Olho Bom Olho Mau

Olho Bom, Olho Mau

Entendendo as palavras difíceis de Jesus

Há palavras de Jesus que nos inquietam justamente porque parecem simples demais. Lemos, assentimos, seguimos adiante e só mais tarde percebemos que talvez não as tenhamos entendido de fato. O Sermão da Montanha é repleto desse tipo de afirmação: frases curtas, imagens cotidianas, mas carregadas de um peso moral que atravessa séculos.

Registrado em Mateus capítulos 5 a 7 e preservado de forma fragmentada em Lucas, o Sermão da Montanha não é um conjunto de ideais abstratos, nem um código ético inalcançável. Ele descreve como vive e como vê aquele que caminha sob o Reino de D-us. Trata-se menos de discursos espirituais elevados e mais de uma reeducação do olhar.

Ao lermos esse sermão, uma pergunta inevitável surge: será que ainda compreendemos o significado original das palavras de Jesus? A resposta, com toda honestidade, tende a ser negativa. Não por falta de fé, mas por causa da distância cultural e linguística que nos separa do texto.

O pensamento de Jesus foi concebido em hebraico, expresso em um ambiente judaico saturado das Escrituras, depois traduzido para o grego, passou pelo latim e, por fim, chegou às línguas modernas. Nesse longo percurso, especialmente as frases idiomáticas perderam parte de sua força original. Elas continuam corretas gramaticalmente, mas empobrecidas em significado.

Uma dessas expressões é a famosa declaração de Mateus 6:22–23:

“A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz;

se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso.

Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!”

Lida fora de seu contexto hebraico, essa passagem frequentemente é interpretada como algo místico, psicológico ou simbólico demais, como se Jesus estivesse falando de pensamentos positivos, percepção espiritual interior ou visão da alma. Contudo, nada disso estaria na mente de seus ouvintes originais.

Para um judeu do primeiro século, a expressão “olho bom” e “olho mau” não descrevia visão literal nem introspecção espiritual, mas sim uma postura moral diante da vida, especialmente em relação ao dinheiro, aos bens e ao próximo.

A chave para essa compreensão está no Tanakh, particularmente no livro de Provérbios, texto que os ouvintes de Jesus tinham profundamente internalizado.

“O que vê com bons olhos será abençoado, porque dá do seu pão ao pobre.”

(Provérbios 22:9)

Aqui, o “bom olho” é claramente associado à generosidade. Ver é agir. O olhar correto produz uma resposta correta.

O contraste aparece de forma igualmente clara:

“Não comas o pão daquele que tem o olhar maligno (olho mau), nem cobices as suas iguarias.”

(Provérbios 23:6)

E ainda:

“O que quer enriquecer depressa é homem de olho maligno (olho mau), mas não sabe que a pobreza há de vir sobre ele.”

(Provérbios 28:22)

O “olho mau” é a avareza, a mesquinhez, o desejo de reter para si mesmo. Não se trata de visão física, mas da disposição do coração. Até hoje, em hebraico moderno, chamar alguém de dono de um bom olho é elogiá-lo como alguém generoso; o olho mau permanece como sinônimo de egoísmo.

Com essa chave em mãos, o ensino de Jesus deixa de ser enigmático.

Observe a estrutura do texto em Mateus 6:

“Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.” (verso 21)

“A candeia do corpo são os olhos…” (versos 22 e 23)

“Ninguém pode servir a dois senhores… Não podeis servir a D-us e a Mamom.” (verso 24)

A passagem do olho bom e do olho mau está exatamente no centro. Ela não é um pensamento solto, mas a ponte que conecta tudo. Jesus começa falando do tesouro, termina falando de senhores, e no meio revela o critério moral que governa ambos.

O assunto é claro: nossa relação com o dinheiro, com os bens materiais e com o próximo.

A luz que ilumina todo o corpo não é conhecimento, nem espiritualidade abstrata. É a generosidade. As trevas que consomem o interior não são ignorância, mas a avareza disfarçada de prudência, sucesso ou até bênção.

E aqui Jesus oferece um contraste radical com a mentalidade moderna e com muitas pregações contemporâneas centradas na prosperidade individual. Ele não ensina que a bênção material é um fim em si mesma, mas que ela cria um dever social. Ser abençoado é tornar-se responsável.

O Reino de D-us, segundo Jesus, não gira em torno do ter, mas do dar. Não se mede pelo acúmulo, mas pela liberdade em repartir. Não se manifesta pelo discurso, mas pelo olhar treinado para enxergar o outro.

No fim, o olho bom é um diagnóstico espiritual simples e implacável. Ele revela a quem servimos, onde está nosso coração e que tipo de luz realmente habita em nós.

E se a luz que julgamos possuir produz trevas ao nosso redor, então, como o próprio Jesus advertiu, quão grandes são essas trevas.

Adivalter Sfalsin

Escolhidos para Dar Fruto

Escolhidos para Dar Fruto

Eleição, Amor e o Deus que Escolhe para Incluir

Há algo silenciosamente perturbador nas palavras de Jesus: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi.” Elas nos incomodam porque, quase instintivamente, as escutamos com ouvidos modernos, e em grande parte, gregos. Na nossa forma habitual de pensar, escolher uma coisa significa rejeitar outra. Se escolho A, automaticamente excluo B e C. Escolher implica estreitamento, preferência implica perda, e eleição sugere exclusão. Trata-se de uma lógica limpa, racional, coerente, profundamente enraizada no pensamento ocidental e na maneira como fomos treinados a organizar o mundo.

Mas Jesus não falava como um filósofo grego. Ele falava como um judeu, de dentro das Escrituras de Israel. E no mundo hebraico, a ideia de escolha funciona de modo radicalmente diferente. Enquanto a mente grega tende a pensar em termos de ou/ou, definindo com precisão ao cortar alternativas, como Platão ao escolher a verdade em detrimento da ilusão, ou Aristóteles ao escolher a razão contra o caos, a mente hebraica pensa em termos de propósito e direção, não de abstração. Escolher, nesse horizonte, não é primeiramente excluir, mas designar para uma missão.

Quando Deus escolhe, Ele não estreita o círculo, Ele cria um canal. Essa diferença não é meramente estética ou conceitual. Ela altera profundamente a forma como lemos praticamente tudo o que Jesus diz, especialmente quando Ele afirma: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi.” Se ouvirmos essa frase com pressupostos gregos, é fácil concluir que alguns são escolhidos enquanto outros são rejeitados. Contudo, não é assim que a eleição opera nas Escrituras hebraicas.

Quando Deus escolheu Abraão, não o fez para abandonar o restante da humanidade. Pelo contrário, Abraão foi escolhido para que todas as famílias da terra fossem abençoadas por meio dele. Da mesma forma, Israel não foi escolhido como um tesouro privado de Deus, trancado longe das nações, mas como um povo sacerdotal, colocado no meio delas. A Lei dada no Sinai jamais imaginou Israel como uma elite espiritual isolada do mundo. Israel deveria ser luz, testemunha, um sinal vivo apontando para fora. Em outras palavras, Deus escolheu A precisamente para alcançar B e C. Trata-se de eleição pactual, não de seleção filosófica.

Quando Jesus pronuncia essas palavras em João 15, Ele não está inventando uma nova doutrina da eleição. Ele está recentrando o antigo chamado de Israel em Si mesmo. Os discípulos que O escutam são judeus que conhecem bem as Escrituras. Eles sabem que Israel é a videira escolhida de Deus e também conhecem o diagnóstico doloroso dos profetas, muitas vezes essa videira falhou em dar fruto. Por isso, quando Jesus se apresenta como a videira verdadeira, Ele não está rejeitando Israel, mas cumprindo Israel. A escolha continua, porém a fonte da vida agora está claramente definida.

“Eu vos escolhi”, Ele diz, não para vos tirar do mundo, mas para vos enviar ao mundo. “Eu vos designei para que vades e deis fruto.” Na imaginação hebraica, os escolhidos não são protegidos em estufas espirituais, eles são enviados. E o fruto ao qual Jesus se refere não é qualquer fruto. A cultura grega admirava brilho, velocidade e conquistas visíveis, enquanto as Escrituras hebraicas medem o sucesso pela fidelidade ao longo do tempo. É por isso que Jesus não fala de frutos impressionantes, mas de frutos que permanecem.

Os Salmos comparam o justo a uma árvore plantada junto a ribeiros de águas, que dá o seu fruto no tempo certo. A ênfase não está na produtividade constante, mas na perseverança. O que permanece importa mais do que o que impressiona. E esse fruto duradouro costuma parecer perigosamente comum: obediência praticada quando ninguém está olhando, amor sustentado quando é inconveniente, fidelidade preservada sob pressão. Não é o fruto da ambição, mas o fruto de permanecer.

Por isso, quando Jesus afirma: “Estas coisas vos mando, para que vos ameis uns aos outros”, Ele faz algo profundamente judaico. Ele reúne a Lei, não a abolindo nem a substituindo, mas destilando-a. Na Torá, o amor nunca é sentimental. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” não surge em poesia, mas em textos legais, entrelaçado a mandamentos sobre honestidade, justiça e cuidado com os vulneráveis. O amor é a aparência da Lei quando ela está viva. Jesus se posiciona firmemente nessa tradição, mas a aprofunda, fazendo de Si mesmo o ponto de referência. Amar como Ele ama não é sentir algo agradável, mas agir de modo pactual, permanecer fiel quando ir embora seria mais fácil. E a lógica é clara: o amor não é a recompensa por dar fruto, o amor é o fruto.

O mesmo princípio aparece na oração. Quando Jesus diz: “Para que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo conceda”, mais uma vez ouvidos gregos escutam uma técnica, enquanto ouvidos hebraicos escutam alinhamento. Pedir em nome de alguém não é acrescentar uma fórmula verbal, mas pedir como representante, dentro da autoridade, do caráter e do propósito daquele nome. No pensamento judaico, o nome expressa identidade, intenção e vocação. À medida que os discípulos vivem seu chamado, escolhidos para ir, designados para dar fruto, seus próprios desejos são transformados. A oração deixa de ser uma tentativa de persuadir Deus e passa a ser participação no que Deus já está fazendo.

Aqui está o centro de tudo: na mente grega, escolher elimina; na mente hebraica, escolher mobiliza. Deus escolheu Israel para que as nações não fossem esquecidas. Jesus escolheu Seus discípulos para que o mundo não fosse abandonado. A eleição não é um muro. É uma porta.

Para nós, discípulos modernos, isso tem consequências profundas. Muitos vivem presos entre ansiedade e orgulho, ansiedade perguntando-se se foram realmente escolhidos, orgulho imaginando que ser escolhido os torna superiores. Jesus desmonta ambos. Você é escolhido antes de agir, portanto não pode se gloriar. Você é escolhido para agir, portanto não pode se omitir. A vida cotidiana se torna sagrada não porque seja impressionante, mas porque é enviada. Amor, obediência e oração não são virtudes privadas; são os meios pelos quais Deus continua Seu propósito de alcançar o mundo.

No fim, a pergunta não é se o amor de Deus é exclusivo. A pergunta é se aqueles que foram escolhidos se lembrarão por que foram escolhidos. “Não fostes vós que me escolhestes”, diz Jesus, “mas fui eu que vos escolhi.” Não para fechar o círculo. Mas para abri-lo.

Adivalter Sfalsin