Um Clamor, Um Convite, Um Chamado à Esperança
Vamos falar sobre a sensação de ser jogado fora. Sim, jogado. Como um copo de plástico num piquenique, como aquele guarda-chuva que se entorta na primeira ventania, útil, funcional, até não ser mais. Foi-se. Ninguém nota. Ninguém sente falta. Você já se sentiu assim?
Pois bem, conheça o salmista do Salmo 71. Um homem que, em seus dias de glória, cantava louvores, sentia-se invencível, olhava para o céu e dizia, “O Senhor é a minha fortaleza!”. Mas agora, ele está velho. Os cabelos embranqueceram, a força vacila, e o que antes era um diálogo vibrante com o Céu parece um monólogo trêmulo. O silêncio de D‑us é ensurdecedor. E então ele grita, “Não me rejeites no tempo da velhice!”
Essa palavrinha – rejeitar – em hebraico é שָׁלַךְ (shalak), e carrega o peso de ser lançado fora, ser derrubado, ser jogado fora como algo que já não serve. Quantas vezes usamos essa sensação sem perceber? “Me senti um lixo.” “Me chutaram pra escanteio.” “Fui descartado.” Há um eco de shalak nessas queixas. E, sejamos sinceros, há um eco de nós.
Aqui está o ponto curioso, e que me intriga: o salmista, em sua dor, não se coloca como o culpado da própria tragédia. Ele não diz, “Fiz bobagem e mereço.” Ele não culpa o acaso, nem Satanás, nem o universo. Ele diz, “Tu me jogaste fora.” Ele vê D‑us como o ator principal. Ele é o personagem que acorda no meio do drama e tenta entender o roteiro. Não sei você, mas isso me parece desconfortavelmente familiar. Quem nunca olhou para o céu, depois de um tombo da vida, e disse algo como, “Sério, D‑us? Logo agora? Por quê?” Não que duvidemos do Seu poder, o problema é justamente esse – sabemos que Ele poderia ter feito diferente. Ele é soberano. Se algo desabou, se a porta se fechou, se a dor chegou, Ele sabia. Ele permitiu. Ele, talvez, até tenha escrito essa cena. E aí vem o dilema: ou confiamos no Autor, ou começamos a desconfiar do enredo.
Mas calma. Antes que você ache que isso é um desabafo sem esperança, deixa eu te contar outra história – ou melhor, lembrar de uma. João 9. Yeshua encontra um homem cego de nascença. Os discípulos, sempre prontos a diagnosticar, perguntam: “Quem pecou? Ele ou os pais?” Em outras palavras: “Quem bagunçou o roteiro?” Mas Yeshua os desmonta com uma simples resposta: “Nem ele pecou, nem os pais. Isso aconteceu para que se manifestem nele as obras de D‑us.” Que reviravolta. De condenado a canal da glória. De vítima a vitrine do milagre.
O salmista achava que tinha sido rejeitado. O cego era considerado amaldiçoado. Ambos representavam, aos olhos da sociedade e talvez de si mesmos, o resultado de algum erro. Mas ambos estavam no centro de algo maior. Não de punição, mas de propósito. Me permita aqui um parêntese bem britânico. Sabe quando você está numa estação de trem e vê o seu trem partindo sem você? A vida pode parecer exatamente assim. Ficamos parados na plataforma, vendo os sonhos indo embora. E nos perguntamos, “Fui esquecido?” Mas talvez, só talvez, aquele não fosse o seu trem. Ou talvez o maquinista do universo esteja atrasando a partida para te levar para um destino melhor.
D‑us não opera com o nosso calendário. Ele não segue o Google Agenda. Ele trabalha com propósitos eternos. O problema é que nossa teologia ama explicações rápidas: fiz bem, recebo bênção. Fiz mal, recebo castigo. Mas isso não é fé, é uma transação. Fé de verdade é o que o salmista faz: “Tu és minha esperança, mesmo quando tudo parece gritar que estou sozinho.”
É fácil confiar quando tudo está dando certo. Mas a fé não floresce no jardim da lógica – ela nasce no deserto da dúvida. A velhice do salmista não é apenas biológica, é simbólica. É o momento em que o que antes era certo agora parece frágil. A oração já não tem o mesmo fervor, as respostas não vêm como antes. E ainda assim ele clama. Ainda assim ele espera. Ainda assim ele se recusa a deixar de confiar.
Ele diz: “Em ti, SENHOR, confio, nunca seja eu confundido.” Confundido aqui é algo como “não me deixe perder o rumo, mesmo que eu não entenda.” E isso é tudo. Fé não é ter todas as respostas, mas é confiar em quem as tem. Todos nós teremos o dia do shalak – o dia em que nos sentimos lançados fora, trocados, ignorados. Pode ser após uma perda, um diagnóstico, ou uma porta fechada. Nesses dias, precisamos nos lembrar: não somos lixo. Somos vasos, e vasos nas mãos do Oleiro passam por pressão, forno, silêncio e forma. Não é castigo, é processo.
É fácil louvar com o pão quentinho na mesa. Difícil é cantar quando só restam migalhas. Mas veja o que ele diz: “Encha-se a minha boca do teu louvor todo o dia.” Todo o dia. Inclusive o dia escuro. Inclusive o dia confuso. Inclusive hoje. Isso é fé em seu estado mais puro – adoração que não depende de explicações.
Então, se você se sente jogado fora, respire fundo. E diga: “D‑us, eu não sei por que isso está acontecendo, mas confio em Ti.” Você não está sendo descartado. Está sendo lapidado. O salmista achava que havia sido rejeitado, mas veja, ele ainda orava, ainda escrevia salmos, ainda clamava. Isso não é sinal de rejeição. É prova de que D‑us ainda ouve.
Você ouve? Porque a pergunta certa não é “de quem é a culpa?” mas sim “qual é o propósito?”. Yeshua nos ensinou que, às vezes, o sofrimento não aponta para o passado, mas para o futuro. E o futuro é este: que a glória de D‑us se manifeste em você. Hoje. Mesmo agora. Mesmo em meio ao silêncio.
Adivalter Sfalsin
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