“Ide, e dizei àquela raposa…”

“Ide, e dizei àquela raposa…”

“O insulto que se perdeu na tradução”

Há frases de Jesus que nos confortam como um cobertor numa noite fria. Outras, porém, fazem exatamente o oposto: nos acordam. Esta é uma delas. Quando Ele diz, com serenidade quase desconcertante, “Ide, e dizei àquela raposa…”, não está apenas respondendo a uma ameaça política. Está, como tantas vezes, revelando a anatomia oculta do poder humano e, se formos honestos, a nossa também.

A cena é simples. Alguns fariseus vêm alertar Jesus de que Herodes Antipas quer matá-lo. O aviso soa sério, quase protetor. Afinal, Herodes não era conhecido por delicadezas: mandara decapitar João Batista e governava com a aprovação de Roma. Mas Jesus não se apressa, não foge, não negocia. Ele responde com uma frase que, à primeira vista, parece quase irreverente: “Vão e digam àquela raposa…”. Em seguida, afirma que continuará seu trabalho, expulsando demônios, curando, avançando, até que seu tempo se cumpra.

Durante anos, muitos de nós lemos essa palavra “raposa” como sinônimo de astúcia. A raposa, afinal, é esperta; sobrevive pela inteligência, não pela força. Assim, imaginamos Jesus reconhecendo a sagacidade política de Herodes. Mas essa leitura, embora confortável, é profundamente enganosa. E aqui começamos a perceber que Jesus não está elogiando nada. Está desmascarando.

O problema nasce quando lemos Jesus apenas com óculos gregos, esquecendo que Ele falava como judeu a judeus, dentro de um mundo simbólico que tinha sua própria gramática moral. No imaginário grego, a raposa era de fato astuta, oportunista, rápida em aproveitar sobras deixadas por predadores maiores. Mas no universo hebraico, a palavra carrega um peso muito diferente. Ela não é apenas esperta; é pretensiosa. Não é apenas ardilosa; é moralmente pequena.

Os mestres judeus costumavam contrastar dois animais: o leão e a raposa. O leão simbolizava autoridade legítima, grandeza real, peso verdadeiro. A raposa, ao contrário, parecia maior do que realmente era. Seu pelo volumoso lhe dava aparência de importância, mas por dentro era frágil, esquelética. Assim, chamar alguém de raposa não era reconhecer sua inteligência, mas denunciar sua fraude. Era dizer: você parece grande, mas não é.

Há um provérbio antigo que diz: “Seja a cauda dos leões, e não a cabeça das raposas.” Melhor ocupar um lugar humilde entre os justos do que liderar, com pompa, um sistema corroído. Essa sabedoria não nasceu do cinismo, mas de um olhar lúcido sobre o caráter humano. Jesus conhecia bem essa tradição. E é com ela que Ele olha para Herodes.

Herodes Antipas se via, e queria ser visto, como um leão. Governante, construtor, herdeiro de uma dinastia. Mas sua linhagem contava outra história. Filho de Herodes, o Grande, neto de Antípatro, um idumeu convertido por conveniência, Herodes reinava não por promessa divina, mas por concessão romana. Ele ocupava um trono que não lhe pertencia. O trono de Davi fora prometido à linhagem de Jacó, não à de Esaú. Herodes carregava o título, mas não o direito; a coroa, mas não a legitimidade.

Quando Jesus o chama de raposa, portanto, não está fazendo um comentário zoológico, mas teológico. Está dizendo, em essência: você não é quem pensa ser. Seu poder é emprestado. Sua ameaça é vazia. Sua grandeza é inflada. Você governa, mas não reina. Parece leão, mas é raposa.

E aqui está o ponto que nos inquieta. Jesus não diz isso aos gritos, nem convoca uma revolta. Ele simplesmente continua seu trabalho. Enquanto Herodes ameaça, Jesus cura. Enquanto Herodes maquina, Jesus liberta. Enquanto Herodes pensa controlar a morte, Jesus anuncia vida. É uma inversão silenciosa, porém devastadora. O verdadeiro poder não se prova pela capacidade de matar, mas pela fidelidade à missão recebida.

Talvez seja por isso que essa passagem nos incomode tanto. Porque ela não fala apenas de Herodes. Fala de todos os sistemas, políticos, religiosos, pessoais, que se sustentam mais na aparência do que na verdade. Fala de líderes que usam títulos como peles volumosas, mas carecem de substância moral. Fala, se tivermos coragem de admitir, de nós mesmos.

Quantas vezes preferimos parecer do que ser? Quantas vezes inflamos nossa importância, nosso discurso, nossa autoridade, enquanto por dentro estamos espiritualmente frágeis? Quantas vezes nos contentamos em ser cabeças de raposas, desde que isso nos poupe a humildade de ser caudas de leões?

Jesus, o legítimo herdeiro do trono, age de modo oposto ao que esperaríamos. Ele não se impõe; se oferece. Não ameaça; serve. Não corre atrás do poder; caminha em obediência. E justamente por isso, Ele é livre. Herodes não pode apressar seu fim. Roma não pode frustrar sua missão. Nem mesmo a morte pode vencê-lo antes da hora. “Hoje e amanhã”, diz Ele, “faço o que vim fazer.” Não há arrogância nisso, apenas autoridade verdadeira.

Há algo profundamente libertador nessa postura. Jesus nos ensina que a fidelidade é mais poderosa que a força, e que a verdade, mesmo dita com suavidade, expõe toda pretensão. Ele não precisa provar que Herodes é uma raposa. Basta nomeá-lo. A luz, quando acesa, não precisa discutir com a escuridão.

Mas essa mesma luz se volta para nós. Ler essa passagem sem contexto é arriscado; ela vira pretexto para mal-entendidos. Com contexto, porém, ela se torna espelho. Obriga-nos a perguntar: onde estamos vivendo de aparência? Onde confundimos influência com legitimidade? Onde usamos o “pelo” da religiosidade para encobrir a falta de peso interior?

Crer em Jesus não é apenas admirar sua coragem diante de Herodes. É permitir que Ele redefina nossos critérios de grandeza. É aceitar que, no Reino de D-us, leões não rugem por autopromoção, e raposas não impressionam ninguém. O que conta é a verdade do coração, a retidão do caminho, a fidelidade silenciosa ao chamado.

Talvez, ao final, o maior escândalo dessa frase não seja Jesus chamar Herodes de raposa, mas o fato de Ele fazê-lo sem medo. Não porque fosse imprudente, mas porque sabia quem era, e quem Herodes não era. Essa segurança não vinha da política, nem da popularidade, nem da força. Vinha da convicção de estar alinhado com o propósito do Pai.

E isso, se formos honestos, é o convite mais desafiador de todos. Viver de tal modo que as raposas não nos intimidem, os leões falsos não nos impressionem, e a verdade de D-us seja suficiente para sustentar cada passo. Porque, no fim, o Reino não pertence aos que parecem grandes, mas aos que são fiéis.

E Jesus continua dizendo, ainda hoje: “Vão e digam àquela raposa…”, não para que temamos o poder, mas para que aprendamos a reconhecê-lo quando ele é apenas uma sombra bem penteada.

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Levíticos faz sentido?

Levítico faz algum sentido?

A palavra sacrifício sofreu, ao longo do tempo, um curioso empobrecimento. Na linguagem comum, passou a significar quase exclusivamente perda: abdicar de algo bom para evitar algo pior, ou sofrer agora em troca de algum benefício futuro. É uma palavra associada a esforço, dor e, muitas vezes, ressentimento. Quando alguém diz “fiz um sacrifício”, geralmente quer dizer “paguei um preço que preferia não pagar”.

Entretanto, essa não é a gramática moral da Bíblia. O sistema sacrificial do Antigo Testamento não nasce da lógica da perda, mas da lógica da aproximação. O termo hebraico korban não descreve algo que é simplesmente destruído, mas algo que é trazido para perto. Sacrificar, nesse contexto, não é afastar-se da vida, mas aprender a se aproximar de D-us de maneira ordenada, consciente e responsável.

Essa constatação muda tudo. Ela nos impede de ler Levítico como um manual arcaico de rituais sangrentos e nos obriga a enxergá-lo como aquilo que realmente é: uma pedagogia espiritual cuidadosamente construída. Os cinco sacrifícios não são redundantes, nem arbitrários. Cada um responde a um tipo específico de desordem humana, e juntos formam um caminho, quase uma escada, de restauração e comunhão.

O primeiro grande erro moderno ao lidar com esse sistema é imaginar que todo sacrifício existe para lidar com pecado. Não é verdade. Alguns lidam com culpa, outros com dano, outros com gratidão, outros com consagração. Confundir tudo isso é como tratar todas as doenças com o mesmo remédio. A Torá é mais sutil do que isso.

A Chatat, geralmente traduzida como “oferta pelo pecado”, lida sobretudo com pecados cometidos por erro, descuido ou ignorância. O ponto central aqui não é a punição do indivíduo, mas a purificação do espaço sagrado. O pecado, na visão bíblica, não é apenas uma infração legal; é uma força contaminante. Ele desorganiza, polui, distorce. O sangue da Chatat não “compra” perdão, mas purifica aquilo que foi afetado pela falha humana. Trata-se menos de pagar uma dívida e mais de restaurar uma ordem.

Já a Asham, a oferta pela culpa, nos conduz a um território muito mais desconfortável: o da reparação. Aqui lidamos com pecados intencionais que causaram dano objetivo, roubo, fraude, mentira, abuso do que é sagrado. E o princípio é inescapável: arrependimento sem restituição é incompleto. Não basta confessar; é preciso devolver. Onde houve prejuízo real, a espiritualidade que ignora o conserto concreto do erro é uma espiritualidade vazia. A Asham nos lembra que D-us leva a sério tanto o coração quanto as consequências práticas do pecado.

Esse ponto é profundamente relevante para o mundo contemporâneo. Vivemos numa cultura que valoriza o discurso do arrependimento, mas frequentemente rejeita o custo da reparação. Queremos absolvição sem responsabilidade, reconciliação sem justiça. A Torá não permite esse atalho. Ela insiste que a restauração moral passa pelo enfrentamento honesto do dano causado.

Mas nem tudo no sistema sacrificial gira em torno de falhas. A ʿOlah, o holocausto, não é oferecida para corrigir um erro específico. Ela simboliza algo mais radical: a entrega total. Tudo sobe ao altar; nada é retido. A ʿOlah reorienta a vida inteira do adorador diante de D-us. É o reconhecimento de que o problema humano não é apenas que fazemos coisas erradas, mas que muitas vezes vivemos com o centro errado. Antes de lidar com atos isolados, é preciso alinhar a direção da existência.

A Minḥah, por sua vez, leva essa consagração ao território do cotidiano. Farinha, azeite, sal, elementos comuns, frutos do trabalho humano. Não há sangue aqui. O que se oferece é o ordinário. A mensagem é clara: a vida diária também pertence a D-us. O trabalho, o sustento, o esforço silencioso de cada dia não são espiritualmente neutros. Talvez esse seja um dos sacrifícios mais difíceis para o ser humano moderno, que facilmente entrega a D-us momentos extraordinários, mas resiste em consagrar a rotina.

E então chegamos à Shelamim, a oferta de comunhão. Diferente das outras, ela culmina numa refeição compartilhada. Parte vai ao altar, parte aos sacerdotes, parte ao ofertante e sua família. Aqui não há correção de erro, mas celebração de uma relação restaurada. Shalom não significa apenas ausência de conflito, mas inteireza, harmonia, plenitude. A Shelamim é o ponto de chegada, não o ponto de partida. Comunhão verdadeira pressupõe ordem restaurada.

Essa progressão revela algo fundamental: a Bíblia nunca apresentou o sacrifício como um mecanismo mágico. Não se trata de apertar os botões certos para obter um resultado automático. Por isso, a Torá faz distinções cuidadosas entre tipos de pecado. Há pecados cometidos por fraqueza, outros por descuido, outros ainda de forma intencional, mas com arrependimento. E há o pecado chamado de “mão alta”: rebelião consciente, desafiante e persistente contra D-us. Para esse, não havia sacrifício.

Isso não significa que D-us fosse menos gracioso no Antigo Testamento. Significa, antes, que o sacrifício sempre pressupôs um coração disposto a retornar. Onde não há arrependimento, o ritual perde sentido. Nenhuma liturgia é capaz de substituir um coração que se recusa a se submeter.

Essa lógica prepara o terreno para o Novo Testamento. A obra de Cristo não surge como uma ruptura arbitrária, mas como o cumprimento pleno de tudo aquilo que o sistema sacrificial ensinava. Nele, vemos a purificação da consciência (Chatat), a reparação do dano causado pelo pecado humano (Asham), a entrega total ao Pai (ʿOlah), a santificação da vida inteira (Minḥah) e o estabelecimento da paz entre D-us e a humanidade (Shelamim).

Por isso, a cruz não é um “atalho barato”. Ela não elimina a seriedade do pecado; ela a aprofunda. Mas também não reduz a fé a medo ou barganha. O sacrifício, agora, é deslocado do altar para a existência. Não oferecemos mais animais, mas somos chamados a oferecer a nós mesmos, de forma consciente, responsável e grata.

O sacrifício hoje não é manipulação religiosa, nem moeda de troca com D-us. É a vida vivida à luz da graça: um coração que reconhece seus limites, repara o que pode ser reparado, submete sua vontade e aprende a transformar o cotidiano em adoração. Como sempre foi, D-us não busca cinzas no altar, mas verdade no íntimo.

Nesse sentido, os cinco sacrifícios do Antigo Testamento não são relíquias obsoletas. São espelhos. Eles nos perguntam, ainda hoje, se queremos apenas aliviar a culpa, ou se estamos dispostos, de fato, a nos aproximar.  

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.”

(Mateus 5:20)

Essa afirmação de Jesus pode parecer desconcertante, especialmente à primeira leitura. Os escribas e fariseus eram vistos como os mais zelosos cumpridores da Lei. Se nem eles seriam aceitos no reino dos céus, que esperança teriam os demais?

Será que Jesus está exigindo uma religiosidade ainda mais rigorosa? Mais regras? Mais perfeição moral?

Essa é uma interpretação comum, mas levanta sérias tensões com outros ensinamentos fundamentais do Novo Testamento, que afirmam que a salvação é pela graça, e não por mérito (Efésios 2:8-9).

Como, então, devemos entender essa declaração?

A resposta está na compreensão do significado original da palavra “justiça” e na expressão “reino dos céus”.

No hebraico bíblico, o termo tsedakah significava, de forma ampla, retidão, salvação e o agir fiel de D-us. Era um conceito associado não apenas à conduta humana, mas à própria intervenção salvadora de D-us em favor do seu povo.

Contudo, nos dias de Jesus, o significado de tsedakah passou a incluir também um sentido mais específico e prático: caridade ou generosidade para com os pobres. Entre os fariseus, três práticas eram vistas como pilares da vida piedosa: oração, jejum e generosidade. Dentre essas, a generosidade tornou-se, em muitos círculos, a mais importante, pois era considerada uma expressão tangível do relacionamento com D-us.

Assim, quando Jesus diz que nossa “justiça” deve exceder a dos escribas e fariseus, ele está utilizando um jogo de palavras que sua audiência entendia perfeitamente.

Em Mateus 5:20, Jesus parece usar os dois sentidos da palavra tsedakah de forma intencional:

“Porque vos digo que, se a vossa tsedakah (generosidade) não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus (tsedakah como salvação).”

Em outras palavras, Jesus está dizendo: Se vocês confiarem apenas na generosidade visível, na religiosidade exterior, como forma de obter aceitação diante de D-us, jamais entrarão no reino. A verdadeira justiça não nasce da performance, mas da confiança na salvação que vem do próprio Senhor.

Essa justiça que “excede” é aquela que vem da fé, e não das obras, como bem enfatizou o apóstolo Paulo:

“Porquanto, não conhecendo a justiça de D-us, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de D-us.”

(Romanos 10:3)

Outro elemento fundamental para compreender essa passagem é o que Jesus quer dizer por “reino dos céus”. Em Mateus, essa expressão é usada para designar o movimento iniciado por Jesus, composto por seus discípulos e seguidores, aqueles que vivem sob o reinado de D-us aqui e agora. Entrar no “reino dos céus”, portanto, não significa simplesmente “ir para o céu” após a morte, mas tornar-se parte do povo que vive sob os princípios e a autoridade do Messias.

Dessa forma, podemos parafrasear Mateus 5:20 da seguinte forma:

“Se a sua generosidade, se o seu modo de viver, não for mais profundo do que o exibido pelos fariseus, se não estiver fundamentado na confiança na salvação de D-us, vocês não poderão fazer parte do meu reino e experimentar a verdadeira justiça do Senhor.”Jesus não está pedindo mais religiosidade. Ele está convidando para um tipo completamente diferente de justiça: aquela que nasce da graça, se expressa na fé, e se manifesta em uma vida transformada.A justiça dos fariseus era visível, admirada, meticulosa, mas também era muitas vezes vazia de misericórdia e confiança real em D-us. Eles praticavam a tsedakah da generosidade, mas ignoravam a tsedakah que vem de D-us. A verdadeira justiça, segundo Jesus, é fruto de um coração rendido, humilde, que sabe que não pode se salvar, mas que é movido a amar e servir porque foi alcançado pela misericórdia divina. Essa mensagem continua relevante. Ainda hoje, é fácil cair na tentação de pensar que podemos “compensar” nossas falhas com boas obras, ou que merecemos o favor de D-us por sermos “bons cristãos”.

Mas o evangelho nos lembra: não somos salvos porque fazemos o bem. Fazemos o bem porque fomos salvos. A graça de D-us é o ponto de partida, e não a recompensa final. A justiça que excede é aquela que nasce do encontro com Jesus, que nos transforma de dentro para fora, e nos convida a confiar menos em nós mesmos e mais na bondade de D-us. Quando Jesus diz que nossa justiça deve exceder a dos fariseus, Ele não está propondo uma nova escada para o céu. Está nos chamando para descer do nosso orgulho, abandonar as aparências e confiar na justiça que só Ele pode nos dar.

Essa é a justiça que nos faz parte do reino. Essa é a justiça que salva. Essa é a justiça que transforma.

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Olho Bom Olho Mau

Olho Bom, Olho Mau

Entendendo as palavras difíceis de Jesus

Há palavras de Jesus que nos inquietam justamente porque parecem simples demais. Lemos, assentimos, seguimos adiante e só mais tarde percebemos que talvez não as tenhamos entendido de fato. O Sermão da Montanha é repleto desse tipo de afirmação: frases curtas, imagens cotidianas, mas carregadas de um peso moral que atravessa séculos.

Registrado em Mateus capítulos 5 a 7 e preservado de forma fragmentada em Lucas, o Sermão da Montanha não é um conjunto de ideais abstratos, nem um código ético inalcançável. Ele descreve como vive e como vê aquele que caminha sob o Reino de D-us. Trata-se menos de discursos espirituais elevados e mais de uma reeducação do olhar.

Ao lermos esse sermão, uma pergunta inevitável surge: será que ainda compreendemos o significado original das palavras de Jesus? A resposta, com toda honestidade, tende a ser negativa. Não por falta de fé, mas por causa da distância cultural e linguística que nos separa do texto.

O pensamento de Jesus foi concebido em hebraico, expresso em um ambiente judaico saturado das Escrituras, depois traduzido para o grego, passou pelo latim e, por fim, chegou às línguas modernas. Nesse longo percurso, especialmente as frases idiomáticas perderam parte de sua força original. Elas continuam corretas gramaticalmente, mas empobrecidas em significado.

Uma dessas expressões é a famosa declaração de Mateus 6:22–23:

“A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz;

se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso.

Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!”

Lida fora de seu contexto hebraico, essa passagem frequentemente é interpretada como algo místico, psicológico ou simbólico demais, como se Jesus estivesse falando de pensamentos positivos, percepção espiritual interior ou visão da alma. Contudo, nada disso estaria na mente de seus ouvintes originais.

Para um judeu do primeiro século, a expressão “olho bom” e “olho mau” não descrevia visão literal nem introspecção espiritual, mas sim uma postura moral diante da vida, especialmente em relação ao dinheiro, aos bens e ao próximo.

A chave para essa compreensão está no Tanakh, particularmente no livro de Provérbios, texto que os ouvintes de Jesus tinham profundamente internalizado.

“O que vê com bons olhos será abençoado, porque dá do seu pão ao pobre.”

(Provérbios 22:9)

Aqui, o “bom olho” é claramente associado à generosidade. Ver é agir. O olhar correto produz uma resposta correta.

O contraste aparece de forma igualmente clara:

“Não comas o pão daquele que tem o olhar maligno (olho mau), nem cobices as suas iguarias.”

(Provérbios 23:6)

E ainda:

“O que quer enriquecer depressa é homem de olho maligno (olho mau), mas não sabe que a pobreza há de vir sobre ele.”

(Provérbios 28:22)

O “olho mau” é a avareza, a mesquinhez, o desejo de reter para si mesmo. Não se trata de visão física, mas da disposição do coração. Até hoje, em hebraico moderno, chamar alguém de dono de um bom olho é elogiá-lo como alguém generoso; o olho mau permanece como sinônimo de egoísmo.

Com essa chave em mãos, o ensino de Jesus deixa de ser enigmático.

Observe a estrutura do texto em Mateus 6:

“Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.” (verso 21)

“A candeia do corpo são os olhos…” (versos 22 e 23)

“Ninguém pode servir a dois senhores… Não podeis servir a D-us e a Mamom.” (verso 24)

A passagem do olho bom e do olho mau está exatamente no centro. Ela não é um pensamento solto, mas a ponte que conecta tudo. Jesus começa falando do tesouro, termina falando de senhores, e no meio revela o critério moral que governa ambos.

O assunto é claro: nossa relação com o dinheiro, com os bens materiais e com o próximo.

A luz que ilumina todo o corpo não é conhecimento, nem espiritualidade abstrata. É a generosidade. As trevas que consomem o interior não são ignorância, mas a avareza disfarçada de prudência, sucesso ou até bênção.

E aqui Jesus oferece um contraste radical com a mentalidade moderna e com muitas pregações contemporâneas centradas na prosperidade individual. Ele não ensina que a bênção material é um fim em si mesma, mas que ela cria um dever social. Ser abençoado é tornar-se responsável.

O Reino de D-us, segundo Jesus, não gira em torno do ter, mas do dar. Não se mede pelo acúmulo, mas pela liberdade em repartir. Não se manifesta pelo discurso, mas pelo olhar treinado para enxergar o outro.

No fim, o olho bom é um diagnóstico espiritual simples e implacável. Ele revela a quem servimos, onde está nosso coração e que tipo de luz realmente habita em nós.

E se a luz que julgamos possuir produz trevas ao nosso redor, então, como o próprio Jesus advertiu, quão grandes são essas trevas.

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Escolhidos para Dar Fruto

Escolhidos para Dar Fruto

Eleição, Amor e o Deus que Escolhe para Incluir

Há algo silenciosamente perturbador nas palavras de Jesus: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi.” Elas nos incomodam porque, quase instintivamente, as escutamos com ouvidos modernos, e em grande parte, gregos. Na nossa forma habitual de pensar, escolher uma coisa significa rejeitar outra. Se escolho A, automaticamente excluo B e C. Escolher implica estreitamento, preferência implica perda, e eleição sugere exclusão. Trata-se de uma lógica limpa, racional, coerente, profundamente enraizada no pensamento ocidental e na maneira como fomos treinados a organizar o mundo.

Mas Jesus não falava como um filósofo grego. Ele falava como um judeu, de dentro das Escrituras de Israel. E no mundo hebraico, a ideia de escolha funciona de modo radicalmente diferente. Enquanto a mente grega tende a pensar em termos de ou/ou, definindo com precisão ao cortar alternativas, como Platão ao escolher a verdade em detrimento da ilusão, ou Aristóteles ao escolher a razão contra o caos, a mente hebraica pensa em termos de propósito e direção, não de abstração. Escolher, nesse horizonte, não é primeiramente excluir, mas designar para uma missão.

Quando Deus escolhe, Ele não estreita o círculo, Ele cria um canal. Essa diferença não é meramente estética ou conceitual. Ela altera profundamente a forma como lemos praticamente tudo o que Jesus diz, especialmente quando Ele afirma: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi.” Se ouvirmos essa frase com pressupostos gregos, é fácil concluir que alguns são escolhidos enquanto outros são rejeitados. Contudo, não é assim que a eleição opera nas Escrituras hebraicas.

Quando Deus escolheu Abraão, não o fez para abandonar o restante da humanidade. Pelo contrário, Abraão foi escolhido para que todas as famílias da terra fossem abençoadas por meio dele. Da mesma forma, Israel não foi escolhido como um tesouro privado de Deus, trancado longe das nações, mas como um povo sacerdotal, colocado no meio delas. A Lei dada no Sinai jamais imaginou Israel como uma elite espiritual isolada do mundo. Israel deveria ser luz, testemunha, um sinal vivo apontando para fora. Em outras palavras, Deus escolheu A precisamente para alcançar B e C. Trata-se de eleição pactual, não de seleção filosófica.

Quando Jesus pronuncia essas palavras em João 15, Ele não está inventando uma nova doutrina da eleição. Ele está recentrando o antigo chamado de Israel em Si mesmo. Os discípulos que O escutam são judeus que conhecem bem as Escrituras. Eles sabem que Israel é a videira escolhida de Deus e também conhecem o diagnóstico doloroso dos profetas, muitas vezes essa videira falhou em dar fruto. Por isso, quando Jesus se apresenta como a videira verdadeira, Ele não está rejeitando Israel, mas cumprindo Israel. A escolha continua, porém a fonte da vida agora está claramente definida.

“Eu vos escolhi”, Ele diz, não para vos tirar do mundo, mas para vos enviar ao mundo. “Eu vos designei para que vades e deis fruto.” Na imaginação hebraica, os escolhidos não são protegidos em estufas espirituais, eles são enviados. E o fruto ao qual Jesus se refere não é qualquer fruto. A cultura grega admirava brilho, velocidade e conquistas visíveis, enquanto as Escrituras hebraicas medem o sucesso pela fidelidade ao longo do tempo. É por isso que Jesus não fala de frutos impressionantes, mas de frutos que permanecem.

Os Salmos comparam o justo a uma árvore plantada junto a ribeiros de águas, que dá o seu fruto no tempo certo. A ênfase não está na produtividade constante, mas na perseverança. O que permanece importa mais do que o que impressiona. E esse fruto duradouro costuma parecer perigosamente comum: obediência praticada quando ninguém está olhando, amor sustentado quando é inconveniente, fidelidade preservada sob pressão. Não é o fruto da ambição, mas o fruto de permanecer.

Por isso, quando Jesus afirma: “Estas coisas vos mando, para que vos ameis uns aos outros”, Ele faz algo profundamente judaico. Ele reúne a Lei, não a abolindo nem a substituindo, mas destilando-a. Na Torá, o amor nunca é sentimental. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” não surge em poesia, mas em textos legais, entrelaçado a mandamentos sobre honestidade, justiça e cuidado com os vulneráveis. O amor é a aparência da Lei quando ela está viva. Jesus se posiciona firmemente nessa tradição, mas a aprofunda, fazendo de Si mesmo o ponto de referência. Amar como Ele ama não é sentir algo agradável, mas agir de modo pactual, permanecer fiel quando ir embora seria mais fácil. E a lógica é clara: o amor não é a recompensa por dar fruto, o amor é o fruto.

O mesmo princípio aparece na oração. Quando Jesus diz: “Para que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo conceda”, mais uma vez ouvidos gregos escutam uma técnica, enquanto ouvidos hebraicos escutam alinhamento. Pedir em nome de alguém não é acrescentar uma fórmula verbal, mas pedir como representante, dentro da autoridade, do caráter e do propósito daquele nome. No pensamento judaico, o nome expressa identidade, intenção e vocação. À medida que os discípulos vivem seu chamado, escolhidos para ir, designados para dar fruto, seus próprios desejos são transformados. A oração deixa de ser uma tentativa de persuadir Deus e passa a ser participação no que Deus já está fazendo.

Aqui está o centro de tudo: na mente grega, escolher elimina; na mente hebraica, escolher mobiliza. Deus escolheu Israel para que as nações não fossem esquecidas. Jesus escolheu Seus discípulos para que o mundo não fosse abandonado. A eleição não é um muro. É uma porta.

Para nós, discípulos modernos, isso tem consequências profundas. Muitos vivem presos entre ansiedade e orgulho, ansiedade perguntando-se se foram realmente escolhidos, orgulho imaginando que ser escolhido os torna superiores. Jesus desmonta ambos. Você é escolhido antes de agir, portanto não pode se gloriar. Você é escolhido para agir, portanto não pode se omitir. A vida cotidiana se torna sagrada não porque seja impressionante, mas porque é enviada. Amor, obediência e oração não são virtudes privadas; são os meios pelos quais Deus continua Seu propósito de alcançar o mundo.

No fim, a pergunta não é se o amor de Deus é exclusivo. A pergunta é se aqueles que foram escolhidos se lembrarão por que foram escolhidos. “Não fostes vós que me escolhestes”, diz Jesus, “mas fui eu que vos escolhi.” Não para fechar o círculo. Mas para abri-lo.

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