Virar a Outra Face

Virar a Outra Face Não Significa o Que Você Pensa

Entre os ensinamentos mais citados de Jesus, poucos alcançaram tamanha notoriedade quanto a exortação registrada em Evangelho de Mateus 5:39: 

“Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.”

 Ao longo da tradição cristã, essa passagem foi frequentemente interpretada como um chamado à passividade absoluta diante da agressão. Em muitos círculos, tornou-se sinônimo de resignação, submissão e renúncia à autodefesa. Entretanto, uma análise histórica, cultural e linguística mais rigorosa sugere que tal leitura pode ser não apenas simplificadora, mas hermeneuticamente inadequada. A questão que se impõe é a seguinte: estaria Jesus propondo uma ética de passividade, ou articulando uma forma radical de resistência não violenta inserida no contexto específico da cultura mediterrânea do primeiro século?

O Problema Hermenêutico: Quando a Tradução Apaga a Cultura. A dificuldade na interpretação de Mateus 5:39 não reside primariamente na tradução lexical das palavras, mas na tradução cultural do gesto descrito. O leitor contemporâneo, distante da estrutura social da Palestina do século I, tende a projetar categorias modernas de violência e autodefesa sobre o texto. Contudo, o ambiente social do período era estruturado por aquilo que estudiosos denominam “cultura da honra e da vergonha”. Nesse sistema, honra não era mero sentimento subjetivo, mas capital simbólico. Representava status público, reconhecimento social e legitimidade dentro da comunidade. Perder a honra significava sofrer rebaixamento público. A vergonha, por sua vez, não era experiência privada, mas exposição social. É nesse contexto que o gesto de “bater na face direita” adquire significado específico.

A Especificidade da “Face Direita”. O texto não menciona simplesmente um golpe, mas um golpe direcionado à face direita. Essa precisão é fundamental. Em uma sociedade predominantemente destra, para atingir a face direita de alguém utilizando a mão direita, o gesto mais natural seria um tapa com o dorso da mão. Tal gesto possuía conotação social clara: era um ato de humilhação, utilizado por um superior para rebaixar um inferior. Não se tratava de uma agressão física típica de confronto entre iguais, mas de um gesto simbólico destinado a afirmar hierarquia. Portanto, o cenário descrito por Jesus não é primariamente o de violência física indiscriminada, mas o de humilhação pública intencional.

Análise Lexical: στρέφω e ἄλλην. O verbo empregado no texto grego é στρέφω (strephō), no imperativo aoristo: στρέψον. O campo semântico do verbo inclui:

• girar

• voltar-se

• mudar de direção

• redirecionar

O termo não sugere imobilidade passiva, mas ação deliberada de mudança de postura. Adicionalmente, a palavra traduzida como “a outra” é ἄλλην (allēn), acusativo feminino de ἄλλος, indicando alteridade qualitativa — “outra de natureza distinta” — e não mera repetição quantitativa. Assim, a construção textual aponta menos para a ideia de “receber outro golpe” e mais para a introdução de uma resposta alternativa. A Ética da Resistência Criativa, Se considerarmos o contexto cultural e a análise lexical, o ensinamento de Jesus pode ser entendido como uma estratégia de resistência não violenta dentro de uma estrutura social opressiva. No mundo mediterrâneo antigo, diante da humilhação, as opções predominantes eram duas:

1. Retaliação violenta para restaurar a honra.

2. Submissão que confirmava a inferioridade imposta.

Jesus propõe uma terceira via. Ao “virar a outra face”, o indivíduo não revida violentamente, mas tampouco aceita a lógica da inferiorização. O gesto funciona como interrupção do roteiro esperado pelo agressor. Essa resposta expõe a injustiça do ato e desloca a dinâmica de poder, sem reproduzir o mecanismo de violência. A expressão “não resistais ao mal” também deve ser cuidadosamente examinada. O verbo utilizado, ἀντιστῆναι (resistir), pode denotar oposição violenta ou confronto militar. Assim, o ensinamento não necessariamente elimina toda forma de resistência, mas especificamente a resistência que reproduz o mesmo padrão violento. Jesus não legitima a perpetuação da injustiça; ele deslegitima a reprodução do mal como método de enfrentamento.

Teologicamente, essa passagem articula uma ética que combina três elementos centrais:

1. Rejeição da violência como instrumento de restauração da dignidade.

2. Afirmação da dignidade do oprimido.

3. Desestabilização simbólica das estruturas opressivas.

Essa ética não pode ser reduzida a fraqueza ou resignação. Trata-se de uma forma sofisticada de resistência moral. Ao recusar-se a participar da lógica da vingança, o discípulo encarna uma alternativa que aponta para a realidade do Reino de Deus, onde poder não se confunde com dominação.

Atualidade do Ensino, Embora a cultura da honra do primeiro século não seja idêntica à sociedade contemporânea, seus mecanismos simbólicos permanecem presentes. Humilhações públicas, ataques à reputação e dinâmicas de exclusão continuam operando sob novas formas, inclusive digitais. A tentação de reagir impulsivamente permanece. A instrução de Jesus continua desafiadora: resistir sem se tornar aquilo que se combate.

A leitura tradicional de “virar a outra face” como convite à passividade ignora elementos culturais e linguísticos essenciais ao texto. Uma análise mais atenta revela que Jesus não está promovendo submissão acrítica à violência, mas propondo uma forma radical de resistência ética. Trata-se de interromper o ciclo da humilhação e da retaliação mediante uma resposta que reafirma a dignidade sem reproduzir o mal. Tal interpretação não diminui a radicalidade do ensino; ao contrário, a intensifica. Pois exige não apenas coragem física, mas maturidade moral e domínio interior. É precisamente essa radicalidade que torna essa palavra, ainda hoje, tão difícil.

Autor: Adivalter Sfalsin

Série: Palavras Difíceis de Jesus – Parte 8

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Entendedo as Palavras dificeis de Jesus - Virar a outra face

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 7 “Virar a outra face”

Entendedo as Palavras dificeis de Jesus - Virar a outra face

As palavras de Jesus em Mateus 5:39, “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;”, muitas vezes são interpretadas como uma ordem passiva para aceitar a agressão sem revidar. No entanto, essa interpretação superficial ignora o contexto cultural e histórico rico em que essa frase foi dita, levando a uma compreensão distorcida da mensagem de Jesus.

Para desvendar a verdadeira essência dessa passagem, é crucial mergulharmos no mundo antigo e na cultura da honra e da vergonha que permeava a sociedade da época. Essa cultura ditava as normas sociais e as expectativas de comportamento, moldando profundamente as interações entre as pessoas.

Ao analisar as palavras de Jesus através da lente da cultura da honra e da vergonha, podemos entender sua mensagem de forma mais profunda. Jesus não estava defendendo a submissão passiva à violência, mas sim desafiando as normas sociais arraigadas que perpetuavam a vingança e a hostilidade.

Frases idiomáticas podem se tornar um verdadeiro desafio para desvendar a mensagem subjacente. Jesus as utilizava frequentemente para elucidar verdades para seus ouvintes, porém, para o leitor moderno, elas podem causar confusão quando o contexto no qual foram ditas é ignorado. Uma frase idiomática é uma expressão ou conjunto de palavras que possuem um significado figurado específico, divergindo de sua interpretação literal. Essas expressões são características de uma língua ou cultura específica e, muitas vezes, não podem ser traduzidas diretamente para outras línguas sem que se perca seu significado original. As frases idiomáticas são frequentemente utilizadas para transmitir ideias de forma mais colorida, vívida ou expressiva.

Geralmente, esse texto é referido como se fosse uma proibição à autodefesa, mas esse texto não está falando de tomar um tapa literalmente. A palavra grega usada para “face direita” é DEXIA SIAGON (δεξιὰν σιαγόνα), ou seja, um lugar de honra ou autoridade, ou seja, alguém que tenta ferir a sua honra, a sua autoridade. Quando Jesus fala em oferecer a outra face, a palavra grega é STEPSON, que quer dizer virar as costas para alguém, ou seja, dar as costas. Então, traduzindo essa expressão idiomática de Jesus, se alguém tentar ferir a sua honra, a sua autoridade, vire as costas para ele, evite conflitos, evite disputas, e não alimente o sentimento de vingança quando alguém tentar desonrar você.

Compreendendo o Contexto Cultural: Honra, Vergonha e Agressão. Na sociedade da época de Jesus, a honra era um bem precioso, definindo a posição social e o respeito de um indivíduo. A vergonha, por outro lado, era vista como uma mancha na reputação, causando humilhação e ostracismo. Essa dinâmica social moldava as relações interpessoais, onde ofensas e agressões eram frequentemente respondidas com retaliação proporcional ou até mesmo excessiva, perpetuando um ciclo de violência e vingança.

O Insulto por Trás do Tapa na Face Direita. Um aspecto crucial para entender a profundidade da instrução de Jesus é o significado do gesto de “bater na face direita”. Na cultura da honra e da vergonha predominante, um tapa com o dorso da mão era considerado um insulto grave, especialmente se direcionado à bochecha direita. Essa era a face considerada mais honrosa, pois era o lado que um guerreiro usava para proteger seu coração. Levar um tapa na bochecha direita, portanto, era um ataque direto à honra e dignidade da pessoa, um ato de humilhação pública.

Ao usar essa imagem vívida, Jesus não apenas estava falando sobre a dor física de um tapa, mas sim sobre a profunda humilhação e vergonha que tal ato infligia. Oferecer a outra face, nesse contexto, representava um desafio radical às normas sociais da época. Era um ato de recusar a vergonha imposta pelo agressor, mantendo a própria honra e dignidade através da compaixão e do perdão.

Além da Não Resistência: Quebrando o Ciclo da Vingança. O trecho que menciona Jesus vai além da mera passividade em face da agressão. Ele não está apenas dizendo que os cristãos não devem revidar fisicamente, mas sim que devem evitar a busca por vingança em qualquer forma. Em uma cultura onde a honra era defendida com unhas e dentes, a ideia de não revidar era vista como fraqueza e submissão.

No entanto, Jesus propôs um caminho alternativo: o da compaixão, do amor e da quebra do ciclo de violência. Ao oferecer a outra face, o indivíduo demonstrava força interior, recusando-se a ser dominado pela raiva e pelo desejo de retaliação.

A Relevância Atual da Mensagem de Jesus. Embora o contexto cultural da época de Jesus seja muito diferente do nosso, sua mensagem central permanece atemporal: a superação da violência através da compaixão, do perdão e do amor. Em um mundo marcado por conflitos e hostilidades, o convite de Jesus para “virar a face” nos convida a refletir sobre nossas próprias respostas à agressão e buscar caminhos alternativos para a resolução de conflitos, construindo um mundo mais pacífico e justo.

Um Convite à Transformação Interior. Em última análise, a instrução de Jesus para “virar a face” não se limita a uma mera ação física. É um convite a uma transformação interior, a uma mudança de postura diante da ofensa e da agressão. Trata-se de cultivar a compaixão, o perdão e a capacidade de superar a raiva e o ressentimento.

Ao oferecer a outra face, o indivíduo demonstra a força interior de não ser dominado pela ira e pelo desejo de vingança. Essa atitude desafia as normas sociais baseadas na honra e na vergonha, abrindo caminho para a construção de relacionamentos mais pacíficos e compassivos.

Assim, ao compreendermos o contexto cultural e a profundidade da mensagem de Jesus em Mateus 5:39, somos convidados não apenas a refletir sobre nossas próprias atitudes em face da agressão, mas também a abraçar um caminho de compaixão, perdão e amor, construindo um mundo mais justo e pacífico para todos.

Autor: Adivalter Sfalsin