Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 6
Moradas no Céu
Há frases de Jesus que, de tão familiares, corremos o risco de não mais ouvi-las. Elas se acomodam em nossa memória como um móvel antigo na sala: sabemos que está ali, mas raramente paramos para examiná-lo de perto. “Na casa de meu Pai há muitas moradas” é uma dessas frases. Tão repetida em funerais, consolos e hinos, que quase se tornou um lugar-comum da fé cristã. Ainda assim, por muitos anos, confesso que ela me intrigou profundamente.Que tipo de morada seria essa? Uma casa? Um quarto? Uma mansão celestial? E, sobretudo, como conciliar a ideia de uma “casa”, algo concreto, delimitado, material, com o céu, que geralmente imaginamos como espiritual, etéreo e não físico? Talvez o problema não estivesse na promessa de Jesus, mas nas lentes com que aprendemos a lê-la.
Vivemos, quase sem perceber, sob a herança de uma mentalidade que separa radicalmente o espiritual do material. Para nós, o céu costuma ser o “lugar das coisas boas”, enquanto a terra seria o palco provisório das coisas ruins. O corpo é visto como um invólucro descartável; a matéria, como um mal necessário; e a salvação, como uma fuga bem-sucedida deste mundo para outro melhor. Essa forma de pensar não nasceu nas Escrituras hebraicas, mas no mundo greco-romano, profundamente dualista. Jesus, porém, não pensava assim. Quando Ele diz: “Na casa de meu Pai há muitas moradas”, está falando como um judeu do primeiro século, imerso numa cosmovisão que não separava céu e terra como compartimentos rivais, mas os via como realidades destinadas, um dia, a se encontrar plenamente. Isso muda tudo.
A palavra traduzida por “casa” no texto grego é oikia, termo que não se limita a uma construção física. Pode significar lar, família, ambiente de pertencimento. É o tipo de palavra que aponta menos para paredes e telhados, e mais para vínculos. Em hebraico, a ideia correspondente é bayit, que igualmente pode significar casa ou família. Não é difícil perceber que Jesus não está descrevendo um condomínio celestial, mas algo muito mais pessoal.
Já a palavra “moradas” (monē) aparece pouquíssimas vezes no Novo Testamento, apenas duas. E isso, por si só, deveria nos tornar cautelosos antes de construir doutrinas inteiras sobre imóveis celestiais. O curioso é que a outra ocorrência da palavra está no mesmo capítulo, alguns versículos adiante. Jesus diz: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada”.
Aqui, qualquer ideia de arquitetura literal simplesmente desmorona. Deus não está procurando um endereço no céu, nem um quarto para descansar. Ele está falando de presença, de comunhão, de relacionamento. A “morada” não é um espaço geográfico, mas um espaço relacional.
Isso nos leva a um ponto essencial: desde o início da história bíblica, Deus não se apresenta como alguém distante, satisfeito em observar o mundo de longe. Pelo contrário, Ele é um Deus que se aproxima, que caminha, que habita. No Éden, é descrito como aquele que “andava pelo jardim”. No deserto, pede a Israel que construa um miškān, um tabernáculo, não porque precisasse de abrigo, mas para “habitar no meio deles”. A intenção nunca foi o edifício em si, mas o relacionamento que ele simbolizava.
O tabernáculo, e mais tarde o templo, não existiam para manter Deus confinado, mas para lembrar o povo de que Ele desejava estar próximo. Eram sinais visíveis de uma realidade invisível: Deus escolhe viver com o seu povo.
Quando chegamos ao Novo Testamento, essa lógica não é abandonada, ela é radicalizada. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós.” A mesma ideia de habitação reaparece, agora não mais em tendas ou templos, mas em um corpo humano. Deus não apenas visita; Ele assume nossa condição. Não apenas se aproxima; Ele se envolve.
Se lermos João 14 com atenção, perceberemos que Jesus não está tentando satisfazer a curiosidade dos discípulos sobre o “além”. Ele está preparando seus corações para uma ausência física iminente, assegurando-lhes que essa ausência não significaria abandono. O centro do capítulo não é o destino pós-morte, mas a continuidade do relacionamento: amar, obedecer, permanecer, habitar.
A pergunta, então, talvez não seja “onde ficarei depois que morrer?”, mas “com quem estou aprendendo a viver agora?”. Ter uma mansão no céu é uma imagem reconfortante, sem dúvida, mas não é o cerne da promessa. O cerne é pertencer à casa do Pai, e casa, nas Escrituras, sempre foi mais sobre pessoas do que sobre lugares.
Curiosamente, o movimento da história bíblica nunca é o de almas subindo para escapar da terra, mas o de Deus descendo para restaurá-la. O clímax do Apocalipse não é a humanidade abandonando o mundo, mas a Nova Jerusalém descendo do céu. O destino final não é uma eternidade flutuando longe da criação, mas uma criação renovada, reconciliada, finalmente cheia da presença de Deus.
Talvez tenhamos entendido tudo ao contrário. Talvez o céu não seja o lugar para onde vamos morar, mas a realidade que vem habitar conosco.
Nada disso diminui a esperança cristã, pelo contrário, a torna mais concreta, mais robusta, mais enraizada na história. Não esperamos escapar do mundo, mas vê-lo curado. Não aguardamos apenas um endereço futuro, mas um relacionamento que começa agora e atravessa a morte sem ser interrompido.
Jesus não estava oferecendo chaves de mansões, mas convidando seus discípulos a viverem como membros da casa do Pai. E isso, convenhamos, é muito mais exigente, e muito mais belo.
A. Sfalsin