Fundo da Agulha

Camelo e o fundo da agulha: Não é literal

Entendendo as Palavras Difíceis de Jesus

O camelo pelo fundo de uma agulha

Há ensinamentos de Jesus que confortam.

Há outros que inquietam.

E há aqueles que, se levados a sério, desmontam silenciosamente as estruturas nas quais construímos nossa segurança.

Entre estes últimos estão Suas palavras em Mateus 19:23–24:

“Em verdade vos digo que é difícil para um rico entrar no Reino dos céus. E ainda vos digo: é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de D-us.”

Poucas frases foram tão repetidas e, ao mesmo tempo, tão mal compreendidas.

A leitura mais comum imagina um camelo tentando atravessar o minúsculo orifício de uma agulha de costura. A conclusão parece óbvia: trata-se de algo fisicamente impossível; logo, o ensino seria uma forma extrema de dizer que o rico está condenado. Mas interpretações apressadas costumam revelar mais sobre nossa impaciência do que sobre o texto em si.

Jesus não falava para confundir, mas para revelar. Quando utilizava imagens fortes, não o fazia para encerrar o pensamento, e sim para iniciá-lo.

O erro dessa leitura literal não está apenas na imagem exagerada, mas no que ela ignora. Jesus nunca falou de forma abstrata. Suas parábolas e metáforas nasciam da vida real, do cotidiano, de cenas conhecidas por seus ouvintes. Ele ensinava a partir daquilo que as pessoas viam, tocavam e experimentavam todos os dias.

Na antiguidade, as cidades possuíam grandes portões, fechados à noite por segurança. Quando isso acontecia, havia passagens estreitas por onde apenas pedestres podiam entrar, sem carga, sem animais, em posição baixa. A travessia exigia que tudo fosse deixado para trás. Um camelo, para passar por ali, teria de ser completamente descarregado e forçado a se curvar. Seria desconfortável, humilhante, difícil, mas não impossível.

E aqui chegamos ao ponto central.

Jesus não estava afirmando que os ricos estão automaticamente excluídos do Reino de D-us. Ele estava dizendo algo muito mais profundo e muito mais perturbador: ninguém entra no Reino carregando aquilo que acredita ser sua segurança.

A dificuldade não é a riqueza. A dificuldade é o que a riqueza faz com o coração humano.

Todo ser humano precisa de algo em que confiar. Quando não confiamos em D-us, acabamos confiando em outra coisa: dinheiro, status, controle, reputação, poder, inteligência, previsibilidade. A riqueza é especialmente perigosa porque funciona muito bem como substituto espiritual. Ela resolve problemas reais, oferece conforto imediato e cria a sensação de autonomia. E é justamente por isso que ela engana tão facilmente.

O rico não confia em D-us com mais dificuldade porque seja moralmente pior, mas porque tem mais coisas das quais precisa se desapegar. Quanto maior a carga, mais difícil se curvar. Quanto maior a ilusão de autossuficiência, mais estreita parece a porta.

O problema, portanto, não está no que se possui, mas no que se acredita não poder perder.

Jesus não ensina que os bens materiais são maus em si. Ele ensina que são péssimos senhores. Quando ocupam o lugar da confiança, tornam-se um fardo espiritual. Transformam-se na carga que impede o camelo de atravessar a passagem estreita.

E aqui, talvez, esteja a parte mais desconfortável desse ensino: todos somos ricos em alguma coisa.

Alguns em dinheiro.

Outros em orgulho.

Outros em controle moral.

Outros em certezas intelectuais.

Outros em imagem, status ou aprovação.

Todos nós carregamos algo que preferiríamos não soltar.

O Reino de D-us, porém, não se negocia. Ele não se adapta às nossas cargas; somos nós que precisamos nos adaptar a ele. A porta é estreita não porque D-us deseja excluir, mas porque o Reino é incompatível com a autossuficiência. Ele exige uma postura que nos custa caro: humildade.

Humildade, aqui, não é pensar mal de si mesmo, mas pensar menos em si mesmo. É reconhecer que tudo o que temos, inclusive aquilo que chamamos de mérito, é insuficiente como fundamento último da vida. É dobrar o pescoço, ajoelhar-se e admitir que não somos o centro do universo.

Assim como o camelo precisa ser esvaziado e forçado a se curvar para atravessar a passagem estreita, também nós precisamos nos despir da ilusão de controle. Precisamos aceitar o desconforto de depender de D-us. Precisamos renunciar à fantasia de que podemos atravessar o Reino do mesmo jeito que atravessamos o mundo.

O ensino de Jesus, longe de ser uma condenação aos ricos, é um convite radical à liberdade. Aquele que solta a carga descobre que ela nunca foi proteção; era peso. Aquele que se curva descobre que a verdadeira dignidade nasce da rendição.

No fim, a metáfora do camelo nos revela algo essencial sobre o Reino de D-us: não entram os fortes, entram os rendidos. Não entram os cheios, entram os vazios. Não entram os que se apoiam no que possuem, mas os que confiam em Quem os chama.

A verdadeira riqueza, portanto, não está no que acumulamos, mas no que estamos dispostos a entregar. E a verdadeira pobreza não é a falta de bens, mas a incapacidade de se curvar.

A porta continua estreita.

Mas continua aberta.

E atravessam por ela aqueles que, mesmo feridos pelo desconforto da renúncia, preferem entrar no Reino de D-us de joelhos a permanecer do lado de fora de pé.

Autor: Adivalter Sfalsin