“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.” (Mateus 5:20)
Há afirmações de Jesus que não apenas instruem, mas desestabilizam profundamente as nossas categorias mentais. Esta é uma delas. À primeira vista, suas palavras parecem impor uma exigência quase impossível. Os escribas e fariseus eram, em seu tempo, o padrão máximo de rigor religioso. Dedicavam-se à Lei com precisão, disciplina e zelo incomparáveis. Se alguém representava a fidelidade espiritual, eram eles. E, no entanto, Jesus declara que essa justiça, aparentemente exemplar, não é suficiente. A reação imediata diante desse texto costuma ser de perplexidade. Se nem os mais religiosos alcançavam o padrão exigido, que esperança restaria aos demais? A conclusão apressada, e perigosamente comum, é imaginar que Jesus estaria elevando ainda mais o nível de exigência: mais regras, mais esforço, mais desempenho espiritual. Contudo, essa leitura entra em conflito direto com uma das verdades mais centrais das Escrituras, a de que a salvação não é conquistada por mérito, mas recebida como graça. Como afirma o apóstolo Paulo: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de D-us. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8–9).
Diante dessa aparente tensão, torna-se evidente que há algo mais profundo em jogo. Como frequentemente ocorre nos ensinamentos de Jesus, a chave para a compreensão não está na superfície das palavras, mas no seu contexto e nas camadas de significado que elas carregam. No caso de Mateus 5:20, duas expressões são fundamentais: “justiça” e “reino dos céus”. No contexto judaico do período do Segundo Templo, a palavra traduzida como “justiça” remete ao conceito hebraico de tsedaká. Trata-se de um termo rico e multifacetado. Por um lado, refere-se à própria justiça de D-us, Sua fidelidade, Sua ação salvadora em favor do Seu povo. Por outro, passou a designar também as práticas de justiça humana, especialmente atos de caridade, generosidade e devoção religiosa. Para os fariseus, essa dimensão prática era central. A vida espiritual se organizava em torno de três pilares: oração, jejum e esmolas. A tsedaká, nesse sentido, tornava-se visível, mensurável, observável. No entanto, é precisamente aqui que Jesus introduz uma ruptura. O problema não estava nas práticas em si, mas na confiança depositada nelas. A justiça dos fariseus era, em grande medida, externa, uma expressão visível de devoção que, muitas vezes, não correspondia a uma transformação interior. O próprio Jesus denuncia essa desconexão em outro momento: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque limpais o exterior do copo e do prato, mas por dentro estais cheios de rapina e intemperança” (Mateus 23:25). A aparência de justiça escondia um vazio interior.
A segunda expressão-chave, “reino dos céus”, também exige atenção. Longe de se referir apenas a um destino futuro após a morte, essa expressão, no Evangelho de Mateus, frequentemente aponta para uma realidade presente, o governo de D-us já em ação, a comunidade messiânica que vive sob Sua autoridade. Entrar no reino, portanto, não é apenas uma questão de localização futura, mas de participação atual em uma nova realidade espiritual. Com essas duas chaves em mãos, a declaração de Jesus começa a revelar sua verdadeira profundidade. Ele não está exigindo uma justiça maior em quantidade, mas uma justiça diferente em natureza. Trata-se de um contraste entre dois tipos de justiça: uma baseada no esforço humano e outra que nasce da relação com D-us.
O apóstolo Paulo, escrevendo anos depois, articula essa mesma distinção com clareza: “Porquanto, não conhecendo a justiça de D-us e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de D-us” (Romanos 10:3). De um lado, está a tentativa humana de construir mérito; do outro, a disposição de receber aquilo que D-us oferece gratuitamente. Essa inversão é decisiva. A justiça que excede a dos fariseus não é alcançada por meio de maior rigor religioso, mas por meio de uma transformação interior que começa com a fé. Não se trata de fazer mais, mas de confiar de forma diferente. O foco deixa de ser o desempenho e passa a ser a dependência. Como já antecipava o profeta Ezequiel: “Dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo” (Ezequiel 36:26). A mudança verdadeira não é superficial; ela brota de dentro. Isso não significa que as obras perdem valor. Pelo contrário, elas assumem o seu lugar correto. Como escreve Tiago: “A fé, se não tiver obras, é morta em si mesma” (Tiago 2:17). No entanto, a ordem dos fatores é fundamental. As obras não são a causa da salvação, mas sua consequência. Não somos aceitos por D-us porque fazemos o bem; fazemos o bem porque fomos alcançados por Sua graça. A justiça que excede, portanto, não é uma escalada mais exigente rumo a D-us, mas um convite a abandonar a ilusão da autossuficiência. É um chamado à humildade. Como afirma a Escritura: “D-us resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tiago 4:6). O caminho não é subir mais alto, mas descer — descer do orgulho, da confiança em si mesmo, da necessidade de provar valor.
Nesse sentido, as palavras de Jesus deixam de ser um peso e se tornam um convite libertador. Ele não está impondo um padrão inalcançável, mas revelando que o caminho baseado no mérito sempre foi, desde o início, insuficiente. A verdadeira justiça não se constrói; ela se recebe. E isso nos conduz a uma pergunta inevitável, que ultrapassa o campo da teoria e alcança a prática da vida diária: em que temos confiado? Na nossa disciplina, nas nossas boas intenções, na nossa aparência espiritual? Ou na justiça que vem de D-us, não como recompensa, mas como dom?
A resposta a essa pergunta redefine não apenas a nossa compreensão teológica, mas a própria maneira como vivemos
Adivalter Sfalsin