A Trombeta e o Caminho
Marcos 16 e Mateus 28 sob a luz da missão
Há algo de profundamente humano na nossa tendência de simplificar aquilo que é, por natureza, rico e multifacetado. Gostamos de fórmulas. Gostamos de resumos. Gostamos de transformar mistérios vivos em esquemas organizados. E assim, quando falamos da chamada “Grande Comissão”, frequentemente a comprimimos numa única frase: “Ide e fazei discípulos”.
Mas as Escrituras, como quase sempre, resistem à nossa pressa.
Quando abrimos o Evangelho de Marcos e o Evangelho de Mateus, descobrimos que a missão final confiada aos discípulos não é apresentada como um monólogo uniforme, mas como duas vozes que, embora harmoniosas, possuem timbres distintos. Marcos não soa como Mateus. E Mateus não ecoa Marcos.
Talvez devêssemos começar reconhecendo que isso não é um problema a ser resolvido, mas um presente a ser recebido.
Marcos escreve como quem toca uma trombeta numa colina ventosa. Seu Evangelho é rápido, quase ofegante. A narrativa se move como se o tempo estivesse comprimido. Milagres surgem com a força de relâmpagos. Conflitos se acumulam. A cruz aproxima-se com inevitável gravidade. E então, ao final, lemos:
“Ide por todo o mundo e proclamai o evangelho a toda a criação.”
(Marcos 16:15)
Não há discurso prolongado. Não há instruções detalhadas sobre métodos. Há um imperativo que soa como ordem militar.
O verbo grego central — κηρύξατε — não é delicado. Ele não sugere conversa tranquila ao redor de uma mesa. Ele remete ao arauto que entra na praça pública e declara algo que não lhe pertence. O arauto não pede permissão para ajustar a mensagem ao gosto da multidão. Ele anuncia.
É como se Marcos nos lembrasse que o evangelho não começou como uma reflexão privada, mas como uma proclamação ousada.
E então nos voltamos para Mateus. Em Mateus, o tom muda. O Cristo ressuscitado não apenas envia; Ele estrutura. Lemos:
“Portanto, indo, fazei discípulos de todas as nações…”
(Mateus 28:19)
O verbo aqui não é “proclamai”, mas μαθητεύσατε — “fazei discípulos”. A ênfase desloca-se do anúncio inicial para o processo contínuo. O discipulado não é um instante, mas um caminho. Ele envolve batismo, ensino, obediência. Ele exige tempo.
Se Marcos soa como trombeta, Mateus parece mais um arquiteto desenhando uma casa.
Não se trata de contradição, mas de profundidade. Marcos descreve o momento em que a porta é aberta. Mateus descreve o que acontece depois que alguém atravessa essa porta. Talvez possamos imaginar dois erros igualmente possíveis.
O primeiro erro seria ler apenas Marcos. Nesse caso, poderíamos concluir que a missão consiste meramente em falar, quanto mais rápido e para mais pessoas, melhor. A ênfase estaria na quantidade do anúncio. O perigo seria transformar o evangelho em algo que ecoa alto, mas não cria raízes.
O segundo erro seria ler apenas Mateus. Nesse cenário, poderíamos tornar-nos tão preocupados com processos, estruturas e acompanhamento que esqueceríamos a urgência da proclamação. O evangelho poderia tornar-se um projeto interno, cuidadosamente cultivado, mas raramente anunciado com ousadia.
Ambos os extremos empobrecem a missão.
Há ainda um detalhe que merece atenção: o alcance da mensagem. Mateus fala em “todas as nações”. Marcos fala em “toda a criação”.
A diferença é sutil, mas sugestiva. Mateus pensa em povos, etnias, comunidades humanas. Marcos amplia o horizonte para algo quase cósmico. “Toda a criação” sugere que o evangelho não diz respeito apenas à reorganização de grupos religiosos, mas à restauração do mundo ferido. Em Marcos, o Reino confronta demônios, doenças e morte. Não é apenas um sistema de ideias; é poder que invade a realidade.
Talvez por isso o texto mencione sinais que acompanham os que creem. Não como espetáculo, mas como confirmação. Onde o Reino é anunciado, algo acontece. A proclamação não é vazia.
Mas voltemos à diferença essencial.
Marcos enfatiza o momento da decisão. “Quem crer… será salvo.” O anúncio cria crise. Ele divide. Ele exige resposta.
Mateus enfatiza o amadurecimento. “Ensinando-os a guardar…” O discipulado forma caráter. Ele constrói hábitos. Ele transforma desejos.
Marcos trata da conversão como porta.
Mateus trata da conversão como início de jornada.
E talvez seja aqui que o equilíbrio se torna mais precioso.
Vivemos numa época que aprecia slogans, mas desconfia de processos longos. Ao mesmo tempo, apreciamos profundidade, mas evitamos declarações firmes. Oscilamos entre falar demais sem acompanhar, ou acompanhar indefinidamente sem proclamar.
As duas vozes dos Evangelhos nos corrigem.
Marcos nos lembra que o evangelho deve ser anunciado. Não sussurrado como opinião pessoal, mas proclamado como verdade que não depende de nossa aprovação.
Mateus nos lembra que a fé não floresce num único momento de entusiasmo. Ela precisa de ensino. Precisa de comunidade. Precisa de obediência concreta.
Se retirarmos a trombeta, a casa nunca será habitada.
Se retirarmos a casa, a trombeta ecoará no vazio.
Há também algo profundamente consolador na promessa final de Mateus: “E eis que estou convosco todos os dias.” O anúncio pode parecer assustador. O discipulado pode parecer exaustivo. Mas ambos são sustentados pela presença daquele que envia.
Marcos termina com movimento. Mateus termina com companhia.
E talvez essa seja a imagem mais completa da missão: um povo que caminha pelo mundo anunciando uma boa notícia, enquanto aprende, passo a passo, a viver sob o senhorio daquele que caminha com eles.
Não precisamos escolher entre proclamar e discipular. Precisamos lembrar que a missão começa com voz e continua com vida.
A trombeta chama.
O caminho permanece aberto.
Adivalter Sfalsin