O Poder da Estrutura no Salmo 23

O Salmo 23 é um dos textos mais conhecidos e amados da Bíblia, frequentemente recitado para trazer conforto, orientação e a certeza da presença de Deus. Nas últimas semanas, analisamos esse Salmo verso por verso, concluindo com o versículo 6, que destaca a segurança na misericórdia do Senhor ao longo da vida. No entanto, sua profundidade vai além da beleza poética e teológica—sua estrutura literária revela um significado ainda mais profundo. Hoje, exploraremos como a estrutura quiástica do Salmo 23 amplia nossa compreensão da sua mensagem de confiança e provisão divina.

Diferentemente do português, onde a poesia muitas vezes busca harmonizar palavras, a poesia hebraica organiza ideias em padrões simétricos. Essa abordagem cria um centro de destaque dentro do texto, conduzindo o leitor à mensagem essencial. Infelizmente, a tradução para outros idiomas pode obscurecer essa estrutura, mas em sua forma original, o Salmo 23 segue um arranjo quiástico que revela sua intenção central.

O quiasmo é um recurso literário no qual os elementos de um texto são organizados de forma espelhada: o primeiro elemento corresponde ao último, o segundo ao penúltimo, e assim sucessivamente. Esse padrão continua até chegar ao centro, onde está a ideia mais importante. Compreender essa estrutura restaura a profundidade do texto bíblico, permitindo-nos apreciar não apenas sua beleza, mas também sua riqueza teológica e filosófica. A estrutura quiástica (também chamada de quiasmo) era amplamente utilizada na literatura hebraica antiga, incluindo os Salmos, Provérbios e livros proféticos. O termo “quiasmo” vem da letra grega χ (chi), que lembra um “X”, simbolizando a disposição espelhada das ideias. Essa técnica reforça temas centrais, cria equilíbrio e facilita a memorização, tornando-se uma ferramenta essencial na tradição oral e escrita da Bíblia.

Esse padrão era amplamente utilizado na poesia e narrativa hebraica para: 1- Facilitar a memorização nas tradições orais. 2- Destacar temas centrais, posicionando-os no meio da passagem. 3 – Criar simetria e equilíbrio dentro do texto. 4- Evidenciar contrastes e paralelos entre diferentes ideias. Muitos trechos bíblicos, incluindo Gênesis, Isaías e os Evangelhos, utilizam o quiasmo para enfatizar mensagens centrais. No Salmo 23, essa estrutura é particularmente significativa, pois reforça a progressão de provisão → perigo → segurança divina.

Por que é Importante Reconhecer Estruturas Quiásticas?

Identificar estruturas quiásticas nos textos bíblicos enriquece a leitura e compreensão das Escrituras de diversas maneiras:

1️⃣ Destacar a Mensagem Central – No Salmo 23, o ponto central (“Porque Tu estás comigo”) evidencia que a presença de Deus é a maior fonte de segurança e conforto, sendo o eixo que sustenta toda a composição do Salmo.

2️⃣ Valorizar a Beleza Literária – A disposição simétrica das ideias realça a maestria da poesia hebraica, revelando uma estrutura intencional que traz equilíbrio e profundidade ao texto.

3️⃣ Aprofundar a Compreensão Teológica – O Salmo 23 apresenta uma progressão clara (paz → perigo → segurança divina → paz eterna), refletindo a constância e fidelidade de Deus ao longo da jornada da fé.

Principais Reflexões Sobre Essa Estrutura:

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O Salmo 23 descreve uma jornada de fé, ilustrando o cuidado de Deus em cada fase da vida:

1️⃣ Deus Provê e Guia (Versículos 1-3)

• Como um pastor, Deus garante que seu povo não tenha falta de nada, conduzindo-o a provisão, paz e justiça.

2️⃣ Deus Protege nos Momentos de Trevas (Versículo 4a)

• Mesmo nos momentos mais difíceis (“vale da sombra da morte”), a presença de Deus elimina o medo.

3️⃣ Deus Dá Vitória Sobre os Inimigos (Versículo 5)

• A imagem de uma mesa preparada diante dos inimigos significa que as bênçãos de Deus não podem ser impedidas por oposição.

4️⃣ A Bondade de Deus é Eterna (Versículo 6)

• O Salmo termina com a promessa de bondade contínua, misericórdia e comunhão eterna com Deus.

Ao reconhecer padrões bíblicos como o quiasmo, ganhamos uma compreensão mais rica das Escrituras, apreciando não apenas a mensagem, mas também a beleza da composição. O Salmo 23 não é apenas uma declaração de fé, mas uma obra-prima cuidadosamente estruturada, que aponta para a orientação e proteção constante de Deus. Se abraçarmos essa compreensão, o Salmo 23 se torna mais do que uma passagem de conforto—ele se transforma em um testemunho da fidelidade de Deus, uma promessa estruturada de que, não importa onde estejamos na jornada, nunca estaremos sozinhos: “Porque Tu estás comigo”.

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Perseguid pela bondade divina Salmos 23:6

Perseguido pela Bondade

Você Está Deixando D-us Te Alcançar?

O Salmo 23 é um dos textos mais conhecidos e recitados das Escrituras. Frequentemente, ele é visto como um salmo de conforto, um convite para descansar na presença do Bom Pastor. Mas e se, ao invés de apenas um salmo de consolo, ele fosse também um desafio para aqueles que decidem seguir verdadeiramente ao Senhor?

O versículo 6 nos traz uma declaração poderosa de Davi: “Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor por longos dias.” Em hebraico, esta passagem diz:

אךטובוחסדירדפוניכלימיחיי; ושבתיבביתיהוהלארךימים.

אךטובוחסד (wāḥéseḏ – misericórdia) ירדפוני (yirdəp̄ūnī – perseguirão) כלימיחיי; ושבתי (wəšāḇtî – habitarei/voltarei) בביתיהוהלארךימים.

Agora, vamos nos aprofundar no significado e no desafio desse versículo para a nossa caminhada com D-us. A palavra hebraica traduzida como “seguir” é “yirdəp̄ūnī” (ירדפוני), que significa “perseguir”, um termo muitas vezes associado a inimigos que caçam suas vítimas. Davi foi perseguido por muitos inimigos: Saul (1 Samuel 18–26), os filisteus (1 Samuel 21:10-15; 1 Samuel 27), os amalequitas (1 Samuel 30) e pelo seu próprio filho Absalão (2 Samuel 15–18). No entanto, aqui, Davi nos apresenta um conceito que dá uma reviravolta nessa palavra: não são inimigos que o perseguem, mas sim a bondade e a misericórdia de D-us.

A palavra hebraica וָחֶסֶד (wāḥéseḏ), traduzida como “e misericórdia”, tem um significado profundo. Ḥéseḏ significa “amor fiel”, “graça”, “lealdade”. Esse termo é frequentemente usado para descrever a fidelidade de D-us à aliança com Israel. Ao contrário de algumas presunções teológicas modernas, a graça não é um conceito exclusivo do Novo Testamento; todos já conheciam a graça de D-us, desde Noé e passando pela libertação do Egito. No judaísmo antigo, ḥéseḏ não era apenas um sentimento, mas um compromisso ativo. D-us não apenas ama, mas permanece fiel ao seu povo. Na antiga Israel, a hospitalidade era um sinal de honra e aliança. Quando Davi fala sobre “habitar na casa do Senhor”, ele não está apenas se referindo ao templo físico, mas à presença ininterrupta de D-us. Nos tempos bíblicos, receber um convidado em casa significava provê-lo de proteção e sustento; era uma relação de compromisso. Da mesma forma, D-us não nos chama apenas para visitá-Lo ocasionalmente, mas para habitar em Sua presença, vivendo em intimidade com Ele diariamente. 

Na antiguidade, quando o templo (casa de D-us) ainda existia, não se entrava nele de qualquer maneira. Havia um rigoroso protocolo de purificação, incluindo o pedido de perdão pelos pecados e um banho no Mikvá (uma espécie de piscina com água corrente) feito totalmente nu antes de ser admitido no templo e na presença do Senhor. Da mesma forma, não podemos entrar na presença de D-us de qualquer jeito. Devemos confessar nossos pecados ocultos e, assim como no Mikvá, nos despir de nossa capa exterior, expondo ao Senhor quem realmente somos, nossas limitações, falhas, sentimentos, medos e verdadeiras intenções. Somente então estaremos preparados para andar em Sua presença.

A expressão hebraica וְשַׁבְתִּי (wəšāḇtî), traduzida como “e habitarei” ou “voltarei”, carrega um significado especial. Pode significar “habitar” ou “retornar”. Algumas traduções optam por “voltarei” para enfatizar um compromisso renovado com D-us. Davi deseja permanecer na presença do Senhor, mas a palavra também sugere um retorno contínuo ao templo, simbolizando um relacionamento profundo e constante com D-us. Essa palavra está intrinsecamente ligada ao conceito de Teshuvá (retornar), que significa arrependimento, ou voltar ao ponto inicial. Errou? Volte ao seu ponto inicial, passe pelo processo de se despir de si mesmo e confessar o seu pecado. Retome sua relação com D-us. Não importa quantas vezes você erre; o que importa é quanto tempo você passa na presença do Senhor.

O Salmo 23:6 não é apenas uma promessa de consolo; é um desafio. Se a bondade e a misericórdia de D-us estão te perseguindo, por que você ainda vive como se estivesse fugindo? Aperte o passo, mas desta vez não para escapar, e sim para correr em direção ao nosso Bom Pastor. Ele já preparou a mesa, já estendeu Seu convite e já enviou Suas bênçãos para te seguir. Agora, cabe a você permitir-se ser encontrado e escolher habitar em Sua presença.

Você permitirá ser alcançado?

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Honra na Adversidade

O Salmo 23 é uma das passagens mais amadas da Bíblia. Davi, o pastor que se tornou rei, descreve poeticamente o cuidado divino de uma maneira profundamente relacional—usando a imagem de um pastor cuidando de seu rebanho. O salmo começa com D-us suprindo todas as necessidades, guiando Seu povo a pastos verdejantes e águas tranquilas, restaurando suas almas e conduzindo-os pelo caminho certo. Então, entramos no “vale da sombra da morte”—um lugar escuro e assustador—onde Davi nos lembra que não caminhamos sozinhos.

De repente, chegamos ao versículo 5: “Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos.” Espere—o quê? Um banquete? Bem na frente dos inimigos? Esse é um detalhe inesperado. Imagine estar cercado de perigos e, ainda assim, D-us prepara a mesa, arruma os talheres e te convida para comer como um convidado de honra. O que isso significa e como se aplica às nossas vidas hoje?

O Contexto Cultural e Histórico do Salmo 23

Para entender o peso desse versículo, precisamos calçar as sandálias de um israelita da antiguidade e compreender o mundo antigo. A hospitalidade não era apenas um gesto gentil; era um dever sagrado. O anfitrião era responsável pelo bem-estar de seu convidado, mesmo que isso significasse risco pessoal. Se você fosse convidado para a casa de alguém, estava sob sua proteção. Mesmo que houvesse inimigos do lado de fora, enquanto você estivesse à mesa do anfitrião, eles não poderiam te tocar. Era assim que a hospitalidade funcionava no Antigo Oriente Próximo. Davi, que escreveu esse salmo, conhecia bem a sensação de ter inimigos. Seja o rei Saul perseguindo-o ou nações rivais, como os filisteus, buscando sua destruição, Davi sabia o que era estar cercado. Ainda assim, ele pinta um quadro divino preparando uma mesa—um sinal de abundância, honra e segurança—mesmo com a oposição por perto.

A Mesa do Pastor

Antes de deixar as ovelhas pastarem, os pastores inspecionavam a terra, removendo perigos como plantas venenosas e predadores como cobras. A “mesa” nesse contexto representa a terra preparada para o pasto, destacando o papel divino em abrir caminho para Seu povo em situações perigosas. D-us não apenas nos guia para a batalha; Ele nos alimenta e sustenta mesmo quando o inimigo está por perto. No mundo antigo, compartilhar uma refeição tinha um significado profundo. Em alguns casos, inimigos se reconciliavam ao comer juntos—selando tratados de paz à mesa. Mais frequentemente, reis realizavam banquetes suntuosos para celebrar vitórias, às vezes diante dos inimigos derrotados. A mesa divina na presença dos nossos inimigos não é apenas sobre sobrevivência—é sobre triunfo. É uma declaração de que estamos sob Seu favor divino, não importa quem se levante contra nós. D-us não apenas nos faz passar pelos desafios—Ele nos abençoa no meio deles.

O Que Isso Significa Para Nós Hoje?

O que significa, então, “D-us preparar uma mesa para você na presença dos seus inimigos?”

  1. Paz no Caos – A vida é cheia de batalhas—algumas externas, como pessoas difíceis ou circunstâncias injustas, e outras internas, como ansiedade e medo. D-us nem sempre remove os inimigos imediatamente, mas Ele nos provê no meio da tempestade. Enquanto o mundo espera que entremos em pânico, D-us nos convida a sentar, comer e confiar Nele.
  2. Ele nos Honra – O mundo pode não reconhecer seu valor, mas D-us reconhece. Estar à mesa dEle é um sinal de favor divino. Não se trata de arrogância, mas de entender sua identidade em Cristo. Você não é uma vítima—você é filho do Rei.
  3. A Vitória é Certa – A presença de inimigos não significa derrota. Na verdade, sua presença torna o banquete ainda mais poderoso. Ele não apenas provê para você em segredo—Mas faz isso abertamente, demonstrando Sua fidelidade ao mundo que observa.

O versículo continua: “Unges a minha cabeça com óleo; o meu cálice transborda.” Essa imagem remete aos pastores, que aplicavam óleo nas ovelhas para protegê-las de insetos, curar feridas e prevenir machucados. Da mesma forma, a unção divina simboliza Seu cuidado, cura e provisão em nossas vidas. “O meu cálice transborda”, a palavra hebraica רְוָיָה (revayah), que significa “beber profundamente” ou “estar saturado”, aponta para uma satisfação em nível da alma, encontrada somente em Deus. A frase כּוֹסִי רְוָיָה (Kosi revayah)—”minha taça transborda”—nos lembra que as bênçãos de Deus são abundantes, excedendo nossas necessidades e transbordando para todas as áreas da vida. Essa taça transbordante é uma metáfora da graça infinita de Deus, assegurando-nos que Seu cuidado não deixa espaço para falta ou medo. Vamos beber profundamente de Sua provisão, permitindo que Sua alegria e paz nos encham e transbordem para os outros.

Você Vai Sentar-se à Mesa?

Aqui está o desafio: Ele preparou a mesa, mas você vai sentar-se? É fácil ficar preso aos nossos medos, focando tanto nos inimigos que perdemos o banquete. Imagine alguém preparando uma refeição incrível e você se recusar a comer porque está preocupado com quem está olhando. Seria ridículo, não é? Mas fazemos isso o tempo todo! Em vez de confiar na provisão divina, deixamos o medo nos impedir de desfrutar do que Ele nos deu.

Você confia que D-us é seu protetor? Você acredita que Ele está te abençoando mesmo no meio da oposição? O verso 5 não diz: “Você remove meus inimigos antes de preparar a mesa.” Não, a mesa é preparada enquanto eles ainda estão lá. Isso significa que suas circunstâncias não precisam ser perfeitas para você experimentar a abundância divino.

Conclusão: Confie no Bom Pastor

Confie no bom pastor, o verso 5 é uma declaração ousada da provisão, proteção e vitória divina. Ele não está apenas te ajudando a passar pela vida, mas está te abençoando abundantemente no processo. Mesmo cercado por problemas, Ele te convida para a mesa—para descansar, ser alimentado e confiar em Sua bondade. Então, da próxima vez que se sentir sobrecarregado pelos desafios, lembre-se deste versículo. Imagine D-us preparando uma mesa para você, enchendo seu cálice até transbordar e te ungindo com Seu amor. Seus inimigos podem observar, mas não podem te tocar. O Bom Pastor cuida de você.

Agora, você vai se sentar e comer, ou vai continuar em pé, paralisado pelo medo? O banquete está pronto—puxe uma cadeira e sente-se.

Adivalter Sfalsin

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Além do Vale

O Salmo 23 apresenta uma visão rica e confortante do Senhor como o Pastor, destacando Seu cuidado, provisão e orientação. Esta exploração mergulha nas camadas profundas do Salmo 23, explorando suas raízes hebraicas, contexto cultural e histórico, e sua relevância duradoura em nossas lutas contemporâneas.

Vamos revisar os versículos 1 a 3 do Salmo 23. No versículo de abertura, o salmista declara: “O Senhor é o meu pastor; nada me faltará.” Essa afirmação enfatiza a fidelidade divina em atender às nossas necessidades, especialmente durante os tempos difíceis. Tudo pode faltar, o que nunca nos faltará será a Sua presença. O versículo 2 continua: “Ele me faz repousar em pastos verdejantes; leva-me para junto das águas de descanso.” Aqui, a imagem dos “pastos verdejantes” não se refere apenas a campos luxuriantes, mas à provisão divina constante e suficiente, mesmo em paisagens áridas. As “águas de descanso” simbolizam repouso e paz, conduzindo-nos a um estado de confiança e renovação. O versículo 3 expande o cuidado do Senhor, destacando Sua restauração e orientação: “Ele restaura a minha alma; guia-me pelos caminhos da justiça por amor do seu nome.” A restauração divina é profunda, abrangendo nosso ser físico, emocional e espiritual, trazendo-nos de volta à harmonia com Seu propósito. Os “caminhos da justiça” representam Sua integridade e verdade. Tudo isso acontece “por amor do seu nome”, apontando para o objetivo final de glorificar Seu caráter santo e fiel.

Agora, vamos mergulhar mais fundo no versículo 4, com descobertas do texto hebraico:

1. “Vale da sombra da morte” (גיא צלמות – gei tzalmavet): Literalmente como “vale da sombra da morte”, mas “צלמות” (tzalmavet) também pode significar escuridão profunda ou grande angústia. O “vale” representa metaforicamente um lugar de profunda e escura dificuldade ou perigo. As crenças do Antigo Oriente Médio: O conceito de caminhar por um vale escuro é simbólico dos momentos mais desafiadores da vida. Essa literatura também refletia temas de escuridão e luz, perigo e libertação, que ressoam neste salmo. Observe que esta não é uma visão dualista filosófica grega do bem versus o mal, mas uma realidade da vida que todos enfrentamos, bons momentos e desafios na vida.

2. “Não temerei mal algum” (לא אירא רע – lo ira ra): O verbo hebraico אירא (ira) significa “temerei”. O uso de לא (lo), que significa “não”, junto com רע (ra), que significa “mal” ou “dano”, enfatiza uma forte declaração de confiança e coragem diante do perigo.

3. “Pois tu estás comigo” (כי אתה עמדי – ki atah imadi): A preposição כי (ki) significa “porque”, indicando a razão da confiança do salmista. אתה (atah) significa “tu” (referindo-se a D-us), e עמדי (imadi) significa “comigo”, enfatizando a presença divina como um fato pessoal e reconfortante. Observe que a única razão para não temer é a presença divina. Sua presença faz toda a diferença, não há garantia de que não haverá vales em nossas vidas, a garantia é Sua presença.

4. “Teu cajado e tua vara” (שבטך ומשענתך – shevetekha u’mishantekha): A vara (שבט – shevet) e o cajado (משענת – mishenet) são ferramentas usadas pelos pastores para guiar e proteger suas ovelhas. A vara é usada principalmente para proteção, não para punição como muitos podem acreditar. Ela é tipicamente um instrumento mais curto, mais grosso e possivelmente mais rígido em comparação com o cajado. Pode ser usada para afastar predadores ou ameaças às ovelhas, garantindo sua segurança. O cajado, que é frequentemente mais longo e possui um gancho ou curva em uma extremidade, é usado para guiar e apoiar as ovelhas. Ajuda na gestão do rebanho, especialmente na direção das ovelhas por caminhos seguros ou no resgate delas de lugares difíceis.

5. “Eles me confortam” (המה ינחמוני – hemah yenachamuni): ינחמוני (yenachamuni) da raiz נחם (nacham) significa “eles me confortam”. Isso sugere segurança e uma sensação de segurança proporcionada pelas ferramentas divinas (metaforicamente, Seu poder e orientação). Dessa palavra deriva o nome de Noé, que significa “descansar” ou “ser confortado”. O nome é apropriadamente dado com uma esperança ou declaração profética anexada a ele, como explicado em Gênesis 5:29: “E chamou o seu nome Noé, dizendo: ‘Este nos confortará do nosso trabalho e do sofrimento de nossas mãos, proveniente da terra que o Senhor amaldiçoou.’”

A imagem do pastor está profundamente enraizada no psiquê do Antigo Oriente Médio, refletindo o papel de um líder tanto como protetor quanto guia. Esta dualidade é crucial para entender como as audiências antigas perceberiam a mensagem do Salmo 23, com as ferramentas do pastor—vara e cajado—não apenas proporcionando conforto, mas também comandando autoridade e oferecendo direção.

Hoje, nossos desafios podem não ser físicos, ainda assim, são incrivelmente assustadores. Dificuldades financeiras, crises de saúde, tensões relacionais e inquietações sociais são os vales invisíveis que navegamos. Nestes tempos desafiadores, o Salmo 23:4 ressoa com uma verdade atemporal: nunca estamos sós. O mesmo D-us que guiou pastores antigos através de vales tangíveis e metafóricos continua a ser nosso guia e protetor firme. Nos “vales” metafóricos da vida moderna, o Salmo 23 oferece a garantia da companhia inabalável divina. Este trecho nos estimula a confiar não apenas em nosso próprio entendimento, mas na sólida promessa de orientação e proteção divina. Ele nos chama a fomentar um espírito comunitário, fortalecido pela fé, onde os medos são aliviados pela afirmação coletiva da onipresença divina. Refletir sobre esta escritura nos ensina que nossos momentos mais difíceis são oportunidades para nos conectarmos profundamente com a presença de nosso Pastor. A vara e o cajado simbolizam mais do que meras ferramentas pastorais; são instrumentos de Sua proteção e orientação inabaláveis—recursos que proporcionam conforto e nos capacitam a atravessar a escuridão com coragem. Somos chamados a nos apegar firmemente aos ensinamentos do Salmo 23, absorvendo sua sabedoria histórica e aplicando suas verdades em nossas vidas. Cercados pela presença reconfortante de nosso Pastor, não há espaço para o medo. Cada desafio que enfrentamos é uma oportunidade para uma conexão espiritual mais profunda com o Divino. Embarque nesta aventura!

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Pastor guiando as ovelhas

Andando nos Caminhos da Justiça

O Salmo 23 é um dos trechos mais amados das Escrituras, pintando uma bela imagem de D-us como nosso Pastor. O versículo 3 destaca-se como um testemunho do poder restaurador de D-us, de Sua orientação e de Seu propósito em nossas vidas: “Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça por amor do Seu nome.” Para compreender plenamente a profundidade desse versículo, precisamos observar sua conexão com os versículos anteriores, explorar a riqueza da linguagem hebraica e descobrir as lições atemporais que ele oferece para nossas vidas hoje.

Em reflexões anteriores sobre o Salmo 23:1, (link abaixo) exploramos como o salmo começa com uma declaração poderosa: “O Senhor é o meu pastor; nada me faltará.” Para aqueles que perderam os artigos anteriores, analisamos como esse versículo afirma a suficiência de D-us como a fonte última de provisão. Ele como nosso Pastor, que não nos falta em tempos difíceis, nos sustentando fielmente.

O versículo 2 (link abaixo) continua: “Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente às águas tranquilas.” À primeira vista, “verdes pastos” pode trazer à mente imagens de campos exuberantes e verdejantes, mas o entendimento hebraico antigo oferece uma perspectiva diferente. Nas paisagens secas e áridas de Israel, “verdes pastos” referem-se a pequenos tufos de grama que surgiam após o orvalho ou a chuva. Os pastores conduziam suas ovelhas a essas áreas esparsas, mas vitais, para o sustento. Essa imagem destaca nossa dependência de D-us para prover em meio aos desertos da vida. Sua provisão pode não ser abundante, mas é sempre suficiente.

Com esse pano de fundo, o versículo 3 amplia o tema do cuidado de D-us, revelando como Ele nos restaura e direciona nossos passos.

“Refrigera a minha alma”

A frase “Yeshovev nafshi” (ישובב נפשי) é profunda em seu significado. O verbo yeshovev, significa “retornar” ou “restaurar”. Ele evoca uma imagem de algo sendo trazido de volta ao seu estado original, um senso de renovação e reavivamento. Nesse contexto, a restauração Divina abrange todas as dimensões do nosso ser: física, emocional e espiritual. Não se trata apenas de refrescar uma alma cansada, mas de nos realinhar com Seu propósito—como um pastor que recupera uma ovelha perdida. Essa ideia de restauração está profundamente ligada ao conceito bíblico de teshuvah (תשובה), ou arrependimento. Quando nos desviamos, o trabalho restaurador Dele nos traz de volta ao Seu rebanho, curando nossas feridas e colocando-nos no caminho certo novamente. Assim como o cuidado de um pastor renova a força de suas ovelhas, a restauração Divina nos capacita a andar fielmente com Ele.

“Guia-me pelas veredas da justiça”

A frase “Yancheni b’ma’aglei tzedek” (ינחני במעגלי צדק) revela a intencionalidade da orientação. O verbo yancheni(“Ele me guia”) significa “guiar” ou “direcionar”. Na forma Hifil, enfatiza o aspecto da causatividade: Ele ativamente nos faz andar por esses caminhos. A palavra ma’aglei (מעגלי), traduzida como “veredas”,  denota círculos ou ciclos. Essa imagem evoca as trilhas bem percorridas que os pastores criam enquanto conduzem seus rebanhos. Essas veredas não são apenas literais; representam o ritmo e a consistência dos caminhos Divino. Assim como as trilhas de um pastor levam de volta a lugares seguros, os caminhos Divinos oferecem estabilidade, confiabilidade e um senso de ser continuamente conduzido de volta à Sua verdade e provisão.

O termo tzedek (צדק), traduzido como “justiça”, carrega um significado profundo no pensamento hebraico. Enraizado na raiz tri-consonantal צ-ד-ק (tzadi-dalet-kuf), ele incorpora justiça, equidade, integridade moral e retidão segundo os padrões Divinos. Esses caminhos de justiça não são arbitrários; eles estão perfeitamente alinhados com a justiça e a verdade divina. Andar por essas veredas significa viver em harmonia com a Sua vontade, refletir Seu caráter em nossas ações e abraçar uma vida de integridade e equidade.

“Por amor do Seu nome”

A frase “Lema’an sh’mo” (למען שמו) une o versículo com um propósito divino. A preposição lema’an (“para que” ou “pelo amor de”) destaca que a restauração e orientação Divina que servem a um objetivo maior. Embora Seu cuidado nos abençoe, seu último propósito é exaltar o Seu nome—Sua reputação, caráter e glória. No pensamento hebraico, um nome (שם, shem) representa a essência e a identidade de uma pessoa. Suas ações refletem Sua natureza imutável como um Pastor fiel, justo e amoroso. Ao nos restaurar e nos guiar, Ele demonstra ao mundo que é Santo, Digno de confiança e bom.

Uma Lição para Hoje

O Salmo 23:3 é um lembrete atemporal do cuidado Dele aquele que o seguem. Em um mundo cheio de ruído, pecados, decadência moral e distrações, este versículo nos chama a depender Dele para uma restauração. A verdadeira renovação não é algo que alcançamos por conta própria ou por determinação pessoal, mas sim o trabalho Dele em nós, reorientando nossas vidas para o Seu propósito. As “veredas da justiça” nos desafiam a confiar em Sua orientação, mesmo quando a jornada parece incerta. Assim como os pastores antigos conduziam suas ovelhas por trilhas bem percorridas, Seus caminhos são coerentes e verdadeiros. Andar por esses caminhos requer humildade e rendição, ele traz paz, justiça e propósito. Finalmente, viver “por amor do Seu nome” eleva nossas vidas a um chamado mais alto, que significa refletir o caráter Dele em todos os aspectos de nossas vidas diárias. Seja demonstrando bondade em situações difíceis, defendendo a justiça ou simplesmente sendo uma fonte de encorajamento para aqueles ao nosso redor, Ele é honrado quando incorporamos Seu amor e justiça de maneiras práticas e tangíveis. Em um mundo egoísta, desesperado por justiça, amor e esperança, somos chamados a incorporar Seu caráter e testemunhar Sua fidelidade.

Que este versículo o inspire a confiar Nele para restauração, a seguir Sua orientação e a viver uma vida que honra Seu santo nome.

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Pastos Verdejantes?

Pastos Verdejantes?

“Ele me faz repousar em pastos verdes; Ele me guia junto às águas tranquilas.” (Salmos 23:2)

Você já imaginou campos verdejantes e riachos brilhantes ao ler essas palavras? Se você é como a maioria, provavelmente visualiza colinas cobertas por uma vegetação exuberante — perfeitas, serenas, abundantes. É uma imagem confortante, frequentemente reforçada por inúmeros sermões e representações artísticas. Mas será que realmente entendemos este salmo em seu contexto original? Será que foi isso que Davi quis dizer ao escrever essas palavras atemporais? Vamos nos aprofundar e explorar o significado de D-us como nosso pastor e como essa verdade pode desafiar e transformar a maneira como vivemos.

Na época de Davi, ser pastor não era a cena idílica que muitas vezes imaginamos. Longe das paisagens férteis que concebemos, o pastoreio acontecia principalmente no deserto de forma desafiadora, ou midbar em hebraico. Este não era o terreno cultivável ou exuberante que associamos ao termo “pastos verdes”, mas sim um terreno árido e acidentado. As encostas do deserto, onde os pastores guiavam seus rebanhos, eram secas, rochosas e com vegetação escassa. Esse ambiente era inóspito para a agricultura, e os pastores vagavam pelas colinas desoladas com seus rebanhos, lidando com recursos limitados em condições adversas. Os “pastos verdes” mencionados não eram vastos campos de grama abundante. Em vez disso, referiam-se a pequenos tufos de capim que cresciam esparsamente no deserto. Esses tufos surgiam devido à baixa precipitação pluvial anual da região, à umidade das brisas mediterrâneas noturnas e à condensação que se acumulava perto das rochas durante a noite. Na manhã fresca, esses tufos ficavam verdes e forneciam sustento para as ovelhas. No entanto, ao meio-dia, sob o calor escaldante do sol do deserto, grande parte dessa grama secava e murchava, deixando novamente o cenário árido.

A tarefa do pastor nesse ambiente requeria planejamento e um conhecimento profundo do terreno, essenciais para o sucesso do rebanho. Esse exercício diário de caminhar com as ovelhas criava trilhas de pastagem nas encostas — algumas delas datando dos tempos de Abraão —, que mostram como os pastores maximizavam os escassos recursos disponíveis. O pastor guiava o rebanho cuidadosamente em círculos ao redor das colinas, levando-o às áreas onde esses pequenos tufos cresciam. Era um processo lento e deliberado, garantindo que as ovelhas tivessem alimento suficiente para o momento, mas nunca em excesso.

Quando lemos “Ele me faz repousar em pastos verdes”, nossa mente ocidental frequentemente imagina abundância e permanência. Mas a realidade descrita por Davi era bem diferente. Esse contexto muda drasticamente nossa perspectiva. Em vez de imaginar uma vida de provisão abundante e sem esforço, vemos uma imagem de confiança, dependência e orientação diária. Os “pastos verdes” do Salmo não se referem a ter tudo de uma vez, mas a receber o suficiente para o momento presente.

Este entendimento desafia nossa visão sobre a provisão de D-us em nossas vidas. A cultura frequentemente valoriza o excesso e a segurança — ter o suficiente não apenas para hoje, mas para muitos anos à frente. Associamos sucesso a abundância e conforto e, às vezes, esperamos o mesmo de nosso relacionamento com D-us. Mas o deserto ensina uma lição diferente: a dependência do Pastor para a provisão diária.

O papel do pastor no deserto não era levar as ovelhas a um lugar onde pudessem se fartar e se acomodar. Em vez disso, as ovelhas seguiam o pastor passo a passo, confiando que ele as guiaria ao suficiente. A vida com D-us reflete essa relação. Ele não nos promete uma vida de abundância infinita, mas nos chama a confiar n’Ele para aquilo de que precisamos hoje. Como o maior Rabino de todos os tempos disse: “Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal.” (Mateus 6:34). Quantas vezes caímos nessa armadilha, nos preocupando com o futuro em vez de confiar em D-us para o presente? A imagem dos pastos verdes nos desafia a viver pela fé, concentrando-nos no hoje e confiando que D-us proverá o amanhã.

Essa lição é ao mesmo tempo humilhante e libertadora. Ela nos lembra que a vida com D-us não é de autossuficiência ou acumular recursos, mas de confiar no Pastor para nos guiar, mesmo em estações áridas e difíceis. A imagem apresentada pelo salmista nos convida a abandonar a ansiedade e abraçar uma fé que depende de D-us momento a momento. Essa perspectiva pode transformar a maneira como enfrentamos os desafios da vida. Estamos esperando que D-us nos coloque em uma situação de conforto e abundância sem fim? Ou estamos dispostos a segui-Lo pelo deserto, confiando que Ele proverá o suficiente para o dia de hoje — mesmo que isso não se pareça com abundância aos nossos olhos?

O Salmo 23 é mais do que um poema reconfortante; é um chamado à fé e à confiança. Quando entendemos o contexto original de “pastos verdes”, vemos que este salmo trata da dependência diária de D-us, e não de luxo ou facilidade. A imagem do deserto nos lembra que a vida com D-us envolve caminhar passo a passo, confiando n’Ele em cada momento, aprendendo a depender de Sua provisão em vez de nossos próprios planos.

Da próxima vez que você ler, “Ele me faz repousar em pastos verdes”, lembre-se: não se trata de abundância, mas de provisão para cada momento presente. Que todos nós possamos aprender a seguir nosso Pastor com confiança, confiando que Ele nos conduzirá exatamente ao que precisamos, passo a passo, dia após dia.

Adivalter Sfalsin

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Nada me Faltará

O Que Salmo 23 Realmente Promete?

Quando criança, ouvir o Salmo 23 preenchia meu coração de esperança. “O Senhor é meu pastor, nada me faltará” era uma frase que eu repetia com a convicção de que meu futuro seria pleno e próspero. Imaginava uma vida adulta onde todas as necessidades seriam atendidas, sem espaço para falta ou sofrimento. No entanto, crescer em uma família humilde foi um choque para essa crença infantil. Eu via amigos com brinquedos caros, roupas novas e as oportunidades que pareciam fora do meu alcance. “O que estava errado?” eu me perguntava. Será que haviam me ensinado errado? Será que não era digno das bênçãos de D-us? A busca por essas respostas me levou a refletir profundamente sobre a verdadeira mensagem desse Salmo. Vamos explorar juntos o que “nada me faltará” realmente significa, baseando-nos na sabedoria do texto original em hebraico. Você, assim como eu, sabe muito bem que muitas coisas faltam, e às vezes em grande medida. Então, por que o Salmo afirma: “nada me faltará”? Seria uma Promessa Mal Interpretada? 

Em muitos contextos religiosos modernos, especialmente nos movimentos carismáticos e de prosperidade material, Salmos 23:1 é frequentemente usado para afirmar que quem crê em D-us jamais enfrentará falta. Essas interpretações sugerem que, ao seguirmos a D-us com fé, Ele proverá saúde, riquezas e conforto material.

Essa visão, embora popular, pode ser perigosa. Ela coloca um peso desnecessário sobre os ombros do crente, sugerindo que a falta de bênçãos materiais indica falta de fé ou uma vida espiritual inadequada. Mas será que foi isso que Davi quis dizer ao escrever este Salmo?

O Texto Original em Hebraico – No hebraico, o versículo é escrito assim:

יְהוָהרֹעִילֹאאֶחְסָר

YHWH (Adonai) – “O Senhor”

Ro’i – “é meu pastor”

Lo – “não”

Echsar – “estarei em falta”

Ao observarmos cada palavra, fica evidente que a palavra “nada” não aparece no texto original. O que Davi realmente está dizendo é que ele não estará em falta, no sentido de que D-us suprirá suas necessidades mais essenciais. Não se trata de uma promessa de abundância material ou ausência de dificuldades, mas de confiança na provisão divina.

Para entender melhor, precisamos nos colocar no lugar de Davi. Antes de ser rei, ele era pastor. Ele cuidava das ovelhas, guiando-as para pastos verdes, protegendo-as de predadores e garantindo que não passassem fome ou sede. Ao chamar D-us de “meu pastor”, Davi estava reconhecendo sua total dependência d’Ele, assim como uma ovelha depende de seu pastor para sobreviver. Isso não significa que a ovelha nunca enfrentará desafios – haverá terrenos difíceis e dias de escassez –, mas significa que ela pode confiar que o pastor estará presente, guiando-a e protegendo-a.

Muitas vezes, quando pensamos em “faltar”, imaginamos necessidades materiais: dinheiro, comida, roupas ou saúde. No entanto, o Salmo 23 também fala às necessidades mais profundas do coração humano, aquelas que não podem ser supridas por coisas. Quantos de nós já enfrentamos momentos de solidão, quando parecia que ninguém estava por perto para nos ouvir? Ou o desprezo de pessoas que julgávamos importantes? Quem nunca lidou com a depressão, sentindo-se perdido e sem direção? Ou com a rejeição, que dói mais do que a falta de qualquer bem material? E que dizer da inimizade, quando enfrentamos conflitos que parecem impossíveis de resolver? Davi, ao escrever o Salmo 23, sabia que essas necessidades emocionais e espirituais são tão reais quanto as materiais. E ele nos lembra que o Senhor é o pastor que supre todas essas carências. Ele está conosco na solidão, oferecendo companhia. Ele nos acolhe quando somos rejeitados. Ele traz paz em meio à inimizade e renova nossas forças quando estamos deprimidos. É a presença d’Ele que nos sustenta, não importa a necessidade.

O Salmo 23 menciona um dos momentos mais sombrios que um ser humano pode enfrentar: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo.” Aqui, Davi reafirma que a presença de D-us é suficiente para dissipar o medo, mesmo diante das circunstâncias mais aterrorizantes. Note que Davi não diz que D-us removerá o vale ou as dificuldades. O segredo para não temer o mal está, exclusivamente, na presença do Senhor. Ele não fala de riquezas, de livramento instantâneo ou de conforto material; fala de D-us caminhando ao lado dele. Esse versículo é uma lembrança poderosa de que o que nos dá força não é a ausência de problemas, mas a certeza de que D-us está conosco.

Então, o que significa “nada me faltará”? Significa que D-us suprirá o que é mais essencial: Sua própria presença. Ele nos dará força, sabedoria e paz para enfrentar as dificuldades. Ele nos levará a “pastos verdejantes” e “águas tranquilas”, que representam momentos de descanso e renovo em meio às lutas. Não significa que nunca sentiremos solidão, rejeição ou tristeza, mas que, mesmo nesses momentos, D-us estará conosco, suprindo o que mais importa: Sua presença transformadora.

O Salmo 23 nos convida a redefinir o que significa “faltar” e “abundância”. Não se trata de possuir todas as coisas materiais, mas de confiar que D-us está presente em todas as circunstâncias, suprindo o que realmente importa – tanto as necessidades visíveis quanto aquelas que só o nosso coração conhece. Ao revisitar esse Salmo com um entendimento mais profundo, percebo que ele não é uma promessa de riqueza, mas uma promessa de relacionamento. Ele nos convida a descansar na certeza de que D-us não nos abandonará, mesmo quando enfrentamos dificuldades, sejam elas financeiras, emocionais ou espirituais.

Se você, como eu, já se perguntou por que algo parecia estar faltando, lembre-se: o mais importante é a presença do Pastor. D-us não promete uma vida sem desafios, mas promete estar ao nosso lado, guiando-nos, fortalecendo-nos e nos dando paz. Isso, mais do que qualquer coisa material, é o que significa não faltar nada. Enquanto enfrentamos os “vales” da vida, lembre-se: o Pastor nunca falta. Na solidão, Ele é a companhia. Na rejeição, Ele é o acolhimento. Na tristeza, Ele é a alegria renovada. E, com Ele ao nosso lado, não precisamos temer. Essa é a verdadeira essência de “Nada me faltará”.

Adivalter Sfalsin

Se você gostou desta reflexão sobre o Salmo 23, recomendo que leia também o artigo “Lança o Teu Cuidado Sobre o Senhor – Salmos 55:22”. Ele oferece uma visão encorajadora sobre como entregar nossas preocupações a Deus e confiar plenamente n’Ele. Vale a pena conferir!

A Bênção de D-us: Compreendendo a Distinção entre Bārak e ʾĀšar

Bendito és Tu, Senhor; ensina-me os teus estatutos.** (Salmo 119:12 NASB)

Em hebraico, existem duas palavras que são traduzidas como “bendito”: ʾāšār e bārûk. A primeira, ʾāšār, é utilizada em versículos como o Salmo 1:1 e se aplica aos seres humanos. A segunda, bārûk, aparece no versículo acima e é direcionada a D-us. Embora a diferença entre essas duas palavras não seja clara em português, compreender essa distinção é fundamental para entender seu uso nas escrituras.

Existem dois verbos hebraicos que significam “abençoar”: bārak e ʾāšar. Mas qual é a diferença entre eles? O verbo bārak é utilizado quando D-us abençoa alguém, expressando um ato de generosidade divina que não depende de mérito humano. Por outro lado, o verbo ʾāšar nunca é usado por D-us, pois é associado a um estado de desejo humano. Quando alguém abençoa a D-us, o verbo é sempre bārak, nunca ʾāšar. Uma razão para essa distinção é que ʾāšar está ligado ao desejo humano de alcançar uma condição invejável: “digno de ser invejado é o homem que confia no Senhor”. D-us, por sua natureza, não almeja o que é humano e, portanto, nunca usa ʾāšar para abençoar.

Além disso, a iniciativa de usar bārak sempre vem de D-us, que concede Suas bênçãos independentemente de qualquer ação humana. Já ʾāšar requer uma ação positiva do homem para que se torne “bendito”. Bārak é mais uma bênção, enquanto ʾāšar é uma congratulação. No grego, bārak é traduzido como *eulogētos*, e ʾāšar como *makarios*. 

Para ser considerado “bendito” (ʾāšrê), o homem precisa realizar ações positivas e seguir os caminhos de D-us. Por exemplo, um homem bendito é aquele que confia em D-us sem duvidar, conforme indicado nos seguintes versículos:

– “Provai, e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nele confia.” (Salmos 34:8)

– “Bem-aventurado o homem que põe no Senhor a sua confiança, e que não respeita os soberbos nem os que se desviam para a mentira.” (Salmos 40:4)

– “Bem-aventurado o homem cuja força está em ti, em cujo coração estão os caminhos aplanados.” (Salmos 84:5)

– “O que atenta prudentemente para o assunto achará o bem, e o que confia no Senhor será bem-aventurado.” (Provérbios 16:20)

Outro exemplo de uma pessoa “bendita” é aquela que segue a autoridade das revelações de D-us, seja através de sua Torá, seus mandamentos ou suas palavras, conforme mencionado em versículos como:

– “Bem-aventurados os retos em seus caminhos, que andam na Torá do Senhor.” (Salmos 119:1)

Ajudar os pobres também é um ato que leva a ser considerado bendito:

– “Bem-aventurado é aquele que atende ao pobre; o SENHOR o livrará no dia do mal.” (Salmo 41:1)

– “O que despreza ao seu próximo peca, mas o que se compadece dos humildes é bem-aventurado.” (Provérbios 14:21)

Por outro lado, o Salmo 1 destaca a ideia de que “bendito é o homem que não faz” certas coisas, como se associar aos ímpios:

– “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.” (Salmos 1:1)

O salmo termina afirmando que os ímpios serão isolados no final, pois não estarão presentes no julgamento e perecerão.

De acordo com Harrison, a tradução para o grego usa *eulogētos* para bārak e *makarios* para ʾāšar. Todas as Bem-aventuranças começam com *makarios*, lembrando-nos de que essas não são dádivas divinas, mas algo que se conquista com esforço humano. Contudo, aqui a ideia central é mostrar nossa gratidão a D-us. Essa é a verdadeira resposta que podemos oferecer: nosso louvor. É crucial lembrar que D-us nunca chama o homem de “bendito” com o termo ʾašrê, pois Suas bênçãos são uma graça imerecida, que não depende de nosso esforço. Em resposta, devolvemos a D-us o que Ele nos oferece, louvando-O com a mesma palavra. Você e eu podemos encontrar felicidade (ʾašrê) por meio de nossos esforços, mas tudo isso depende, no fim das contas, da benevolência de D-us. Por isso, cantamos: “Bendito és Tu.”

Este texto é baseado em um artigo que li do Ph.D. Skip Moen, publicado em 17 de julho de 2024.

Adivalter Sfalsin

Confissão de Davi: Uma Lição para os Tempos Modernos.

“Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim” (Salmos 51:3).

“Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” (Salmos 51:5).

Nesse salmo, Davi abre o coração e implora ao Senhor por perdão devido ao seu relacionamento ilícito com Bate-Seba.

Ao afirmar que foi “formado em iniquidade”, Davi não está sugerindo que seus pais tiveram uma relação ilícita ao concebê-lo. Em vez disso, ele reconhece que nasceu com traços de intensa paixão em seu caráter. Neste salmo de confissão, ele assume total responsabilidade por seu comportamento, mesmo reconhecendo que algumas características são hereditárias. Davi não tenta se justificar, mas busca unicamente o perdão. Ele declara: “Pequei! Sou culpado, perdoe-me!”.

Que pensamento refrescante e edificante! Esta atitude é sublime e admirável, especialmente quando contrastada com o comportamento moderno de transferir a culpa para os outros. Em muitos aspectos da psicologia contemporânea, os pais são frequentemente usados como bode expiatório para justificar o mau comportamento dos filhos. A sociedade é responsabilizada pelos delinquentes e marginais, aqueles em liderança são responsabilizados pela opressão dos liderados, e sempre alguém é considerado responsável pelas culpas dos malfeitores, nunca eles próprios. Na verdade, quando não assumimos os nossos erros, criamos uma barreira para o auto crescimento, ficamos imaturos, emocionalmente crianças eternas.

Esse contraste também é evidente desde o início da história bíblica. No Jardim do Éden, quando Adão e Eva pecaram ao comer do fruto proibido, ambos tentaram transferir a culpa. Adão culpou Eva e, indiretamente, D-us: “A mulher que me deste por companheira deu-me da árvore, e eu comi” (Gênesis 3:12). Eva, por sua vez, culpou a serpente: “A serpente me enganou, e eu comi” (Gênesis 3:13). Este comportamento de transferência de culpa é diametralmente oposto ao que Davi demonstra em seu salmo de confissão.

Este salmo instrutivo nos ensina sobre o arrependimento sincero, conhecido em hebraico como “Teshuvá”. É muito simples: você errou? Assuma o seu erro, volte ao princípio do seu caráter humano, não procure alguém para culpar e arrependa-se. Isso é o que o Senhor espera de você.

Leia também: O que é que o Senhor espera de ti?

Davi, em Salmos 51, nos dá um poderoso exemplo de humildade e autoconfissão. Ele não se esconde atrás de justificativas ou culpas transferidas. Ao contrário, ele reconhece sua falibilidade humana e se prostra diante de D-us em busca de perdão. Esse exemplo é vital para todos nós, mostrando que o caminho para a redenção começa com o reconhecimento de nossas próprias falhas e uma genuína busca pelo perdão divino.

Este salmo, portanto, não só é um modelo de confissão pessoal, mas também um guia espiritual que nos orienta sobre a importância da responsabilidade pessoal e do arrependimento sincero. Que possamos aprender com Davi e aplicar esses princípios em nossas vidas, buscando sempre a verdade e a retidão diante de D-us.


Adivalter Sfalsin

A esperança que se adia faz adoecer o coração.

A esperança que se adia faz adoecer o coração, mas o desejo cumprido é árvore de vida. Provérbios 13:12.
A minha porção é ADONAI, diz a minha alma; portanto, esperarei nele. Lamentações 3:24

Ao passar pelo vale da solidão, ansiedade e grande desapontamento, ADONAI ouviu nossa suplica e atendeu o desejo do nosso coração. Teremos mais um(s) filho(a), “o choro pode durar toda a noite mas a alegria vem pela manhã” Salmos 30:5.
Que mais podemos dizer? Senão:

Baruch ata Adonai
Baruch ata Adonai, Elohênu
Baruch ata elohê avotênu…

Bendito sejas Tu, Eterno, nosso Deus
Bendito sejas tu, Deus de nossos pais

Deus de Abraão, de Isaque e Jacó
O grande, o Poderoso e Temido Deus
Altíssimo Deus que concede boas mercês
que possui tudo e recorda a piedade dos patriarcas
Bendito sejas Tu, Eterno, nosso Deus
Bendito sejas tu, Deus de nossos pais

que com grande amor fará vir um Redentor
aos descendentes deste patriarca, por amor do seu nome
O Rei auxiliador, salvador e escudo!
Bendito sejas tu , Eterno, escudo de Abraão
Bendito sejas Tu, Eterno, nosso Deus
Bendito sejas tu, Deus de nossos pais

tu sustenta a vida com misericórdia
ressuscitou os mortos com grande piedade
Bendito sejas Tu, Eterno, nosso Deus
Bendito sejas tu, Deus de nossos pais
ampara os caídos e sara os doentes
Tu Eterno, és Poderoso para sempre
és tu que ressuscitas os mortos e és potente em salvar

Bendito sejas Tu, Eterno, nosso Deus
Bendito sejas tu, Deus de nossos pais
Afrouxa as ataduras dos que estão em grilhões
e confirmas a tua fidelidade aos que dormem no pó

Bendito sejas Tu, Eterno, nosso Deus
Bendito sejas tu, Deus de nossos pais
Bendito sejas Tu, Eterno, nosso Deus

Ao passarmos por provações e pelo vale da sombra da morte temos duas opções bem distintas, Primeira; na busca de respostas para nossa dor viramos nossas costas a D-us negando sua existência como uma forma de protesto para com o altíssimo. O resultado é que ficamos ainda mais desesperados e confusos por que não há uma alternativa lógica e racional para a dor e o sofrimento.
Segunda; mesmo sofrendo reconhecemos que ELE é soberano sobre nossas vidas, mesmo sem entender o porque da dor. Podemos estar certos de que ELE sofre connosco, ELE chora quando choramos e se alegra quando nos alegramos. As garantias são eternas como escreveu o grande Rei Davi: “o Senhor é o meu pastor e nada me faltará, ainda que andasse pelo vale da sombra da morte tu estás comigo” Sl 23:1. Lemos o salmos 23 e muitas vezes esquecemos de ler o 22, o 23 é a continuação lógica do 22. A Bíblia como conhecemos foi dividida em capítulos e versículos no século 16, a primeira divisão de capítulos se deu no século 13 e em seguida de versículos. Como mostra o salmo 22 sentir-se abandonado ou decepcionado com D-us não é algo novo, faz parte da experiência humana, o que faz a real diferença é reconhece-lo e nossa vida mesmo na dor.
O resultado se faz presente nas palavras do Rei Davi:

“Direi de ADONAI: Ele é o meu Senhor, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei. Sl 91:2

 

Autor: Adivalter Sfalsin

Lança o teu cuidado sobre o SENHOR, Salmos 55:22

Lança o teu cuidado sobre o SENHOR, e ele te susterá; não permitirá jamais que o justo seja abalado Salmos 55:22

“Lança teu fardo sobre Adonai”

Imagine que você está dirigirindo um carro ao longo de uma estrada e de repente percebe que os freios foram removidas do pedal de freio e as rodas foram desconectadas do volante. Em pânico, você aperta o pedal até o fundo e tenta virar o volante freneticamente sem nenhum sucesso com o carro totalmente fora de controle, a sua melhor chance seria  abrir a porta e saltar. No entanto, sem perceber que na verdade você perdeu o controle você ainda tentar mantê-lo na estrada e a cada minuto que passa sua vida está em perigo se não sair do mesmo.

Embora tais acontecimentos dramáticos felizmente não ocorrem todos os dias, devemos perceber que realmente não temos controle sobre muitas coisas em nossa vida. Tentar exercer controle onde não é possível só piora a situação, pois assim como no exemplo acima, a solução é entregar nossos anseios e dores a Adonai e descansar Nele. Qualquer outra alternativa será inútil.

Muitas pessoas tomam uma decisão que pesam ser apropriada e acompanham a mesma com uma oração para o sucesso, outros consideram a oração apenas como último recurso. Adonai ouve a oração de todos, independentemente das circunstâncias em que é dita. Independentemente da tua atitude, decisão-oração ou oração como último recurso, precisamos aprender que há muitas situações totalmente fora do nosso controle e o importante é ter a atitude correta em relação a mesma.

Podemos não gostar de enfrentar a realidade, mas negá-la é perigoso.

Autor: Abraham Twerski

Tradução: A S Assis