Uma alianca eterna

Uma aliança eterna 

Há uma ideia curiosa, e perigosamente confortável, que muitos de nós carregamos sem jamais examiná-la com cuidado: a de que D-us ama enquanto somos razoavelmente fiéis, mas que, diante de falhas persistentes, Ele simplesmente se afasta. Não dizemos isso em voz alta; dizemos com o coração. Quando tropeçamos repetidas vezes, quando nossas orações se tornam mecânicas, quando a fé parece cansada, imaginamos que D-us, sendo perfeitamente justo, deve estar igualmente cansado de nós.

Essa ideia parece sensata porque é profundamente humana. Nós desistimos. Nós nos afastamos. Nós encerramos relações quando elas passam a custar demais. O erro começa quando supomos que D-us opera segundo a mesma lógica.

A Bíblia, no entanto, apresenta um D-us cuja fidelidade é tão radical que frequentemente nos constrange. Se quisermos entender esse ponto, precisamos abandonar abstrações e olhar para a história concreta. Poucos textos fazem isso de forma tão incisiva quanto o livro do profeta Book of Hosea. Ali, D-us não se limita a explicar Sua relação com Israel; Ele a encena. Ordena ao profeta que se case com uma mulher que será infiel. Não para romantizar a traição, mas para que o próprio profeta experimente o peso de amar alguém que não corresponde.

É difícil imaginar uma pedagogia mais desconcertante. D-us não escolhe uma metáfora elegante, mas uma vida marcada por dor real. O adultério de Gômer não é suavizado, assim como o pecado de Israel não é desculpado. Ainda assim, e aqui está o ponto decisivo, D-us não rompe a aliança. Ele se apresenta não como um juiz que cancela o contrato, mas como um marido ferido que se recusa a abandonar o vínculo.

Quando D-us diz: “Desposar-te-ei comigo para sempre” (Os 2:19), A expressão “para sempre” (לְעוֹלָם, le‘olam) não admite leitura provisória. A fidelidade Divina é apresentada como intrínseca ao próprio pacto, não como uma resposta condicional ao comportamento humano. Ele não está oferecendo uma promessa poética sujeita a revisão futura. Está afirmando algo sobre Si mesmo. O amor divino, em Oséias, não é uma reação ao bom comportamento humano; é uma decisão enraizada no caráter de D-us. Israel falha, repetidas vezes, mas a fidelidade divina não é colocada em votação.

Aqui somos forçados a distinguir duas coisas que frequentemente confundimos: contrato e aliança. Um contrato existe enquanto ambas as partes cumprem suas cláusulas. Uma aliança bíblica existe porque D-us decidiu permanecer fiel, mesmo quando a outra parte falha. Israel quebra sua parte do acordo; D-us, porém, não declara o pacto encerrado. Ele corrige, disciplina, afasta temporariamente, mas sempre com vistas à restauração. A própria Torá (Lei) já antecipava isso ao afirmar que, mesmo no exílio, D-us não rejeitaria Seu povo nem quebraria Sua aliança, “porque Eu sou o Senhor, vosso D-us” (Lv 26:44–45). Observe a lógica: a razão da fidelidade divina não está em Israel, mas em D-us.

É aqui que surge a pergunta que muitos evitam formular, talvez por medo de sua resposta. Se D-us tivesse abandonado Israel por causa de sua infidelidade, por que não faria o mesmo conosco? Se a repetição do pecado é suficiente para anular uma aliança, então nenhuma promessa divina é segura. A fé cristã se tornaria uma espécie de aposta espiritual, sustentada enquanto mantivermos um desempenho aceitável.

Paulo trata essa questão de forma direta e decisiva em Romanos 9–11, porque ela testa o próprio caráter de D-us e, portanto, a confiabilidade do evangelho. Em Romanos 11:1 ele formula a pergunta sem ambiguidades: “Teria D-us rejeitado o seu povo?” e responde: “De modo nenhum!” A expressão grega mē genoito é a negação mais enfática do Novo Testamento; não é um consolo pastoral vago, mas um princípio teológico: a hipótese de D-us ter abandonado Israel é inadmissível para a fé bíblica.

Mais adiante, Paulo fundamenta essa certeza em Romanos 11:29: “os dons e a vocação de D-us são irrevogáveis”. Esse versículo, no contexto, não se refere primariamente à Igreja, mas a Israel e à fidelidade de D-us às promessas históricas feitas aos patriarcas. O ponto de Paulo é que a permanência da aliança não depende da fidelidade de Israel, mas da fidelidade divina; não é recompensa por mérito humano, mas consequência do caráter imutável do D-us que promete e não volta atrás.

E isso não ameaça o evangelho, é exatamente o que o torna confiável para os gentios, eu e você. Se D-us pudesse revogar Sua promessa a Israel por causa da infidelidade humana, então o chamado cristão também estaria sujeito à revogação quando nós falhamos. Mas o Novo Testamento não permite essa conclusão: Paulo insiste que D-us não rejeitou Seu povo (Rm 11:1) justamente porque um D-us que desfaz Suas promessas diante da infidelidade não seria digno de confiança. Portanto, a continuidade da aliança com Israel funciona como garantia teológica de que o evangelho repousa na fidelidade de D-us, e não na constância humana.

A distinção entre disciplina e abandono também se torna crucial nesse ponto. Em Oséias, o deserto não é o lugar do esquecimento divino, mas o cenário do reencontro. D-us afasta para curar, não para descartar. O Novo Testamento retoma essa lógica ao afirmar que “o Senhor corrige a quem ama” (Hb 12:6). A correção é prova de relacionamento; o abandono seria a verdadeira condenação. Um D-us que ainda disciplina é um D-us que ainda se importa.

Essa coerência atravessa toda a Escritura. O mesmo D-us que permanece fiel a Israel é o D-us que, em Cristo, confirma Suas promessas. Paulo afirma que Jesus veio “por causa da fidelidade de D-us, para confirmar as promessas feitas aos patriarcas” (Rm 15:8). Cristo não aparece como o cancelador da antiga aliança, mas como sua revelação mais profunda. Aquilo que Oséias descreveu em termos conjugais, o evangelho revela em termos sacrificialmente concretos. Na cruz, D-us não abandona os infiéis; Ele assume o custo da infidelidade.

Negar a permanência da aliança com Israel pode parecer, à primeira vista, uma forma de exaltar a Igreja. Mas, na prática, enfraquece o próprio fundamento da fé cristã. Um D-us que descarta um povo por fracasso moral não oferece segurança alguma a outros povos igualmente falhos. A esperança cristã repousa precisamente no fato de que D-us não é como nós. Ele permanece quando falhamos, chama quando nos afastamos e restaura quando nos arrependemos.

A pergunta final, portanto, não é apenas teológica, mas existencial. Em que tipo de D-us estamos confiando? Em um que ama enquanto vale a pena, ou em um cuja fidelidade não depende do nosso desempenho? A Bíblia responde de forma consistente, do profeta Oséias ao apóstolo Paulo: confiamos em um D-us cuja fidelidade é unilateral, cuja aliança não é revogada e cujo amor não desiste. É essa fidelidade que sustenta Israel, que fundamenta a Igreja e que, em última instância, torna a fé cristã algo mais do que uma esperança frágil. É essa fidelidade que nos permite crer.

Adivalter Sfalsin