Fazei Discípulos

A Grande Comissão e o Desfazer de Babel

Há textos que, de tão repetidos, se tornam invisíveis aos nossos olhos. Nós os citamos com facilidade, os transformamos em lema, os comprimimos em três ou quatro verbos rápidos — “ide, pregai, batizai, ensinai” — e, sem perceber, simplificamos aquilo que o próprio texto constrói com densidade e cuidado. Mateus 28:19–20 é um desses casos. A chamada Grande Comissão costuma ser lida como um chamado urgente à movimentação, quase como se o centro fosse o deslocamento geográfico. Mas quando voltamos ao grego, quando observamos a estrutura da frase e o campo semântico das palavras usadas, descobrimos algo mais profundo, mais orgânico e, acima de tudo, mais paciente. O centro não é simplesmente ir; o centro é formar discípulos. E essa diferença muda tudo.

O texto grego apresenta um verbo principal que carrega o peso da ordem: μαθητεύσατε (mathēteúsate), “fazei discípulos”. Esse é o imperativo. Ao redor dele orbitam particípios que explicam como essa ordem se concretiza. O primeiro é πορευθέντες, “indo” ou “tendo ido”. Aqui já há uma correção importante: “ide” não é o eixo da frase; é um pressuposto circunstancial. O foco não é o ato de viajar como fim em si mesmo, mas o que acontece enquanto se vai. É como se o texto dissesse: “à medida que vocês forem”, “no caminho”, “onde estiverem”. A missão não é turismo religioso, nem expansão territorial vazia. É atividade relacional, formativa, que inevitavelmente exigirá movimento porque o alvo não está confinado a um único povo.

Em seguida aparecem dois particípios no presente: βαπτίζοντες, “batizando”, e διδάσκοντες, “ensinando”. O aspecto presente sugere continuidade, processo, característica habitual. Discipulado, portanto, não é um evento pontual encerrado numa decisão emocional; é trajetória sustentada por marcos objetivos e prática constante. O batismo marca publicamente a identidade; o ensino sustenta a formação ao longo do tempo. O texto não permite reduzir a fé a um instante. Ele a define como caminho.

Quando Mateus escreve μαθητεύσατε πάντα τὰ ἔθνη, literalmente “fazei discípulos todas as nações”, surge a questão da preposição em português: “em” todas as nações ou “de” todas as nações? No grego, “todas as nações” está no acusativo como objeto direto do verbo. A ênfase não é território, mas povos. O sentido mais fiel é “fazei discípulos dentre todas as nações” ou “de todos os povos”. Aqui entra o termo ἔθνη, que não corresponde ao conceito moderno de Estado-nação com fronteiras e passaporte. Refere-se a povos, etnias, grupos humanos. A comissão, então, não é meramente geográfica; é a abertura radical do povo de D-us para além de Israel, a expansão do “nós”. O que antes estava concentrado agora se alarga.

É nesse ponto que a conexão com Babel se torna teologicamente luminosa. Em Gênesis 11, a humanidade se une para exaltar a si mesma; a consequência é dispersão, confusão de línguas, fragmentação. A Grande Comissão não apaga as línguas nem uniformiza culturas, mas convoca todos os povos a uma unidade que não nasce da arrogância humana, e sim da obediência ao Rei. Babel produz incomunicabilidade; a comissão convoca para comunhão. Babel centraliza o nome humano; a comissão introduz “para dentro do nome” do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Se Babel é dispersão por orgulho, a comissão é reunião por fidelidade. Não é uniformização cultural; é comunhão de lealdade.

O verbo μαθητεύω aprofunda essa visão. Ele não significa apenas “ensinar algo”, mas “tornar alguém discípulo”, isto é, aprendiz vinculado a um mestre. O discípulo não é consumidor de informação religiosa; é alguém que passa a caminhar num caminho, que aprende por convivência, observação, correção e prática. Discipulado envolve mesa, estrada, conflito, perdão, repetição. Envolve ver como o mestre responde sob pressão, como trata o fraco, como lida com poder e dinheiro. É formação de caráter, não mera transmissão de dados. Por isso o texto especifica: “ensinando-os a guardar” (τηρεῖν). O ensino tem alvo moral. Não é apenas saber; é obedecer, preservar, viver. A meta não é erudição religiosa, mas fidelidade concreta.

Quando o texto acrescenta “tudo quanto vos ordenei”, amplia ainda mais o escopo. Não é discipulado seletivo, onde cada um escolhe o que combina com sua personalidade e ignora o que confronta sua vaidade. É totalidade. Essa totalidade ecoa o Sinai. No Sinai, um povo foi formado por meio de mandamentos, identidade e vocação. Em Mateus, o Ressuscitado ordena que se ensine a guardar tudo o que Ele ordenou. É como se o Sinai se ampliasse: não mais restrito a um único povo, mas aberto a todos os povos. A comissão se torna, assim, um Sinai expandido, onde a revelação não é abolida, mas aprofundada na pessoa do Messias.

O batismo “para dentro do nome” reforça essa dimensão de identidade. Não é etiqueta social nem ritual vazio. É transição de pertencimento, juramento público de lealdade, incorporação numa nova realidade. O discípulo passa a carregar um nome maior que o seu próprio. Em contraste com a autonomia moderna que diz “minha fé é só minha”, Mateus descreve integração numa comunidade marcada por ensino e prática.

A promessa final — “eu estou convosco todos os dias, até a consumação do século” — equilibra o peso da ordem. Fazer discípulos dentre todos os povos é tarefa impossível se depender apenas da força humana. A presença prometida sustenta o processo. A missão é longa porque a formação é lenta; e a formação é possível porque a presença é constante.

Essa leitura também corrige distorções contemporâneas. Primeiro, missão não é apenas deslocamento; é formação. Segundo, discipulado não é decisão instantânea; é caminho perseverante. Terceiro, ensino não é acumular informação; é aprender a guardar. E, ao mesmo tempo, ela nos convida a revalorizar presença e convivência, a tratar pessoas e não “alvos”, e a aceitar o longo prazo como parte da fidelidade.

A Grande Comissão, portanto, não é simples slogan expansionista. É convocação paciente à formação de um povo que atravessa etnias sem apagar culturas, que desfaz Babel não por uniformização, mas por lealdade comum. É o chamado para que, enquanto vamos, tornemos pessoas aprendizes do Rei, incorporadas a um nome e formadas numa obediência que abrange “tudo”. E talvez a maior correção que esse texto nos oferece seja esta: a obra que ele descreve não cabe numa noite, nem numa campanha, nem numa estratégia de marketing. Ela exige anos, comunidade, constância. Exige vida compartilhada. E é precisamente nessa lentidão que a fidelidade se prova.

Adivalter Sfalsin

Virar a Outra Face

Virar a Outra Face Não Significa o Que Você Pensa

Entre os ensinamentos mais citados de Jesus, poucos alcançaram tamanha notoriedade quanto a exortação registrada em Evangelho de Mateus 5:39: 

“Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.”

 Ao longo da tradição cristã, essa passagem foi frequentemente interpretada como um chamado à passividade absoluta diante da agressão. Em muitos círculos, tornou-se sinônimo de resignação, submissão e renúncia à autodefesa. Entretanto, uma análise histórica, cultural e linguística mais rigorosa sugere que tal leitura pode ser não apenas simplificadora, mas hermeneuticamente inadequada. A questão que se impõe é a seguinte: estaria Jesus propondo uma ética de passividade, ou articulando uma forma radical de resistência não violenta inserida no contexto específico da cultura mediterrânea do primeiro século?

O Problema Hermenêutico: Quando a Tradução Apaga a Cultura. A dificuldade na interpretação de Mateus 5:39 não reside primariamente na tradução lexical das palavras, mas na tradução cultural do gesto descrito. O leitor contemporâneo, distante da estrutura social da Palestina do século I, tende a projetar categorias modernas de violência e autodefesa sobre o texto. Contudo, o ambiente social do período era estruturado por aquilo que estudiosos denominam “cultura da honra e da vergonha”. Nesse sistema, honra não era mero sentimento subjetivo, mas capital simbólico. Representava status público, reconhecimento social e legitimidade dentro da comunidade. Perder a honra significava sofrer rebaixamento público. A vergonha, por sua vez, não era experiência privada, mas exposição social. É nesse contexto que o gesto de “bater na face direita” adquire significado específico.

A Especificidade da “Face Direita”. O texto não menciona simplesmente um golpe, mas um golpe direcionado à face direita. Essa precisão é fundamental. Em uma sociedade predominantemente destra, para atingir a face direita de alguém utilizando a mão direita, o gesto mais natural seria um tapa com o dorso da mão. Tal gesto possuía conotação social clara: era um ato de humilhação, utilizado por um superior para rebaixar um inferior. Não se tratava de uma agressão física típica de confronto entre iguais, mas de um gesto simbólico destinado a afirmar hierarquia. Portanto, o cenário descrito por Jesus não é primariamente o de violência física indiscriminada, mas o de humilhação pública intencional.

Análise Lexical: στρέφω e ἄλλην. O verbo empregado no texto grego é στρέφω (strephō), no imperativo aoristo: στρέψον. O campo semântico do verbo inclui:

• girar

• voltar-se

• mudar de direção

• redirecionar

O termo não sugere imobilidade passiva, mas ação deliberada de mudança de postura. Adicionalmente, a palavra traduzida como “a outra” é ἄλλην (allēn), acusativo feminino de ἄλλος, indicando alteridade qualitativa — “outra de natureza distinta” — e não mera repetição quantitativa. Assim, a construção textual aponta menos para a ideia de “receber outro golpe” e mais para a introdução de uma resposta alternativa. A Ética da Resistência Criativa, Se considerarmos o contexto cultural e a análise lexical, o ensinamento de Jesus pode ser entendido como uma estratégia de resistência não violenta dentro de uma estrutura social opressiva. No mundo mediterrâneo antigo, diante da humilhação, as opções predominantes eram duas:

1. Retaliação violenta para restaurar a honra.

2. Submissão que confirmava a inferioridade imposta.

Jesus propõe uma terceira via. Ao “virar a outra face”, o indivíduo não revida violentamente, mas tampouco aceita a lógica da inferiorização. O gesto funciona como interrupção do roteiro esperado pelo agressor. Essa resposta expõe a injustiça do ato e desloca a dinâmica de poder, sem reproduzir o mecanismo de violência. A expressão “não resistais ao mal” também deve ser cuidadosamente examinada. O verbo utilizado, ἀντιστῆναι (resistir), pode denotar oposição violenta ou confronto militar. Assim, o ensinamento não necessariamente elimina toda forma de resistência, mas especificamente a resistência que reproduz o mesmo padrão violento. Jesus não legitima a perpetuação da injustiça; ele deslegitima a reprodução do mal como método de enfrentamento.

Teologicamente, essa passagem articula uma ética que combina três elementos centrais:

1. Rejeição da violência como instrumento de restauração da dignidade.

2. Afirmação da dignidade do oprimido.

3. Desestabilização simbólica das estruturas opressivas.

Essa ética não pode ser reduzida a fraqueza ou resignação. Trata-se de uma forma sofisticada de resistência moral. Ao recusar-se a participar da lógica da vingança, o discípulo encarna uma alternativa que aponta para a realidade do Reino de Deus, onde poder não se confunde com dominação.

Atualidade do Ensino, Embora a cultura da honra do primeiro século não seja idêntica à sociedade contemporânea, seus mecanismos simbólicos permanecem presentes. Humilhações públicas, ataques à reputação e dinâmicas de exclusão continuam operando sob novas formas, inclusive digitais. A tentação de reagir impulsivamente permanece. A instrução de Jesus continua desafiadora: resistir sem se tornar aquilo que se combate.

A leitura tradicional de “virar a outra face” como convite à passividade ignora elementos culturais e linguísticos essenciais ao texto. Uma análise mais atenta revela que Jesus não está promovendo submissão acrítica à violência, mas propondo uma forma radical de resistência ética. Trata-se de interromper o ciclo da humilhação e da retaliação mediante uma resposta que reafirma a dignidade sem reproduzir o mal. Tal interpretação não diminui a radicalidade do ensino; ao contrário, a intensifica. Pois exige não apenas coragem física, mas maturidade moral e domínio interior. É precisamente essa radicalidade que torna essa palavra, ainda hoje, tão difícil.

Autor: Adivalter Sfalsin

Série: Palavras Difíceis de Jesus – Parte 8

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Casas no ceus

Morada no Céu?

Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 6

Moradas no Céu

Há frases de Jesus que, de tão familiares, corremos o risco de não mais ouvi-las. Elas se acomodam em nossa memória como um móvel antigo na sala: sabemos que está ali, mas raramente paramos para examiná-lo de perto. “Na casa de meu Pai há muitas moradas” é uma dessas frases. Tão repetida em funerais, consolos e hinos, que quase se tornou um lugar-comum da fé cristã. Ainda assim, por muitos anos, confesso que ela me intrigou profundamente.Que tipo de morada seria essa? Uma casa? Um quarto? Uma mansão celestial? E, sobretudo, como conciliar a ideia de uma “casa”, algo concreto, delimitado, material, com o céu, que geralmente imaginamos como espiritual, etéreo e não físico? Talvez o problema não estivesse na promessa de Jesus, mas nas lentes com que aprendemos a lê-la.

Vivemos, quase sem perceber, sob a herança de uma mentalidade que separa radicalmente o espiritual do material. Para nós, o céu costuma ser o “lugar das coisas boas”, enquanto a terra seria o palco provisório das coisas ruins. O corpo é visto como um invólucro descartável; a matéria, como um mal necessário; e a salvação, como uma fuga bem-sucedida deste mundo para outro melhor. Essa forma de pensar não nasceu nas Escrituras hebraicas, mas no mundo greco-romano, profundamente dualista. Jesus, porém, não pensava assim. Quando Ele diz: “Na casa de meu Pai há muitas moradas”, está falando como um judeu do primeiro século, imerso numa cosmovisão que não separava céu e terra como compartimentos rivais, mas os via como realidades destinadas, um dia, a se encontrar plenamente. Isso muda tudo.

A palavra traduzida por “casa” no texto grego é oikia, termo que não se limita a uma construção física. Pode significar lar, família, ambiente de pertencimento. É o tipo de palavra que aponta menos para paredes e telhados, e mais para vínculos. Em hebraico, a ideia correspondente é bayit, que igualmente pode significar casa ou família. Não é difícil perceber que Jesus não está descrevendo um condomínio celestial, mas algo muito mais pessoal.

Já a palavra “moradas” (monē) aparece pouquíssimas vezes no Novo Testamento, apenas duas. E isso, por si só, deveria nos tornar cautelosos antes de construir doutrinas inteiras sobre imóveis celestiais. O curioso é que a outra ocorrência da palavra está no mesmo capítulo, alguns versículos adiante. Jesus diz: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada”.

Aqui, qualquer ideia de arquitetura literal simplesmente desmorona. Deus não está procurando um endereço no céu, nem um quarto para descansar. Ele está falando de presença, de comunhão, de relacionamento. A “morada” não é um espaço geográfico, mas um espaço relacional.

Isso nos leva a um ponto essencial: desde o início da história bíblica, Deus não se apresenta como alguém distante, satisfeito em observar o mundo de longe. Pelo contrário, Ele é um Deus que se aproxima, que caminha, que habita. No Éden, é descrito como aquele que “andava pelo jardim”. No deserto, pede a Israel que construa um miškān, um tabernáculo, não porque precisasse de abrigo, mas para “habitar no meio deles”. A intenção nunca foi o edifício em si, mas o relacionamento que ele simbolizava.

O tabernáculo, e mais tarde o templo, não existiam para manter Deus confinado, mas para lembrar o povo de que Ele desejava estar próximo. Eram sinais visíveis de uma realidade invisível: Deus escolhe viver com o seu povo.

Quando chegamos ao Novo Testamento, essa lógica não é abandonada, ela é radicalizada. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós.” A mesma ideia de habitação reaparece, agora não mais em tendas ou templos, mas em um corpo humano. Deus não apenas visita; Ele assume nossa condição. Não apenas se aproxima; Ele se envolve.

Se lermos João 14 com atenção, perceberemos que Jesus não está tentando satisfazer a curiosidade dos discípulos sobre o “além”. Ele está preparando seus corações para uma ausência física iminente, assegurando-lhes que essa ausência não significaria abandono. O centro do capítulo não é o destino pós-morte, mas a continuidade do relacionamento: amar, obedecer, permanecer, habitar.

A pergunta, então, talvez não seja “onde ficarei depois que morrer?”, mas “com quem estou aprendendo a viver agora?”. Ter uma mansão no céu é uma imagem reconfortante, sem dúvida, mas não é o cerne da promessa. O cerne é pertencer à casa do Pai, e casa, nas Escrituras, sempre foi mais sobre pessoas do que sobre lugares.

Curiosamente, o movimento da história bíblica nunca é o de almas subindo para escapar da terra, mas o de Deus descendo para restaurá-la. O clímax do Apocalipse não é a humanidade abandonando o mundo, mas a Nova Jerusalém descendo do céu. O destino final não é uma eternidade flutuando longe da criação, mas uma criação renovada, reconciliada, finalmente cheia da presença de Deus.

Talvez tenhamos entendido tudo ao contrário. Talvez o céu não seja o lugar para onde vamos morar, mas a realidade que vem habitar conosco.

Nada disso diminui a esperança cristã, pelo contrário, a torna mais concreta, mais robusta, mais enraizada na história. Não esperamos escapar do mundo, mas vê-lo curado. Não aguardamos apenas um endereço futuro, mas um relacionamento que começa agora e atravessa a morte sem ser interrompido.

Jesus não estava oferecendo chaves de mansões, mas convidando seus discípulos a viverem como membros da casa do Pai. E isso, convenhamos, é muito mais exigente, e muito mais belo.

A. Sfalsin

Fundo da Agulha

Camelo e o fundo da agulha: Não é literal

Entendendo as Palavras Difíceis de Jesus

O camelo pelo fundo de uma agulha

Há ensinamentos de Jesus que confortam.

Há outros que inquietam.

E há aqueles que, se levados a sério, desmontam silenciosamente as estruturas nas quais construímos nossa segurança.

Entre estes últimos estão Suas palavras em Mateus 19:23–24:

“Em verdade vos digo que é difícil para um rico entrar no Reino dos céus. E ainda vos digo: é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de D-us.”

Poucas frases foram tão repetidas e, ao mesmo tempo, tão mal compreendidas.

A leitura mais comum imagina um camelo tentando atravessar o minúsculo orifício de uma agulha de costura. A conclusão parece óbvia: trata-se de algo fisicamente impossível; logo, o ensino seria uma forma extrema de dizer que o rico está condenado. Mas interpretações apressadas costumam revelar mais sobre nossa impaciência do que sobre o texto em si.

Jesus não falava para confundir, mas para revelar. Quando utilizava imagens fortes, não o fazia para encerrar o pensamento, e sim para iniciá-lo.

O erro dessa leitura literal não está apenas na imagem exagerada, mas no que ela ignora. Jesus nunca falou de forma abstrata. Suas parábolas e metáforas nasciam da vida real, do cotidiano, de cenas conhecidas por seus ouvintes. Ele ensinava a partir daquilo que as pessoas viam, tocavam e experimentavam todos os dias.

Na antiguidade, as cidades possuíam grandes portões, fechados à noite por segurança. Quando isso acontecia, havia passagens estreitas por onde apenas pedestres podiam entrar, sem carga, sem animais, em posição baixa. A travessia exigia que tudo fosse deixado para trás. Um camelo, para passar por ali, teria de ser completamente descarregado e forçado a se curvar. Seria desconfortável, humilhante, difícil, mas não impossível.

E aqui chegamos ao ponto central.

Jesus não estava afirmando que os ricos estão automaticamente excluídos do Reino de D-us. Ele estava dizendo algo muito mais profundo e muito mais perturbador: ninguém entra no Reino carregando aquilo que acredita ser sua segurança.

A dificuldade não é a riqueza. A dificuldade é o que a riqueza faz com o coração humano.

Todo ser humano precisa de algo em que confiar. Quando não confiamos em D-us, acabamos confiando em outra coisa: dinheiro, status, controle, reputação, poder, inteligência, previsibilidade. A riqueza é especialmente perigosa porque funciona muito bem como substituto espiritual. Ela resolve problemas reais, oferece conforto imediato e cria a sensação de autonomia. E é justamente por isso que ela engana tão facilmente.

O rico não confia em D-us com mais dificuldade porque seja moralmente pior, mas porque tem mais coisas das quais precisa se desapegar. Quanto maior a carga, mais difícil se curvar. Quanto maior a ilusão de autossuficiência, mais estreita parece a porta.

O problema, portanto, não está no que se possui, mas no que se acredita não poder perder.

Jesus não ensina que os bens materiais são maus em si. Ele ensina que são péssimos senhores. Quando ocupam o lugar da confiança, tornam-se um fardo espiritual. Transformam-se na carga que impede o camelo de atravessar a passagem estreita.

E aqui, talvez, esteja a parte mais desconfortável desse ensino: todos somos ricos em alguma coisa.

Alguns em dinheiro.

Outros em orgulho.

Outros em controle moral.

Outros em certezas intelectuais.

Outros em imagem, status ou aprovação.

Todos nós carregamos algo que preferiríamos não soltar.

O Reino de D-us, porém, não se negocia. Ele não se adapta às nossas cargas; somos nós que precisamos nos adaptar a ele. A porta é estreita não porque D-us deseja excluir, mas porque o Reino é incompatível com a autossuficiência. Ele exige uma postura que nos custa caro: humildade.

Humildade, aqui, não é pensar mal de si mesmo, mas pensar menos em si mesmo. É reconhecer que tudo o que temos, inclusive aquilo que chamamos de mérito, é insuficiente como fundamento último da vida. É dobrar o pescoço, ajoelhar-se e admitir que não somos o centro do universo.

Assim como o camelo precisa ser esvaziado e forçado a se curvar para atravessar a passagem estreita, também nós precisamos nos despir da ilusão de controle. Precisamos aceitar o desconforto de depender de D-us. Precisamos renunciar à fantasia de que podemos atravessar o Reino do mesmo jeito que atravessamos o mundo.

O ensino de Jesus, longe de ser uma condenação aos ricos, é um convite radical à liberdade. Aquele que solta a carga descobre que ela nunca foi proteção; era peso. Aquele que se curva descobre que a verdadeira dignidade nasce da rendição.

No fim, a metáfora do camelo nos revela algo essencial sobre o Reino de D-us: não entram os fortes, entram os rendidos. Não entram os cheios, entram os vazios. Não entram os que se apoiam no que possuem, mas os que confiam em Quem os chama.

A verdadeira riqueza, portanto, não está no que acumulamos, mas no que estamos dispostos a entregar. E a verdadeira pobreza não é a falta de bens, mas a incapacidade de se curvar.

A porta continua estreita.

Mas continua aberta.

E atravessam por ela aqueles que, mesmo feridos pelo desconforto da renúncia, preferem entrar no Reino de D-us de joelhos a permanecer do lado de fora de pé.

Autor: Adivalter Sfalsin