
Moisés e Miqueias oferecem resumos do que D-us pede de Seu povo, mas seus resumos parecem radicalmente diferentes. Moisés, em Deuteronômio 10:12, condensa todos os mandamentos em uma declaração concisa: “Agora, Israel, o que o Senhor teu D-us pede de ti senão que temas o Senhor teu D-us, que andes em todos os Seus caminhos, que O ames e sirvas ao Senhor teu D-us de todo o teu coração e de toda a tua alma.” Séculos depois, o profeta Miqueias oferece um resumo semelhante, mas com um foco drasticamente diferente. Em Miqueias 6:8, ele diz: “Ele te mostrou, ó homem, o que é bom; e o que o Senhor requer de ti? Que pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes humildemente com o teu D-us.”
Pode-se questionar se Miqueias estava alheio à declaração de Moisés, mas isso é altamente improvável. Como profeta, Miqueias certamente conhecia Moisés, o maior dos profetas. De fato, a linguagem de Miqueias parece ecoar a de Moisés. A formulação em Deuteronômio 10:12, “O que o Senhor teu D-us pede de ti?”, é notavelmente semelhante à formulação de Miqueias em Miqueias 6:8, “O que o Senhor requer de ti?”
Isso sugere que Miqueias não estava ignorando as palavras de Moisés, mas sim divergindo conscientemente delas. No entanto, isso levanta uma questão importante: Miqueias está contradizendo Moisés, ou existe uma conexão mais profunda entre suas mensagens?
Para resolver essa aparente contradição, precisamos analisar mais de perto as discrepâncias entre as mensagens de Moisés e Miqueias. A primeira diferença está na ênfase. O resumo de Moisés foca fortemente no relacionamento entre o homem e D-us, destacando a importância de temer a D-us, amá-Lo e servi-Lo de todo o coração e alma (Deuteronômio 10:12-13). Miqueias, por outro lado, desloca o foco para a justiça social, clamando por justiça, misericórdia e humildade diante de D-us (Miqueias 6:8).
Mas as diferenças vão além do conteúdo de suas listas. Seus públicos também diferem. Moisés se dirige a “Israel”, o povo escolhido, enquanto Miqueias fala ao “homem”, ou à humanidade em geral. Essa distinção é sutil, mas significativa. Moisés fala aos israelitas como um grupo específico com um pacto único com D-us, enquanto Miqueias amplia o escopo para incluir as obrigações universais dos seres humanos.
Outra diferença está nos verbos usados para descrever as expectativas de D-us. Moisés usa a palavra “pede” (shoel em hebraico), implicando um pedido (Deuteronômio 10:12). Miqueias usa a palavra “requer” (doresh em hebraico), que é mais forte e implica uma exigência (Miqueias 6:8). Isso sugere que Miqueias não está apenas repetindo a mensagem de Moisés, mas sim construindo sobre ela ao abordar uma dimensão diferente da expectativa divina.
As diferenças de linguagem e ênfase entre Moisés e Miqueias sugerem que eles estão abordando diferentes aspectos da mesma verdade fundamental. Moisés fala sobre o que D-us pede especificamente ao povo hebreu, enquanto Miqueias aborda o que D-us exige de toda a humanidade. Um israelita é tanto uma pessoa quanto um membro de um povo escolhido, e cada identidade traz obrigações diferentes. O resumo de Moisés foca no que D-us pede dos israelitas como um povo de aliança, enquanto Miqueias fala sobre o que D-us exige de todas as pessoas como seres humanos.
A mensagem de Miqueias pode ser entendida como um comentário sobre a de Moisés. Quando Moisés conclui seu resumo dizendo que os mandamentos de D-us são “para o teu próprio bem” (Deuteronômio 10:13), Miqueias retoma essa ideia e elabora sobre o que esse “bem” (tov em hebraico) envolve. De acordo com Miqueias, o bem que D-us deseja vai além das obrigações rituais dos israelitas. Envolve viver uma vida de justiça, misericórdia e humildade – qualidades que definem nossas obrigações morais como seres humanos.
Para compreender completamente a conexão entre Moisés e Miqueias, precisamos olhar para o contexto mais amplo de Miqueias 6. Neste capítulo, D-us apresenta uma queixa contra Israel, convocando as montanhas e colinas para testemunhar Seu caso contra eles (Miqueias 6:1-2). D-us questiona por que Seu povo se cansou Dele, apesar de todo o bem que Ele fez por eles. Ele os lembra da libertação do Egito e da orientação de líderes como Moisés, Arão e Miriam (Miqueias 6:3-4). Curiosamente, Ele também menciona como frustrou as tentativas de Balaque e Balaão de amaldiçoar Israel (Miqueias 6:5).
Essa referência a Balaão pode parecer estranha, mas na verdade contém a chave para entender a mensagem de Miqueias. Balaão, um profeta não israelita, foi contratado para amaldiçoar Israel, mas acabou abençoando-os. Uma de suas bênçãos inclui as famosas palavras: “Quão formosas são as tuas tendas, ó Jacó, as tuas moradas, ó Israel” (Números 24:5). Miqueias parece estar fazendo alusão a essa bênção quando usa a frase “o que é bom” (mah tov em hebraico) em Miqueias 6:8. A referência à tentativa fracassada de Balaão de amaldiçoar Israel ressalta a ideia de que o favor de D-us não pode ser comprado com ofertas ou sacrifícios – um tema que Miqueias enfatiza quando rejeita a ideia de apaziguar D-us com sacrifícios extravagantes, como rios de óleo ou o sacrifício do primogênito (Miqueias 6:6-7).
Miqueias rejeita a noção de que ofertas extravagantes podem demonstrar a devoção a D-us. Em vez disso, ele redireciona o foco para o básico: justiça, bondade e humildade. Estes não são atos extraordinários de devoção, mas sim virtudes fundamentais que refletem a integridade de uma pessoa como ser humano. Em Miqueias 6:8, o profeta enfatiza que D-us não está buscando demonstrações excessivas de religiosidade, mas sim as qualidades que formam o alicerce da vida moral e ética.
Assim, a mensagem de Miqueias complementa a de Moisés. Enquanto Moisés delineia as obrigações religiosas de Israel como um povo de aliança, Miqueias nos lembra que D-us também exige decência humana básica de todas as pessoas. Ambos os profetas falam de diferentes aspectos da expectativa divina, mas juntos, eles formam um quadro completo do que significa viver uma vida que agrada a D-us.
Voltando à menção estranha de Balaão em Miqueias 6:5, vemos que essa referência é central para o argumento de Miqueias. A história de Balaão serve como um lembrete de que o favor de D-us não pode ser manipulado por meio de sacrifícios ou ofertas. Em vez disso, o verdadeiro desejo de D-us é que Seu povo viva com justiça, demonstre misericórdia e ande humildemente com Ele. Dessa forma, Miqueias reforça a mensagem central da Torá: ser uma boa pessoa significa viver uma vida que reflete os valores fundamentais de justiça, bondade e humildade.
As lições de Moisés e Miqueias ressoam profundamente em nossas vidas diárias. Moisés nos lembra de nossas responsabilidades pactuais – nossa necessidade de reverenciar, amar e servir a D-us com todo o nosso coração e alma. Isso nos ensina a importância de alinhar nossas vidas com os princípios divinos e cultivar uma conexão espiritual profunda. No entanto, Miqueias nos desafia a lembrar que a verdadeira bondade também está em como tratamos os outros. Justiça, bondade e humildade não são apenas ideais religiosos, mas formas práticas e cotidianas de viver com significado.
Isso nos ensina que nossas vidas espirituais não podem ser separadas de nossas ações éticas. Ser uma boa pessoa não é medido apenas por rituais religiosos ou grandes gestos, mas pelos pequenos e consistentes atos de integridade e compaixão que refletem a bondade de D-us no mundo. Seja defendendo a justiça, mostrando bondade a um estranho ou praticando humildade em nossos relacionamentos, cumprimos o desejo de D-us de sermos seres humanos melhores. Esse equilíbrio – entre servir a D-us e servir aos outros – é o que, em última análise, nos torna completos, tanto como pessoas de fé quanto como cidadãos do mundo.
Esse texto é baseado num estudo do Rabbi David Fohrman, onde ele discute as diferenças entre os 2 textos de Deuteronômio 10 e Miqueias 6. Adaptado e traduzido por:
Adivalter Sfalsin
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