Entre o Destino e o Acaso

O Chamado do Pequeno Álef

Quando o livro de Levítico se abre, ele o faz com uma única palavra que poderia facilmente passar despercebida: Vayikra וַיִּקְרָא – “Ele chamou.” Dificilmente é o tipo de palavra que faz fogos de artifício explodirem em nossa imaginação. No entanto, escondido nesse único verbo hebraico está toda uma teologia da história, da identidade e do destino.

Ao abrir um rolo da Torá no início de Levítico, seu olhar encontrará a palavra Vayikra (וַיִּקְרָא) — “Ele chamou.” Observe bem: a última letra, o álef (א), quase se esconde, escrita menor do que as demais, como se a própria humildade tivesse sido inscrita na tinta da revelação. Essa letra minúscula, pendurada na borda do pergaminho, tem intrigado e fascinado leitores há séculos. Por que os escribas a diminuíram? Teria a pena de alguém escorregado? Os rabinos garantem que foi intencional. Eles contam que Moisés, por humildade, quis escrever Vayikar וַיִּקָּר – “Ele aconteceu sobre.” Moisés se sentiu indigno demais para afirmar que D-us o havia “chamado” pessoalmente. D-us, porém, insistiu no contrário. O compromisso foi um pequeno álef — a humildade escrita dentro da revelação.

E é aí, caro leitor, que toda a aventura espiritual começa.

Em hebraico, a diferença entre Vayikra וַיִּקְרָא (“Ele chamou”) e Vayikar וַיִּקָּר (“Ele aconteceu sobre”) é uma única letra minúscula, e ainda assim separa o significado do acaso, o destino da coincidência. No caso de Moisés, D-us chama; no caso de Balaão, o profeta mercenário, D-us apenas aparece. Um vive por vocação; o outro, por coincidência.

A própria palavra vocação vem do latim vocare, que significa “chamar”. Antes de se tornar um termo de carreira ou profissão, designava algo muito mais profundo: um chamado divino, um convite à parceria com o Criador. A vida, portanto, não é uma sucessão de acasos, mas uma resposta.

O mundo moderno, é claro, acha isso constrangedor. Preferimos carreiras a chamados e opções a obediência. Criamos aplicativos para escolher o almoço e depois nos perguntamos por que não conseguimos escolher nosso propósito. No entanto, a Bíblia ousa sussurrar que a história não é uma colisão de átomos, mas uma conversa entre D-us e a humanidade. Cada “coincidência” pode ser, na verdade, um convite.

O pequeno álef de Vayikra é mais que uma curiosidade caligráfica; é teologia em miniatura. Ele ensina que o encontro divino não infla o ego, mas o humilha. A voz que chamou Moisés da Tenda da Congregação não foi um trovão, mas, como Elias mais tarde aprendeu, uma voz mansa e suave.

C. S. Lewis certa vez brincou que humildade não é pensar menos de si mesmo, mas pensar em si mesmo menos. A Torá já dizia isso antes. O pequeno álef é exatamente essa postura, o abaixamento do eu para que o sussurro de D-us possa ser ouvido. E, sejamos honestos, esse sussurro muitas vezes é abafado pelo barulho: nossos planos, nossas ansiedades, nossa autopromoção. Queremos que D-us grite, mas Ele parece comprometido com a suavidade. Aparentemente, o céu prefere ser ouvido, não imposto.

Muito antes de Moisés e do Tabernáculo, outro homem ouviu um chamado: “Sai da tua terra… para a terra que Eu te mostrarei.” Esse “Sai” (Lech-Lecha) é a semente de Vayikra. Abraão não encontrou D-us; D-us o encontrou, e a história se curvou em torno desse encontro. Por meio de Abraão, um povo foi chamado — não para privilégio, mas para propósito: abençoar todas as famílias da terra.

Sua sobrevivência através de exílios, impérios e inquisições desafia qualquer gráfico estatístico. O acaso os teria apagado; o destino os preservou. E é aqui que nós, gentios, tropeçamos em nosso próprio pequeno álef. Paulo diz que fomos enxertados na mesma oliveira, não como substitutos, mas como participantes do mesmo chamado. A história de Israel não é a história de “outros”; é a espinha dorsal da nossa.

Falar de Vayikra, portanto, é falar de uma vocação compartilhada: judeus e gentios igualmente convocados a refletir o caráter do Rei cujo reino Yeshua descreveu quando ensinou a orar: “Seja feita a Tua vontade na terra como no céu.” O chamado sempre foi global; o álef sempre pequeno.

Se você vê a história pela lente de Vayikar — “foi apenas acaso” — então a existência de Israel é um capricho, e sua própria fé, um acidente neurológico. Mas se você lê a história através de Vayikra, começa a perceber um padrão na caligrafia divina — paciente, persistente e cheia de propósito.

Levítico começa com Vayikra e termina com a palavra keri קֶרִי, que significa “casualidade”, “acidente” ou “indiferença”. Essa palavra aparece várias vezes em Levítico 26, descrevendo um povo que anda “comigo em keri”, isto é, tratando a providência divina como coincidência. É o oposto da consciência da aliança.

O livro, portanto, é moldado pela tensão entre Vayikra e keri, entre destino e acaso. Assim também é a sua vida.

De um ângulo, a cruz pareceu o maior acidente, um messias fracassado executado por um império. De outro, foi o centro da redenção, a dobradiça sobre a qual a eternidade girou. O mesmo evento, duas leituras. O que as separa é a capacidade da fé de ouvir propósito na dor.

Levítico, o livro sacerdotal, existe para nos lembrar que a ordem sagrada importa. Mas é enquadrado por histórias — Êxodo antes dele, Números depois — como se a Escritura dissesse: “O culto deve transbordar para o mundo.” Ritual sem justiça torna-se teatro; ativismo sem reverência torna-se ruído. Ambos têm seu propósito e ambos são necessários.

O mesmo vale para os seguidores de Yeshua. Vivemos em tempo sagrado através da oração e da comunhão, mas também caminhamos pela história sagrada em nossos escritórios, salas de aula e pontos de ônibus, lugares onde o reino pode ser encarnado. Quando adoração e testemunho se abraçam, ouvimos novamente o eco de Vayikra.

Agora vem a parte desconfortável. Se o álef é pequeno, a escuta precisa ser grande. Nossa era é viciada em volume: quanto mais alto o discurso, mais verdadeiro parece. O silêncio, por outro lado, soa como fracasso.

Mas D-us ainda prefere sussurros. Ele encontra Maria Madalena em um jardim com uma única palavra: “Maria.” Caminha despercebido com dois discípulos no caminho de Emaús até o partir do pão. Sopra paz em vez de pregar um sermão. Cada cena da ressurreição é silenciosa, como se o Criador fosse alérgico ao espetáculo.

Talvez a santidade ainda entre no mundo assim: através de atos ocultos de obediência, de orações que ninguém publica, de fidelidade que nunca vira manchete. O reino dos céus não viraliza; ele cresce.

Viver Vayikra é acreditar que nenhum momento é insignificante, que lavar pratos, escrever um texto ou consolar um amigo podem ser expressões de D-us quando feitos em resposta ao chamado.

E então a pergunta retorna: você tem um propósito e é chamado ou é simplesmente um mero acidente do cosmos?

Se a vida é Vayikar (וַיִּקָּר), tudo é acaso. A moralidade se dissolve em subjetividade, e a linha entre o certo e o errado torna-se apenas questão de opinião. O sofrimento perde o sentido, tornando-se um erro de percurso num universo sem direção. O mundo torna-se ruído, sons desconexos de vontades humanas em conflito, sem melodia nem maestro. A existência é uma narrativa fragmentada, escrita por ninguém e destinada ao esquecimento.

Mas se a vida é Vayikra (וַיִּקְרָא), tudo ganha direção. A moralidade deixa de ser uma escolha pessoal e passa a refletir a ordem moral do próprio Criador. O sofrimento deixa de ser castigo ou absurdo e se transforma em caminho para o propósito. A vida deixa de ser ruído e se torna sinfonia, cada nota, ainda que dissonante, faz parte de uma harmonia maior que só o Maestro divino compreende.

Viver Vayikar é flutuar ao sabor do acaso; viver Vayikra é responder ao chamado. Um vive de impulsos, o outro de propósito. Um busca prazer momentâneo, o outro significado eterno.

Sacks concluiu que a primeira palavra de Levítico define o destino de Israel: “um reino de sacerdotes e uma nação santa.” Essa é a mesma sentença que nos define a todos. Seguir Yeshua é ouvir esse chamado sacerdotal estendido às nações — não para substituir Israel, mas para unir-se à sinfonia de santidade que começou com Abraão.

Viver por Vayikra é permanecer onde a eternidade encontra a segunda-feira pela manhã, deixando a gramática do céu moldar a rotina. Cada ato de fé é um pequeno álef escrito no mundo — humilde, fácil de ignorar, mas indispensável à sentença da redenção.

A história, então, não é acidental, mas um manuscrito da paciência divina. Cada vida é uma linha nessa narrativa, cada oração uma sílaba, cada ato de bondade uma vírgula na frase da misericórdia de D-us.

E assim voltamos à mesma pergunta que Moisés enfrentou, com a pena em nossas mãos tremendo sobre o pergaminho:

Escreveremos Vayikra וַיִּקְרָא ou Vayikar וַיִּקָּר sobre a nossa vida?

Você viverá como alguém chamado, ou como um mero acidente do destino?

O pequeno álef espera silencioso, teimoso e santo, pela sua resposta.

Adivalter Sfalsin

Referência 

1. Levítico 1:1 – “E Ele chamou (וַיִּקְרָא) a Moisés, e o Senhor falou com ele desde a Tenda da Congregação, dizendo…”

2. Números 23:4, 16 – “E D-us aconteceu sobre (וַיִּקָּר) Balaão, e ele disse: ‘Preparei os sete altares…’”

3. Levítico 26:21, 23–24, 27–28 – “Se andardes comigo com keri (קֶרִי), também Eu andarei convosco com keri,” significando indiferença ou casualidade; D-us responde na mesma medida àqueles que tratam Sua providência como coincidência.

4. Êxodo 19:6 – A vocação de Israel descrita como “um reino de sacerdotes e uma nação santa.”

5. Romanos 11:17–18 – A imagem de Paulo dos gentios enxertados na oliveira de Israel.

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