A Parábola do Filho Pródigo: O Pai Amoroso, Parte 4

A parábola do Filho Pródigo, contada por Jesus no Evangelho de Lucas (15:11-32), é amplamente reconhecida por sua profunda mensagem de arrependimento e redenção. No entanto, ao olharmos mais de perto a história através dos olhos do pai, descobrimos uma dimensão igualmente poderosa de amor incondicional, misericórdia e compaixão. Este artigo se propõe a explorar a narrativa do ponto de vista do pai, oferecendo uma reflexão sobre suas ações e atitudes. 

Essa parábola, comumente conhecida como o Filho Pródigo, na verdade, foca-se na bondade do pai. Um título mais apropriado para essa parábola seria O Pai Amoroso, que representa o amor de D-us por nós.

Desde o início da parábola, o pai é confrontado com um pedido profundamente ofensivo. Seu filho mais novo exige sua parte na herança, um ato que, na cultura judaica do século I, era equivalente a desejar a morte do pai. Tal pedido não apenas insultava a autoridade paterna, mas também desestabilizava a segurança financeira da família. No entanto, em um ato surpreendente de generosidade, o pai concede ao filho sua parte da herança sem protestar.

Essa resposta do pai é contrária às expectativas culturais da época. Em vez de punir ou rejeitar o filho, ele escolhe o caminho do amor e da liberdade, permitindo que o jovem siga seu próprio caminho. Essa decisão, embora aparentemente permissiva, reflete um profundo respeito pela autonomia do filho e uma confiança de que o amor paternal poderá, um dia, trazer o filho de volta.

Enquanto o filho mais novo embarca em uma jornada de autodescoberta e eventual decadência, o pai permanece em casa, aguardando pacientemente seu retorno. A parábola não detalha os sentimentos internos do pai durante essa espera, mas podemos inferir sua dor e preocupação. O amor de um pai não se extingue com a distância ou com as ações impetuosas de um filho.

Diariamente, o pai provavelmente olhava para o horizonte, esperando um sinal de seu filho. Esse ato de espera simboliza a esperança contínua e o desejo de reconciliação. A espera paciente do pai é um testemunho de sua fé inabalável no retorno do filho e na eventual restauração do relacionamento.

Quando o filho mais novo, tendo desperdiçado sua herança, decide retornar, o pai toma uma ação extraordinária. Ao avistar seu filho à distância, o pai corre ao seu encontro. Naquela sociedade, para um homem mais velho correr era culturalmente indigno e humilhante. As vestimentas longas usadas naquela época, parecidas com saias modernas, tornavam difícil correr sem levantar as roupas. Ao fazer isso, o pai expõe suas pernas, um ato considerado indecoroso e inaceitável. Essa atitude revela não apenas a profundidade de seu amor e compaixão, mas também seu desejo de proteger o filho do julgamento e ridículo da comunidade. Ele abraça o jovem e o cobre de beijos, um gesto que sinaliza não apenas perdão, mas também uma aceitação total e incondicional. Este momento de reencontro é carregado de emoção, mostrando a profundidade do amor paternal.

O pai não apenas perdoa o filho, mas também celebra seu retorno com uma festa grandiosa. Ele ordena que o melhor manto seja trazido, que um anel seja colocado no dedo do filho e que sandálias sejam colocadas em seus pés. Cada um desses gestos é simbólico da restauração da dignidade e do status do filho dentro da família. O anel, em particular, representa a autoridade e a aceitação total do filho como membro da família.

A celebração é um ato de júbilo que contrasta fortemente com a expectativa de punição ou recriminação. O pai convida toda a comunidade para participar da alegria do retorno do filho, destacando que a redenção é um motivo de celebração coletiva.

A resposta do filho mais velho à celebração revela outra dimensão do amor e da sabedoria do pai. O filho mais velho, ressentido, recusa-se a participar da festa, sentindo-se injustiçado. Novamente, o pai demonstra paciência e compreensão. Ele sai para encontrar o filho mais velho e implora que ele entre e compartilhe da alegria.

Neste diálogo, o pai reafirma seu amor por ambos os filhos. Ele reconhece a lealdade do filho mais velho, mas também explica que a celebração é apropriada porque o irmão perdido foi encontrado. Este ato final de mediação sublinha a busca do pai por harmonia e reconciliação familiar.

Os dois filhos na parábola simbolizam maneiras distintas de viver. O filho mais jovem opta por abandonar os ensinamentos do pai, rejeitando os padrões e valores morais em busca de uma realização que só poderia ser alcançada através de uma relação íntima com seu pai. Em contrapartida, o filho mais velho representa aqueles que permanecem na casa do pai, observando os mandamentos e tentando seguir os preceitos e ensinamentos, mas cujo coração está distante do pai, sem desenvolver uma relação próxima, apesar de estarem fisicamente presentes.

A Parábola do Filho Pródigo oferece uma visão profunda sobre a dinâmica familiar e o amor incondicional de um pai. As ações do pai desafiam as normas culturais e revelam uma generosidade e compaixão extraordinárias. A história nos lembra que, independentemente de quão longe nos afastemos, sempre há uma oportunidade de redenção e renovação. O amor inabalável do pai na parábola reflete o amor divino, convidando-nos a abraçar o perdão, a reconciliação e a graça em nossas próprias vidas.

Os filhos representam os extremos do espectro do pecado: um abandona os preceitos do Senhor e vive uma vida de pecado longe da casa do pai, enquanto o outro simboliza os religiosos que dedicam seu tempo à observância dos mandamentos, guardando-os quase que como uma obrigação, sem sinceridade; ele também vive em pecado, apesar de estar próximo ao pai. Ambos estão errados, vivendo em extremos opostos. A mensagem de Jesus é um chamado para uma vida íntima com D-us. De uma forma típica dos rabinos do primeiro século, ele não conclui a parábola, deixando-a aberta para interpretação e conclusão conforme a decisão de cada um dos seus ouvintes. O convite está feito; o desfecho dessa parábola depende do ouvinte. O mesmo se aplica a nós: qual filho escolheremos ser?

Adivalter Sfalsin

Confissão de Davi: Uma Lição para os Tempos Modernos.

“Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim” (Salmos 51:3).

“Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” (Salmos 51:5).

Nesse salmo, Davi abre o coração e implora ao Senhor por perdão devido ao seu relacionamento ilícito com Bate-Seba.

Ao afirmar que foi “formado em iniquidade”, Davi não está sugerindo que seus pais tiveram uma relação ilícita ao concebê-lo. Em vez disso, ele reconhece que nasceu com traços de intensa paixão em seu caráter. Neste salmo de confissão, ele assume total responsabilidade por seu comportamento, mesmo reconhecendo que algumas características são hereditárias. Davi não tenta se justificar, mas busca unicamente o perdão. Ele declara: “Pequei! Sou culpado, perdoe-me!”.

Que pensamento refrescante e edificante! Esta atitude é sublime e admirável, especialmente quando contrastada com o comportamento moderno de transferir a culpa para os outros. Em muitos aspectos da psicologia contemporânea, os pais são frequentemente usados como bode expiatório para justificar o mau comportamento dos filhos. A sociedade é responsabilizada pelos delinquentes e marginais, aqueles em liderança são responsabilizados pela opressão dos liderados, e sempre alguém é considerado responsável pelas culpas dos malfeitores, nunca eles próprios. Na verdade, quando não assumimos os nossos erros, criamos uma barreira para o auto crescimento, ficamos imaturos, emocionalmente crianças eternas.

Esse contraste também é evidente desde o início da história bíblica. No Jardim do Éden, quando Adão e Eva pecaram ao comer do fruto proibido, ambos tentaram transferir a culpa. Adão culpou Eva e, indiretamente, D-us: “A mulher que me deste por companheira deu-me da árvore, e eu comi” (Gênesis 3:12). Eva, por sua vez, culpou a serpente: “A serpente me enganou, e eu comi” (Gênesis 3:13). Este comportamento de transferência de culpa é diametralmente oposto ao que Davi demonstra em seu salmo de confissão.

Este salmo instrutivo nos ensina sobre o arrependimento sincero, conhecido em hebraico como “Teshuvá”. É muito simples: você errou? Assuma o seu erro, volte ao princípio do seu caráter humano, não procure alguém para culpar e arrependa-se. Isso é o que o Senhor espera de você.

Leia também: O que é que o Senhor espera de ti?

Davi, em Salmos 51, nos dá um poderoso exemplo de humildade e autoconfissão. Ele não se esconde atrás de justificativas ou culpas transferidas. Ao contrário, ele reconhece sua falibilidade humana e se prostra diante de D-us em busca de perdão. Esse exemplo é vital para todos nós, mostrando que o caminho para a redenção começa com o reconhecimento de nossas próprias falhas e uma genuína busca pelo perdão divino.

Este salmo, portanto, não só é um modelo de confissão pessoal, mas também um guia espiritual que nos orienta sobre a importância da responsabilidade pessoal e do arrependimento sincero. Que possamos aprender com Davi e aplicar esses princípios em nossas vidas, buscando sempre a verdade e a retidão diante de D-us.


Adivalter Sfalsin

A Parábola do Filho Pródigo: Justiça Própria, Orgulho e Graça – Parte 3

A Parábola do Filho Pródigo: Justiça Própria, Orgulho e Graça. A parábola do Filho Pródigo oferece uma visão rica sobre as dinâmicas familiares e culturais, especialmente quando analisada através da perspectiva do filho mais velho. Suas ações e reações, embora menos discutidas, carregam lições morais importantes. Aqui estão algumas reflexões sobre a atitude do filho mais velho e as lições que podemos extrair:

Na cultura judaica do século I, o filho mais velho tinha o papel de mediador e guardião da harmonia familiar. Seu silêncio diante da demanda do irmão mais novo por herança é, portanto, uma violação de seu dever. Esta atitude revela a importância de entender e cumprir nossas responsabilidades dentro do contexto familiar e social. A omissão de responsabilidade é, em si, uma forma de negligência e desrespeito. Essa reflexão nos leva a questionar até que ponto estamos conscientes de nossas responsabilidades e como nossa omissão pode impactar negativamente aqueles ao nosso redor.

Ao aceitar a divisão da herança sem protesto, o filho mais velho demonstra uma forma de cumplicidade passiva, possivelmente motivada por interesse pessoal, já que ele teria direito a dois terços da herança. Isso nos ensina sobre os perigos da ganância e da indiferença moral. Agir apenas em benefício próprio, mesmo que de forma passiva, pode ser tão prejudicial quanto atos de desrespeito mais explícitos. Sua atitude mostra um apego excessivo aos bens materiais. Ao focar nos ganhos financeiros, ele negligencia os valores familiares e emocionais. A lição aqui é a importância de priorizar relações humanas e valores morais sobre os bens materiais. A verdadeira riqueza está nos relacionamentos e no cumprimento de deveres morais. Esta reflexão é especialmente relevante em uma sociedade contemporânea que muitas vezes valoriza o sucesso material acima das conexões humanas.

Ele demonstra ressentimento quando o irmão pródigo retorna e é recebido com uma festa. Este ressentimento destaca a importância de compreender e aceitar a graça e o perdão. Em vez de celebrar a reconciliação e o retorno do irmão, ele se sente injustiçado. O versículo 29 diz: “Mas ele respondeu ao seu pai: ‘Olha! Todos esses anos tenho trabalhado como um escravo ao teu serviço e nunca desobedeci às tuas ordens. Mas tu nunca me deste nem um cabrito para eu festejar com os meus amigos”. Devemos aprender a perdoar e a alegrar-nos com a redenção alheia, em vez de cultivar sentimentos de amargura. O uso da palavra “escravo” é significativo, pois ressalta que o filho mais velho percebia seu trabalho como uma obrigação árdua e opressiva, em vez de um ato de amor e devoção ao pai. Essa percepção é fundamental para entender a mentalidade do filho mais velho. Ele não vê seu serviço como um ato de amor ou lealdade voluntária, mas como uma carga pesada e um dever imposto. Essa mentalidade reflete uma visão transacional da relação com o pai, baseada em mérito e recompensa, em vez de uma relação amorosa e graciosa.

O ressentimento do filho mais velho serve como um lembrete de que a inveja e o ciúme podem obscurecer nossa capacidade de reconhecer e celebrar a bondade e a misericórdia. Sua reação é marcada por um senso de justiça própria. Ele acredita que, por sempre ter obedecido, merece mais reconhecimento e recompensas. Este orgulho impede-o de ver a situação através da lente do amor e da compaixão. A lição aqui é que a justiça própria e o orgulho nos cegam para a verdadeira natureza do amor e da graça. Assim como o filho mais velho, precisamos aprender sobre a graça e a compaixão demonstradas pelo pai. A capacidade de perdoar e acolher sem reservas é um valor central da parábola. Assim, somos lembrados da importância de sermos compassivos e generosos, mesmo quando nos sentimos lesados ou injustiçados. A justiça própria pode levar à rigidez moral e à incapacidade de perceber a necessidade de graça e perdão para todos, inclusive para nós mesmos.

Jesus estava ministrando a um grupo diversificado de pessoas, incluindo publicanos (cobradores de impostos) e pecadores, que se aproximavam para ouvi-lo. Os fariseus e escribas, líderes religiosos da época, criticavam Jesus por acolher essas pessoas e comer com elas. Eles murmuravam contra Jesus, questionando por que ele se associava com pecadores. Em resposta às críticas dos fariseus e escribas, Jesus conta uma série de três parábolas, todas com o tema da misericórdia e do arrependimento:

Parábola da Ovelha Perdida (Lucas 15:3-7): Um pastor deixa noventa e nove ovelhas para buscar uma que se perdeu, e há grande alegria quando a encontra. Esta parábola ilustra o valor individual de cada ser humano e a alegria no céu por um pecador que se arrepende.

Parábola da Dracma Perdida (Lucas 15:8-10): Uma mulher procura diligentemente uma moeda perdida e celebra com alegria quando a encontra. Esta história reforça a ideia da busca incessante por aquilo que é valioso e o júbilo ao encontrá-lo, simbolizando a alegria divina ao recuperar o perdido.

Parábola do Filho Pródigo (Lucas 15:11-32): Um filho mais jovem desperdiça sua herança em uma terra distante, mas é recebido com alegria e perdão pelo pai quando retorna arrependido. Esta parábola é uma poderosa narrativa sobre arrependimento, perdão e restauração.

Na parábola do Filho Pródigo, a figura do filho mais velho representa os fariseus e escribas, que se sentem injustiçados pela recepção misericordiosa que Jesus dá aos pecadores arrependidos. Muitas pessoas religiosas se sentem mais justificadas por estarem cumprindo as normas religiosas esperadas. Elas podem se identificar com o filho mais velho, acreditando que a sua obediência e diligência nas práticas religiosas as tornam merecedoras de reconhecimento e bênçãos. No entanto, a parábola desafia essa visão ao mostrar que a verdadeira justiça divina não está baseada apenas na obediência estrita às normas, mas na capacidade de perdoar, amar incondicionalmente e acolher com generosidade. Este chamado à compaixão e à graça nos lembra que a essência da fé vai além do cumprimento das regras e está enraizada em atitudes de amor e misericórdia para com todos. Assim, a parábola desafia tanto os líderes religiosos quanto os fiéis a reavaliar suas atitudes e abrir seus corações para a verdadeira essência do amor divino.

Além disso, a parábola nos convida a refletir sobre como tratamos aqueles que consideramos desviados ou menos dignos. Em um contexto contemporâneo, isso pode se traduzir em uma chamada à inclusão, aceitação e apoio aos marginalizados e vulneráveis em nossa sociedade. A atitude do pai, que corre ao encontro do filho pródigo, nos desafia a sermos proativos em nossa compaixão e generosidade, acolhendo os outros com braços abertos e corações cheios de amor.

A atitude do filho mais velho na parábola do Filho Pródigo revela lições profundas sobre responsabilidade, ganância, justiça própria e a necessidade de compaixão e graça. Esta narrativa nos desafia a refletir sobre nossas próprias atitudes e a buscar uma compreensão mais profunda do amor ao próximo e da reconciliação, tanto no contexto familiar quanto no espiritual. Ela nos lembra que todos, independentemente de nossos erros ou dos caminhos que escolhemos, são merecedores de amor e perdão, e que a verdadeira fé vai além do cumprimento das regras e está enraizada em atitudes de amor e misericórdia para com todos.

No próximo artigo, iremos explorar o amor incondicional do pai.

Adivalter Sfalsin

Nota: Sou profundamente grato àqueles que me ajudaram a entender as parábolas dentro de seu contexto adequado, incluindo Dr. Dwight Pryor, Dr. David Divin, Dr. Skip Moen e outros.

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 10: “Ide, e dizei àquela raposa…”

Naquele mesmo dia, chegaram uns fariseus, dizendo-lhe: ‘Sai e retira-te daqui, porque Herodes quer matar-te.’ E respondeu-lhes: ‘Ide, e dizei àquela raposa: Eis que eu expulso demônios e efetuo curas, hoje e amanhã, e no terceiro dia sou consumado.'” (Lucas 13:31-32)

Nessa passagem bíblica, Yeshua (Jesus) está sendo advertido pelos fariseus sobre a perseguição que Herodes Antipas havia lançado contra Ele. Então, Yeshua (Jesus) responde: “Ide, e dizei àquela raposa.” Mas o que Yeshua quis dizer com “dizei àquela raposa”?

Lembro-me dos meus anos de menino, quando me contavam histórias em que a raposa era apresentada como um animal sagaz, inteligente e astuto. Talvez essa seja a imagem que temos ao ler essa passagem bíblica. No entanto, vamos tentar colocá-la em seu contexto original no mundo hebraico/grego.

Conforme os estudos de David Bivin, “a metáfora ‘raposa’ provou ter um significado dúbio para falantes de línguas europeias. Muitos especialistas do Novo Testamento seguiram o sentido claro e amplamente conhecido da palavra grega sem primeiro fazer uma pergunta importante: ‘Como a palavra ‘raposa’ era usada pelos judeus?’ A resposta revela uma diferença no uso do hebraico e do grego, e deve servir como um lembrete de que sempre se deve interpretar as metáforas dentro do ambiente cultural adequado.”

No grego, a palavra raposa é “alōpēx”, associada à esperteza e ligeireza em ataques noturnos a outros animais, além de seu oportunismo em roubar presas já mortas por animais mais fortes. Portanto, os gregos associavam essas características a pessoas oportunistas, inteligentes e astutas.

Entretanto, a palavra raposa no hebraico é “שׁוּעָל” (shū’āl), que tem um significado muito mais amplo. Vejamos o uso mais abrangente nos escritos dessa época:

Como astúcia: Na Midrash R. Eleazar ben R. Shim’on [final do segundo século d.C.], disse: “Os egípcios eram astutos e é por isso que as Escrituras os comparam a raposas.” (Cântico dos Cânticos 2:15).

Como ardilosa: No comentário babilônico do Talmud (Berachot 61b), o Rabi Akiva contou uma parábola:

“Uma raposa estava caminhando ao longo de um rio e viu peixes correndo para lá e para cá. Ela disse: ‘Do que vocês estão fugindo?’

Disseram-lhe: ‘As redes que os humanos espalham para nós.’ Ela disse: ‘Por que vocês não vêm para a terra firme? Vamos viver juntos, como meus ancestrais viveram com seus ancestrais.’ Disseram-lhe: ‘És tu aquele de quem se diz que és o mais sábio dos animais? Você não é sábio, mas tolo! Se, em nosso ambiente de vida, temos motivos para ter medo, quanto mais no ambiente de nossa morte!’”

Como pretensão: No hebraico, o significado mais abrangente é extraído do contraste que os judeus faziam entre o leão e a raposa. Um homem com poder e maior excelência intelectual era comparado ao leão, enquanto um homem com menor excelência era associado à raposa. Aqueles que tinham a pretensão de ser algo que não eram, eram associados às raposas. O leão tem uma juba grande e pomposa; a raposa, por sua vez, é um animal esquelético, mas com um pelo grande e pomposo, aparentando ser grande e importante, mas sem consistência alguma.

Com conotação moral: O Rabino Mathia ben Harash disse: “Seja a cauda dos leões, e não a cabeça das raposas.” (Mishná Pirkei Avot 4:15). Isso propõe a ideia de que é melhor ser alguém de baixa posição, mas com uma vida moral e espiritual correta, do que estar entre aqueles de posições superiores e poderosos, mas vivendo uma vida degradada e corrompida.

Resumindo, o grego associa a raposa com astúcia e esperteza, enquanto o hebraico é mais abrangente, adicionando pretensão e conotação moral. O texto, ao ser traduzido para nossa língua, perdeu parte vital de seu significado, incluindo a verdadeira dinâmica da repreensão de Yeshua (Jesus), implicitamente dando um falso significado positivo à sua resposta, exatamente o inverso da intenção do Mestre.

Yeshua (Jesus) chamou Herodes de raposa depois que alguns fariseus relataram que Herodes queria matá-lo. A resposta de Jesus desafiou os planos de Herodes: “Diga a Herodes que primeiro tenho que trabalhar.” Mostrando aqui que Ele tinha o poder, e não Herodes; “dizei àquela raposa…”

Herodes se considerava um leão poderoso, mas Yeshua (Jesus) o rotulou de raposa, dando a entender que Herodes não era genuíno, verdadeiro e legítimo. Ele o comparou a uma raposa que, apesar de ardilosa, está moralmente corrompida, é pomposa e, acima de tudo, pretensiosa, sendo, na verdade, uma fraude.

Para entendermos as palavras de Yeshua (Jesus), devemos compreender quem era Herodes Antipas. Ele era filho de Herodes, o Grande, com Malthace (Samaritana), e neto de Antípatro, do povo idumeu ou edomita, descendentes diretos de Esaú, filho de Isaac e Rebeca, irmão gêmeo de Jacó. Antípatro se converteu ao judaísmo, e Herodes e seu filho Herodes Antipas se autointitulavam reis dos judeus por causa da herança de seus antepassados até Esaú, aquele que vendeu a primogenitura para seu irmão Jacó, mas nunca aceitou ter perdido. Na verdade, o trono de Davi tinha sido prometido por Deus para a linhagem de Jacó. Herodes Antipas se tornou um usurpador do trono, e o povo judeu não o aceitava como líder, muito menos como rei.

Yeshua, ao chamá-lo de raposa, estava se referindo a vários aspectos do poder usurpado e do caráter de Antipas. Antes de tudo, ele era ilegítimo e inapto para o cargo que ocupava. Como a imagem do rei era associada ao leão, ao rotulá-lo de raposa, Yeshua estava insinuando que Herodes era um pomposo pretensioso que só tinha poder por usurpação, um impostor. Assim como a raposa é pomposa, cheia de pelo no exterior, mas, na verdade, é um animal esquelético.

Yeshua (Jesus), o legítimo sucessor ao trono pela linhagem de Davi (Lucas 1:32), mostra sua autoridade ao responder e desafiar os planos de Antipas: “Diga a Herodes que primeiro tenho que trabalhar.” Jesus não estava insinuando que Herodes era astuto; ao contrário, Ele estava comentando sobre a inaptidão ou incapacidade de Herodes em cumprir sua ameaça. Todo o poder que ele tinha, só o tinha porque Deus havia permitido. Jesus questiona a linhagem, a estatura moral e a liderança do tetrarca, colocando-o “em seu lugar”. Isso se encaixa exatamente no quarto uso rabínico de “raposa” – conotação moral.

Vemos aqui a importância de entender o texto dentro de seu contexto cultural, histórico e linguístico. Caso contrário, corremos o risco de entender a passagem bíblica de forma errada, onde o texto, sem seu contexto, se torna um pretexto.

Autor:

Adivalter Sfalsin

[1a] David N. Bivin é um estudioso bíblico israelense-americano, membro da Escola de Pesquisa Sinótica de Jerusalém. Seu papel na Escola de Jerusalém envolve a publicação do jornal Jerusalem Perspective (Online) e a organização de seminários. Bivin é membro da Escola de Pesquisa Sinótica de Jerusalém, um grupo formado por acadêmicos judeus e cristãos dedicado a melhor compreender os Evangelhos Sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas).

[1b] Retirado do artigo: That Small-fry Herod Antipas, or When a Fox Is Not a Fox, no site http://www.jerusalemperspective.com

[2] A Mishná, (em hebraico משנה, “repetição”, do verbo שנה, ”shanah, “estudar e revisar”) é uma das principais obras do judaísmo rabínico, e a primeira grande redação na forma escrita da tradição oral judaica, chamada a Torá Oral.

[3] Antípatro era um Idumeu, que prosperou na corte dos últimos soberanos hasmoneus, passou a governar a Judeia após a ocupação romana e foi o pai de Herodes, o Grande. Foi posto por Pompeu como procurador da Palestina em 67 a.C.

[4] Edom, em hebraico, quer dizer “vermelho” porque Esaú tinha a cor avermelhada.

O filho prodigo, verdadeiro arrependimento

A Parábola do Filho Pródigo: O Verdadeiro Arrependimento – Parte 2

O filho prodigo, verdadeiro arrependimento

Seguindo o tema abordado anteriormente sobre o filho pródigo, agora vamos explorar a parábola sob a perspectiva histórica e cultural, destacando nuances que frequentemente passam despercebidas. A análise através da lente hebraica revela detalhes valiosos que nos ajudam a desvendar camadas mais profundas dessa narrativa tão conhecida. Inspirados pelas reflexões do renomado Dr. Kenneth Bailey em seu livro “Poet and Peasant”, nosso objetivo hoje é aprofundar nossa compreensão dessa história cativante, contextualizando-a dentro de seu cenário histórico e cultural. Esta jornada de exploração promete enriquecer nossa visão sobre a essência e a mensagem subjacentes dessa parábola atemporal.

Lucas 15:11-12 cria o cenário: “Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe.’ O pai então dividiu os bens entre eles.” Este pedido, embora aparentemente normal para os leitores modernos, foi extraordinariamente ofensivo em seu contexto histórico. Dr. Bailey, um especialista em cultura do Oriente Médio, destaca a raridade e a gravidade de tal demanda. Em sua extensa pesquisa, ele encontrou apenas dois casos de um filho que pediu sua herança enquanto o pai ainda estava vivo. Este ato era equivalente a desejar a morte do pai, um insulto sem precedentes nas tradições judaicas e do Oriente Médio.

Na cultura judaica, a iniciativa do pai é essencial na distribuição da herança, e isso é tipicamente feito para evitar disputas futuras, nunca a pedido do filho. Além disso, o pai mantém o direito de viver dos produtos da terra, mesmo após transferir a propriedade. Ao pedir e depois dispor de sua herança, o filho mais jovem não só desrespeita seu pai, mas também põe em risco a estabilidade financeira futura do pai. Esta ação teria sido chocante e profundamente ofensiva para a audiência original de Jesus.

O que se segue é ainda mais notável do que o pedido do filho: a resposta do pai. Contrariamente às expectativas culturais de raiva e punição, o pai concede ao pedido em um ato profundo de amor e generosidade. Esta concessão é voluntária, apesar do comportamento ofensivo do filho, ela desafia todas as normas culturais. A resposta do pai ilustra um ato extraordinário de graça, destacando a profundidade de seu amor e o potencial para a reconciliação apesar da provocação severa.

A parábola também critica sutilmente o comportamento do filho mais velho. De acordo com as expectativas culturais, o filho mais velho deveria ter protestado contra a divisão da herança e agido como mediador para restaurar a harmonia familiar. Em vez disso, seu silêncio e aceitação de sua parte indicam uma cumplicidade passiva e uma violação do dever familiar. Segundo a lei judaica no século I, o filho mais velho tinha direito a dois terços da herança, enquanto o filho mais novo receberia um terço. Ao permanecer em silêncio, o filho mais velho não estava apenas negligenciando seu dever, mas também garantindo seu ganho financeiro. Esta omissão é tão nociva quanto a transgressão do filho mais novo, revelando uma forma diferente, mas igualmente prejudicial de desrespeito ao pai.

À medida que a história se desenrola (Lucas 15:13-16), o filho mais novo desperdiça sua riqueza em uma terra distante, eventualmente encontrando-se desamparado e trabalhando como cuidador de porcos. Este detalhe, particularmente ressonante na cultura judaica onde os porcos são animais impuros, o porco pela sua impureza vive alienado de tudo que é divino, assim como esse jovem, sublinha sua degradação total. A fome que se abate exacerba sua situação, levando-o a um estado de desespero onde ele inveja a comida dos porcos.

Desesperado e faminto, ele anseia comer as alfarrobas que os porcos comiam. As alfarrobas, bem conhecidas no Oriente Médio, vêm em duas variedades: cultivadas e selvagens. As alfarrobas cultivadas são doces e nutritivas, frequentemente vistas como um deleite. No entanto, durante um estado de fome, essas não seriam desperdiçadas com porcos. Em vez disso, os porcos vasculhariam arbustos de alfarroba selvagem, que produzem vagens amargas e nutricionalmente pobres. Este tipo de comida mostra a extrema degradação da situação do rapaz. Uma prática comum no Oriente Médio para livrar-se de uma pessoa indesejada é atribuir-lhe uma tarefa intolerável. Imagine o cenário, um jovem judeu vivendo em uma terra estrangeira junto aos gentios, indesejado e perdido. O cidadão que empregou o rapaz provavelmente esperava que ele rejeitasse esse trabalho humilhante. Oferecer esse tipo de trabalho a um judeu teria sido uma afronta e uma indicação de que ele não era bem-vindo nessa terra distante. No entanto, em seu desespero, ele aceita até mesmo isso. Sua associação com porcos e sua fome pelas vagens não comestíveis refletem sua profunda queda da graça e a extensão de sua alienação de sua cultura e família.

O termo hebraico “ele caiu em si” significa um momento de autoconscientização, despertar, frequentemente associado ao arrependimento na literatura rabínica. No entanto, o termo usado aqui não é o padrão “Teshuva” (arrependimento), o termo sugere que o arrependimento do filho é incompleto e seletivo. O filho reconhece sua situação desesperadora—fome e pobreza—mas não há remorso genuíno por ter ofendido o seu pai. Sua motivação para voltar é impulsionada pela necessidade física em vez de arrependimento sincero. A proposta do filho de se tornar um servo contratado é estratégica nos versículos 18-19. 

“18 Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti; 19 Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros (servo contratado).”

No século I havia 3 tipos de servos:

1 – O governante da casa: Esse morava na propriedade por muitos anos e era íntimo do proprietário, fazia parte da casa, era tratado de forma semelhante a um membro da família.

2 – O trabalhador braçal: Era subordinado ao governante, realizava tarefas servis e repetitivas.

3 – O servo contratado: Era altamente valorizado com habilidades específicas em grande demanda como decoradores, pintores, pedreiros e artesãos, esses estariam socialmente par a par com o empregador, vivendo na mesma propriedade por longos períodos dependendo da extensão dos projetos a serem executados, mas independentemente, ganhando bons salários. Algumas traduções trazem a palavra “jornaleiro”, a palavra em grego é “misthios”, “μισθός” que se traduz como diarista. Como os projetos eram geralmente extensos, esses contratados acabavam vivendo próximo à propriedade do empregador por um longo tempo, geralmente em uma acomodação separada da principal.

O filho pródigo visa viver de forma independente, evitando interações diárias com seu pai e o irmão. Quer ganhar bons salários, potencialmente reembolsando seu pai e cumprindo sua obrigação moral de cuidar de seu pai na velhice. Quer manter seu orgulho e independência, evitando submissão ou humilhação completa. Essencialmente, ele buscava ganhar sua salvação através de boas ações, arrependendo-se superficialmente sem perder a dignidade. O arrependimento deve ser seguido por ação prática para ser verdadeiro. A determinação do filho de agir—levantando-se e retornando ao pai—demonstra sua disposição de tomar medidas em direção à reconciliação, mesmo que suas motivações sejam mistas.

No retorno do filho, as ações do pai são significativas: O ato do pai de correr é culturalmente indigno e humilhante para um homem mais velho. Tentar correr com uma vestimenta longa, parecida com as saias modernas, era bem difícil, além de ser vergonhoso mostrar as pernas em público, mas o pai faz isso por compaixão e amor para poupar seu filho do julgamento e ridículo da comunidade. Da forma aglomerada que as casas nas vilas eram construídas indica que a volta do filho foi um evento público, todos presenciaram. As ações do pai foram feitas para proteger seu filho do julgamento severo da comunidade. Os beijos repetidos indicavam a reconciliação e a cura da brecha entre pai e filho, mostrando relacionamentos restaurados.

No versículo 21, o filho começa seu discurso ensaiado, mas omite o pedido para ser um servo contratado. 

“21 E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho.”

Esta omissão reflete uma mudança genuína de coração, provocada pelo ato de amor sem precedentes do pai. Aqui ele se arrepende de verdade. Aceita sua indignidade e está disposto a abraçar a filiação, implicando arrependimento completo.

As ordens do pai para vesti-lo com sua melhor roupa, colocar um anel em seu dedo e sandálias em seus pés significam restauração completa ao estado pleno, tanto na casa quanto na comunidade. Ao vesti-lo com suas melhores vestes e dar-lhe o anel de autoridade, o pai demonstra publicamente o estado restaurado do filho, garantindo que a comunidade também aceite a reconciliação.

O pedido do filho mais novo e ações subsequentes são uma verdadeira afronta quando vista dentro da perspectiva cultural. A resposta do pai mostra um ato de graça radical. O silêncio do filho mais velho é igualmente ofensivo e mostra o seu apego aos bens materiais. Essa mensagem é atemporal e nos ensina sobre o arrependimento, a graça e como o amor profundo pode superar até mesmo as mais profundas brechas nos relacionamentos.

Isso evidencia minuciosamente que a nossa salvação advém da submissão ao amor que Ele tem por nós, em vez de tentarmos obter graça por meio das nossas realizações. Uma lição que deve estar constantemente em nossas mentes porque, durante fases de nossas vidas, agimos exatamente como o filho pródigo, mas podemos estar certos de que o amor do Pai excede todas as nossas expectativas.

No próximo artigo, iremos explorar um pouco mais o papel do filho mais velho.

Adivalter Sfalsin

Nota: Sou profundamente grato àqueles que me ajudaram a entender as parábolas dentro de seu contexto adequado, incluindo Dr. Dwight Pryor, Dr. David Divin, Dr. Skip Moen entre outros.