Livre-arbítrio ou Determinismo?

Todo final de ano traz consigo um certo clima de renovação: alguns fazem promessas, traçam metas ousadas e apostam em rituais que, de alguma forma, acreditamos que possam influenciar nosso futuro. Vestir branco na virada, participar de uma vigília longa de oração, abrir o champanhe à meia-noite — todos esses são gestos simbólicos que representam o desejo de controlar ou moldar o que virá. Por outro lado, quando olhamos para o ano que passou, é comum nos depararmos com eventos que escaparam completamente ao nosso planejamento. “Foi o destino” ou “foi a vontade de D-us”, dizemos, quando algo dá errado ou foge ao nosso controle.

Mas afinal, somos donos do nosso próprio nariz ou estamos condenados a cumprir um roteiro já escrito? Esse é o cerne do dilema entre livre-arbítrio e determinismo, uma das “pegadinhas” filosóficas mais antigas e que, até hoje, provoca debates acalorados. De um lado, acreditamos em nossa autonomia para escolher caminhos, mas, de outro, não resistimos a lançar olhares de culpa ou de alívio ao destino ou mesmo a uma vontade divina soberana. 

1. A Visão Grega de Livre-Arbítrio e Destino

A civilização grega antiga produziu alguns dos mais brilhantes filósofos de todos os tempos. Em muitas de suas tragédias, por exemplo, vemos personagens tentando escapar de profecias que, ironicamente, se cumprem justamente por conta das ações tomadas para evitá-las. Esse conflito aparece, por exemplo, na famosa história de Édipo, rei de Tebas, cujo destino de matar o pai e casar-se com a própria mãe foi selado por um oráculo. Embora ele tentasse fugir de seu trágico fado, cada passo o conduzia precisamente a esse desfecho.

Já na filosofia, pensadores como Sócrates, Platão e Aristóteles refletiram sobre a possibilidade de o ser humano agir de maneira consciente e racional. Para Platão, o conhecimento do Bem era fundamental para agir corretamente; já Aristóteles, ao tratar da virtude, enfatizava a importância de cultivarmos hábitos positivos por meio de nossas escolhas. Na prática, havia uma tensão evidente entre a ideia do destino (freqüentemente ligado à vontade dos deuses gregos ou às Moiras, entidades que teciam o fio da vida de cada pessoa) e a noção de virtude humana, que pressupõe a possibilidade de escolha moral.

Em síntese, a tradição grega se debateu entre o fatalismo — a crença de que tudo já está determinado por forças além de nosso controle — e a responsabilidade moral, que exige a existência de alguma forma de livre-arbítrio. Para muitos gregos, o homem não era inteiramente livre: deveria submeter-se à ordem cósmica, representada pelos deuses e pela fortuna (Tique). No entanto, a capacidade de raciocinar e de buscar a virtude permitia algum grau de autonomia. Esse contraste ainda ecoa nos tempos modernos, quando, por exemplo, atribuímos sucesso ou fracasso a uma “força maior”, mesmo acreditando na importância de fazermos boas escolhas.

2. A Perspectiva Hebraica Bíblica

Diferentemente das reflexões majoritariamente filosóficas dos gregos, a abordagem hebraica bíblica parte da concepção de que D-us é soberano e governa o mundo de acordo com Sua vontade. A Bíblia Hebraica (ou Antigo Testamento), porém, não deixa de reconhecer a autonomia humana. O grande exemplo disso está em Deuteronômio 30:19, quando D-us diz ao povo de Israel: “Coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Agora escolham a vida”. Esse texto evidencia que o ser humano tem a possibilidade real de escolher, e tal escolha traz consequências para a vida.

Ao mesmo tempo, encontramos passagens que atribuem a D-us o controle absoluto sobre os acontecimentos. Em Isaías 46:9-10, por exemplo, D-us afirma: “Meu propósito se cumprirá, e farei tudo o que me agrada”, indicando que nada escapa ao Seu plano. Há também textos em que D-us “endurece o coração” de determinadas figuras, como o Faraó no livro do Êxodo. Esses casos sugerem um grau de determinismo divino, como se o Divino orquestrasse situações específicas para cumprir Seus desígnios.

A tensão entre a soberania divina e a responsabilidade humana transparece em histórias como a de José, vendido pelos irmãos. Em Gênesis 50:20, José diz: “Vocês planejaram o mal contra mim, mas D-us o tornou em bem”. Isto é, os irmãos agiram por inveja e crueldade (exercendo, portanto, um livre-arbítrio que se inclinou para o mal), mas D-us transformou essa ação maldosa em algo positivo para salvar muitas vidas. A conclusão que se tira desse episódio é que, mesmo quando o ser humano usa sua liberdade para o mal, D-us pode intervir, fazendo com que Seu plano maior se cumpra. Nesse caso, vemos simultaneamente um ato humano livre e uma ação divina determinista.

Portanto, a tradição hebraica bíblica não resolve a tensão de modo puramente lógico. Em vez disso, apresenta-a como um paradoxo: D-us é completamente soberano, porém o homem é inteiramente responsável por seus atos. Em última análise, o propósito divino prevalece, ainda que cada pessoa seja convocada a fazer escolhas morais, com todas as implicações que isso acarreta.

3. Reflexão Sobre as Duas Abordagens

Quando compararmos a perspectiva grega e a hebraica bíblica, percebemos pontos de convergência e divergência. Ambas reconhecem que existem forças ou princípios que transcendem a vontade humana — seja na forma de deuses, destino ou da soberania de um D-us único. Também reconhecem que o ser humano tem um papel ativo em sua jornada. A diferença principal é que, enquanto os gregos muitas vezes viam a relação entre destino e liberdade como um embate entre o poder dos deuses e a virtude humana, o pensamento hebraico bíblico aponta para uma convivência paradoxal, mas real, entre a soberania de Divina e a responsabilidade humana.

No nosso dia a dia, essa tensão se manifesta com frequência. Por exemplo, ao iniciarmos um novo ano — digamos, 2025 — somos tomados pela sensação de que tudo pode mudar se nos empenharmos: novo emprego, dietas bem-sucedidas, relacionamentos saudáveis. Entretanto, ao olharmos para trás, para um 2024 cheio de dificuldades, às vezes atribuímos os fracassos a um destino implacável ou a uma “vontade superior” que não entendemos. Essa dualidade gera questionamentos: se temos livre-arbítrio, por que oramos para que D-us conceda sucesso? Se o destino é inexorável, por que nos esforçamos?

A resposta, se é que existe, está na natureza desse conflito: o livre-arbítrio nos concede responsabilidade por nossas escolhas; o determinismo (ou a soberania divina) nos lembra de que há elementos fora de nosso controle e que, em última instância, o fluxo dos acontecimentos pode ser conduzido por uma força maior. Dependendo de nossa crença pessoal, podemos enfatizar mais um lado do que o outro. No entanto, a vivência humana é, em geral, marcada por uma oscilação constante entre a confiança no nosso poder de decisão e a humildade de reconhecer a existência de algo maior que nós.

Diante dessas reflexões, podemos perceber que o dilema entre livre-arbítrio e determinismo não tem uma solução puramente lógica. Na tradição grega, convivemos com a ideia de um destino traçado pelos deuses, mas ainda há espaço para a virtude humana. Na perspectiva hebraica bíblica, a soberania de Divina convive com a responsabilidade humana de escolher entre o bem e o mal. Em ambos os casos, há um convite para a ação consciente e uma advertência de que nem tudo está sob nosso controle.

O ponto crucial é que esse paradoxo não precisa ser motivo de angústia sem saída. Ao contrário, ele pode nos estimular a refletir profundamente sobre o valor de cada escolha que fazemos. O que realmente importa é como lidamos com a liberdade que possuímos e como aceitamos — ou não — os reveses que escapam à nossa vontade. Seja qual for a nossa postura, o chamado é para reconhecer que nossas decisões têm impacto moral e espiritual, e que há um poder maior que transcende a nossa compreensão.

Por isso, ao iniciarmos um novo ciclo, podemos tanto fazer planos e nos esforçarmos para cumpri-los quanto reconhecer que fatores externos (ou mesmo a intervenção divina) podem alterar o rumo que traçamos. É nessa dança entre o fazer humano e o mistério divino que a vida acontece. E, como diz uma das passagens mais marcantes das Escrituras hebraicas, nosso desafio é escolher a vida — isto é, optar pelo bem, assumir responsabilidades e buscar o melhor para nós e para os outros.

D-us é soberano mas o homem é responsável pelas suas ações e, quando o livre-arbítrio é usado para o mal e D-us intervém para o bem, chamamos isso de justiça. Pois a soberania Divina se manifesta. Quem não quer que a justiça seja feita?

Adivalter Sfalsin

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Hanukkah e Jesus

Uma Festa de Dedicação e Fé

Você sabia que Jesus (Yeshua) participou de um festival que comemora um dos momentos mais importantes da história judaica? Esse festival é chamado de Hanukkah, ou Festa da Dedicação, e é mencionado brevemente no Evangelho de João. Vamos explorar a história, a conexão com Jesus (Yeshua) e as lições atemporais que essa celebração traz para nós hoje.

O Contexto Histórico de Hanukkah, ou a Festa da Dedicação, tem suas raízes nos eventos do século II a.C. Ela celebra a rededicação do Templo de Jerusalém após sua profanação pelo rei selêucida Antíoco Epifânio IV. Antíoco transformou o Templo judeu em um santuário para deuses gregos, sacrificando porcos no altar e proibindo práticas judaicas como a circuncisão, a observância do sábado e o estudo da Torá. Em resposta, um pequeno grupo de guerreiros judeus, liderados pelos Macabeus, iniciou uma revolta corajosa. Contra todas as probabilidades, eles derrotaram o exército grego muito maior, retomaram o Templo e o purificaram. Essa vitória não foi apenas militar, mas também ideológica. Os Macabeus resistiram aos ideais gregos de perfeição física, simbolizados pelos atletas nus nas Olimpíadas, e ao desprezo grego pelas práticas religiosas judaicas. Hanukkah comemora essa vitória pela alma e identidade do povo judeu.

No Novo Testamento, vemos Jesus presente durante esse festival. Em João 10:22-23, lemos:“Celebrava-se em Jerusalém a Festa da Dedicação. Era inverno, e Jesus (Yeshua) estava no templo, no Pórtico de Salomão.” Essa menção breve carrega um significado profundo, conectando Jesus à rica herança judaica de fé, resistência e rededicação.

Uma Jornada de Fé. Embora o Evangelho não descreva se Jesus (Yeshua) participou de rituais específicos, Sua presença em Jerusalém durante Hanukkah é reveladora. Por que Ele faria uma jornada de 4 a 6 dias de Nazaré até Jerusalém se esse evento não tivesse grande importância? Viajar naquela época não era fácil nem barato:

1. A Distância: De Nazaré a Jerusalém são cerca de 113 a 129 quilômetros pelas rotas antigas, o que exigia 4 a 6 dias de caminhada.

2. O Custo: Viajantes levavam provisões básicas, mas comida extra ou hospedagem em estalagens custavam caro. Uma noite em uma hospedaria simples podia custar alguns denários, o equivalente ao salário diário de um trabalhador.

3. Os Riscos:

• Ladrões frequentemente atacavam viajantes em áreas remotas, como ilustrado na parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:25-37).

• Animais Selvagens, como lobos, eram um perigo, especialmente à noite.

• Soldados Romanos e Cobradores de Impostos podiam assediar os viajantes por subornos ou impor taxas adicionais.

Diante desses desafios, a presença de Jesus (Yeshua) no Templo durante Hanukkah sublinha sua importância. Seria altamente improvável que Ele fizesse tal jornada sem se envolver com os temas de dedicação, resistência e rededicação que a festa celebra.

Por Que Muitos Cristãos Não Sabem Disso? Muitos cristãos desconhecem a importância de Hanukkah ou a conexão de Jesus (Yeshua) com essa celebração porque ela é mencionada apenas brevemente no Evangelho de João. Além disso, a identidade judia de Jesus muitas vezes é minimizada em contextos religiosos. Mas compreender Sua participação em Hanukkah enriquece nossa perspectiva sobre Sua vida e ministério. Isso nos mostra um Salvador que não apenas compreendia a importância da história judaica, mas também vivia dentro de seus ritmos e valores.

Ontem e Hoje. Hanukkah não é apenas sobre uma vitória militar—é uma celebração de resiliência espiritual. A batalha dos Macabeus foi tanto contra a ideologia grega quanto contra os soldados gregos. Os gregos celebravam a perfeição física, exemplificada nas Olimpíadas, onde atletas competiam nus para exibir seus corpos. Eles viam práticas judaicas, como a circuncisão, como uma “desecração” do corpo humano.

Os gregos foram além, proibindo pilares fundamentais da vida judaica:

• A observância do sábado, que marcava o tempo como sagrado.

• A celebração do início dos meses e festivais, as luas novas.

• O estudo e a preservação da Torá, que sustentavam a identidade judaica.

Alguns judeus abraçaram a cultura grega sem questionar, enquanto outros sucumbiram à pressão. Os Macabeus resistiram, não apenas contra inimigos externos, mas também contra judeus que haviam abandonado sua fé. A guerra pelo Templo era, na verdade, uma guerra pela alma e identidade do povo judeu. Essa mensagem ressoa profundamente nos dias de hoje. Assim como os gregos tentaram substituir os valores judaicos pelos seus, a cultura moderna muitas vezes pressiona os cristãos a abandonar as verdades bíblicas. Pense nos desafios que enfrentamos:

• Sustentar o casamento bíblico é rotulado como intolerante.

• Defender a unicidade dos papéis masculinos e femininos é considerado preconceituoso.

• Defender valores familiares e morais é descartado como ultrapassado.

Até mesmo alguns cristãos adotam essas visões liberais, assim como alguns judeus da era dos Macabeus abraçaram o helenismo. Mas Hanukkah nos lembra que permanecer firme na fé vale o custo.

Um Chamado à Verdade e Identidade. A batalha de Hanukkah não foi apenas sobre recuperar um edifício; foi sobre recuperar a identidade e a verdade. Os Macabeus recusaram-se a se curvar à cultura dominante, e sua vitória preservou a fé judaica para as gerações futuras. Como cristãos, enfrentamos batalhas semelhantes. A pressão cultural para nos conformarmos a novas definições de moralidade, identidade e verdade é imensa. Mas, assim como os Macabeus recusaram-se a comprometer sua fé, somos chamados a defender as verdades bíblicas com coragem e convicção.

Um Convite à Dedicação. Hanukkah não é apenas um feriado judaico—é um lembrete poderoso da importância de permanecer firme na fé. Para Jesus (Yeshua), essa festa era um momento para lembrar a dedicação do Templo e a fidelidade daqueles que vieram antes Dele. Para nós, é um chamado para rededicar nossas vidas à verdade de D-us, não importa o custo. Em um mundo que muitas vezes celebra a perfeição física e o relativismo moral, Hanukkah nos convida a valorizar o eterno acima do temporal. Ele nos lembra que as batalhas pela fé, identidade e verdade não são novas—e que a vitória vem para aqueles que permanecem firmes.

Ao acendermos nossas próprias “lâmpadas simbólicas”, que possamos lembrar a perseverança dos Macabeus, a fidelidade de Yeshua e o chamado eterno para sermos uma luz na escuridão.

Adivalter Sfalsin

As Surpreendentes Origens do Natal: Uma Mistura de Tradições Pagãs e Cristãs

Enquanto cristãos ao redor do mundo se reúnem a cada 25 de dezembro para celebrar o nascimento de Jesus, o Messias, é natural refletir sobre as raízes dessa festa tão querida. Para muitos, o Natal é um tempo de alegria, família e fé, mas a história por trás de sua data e tradições é uma mistura fascinante de costumes pagãos, decisões históricas e simbolismo teológico. Compreender essas origens não apenas aprofunda nossa apreciação pelo Natal, mas também abre oportunidades para compartilhar seu significado mais profundo com os outros.

A celebração do Natal em 25 de dezembro não era originalmente uma tradição cristã. Na verdade, a data está intimamente ligada a vários festivais pagãos que antecedem o Cristianismo. Os antigos romanos celebravam a Saturnália em meados de dezembro, um festival em honra a Saturno, o deus da agricultura. A Saturnália era marcada por banquetes, troca de presentes e festividades — práticas que espelham os costumes modernos do Natal. Da mesma forma, o Dies Natalis Solis Invicti (Nascimento do Sol Invicto) era observado em 25 de dezembro para celebrar o deus-sol Sol Invictus, marcando o retorno dos dias mais longos após o solstício de inverno.

No norte da Europa, o Yule era um festival de meio de inverno entre as tribos nórdicas e germânicas. Tradições como acender troncos de Yule, decorar com plantas perenes e realizar banquetes celebravam o renascimento do sol. Muitas dessas práticas — como o uso de decorações verdes e reuniões festivas — foram incorporadas às celebrações de Natal à medida que o Cristianismo se espalhava.

A escolha do dia 25 de dezembro para o Natal provavelmente foi influenciada por esses festivais pagãos pré-cristãos. Os primeiros cristãos buscaram reformular essas tradições populares dentro de um contexto cristão. Ao alinhar a celebração do nascimento de Jesus com os costumes pagãos existentes, eles visavam facilitar a conversão dos pagãos ao Cristianismo. Essa estratégia ajudou a espalhar a fé enquanto dava novos significados, centrados em Cristo, às práticas culturais de longa data.

O reconhecimento formal do dia 25 de dezembro como data do nascimento de Jesus ocorreu em 336 d.C., durante o reinado do imperador romano Constantino, o primeiro imperador supostamente cristão. Isso marcou a primeira celebração registrada do Natal nessa data no Império Romano. Embora algumas comunidades cristãs continuassem a observar o nascimento de Jesus em outras datas, como 6 de janeiro (Epifania), a observância de 25 de dezembro gradualmente se tornou o padrão na Igreja Ocidental. Com o tempo, o Natal incorporou muitas tradições culturais, misturando-as com a teologia cristã para criar a festa que conhecemos hoje.

Quando olhamos para a Bíblia em busca de respostas sobre o nascimento de Jesus, torna-se claro que o dia 25 de dezembro é improvável como data real. Os Evangelhos de Mateus e Lucas, os relatos principais do nascimento de Jesus, não especificam uma data ou estação. No entanto, eles fornecem pistas que sugerem um período diferente.

Em Lucas 2:8, lemos:

“E havia pastores que estavam no campo, cuidando de seus rebanhos durante a noite.”

Esse detalhe aponta para a época de nascimento dos cordeiros em Israel antigo, que ocorre na primavera, por volta de março ou abril. Durante esse período, os pastores ficavam com seus rebanhos nos campos abertos durante a noite para cuidar dos cordeiros recém-nascidos. Essa prática seria impraticável durante os meses quentes do verão (junho a agosto) ou os frios e chuvosos do inverno (dezembro a fevereiro), quando as ovelhas eram geralmente abrigadas.

Essa pista sazonal, combinada com outras evidências históricas e astronômicas, leva muitos estudiosos a propor que Jesus provavelmente nasceu na primavera. Por exemplo, a Estrela de Belém, mencionada em Mateus 2, foi associada por alguns astrônomos a eventos celestes que ocorreram por volta de 7-6 a.C., reforçando um período fora do inverno, embora outros estudos apontem para 4-3 a.C.

Por que celebrar em 25 de dezembro? A escolha de 25 de dezembro para celebrar o nascimento de Jesus, apesar de sua improbabilidade como data real, carrega significados simbólicos e estratégicos significativos. Ao alinhar o feriado com a Saturnália, Dies Natalis Solis Invicti e outras celebrações do solstício de inverno, os primeiros cristãos enfatizaram Jesus como a “Luz do Mundo”, conquistando as trevas do pecado. Essa associação ressoou com os temas desses festivais preexistentes, tornando a transição para o Cristianismo mais suave para os convertidos.

Além disso, a adoção gradual de 25 de dezembro permitiu que a Igreja unificasse as comunidades cristãs em torno de uma celebração comum. À medida que o Cristianismo se espalhava pelo Império Romano e além, essa data compartilhada ajudava a padronizar práticas e aprofundar o senso de fé coletiva.

Embora o Jesus histórico provavelmente tenha nascido na primavera, celebrar Seu nascimento em 25 de dezembro oferece oportunidades únicas para os cristãos hoje. Essa data, repleta de significados cristãos e culturais, fornece uma plataforma para compartilhar a mensagem do amor de Deus e a história da salvação com um mundo que, de outra forma, poderia não estar ciente de suas raízes espirituais.

Por exemplo, o simbolismo da luz durante o período mais escuro do ano ressoa profundamente com a experiência humana. Enquanto as famílias acendem velas, decoram árvores e trocam presentes, os cristãos podem usar esses momentos para refletir sobre o maior presente de todos — Jesus, o Messias, cuja vinda trouxe esperança e redenção à humanidade.

O Natal é uma estação linda, cheia de oportunidades para refletir sobre o amor de Deus e compartilhar a mensagem do evangelho. Embora o dia 25 de dezembro seja improvável como a data real do nascimento de Jesus, seu significado como um momento para celebrar Sua vinda permanece inalterado. Reconhecer as origens pagãs e o contexto histórico do feriado enriquece nossa compreensão e abre portas para conversas significativas sobre a fé. Ao celebrar esta estação, que ela seja um lembrete da verdadeira Luz que veio ao mundo — não limitada por datas ou tradições, mas brilhando em cada coração que O recebe. Ao entender o passado, podemos abraçar o presente com propósito, aproveitando ao máximo cada oportunidade para compartilhar a esperança e a alegria de Jesus, o Messias.

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Vítima ou Protagonista?

A Armadilha da  vitimização e o Poder da Responsabilidade Pessoal

Em Isaías 46:10, lemos que D-us anuncia o fim desde o princípio: “Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam…” Este versículo nos lembra uma verdade profunda: as lutas e triunfos da vida estão entrelaçados na história humana desde o início, mostrando que nada é verdadeiramente novo sob o sol. A narrativa da Bíblia, começando com Gênesis, revela tanto as forças quanto as fraquezas da humanidade—entre elas, a tendência tão comum de transferir a culpa.

Adão e Eva, quando confrontados com sua desobediência, apontaram dedos. Adão disse: “Foi a mulher que me deste.” Eva respondeu: “A serpente me enganou.” Nenhum dos dois assumiu a responsabilidade por suas ações. Este padrão, infelizmente, foi passado para a próxima geração. Seu filho, Caim, perpetuou esse traço ao se recusar a assumir a responsabilidade por suas próprias falhas quando sua oferta foi rejeitada. Essa tendência de culpar os outros é tão antiga quanto a humanidade e ela continua viva em nossos dias. Em vez de olhar para dentro e buscar soluções, muitos continuam a olhar para fora em busca de culpados. No entanto, a pergunta que molda nossa trajetória não é “Por que eu?”—mas sim “E agora, o que posso fazer?”

Uma das histórias mais marcantes sobre os perigos da mentalidade de vítima é a de Caim e Abel. Em Gênesis, ambos os irmãos oferecem sacrifícios a D-us. Abel oferece o melhor do que tem, com sinceridade e humildade, e sua oferta é aceita. Caim, por outro lado, oferece algo de maneira negligente e sem dedicação, e sua oferta é rejeitada. Em vez de refletir sobre como poderia melhorar, Caim arde de raiva e inveja, sentindo-se injustiçado. D-us fala diretamente com ele, dando-lhe a oportunidade de mudar:

“Se você fizer o bem, não será aceito? Mas se não o fizer, saiba que o pecado o ameaça à porta; ele deseja conquistá-lo, mas você deve dominá-lo” (Gênesis 4:7).

Esse foi o momento de escolha de Caim: ele poderia assumir a responsabilidade por suas ações e se esforçar para melhorar, ou poderia deixar o ressentimento consumi-lo. Tragicamente, Caim escolheu a segunda opção. Incapaz de enfrentar suas próprias falhas, ele direcionou sua raiva para Abel, matando seu irmão em um ato de violência sem sentido. A queda de Caim não foi causada pelo sucesso de Abel; foi causada pela recusa de Caim em assumir a responsabilidade. Essa história antiga serve como um alerta claro sobre o poder destrutivo da mentalidade de vítima. Ela nos cega para o crescimento pessoal, alimenta o ressentimento e nos rouba o poder de mudar. 

Esse traço humano, fruto de nossa natureza caída, é frequentemente explorado por políticos para dividir e manipular. Valendo-se de sentimentos de vitimização, fomentam conflitos e perpetuam a ideia de que certos grupos são os únicos responsáveis pelos problemas de outros, enfraquecendo o senso de responsabilidade individual e ameaçando a coesão social. Embora a mentalidade de vítima ofereça conforto momentâneo, a longo prazo, ela paralisa o progresso pessoal e coletivo. Líderes oportunistas utilizam essa mentalidade para consolidar poder, desviando o foco de soluções reais e reforçando ciclos de vitimização que servem apenas aos seus interesses, dificultando a construção de uma sociedade mais justa e unida.

Aqui estão os principais motivos pelos quais a mentalidade de vítima é tão perigosa:

1. Ela Tira o Seu Poder

Quando você culpa os outros por suas dificuldades, entrega seu poder de mudar as circunstâncias. Se tudo é culpa de outra pessoa, o que você pode fazer? Nada. A responsabilidade pessoal devolve seu poder de agir, melhorar e superar.

2. Ela Gera Ressentimento

A mentalidade de vítima vê o sucesso com desconfiança, alimentando a inveja em vez da ambição. Esse ressentimento leva a um ciclo destrutivo em que as pessoas destroem os outros em vez de construir algo por si mesmas.

3. Ela Nega Possibilidades

A história está cheia de exemplos de pessoas que superaram enormes dificuldades para alcançar a grandeza. A mentalidade de vítima nega essas possibilidades, prendendo as pessoas às suas circunstâncias.

4. Ela Divide Comunidades

Sociedades prosperam por meio da cooperação e do progresso coletivo. No entanto, a mentalidade de vítima mina essa harmonia ao colocar grupos em conflito, fomentando divisões e concentrando-se na culpa em vez de buscar soluções. Essa dinâmica se agrava quando a vitimização é instrumentalizada politicamente, transformando diferenças em armas, alimentando ressentimentos e desviando a atenção do que realmente importa: unir esforços para construir um futuro melhor para todos.

Em qualquer comunidades, existem dois tipos de pessoas: construtores e acusadores.

• Construtores assumem a responsabilidade por suas ações e veem os obstáculos como oportunidades. Eles enfrentam desafios de frente e perguntam: “O que posso fazer para melhorar isso?”

• Acusadores enxergam o mundo como injusto e se concentram no que os outros fizeram de errado. Eles veem o sucesso com desconfiança e gastam sua energia destruindo em vez de construir.

A diferença entre esses dois grupos não está nas circunstâncias; está na mentalidade. Temos uma obrigação moral de reconhecer nossa responsabilidade pessoal, o que não significa ignorar os desafios reais. Muitas pessoas enfrentam dificuldades além de seu controle—pobreza, doenças, barreiras sistêmicas. No entanto, a responsabilidade pessoal significa recusar-se a permitir que essas lutas definam você. Você não pode controlar onde começa na vida, mas pode controlar para onde vai. Você não pode evitar completamente o fracasso, mas pode escolher aprender com ele. Você não pode garantir o sucesso, mas pode tomar medidas para torná-lo mais provável. A responsabilidade não é apenas uma virtude pessoal; é uma obrigação moral. Quando indivíduos assumem a responsabilidade por suas ações, não apenas melhoram suas próprias vidas, mas também contribuem para o bem-estar de suas famílias, comunidades e da sociedade como um todo.

A vida não é justa, e as circunstâncias que te envolvem podem não ser as ideais. Mas, como a história de Caim e Abel nos lembra, a escolha de assumir a responsabilidade é sempre sua. Você pode ceder ao ressentimento e à culpa ou pode agir e crescer. A mentalidade de vítima é uma armadilha—ela nos cega para as possibilidades, alimenta o ressentimento e divide comunidades.

A responsabilidade, por outro lado, é um caminho para o crescimento. Ela lhe dá o poder de moldar seu futuro e inspira os outros a fazerem o mesmo. O sucesso não é um pecado; é um farol de esperança. É um lembrete do que é possível quando escolhemos a responsabilidade em vez do ressentimento.

Então, pergunte a si mesmo:

• Você é um construtor ou um acusador?

• Você assumirá a responsabilidade ou permitirá que o “pecado esteja à porta”?

A escolha é sua—e é a decisão mais importante que você tomará.

Adivalter Sfalsin

Confiança que Transforma

Um Chamado à Obediência Motivada pelo Amor

“Sou Teu servo; dá-me entendimento para que eu conheça os Teus testemunhos” (Salmos 119:125).

Este versículo revela uma verdade profunda sobre a fé e a obediência: a tensão entre nosso desejo natural de entender e o chamado divino para confiar. Como seres humanos, ansiamos por respostas, clareza e garantias fundamentadas na lógica. No entanto, a vida de fé frequentemente nos convida a abrir mão dessa necessidade e abraçar uma motivação que transcende o entendimento—uma obediência motivada pelo amor.

Pense nisso: quando D-us pede algo de você, qual é a sua primeira reação? Você busca entender o “porquê” ou escolhe confiar e obedecer? Essa pergunta pode causar desconforto, mas tem como objetivo nos desafiar e inspirar crescimento. O chamado de D-us à obediência não é uma demanda arbitrária de submissão ou fé cega; é um convite para aprofundar sua confiança n’Ele. É um pedido para permitir que o amor e a reverência—não apenas a lógica—moldem sua resposta, mesmo quando Seus mandamentos parecem misteriosos ou difíceis de compreender.

O Salmo 119 nos apresenta três palavras hebraicas profundamente conectadas que revelam a riqueza dos mandamentos Divinos: mandamentos (mitzvot), testemunhos (edot) e estatutos (chukim). Essa perspectiva nos ajuda a enxergar a obediência em sua totalidade multifacetada. A vontade de D-us toca todas as partes de nosso ser: Seus mandamentos apelam à razão, Seus testemunhos à memória e à gratidão, e Seus estatutos à confiança e à fé. Juntos, eles nos lembram que a obediência é tanto racional quanto relacional, exigindo o envolvimento de nossas mentes, corações e almas.

Confiar Sem Todas as Respostas – A cultura moderna frequentemente nos ensina a exigir explicações e confiar em nosso próprio raciocínio antes de agir. Mas a obediência bíblica desafia essa abordagem, invertendo o paradigma. Pense em Noé: D-us ordenou que ele construísse uma arca em preparação para um dilúvio—um evento que, na época, parecia completamente improvável. Ainda assim, Noé obedeceu “tudo o que D-us lhe havia ordenado” (Gênesis 6:22). Sua obediência não era fruto de compreender o plano, mas de confiar no Planejador. Agora, pense em Pedro em Lucas 5:4–7. Após uma noite inteira de pesca sem sucesso, Jesus lhe pediu que lançasse as redes mais uma vez. A lógica e a experiência diziam a Pedro que isso era inútil. Ainda assim, ele de forma contra intuitiva respondeu: “Por causa da Tua palavra, lançarei as redes.” O resultado? Uma pesca milagrosa e abundante, além de todas as expectativas.

Essas histórias não falam de obediência cega, mas de uma fé ancorada no caráter comprovado de D-us. O chamado para obedecer sem todas as respostas nos desafia a focar menos no “porquê” e mais no “Quem”. Elas nos ensinam que confiar em D-us não requer entender tudo—requer confiar n’Ele com tudo.

A vida nem sempre é preto no branco, na sua maioria é cinza. Decisões éticas podem se tornar nebulosas e emocionalmente desafiadoras. Por exemplo, considere este cenário moralmente complexo: durante a Segunda Guerra Mundial, se soldados nazistas batessem à sua porta e perguntassem se você estava escondendo judeus—e você estivesse—o que seria obedecer a D-us? Dizer a verdade e possivelmente condenar vidas inocentes, ou mentir para protegê-las? A realidade infeliz de viver em um mundo caído é que a obediência nem sempre é simples. Questões sobre verdade, justiça e amor podem se enredar de maneiras que desafiam respostas fáceis. Devo dizer a verdade se isso colocará alguém em perigo? Devo perdoar quando tudo em mim clama por justiça? Em momentos como esses, Salmos 119:125 oferece uma âncora. O salmista não busca entendimento para questionar a autoridade de D-us, mas para discernir como obedecê-Lo corretamente. Este é o coração de um servo: não dúvida, mas um desejo por clareza. A palavra hebraica para “entendimento” aqui é bîn, que significa discernimento—a habilidade de distinguir entre opções e determinar o curso de ação mais sábio. O salmista também busca conhecimento (yādaʿ), que é a aplicação prática da sabedoria em relacionamentos e decisões do dia a dia. Na sua própria vida, onde você precisa desse tipo de discernimento? Quais situações desafiam sua compreensão sobre o que significa obedecer? Seja navegando por dilemas éticos, perdoando alguém que te feriu profundamente, ou entrando em um futuro incerto, esses momentos testam não apenas nossa fé, mas nossa disposição de confiar na orientação Divina.

A verdadeira obediência não é transacional—é relacional. Não se trata de seguir regras por medo de punição, mas de responder ao amor Divino com amor em retorno. O exemplo supremo disso é Yeshua (Jesus) no Jardim do Getsêmani. Ao enfrentar a realidade excruciante da cruz, Ele orou: “Meu Pai, se possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como Eu quero, mas sim como Tu queres” (Mateus 26:39). Sua obediência não foi meramente um dever; foi um ato de amor profundo—pelo Pai e por nós. Esse tipo de obediência tem um custo. Pode custar seu conforto, sua certeza ou até mesmo seu orgulho. Mas também oferece algo inestimável: uma intimidade mais profunda com D-us. Quando obedecemos motivados pelo amor, nos aproximamos mais do coração d’Ele. Começamos a ver que Seus mandamentos não são fardos, mas bênçãos, projetados para nos levar à plenitude da vida.

Onde D-us está te chamando a confiar e obedecer, mesmo quando isso não faz sentido? Talvez Ele esteja pedindo que você dê um passo de fé em uma nova direção, que perdoe alguém que te feriu, ou que abandone o desejo de controle. Seja qual for o chamado, não se trata de submissão cega, mas de alinhar seu coração com o d’Ele. O caminho da obediência motivada pelo amor não é fácil, mas é transformador. Noé, Pedro e Yeshua (Jesus) enfrentaram momentos em que a obediência exigiu que renunciassem à compreensão e confiassem inteiramente na sabedoria Divina. Sua confiança levou a resultados muito maiores do que poderiam imaginar: salvação, abundância e redenção.

Você dará o próximo passo em fé—não porque entende tudo, mas porque confia plenamente n’Aquele que te chama? O coração de um servo não pulsa com a necessidade de saber tudo, mas com o desejo de amar e honrar o Mestre. Que esse seja o ritmo da sua vida.

Adivalter Sfalsin

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Silêncio Divino

Propósito na Dor e Redenção na Vida

O silêncio Divino é uma experiência profundamente desafiadora para quem busca viver pela fé. Ele nos coloca diante de nossas fragilidades, desconstrói expectativas humanas e nos força a encontrar significado em meio ao caos. As histórias bíblicas nos mostram como esse silêncio pode, paradoxalmente, estar repleto de propósito. As trajetórias de personagens como José e Abraão ilustram que, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, há uma providência divina que transcende a compreensão humana.

A vida de José é emblemática nesse sentido. Vendido como escravo pelos próprios irmãos, ele enfrentou traição, prisão injusta e anos de adversidade. Durante cerca de 13 anos, parecia que O Senhor estava ausente. José tinha apenas 17 anos quando foi vendido como escravo e passou mais de uma década enfrentando dificuldades antes de ser exaltado aos 30 anos como governador do Egito. Durante esse período, não houve visões, vozes ou sinais de que algo mudaria. Contudo, no auge de sua história, José foi exaltado à posição de segundo no comando do Egito. Ele se tornou o instrumento divino para salvar uma nação e sua própria família de uma fome devastadora.

O silêncio Divino também é evidente na história de Abraão. A Bíblia sugere um intervalo de cerca de 13 anos entre Gênesis 16 e 17, durante os quais D-us permaneceu em silêncio. Abraão, já avançado em idade, vivia a tensão entre a promessa divina de que seria pai de uma grande nação e a realidade de sua esterilidade. Esses 13 anos de espera foram uma prova de fé e paciência, moldando Abraão para que ele pudesse cumprir seu papel no plano divino.

Quando José reencontra seus irmãos e revela sua identidade, ele diz: “Vocês planejaram o mal contra mim, mas O Senhor o transformou em bem” (Gênesis 50:20). Essa declaração é profunda porque reconhece a dualidade da maldade humana e da soberania divina. O sofrimento que José enfrentou não foi ignorado ou minimizado, mas foi redimido por D-us para um propósito maior.

Essas narrativas oferecem lições importantes: a dor e as dificuldades não são sinais da ausência de D-us, mas oportunidades para Ele agir de maneira surpreendente. Em nossa caminhada, muitas vezes questionamos o propósito de experiências difíceis. Dores, perdas e injustiças parecem contradizer a ideia de um D-us amoroso e justo. Mas a história de José mostra que D-us pode usar até mesmo as piores intenções humanas para trazer algo bom, moldando circunstâncias aparentemente irreparáveis em momentos de redenção.

A reflexão do livro de Eclesiastes (Kohelet) reforça essa visão ao declarar: “Futilidade absoluta! Tudo é fútil!” (Eclesiastes 1:2). À primeira vista, essa afirmação soa como um pessimismo extremo. No entanto, ela nos convida a olhar para a vida com realismo. É um apelo para abandonarmos ilusões e enxergarmos a existência em sua complexidade: imperfeita, imprevisível e, muitas vezes, dolorosa. Essa honestidade brutal não é para nos desanimar, mas para nos despertar. O que parece sem sentido à primeira vista pode ser redimido quando compreendemos o propósito maior de D-us.

Assim como José, somos chamados a olhar além das aparências e encontrar significado, mesmo em meio ao sofrimento. Ele não apenas suportou as adversidades, mas escolheu perdoar e confiar na soberania de D-us. Essa escolha é um ato de fé e resiliência. Ele poderia ter se amargurado ou buscado vingança, mas optou por enxergar sua vida como parte de um plano divino maior. Essa perspectiva é desafiadora, mas também libertadora. Nos momentos mais sombrios, ela nos lembra que O Senhor está presente, operando em silêncio para transformar o mal em bem.

Na sociedade contemporânea, essa lição é mais relevante do que nunca. Vivemos em um mundo obcecado por narrativas perfeitas e felicidades instantâneas. As redes sociais projetam vidas idealizadas, criando uma pressão irreal de sucesso e plenitude. Essa busca incessante por felicidade e perfeição frequentemente nos desconecta da realidade, tornando as dificuldades ainda mais difíceis de enfrentar. É nesse contexto que a mensagem de Kohelet e a história de José nos desafiam a abraçar a verdade da vida – com suas dores, contradições e belezas – sem filtros ou ilusões.

A grande questão é: como reagimos ao sofrimento e às adversidades? Enquanto a cultura moderna nos incentiva a fugir do desconforto, a fé nos convida a enfrentá-lo com propósito. O silêncio Divino, longe de ser uma ausência, é uma oportunidade para crescermos em resiliência e confiança. Abraão, José e tantos outros personagens bíblicos nos mostram que os momentos de silêncio são frequentemente prelúdios de grandes reviravoltas.

Kohelet reconhece a aparente futilidade da vida, mas aponta para algo maior: o agir de D-us em meio ao caos. Essa realidade pode ser desconfortável, mas também é cheia de esperança. Mesmo quando tudo parece absurdo, é nesse contexto que D-us opera, trazendo propósito ao que antes parecia sem sentido.

A história de José, em particular, nos convida a refletir sobre nossa própria jornada. Como podemos buscar redenção em meio à dor? Como podemos ser agentes de transformação, mesmo enfrentando injustiças e desafios? A resposta está na confiança em D-us e na disposição de agir com propósito. Não somos chamados a viver uma vida perfeita, mas a buscar significado e redenção em cada experiência.

A lição final é clara: tire os óculos rosados, aceite a realidade da vida e confie que O Senhor está moldando um propósito maior. Mesmo nos momentos de silêncio, Ele está presente, trabalhando para redimir nossas tragédias e transformar nossas dores em vitórias. Assim como José, somos chamados a perseverar, perdoar e acreditar que, em todas as coisas, O Senhor está agindo para o bem daqueles que o amam.

A vida é complexa, imperfeita e cheia de desafios, mas também é o cenário onde O Senhor opera milagres e redenções. Quando abraçamos essa realidade, encontramos coragem, propósito e esperança para continuar. Afinal, o silêncio Divino não é o fim da história – é o prelúdio para algo extraordinário.

Adivalter Sfalsin

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