Você é de esquerda… ou de direita? (

Você é de esquerda… ou de direita?

(Eclesiastes 10:2)

A pergunta, no nosso tempo, raramente é neutra. Ela carrega consigo todo um universo de associações políticas, ideológicas e identitárias. Ser de esquerda ou de direita tornou-se uma forma de situar-se no mundo, de definir posicionamentos, de delimitar fronteiras. Ao ouvi-la, quase automaticamente, pensamos em partidos, em debates públicos, em conflitos sociais. Escolhemos um lado, ou pelo menos sentimos a pressão de fazê-lo. No entanto, há um texto antigo que utiliza exatamente essa mesma linguagem — direita e esquerda — e que, surpreendentemente, não tem qualquer relação com política. Ou, melhor dizendo, não com a política no sentido em que estamos acostumados a entender. O texto afirma: “O coração do sábio está à sua direita, mas o coração do tolo está à sua esquerda” (Eclesiastes 10:2). À primeira leitura, pode parecer que estamos diante de mais uma divisão clara, quase instintiva: direita como o lado certo, esquerda como o lado errado. Uma leitura simples, direta, aparentemente suficiente. Mas essa interpretação, embora comum, não resiste a um exame mais cuidadoso, porque projeta sobre o texto categorias modernas que simplesmente não estavam presentes quando ele foi escrito.

Para compreender o que realmente está sendo dito, é necessário fazer algo que nem sempre estamos dispostos a fazer: suspender a nossa leitura imediata e voltar ao contexto original. O significado de um texto não começa em nós, nem nas nossas associações contemporâneas, mas no ambiente em que aquelas palavras foram pronunciadas pela primeira vez. No hebraico, a palavra traduzida como “coração” é lev. E aqui já encontramos uma primeira correção importante. Para a mentalidade moderna, o coração está frequentemente ligado às emoções, aos sentimentos, às reações afetivas. Mas no pensamento hebraico, lev não é o centro das emoções; é o centro da vontade. É o lugar onde decisões são formadas, onde valores são estabelecidos, onde a direção da vida é definida. Não se trata de algo instável ou passageiro, mas de um núcleo estrutural da pessoa. É, por assim dizer, o ponto de origem das escolhas antes mesmo de se tornarem visíveis como ações.

Isso significa que o texto não está falando sobre como alguém se sente, mas sobre como alguém está orientado. O sábio, descrito pela palavra hebraica chakham, não é simplesmente alguém que possui conhecimento teórico ou intelectual. A raiz do termo aponta para alguém habilidoso, alguém que sabe lidar com a realidade de forma adequada, como um artesão que entende o material com que trabalha. Sabedoria, nesse sentido, não é acumular informações, mas saber posicionar-se corretamente diante da vida. Já o tolo, chamado de kesil, não é alguém ignorante ou incapaz. Pelo contrário, é alguém obstinado, alguém que resiste à correção, alguém que se fixa numa direção e se recusa a ajustá-la. O problema do tolo não é falta de conhecimento, mas falta de disposição para reorientar-se.

Quando chegamos às palavras “direita” (yamin) e “esquerda” (semol), a diferença entre a leitura comum e a leitura contextual torna-se ainda mais evidente. No mundo antigo, a direita era o lado da força, da honra, da prontidão para agir. Era com a mão direita que se empunhavam ferramentas, que se selavam acordos, que se transmitiam bênçãos. Estar à direita significava estar no lugar de confiança, no lugar de competência, no lugar de alinhamento com a ordem das coisas. A esquerda, por outro lado, não era necessariamente maligna. Não carregava uma condenação moral automática. Mas era o lado menos favorecido, o lado deslocado, o lado que não estava plenamente preparado. Não se trata, portanto, de uma divisão entre bem e mal, mas entre alinhamento e desalinhamento, entre estar corretamente posicionado e estar fora de posição.

E é aqui que o texto revela a sua profundidade. Ele não está interessado em classificar pessoas de acordo com comportamentos visíveis. Não pergunta o que alguém fez, nem quais decisões tomou em momentos específicos. Ele aponta para algo mais constante e mais difícil de identificar: a direção do coração. “O coração do sábio está à sua direita” significa que o centro da sua vontade está orientado de forma correta, alinhado com aquilo que é verdadeiro e durável. “O coração do tolo está à sua esquerda” indica que esse mesmo centro está deslocado, fora de alinhamento, mesmo que externamente nada pareça imediatamente errado.

Essa distinção é mais exigente do que qualquer divisão moral simplista, porque desmonta a ideia confortável de que nossos erros são apenas episódios isolados. Tendemos a pensar em falhas como acontecimentos pontuais, desvios ocasionais que não comprometem necessariamente o todo. Mas o texto sugere algo diferente: que as nossas ações são manifestações de uma orientação mais profunda. O que fazemos não surge do nada; surge da direção para a qual estamos inclinados. E essa direção, muitas vezes, opera de forma silenciosa, quase imperceptível.

Essa ideia é reforçada pelo versículo anterior, que fala de uma mosca morta que corrompe o perfume. A imagem é deliberadamente simples, quase banal, mas a implicação é profunda: algo pequeno, ao entrar no lugar errado, compromete o todo. Em seguida, o texto mostra que essa corrupção não é externa, mas interna. Está na posição do coração. E no versículo seguinte, essa desorientação se torna visível: o tolo caminha, e a sua falta de direção se revela não porque ele a anuncia, mas porque ela inevitavelmente se manifesta ao longo do caminho.

O ponto central, portanto, não é uma escolha dramática entre o bem e o mal, mas uma orientação contínua. Um desvio mínimo, quase imperceptível, pode não fazer diferença no início, mas ao longo do tempo conduz a um destino completamente diferente. Um viajante que se desvia apenas um grau da rota dificilmente perceberá a diferença nos primeiros passos, mas, ao final da jornada, estará em um lugar totalmente distinto. O mesmo ocorre com o coração. Ele não aponta apenas nos grandes momentos de decisão; aponta constantemente, nas pequenas inclinações, nas preferências silenciosas, nas escolhas que ninguém observa.

E talvez seja por isso que o texto não nos confronta com acusações diretas, mas com uma pergunta implícita. Não pergunta se somos bons ou maus, nem se acertamos ou erramos. Pergunta algo mais fundamental: para onde estamos orientados? Porque, no fim, não somos conduzidos apenas pelas ideias que afirmamos defender, mas pela direção para a qual o nosso coração, esse centro silencioso da vontade, está continuamente apontando. E essa é uma questão que não pode ser respondida com facilidade, nem com slogans, nem com posicionamentos externos. Ela exige algo mais raro: atenção, honestidade e disposição para reconhecer que, muitas vezes, o maior perigo não está nas escolhas evidentes, mas na direção quase invisível que determina todas elas.

Adivalter Sfalsin