Entendendo as Palavras Difíceis de Jesus – Parte 2
“Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus…” (Mateus 5:20)
Publicado por Adivalter Sfalsin
Baseado no livro Understanding the Difficult Words of Jesus – David Bivin
“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.”
(Mateus 5:20)
Essa afirmação de Jesus pode parecer desconcertante, especialmente à primeira leitura. Os escribas e fariseus eram vistos como os mais zelosos cumpridores da Lei. Se nem eles seriam aceitos no reino dos céus, que esperança teriam os demais?
Será que Jesus está exigindo uma religiosidade ainda mais rigorosa? Mais regras? Mais perfeição moral?
Essa é uma interpretação comum, mas levanta sérias tensões com outros ensinamentos fundamentais do Novo Testamento, que afirmam que a salvação é pela graça, e não por mérito (Efésios 2:8-9).
Como, então, devemos entender essa declaração?
A resposta está na compreensão do significado original da palavra “justiça” e na expressão “reino dos céus”.
No hebraico bíblico, o termo tsedakah significava, de forma ampla, retidão, salvação e o agir fiel de Deus. Era um conceito associado não apenas à conduta humana, mas à própria intervenção salvadora de Deus em favor do seu povo.
Contudo, nos dias de Jesus, o significado de tsedakah passou a incluir também um sentido mais específico e prático: caridade ou generosidade para com os pobres. Entre os fariseus, três práticas eram vistas como pilares da vida piedosa: oração, jejum e generosidade. Dentre essas, a generosidade tornou-se, em muitos círculos, a mais importante — pois era considerada uma expressão tangível do relacionamento com Deus.
Assim, quando Jesus diz que nossa “justiça” deve exceder a dos escribas e fariseus, ele está utilizando um jogo de palavras que sua audiência entendia perfeitamente.
Em Mateus 5:20, Jesus parece usar os dois sentidos da palavra tsedakah de forma intencional:
“Porque vos digo que, se a vossa tsedakah (generosidade) não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus (tsedakah como salvação).”
Em outras palavras, Jesus está dizendo: Se vocês confiarem apenas na generosidade visível, na religiosidade exterior, como forma de obter aceitação diante de Deus, jamais entrarão no reino. A verdadeira justiça não nasce da performance, mas da confiança na salvação que vem do próprio Senhor.
Essa justiça que “excede” é aquela que vem da fé — e não das obras — como bem enfatizou o apóstolo Paulo:
“Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus.”
(Romanos 10:3)
Outro elemento fundamental para compreender essa passagem é o que Jesus quer dizer por “reino dos céus”. Em Mateus, essa expressão é usada para designar o movimento iniciado por Jesus, composto por seus discípulos e seguidores — aqueles que vivem sob o reinado de Deus aqui e agora.
Entrar no “reino dos céus”, portanto, não significa simplesmente “ir para o céu” após a morte, mas tornar-se parte do povo que vive sob os princípios e a autoridade do Messias.
Dessa forma, podemos parafrasear Mateus 5:20 da seguinte forma:
“Se a sua generosidade, se o seu modo de viver, não for mais profundo do que o exibido pelos fariseus — se não estiver fundamentado na confiança na salvação de Deus — vocês não poderão fazer parte do meu reino e experimentar a verdadeira justiça do Senhor.”
Jesus não está pedindo mais religiosidade. Ele está convidando para um tipo completamente diferente de justiça: aquela que nasce da graça, se expressa na fé, e se manifesta em uma vida transformada.
A justiça dos fariseus era visível, admirada, meticulosa — mas também era muitas vezes vazia de misericórdia e confiança real em Deus. Eles praticavam a tsedakah da generosidade, mas ignoravam a tsedakah que vem de Deus.
A verdadeira justiça, segundo Jesus, é fruto de um coração rendido, humilde, que sabe que não pode se salvar, mas que é movido a amar e servir porque foi alcançado pela misericórdia divina.
Essa mensagem continua relevante. Ainda hoje, é fácil cair na tentação de pensar que podemos “compensar” nossas falhas com boas obras, ou que merecemos o favor de Deus por sermos “bons cristãos”.
Mas o evangelho nos lembra: não somos salvos porque fazemos o bem. Fazemos o bem porque fomos salvos. A graça de Deus é o ponto de partida, e não a recompensa final.
A justiça que excede é aquela que nasce do encontro com Jesus, que nos transforma de dentro para fora, e nos convida a confiar menos em nós mesmos e mais na bondade de Deus.
Quando Jesus diz que nossa justiça deve exceder a dos fariseus, Ele não está propondo uma nova escada para o céu. Está nos chamando para descer do nosso orgulho, abandonar as aparências e confiar na justiça que só Ele pode nos dar.
Essa é a justiça que nos faz parte do reino. Essa é a justiça que salva. Essa é a justiça que transforma.
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