Mas, ouvindo ele isto, ficou muito triste, porque era muito rico…

“Mas, ouvindo ele isto, ficou muito triste, porque era muito rico…”
Lucas 18:23

Ficou muito triste,  porque era muito rico.

Nessa passagem encontrada em Lucas 18:18-27 existem tantos conceitos profundos que um pequeno artigo não é possível ampliar todas a suas dimensões, mas quero me concentrar em um aspecto que creio que será enriquecedor para nossa vida.
O texto:
E perguntou-lhe um certo príncipe, dizendo: Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?
Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom, senão um, que é Deus.
Sabes os mandamentos: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra a teu pai e a tua mãe.
E disse ele: Todas essas coisas tenho observado desde a minha mocidade.
E quando Jesus ouviu isto, disse-lhe: Ainda te falta uma coisa; vende tudo quanto tens, reparte-o pelos pobres, e terás um tesouro no céu; vem, e segue-me.
Mas, ouvindo ele isto, ficou muito triste, porque era muito rico.
E, vendo Jesus que ele ficara muito triste, disse: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!
Porque é mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.
E os que ouviram isto disseram: Logo quem pode salvar-se?
Mas ele respondeu: As coisas que são impossíveis aos homens são possíveis a Deus. Lucas 18:18-27

Um certo príncipe se aproxima de Yeshua após ouvir seu discurso e se mostra interessando na vida eterna ou mundo por vir[1], então Yeshua lhe responde, não há ninguém bom senão D-us e recomenda que guarde os mandamentos encontrados na Torá.
1- Não adulterarás,
Não adulterarás. Êxodo 20:14
2- Não matarás,
Não matarás. Êxodo 20:13
3- Não furtarás,
Não furtarás. Êxodo 20:15
4- Não dirás falso testemunho,
Não dirás falso testemunho contra o teu próximo. Êxodo 20:16
5- Honra a teu pai e a tua mãe.
Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá. Êxodo 20:12

O Principe responde que isso já tinha feito desde sua infância and Yeshua acrescenta algo inesperado, “vende tudo que tem, parta com os pobre e terás um tesouro “no mundo por vir” [1].
Ouvindo isso o príncipe “ficou muito triste”. Quero explorar esse conceito “ficou muito triste”. Porque? Que tipo de tristeza? Qual o conceito de Yeshua de tristeza no primeiro século.
Vamos começar com o conceito grego que sem dúvida alguma influencia nosso entendimento e nossa cosmovisão. No grego a palavra “muito triste” é perilypos = Vem da raiz da palavra Lype = dor. No conceito grego o oposto de hype (dor) é Hedoné (prazer), de onde tiramos a palavra hedonismo [2]. Na pensamento grego a vida oscila entre prazer e dor num ciclo infindável até a passagem para o mundo superior espiritual, ideias influenciadas por Platão. O contraste é entre Lype x Hedoné. Dor e prazer, tristezas e felicidades.
Já no conceito hebraico o contraste é entre Lype x Chará. A palavra “chará” se traduz como alegria, também serve como raiz da nossa palavra “caris” – caridade ou graça. Nesse conceito o oposto da dor é a alegria. Abaixo um gráfico com as diferenças.

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No grego, Lype (dor) tanto a dor física como, a fome, a sede, o frio, o calor; como a dor da alma, a morte, o infortúnio, o aborrecimento, o insulto e o ultraje devem ser evitados a todo o custo, a busca pelo prazer torna-se o propósito da vida. O prazer ou felicidade vem em primeiro lugar, segundo um bom estado mental mas isso é transitório porque parte de fora para dentro, é estimulado e dependente de coisas exteriores, é afetado pelo que se tem (TER). A felicidade vem da experiência do bem, diferente do mal! Quando cessar a motivação exterior a “felicidade” e o “prazer” cessam. A língua inglesa encapsula essa ideia perfeitamente na palavra “happiness”, você precisa de algo “to happen” (acontecer) para ser feliz. Não é por acaso que muitos buscam a tal felicidade, happiness. O problema é que a busca pela felicidade se torna o objetivo infinito da vida sem nunca ser alcançada, a máxima da vida se torna a busca do prazer e conforto e evitar o dor a todo o custo. Quantos de nós já não oramos pedindo a D-us para nos livrar de algo que nos incomoda? Talvez, deveríamos orar pedindo que, apesar das lutas, Ele nos dê alegria para enfrentar os desafios.

Diferentemente do grego o hebraico entende que a dor (Lype) faz parte da experiência humana, mas reconhece que a dor pode e deve levar o indivíduo a alegria. Como pode ser isso? Parece contra-intuitivo. Os escritores do novo testamento eram na sua maioria judeus, alguns escreveram em grego mas com o conceito hebraicos tirados direto da Tanak [3] a alegria sempre foi ensinada como o oposto da dor e tristeza, a alegria é o propósito da vida, é algo interior; um prazer profundo. É uma profunda certeza e confiança que preenche o coração (sentimentos/mente), se torna uma condição, um estado de alma devido a estar bem com D-us, é independente das circunstâncias porque a sua fonte é um D-us eterno, transcendente, e que conhece nossas necessidades melhor do que nós mesmos, é baseada no SER, não no ter. A alegria de ter uma experiência de D-us, independente do bem ou do mal, vem Dele. Portanto a alegria vem primeiro e como resultado, porque você tem Chará (alegria com fonte espiritual), você reflete secundariamente no material e no seu exterior.
Portanto, sorria! Naturalmente não é fácil sorrir quando passamos por provas e tribulações mas devemos entender que independente das circunstâncias difíceis ELE prometeu estar conosco até mesmo quando atravessamos o vale da sombra da morte Salmos 23:4, a única razão que sobrevivemos o vale é porque o SENHOR está conosco, não são os amigos, a família, os colegas por mais bem intencionados que eles sejam. Enfim, nossa alegria vem diretamente do Senhor, “portanto não vos entristeçais; porque a alegria do Senhor é a vossa força.” Neemias 8:10
No caso do príncipe na nossa história ele se entristeceu porque seu propósito de vida estava vinculado com o “prazer e felicidade” das coisas materiais, mostrado na segunda parte da verso “porque era muito rico”, baseou sua vida na transitoriedade dos bens materiais. Yeshua aponta para o erro, e tentou corrigí-lo apontando para o fato de que ele precisava de primeiro alegria (chará) no centro de sua vida e por consequência sua vida seria cheia de propósito e se tornaria apto para participar do “mundo por vir” Olam haba (עולם הבא).
Note que a alegria não é uma recomendação de Yeshua, na Tanak é ensinado como um dos mandamentos a serem cumpridos. Deuteronômio 16:15,

“Sete dias celebrarás a festa ao Senhor teu Deus, no lugar que o Senhor escolher; porque o Senhor teu Deus te há de abençoar em toda a tua colheita, e em todo o trabalho das tuas mãos; por isso certamente te alegrarás.” Deuteronômio 16:15

independente das circunstâncias. O texto não diz: “quando você estiver se sentindo bem, se alegre no Senhor”.

“Puseste alegria no meu coração, mais do que no tempo em que se lhes multiplicaram o trigo e o vinho.” Salmos 4:7.

Portanto devemos nos esforçar para cumprir todos os mandamentos do Senhor, inclusive alegrarmo-nos diariamente independente de nossas lutas.

Autor: A Sfalsin

Existe um abismo de diferença entro o pensamento grego e hebraico que muitas vezes atrapalham nosso entendimento, visto que nossa forma de pensar tende para o grego devido a forma que nos foi ensinado. Se você se interessa por essas diferenças sugiro que leia minha outra postagem Mente Hebraica x Grego-Romana https://raizeshebraicas.com/2013/10/12/mente-hebraica-x-grego-romana-integra/

[1] “Mundo por vir” é um conceito em hebraico que é chamado de Olam haba (עולם הבא), que nesse texto é traduzido como “vida eterna”.
[2] Conforme Platão “O hedonismo psicológico ou motivacional afirma que apenas o prazer ou a dor nos motivam.”
[3] O Tanakh é composto por 24 livros que se agrupam em três conjuntos: “Lei, Profetas e Escritos”.
Torá, (Lei): – Os 5 primeiros livros da bíblia ao “Pentateuco ou a Lei Mosaica”; NEVIIM – oito livros (Profetas), KETUVIM – onze livros (Escritos): Composto pelos livros poéticos e trechos de alguns livros proféticos. Portanto TANAK é um acrônimo das 3 primeiras letras das divisões tradicionais no texto massorético.

Passagens com o de “chará”: Mat 2:10, Mat 13:20, Mat 13:44, Mat 25:21, Mat 28:8, Mar 4:16, Luc 4:16, Luc 1:14, Luc 2:10, Luc 8:13, Luc 10:17, Luc 15:7, Luc 24:41, João 3:29, João 15:11, João 16:20, João 17:13, Atos 8:8, Atos 12:14, Atos 13:52, Atos 15:3, Rom 14:17, Rom 15:13, 2 Cor 1:24, 2 Cor 2:3, 2 Cor 7:4, 2 Cor 8:2, Gal 5:22, Fil 1:4, Fil 2:2, Fil 4:1, Col 1:11, 1 Tes 1:6, 1 Tes 2:19, 1 Tes 3:9, 2 Tim 1:4, Filemom 1:7, Heb 10:34, Heb12:2, Heb 13:7, Tiago 1:2, Tiago 4:9, 1 Pedro 1:8, 1 João 1:4, 2 João 1:12, 3 João 1:4.

Como o hebraico é muito mais rico em definições, a palavra grega “chará” tem 6 correspondentes na Tanak [3].
1- גִּיל gîl – Alegria – Joel 1:16
2- מָשׂוֹשׂ māsôs – Alegria – Lam 5:15
3- רִנָּה rinnāh – Cantoria – Isa 55:12
4- שְׂחֹק sᵉchōq – Riso – Salmos 126:2
5- שִׂמְחָה simchah – Alegria/felicidade – I Crônicas 29:22, Salmos 21:6, Jonas 4:6
6- שָׂשׂוֹן sāsôn – Alegria – Jeremias 16:9

Textos na Tanak [3]: 2 Crônicas 29:22, Ester 8:17, Ester 9:17, Ester 10:3, Salmos 21:6, Salmos 126:2, Proverbios 14:13, Proverbios 29:6, Isaías 39:2, Isaías 55:12, Isaías 66:10, Jeremias 15:16, Jeremias 16:9, Jeremias 25:10, Lamentações 5:15, Joel 1:5, Jonas 4:6, Zacarias 8:19

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