Teologia da substituição Parte 1

Teologia da substituição Parte 1

     Mas o que realmente é a teologia da substituição? Basicamente é a crença que a igreja substituiu Israel com respeito as promessas e propósitos de D-us. Uma definição mais abrangente pode ser expandida da seguinte forma:
1- Há a possibilidade de judeus individualmente serem salvos aceitando Jesus como Senhor e salvador de suas vidas, mas D-us rejeitou o povo judeu como instrumento dos seus propósitos porque eles como povo rejeitaram ao messias, Jesus.
2- Ao rejeitar a Jesus, o povo judeu transgrediu as alianças que D-us fez com os patriarcas, assim D-us anulou-as.
3- A igreja substituiu Israel como o povo da aliança e propósitos, assim passando a ser o “novo Israel de D-us”
4- As promessas dadas a Israel no passado agora com a “nova aliança” são dadas a igreja.
5- O estado moderno de Israel não tem relevância especial aos acontecimentos recentes. Israel é um país como qualquer outro.

     O impacto da teologia da substituição é sutil, basta abrir a bíblia e olhar no índice onde se divide a bíblia em 2 partes, “velho” e novo testamento. O que a princípio parece inocente ao nossos olhos está carregado de um sentimento antisemita de centenas de anos de má vizinhança entre gentios e judeus. Porque velho e novo testamento? Inconscientemente assumimos que o velho já está ultrapassado portanto o novo testamento é melhor ou até mesmo superior.
     A teologia da substituição tem como raiz o orgulho de pensar que “nós” somos melhores do que “eles”, infelizmente vemos essa teologia aplicada não só em relação aos judeus mas entre as próprias denominações, onde certos grupos empossam a verdade exclusivamente e excluem os que pensam de forma diversa. Sendo assim o problema não está na teologia da substituição, mas sim no coração humano.
     Muitos teólogos que aderiram a essa teologia influenciaram grandes multidões, entre eles destaco Dr Robert Reymond um estimado teólogo dos Estados Unidos, que no seu artigo “Sword and Trowel” (A Espada e a espátula) escreve:
“todas as promessas da terra de D-us para Israel no Antigo Testamento devem ser vistas como sombras, tipologia e profecia, em contraste com a realidade, substância e cumprimento de que o Novo Testamento atesta…” e “nós cristãos, como membros do reino messiânico de Cristo, somos os verdadeiros herdeiros das promessas da terra das escrituras sagradas aqui e agora, e que também se cumprirá no futuro celestial…”
     Provavelmente você já ouviu essa mesma ideia sendo pregada dos púlpitos com diferentes nuances, eu particularmente cresci na igreja ouvindo que “nós éramos o novo Israel de D-us”. O que muitas vezes me deixou inquieto e me fez questionar tal afirmação e caráter de D-us.
     Naturalmente para chegar a essa conclusão tudo vai depender de como você lê a bíblia, sua perspectiva é hebraica ou helenística? Exploro esse tópico com mais detalhes nesse artigo: https://raizeshebraicas.com/2021/05/23/uma-questao-de-perspectiva/
Se você estiver lendo com uma perspectiva helenística provavelmente a narrativa se desenrola desta forma: D-us criou o universo, o homem pecou desobedecendo seu mandamento, então Ele no seu imenso amor ao invés de julgar o homem pelo pecado providencia o redentor Jesus, e todos os que invocarem esse nome será salvo e habitará no céu. Tem algo de errado com essa descrição? No mínimo está incompleta porque ignora a eleição de Israel como povo escolhido para abençoar as nações de todo o mundo.
     Visão hebraica: D-us criou o universo, o homem pecou desobedecendo seu mandamento, então Ele faz várias alianças com o homem através de Noé, Abraão e através dessas alianças Ele abençoa não só a Noé e Abraão mas através de seus descendentes todos os povos gentios são abençoados (Gen 12:2-3) dentro dessa provisão ele manda o redentor da linhagem de Abraão, Jesus; e todos que entrarem nessa aliança (relacionamento) continuará nesse relacionamento com Jesus no mundo por vir. Julgo que essa visão é mais completa e faz jus a bíblia do gênesis ao apocalipse.
     O problema principal da perspectiva helenística é que ignora a história de Israel como povo escolhido para trazer o salvador, Jesus. Ela vê essa história somente como uma sombra do que estava por vir, o messias, e quando o messias foi revelado essa sombra já não tem muita importância, foi cumprida e pode ser descartada. Ela se concentra num D-us universal com atributos abstratos dos filósofos platônicos como: Soberano, perfeito, onipotente, onipresente, primeira causa, fundamento do ser e as vezes até inatingível. Em constraste, D-us se revela ao homen como um D-us particular, pessoal e presente nos conflitos humanos. Esse D-us elege uma família especifica, faz dessa família um povo, se envolve em seus conflitos internos, cuida, interage, está presente todos os dias, se entristece com as más escolhas que fazem e até antecipa seus planos futuros para Abraão Gen 19:23-25 e Moisés Êxodo 32:9-10
     Essa ideia é revelada em toda a bíblia, no “velho” testamento (Tanak):
1- “Eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito, para ser vosso Deus. Eu sou o Senhor vosso Deus” Números 15:41 , Êxodo 29:46, Levítico 11:45, Levítico 22:33,
2- “Vede agora que eu, eu o sou, e mais nenhum deus há além de mim; eu mato, e eu faço viver; eu firo, e eu saro, e ninguém há que escape da minha mão.” Deuteronômio 32:39
3- “E ele lhes disse: Eu sou hebreu, e temo ao Senhor, o D-us do céu, que fez o mar e a terra seca.” Jonas 1:9
4- “Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há D-us; eu te cingirei, ainda que tu não me conheças;” Isaías 45:5
5- “Portanto o santificarás, porquanto oferece o pão do teu Deus; santo será para ti, pois eu, o Senhor que vos santifica, sou santo.” Levítico 21:8
6- “Porque eu sou o Senhor teu Deus, que agito o mar, de modo que bramem as suas ondas. O Senhor dos Exércitos é o seu nome.” Isaías 51:15
7- “O Senhor guarda os estrangeiros; sustém o órfão e a viúva, mas transtorna o caminho dos ímpios.” Salmos 146:9
     E no novo testamento:
1- “E, acerca dos mortos que houverem de ressuscitar, não tendes lido no livro de Moisés como Deus lhe falou na sarça, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó?” Marcos 12:26
2 – Mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel; Mateus 10:6
3 – Luz para iluminar as nações, E para glória de teu povo Israel. Lucas 2:32
4 – Bendito o Senhor Deus de Israel, Porque visitou e remiu o seu povo, Lucas 1:68
5 – E Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Marcos 12:29
6 – E assim todo o Israel será salvo, como está escrito: De Sião virá o Libertador, E desviará de Jacó as impiedades. Romanos 11:26
7 – Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. Efésios 2:12

     Diferentemente do D-us universal dos filósofos gregos que influenciaram os “pais da igreja” como Clemente de Alexandria (c. 150-200 d.C), Basílio “o Grande” (c. 330-379 d.C.), Justino Mártir (100-165 d.C.) e Agostinho (354-430 d.C), a visão bíblica é de um D-us particular que começa sua missão de resgate através da eleição de uma familia especifica e dá a eles mandamentos específicos para terem uma relacionamento íntimo com ele.
     A teologia da substituição erra em vários pontos, primeiro por apresentar uma narrativa incompleta, depois por deturpar o caráter de D-us. A aliança feita com Abraão foi unilateral, imutável e irrevogável, ao pôr Abraão para dormir durante a consumação da aliança (Gên 15) D-us mostrou que essa aliança seria unilateral, onde Ele manteria sua palavra da parte do contrato porque naturalmente Abraão falharia assim como sua descendência.
Conforme a teologia da substituição, porque Israel não guardou a aliança rejeitando o messias então D-us elegeu um outro povo, os gentios, para ser seu “novo” povo escolhido.
Bom, se D-us faz uma aliança unilateral e depois volta atrás, como poderia estar certo da garantia da vida eterna?

No próximo artigo vamos um pouco mais profundo no assunto.

A Sfalsin

MEIA REFORMA DE LUTERO

MEIA REFORMA DE LUTERO

Há 495 anos atrás enquanto a Europa afundava-se em seus anos negros com cultos aos mortos promovido pela festa do Halloween, Lutero se destacava como uma luz na escuridão ao pregar publicamente suas 95 teses, na porta da Catedral de Wittenberg (Alemanha). Seu apelo era por uma mudança nas práticas da Igreja Católica, e acesso as sagradas escrituras na língua do povo comum.

Ao desafiar os costumes da igreja católica e do império ele possibilitou que o povo tivesse acesso à Bíblia em sua própria língua. A principal doutrina de Lutero era contra o pagamento de penitências e indulgências aos lideres religiosos, ao descobrir lendo em Habacuque e Romanos que a salvação é pela graça somente, não por obras, houve uma profunda mudança em sua vida.

Essa ação deu origem ao que conhecemos hoje como o movimento “protestante” que sem dúvida mudou o curso da história eclesiástica, motivo de comemoração para os cristãos protestantes ou evangélicos. Infelizmente Lutero não “reformou” o suficiente e doutrinas católicas que ainda permanecem enraizadas na igreja protestante, entre algumas, tristemente destaco a “teologia da substituição” que basicamente afirma: “por causa do pecado de Israel em rejeitar Jesus, D-us rejeitou o povo judeu e elegeu um novo povo, a igreja, “o novo Israel de D-us”.

Lutero, mantenedor dessa doutrina, tentou se aproximar das comunidades judaicas ao perceber que os judeus não iriam se converter, ele se empenhou em persegui-los. No fim de sua vida ele incentivou a matança e desprezo de todos judeus que não se convertesse ao chamado “cristianismo” de Lutero. Em 1543 ele escreveu um livro chamado “Os Judeus e suas mentiras” onde ele acusa os mesmos pelo crime de ter matado o messias e por isso mereciam todo o desprezo de D-us e seus seguidores. Triste realidade!!!

Trecho do livro – Os Judeus e suas mentiras, de Martinho Lutero: “A Alemanha deve ficar livre de judeus, aos quais após serem expulsos, devem ser despojados de todo dinheiro e jóias, prata e ouro, e que fossem incendiadas suas sinagogas e escolas, suas casas derrubadas e destruídas (…), postos sob um telheiro ou estábulo como os ciganos (…), na miséria e no cativeiro assim que estes vermes venenosos se lamentassem de nós e se queixassem incessantemente a Deus”. – “Sobre os judeus e suas mentiras” de Martinho Lutero.

Espero que tenhamos um apreço pela iniciativa de Lutero mas ao mesmo tempo reconheçamos que na reforma de Lutero ainda ficaram muitos erros teológicos que precisam ser corrigidos se quisermos viver as escrituras em sua plenitude.

A Sfalsin