Pastos Verdejantes?
“Ele me faz repousar em pastos verdes; Ele me guia junto às águas tranquilas.” (Salmos 23:2)
Você já imaginou campos verdejantes e riachos brilhantes ao ler essas palavras? Se você é como a maioria, provavelmente visualiza colinas cobertas por uma vegetação exuberante — perfeitas, serenas, abundantes. É uma imagem confortante, frequentemente reforçada por inúmeros sermões e representações artísticas. Mas será que realmente entendemos este salmo em seu contexto original? Será que foi isso que Davi quis dizer ao escrever essas palavras atemporais? Vamos nos aprofundar e explorar o significado de D-us como nosso pastor e como essa verdade pode desafiar e transformar a maneira como vivemos.
Na época de Davi, ser pastor não era a cena idílica que muitas vezes imaginamos. Longe das paisagens férteis que concebemos, o pastoreio acontecia principalmente no deserto de forma desafiadora, ou midbar em hebraico. Este não era o terreno cultivável ou exuberante que associamos ao termo “pastos verdes”, mas sim um terreno árido e acidentado. As encostas do deserto, onde os pastores guiavam seus rebanhos, eram secas, rochosas e com vegetação escassa. Esse ambiente era inóspito para a agricultura, e os pastores vagavam pelas colinas desoladas com seus rebanhos, lidando com recursos limitados em condições adversas. Os “pastos verdes” mencionados não eram vastos campos de grama abundante. Em vez disso, referiam-se a pequenos tufos de capim que cresciam esparsamente no deserto. Esses tufos surgiam devido à baixa precipitação pluvial anual da região, à umidade das brisas mediterrâneas noturnas e à condensação que se acumulava perto das rochas durante a noite. Na manhã fresca, esses tufos ficavam verdes e forneciam sustento para as ovelhas. No entanto, ao meio-dia, sob o calor escaldante do sol do deserto, grande parte dessa grama secava e murchava, deixando novamente o cenário árido.
A tarefa do pastor nesse ambiente requeria planejamento e um conhecimento profundo do terreno, essenciais para o sucesso do rebanho. Esse exercício diário de caminhar com as ovelhas criava trilhas de pastagem nas encostas — algumas delas datando dos tempos de Abraão —, que mostram como os pastores maximizavam os escassos recursos disponíveis. O pastor guiava o rebanho cuidadosamente em círculos ao redor das colinas, levando-o às áreas onde esses pequenos tufos cresciam. Era um processo lento e deliberado, garantindo que as ovelhas tivessem alimento suficiente para o momento, mas nunca em excesso.
Quando lemos “Ele me faz repousar em pastos verdes”, nossa mente ocidental frequentemente imagina abundância e permanência. Mas a realidade descrita por Davi era bem diferente. Esse contexto muda drasticamente nossa perspectiva. Em vez de imaginar uma vida de provisão abundante e sem esforço, vemos uma imagem de confiança, dependência e orientação diária. Os “pastos verdes” do Salmo não se referem a ter tudo de uma vez, mas a receber o suficiente para o momento presente.
Este entendimento desafia nossa visão sobre a provisão de D-us em nossas vidas. A cultura frequentemente valoriza o excesso e a segurança — ter o suficiente não apenas para hoje, mas para muitos anos à frente. Associamos sucesso a abundância e conforto e, às vezes, esperamos o mesmo de nosso relacionamento com D-us. Mas o deserto ensina uma lição diferente: a dependência do Pastor para a provisão diária.
O papel do pastor no deserto não era levar as ovelhas a um lugar onde pudessem se fartar e se acomodar. Em vez disso, as ovelhas seguiam o pastor passo a passo, confiando que ele as guiaria ao suficiente. A vida com D-us reflete essa relação. Ele não nos promete uma vida de abundância infinita, mas nos chama a confiar n’Ele para aquilo de que precisamos hoje. Como o maior Rabino de todos os tempos disse: “Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal.” (Mateus 6:34). Quantas vezes caímos nessa armadilha, nos preocupando com o futuro em vez de confiar em D-us para o presente? A imagem dos pastos verdes nos desafia a viver pela fé, concentrando-nos no hoje e confiando que D-us proverá o amanhã.
Essa lição é ao mesmo tempo humilhante e libertadora. Ela nos lembra que a vida com D-us não é de autossuficiência ou acumular recursos, mas de confiar no Pastor para nos guiar, mesmo em estações áridas e difíceis. A imagem apresentada pelo salmista nos convida a abandonar a ansiedade e abraçar uma fé que depende de D-us momento a momento. Essa perspectiva pode transformar a maneira como enfrentamos os desafios da vida. Estamos esperando que D-us nos coloque em uma situação de conforto e abundância sem fim? Ou estamos dispostos a segui-Lo pelo deserto, confiando que Ele proverá o suficiente para o dia de hoje — mesmo que isso não se pareça com abundância aos nossos olhos?
O Salmo 23 é mais do que um poema reconfortante; é um chamado à fé e à confiança. Quando entendemos o contexto original de “pastos verdes”, vemos que este salmo trata da dependência diária de D-us, e não de luxo ou facilidade. A imagem do deserto nos lembra que a vida com D-us envolve caminhar passo a passo, confiando n’Ele em cada momento, aprendendo a depender de Sua provisão em vez de nossos próprios planos.
Da próxima vez que você ler, “Ele me faz repousar em pastos verdes”, lembre-se: não se trata de abundância, mas de provisão para cada momento presente. Que todos nós possamos aprender a seguir nosso Pastor com confiança, confiando que Ele nos conduzirá exatamente ao que precisamos, passo a passo, dia após dia.
Adivalter Sfalsin
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