner and sustain the orphan and the widow.”

G-d does not merely say who He is. He shows who He is through actions. Even when attributes appear, they are never detached from practice. His justice is manifested in doing justice. His mercy in caring. His holiness in separating, ordering, and restoring.

This leads us to an inevitable question: how do we relate to a G-d like this? If G-d were merely a collection of perfect attributes, our relationship with Him would be limited to distant admiration. We cannot imitate omnipotence. We cannot reproduce eternity. But if G-d reveals Himself through actions, then He invites us to imitate Him within the limits of our human condition.

This is where many people stumble over the word holiness. When they read “be holy”, they automatically understand absolute perfection — something unattainable, something that distances rather than draws near. Yet in biblical Hebrew, holiness does not begin as an adjective, but as a verb. Qadash means to separate for a purpose. Holiness is not first about what someone is, but about what someone does with their life.

Suddenly, the call changes tone. G-d is not demanding that we be flawless. He is inviting us to align our lives with His purpose — to separate ourselves from moral chaos in order to participate in the order He establishes in the world.

It is true that we cannot repeat G-d’s great cosmic acts. We cannot free an entire people from slavery, nor divide seas. But we can act as He acts within the reach of our own hands. We can do justice to the orphan and the widow. We can love the foreigner. We can give bread to the hungry and dignity to those who have been forgotten. We can live honestly, speak the truth, be faithful, reject violence, cultivate humility, and guard our tongues from evil.

This is precisely what Scripture affirms when it summarises G-d’s will in a way that is both simple and profound: to act justly, to love kindness, and to walk humbly with your G-d. What G-d does, He calls us to reflect. What He practises, He invites us to practise.

James introduces nothing new when he says that pure religion consists in caring for orphans and widows. He is merely echoing the ancient voice of the Torah. Biblical faith has never been an escape from the world, but a commitment to its restoration.

Our greatest challenge, therefore, is not learning new concepts, but unlearning certain lenses. We must resist the temptation to impose upon the Bible a worldview it does not assume. When we allow the text to speak from within its own logic, we discover that G-d does not call us to abstract perfection, but to concrete faithfulness. And when that faithfulness becomes practice, G-d ceases to be merely an object of belief and becomes recognised as a living presence acting through our actions.

Adivalter Sfalsin

Uma questão de perspectiva

Uma questão de perspectiva

Quando abrimos a Bíblia, muitas vezes não percebemos que estamos entrando em um mundo que pensa de maneira muito diferente da nossa. Não se trata apenas de língua ou de costumes antigos, mas de algo mais profundo: uma forma distinta de enxergar a realidade, o ser humano e o próprio D-us. Ao longo das Escrituras, duas grandes civilizações se encontram e, por vezes, entram em tensão. De um lado está a herança grego-romana, tão familiar ao pensamento ocidental. Do outro, a visão hebraica, que molda a própria linguagem da Bíblia.

A tradição grego-romana tende a olhar o mundo a partir da contemplação da forma, da beleza, da harmonia e das qualidades abstratas. O ideal grego busca compreender a realidade por meio de categorias, conceitos e atributos. O pensamento hebraico, em contraste, não começa com ideias, mas com vida. Ele observa o mundo como algo vivido, experimentado e atravessado pela ação. Para o hebreu, a verdade não é apenas algo que se define, mas algo que se pratica.

Essa diferença aparece também na forma como cada cultura encara o estudo. Para os gregos, estudar era acumular conhecimento, ordenar ideias e alcançar compreensão intelectual. Para os hebreus, estudar era um ato de reverência, uma maneira de aprender a viver diante de D-us. O conhecimento não tinha como fim a contemplação, mas a obediência. Aprende-se para viver corretamente.

É nesse ambiente que surgem os escritores do Novo Testamento. Embora escrevam majoritariamente em grego, eles pensam como judeus. Suas categorias mentais são hebraicas. Suas referências são o Tanakh. Eles não estão criando uma nova história desconectada da anterior, mas continuando a mesma narrativa, agora à luz da revelação do Messias. Ignorar isso é como tentar compreender uma peça musical observando apenas as notas finais, sem conhecer o tema que a sustenta desde o início.

Essa tensão entre perspectivas continua a nos influenciar até hoje, especialmente na forma como falamos sobre D-us. Somos frequentemente ensinados a descrevê-lo por meio de atributos. Dizemos que D-us é onipotente, onisciente, eterno, imutável. Dizemos também que Ele é amor, justiça, misericórdia, santidade. Essas descrições não são falsas. O problema surge quando imaginamos que elas esgotam a maneira como D-us se revela.

A teologia sistemática organiza esses atributos com grande precisão, mas ela parte de uma pergunta humana: como podemos definir D-us? A Bíblia, no entanto, parece partir de outra pergunta: como D-us age na história e na vida das pessoas? A diferença é sutil, mas decisiva.

O pensamento grego prefere adjetivos. O hebraico prefere verbos. O grego pergunta como algo é. O hebraico pergunta o que algo faz. Imagine um dia ensolarado. O grego o descreve como belo, luminoso, agradável. O hebreu o descreve como aquilo que aquece a pele, ilumina o caminho e faz a terra produzir. Um olha para a qualidade do sol. O outro para o efeito do sol.

Quando observamos como D-us fala de Si mesmo nas Escrituras, esse padrão se torna evidente. Ele raramente se apresenta com definições abstratas. Ele se apresenta por aquilo que fez e continua fazendo. “Eu sou o Senhor vosso D-us, que vos tirei da terra do Egito.” Não é uma definição filosófica, mas um ato histórico. “Eu mato e faço viver.” “Eu firo e eu saro.” “Eu fiz o mar e a terra seca.” “Eu sou o Senhor que vos santifica.” “Eu agito o mar.” “Eu falo.” “Eu guardo o estrangeiro e sustento o órfão e a viúva.”

D-us não diz apenas quem Ele é. Ele mostra quem Ele é por meio de ações. Mesmo quando atributos aparecem, eles nunca estão desligados da prática. Sua justiça se manifesta em fazer justiça. Sua misericórdia em cuidar. Sua santidade em separar, ordenar e restaurar.

Isso nos leva a uma pergunta inevitável. Como nos relacionamos com um D-us assim? Se D-us fosse apenas um conjunto de atributos perfeitos, nossa relação com Ele seria limitada à admiração distante. Não podemos imitar a onipotência. Não podemos reproduzir a eternidade. Mas se D-us se revela por meio de ações, então Ele nos convida a imitá-lo dentro dos limites da nossa condição humana.

É aqui que muitos tropeçam na palavra santidade. Quando leem “sede santos”, entendem automaticamente perfeição absoluta. Algo inalcançável. Algo que afasta em vez de aproximar. No entanto, no hebraico bíblico, santidade não começa como um adjetivo, mas como um verbo. Qadash significa separar para um propósito. Santidade não é primeiro o que alguém é, mas o que alguém faz com sua vida.

De repente, o chamado muda de tom. D-us não está exigindo que sejamos impecáveis. Ele está nos convidando a alinhar nossa vida com Seu propósito. A nos separar do caos moral para participar da ordem que Ele estabelece no mundo.

É verdade que não podemos repetir os grandes atos cósmicos de D-us. Não podemos libertar um povo inteiro da escravidão nem dividir mares. Mas podemos agir como Ele age dentro do alcance das nossas mãos. Podemos fazer justiça ao órfão e à viúva. Podemos amar o estrangeiro. Podemos dar pão a quem tem fome e dignidade a quem foi esquecido. Podemos viver honestamente, falar a verdade, ser fiéis, rejeitar a violência, cultivar a humildade e guardar a língua do mal.

É exatamente isso que a Escritura afirma quando resume a vontade de D-us de forma tão simples quanto profunda: praticar a justiça, amar a bondade e andar humildemente com o teu D-us. O que D-us faz, Ele nos chama a refletir. O que Ele pratica, Ele nos convida a praticar.

Tiago não inventa nada novo quando diz que a religião pura consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas. Ele apenas ecoa a voz antiga da Torá. A fé bíblica nunca foi uma fuga do mundo, mas um compromisso com sua restauração.

Nosso maior desafio, portanto, não é aprender novos conceitos, mas desaprender certas lentes. Precisamos resistir à tentação de impor à Bíblia uma cosmovisão que ela não assume. Quando permitimos que o texto fale a partir de sua própria lógica, descobrimos que D-us não nos chama para uma perfeição abstrata, mas para uma fidelidade concreta. E quando essa fidelidade se torna prática, D-us deixa de ser apenas objeto de crença e passa a ser reconhecido como presença viva atuando por meio das nossas ações.

Adivalter Sfalsin

Redeemed Shards

Redeemed Shards

Today I turn fifty five. Not as someone merely adding dates to a calendar, but as one who has reached a point on the road from which the journey behind can be seen with clarity and gratitude. Time does not give us all the answers, but it offers something perhaps more precious: perspective. And with it, the ability to recognise the faithfulness of D us not only in moments of celebration, but especially in ordinary, difficult and even contradictory days. Looking back, I can say with calm joy and without romanticising pain: the Lord has been my Shepherd. And even when everything seemed to be lacking, He always been there for me.

There is a persistent and mistaken idea that faith exists to shield us from life. As if trusting D us were an insurance policy against emotional fractures, irreversible loss and unanswered questions. Experience teaches exactly the opposite. Faith does not prevent us from falling. It prevents us from remaining on the ground. It does not remove the impact, but it gives something far better: resilience, meaning and a joy that does not depend on the absence of trouble.

I learned this when I received the news that radically changed the way I believed. My first daughter had been diagnosed with an irreversible condition, with no possible human solution. In that moment, it was not only the future that became uncertain. It was my theology. What I had built over decades with care, coherence and conviction proved too fragile to carry the weight of reality. Well organised doctrines, ready answers and elegant explanations shattered like a stained glass window struck by an unexpected stone.

And here the first paradox appears. It was not D us who failed. It was the simplified image of Him that I carried. When theology broke, presence remained. I discovered that D us never promised to preserve our systems intact, but He did promise to walk with us when they collapse. The joy of the Lord began precisely there. Not as excitement, but as strength. Not as constant laughter, but as daily sustenance.

For five years I lived a silence I did not choose. A silence that did not explain, did not solve, did not answer. But it did not abandon either. During that time I lost the ability to pray as I once had. Long prayers disappeared. Carefully constructed phrases became useless. All that remained was a short prayer, repeated and almost childlike: give me strength to continue. No introduction. No justification. No amen. Strangely enough, I had never prayed so little and never been so sustained.

This is another deeply liberating paradox. D us does not require sophisticated prayers in order to act. He is not moved by eloquence, but by honesty. He hears the inarticulate groan with the same attention as a beautifully crafted psalm. The joy of the Lord does not grow out of spiritual perfection, but out of real dependence.

It was in this valley that Psalm Twenty Three ceased to be decorative poetry and became an exact description of life. Even though I walk through the valley of the shadow of death. The text does not say if I enter, but when I walk. The valley is not an exception. It is part of the path. The promise is not that it will be avoided, but that it will not be crossed alone. Biblical joy is not the denial of suffering. It is the refusal to allow suffering the final word.

I thought of Joseph, sold into slavery by his own brothers at seventeen. Thirteen long years passed before he was raised at thirty as governor of Egypt. Thirteen years of betrayal, unjust imprisonment and adversity. Thirteen years without visions, without voices, without signs that anything would change. I also remembered Abraham, who waited thirteen years in divine silence between promise and fulfilment, living with the tension between what D us had spoken and what his eyes could see. These silences were not empty. They were preludes to something extraordinary. These men did not live a naive faith, but a robust one, capable of coexisting with silence without becoming cynical.

Chesterton once said that Christian joy is scandalous because it insists on existing even when everything conspires against it. It is not superficial joy, but profoundly realistic joy. It looks chaos in the face and still chooses to trust. This is not escapism. It is spiritual courage.

When my theology shattered, I noticed something surprising. The shards reflected more light than the intact window ever had. Because my trust was no longer placed in the coherence of my ideas, but in His faithfulness. The joy of the Lord began to show itself as everyday strength. Not the strength to resolve everything at once, but the strength sufficient for the next step. And then another. And then another.

The Lord is my Shepherd, I shall not be in want. This phrase, so often repeated, is frequently misunderstood. In Hebrew, the expression used is Adonai roi lo echsar. The key word is echsar, from the root chaser, meaning to be lacking, to be deficient, to be without what is essential. It is not a promise of unrestricted abundance or a life without pain. Its meaning is far deeper. I will not be in essential lack. Nothing truly necessary to fulfil the purpose of D us will be denied to me.

This changes everything. During those years, many things were missing. Answers were missing. Healing was missing. Understanding was missing. But the essential was never missing. Presence was not missing. Sustenance was not missing. Grace was not missing. The joy of the Lord as daily strength was not missing. This joy does not eliminate weariness, but it makes it bearable. It does not remove pain, but it prevents it from destroying us.

Today, at fifty five, I recognise that there is powerful testimony in the valley. Not only in achievements, but in days when everything seemed broken. It is there that we learn who D us truly is, not merely who we imagined Him to be. Sometimes He leads us to green pastures. At other times, He walks with us through the valley. At no point does He withdraw.

The true joy of walking with D us is not found in the absence of problems, but in the certainty of His presence. It is not found in never breaking, but in discovering that even shards can be redeemed. D us does not waste pain. He transforms it. He does not promise an easy life, but a meaningful one. And meaning is extraordinarily powerful. It turns weight into depth and suffering into maturity.

If you are walking through your own valley now, know this: you are not alone. It is all right not to be all right. It is all right if your prayer is short. It is all right if some days are filled with laughter and others only with endurance. The joy of the Lord is not fragile. It is firm, resilient and persistent. It refuses to be defeated by circumstances.

Today I celebrate fifty five years with genuine gratitude. Not because everything was easy, but because everything was sustained. Not because I never broke, but because I discovered that even shards can be redeemed. The Shepherd remains present. And that is enough. It has always been enough.

Divine silence is not the end of the story. It is simply the necessary pause before a deeper music.

Adivalter Sfalsin

Cacos Redimidos

Cacos Redimidos

Hoje completo 55 anos. Não como quem apenas soma datas, mas como quem chega a um ponto da estrada de onde é possível enxergar o caminho percorrido com clareza e gratidão. O tempo não nos dá todas as respostas, mas nos oferece algo talvez mais precioso: perspectiva. E, com ela, a capacidade de reconhecer a fidelidade de D-us não apenas nos momentos de celebração, mas principalmente nos dias comuns, difíceis e até contraditórios. Ao olhar para trás, posso afirmar com alegria serena e sem romantizar a dor: o Senhor tem sido meu Pastor. E mesmo quando tudo parecia faltar, Ele nunca faltou.

Existe uma ideia persistente, e equivocada, de que a fé serve para nos blindar da vida. Como se confiar em D-us fosse um seguro contra fraturas emocionais, perdas irreversíveis e perguntas sem resposta. A experiência, no entanto, ensina exatamente o oposto. A fé não nos impede de cair; ela nos impede de permanecer no chão. Não elimina os impactos, mas nos dá algo melhor: resiliência, sentido e uma alegria que não depende da ausência de problemas.

Foi isso que aprendi quando recebi a notícia que mudou radicalmente minha maneira de crer. Minha primeira filha havia sido diagnosticada com uma condição irreversível, sem solução humana possível. Naquele momento, não foi apenas o futuro que ficou nebuloso. Foi a minha teologia. Aquilo que eu havia construído ao longo de décadas, com cuidado, coerência e convicção, mostrou-se frágil demais para sustentar o peso da realidade. Doutrinas bem organizadas, respostas prontas e explicações elegantes se despedaçaram como um vitral atingido por uma pedra inesperada.

E aqui surge o primeiro paradoxo: não foi D-us quem falhou. Foi a imagem simplificada que eu tinha d’Ele. Quando a teologia se quebrou, a presença permaneceu. Descobri que D-us não prometeu preservar nossos sistemas intactos, mas prometeu caminhar conosco quando eles ruem. A alegria do Senhor começou exatamente ali, não como euforia, mas como força. Não como riso constante, mas como sustentação diária.

Durante cinco anos vivi um silêncio que não escolhi. Um silêncio que não explicava, não resolvia, não respondia. Mas também não abandonava. Foi nesse período que perdi a capacidade de orar como antes. As palavras longas desapareceram. As frases elaboradas se tornaram inúteis. Restou apenas uma oração curta, repetida, quase infantil: “Me dê forças para continuar.” Sem introdução, sem justificativa, sem amém. Curiosamente, nunca orei tão pouco e nunca fui tão sustentado.

Esse é outro paradoxo profundamente libertador: D-us não exige orações sofisticadas para agir. Ele não se move pela eloquência, mas pela honestidade. Ele ouve o gemido inarticulado com a mesma atenção que ouve um salmo bem composto. A alegria do Senhor não nasce da perfeição espiritual, mas da dependência real.

Foi nesse vale que o Salmo 23 deixou de ser poesia decorativa e se tornou descrição exata da vida. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte…” O texto não diz “se eu entrar”, mas “quando eu andar”. O vale não é exceção, é parte do caminho. A promessa não é que ele será evitado, mas que não será atravessado sozinho. A alegria bíblica não é a negação do sofrimento; é a recusa em permitir que ele tenha a palavra final.

Pensei em José, vendido como escravo pelos próprios irmãos aos 17 anos. Treze longos anos se passaram antes que ele fosse exaltado aos 30 como governador do Egito. Treze anos de traição, prisão injusta e adversidade. Treze anos sem visões, sem vozes, sem sinais de que algo mudaria. Me lembrei de Abraão, que esperou treze anos no silêncio Divino entre a promessa e seu cumprimento, vivendo a tensão entre o que D-us havia dito e o que seus olhos viam.

Esses silêncios não foram vazios. Eram prelúdios de algo extraordinário. Esses homens não viveram uma fé ingênua, mas uma fé robusta, capaz de coexistir com o silêncio sem se tornar cínica.

Chesterton dizia que a alegria cristã é escandalosa porque insiste em existir mesmo quando tudo conspira contra ela. Não é alegria superficial, mas uma alegria profundamente realista. Ela olha o caos de frente e ainda assim escolhe confiar. Isso não é alienação; é coragem espiritual.

Quando minha teologia se despedaçou, percebi algo surpreendente: os cacos refletiam mais luz do que o vitral intacto. Porque agora minha confiança não estava mais na coerência das minhas ideias, mas na fidelidade d’Ele. A alegria do Senhor começou a se manifestar como força cotidiana. Não a força para resolver tudo de uma vez, mas a força suficiente para o próximo passo. E depois outro. E depois outro.

“O Senhor é meu pastor, nada me faltará.” Essa frase, tão repetida, muitas vezes é mal compreendida. No hebraico, a expressão usada é “יְהוָה רֹעִי לֹא אֶחְסָר” (Adonai ro’i, lo echsar). A palavra-chave aqui é “אֶחְסָר” (echsar), derivada da raiz חָסֵר (chaser), que significa “estar em falta”, “carecer do essencial”, “ficar incompleto”. Não se trata de abundância irrestrita ou de uma promessa de vida sem dor. O sentido é muito mais profundo: não estarei em estado de falta essencial. Nada que seja realmente necessário para cumprir o propósito de D-us me será negado.

Isso muda tudo. Durante aqueles anos, muitas coisas faltaram. Faltaram respostas. Faltou cura. Faltou compreensão. Mas o essencial nunca faltou. Não faltou presença. Não faltou sustento. Não faltou graça. Não faltou a alegria do Senhor como força diária. Essa alegria não elimina o cansaço, mas o torna suportável. Não remove a dor, mas impede que ela nos destrua.

Hoje, aos 55 anos, reconheço que há um testemunho poderoso no vale. Não apenas nas conquistas, mas nos dias em que tudo parecia quebrado. É ali que aprendemos quem D-us realmente é, não apenas quem imaginávamos que Ele fosse. Às vezes Ele nos conduz a pastos verdejantes. Outras vezes caminha conosco pelo vale. Em nenhum momento Ele se ausenta.

A verdadeira alegria de andar com D-us não está na ausência de problemas, mas na certeza da Sua presença. Não está em nunca quebrar, mas em descobrir que até os cacos podem ser redimidos. D-us não desperdiça dor. Ele a transforma. Não nos promete uma vida fácil, mas uma vida com sentido. E sentido é algo extraordinariamente poderoso. Ele transforma peso em profundidade e sofrimento em maturidade.

Se você atravessa seu próprio vale agora, saiba: você não está sozinho. Está tudo bem não estar tudo bem. Está tudo bem se sua oração for curta. Está tudo bem se alguns dias forem de riso e outros apenas de resistência. A alegria do Senhor não é frágil. Ela é firme, resiliente, insistente. Ela se recusa a ser derrotada pelas circunstâncias.

Hoje celebro 55 anos com gratidão genuína. Não porque tudo foi fácil, mas porque tudo foi sustentado. Não porque nunca quebrei, mas porque descobri que até os cacos podem ser redimidos. O Pastor continua presente. E isso basta. Isso sempre bastou.

O silêncio Divino não é o fim da história. É apenas o intervalo necessário antes de uma música mais profunda.

Adivalter Sfalsin

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The Same G-d: Yesterday, Today and Always

The 13 Divine Atributes

The Same G-d

Yesterday, Today and Forever

If you have ever felt that the G-d of the Old Testament and the G-d of the New Testament sound like two different characters, know that this impression is far more common than you might think. A fragmented reading of Scripture easily creates the sense that we begin with a stern and severe G-d and end with a gentle and gracious one. Yet, when the Bible is read carefully, a very different picture emerges. Above all, Scripture is a book about humanity – its failures, falls, struggles and attempts to walk with the Creator. G-d acts from Genesis to Revelation, but rarely describes Himself directly. He reveals who He is through His actions. And that is precisely why Exodus 34 is so remarkable: it is one of the few moments in which G-d explicitly declares His own character.

This revelation comes immediately after the spiritual disaster of the Golden Calf. Moses is on Mount Sinai receiving divine instruction while the people craft a glittering idol and present it as the god who brought them out of Egypt. The divine response is unsurprising: G-d declares that He will wipe out that generation. But Moses intercedes, and the impossible happens. G-d chooses to forgive, and more than that, He unveils His essential attributes.

The text reads: “The LORD, the LORD, a compassionate and gracious G-d, slow to anger and abounding in steadfast love and truth; keeping mercy for thousands, forgiving iniquity, transgression and sin, yet by no means clearing the guilty.” Here lies the heart of G-d – the same heart made visible later in the words and actions of Jesus. Jewish tradition identifies in this passage the Thirteen Attributes of Mercy, a kind of inner map of the divine character. Below they appear with the original Hebrew beside each one:

1. ADONAI, ADONAI (יהוה יהוה – merciful before and after sin)

G-d is merciful before a person sins, fully aware of our tendencies and weaknesses, and He remains merciful after the fall, offering the opportunity for return and restoration.

2. EL (אל – The Almighty One)

The absolute power who governs nature and humanity with true justice, judging each person according to the reality of their heart and their choices.

3. Rachum (רחום – compassionate)

The G-d who bends towards human suffering, especially the weak, the poor and the oppressed. He is not indifferent to human pain but acts to relieve, rescue and protect.

4. VeChanun (וְחַנּוּן – gracious)

The G-d who offers grace even to those who do not deserve it, extending comfort, help and presence to the fallen, the undeserving and the broken.

5. Erech Appayim (אֶרֶךְ אַפַּיִם – patient, slow to anger)

G-d grants time for repentance and transformation. He does not react impulsively but waits, instructs, calls and offers new opportunities.

6. Rav Chesed (רַב חֶסֶד – abundant in kindness)

G-d gives more kindness than we ask for and more than we deserve. His generosity exceeds expectations and surpasses our limitations.

7. VeEmet (וֶאֱמֶת – truthful and faithful)

G-d keeps His word and His covenant. He never promises what He will not fulfil. His faithfulness stretches across circumstances and generations.

8. Notzer Chesed Laalafim (נֹצֵר חֶסֶד לָאֲלָפִים – preserves kindness for thousands)

G-d remembers the actions of the righteous and pours blessings upon their descendants, even when these descendants are not particularly virtuous. His memory of human goodness is long and deep.

9. Nosei Avon (נֹשֵׂא עָוֹן – forgives deliberate iniquity)

Iniquity is sin committed with full intention. G-d forgives even premeditated wrongdoing when genuine repentance is present.

10. Nosei Pesha (נֹשֵׂא פֶשַׁע – forgives rebellious transgression)

Pesha is transgression carried out in conscious rebellion. Even then, G-d opens a way back when a person decides to return.

11. Nosei Chata’ah (נֹשֵׂא חַטָּאָה – forgives unintentional sin)

Chet refers to mistakes committed without intention. G-d considers human frailty, ignorance and limitation, offering forgiveness and restoration.

12. Venakeh (וְנַקֵּה – purifies)

G-d cleanses and purifies those who truly repent. He removes the stain, restores the soul and rebuilds what was broken. Yet He does not purify the one who refuses repentance, for justice and mercy walk together.

These are 12 Attributes of Mercy

Forgiveness, patience, kindness, grace.

The dominant essence of G-d’s character is merciful. He is, in His very nature, goodness, forgiveness, restoration and patience. The entire Old Testament confirms this on every page: renewed covenants, prophets sent again and again, continual invitations to return. Jesus does not introduce mercy. He embodies ancient mercy.

There is 1 Attribute of Justice

Without repentance, there can be no purification.

Divine justice does not cancel mercy, nor is it cancelled by it. G-d does not suppress human freedom. He forgives the one who accepts forgiveness. He purifies the one who desires purification. Jesus echoes this principle repeatedly when He calls people to repent. It is the same spiritual foundation, simply revealed more clearly.

And there are 3 Types of Sin Forgiven

Premeditated, rebellious and unintentional.

This triad shows the breadth of divine mercy. G-d does not forgive only accidental errors. He offers forgiveness even for intentional and rebellious sins. Peter denied Jesus knowingly and repeatedly, yet he was restored. The persecutors of the Messiah acted with collective rebellion and ignorance, yet Jesus prayed, “Father, forgive them.” The Old Testament teaches this; the New Testament displays it openly.

When we read this list attentively, the picture of G-d that emerges is not one of impatience or cruelty, but of a G-d deeply committed to mercy, kindness, patience and restoration. Justice is present, but always accompanied by grace. This is the G-d who reveals Himself at Sinai, and it is this same G-d who appears in Jesus.

Jesus does not introduce a new G-d onto the biblical stage. He reveals in human form the ancient G-d, the G-d who has always been. When He touches a leper, we see Rachum. When He forgives Peter before and after the denial, we see ADONAI repeated. When He is patient with disciples who fail to understand His teachings, we see Erech Appayim. When He multiplies food for a crowd that never even asked for it, we see Rav Chesed. When He says He came to fulfil the Torah rather than abolish it, we see VeEmet. When, on the cross, He extends forgiveness to the repentant thief, we see Nosei Avon, Nosei Pesha and Nosei Chata’ah all at work. And when He rises, making purification possible, we see Venakeh in its fullest expression.

When John says that Jesus was “full of grace and truth”, he is directly echoing Exodus 34. A first-century Jew would have recognised the parallel immediately. John is not inventing theology; he is declaring that the One who walked among them was the living embodiment of the attributes revealed to Moses. There is no contradiction between the G-d of the Old Testament and the G-d of the New. There is, instead, a perfect continuity.

This understanding challenges us to examine our own reflection. If G-d is patient, why are we so impatient? If He preserves kindness for thousands, why do we often struggle to preserve kindness for a single day? If He forgives iniquity, transgression and sin, why do we find it so difficult to tolerate even small mistakes in others? Perhaps the difficulty is not in grasping who G-d is, but in accepting that He is not like us. He is infinitely more merciful than we assume.

The Thirteen Attributes show clearly that G-d does not tire of broken human beings. He acts, forgives, restores and reveals Himself. Jesus does not create a new kind of divinity; He manifests the G-d who has always been present – the One who walked in Eden, who spoke at Sinai, who inspired the prophets and who entered human history through Jesus. The G-d of the beginning is the G-d of the end. The same yesterday, today and always.

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Os 13 atributos divinos

O Mesmo D-us: Ontem, Hoje e Sempre

O Mesmo D-us: Ontem, Hoje e Sempre

Se você já pensou que o D-us do Velho Testamento e o D-us do Novo Testamento parecem personagens diferentes, saiba que isso é mais comum do que parece. A leitura fragmentada da Bíblia cria essa impressão, como se no início tivéssemos um D-us severo e no final um D-us gentil. Mas a Bíblia, quando lida com cuidado, revela algo muito diferente. Ela é, antes de tudo, um livro sobre a humanidade: suas falhas, quedas e tentativas de caminhar com o Criador. D-us age o tempo inteiro, desde Gênesis até Apocalipse, mas raramente descreve a Si mesmo diretamente. Ele se revela através de ações. E é justamente por isso que Êxodo 34 é tão extraordinário: pela primeira vez, D-us diz claramente quem Ele é.

Essa revelação acontece após o desastre espiritual do Bezerro de Ouro. Moisés está no Sinai recebendo instruções enquanto o povo fabrica um ídolo brilhante e o apresenta como o deus que os tirou do Egito. A resposta divina não surpreende: D-us declara que destruiria aquela geração. Mas Moisés intercede e o impossível acontece. D-us decide perdoar e, mais do que isso, revela Seus atributos essenciais.

O texto diz: “SENHOR, SENHOR, D-us compassivo, misericordioso e paciente, cheio de graça e verdade; que guarda a misericórdia por milhares de gerações, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado, mas não inocenta o culpado.” Ali está o coração de D-us, o mesmo coração percebido mais tarde nas palavras e ações de Jesus. A tradição judaica identifica nessa passagem os Treze Atributos de Misericórdia, que funcionam como o mapa interno do caráter divino. A seguir, eles aparecem listados com o hebraico original ao lado:

1. ADONAI, ADONAI (יהוה יהוה – misericordioso antes e depois do pecado)

D-us é misericordioso antes que a pessoa peque, mesmo sabendo das tendências interiores que ela carrega, e continua misericordioso depois que a pessoa cai, oferecendo oportunidade de retorno e restauração.

2. EL (אל – Todo-Poderoso)

A força absoluta que governa a natureza e a humanidade com justiça verdadeira, julgando cada pessoa de acordo com a realidade do seu coração e das suas escolhas.

3. Rachum (רחום – compassivo)

O D-us que se inclina ao sofrimento humano, especialmente o dos fracos, pobres e oprimidos. Ele não é indiferente às dores humanas, mas age para aliviar, resgatar e proteger.

4. VeChanun (וְחַנּוּן – gracioso)

O D-us que oferece graça mesmo a quem não merece, estendendo consolo, ajuda e presença aos que falharam, aos que não têm méritos e aos que estão quebrados.

5. Erech Appayim (אֶרֶךְ אַפַּיִם – paciente, lento para a ira)

D-us concede tempo para arrependimento e transformação. Ele não reage impulsivamente, mas espera, instrui, chama e oferece novas chances.

6. Rav Chesed (רַב חֶסֶד – abundante em bondade)

D-us oferece mais bondade do que pedimos e mais do que merecemos. Sua generosidade excede expectativas e ultrapassa nossos limites.

7. VeEmet (וֶאֱמֶת – verdadeiro e fiel)

D-us mantém Sua palavra e Sua aliança. Ele não promete o que não cumpre. Sua fidelidade atravessa circunstâncias e gerações.

8. Notzer Chesed Laalafim (נֹצֵר חֶסֶד לָאֲלָפִים – preserva bondade por milhares)

D-us lembra os atos dos justos e derrama bênçãos sobre seus descendentes, mesmo quando estes não são tão virtuosos. Sua memória da bondade humana é longa e profunda.

9. Nosei Avon (נֹשֵׂא עָוֹן – perdoa iniquidade consciente)

Iniquidade é o pecado cometido com intenção deliberada. D-us perdoa até o erro premeditado quando há arrependimento sincero.

10. Nosei Pesha (נֹשֵׂא פֶשַׁע – perdoa transgressão rebelde)

Pesha é a transgressão praticada em rebelião consciente. Mesmo nesse caso, D-us abre caminho para retorno e perdão quando a pessoa decide voltar.

11. Nosei Chata’ah (נֹשֵׂא חַטָּאָה – perdoa pecado involuntário)

Chéṭ é o erro cometido sem intenção. D-us leva em conta a fragilidade humana, o desconhecimento e a limitação, oferecendo perdão e restauração.

12. Venakeh (וְנַקֵּה – purifica)

D-us limpa e purifica aqueles que se arrependem de verdade. Ele remove a mancha, restaura a alma e reconstrói o que foi destruído. Mas não purifica quem se recusa a buscar arrependimento, pois justiça e misericórdia caminham juntas.

Aquele que purifica, limpando o pecador arrependido, mas sem ignorar a justiça.

São 12 Atributos de Misericórdia

Perdão, paciência, bondade, graça.

A essência dominante do caráter de D-us é misericordiosa. Ele é, em Sua maior parte, bondade, perdão, restauração e paciência. O VT inteiro confirma isso em cada página: alianças renovadas, profetas enviados, segundas chances constantes. Jesus não introduz misericórdia. Ele encarna a misericórdia antiga.

1 Atributo de Justiça

Sem arrependimento, não há purificação.

A justiça divina não anula a misericórdia, mas também não é anulada por ela. D-us não suprime a liberdade humana. Ele perdoa quem aceita o perdão. Ele purifica quem deseja ser purificado. Jesus ecoa esse princípio quando anuncia repetidamente: arrependam-se. É o mesmo fundamento espiritual, apenas mais visível.

3 Tipos de Pecado Perdoado

Premeditado, rebelde e inadvertido.

Essa tríade mostra o alcance da misericórdia divina. D-us não perdoa apenas o erro acidental. Ele alcança inclusive pecados intencionais e rebeldes. Pedro negou Jesus com plena consciência. Ainda assim, foi restaurado. Os perseguidores do Messias cometeram um ato coletivo de rebeldia e ignorância. Ainda assim, Jesus ora: Pai, perdoa-lhes. O VT ensina isso. O NT evidencia isso.

Quando lemos essa lista com atenção, a imagem de D-us que emerge não é a de um ser impaciente ou cruel, mas de um D-us profundamente comprometido com misericórdia, bondade, paciência e restauração. A justiça está presente, mas sempre acompanhada de graça. Esse é o D-us que se revela no Sinai, e é esse mesmo D-us que aparece em Jesus.

Jesus não introduz um novo D-us no cenário bíblico. Ele revela em carne o D-us antigo, o D-us de sempre. Quando toca um leproso, vemos Rachum. Quando perdoa Pedro antes e depois da negação, vemos ADONAI repetido duas vezes. Quando é paciente com os discípulos que não compreendem Suas parábolas, vemos Erech Appayim. Quando multiplica alimento para uma multidão sem que ninguém tenha pedido, vemos Rav Chesed. Quando diz que veio cumprir e não abolir a Torá, vemos VeEmet. Quando na cruz oferece perdão ao ladrão arrependido, vemos Nosei Avon, Nosei Pesha e Nosei Chata’ah atuando simultaneamente. E quando ressuscita, abrindo caminho para nossa purificação, vemos Venakeh em sua forma mais profunda.

João, ao dizer que Jesus era cheio de graça e verdade, está ecoando diretamente Êxodo 34. Um judeu do primeiro século reconheceria imediatamente o paralelo. João não está inventando teologia; está dizendo que aquele que caminhou com eles era a encarnação dos atributos revelados a Moisés. Não existe contradição entre o D-us do Velho e o D-us do Novo Testamento. Existe, sim, uma continuidade perfeita.

Essa compreensão nos desafia a revisar nosso próprio reflexo. Se D-us é paciente, por que somos tão impacientes? Se Ele preserva bondade por milhares de gerações, por que às vezes não conseguimos preservar por um único dia? Se Ele perdoa iniquidade, transgressão e pecado, por que tantas vezes não toleramos nem pequenos erros alheios? Talvez a dificuldade não esteja em entender o caráter de D-us, mas em aceitar que Ele não é como nós. Ele é infinitamente mais misericordioso do que supomos.

Os Treze Atributos mostram claramente que D-us não se cansa de seres humanos quebrados. Ele age, perdoa, recomeça, restaura e se revela. Jesus não inaugura um novo tipo de divindade; Ele manifesta o D-us que sempre esteve presente. O mesmo que caminhou no Éden, que falou no Sinai, que inspirou os profetas e que entrou na história humana através de Jesus. O D-us do início é o D-us do fim. O mesmo ontem, hoje e sempre.

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Saiba Mais:

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Between Hope and Humanity

Between Hope and Humanity

A Meditation on Grief and Grace

It should have been the greatest day of celebration. The Tabernacle, Israel’s first collective house of worship, stood complete after months of painstaking labour. For seven days, Moses had performed the sacred inauguration rituals. Now the eighth day had arrived, the first of Nisan, and the priests, led by Aaron, were ready to begin their service before the Lord and all the people. Then tragedy struck with terrible swiftness.

Two of Aaron’s sons, Nadab and Abihu, brought “strange fire” before the Lord, fire “which He had not commanded them” (Leviticus 10:1). In an instant, fire came forth from the presence of G-d, and they died. The celebration became a funeral. What followed reveals something profound about faith and grief. Moses, attempting to comfort his devastated brother, said: “This is what the Lord spoke of when He said, ‘Among those who are near to Me I will show Myself holy; in the sight of all the people I will be honoured'” (Leviticus 10:3). It was as if Moses said: “Aaron, your sons were not evil, they were holy. They died not because they were far from G-d, but because they were near to Him.”

But Scripture records simply: “Aaron remained silent.” His grief was too deep for words.

Later that day, Moses discovered that Aaron had burned the sin offering rather than eating it as prescribed. Concerned for the Law and the community, Moses confronted him. Aaron’s response pierces the heart: “Today they sacrificed their sin offering and their burnt offering before the Lord, but such things as this have happened to me. Would the Lord have been pleased if I had eaten the sin offering today?” (Leviticus 10:19). In other words: “I know I am the High Priest. But I am also a father who has just lost two sons. Would G-d truly want me to act as though nothing had happened?”

When Moses heard this, Scripture tells us, “he approved” (Leviticus 10:20).

Here we witness something remarkable: Moses represents the courage to continue in faith despite tragedy; Aaron represents the courage to grieve honestly. Moses speaks of G-d’s purposes; Aaron speaks of human pain. And both, Scripture suggests, are right. Both are necessary.

There is a curious paradox at the heart of the Christian life. We are told to “rejoice always” (1 Thessalonians 5:16), yet our Saviour is described as “a man of sorrows, acquainted with grief” (Isaiah 53:3). We are commanded to “be anxious for nothing” (Philippians 4:6), yet we find ourselves weeping at gravesides, our hearts shattered by loss. Are we failing in our faith when we grieve?

C. S. Lewis, in his searing memoir “A Grief Observed”, written after the death of his wife Joy, confessed: “No one ever told me that grief felt so like fear.” Here was a man who had spent his life defending the faith with crystalline clarity, and yet in the face of death, he found himself undone. He did not lose his faith, not ultimately, but neither did he pretend that faith made him immune to the raw terror of loss. “Talk to me about the truth of religion,” he wrote, “and I’ll listen gladly. Talk to me about the duty of religion and I’ll listen submissively. But don’t come talking to me about the consolations of religion or I shall suspect that you don’t understand.”

Faith does not anaesthetise us to suffering. If anything, it makes us more alive to it, more vulnerable, more human. When Jesus stood before the tomb of Lazarus, knowing full well that He was about to raise him from death, He wept (John 11:35). He did not offer platitudes. He did not rush to the miracle. He wept with those who wept, because love demands it. There is a kind of piety, well-meaning but ultimately destructive, that treats grief as a failure of trust. The friend who quotes Romans 8:28 “…all things G-d works for the good of those who love him…” before the tears have dried. The church member who suggests that prolonged mourning indicates weak faith. These responses, however kindly intended, ask us to surrender our humanity at the altar of theology.

But consider Paul himself, who wrote those very words about all things working together for good. Was he a stranger to sorrow? He speaks of being “perplexed,” “persecuted,” “struck down” (2 Corinthians 4:8-9). He describes a “thorn in the flesh” that G-d refused to remove despite his repeated prayers (2 Corinthians 12:7-9). This is not the language of a man who has transcended pain. This is the language of someone who has learned to carry it.

The Psalms are filled with lament. “How long, O Lord? Will you forget me forever?” cries the psalmist (Psalm 13:1). “My G-d, my G-d, why have you forsaken me?” (Psalm 22:1), words Jesus Himself would echo from the cross. If lament is woven into the fabric of Scripture, then perhaps it is not the opposite of faith but rather its most honest expression. Yet grief, left alone, can become a prison. There is a second courage required of us: the courage to hope when hope seems foolish, to continue when continuing seems pointless, to believe in resurrection when all we can see is a tomb.

Here is where faith truly distinguishes itself, not in making us immune to sorrow, but in giving us a reason to rise from it. “We do not grieve as those who have no hope,” Paul writes to the Thessalonians (1 Thessalonians 4:13). Notice he does not say we do not grieve. He says we grieve “differently”. Our tears are real, but they are not the final word.

Jesus tells His disciples something almost unbearably strange: “In this world you will have trouble. But take heart! I have overcome the world” (John 16:33). He does not promise the absence of trouble. He promises its defeat. The distinction is everything. We are not asked to pretend that suffering doesn’t hurt. We are asked to believe that it doesn’t win. This is the peculiar genius of biblical hope: it is “hope in the midst”, not hope “instead of”. It does not replace our humanity with something angelic. Rather, it redeems our humanity, hallows it, makes it capable of bearing weights that would otherwise crush us. “My grace is sufficient for you,” G-d told Paul, “for my power is made perfect in weakness” (2 Corinthians 12:9). What an extraordinary claim, that G-d’s strength is most visible not in our triumph but in our fragility.

We are called to be, simultaneously, like Moses and like Aaron, to have the faith that carries on and the humanity that refuses easy comfort. This is not a contradiction to be solved but a tension to be inhabited. When Jesus prayed in Gethsemane, He showed us both. “My Father, if it is possible, may this cup be taken from me”, this is Aaron’s voice, the voice of human vulnerability, the desperate hope that perhaps suffering might be avoided. But then: “Yet not as I will, but as you will” (Matthew 26:39), this is Moses’ voice, the voice of faith that submits to a purpose larger than personal comfort.

The Christian life is not about choosing between these two voices. It is about learning to speak with both. We do not dishonour G-d by grieving deeply. We dishonour our humanity, and the G-d who made us human, when we pretend we do not feel what we feel.

“Blessed are those who mourn,” Jesus said, “for they will be comforted” (Matthew 5:4). Not “blessed are those who pretend everything is fine.” Blessed are those who mourn, who allow themselves to feel the full weight of loss, “for they” will be comforted. The comfort comes, but it comes through the grief, not around it.

Lewis, in the end, found his way through. He had learned to let his wife to go, to trust that G-d’s love for her exceeded even his own. The pain remained, but it had been, somehow, transfigured.

This is what we are offered: not escape from suffering, but transformation through it. Not the abolition of tears, but the promise that “He will wipe every tear from their eyes” (Revelation 21:4), which implies that the tears will have been real, will have been wept, will have been worth wiping away.

We live, for now, between hope and humanity, between the grief that makes us vulnerable and the faith that makes us victorious. And perhaps that is precisely where G-d intends us to be, not yet in the fullness of resurrection, but not abandoned to the darkness of the tomb either. Walking, as Paul describes it, “by faith, not by sight” (2 Corinthians 5:7), but walking nonetheless.

When adversity comes, and it will come, we need not choose between tears and trust. We can bring both to the foot of the cross, where our suffering Saviour understands them equally. We can grieve, fully and honestly, and we can hope, stubbornly and unreasonably. We can be, at once, heartbroken and unbroken.

For this is the gospel’s great claim: that our humanity need not be sacrificed to our faith, nor our faith to our humanity. In Christ, both are redeemed, both are honoured, both find their true home. And in that strange, difficult, beautiful tension, we discover what it means to be fully alive.

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Entre a Esperança e a Humanidade

Uma Meditação sobre o Luto e a Graça

Entre a Esperança e a Humanidade

Deveria ter sido o maior dia de celebração. O Tabernáculo, a primeira casa coletiva de adoração de Israel, estava completo após meses de trabalho meticuloso. Por sete dias, Moisés havia realizado os rituais sagrados de inauguração. Agora o oitavo dia havia chegado, o primeiro de Nisã, e os sacerdotes, liderados por Arão, estavam prontos para iniciar seu serviço diante do Senhor e de todo o povo. Então a tragédia aconteceu com uma rapidez terrível.

Dois dos filhos de Arão, Nadabe e Abiú, trouxeram “fogo estranho” diante do Senhor, fogo “que Ele não lhes havia ordenado” (Levítico 10:1). Num instante, fogo saiu da presença de D-us, e eles morreram. A celebração se transformou em funeral. O que se seguiu revela algo profundo sobre fé e luto. Moisés, tentando consolar seu irmão devastado, disse: “Foi isto que o Senhor falou, dizendo: ‘Serei santificado naqueles que se aproximam de Mim e serei glorificado diante de todo o povo'” (Levítico 10:3). Era como se Moisés dissesse: “Arão, seus filhos não eram maus, eles eram santos. Eles morreram não porque estavam longe de D-us, mas porque estavam perto Dele.”

Mas a Escritura registra simplesmente: “Arão ficou em silêncio.” Sua dor era profunda demais para se pronunciar.

Mais tarde naquele dia, Moisés descobriu que Arão havia queimado a oferta pelo pecado em vez de comê-la conforme prescrito. Preocupado com a Lei e a comunidade, Moisés o confrontou. A resposta de Arão toca o coração: “Hoje ofereceram sua oferta pelo pecado e seu holocausto perante o Senhor, mas coisas como estas me aconteceram. Teria o Senhor ficado satisfeito se eu tivesse comido a oferta pelo pecado hoje?” (Levítico 10:19). Em outras palavras: “Eu sei que sou o Sumo Sacerdote. Mas também sou um pai que acabou de perder dois filhos. D-us realmente quereria que eu agisse como se nada tivesse acontecido?”

Quando Moisés ouviu isso, a Escritura nos diz, “ele aprovou” (Levítico 10:20).

Aqui testemunhamos algo notável: Moisés representa a coragem de continuar na fé apesar da tragédia; Arão representa a coragem de lamentar honestamente. Moisés fala dos propósitos de D-us; Arão fala da dor humana. E ambos, sugere a Escritura, estão certos. Ambos são necessários.

Há um curioso paradoxo no coração da vida cristã. Somos instruídos a “alegrar-nos sempre” 1 Tessalonicenses 5:16, mas nosso Salvador é descrito como “homem de dores, experimentado no sofrimento” Isaías 53:3. Somos ordenados a não estar “ansiosos por coisa alguma” Filipenses 4:6, mas nos encontramos chorando em cemitérios, nossos corações despedaçados pela perda. Estamos falhando em nossa fé quando lamentamos?

C. S. Lewis, em suas comoventes memórias “A Anatomia de uma Dor”, escritas após a morte de sua esposa Joy, confessou: “Ninguém nunca me disse que a dor se parecia tanto com o medo.” Aqui estava um homem que havia passado sua vida defendendo a fé com clareza cristalina, e ainda assim, diante da morte, ele se viu desfeito. Ele não perdeu sua fé, não em última instância, mas também não fingiu que a fé o tornava imune ao terror bruto da perda. “Fale comigo sobre a verdade da religião,” ele escreveu, “e eu ouvirei com prazer. Fale comigo sobre o dever da religião e eu ouvirei com submissão. Mas não venha me falar sobre os consolos da religião ou suspeitarei que você não entende.”

A fé não nos anestesia para o sofrimento. Se algo, ela nos torna mais vivos para ele, mais vulneráveis, mais humanos. Quando Jesus estava diante do túmulo de Lázaro, sabendo muito bem que estava prestes a ressuscitá-lo, Ele chorou (João 11:35). Ele não ofereceu palavras vazias. Ele não correu para o milagre. Ele chorou com aqueles que choravam, porque o amor exige isso. Há um tipo de piedade, bem-intencionada mas em última instância destrutiva, que trata o luto como uma falha de confiança. O amigo que cita Romanos 8:28 “…todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus…” antes que as lágrimas tenham secado. O membro da igreja que sugere que o luto prolongado indica fé fraca. Essas respostas, por mais bem-intencionadas, nos pedem para entregar nossa humanidade no altar da teologia.

Mas considere o próprio Paulo, que escreveu aquelas palavras sobre todas as coisas cooperarem para o bem. Ele era um estranho à tristeza? Ele fala de estar “perplexo,” “perseguido,” “abatido” 2 Coríntios 4:8-9. Ele descreve um “espinho na carne” que D-us se recusou a remover apesar de suas repetidas orações 2 Coríntios 12:7-9. Esta não é a linguagem de um homem que transcendeu a dor. Esta é a linguagem de alguém que aprendeu a carregá-la.

Os Salmos estão cheios de lamento. “Até quando, Senhor? Te esquecerás de mim para sempre?” clama o salmista Salmo 13:1. “D-us meu, D-us meu, por que me desamparaste?” Salmo 22:1

, palavras que o próprio Jesus ecoaria da cruz. Se o lamento está tecido no tecido da Escritura, então talvez não seja o oposto da fé, mas sim sua expressão mais honesta. Ainda assim, o luto, deixado sozinho, pode se tornar uma prisão. Há uma segunda coragem exigida de nós: a coragem de esperar quando a esperança parece tola, de continuar quando continuar parece inútil, de acreditar na ressurreição quando tudo o que podemos ver é um túmulo.

Aqui é onde a fé verdadeiramente se distingue, não em nos tornar imunes à tristeza, mas em nos dar uma razão para nos levantarmos dela. “Não nos entristecemos como os demais que não têm esperança,” Paulo escreve aos Tessalonicenses 1 Tessalonicenses 4:13. Note que ele não diz que não nos entristecemos. Ele diz que nos entristecemos “diferentemente”. Nossas lágrimas são reais, mas não são a palavra final.

Jesus diz aos Seus discípulos algo quase insuportavelmente estranho: “No mundo vocês terão aflições. Mas tenham ânimo! Eu venci o mundo” (João 16:33). Ele não promete a ausência de problemas. Ele promete sua derrota. A distinção é tudo. Não nos é pedido para fingir que o sofrimento não dói. É nos pedido para acreditar que ele não vence. Esta é a genialidade peculiar da esperança bíblica: é “esperança no meio”, não esperança “em vez de”. Ela não substitui nossa humanidade por algo angelical. Em vez disso, ela redime nossa humanidade, a santifica, a torna capaz de suportar pesos que de outra forma nos esmagariam. “Minha graça é suficiente para você,” D-us disse a Paulo, “pois meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” 2 Coríntios 12:9. Que afirmação extraordinária, que a força de D-us é mais visível não em nosso triunfo, mas em nossa fragilidade.

Somos chamados a ser, simultaneamente, como Moisés e como Arão, a ter a fé que continua e a humanidade que recusa o consolo fácil. Esta não é uma contradição a ser resolvida, mas uma tensão a ser habitada. Quando Jesus orou no Getsêmani, Ele nos mostrou ambos. “Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice”, esta é a voz de Arão, a voz da vulnerabilidade humana, a esperança desesperada de que talvez o sofrimento pudesse ser evitado. Mas então: “Contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres” (Mateus 26:39), esta é a voz de Moisés, a voz da fé que se submete a um propósito maior que o conforto pessoal.

A vida com D-us não é sobre escolher entre essas duas vozes. É sobre aprender a falar com ambas. Não desonramos a D-us ao lamentar profundamente. Desonramos nossa humanidade, e o D-us que nos fez humanos, quando fingimos não sentir o que sentimos.

“Bem-aventurados os que choram,” disse Jesus, “pois serão consolados” Mateus 5:4. Não “bem-aventurados os que fingem que está tudo bem.” Bem-aventurados os que choram, que se permitem sentir o peso total da perda, “pois eles” serão consolados. O consolo vem, mas vem através do luto, não ao redor dele.

Lewis, no final, encontrou seu caminho. Ele havia aprendido a deixar sua esposa ir, a confiar que o amor de D-us por ela excedia até mesmo o seu próprio. A dor permaneceu, mas havia sido, de alguma forma, transfigurada.

Isto é o que nos é oferecido: não escape do sofrimento, mas transformação através dele. Não a abolição das lágrimas, mas a promessa de que “Ele enxugará toda lágrima dos olhos deles” Apocalipse 21:4, o que implica que as lágrimas terão sido reais, terão sido choradas, terão valido a pena serem enxugadas.

Vivemos, por enquanto, entre a esperança e a humanidade, entre o luto que nos torna vulneráveis e a fé que nos torna vitoriosos. E talvez seja precisamente onde D-us pretende que estejamos, ainda não na plenitude da ressurreição, mas também não abandonados à escuridão do túmulo. Caminhando, como Paulo descreve, “por fé, e não por vista” 2 Coríntios 5:7, mas caminhando mesmo assim.

Quando a adversidade vier, e ela virá, não precisamos escolher entre lágrimas e confiança. Podemos trazer ambas ao pé da cruz, onde nosso Salvador sofredor as compreende igualmente. Podemos lamentar, total e honestamente, e podemos esperar, teimosa e de forma irrazoável. Podemos ser, ao mesmo tempo, de coração partido e inquebráveis.

Pois esta é a grande afirmação das boas novas: que nossa humanidade não precisa ser sacrificada à nossa fé, nem nossa fé à nossa humanidade. Em Jesus, ambas são redimidas, ambas são honradas, ambas encontram seu verdadeiro lar. E nessa estranha, difícil e bela tensão, descobrimos o que significa estar plenamente vivo.

Adivalter Sfalsin

Dimensions of Morality

Dimensions of Morality

The Lost Dimensions of Morality

Modern morality has become a careful curator of two prized virtues, kindness and fairness. If you listen to the way people argue about right and wrong today, particularly in the secular West, it rarely strays beyond these two concerns. Will this harm someone, and is this fair? These questions are not trivial, and the moral psychologist Jonathan Haidt has shown how deeply they shape our ethical instincts. But you begin to wonder whether two virtues alone can hold the full weight of human existence. It is like trying to paint a sunrise with only two colours and telling yourself that the missing ones were unnecessary after all.

Something in us knows better. We sense that morality is richer, fuller, more textured than harm and fairness can ever express. The Bible certainly thinks so. It seems to assume that human beings are not only bodies that feel pain and not only minds that calculate fairness. We are also souls and spirits, creatures who inhabit meaning and mystery, longing and loyalty. When Scripture speaks about what is good, it speaks with a vocabulary deeper than the thin language of modern ethics.

Sometimes it becomes helpful to see the Hebrew words themselves, because they reveal dimensions of the moral life that our culture rarely names.

There is חֶסֶד (hesed, loving kindness), the active and generous goodness that goes beyond what fairness requires, found in Leviticus 19:18, Micah 6:8.

There is רַחֲמִים (rahamim, compassion or mercy), the tenderness that feels the wound of another so deeply that it becomes impossible to turn away. Psalm 103:13, Isaiah 49:15.

There is צֶדֶק (tzedek, righteousness), the conviction that the world must reflect not only what humans find convenient but what G-d calls just, as in Deuteronomy 16:20, Proverbs 21:3.

There is מִשְׁפָּט (mishpat, just judgment), the concrete application of justice in daily dealings and in the courts. Leviticus 19:15, Deuteronomy 10:18.

Then there is אֱמוּנָה (emunah, faithfulness or covenant loyalty), usually translated as faith but closer to steadiness of heart, the quality that holds relationships together, whether between people or with G-d. Deuteronomy 7:9, Habakkuk 2:4, Exodus 17:12.

And overarching them all is קְדֻשָּׁה (kedushah, holiness), the awareness that life is infused with the presence of the Creator, a truth woven through the whole of Leviticus. Leviticus 19:2, Exodus 19:6, Isaiah 6:3.

Once you see these dimensions, you realise that morality in Scripture is not trying to minimise pain or maximise fairness. It is trying to form a certain kind of person, someone whose inner life is shaped by love, compassion, justice, loyalty, and reverence. It speaks to the body, but also to the soul and to the spirit. It recognises that human beings are not flat creatures who respond only to harm and fairness but multi layered and richly dimensional beings who long for meaning, belonging, and sacred presence.

Jonathan Haidt (1) notes that pre modern and religious societies preserve these additional moral foundations. They value loyalty, respect, sanctity, compassion, and duty. They understand that communities cannot survive on kindness and fairness alone. Without loyalty, relationships fracture. 

Without reverence, life becomes trivial. 

Without holiness, the world loses its depth. 

Rabbi Jonathan Sacks once observed that when societies abandon their sense of the sacred, morality collapses into a matter of personal preference. What feels fair to me replaces what is right before G-d.

This is where the deeper biblical vision speaks to our modern confusion. Scripture presents morality through three great voices that shape the human condition. One calls us to honour what is sacred, another calls us to pursue justice, and another calls us to seek wisdom. These voices do not compete, they complete one another. They form a moral ecology that reaches every part of who we are. When we hear only one or two of those voices, our inner world begins to shrink.

C. S. Lewis often warned that modern people live as if the world had been stripped of enchantment. We analyse everything but revere nothing. We measure harm and fairness but forget gratitude, humility, loyalty, and holy awe. We fear that words like righteousness or holiness might make us look strange, so we whisper them or hide them altogether. Yet something in us refuses to be satisfied. The ache for transcendence does not disappear simply because we have replaced the language of the sacred with the language of psychology. If anything, the ache grows louder.

When we read Scripture slowly, the moral landscape begins to widen again. You notice how often the text speaks of חֶסֶד (hesed, loving kindness) as something more generous than fairness. You see how deeply it values רַחֲמִים (rahamim, compassion) that softens the heart toward the suffering of others. You observe the seriousness of צֶדֶק (tzedek, righteousness), the insistence that our choices are not morally neutral because they either affirm or violate the order G-d has woven into creation. You recognise the weight of מִשְׁפָּט (mishpat, just judgment), the practical execution of justice that protects the vulnerable. You begin to feel the steadiness of אֱמוּנָה (emunah, faithfulness), the refusal to abandon covenant commitments even when they become costly. And you learn to stand quietly before קְדֻשָּׁה (kedushah, holiness), the awareness that every moment, every life, every breath carries the imprint of G-d.

This is a far cry from the simple question, does this harm anyone. It asks instead, does this honour the sacred. Does this reflect covenant loyalty. Does this act cultivate righteousness or fracture it. Does this lead my soul toward wisdom or away from it. In other words, it treats morality not as a system of avoiding mistakes but as the slow, faithful shaping of a person who walks with G-d.

Believers in Yeshua feel this gap between biblical depth and modern thinness rather sharply. Yeshua never restricted morality to harm avoidance and fairness. His compassion was deeper than harm prevention. His justice was richer than fairness. He welcomed the outcast not because He had calculated that it was equitable but because His heart overflowed with חֶסֶד (hesed, loving kindness). He confronted hypocrisy not because it was merely unfair but because it violated צֶדֶק (tzedek, righteousness). He healed with רַחֲמִים (rahamim, compassion), taught with the wisdom of the sage, lived with the loyalty of אֱמוּנָה (emunah, faithfulness) toward the Father, and moved in a constant awareness of קְדֻשָּׁה (kedushah, holiness).

To imitate Him is to rediscover the fullness of the moral life. It is to recognise that the spirit within us must be shaped as much as the body and soul. It is to remember that morality asks not only how to prevent harm but how to become holy. Not only how to be fair but how to be faithful. Not only how to avoid cruelty but how to cultivate compassion. Not only how to balance rights but how to honour sacred obligations. This is a far more demanding vision than the modern one, and also far more beautiful.

If modern ethics feels small, it is because it has lost its tallest pillars. It has forgotten קְדֻשָּׁה (kedushah, holiness) and אֱמוּנָה (emunah, faithfulness), and in their absence the structure shivers. But Scripture has not forgotten them, nor have the sages of Israel, nor have the disciples of Yeshua (Jesus) who continue to listen for those deeper voices. When we open ourselves to this wider moral vocabulary, something within us expands. We remember who we are, creatures fashioned in the image of G-d, called not merely to avoid harm but to reflect holiness.

Perhaps this is the task for believers today, not to rage against modern morality but to gently expand it, to reintroduce our world to the richer music of חֶסֶד (hesed, loving kindness), רַחֲמִים (rahamim, compassion), צֶדֶק (tzedek, righteousness), מִשְׁפָּט (mishpat, just judgment), אֱמוּנָה (emunah, faithfulness), and קְדֻשָּׁה (kedushah, holiness). If we allow these words to shape us, body, soul, and spirit, we may find that the flattened moral world begins to rise into something three dimensional again, something spacious and alive. And perhaps we will discover that this ancient moral architecture still stands quietly behind us, waiting for us to walk back in, not as strangers but as children returning home.

Adivalter Sfalsin

(1) Jonathan Haidt, The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion (London, Allen Lane, 2012).

Dimensões Eternas

Dimensões Eternas

As Dimensões Perdidas da Moralidade

A moralidade moderna tornou-se uma cuidadosa curadora de duas virtudes muito estimadas, a bondade e a justiça. Se você ouvir como as pessoas discutem hoje sobre aquilo que é certo ou errado, especialmente no ocidente secular, perceberá que raramente escapam dessas duas perguntas. Isso causa dano a alguém, e isso é justo? Essas perguntas não são triviais, e o psicólogo moral Jonathan Haidt (1) mostrou o quanto moldam nossos instintos éticos. Mas logo você começa a se perguntar se apenas duas virtudes conseguem sustentar todo o peso da existência humana. É como tentar pintar um por do sol usando apenas duas cores e, ainda assim, convencer-se de que as cores ausentes nunca foram realmente necessárias.

Algo dentro de nós sabe que isso não é verdade. Intuímos que a moralidade é mais rica, mais profunda, mais complexa do que o par harmonia e justiça consegue expressar. A Bíblia certamente pensa assim. Para ela, o ser humano não é apenas um corpo que sente dor nem apenas uma mente que calcula equidade. Somos também alma e espírito, criaturas que habitam significado e mistério, desejo e fidelidade. Quando as Escrituras falam sobre o que é bom, elas usam um vocabulário muito mais profundo do que a linguagem enxuta da ética moderna.

Às vezes ajuda olhar para as próprias palavras hebraicas, porque elas revelam dimensões da vida moral que nossa cultura quase nunca considera.

Existe חֶסֶד (hesed, bondade amorosa), a generosidade ativa que vai muito além da simples justiça, como em Levítico 19:18, Miquéias 6:8.

Existe רַחֲמִים (rahamim, compaixão ou misericórdia), a sensibilidade que sente a dor do outro tão profundamente que se torna impossível virar o rosto. Salmo 103:13, Isaías 49:15.

Existe צֶדֶק (tzedek, retidão ou justiça divina), a insistência de que o mundo deve refletir não apenas o que os humanos consideram conveniente, mas o que D-us chama de justo, como em Deuteronômio 16:20, Provérbios 21:3.

Existe מִשְׁפָּט (mishpat, julgamento justo), a aplicação concreta da justiça no cotidiano e nos tribunais. Levítico 19:15, Deuteronômio 10:18.

Existe אֱמוּנָה (emunah, fidelidade ou lealdade), frequentemente traduzida como fé, mas muito mais próxima de firmeza de coração, a qualidade que sustenta relacionamentos de aliança, entre pessoas ou com o próprio D-us. Deuteronômio 7:9, Habacuque 2:4, Êxodo 17:12.

E sobre todas essas virtudes está קְדֻשָּׁה (kedushah, santidade), a percepção de que a vida carrega a presença do Criador, algo que permeia todo o livro de Levítico. Levítico 19:2, Êxodo 19:6, Isaías 6:3.

Quando você percebe essas dimensões, entende que a moral bíblica não tenta apenas minimizar o sofrimento nem maximizar a justiça. Ela tenta formar um certo tipo de pessoa, alguém cujo mundo interior é moldado por amor, compaixão, justiça, fidelidade e reverência. Ela fala ao corpo, mas também à alma e ao espírito. Reconhece que o ser humano não é uma criatura plana, que reage apenas ao dano e à justiça, mas um ser profundamente complexo, que anseia por sentido, pertencimento e presença sagrada.

Jonathan Haidt (1) observa que sociedades pré-modernas e religiosas preservam essas fundações morais adicionais. Elas valorizam fidelidade, respeito, santidade, compaixão e responsabilidade. Entendem que nenhuma comunidade sobrevive apenas com bondade e justiça. 

Sem fidelidade, os relacionamentos se quebram. 

Sem reverência, a vida perde profundidade. 

Sem santidade, o mundo torna-se raso. 

Como já comentou o rabino Jonathan Sacks, quando uma sociedade abandona sua percepção do sagrado, sua moralidade se reduz a preferências pessoais. O que parece justo para mim substitui aquilo que é correto diante de D-us.

É aqui que a visão bíblica mais profunda se torna um farol em meio à confusão contemporânea. A Escritura apresenta a moralidade através de três grandes vozes que moldam a condição humana. Uma nos chama a honrar o que é sagrado, outra nos chama a buscar a justiça, outra a buscar a sabedoria. Essas vozes não competem entre si, elas se completam. Formam uma ecologia moral que alcança todas as partes do nosso ser. Quando ouvimos apenas uma ou duas dessas vozes, nosso mundo interior encolhe.

C. S. Lewis alertava que o homem moderno vive como se o mundo tivesse sido esvaziado de encanto. Analisamos tudo, mas reverenciamos quase nada. Medimos dano e justiça, mas esquecemos da gratidão, da humildade, da fidelidade e da santa admiração. Temos medo de parecer antiquados ao usar palavras como retidão ou santidade, então as sussurramos ou as escondemos. Mas algo em nós permanece inquieto. O desejo pelo transcendente não desaparece quando substituímos a linguagem do sagrado pela linguagem da psicologia. Ele se intensifica.

Quando lemos as Escrituras devagar, o horizonte moral volta a se expandir. Percebemos quantas vezes o texto fala de חֶסֶד (hesed, bondade amorosa), uma generosidade que supera a equidade. Vemos a profundidade de רַחֲמִים (rahamim, compaixão), que suaviza o coração diante do sofrimento alheio. Reconhecemos a seriedade de צֶדֶק (tzedek, retidão), que afirma que nossas escolhas nunca são neutras. Sentimos o peso de מִשְׁפָּט (mishpat, julgamento justo), que protege o vulnerável. Experimentamos a firmeza de אֱמוּנָה (emunah, fidelidade), que sustenta compromissos mesmo quando eles custam caro. E aprendemos a permanecer em silêncio diante de קְדֻשָּׁה (kedushah, santidade), a consciência de que cada vida, cada momento e cada respiração carregam a marca de D-us.

Essa visão está muito distante da simples pergunta, “isso prejudica alguém?”. Ela pergunta, “isso honra o sagrado?”. “Isso reflete a fidelidade da aliança?”. “Isso cultiva a retidão ou a destrói?”. “Isso conduz minha alma à sabedoria ou a afasta dela?”. A moral bíblica não é um sistema para evitar erros, mas a formação paciente de uma pessoa que caminha com D-us.

Os discípulos de Yeshua sentem essa diferença entre a profundidade bíblica e a superficialidade moderna de forma muito clara. Yeshua nunca reduziu a moralidade aos limites do dano ou da justiça. Sua compaixão era mais profunda do que a prevenção do sofrimento. Sua justiça era mais rica do que a equidade. Ele acolhia o excluído não porque isso parecia equilibrado, mas porque Seu coração transbordava de חֶסֶד (hesed, bondade amorosa). Ele confrontava a hipocrisia não porque era injusta, mas porque violava צֶדֶק (tzedek, retidão). Ele curava com רַחֲמִים (rahamim, compaixão), ensinava com sabedoria, vivia com a fidelidade de אֱמוּנָה (emunah, lealdade) para com o Pai e caminhava constantemente na luz de קְדֻשָּׁה (kedushah, santidade).

Imitá-Lo é reencontrar a plenitude da vida moral. É lembrar que o espírito também precisa ser moldado, tanto quanto o corpo e a alma. Que a moralidade não pergunta apenas como evitar o mal, mas como tornar-se santo. Não apenas como ser justo, mas como ser fiel. Não apenas como evitar crueldade, mas como cultivar compaixão. Não apenas como equilibrar direitos, mas como honrar obrigações sagradas. É uma visão mais exigente, e também muito mais bela.

Se a ética moderna parece pequena, é porque perdeu seus pilares mais altos. Ela esqueceu קְדֻשָּׁה (kedushah, santidade) e אֱמוּנָה (emunah, fidelidade), e sem elas todo o edifício treme. Mas a Escritura não as esqueceu, nem os sábios de Israel, nem os discípulos de Yeshua que continuam ouvindo essas vozes mais profundas. Quando abrimos nossos ouvidos a esse vocabulário moral ampliado, algo dentro de nós se expande. Lembramos quem somos, criaturas feitas à imagem de D-us, chamadas não apenas a evitar o mal, mas a refletir a Sua santidade.

Talvez essa seja a tarefa dos crentes hoje, não atacar a moralidade moderna, mas ampliá-la suavemente, reintroduzindo ao nosso mundo a música mais rica de חֶסֶד (hesed), רַחֲמִים (rahamim), צֶדֶק (tzedek), מִשְׁפָּט (mishpat), אֱמוּנָה (emunah) e קְדֻשָּׁה (kedushah). Se permitirmos que essas palavras moldem nosso corpo, alma e espírito, talvez o mundo moral achatado volte a se erguer em três dimensões, amplo e vivo. E quem sabe descubramos que essa antiga arquitetura moral ainda está de pé, silenciosa e firme, esperando que entremos outra vez, não como estranhos, mas como filhos que voltam para casa.

Adivalter Sfalsin

(1) Jonathan Haidt, The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion (London, Allen Lane, 2012).

Doing What Is Right and Just

Doing What Is Right and Just

Among the most ancient words of the Torah, there is a phrase that still echoes today as a moral compass for humanity. It was spoken to Abraham, the first to hear the voice of a G-d who did not demand temples, but conduct. A G-d who desired not merely worshippers, but men and women capable of uniting faith with justice, love with truth, compassion with responsibility.

There are words in Scripture that do more than instruct; they shape entire civilisations. Among them, few possess such moral power as those the Eternal spoke concerning Abraham:

“For I have chosen him, that he may command his children and his household after him to keep the way of the Lord, by doing what is right and just, so that the Lord may bring upon Abraham what He has spoken of him.”

(Genesis 18:19)

In this modest verse, the Creator reveals the heart of the covenant. Abraham was not called merely to be the father of a people or of many nations, but to be the founder of a vision. His mission was to build a path, a way of life in which the name of G-d would be honoured not only in words, but in deeds.

In Hebrew, the words used by G-d contain entire universes of meaning. Tzedakah (צְדָקָה) derives from tzedek, meaning righteousness, goodness, generosity, moral integrity. It is the desire to do good, not out of obligation, but out of love. It is to give, to forgive, to restore, to care, the divine heartbeat pulsing within human action. It is often inadequately translated in the New Testament as charity.

Mishpat (מִשְׁפָּט) comes from shafat, meaning to judge, to balance, to decide with equity. It represents order, truth, and discernment, the foundation that sustains justice among people. It is the sense of right and wrong, of responsibility and consequence.

Perfect justice is born when tzedakah and mishpat walk together, when law meets mercy and compassion is anchored in truth. A world that has only mishpat becomes cold and harsh; a world that has only tzedakah loses itself in emotion without direction. The balance between the two reflects the very face of G-d.

Abraham was chosen to teach this harmony. In a culture that sought to appease gods through blood and sacrifice, he was called to reveal a G-d who delights more in justice than in offerings, more in mercy than in power, more in truth than in appearance. Holiness, in its purest form, does not dwell in temples but in the conscience. The altar the Eternal desired was not made of stone, but of heart.

Yet even before hearing the divine voice, Abraham had already learned the language of justice. While the generation of the Tower of Babel sought to build a name for themselves, Abraham sought to preserve the name of his brother who had died. He married Sarah, the daughter of Haran, not out of ambition but out of compassion. His first tzedakah was a family act, silent, hidden among the sorrows of a grieving home. And perhaps that is why the Eternal chose him. For the one who guards another’s memory becomes a living memory of G-d’s own presence.

In Abraham, the calling began at home. The Eternal chose him so that he might teach his children and his household after him to keep the way of the Lord by doing what is right and just. The movement is intimate, inward, familiar. Justice begins in the home, love blossoms in the tent, righteousness is learned among the children. From within arises the example that transforms what is around. The covenant with Abraham marks the birth of personal ethics, the man who learns to be just before trying to change the world.

But in David, the direction is reversed. “David reigned over all Israel, doing what was just and right for all his people.” (2 Samuel 8:15) Here the words are inverted, mishpat u’tzedakah, justice first, then mercy. The king begins with the social order, with law and governance. He rules, legislates, establishes mishpat, the rule of law, and only then allows tzedakah, compassion, to permeate the structures of the kingdom.

Why this inversion? Because Abraham speaks to the conscience, while David speaks to the crown. The first is the man of the tent; the second, the man of the throne. One is called to transform the family; the other, to reform the nation. Abraham represents the individual who radiates justice from within outward; David represents the ruler who brings justice from above downward.

In Abraham, faith shapes the home and, through it, the world. In David, leadership shapes society and, through it, the hearts of people. In the father of faith, the movement is personal and formative, building character. In the anointed king, the movement is institutional and public, building order. In Abraham, tzedakah precedes mishpat, for true justice is born of inner compassion. In David, mishpat precedes tzedakah, for true compassion needs order in which to flourish.

The first is the man who sows justice in the field of the heart. The second is the king who organises justice in the field of the nation. The first teaches his household; the second governs his people. And both reveal one divine truth: justice begins in the individual, but must reach the community; power is born of compassion, but is sustained only by equity.

And so, which path must we rediscover today? Abraham’s, awakening the conscience from within? Or David’s, reforming the world from above? Perhaps the challenge is to unite the two, to be people who build justice inwardly and extend it outward, leaders, even unseen ones, who transform structures through small and faithful acts.

The prophets understood this tension and turned it into a cry. Amos lifted his voice against religion without ethics and called for justice to roll like waters. Isaiah proclaimed that Zion would be redeemed not by ritual, but by righteousness. Jeremiah, with the tenderness of one who knows the heart of G-d, declared that there is no glory in being wise, strong, or rich, but only in knowing the Lord, who exercises kindness, justice, and righteousness on the earth, for in these He delights.

To know G-d is to imitate Him. And to imitate Him is to do good. True faith is not emotion or doctrine, but conduct. It is the union between altar and marketplace, between heart and tribunal, between prayer and action.

In the Gospels, Yeshua continued this same legacy. He criticised those who tithed meticulously yet neglected the weightier matters of the Torah, justice, mercy, and faithfulness. He did not abolish the Torah; He revealed its spirit. Justice without love is death. Love without truth is illusion. Faith without ethics is vanity. The way of the Lord is always the meeting of discipline that corrects and grace that restores.

And we, who live in a world where law becomes impersonal and love grows frail, what have we done with this calling? We speak of rights, yet forget duties. We seek compassion, yet fear truth. We long for freedom, yet flee responsibility. Still, the call of Abraham remains alive. What G-d expected of him, He still expects of us: to teach our children, to care for our homes, to walk in righteousness.

To do what is right and just is not a utopia; it is an act of spiritual resistance. It is to choose good when the world prefers convenience, to keep one’s word when silence would be easier, to share bread when instinct says to hoard, to defend the weak when the crowd turns away.

The world changes through small gestures. Each time someone chooses truth over lies, justice over vengeance, compassion over indifference, the legacy of Abraham is renewed. Every act of tzedakah is a seed of light; every gesture of mishpat is a stone in the rebuilding of humanity.

To keep the way of the Lord is to live with a heart aligned to His character. It is not to separate faith from conduct, prayer from responsibility, spirituality from humanity. The Creator does not seek perfection, but coherence. He does not demand purity without purpose, but faithfulness amidst imperfection.

Human history is a cycle of vengeance and power, yet the divine dream is to break that cycle with a river of justice. G-d does not desire a merely religious world, but one redeemed by the ethics of His Kingdom. The justice of G-d is not the sword that destroys, but the hand that corrects and heals. Righteousness is not the absence of error, but the presence of goodness.

And perhaps this is the final question that Genesis leaves us: will we be a generation that speaks of faith, or one that lives justice?

Every time truth and mercy meet, something of the Kingdom manifests among us. Every time a man or woman chooses what is right and just, Abraham once more becomes the father of many nations, and the dream of G-d breathes again among the children of promise. To do what is right and just is more than obeying a commandment; it is to share in the very breath of the Creator, to allow heaven to find a home on earth, to live so that, in looking at us, the world may perceive a reflection of the Lord.

Adivalter Sfalsin

Fazer o que é Certo e Justo

Fazer o que é Certo e Justo

Entre as palavras mais antigas da Torá, há uma frase que ecoa até hoje como bússola moral da humanidade. Foi dita a Abraão, o primeiro a ouvir a voz de um D-us que não exigia templos, mas conduta. Um D-us que desejava não apenas adoradores, mas homens e mulheres que soubessem unir fé e justiça, amor e verdade, compaixão e responsabilidade.

Há palavras nas Escrituras que não apenas informam, mas moldam civilizações inteiras. Entre elas, poucas têm tanta força moral quanto as que o Eterno pronunciou sobre Abraão:

“Porque Eu o conheço, e sei que ele ordenará a seus filhos e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor, praticando o que é justo e o que é direito, para que o Senhor faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado.”

(Gênesis 18:19)

Neste versículo discreto, o Criador revela o coração da aliança. Abraão não foi chamado apenas para ser pai de um povo e muitas nações, mas fundador de uma visão. Sua missão era construir um caminho, um modo de viver em que o nome de D-us seria honrado não apenas nos lábios, mas nas ações.

No hebraico, as palavras usadas por D-us carregam universos de sentido. Tzedaká (צְדָקָה) vem de tzedek, que significa retidão, bondade, generosidade, fidelidade moral. É a vontade de fazer o bem não por obrigação, mas por amor. É dar, perdoar, restaurar, cuidar. É o calor do coração divino pulsando dentro das ações humanas. Muitas vezes traduzido inadequadamente no novo testamento como caridade.

Mishpat (מִשְׁפָּט) vem de shafat, que significa julgar, equilibrar, decidir com equidade. Representa a ordem, a verdade e o discernimento que mantêm a justiça entre as pessoas. É o senso do certo e do errado, da responsabilidade e da consequência.

A justiça perfeita nasce quando tzedaká e mishpat andam juntas, quando a lei encontra a misericórdia e a compaixão se ancora na verdade. Um mundo que tem apenas mishpat torna-se frio e duro. Um mundo que tem apenas tzedaká se perde na emoção sem direção. O equilíbrio entre as duas é o reflexo da própria face de D-us.

Abraão foi escolhido para ensinar essa harmonia. No meio de uma cultura que acreditava apaziguar deuses com sangue, ele foi chamado a revelar um D-us que se agrada mais da justiça do que do sacrifício, mais da misericórdia do que da força, mais da verdade do que das aparências. A santidade (separação para um propósito), em sua forma mais pura, não habita no templo, mas na consciência. O altar que o Eterno desejava não era de pedra, mas de coração.

Mas antes mesmo de ouvir a voz divina, Abraão já havia aprendido a linguagem da justiça. Enquanto a geração da Torre de Babel buscava construir um nome para si, ele buscava preservar o nome do irmão que havia morrido. Casou-se com Sara, filha de Harã, não por ambição, mas por compaixão. A sua primeira tzedaká foi familiar, silenciosa, escondida entre as dores de uma casa enlutada. E talvez tenha sido por isso que o Eterno o escolheu. Porque aquele que cuida da memória do outro é digno de se tornar memória viva da própria presença de D-us.

Em Abraão, o chamado começou dentro de casa. O Eterno o escolheu para que ensinasse “a seus filhos e à sua casa depois dele a guardar o caminho do Senhor, praticando o que é justo e o que é direito.” O movimento é íntimo, interior, familiar. A justiça começa no lar, o amor floresce na tenda, a retidão se aprende entre os filhos. De dentro nasce o exemplo que transforma o redor. O pacto com Abraão é o nascimento da ética pessoal, do homem que aprende a ser justo antes de querer mudar o mundo.

Mas em Davi, o caminho toma direção inversa. “Davi reinou sobre todo Israel, fazendo o que era justo e direito a todo o seu povo.” (2 Samuel 8:15). Aqui as palavras se invertem — mishpat u’tzedaká — primeiro a justiça, depois a bondade. O rei começa pelo social, pelo sistema, pela ordem pública. Ele governa, legisla, estabelece mishpat, o direito, para então permitir que a tzedaká, a misericórdia, penetre as estruturas do reino.

Por que essa inversão? Porque Abraão fala à consciência, enquanto Davi fala à coroa. O primeiro é o homem da tenda, o segundo é o homem do trono. O primeiro é chamado a transformar a família, o segundo a reformar a nação. Abraão representa o indivíduo que irradia justiça de dentro para fora; Davi representa o governante que faz a justiça descer de cima para baixo.

Em Abraão, a fé molda o lar e, por meio dele, o mundo. Em Davi, a liderança molda a sociedade e, por meio dela, o coração das pessoas. No pai da fé, o movimento é pessoal e pedagógico: formar o caráter. No rei ungido, o movimento é institucional e público: formar a ordem. Em Abraão, tzedaká precede mishpat, porque a verdadeira justiça nasce da compaixão interior. Em Davi, mishpat precede tzedaká, porque a compaixão verdadeira precisa de estrutura para florescer.

O primeiro é o homem que semeia justiça no campo do coração. O segundo é o rei que organiza a justiça no campo da nação. O primeiro ensina a sua casa; o segundo governa o seu povo. E ambos revelam um mesmo segredo divino: a justiça começa no indivíduo, mas deve alcançar a comunidade; o poder nasce da compaixão, mas só se sustenta na equidade.

E então, qual desses caminhos precisamos redescobrir hoje? O de Abraão, que desperta a consciência de dentro para fora? Ou o de Davi, que reforma o mundo de cima para baixo? Talvez o desafio seja unir os dois. Ser pessoas que constroem justiça no íntimo e a estendem à sociedade. Ser líderes, ainda que invisíveis, que transformam estruturas por meio de gestos pequenos e fiéis.

Os profetas entenderam essa tensão e a transformaram em clamor. Amós ergueu a voz contra a religião sem ética e pediu que a justiça corresse como as águas. Isaías anunciou que Sião seria redimida não por rituais, mas pela prática da justiça. Jeremias, com a ternura dos que conhecem o coração de D-us, declarou que não há glória em ser sábio, forte ou rico, mas apenas em conhecer o Senhor, que exerce amor, justiça e retidão sobre a terra, porque disso Ele se agrada.

Conhecer D-us é imitá-Lo. E imitá-Lo é fazer o bem. A fé verdadeira não é emoção nem doutrina, mas conduta. É a união entre o altar e a praça, entre o coração e o tribunal, entre a oração e o gesto.

Nos evangelhos, Yeshua retomou esse mesmo legado. Criticou aqueles que cuidavam das minúcias do dízimo, mas esqueciam “os assuntos mais importantes da Torá: a justiça, a misericórdia e a fidelidade.” Ele não aboliu a Torá, apenas revelou o seu espírito. Justiça sem amor é morte. Amor sem verdade é ilusão. Fé sem ética é vaidade. O caminho do Senhor é sempre o encontro entre o rigor que corrige e a graça que restaura.

E nós, que vivemos num mundo onde a lei se torna impessoal e o amor se enfraquece, o que temos feito com esse chamado? Falamos de direitos, mas esquecemos deveres. Queremos compaixão, mas tememos a verdade. Buscamos liberdade, mas fugimos da responsabilidade. Ainda assim, o chamado de Abraão continua vivo. O que D-us esperava dele é o que ainda espera de nós: que ensinem os filhos, que cuidem da casa, que caminhem em retidão.

Fazer o que é certo e justo não é uma utopia. É um ato de resistência espiritual. É escolher o bem quando o mundo escolhe o conveniente. É manter a palavra quando o silêncio seria mais fácil. É dividir o pão quando o instinto seria guardar. É defender o fraco quando a multidão se cala.

O mundo muda em pequenos gestos. Toda vez que alguém escolhe a verdade em vez da mentira, a justiça em vez da vingança, a compaixão em vez da indiferença, o legado de Abraão se renova. Cada ato de tzedaká é uma semente de luz. Cada gesto de mishpat é uma pedra na reconstrução da humanidade.

Guardar o caminho do Senhor é viver com o coração alinhado ao Seu caráter. É não separar fé de conduta, oração de responsabilidade, espiritualidade de humanidade. O Criador não busca perfeição, mas coerência. Ele não exige pureza sem propósito, mas fidelidade em meio às falhas.

A história humana é feita de ciclos de vingança e poder, mas o sonho divino é quebrar esse ciclo com o rio da justiça. Ele não deseja um mundo apenas religioso, mas um mundo redimido pela ética do Reino. A justiça de D-us não é a espada que destrói, mas a mão que corrige e cura. A retidão não é ausência de erro, é presença de bondade.

E talvez seja essa a pergunta final que o texto de Gênesis nos deixa: seremos uma geração que fala sobre fé, ou uma geração que vive a justiça?

Toda vez que a verdade e a misericórdia se encontram, algo do Reino se manifesta entre nós. Toda vez que um homem ou uma mulher escolhe o que é certo e justo, Abraão se torna novamente pai de muitas nações, e o sonho de D-us volta a respirar entre os filhos da promessa. Fazer o que é certo e justo é mais do que obedecer a um mandamento. É participar da respiração do Criador. É permitir que o céu encontre morada na terra. É viver de tal maneira que, ao olhar para nós, o mundo possa perceber um reflexo do Senhor.

Adivalter Sfalsin

Between Destiny and Chance Hearing the Call of the Small Aleph When the Book of Leviticus opens, it does so with a single word that could easily go unnoticed: Vayikra וַיִּקְרָא – “He called.” Hardly the sort of word that makes fireworks explode in the reader’s imagination. Yet hidden in that one Hebrew verb is an entire theology of history, identity, and destiny. Open a Torah scroll and you’ll see that the last letter of Vayikra – the aleph (א) – is written unusually small. That miniature letter, dangling at the edge of the parchment, has puzzled and fascinated readers for centuries. Why did the scribes shrink it? Did someone’s quill slip? The rabbis assure us it was intentional. They tell us that Moses, out of humility, wanted to write Vayikar וַיִּקָּר – “He happened upon.” He felt too unworthy to claim that G-d had “called” him personally. G-d insisted otherwise. The compromise was a small aleph, humility written into revelation. And that, dear reader, is where the entire spiritual adventure begins. In Hebrew, the difference between Vayikra וַיִּקְרָא (“He called”) and Vayikar וַיִּקָּר (“He happened upon”) is one tiny letter, yet it separates meaning from accident, destiny from chance. To Moses, G-d calls; to Balaam, the mercenary prophet, G-d merely appears. One lives by vocation, the other by coincidence. In English we have a related word: vocation, from the Latin vocare, “to call.” Before it was hijacked by career counsellors and job boards, it meant precisely what Leviticus means – a divine summons to partnership. Life is not random existence; it is response. The modern world, of course, finds this embarrassing. We prefer careers to callings and options to obedience. We build apps to choose our lunch, then wonder why we cannot choose our purpose. Yet the Bible dares to whisper that history itself is not a collision of atoms but a conversation between G-d and humanity. Every “coincidence” might in fact be an invitation. The small aleph of Vayikra is more than calligraphic curiosity; it is theology in miniature. It teaches that divine encounter does not inflate the ego, it humbles it. The voice that called Moses out of the Tent of Meeting was not a thunderclap but, as Elijah later learned, a still small voice. C. S. Lewis once joked that humility is not thinking less of yourself but thinking of yourself less. The Torah got there first. The small aleph is that very posture – the lowering of self so that the whisper of G-d can be heard. And if we’re honest, that whisper is often drowned by noise: our plans, our anxieties, our self-promotion. We long for G-d to shout, but He seems committed to gentle speech. Apparently, heaven prefers to be heard rather than forced upon us. Long before Moses and the Tabernacle, another man heard a call: “Go from your country… to the land I will show you.” That “Go” (Lech-Lecha) is the seed of Vayikra. Abraham didn’t find G-d; G-d found him, and history bent around that encounter. Through Abraham, a people was called not for privilege but for purpose: to bless all families of the earth. Their survival through exiles, empires, and inquisitions defies every statistical chart. Chance would have erased them; destiny preserved them. And here is where we gentiles stumble upon our own small aleph. Paul says we have been grafted into that same olive tree, not as replacements but as participants in the same calling. The story of Israel is not someone else’s history; it is the backbone of ours. To speak of Vayikra is therefore to speak of a shared vocation, Jew and gentile alike summoned to reflect the character of the King whose kingdom Yeshua described when He taught us to pray, “Your will be done on earth as it is in heaven.” The call has always been global, the aleph always small. If you view history through the lens of Vayikar – “it just happened” – then Israel’s existence is a fluke, and your own faith a neurological accident. But if you read history through Vayikra, you begin to see a pattern of divine handwriting, patient and persistent. Leviticus itself begins with Vayikra and ends with the word keri קֶרִי, meaning “happenstance,” “accident,” or “indifference.” The word appears several times in Leviticus 26, describing a people who walk “with Me in keri,” that is, treating G-d’s providence as coincidence. It is the very opposite of covenantal awareness. The book, therefore, is framed by the tension between Vayikra and keri, destiny and chance. So is your life. From one angle, the Cross looked like the ultimate accident – a failed messiah executed by empire. From another, it was the centre of redemption, the hinge on which eternity turned. The same event, two readings. What separates them is faith’s capacity to hear purpose in pain. Rabbi Jonathan Sacks, in Leviticus: The Book of Holiness (pp. 57–60), observed that Israel’s holiness had two faces: the priestly and the prophetic. The priest sanctifies time through rhythm and ritual; the prophet sanctifies history through justice and mercy. Leviticus, the priestly book, exists to remind us that sacred order matters. But it is framed by stories of history – Exodus before it, Numbers after it – as if Scripture were saying, “Worship must spill into the world.” Ritual without righteousness becomes theatre; activism without reverence becomes noise. Both have their purpose, and both are needed. The same holds for the followers of Yeshua. We live in sacred time through prayer and communion, yet we walk through sacred history in our boardrooms, classrooms, and bus stops – places where the kingdom can be embodied. When worship and witness embrace, we hear again the echo of Vayikra. Now comes the uncomfortable part. If the aleph is small, then listening must be large. Our age is addicted to volume: the louder the opinion, the truer it must be. Silence, on the other hand, feels like failure. But G-d still prefers whispers. He meets Mary Magdalene in a garden with a single word, “Mary.” He walks unrecognised with two disciples until the breaking of bread. He breathes peace rather than delivering a sermon. Every scene of resurrection is quiet, as if the Creator were allergic to spectacle. Maybe holiness still enters the world that way: through unnoticed acts of obedience, through prayers nobody tweets, through faithfulness that never makes the news. The kingdom of heaven does not trend; it grows. To live Vayikra is to believe that no moment is meaningless, that washing dishes, writing essays, or comforting a friend can all become expressions of G-d if done in response to the call. And so the question returns: are you called, or are you coincidental? If life is Vayikar (וַיִּקָּר), everything is chance. Morality dissolves into subjectivity, and the line between right and wrong becomes a matter of personal opinion. Suffering loses its meaning, becoming merely a detour in a universe without direction. The world turns into noise — disconnected sounds of human wills colliding, without melody or conductor. Existence becomes a fragmented narrative, written by no one and destined to be forgotten. But if life is Vayikra (וַיִּקְרָא), everything gains direction. Morality ceases to be a personal choice and begins to reflect the moral order of the Creator Himself. Suffering ceases to be punishment or absurdity and becomes a path toward purpose. Life ceases to be noise and becomes symphony — every note, even the dissonant ones, part of a greater harmony that only the Divine Maestro can fully comprehend. To live Vayikar is to drift with the tide of chance; to live Vayikra is to respond to the call. One lives by impulse, the other by purpose. One seeks momentary pleasure, the other eternal meaning. Sacks concluded that the first word of Leviticus defines the destiny of Israel – “a kingdom of priests and a holy nation.” But the same sentence defines us all. To follow Yeshua is to hear that priestly call extended to the nations: not to replace Israel but to join the symphony of holiness that began with Abraham. To live by Vayikra is to stand where eternity meets Tuesday morning, to let heaven’s grammar shape your schedule. Every act of faith is a small aleph written into the world – humble, easily missed, yet indispensable to the sentence of redemption. History, then, is not accidental but a manuscript of divine patience. Each life is a line in that story, each prayer a syllable, each act of kindness a comma in the sentence of G-d’s mercy. So we return to the same question Moses faced, pen trembling above the parchment: Will you write Vayikra וַיִּקְרָא or Vayikar וַיִּקָּר over your life? Will you live as someone called, or as someone who merely happened? The small aleph waits, quiet, stubborn, holy, for your answer. Adivalter Sfalsin Footnotes 1. Leviticus 1:1 – “And He called (וַיִּקְרָא) to Moses, and the LORD spoke to him from the Tent of Meeting, saying…” 2. Numbers 23:4, 16 – “And God happened upon (וַיִּקָּר) Balaam, and he said to Him, ‘I have prepared the seven altars…’” 3. Leviticus 26:21, 23–24, 27–28 – “If you walk with Me with keri (קֶרִי), I also will walk with you with keri,” meaning indifference or happenstance; G-d responds measure for measure to those who treat His providence as coincidence. 4. Exodus 19:6 – Israel’s vocation described as “a kingdom of priests and a holy nation.” 5. Romans 11:17–18 – Paul’s image of gentiles grafted into Israel’s olive tree.

Between Destiny and Chance

Hearing the Call of the Small Aleph

When the Book of Leviticus opens, it does so with a single word that could easily go unnoticed: Vayikra וַיִּקְרָא – “He called.” Hardly the sort of word that makes fireworks explode in the reader’s imagination. Yet hidden in that one Hebrew verb is an entire theology of history, identity, and destiny.

Open a Torah scroll and you’ll see that the last letter of Vayikra – the aleph (א) – is written unusually small. That miniature letter, dangling at the edge of the parchment, has puzzled and fascinated readers for centuries. Why did the scribes shrink it? Did someone’s quill slip? The rabbis assure us it was intentional. They tell us that Moses, out of humility, wanted to write Vayikar וַיִּקָּר – “He happened upon.” He felt too unworthy to claim that G-d had “called” him personally. G-d insisted otherwise. The compromise was a small aleph, humility written into revelation. And that, dear reader, is where the entire spiritual adventure begins.

In Hebrew, the difference between Vayikra וַיִּקְרָא (“He called”) and Vayikar וַיִּקָּר (“He happened upon”) is one tiny letter, yet it separates meaning from accident, destiny from chance. To Moses, G-d calls; to Balaam, the mercenary prophet, G-d merely appears. One lives by vocation, the other by coincidence. In English we have a related word: vocation, from the Latin vocare, “to call.” Before it was hijacked by career counsellors and job boards, it meant precisely what Leviticus means – a divine summons to partnership. Life is not random existence; it is response. The modern world, of course, finds this embarrassing. We prefer careers to callings and options to obedience. We build apps to choose our lunch, then wonder why we cannot choose our purpose. Yet the Bible dares to whisper that history itself is not a collision of atoms but a conversation between G-d and humanity. Every “coincidence” might in fact be an invitation.

The small aleph of Vayikra is more than calligraphic curiosity; it is theology in miniature. It teaches that divine encounter does not inflate the ego, it humbles it. The voice that called Moses out of the Tent of Meeting was not a thunderclap but, as Elijah later learned, a still small voice. C. S. Lewis once joked that humility is not thinking less of yourself but thinking of yourself less. The Torah got there first. The small aleph is that very posture – the lowering of self so that the whisper of G-d can be heard. And if we’re honest, that whisper is often drowned by noise: our plans, our anxieties, our self-promotion. We long for G-d to shout, but He seems committed to gentle speech. Apparently, heaven prefers to be heard rather than forced upon us.

Long before Moses and the Tabernacle, another man heard a call: “Go from your country… to the land I will show you.” That “Go” (Lech-Lecha) is the seed of Vayikra. Abraham didn’t find G-d; G-d found him, and history bent around that encounter. Through Abraham, a people was called not for privilege but for purpose: to bless all families of the earth. Their survival through exiles, empires, and inquisitions defies every statistical chart. Chance would have erased them; destiny preserved them. And here is where we gentiles stumble upon our own small aleph. Paul says we have been grafted into that same olive tree, not as replacements but as participants in the same calling. The story of Israel is not someone else’s history; it is the backbone of ours. To speak of Vayikra is therefore to speak of a shared vocation, Jew and gentile alike summoned to reflect the character of the King whose kingdom Yeshua described when He taught us to pray, “Your will be done on earth as it is in heaven.” The call has always been global, the aleph always small.

If you view history through the lens of Vayikar – “it just happened” – then Israel’s existence is a fluke, and your own faith a neurological accident. But if you read history through Vayikra, you begin to see a pattern of divine handwriting, patient and persistent. Leviticus itself begins with Vayikra and ends with the word keri קֶרִי, meaning “happenstance,” “accident,” or “indifference.” The word appears several times in Leviticus 26, describing a people who walk “with Me in keri,” that is, treating G-d’s providence as coincidence. It is the very opposite of covenantal awareness.

The book, therefore, is framed by the tension between Vayikra and keri, destiny and chance. So is your life. From one angle, the Cross looked like the ultimate accident – a failed messiah executed by empire. From another, it was the centre of redemption, the hinge on which eternity turned. The same event, two readings. What separates them is faith’s capacity to hear purpose in pain.

Rabbi Jonathan Sacks, in Leviticus: The Book of Holiness (pp. 57–60), observed that Israel’s holiness had two faces: the priestly and the prophetic. The priest sanctifies time through rhythm and ritual; the prophet sanctifies history through justice and mercy. Leviticus, the priestly book, exists to remind us that sacred order matters. But it is framed by stories of history – Exodus before it, Numbers after it – as if Scripture were saying, “Worship must spill into the world.” Ritual without righteousness becomes theatre; activism without reverence becomes noise. Both have their purpose, and both are needed. The same holds for the followers of Yeshua. We live in sacred time through prayer and communion, yet we walk through sacred history in our boardrooms, classrooms, and bus stops – places where the kingdom can be embodied. When worship and witness embrace, we hear again the echo of Vayikra.

Now comes the uncomfortable part. If the aleph is small, then listening must be large. Our age is addicted to volume: the louder the opinion, the truer it must be. Silence, on the other hand, feels like failure. But G-d still prefers whispers. He meets Mary Magdalene in a garden with a single word, “Mary.” He walks unrecognised with two disciples until the breaking of bread. He breathes peace rather than delivering a sermon. Every scene of resurrection is quiet, as if the Creator were allergic to spectacle. Maybe holiness still enters the world that way: through unnoticed acts of obedience, through prayers nobody tweets, through faithfulness that never makes the news. The kingdom of heaven does not trend; it grows. To live Vayikra is to believe that no moment is meaningless, that washing dishes, writing essays, or comforting a friend can all become expressions of G-d if done in response to the call.

And so the question returns: are you called, or are you coincidental? If life is Vayikar (וַיִּקָּר), everything is chance. Morality dissolves into subjectivity, and the line between right and wrong becomes a matter of personal opinion. Suffering loses its meaning, becoming merely a detour in a universe without direction. The world turns into noise — disconnected sounds of human wills colliding, without melody or conductor. Existence becomes a fragmented narrative, written by no one and destined to be forgotten. But if life is Vayikra (וַיִּקְרָא), everything gains direction. Morality ceases to be a personal choice and begins to reflect the moral order of the Creator Himself. Suffering ceases to be punishment or absurdity and becomes a path toward purpose. Life ceases to be noise and becomes symphony — every note, even the dissonant ones, part of a greater harmony that only the Divine Maestro can fully comprehend. To live Vayikar is to drift with the tide of chance; to live Vayikra is to respond to the call. One lives by impulse, the other by purpose. One seeks momentary pleasure, the other eternal meaning.

Sacks concluded that the first word of Leviticus defines the destiny of Israel – “a kingdom of priests and a holy nation.” But the same sentence defines us all. To follow Yeshua is to hear that priestly call extended to the nations: not to replace Israel but to join the symphony of holiness that began with Abraham. To live by Vayikra is to stand where eternity meets Tuesday morning, to let heaven’s grammar shape your schedule. Every act of faith is a small aleph written into the world – humble, easily missed, yet indispensable to the sentence of redemption. History, then, is not accidental but a manuscript of divine patience. Each life is a line in that story, each prayer a syllable, each act of kindness a comma in the sentence of G-d’s mercy. So we return to the same question Moses faced, pen trembling above the parchment:

Will you write Vayikra וַיִּקְרָא or Vayikar וַיִּקָּר over your life?

Will you live as someone called, or as someone who merely happened? The small aleph waits, quiet, stubborn, holy, for your answer.

Adivalter Sfalsin

Footnotes

1. Leviticus 1:1 – “And He called (וַיִּקְרָא) to Moses, and the LORD spoke to him from the Tent of Meeting, saying…”

2. Numbers 23:4, 16 – “And God happened upon (וַיִּקָּר) Balaam, and he said to Him, ‘I have prepared the seven altars…’”

3. Leviticus 26:21, 23–24, 27–28 – “If you walk with Me with keri (קֶרִי), I also will walk with you with keri,” meaning indifference or happenstance; G-d responds measure for measure to those who treat His providence as coincidence.

4. Exodus 19:6 – Israel’s vocation described as “a kingdom of priests and a holy nation.”

5. Romans 11:17–18 – Paul’s image of gentiles grafted into Israel’s olive tree.

Entre o Destino e o Acaso

Entre o Destino e o Acaso

O Chamado do Pequeno Álef

Quando o livro de Levítico se abre, ele o faz com uma única palavra que poderia facilmente passar despercebida: Vayikra וַיִּקְרָא – “Ele chamou.” Dificilmente é o tipo de palavra que faz fogos de artifício explodirem em nossa imaginação. No entanto, escondido nesse único verbo hebraico está toda uma teologia da história, da identidade e do destino.

Ao abrir um rolo da Torá no início de Levítico, seu olhar encontrará a palavra Vayikra (וַיִּקְרָא) — “Ele chamou.” Observe bem: a última letra, o álef (א), quase se esconde, escrita menor do que as demais, como se a própria humildade tivesse sido inscrita na tinta da revelação. Essa letra minúscula, pendurada na borda do pergaminho, tem intrigado e fascinado leitores há séculos. Por que os escribas a diminuíram? Teria a pena de alguém escorregado? Os rabinos garantem que foi intencional. Eles contam que Moisés, por humildade, quis escrever Vayikar וַיִּקָּר – “Ele aconteceu sobre.” Moisés se sentiu indigno demais para afirmar que D-us o havia “chamado” pessoalmente. D-us, porém, insistiu no contrário. O compromisso foi um pequeno álef — a humildade escrita dentro da revelação.

E é aí, caro leitor, que toda a aventura espiritual começa.

Em hebraico, a diferença entre Vayikra וַיִּקְרָא (“Ele chamou”) e Vayikar וַיִּקָּר (“Ele aconteceu sobre”) é uma única letra minúscula, e ainda assim separa o significado do acaso, o destino da coincidência. No caso de Moisés, D-us chama; no caso de Balaão, o profeta mercenário, D-us apenas aparece. Um vive por vocação; o outro, por coincidência.

A própria palavra vocação vem do latim vocare, que significa “chamar”. Antes de se tornar um termo de carreira ou profissão, designava algo muito mais profundo: um chamado divino, um convite à parceria com o Criador. A vida, portanto, não é uma sucessão de acasos, mas uma resposta.

O mundo moderno, é claro, acha isso constrangedor. Preferimos carreiras a chamados e opções a obediência. Criamos aplicativos para escolher o almoço e depois nos perguntamos por que não conseguimos escolher nosso propósito. No entanto, a Bíblia ousa sussurrar que a história não é uma colisão de átomos, mas uma conversa entre D-us e a humanidade. Cada “coincidência” pode ser, na verdade, um convite.

O pequeno álef de Vayikra é mais que uma curiosidade caligráfica; é teologia em miniatura. Ele ensina que o encontro divino não infla o ego, mas o humilha. A voz que chamou Moisés da Tenda da Congregação não foi um trovão, mas, como Elias mais tarde aprendeu, uma voz mansa e suave.

C. S. Lewis certa vez brincou que humildade não é pensar menos de si mesmo, mas pensar em si mesmo menos. A Torá já dizia isso antes. O pequeno álef é exatamente essa postura, o abaixamento do eu para que o sussurro de D-us possa ser ouvido. E, sejamos honestos, esse sussurro muitas vezes é abafado pelo barulho: nossos planos, nossas ansiedades, nossa autopromoção. Queremos que D-us grite, mas Ele parece comprometido com a suavidade. Aparentemente, o céu prefere ser ouvido, não imposto.

Muito antes de Moisés e do Tabernáculo, outro homem ouviu um chamado: “Sai da tua terra… para a terra que Eu te mostrarei.” Esse “Sai” (Lech-Lecha) é a semente de Vayikra. Abraão não encontrou D-us; D-us o encontrou, e a história se curvou em torno desse encontro. Por meio de Abraão, um povo foi chamado — não para privilégio, mas para propósito: abençoar todas as famílias da terra.

Sua sobrevivência através de exílios, impérios e inquisições desafia qualquer gráfico estatístico. O acaso os teria apagado; o destino os preservou. E é aqui que nós, gentios, tropeçamos em nosso próprio pequeno álef. Paulo diz que fomos enxertados na mesma oliveira, não como substitutos, mas como participantes do mesmo chamado. A história de Israel não é a história de “outros”; é a espinha dorsal da nossa.

Falar de Vayikra, portanto, é falar de uma vocação compartilhada: judeus e gentios igualmente convocados a refletir o caráter do Rei cujo reino Yeshua descreveu quando ensinou a orar: “Seja feita a Tua vontade na terra como no céu.” O chamado sempre foi global; o álef sempre pequeno.

Se você vê a história pela lente de Vayikar — “foi apenas acaso” — então a existência de Israel é um capricho, e sua própria fé, um acidente neurológico. Mas se você lê a história através de Vayikra, começa a perceber um padrão na caligrafia divina — paciente, persistente e cheia de propósito.

Levítico começa com Vayikra e termina com a palavra keri קֶרִי, que significa “casualidade”, “acidente” ou “indiferença”. Essa palavra aparece várias vezes em Levítico 26, descrevendo um povo que anda “comigo em keri”, isto é, tratando a providência divina como coincidência. É o oposto da consciência da aliança.

O livro, portanto, é moldado pela tensão entre Vayikra e keri, entre destino e acaso. Assim também é a sua vida.

De um ângulo, a cruz pareceu o maior acidente, um messias fracassado executado por um império. De outro, foi o centro da redenção, a dobradiça sobre a qual a eternidade girou. O mesmo evento, duas leituras. O que as separa é a capacidade da fé de ouvir propósito na dor.

Levítico, o livro sacerdotal, existe para nos lembrar que a ordem sagrada importa. Mas é enquadrado por histórias — Êxodo antes dele, Números depois — como se a Escritura dissesse: “O culto deve transbordar para o mundo.” Ritual sem justiça torna-se teatro; ativismo sem reverência torna-se ruído. Ambos têm seu propósito e ambos são necessários.

O mesmo vale para os seguidores de Yeshua. Vivemos em tempo sagrado através da oração e da comunhão, mas também caminhamos pela história sagrada em nossos escritórios, salas de aula e pontos de ônibus, lugares onde o reino pode ser encarnado. Quando adoração e testemunho se abraçam, ouvimos novamente o eco de Vayikra.

Agora vem a parte desconfortável. Se o álef é pequeno, a escuta precisa ser grande. Nossa era é viciada em volume: quanto mais alto o discurso, mais verdadeiro parece. O silêncio, por outro lado, soa como fracasso.

Mas D-us ainda prefere sussurros. Ele encontra Maria Madalena em um jardim com uma única palavra: “Maria.” Caminha despercebido com dois discípulos no caminho de Emaús até o partir do pão. Sopra paz em vez de pregar um sermão. Cada cena da ressurreição é silenciosa, como se o Criador fosse alérgico ao espetáculo.

Talvez a santidade ainda entre no mundo assim: através de atos ocultos de obediência, de orações que ninguém publica, de fidelidade que nunca vira manchete. O reino dos céus não viraliza; ele cresce.

Viver Vayikra é acreditar que nenhum momento é insignificante, que lavar pratos, escrever um texto ou consolar um amigo podem ser expressões de D-us quando feitos em resposta ao chamado.

E então a pergunta retorna: você tem um propósito e é chamado ou é simplesmente um mero acidente do cosmos?

Se a vida é Vayikar (וַיִּקָּר), tudo é acaso. A moralidade se dissolve em subjetividade, e a linha entre o certo e o errado torna-se apenas questão de opinião. O sofrimento perde o sentido, tornando-se um erro de percurso num universo sem direção. O mundo torna-se ruído, sons desconexos de vontades humanas em conflito, sem melodia nem maestro. A existência é uma narrativa fragmentada, escrita por ninguém e destinada ao esquecimento.

Mas se a vida é Vayikra (וַיִּקְרָא), tudo ganha direção. A moralidade deixa de ser uma escolha pessoal e passa a refletir a ordem moral do próprio Criador. O sofrimento deixa de ser castigo ou absurdo e se transforma em caminho para o propósito. A vida deixa de ser ruído e se torna sinfonia, cada nota, ainda que dissonante, faz parte de uma harmonia maior que só o Maestro divino compreende.

Viver Vayikar é flutuar ao sabor do acaso; viver Vayikra é responder ao chamado. Um vive de impulsos, o outro de propósito. Um busca prazer momentâneo, o outro significado eterno.

Sacks concluiu que a primeira palavra de Levítico define o destino de Israel: “um reino de sacerdotes e uma nação santa.” Essa é a mesma sentença que nos define a todos. Seguir Yeshua é ouvir esse chamado sacerdotal estendido às nações — não para substituir Israel, mas para unir-se à sinfonia de santidade que começou com Abraão.

Viver por Vayikra é permanecer onde a eternidade encontra a segunda-feira pela manhã, deixando a gramática do céu moldar a rotina. Cada ato de fé é um pequeno álef escrito no mundo — humilde, fácil de ignorar, mas indispensável à sentença da redenção.

A história, então, não é acidental, mas um manuscrito da paciência divina. Cada vida é uma linha nessa narrativa, cada oração uma sílaba, cada ato de bondade uma vírgula na frase da misericórdia de D-us.

E assim voltamos à mesma pergunta que Moisés enfrentou, com a pena em nossas mãos tremendo sobre o pergaminho:

Escreveremos Vayikra וַיִּקְרָא ou Vayikar וַיִּקָּר sobre a nossa vida?

Você viverá como alguém chamado, ou como um mero acidente do destino?

O pequeno álef espera silencioso, teimoso e santo, pela sua resposta.

Adivalter Sfalsin

Referência 

1. Levítico 1:1 – “E Ele chamou (וַיִּקְרָא) a Moisés, e o Senhor falou com ele desde a Tenda da Congregação, dizendo…”

2. Números 23:4, 16 – “E D-us aconteceu sobre (וַיִּקָּר) Balaão, e ele disse: ‘Preparei os sete altares…’”

3. Levítico 26:21, 23–24, 27–28 – “Se andardes comigo com keri (קֶרִי), também Eu andarei convosco com keri,” significando indiferença ou casualidade; D-us responde na mesma medida àqueles que tratam Sua providência como coincidência.

4. Êxodo 19:6 – A vocação de Israel descrita como “um reino de sacerdotes e uma nação santa.”

5. Romanos 11:17–18 – A imagem de Paulo dos gentios enxertados na oliveira de Israel.

Halloween

What is Halloween?

Why study Halloween, a festival that appears American and far from our own reality? Although many in Brazil still treat it as a foreign curiosity, this celebration has been steadily gaining ground in everyday life — in schools, in English classes, on television and even at club parties. But what truly lies behind this date, and where does all its symbolism come from?

What is Halloween? Celebrated on the night of 31 October, Halloween is marked by costumes, bonfires and the familiar “trick or treat”. Children dress as monsters, witches and ghosts, knocking on doors in search of sweets. Today, however, Halloween is far more than a children’s diversion: it has become one of the most lucrative dates in American retail. It is estimated that 60% of costumes are sold to adults, and that one in four people aged between 18 and 40 wears some form of fancy dress. For self-described psychics, witches, clairvoyants and seers, it is the busiest day of the year. Publishers of books on astrology and the occult report a marked rise in sales. In cities such as Salem, Massachusetts — the historic centre of American witch lore — the “Festival of the Haunted” boosts tourism and extends the summer season.

Origins and symbolism: the word “Halloween” derives from the English expression “All Hallows’ Eve”, meaning the eve of All Saints’ Day. “Hallow” means “holy” and “e’en” is a shortened form of “evening”. Literally, “the Night of All Saints”.

The meaning, though, runs deeper than the translation. The 31st of October was one of the most important dates in the Celtic calendar, known as Samhain, the festival marking the start of winter and the end of the harvest. It formed one of the four great quarter-days of the Celtic year:

  1. 2 February — Imbolc, associated with the figure of Brigid, symbol of healing.
  2. 1 May — Beltane, the time of planting, when the druids performed rites to favour the growth of crops.
  3. August — Lughnasadh, the harvest festival in honour of the sun-god Lugh.
  4. 31 October — Samhain, ushering in winter, the season of death and the earth’s rebirth.

During Samhain, druids believed the worlds of the living and the dead overlapped. Samhain, “the Lord of Death”, was thought to return with the spirits of those who had died that year, seeking to inhabit the living. For that reason, household lights were extinguished, great hilltop bonfires were lit, and people wore animal skins to ward off wandering spirits. Bonfires were viewed as a means of divination, revealing portents through smoke and flame.

Over the centuries, the Catholic Church sought to Christianise the date. All Saints’ Day, formerly kept in May, was moved to 1 November by Pope Gregory III in the ninth century, overlaying the old Samhain with All Hallows’ Eve. Later, Pope Gregory IV made the observance universal and, soon after, All Souls’ Day (2 November) was instituted, reinforcing the blending of pagan remembrance of the dead with the Christian commemoration of saints and faithful departed. The strategy was clear: adapt pagan rites within a Christian framework — a pattern seen in Brazil too, where Catholic saints were historically aligned with African deities during the period of slavery.

Elements and symbols of Halloween:

  1. DruidsPriests of Celtic tribes in ancient France, England and Ireland, druids served as interpreters of the gods and conducted rites in forests and caves. They worshipped multiple deities and performed sacrifices — including human — in attempts to foresee the future, holding sacred the moon, the oak, the cat and the midnight hour. They were largely suppressed by the Romans, though they remained active in Ireland until the fourth century.
  2. Witches and ghostsAncient druids believed that on the night of 31 October witches, fairies and spirits roamed to trouble the living. The idea has endured in popular culture, reflected in costumes and tales of terror.
  3. Full moon, cats and batsThe full moon was regarded as the proper time for rites. Cats, considered sacred, were seen as reincarnated human spirits or as a witch’s familiar. Bats, being nocturnal and elusive, became associated with witchcraft and the demonic, especially in the Middle Ages.
  4. Jack-o’-lanternsThe custom comes from the Irish legend of Jack, a man condemned to wander with a live coal inside a hollowed turnip. In the United States, the turnip was replaced by the more abundant, easier-to-carve pumpkin. The grimacing face symbolised a condemned soul and became Halloween’s emblem.
  5. “Trick or treat”In Celtic tradition, food left at the door was thought to placate spirits. Over time, beggars would ask for food in exchange for prayers for the dead — the root of modern door-to-door sweet-collecting. There are also accounts of processions led by men who gathered offerings from farmers under threat of ill fortune on their crops — an early form of spiritual blackmail.
  6. Masks and costumesMasks were used to confuse or ward off malevolent spirits. In many cultures they also served for spirit-communication or protection against calamity. In modern celebrations they are playful, but their origin is ritual.
  7. BonfiresThe English word “bonfire” comes from “bone fire”. Druids burnt animals — and at times people — as sacrifices, believing the smoke revealed omens. Later, during the Inquisition and the Reformation, fires were used to torture and execute those accused of witchcraft.
  8. The colours orange and blackOrange represents fire and harvest; black, darkness and death. Together they signify the passage between life and death. In older masses for the dead, beeswax candles with an orange hue and black funeral drapes were common.
  9. Witchcraft and persecutionAcross the centuries, thousands were tortured and executed under accusations of witchcraft. The Catholic Inquisition, episodes within the Protestant Reformation, and the Salem trials of 1692 stand as stark examples of collective hysteria. Elderly women, midwives, attractive young women and those with disabilities were all unjustly condemned. In parts of Germany and France, mass executions left some towns without women; by some estimates more than 30,000 people were killed between the fifteenth and seventeenth centuries.

Halloween today: beyond its pagan heritage and emphasis on darkness, fear and death, Halloween can be marred by vandalism and poor taste. In the United States, public prayers have been banned in schools, yet Halloween continues openly. Some animal shelters suspend adoptions of black cats in this period, fearing ritual misuse. In Brazil and elsewhere, more people describe themselves as witches and practise occult rites. Is it all a harmless game, or does a deeper spiritual influence linger behind seemingly innocent symbols?

What the Bible teaches: Scripture speaks plainly about occult practices. Numerous passages — Deuteronomy 18:9–14, Isaiah 8:19, Leviticus 19 and 20, Galatians 5:19–21, Romans 12:2, Ephesians 6:12, Revelation 21:8; 22:15 — denounce witchcraft, necromancy and every spiritual practice contrary to the will of G-d. The apostle Paul reminds us that “our struggle is not against flesh and blood, but against the powers of this dark world” (Eph 6:12).

Is there anything wrong with taking part in an apparently innocent celebration of costumes and sweets? Halloween may seem like pure fun, yet it carries centuries of spiritual symbolism bound up with death, witchcraft and the cult of the dead. It falls to each of us to discern what we celebrate, and what we are feeding in our culture and in our own spirit. Every symbol bears a meaning, and every meaning serves a purpose.

Draw your own conclusions.

Adivalter Sfalsin

Bibliography

BURNS, E. M. Western Civilisations, Their History and Their Culture. W. W. Norton & Co. Inc., New York, 1968.

ANKERBERG, J.; WELDON, J. The Facts on Halloween: What Christians Need to Know. Harvest House, Oregon, 1996.

PHILLIPS, P.; ROBIE, J. H. Halloween and Satanism. Starburst, 1987.

HURT, R. The History of Halloween and the Word of G-d. Unpublished manuscript.

MARGADONNA, S. Halloween.