Levíticos faz sentido?

Levítico faz algum sentido?

A palavra sacrifício sofreu, ao longo do tempo, um curioso empobrecimento. Na linguagem comum, passou a significar quase exclusivamente perda: abdicar de algo bom para evitar algo pior, ou sofrer agora em troca de algum benefício futuro. É uma palavra associada a esforço, dor e, muitas vezes, ressentimento. Quando alguém diz “fiz um sacrifício”, geralmente quer dizer “paguei um preço que preferia não pagar”.

Entretanto, essa não é a gramática moral da Bíblia. O sistema sacrificial do Antigo Testamento não nasce da lógica da perda, mas da lógica da aproximação. O termo hebraico korban não descreve algo que é simplesmente destruído, mas algo que é trazido para perto. Sacrificar, nesse contexto, não é afastar-se da vida, mas aprender a se aproximar de D-us de maneira ordenada, consciente e responsável.

Essa constatação muda tudo. Ela nos impede de ler Levítico como um manual arcaico de rituais sangrentos e nos obriga a enxergá-lo como aquilo que realmente é: uma pedagogia espiritual cuidadosamente construída. Os cinco sacrifícios não são redundantes, nem arbitrários. Cada um responde a um tipo específico de desordem humana, e juntos formam um caminho, quase uma escada, de restauração e comunhão.

O primeiro grande erro moderno ao lidar com esse sistema é imaginar que todo sacrifício existe para lidar com pecado. Não é verdade. Alguns lidam com culpa, outros com dano, outros com gratidão, outros com consagração. Confundir tudo isso é como tratar todas as doenças com o mesmo remédio. A Torá é mais sutil do que isso.

A Chatat, geralmente traduzida como “oferta pelo pecado”, lida sobretudo com pecados cometidos por erro, descuido ou ignorância. O ponto central aqui não é a punição do indivíduo, mas a purificação do espaço sagrado. O pecado, na visão bíblica, não é apenas uma infração legal; é uma força contaminante. Ele desorganiza, polui, distorce. O sangue da Chatat não “compra” perdão, mas purifica aquilo que foi afetado pela falha humana. Trata-se menos de pagar uma dívida e mais de restaurar uma ordem.

Já a Asham, a oferta pela culpa, nos conduz a um território muito mais desconfortável: o da reparação. Aqui lidamos com pecados intencionais que causaram dano objetivo, roubo, fraude, mentira, abuso do que é sagrado. E o princípio é inescapável: arrependimento sem restituição é incompleto. Não basta confessar; é preciso devolver. Onde houve prejuízo real, a espiritualidade que ignora o conserto concreto do erro é uma espiritualidade vazia. A Asham nos lembra que D-us leva a sério tanto o coração quanto as consequências práticas do pecado.

Esse ponto é profundamente relevante para o mundo contemporâneo. Vivemos numa cultura que valoriza o discurso do arrependimento, mas frequentemente rejeita o custo da reparação. Queremos absolvição sem responsabilidade, reconciliação sem justiça. A Torá não permite esse atalho. Ela insiste que a restauração moral passa pelo enfrentamento honesto do dano causado.

Mas nem tudo no sistema sacrificial gira em torno de falhas. A ʿOlah, o holocausto, não é oferecida para corrigir um erro específico. Ela simboliza algo mais radical: a entrega total. Tudo sobe ao altar; nada é retido. A ʿOlah reorienta a vida inteira do adorador diante de D-us. É o reconhecimento de que o problema humano não é apenas que fazemos coisas erradas, mas que muitas vezes vivemos com o centro errado. Antes de lidar com atos isolados, é preciso alinhar a direção da existência.

A Minḥah, por sua vez, leva essa consagração ao território do cotidiano. Farinha, azeite, sal, elementos comuns, frutos do trabalho humano. Não há sangue aqui. O que se oferece é o ordinário. A mensagem é clara: a vida diária também pertence a D-us. O trabalho, o sustento, o esforço silencioso de cada dia não são espiritualmente neutros. Talvez esse seja um dos sacrifícios mais difíceis para o ser humano moderno, que facilmente entrega a D-us momentos extraordinários, mas resiste em consagrar a rotina.

E então chegamos à Shelamim, a oferta de comunhão. Diferente das outras, ela culmina numa refeição compartilhada. Parte vai ao altar, parte aos sacerdotes, parte ao ofertante e sua família. Aqui não há correção de erro, mas celebração de uma relação restaurada. Shalom não significa apenas ausência de conflito, mas inteireza, harmonia, plenitude. A Shelamim é o ponto de chegada, não o ponto de partida. Comunhão verdadeira pressupõe ordem restaurada.

Essa progressão revela algo fundamental: a Bíblia nunca apresentou o sacrifício como um mecanismo mágico. Não se trata de apertar os botões certos para obter um resultado automático. Por isso, a Torá faz distinções cuidadosas entre tipos de pecado. Há pecados cometidos por fraqueza, outros por descuido, outros ainda de forma intencional, mas com arrependimento. E há o pecado chamado de “mão alta”: rebelião consciente, desafiante e persistente contra D-us. Para esse, não havia sacrifício.

Isso não significa que D-us fosse menos gracioso no Antigo Testamento. Significa, antes, que o sacrifício sempre pressupôs um coração disposto a retornar. Onde não há arrependimento, o ritual perde sentido. Nenhuma liturgia é capaz de substituir um coração que se recusa a se submeter.

Essa lógica prepara o terreno para o Novo Testamento. A obra de Cristo não surge como uma ruptura arbitrária, mas como o cumprimento pleno de tudo aquilo que o sistema sacrificial ensinava. Nele, vemos a purificação da consciência (Chatat), a reparação do dano causado pelo pecado humano (Asham), a entrega total ao Pai (ʿOlah), a santificação da vida inteira (Minḥah) e o estabelecimento da paz entre D-us e a humanidade (Shelamim).

Por isso, a cruz não é um “atalho barato”. Ela não elimina a seriedade do pecado; ela a aprofunda. Mas também não reduz a fé a medo ou barganha. O sacrifício, agora, é deslocado do altar para a existência. Não oferecemos mais animais, mas somos chamados a oferecer a nós mesmos, de forma consciente, responsável e grata.

O sacrifício hoje não é manipulação religiosa, nem moeda de troca com D-us. É a vida vivida à luz da graça: um coração que reconhece seus limites, repara o que pode ser reparado, submete sua vontade e aprende a transformar o cotidiano em adoração. Como sempre foi, D-us não busca cinzas no altar, mas verdade no íntimo.

Nesse sentido, os cinco sacrifícios do Antigo Testamento não são relíquias obsoletas. São espelhos. Eles nos perguntam, ainda hoje, se queremos apenas aliviar a culpa, ou se estamos dispostos, de fato, a nos aproximar.  

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.”

(Mateus 5:20)

Essa afirmação de Jesus pode parecer desconcertante, especialmente à primeira leitura. Os escribas e fariseus eram vistos como os mais zelosos cumpridores da Lei. Se nem eles seriam aceitos no reino dos céus, que esperança teriam os demais?

Será que Jesus está exigindo uma religiosidade ainda mais rigorosa? Mais regras? Mais perfeição moral?

Essa é uma interpretação comum, mas levanta sérias tensões com outros ensinamentos fundamentais do Novo Testamento, que afirmam que a salvação é pela graça, e não por mérito (Efésios 2:8-9).

Como, então, devemos entender essa declaração?

A resposta está na compreensão do significado original da palavra “justiça” e na expressão “reino dos céus”.

No hebraico bíblico, o termo tsedakah significava, de forma ampla, retidão, salvação e o agir fiel de D-us. Era um conceito associado não apenas à conduta humana, mas à própria intervenção salvadora de D-us em favor do seu povo.

Contudo, nos dias de Jesus, o significado de tsedakah passou a incluir também um sentido mais específico e prático: caridade ou generosidade para com os pobres. Entre os fariseus, três práticas eram vistas como pilares da vida piedosa: oração, jejum e generosidade. Dentre essas, a generosidade tornou-se, em muitos círculos, a mais importante, pois era considerada uma expressão tangível do relacionamento com D-us.

Assim, quando Jesus diz que nossa “justiça” deve exceder a dos escribas e fariseus, ele está utilizando um jogo de palavras que sua audiência entendia perfeitamente.

Em Mateus 5:20, Jesus parece usar os dois sentidos da palavra tsedakah de forma intencional:

“Porque vos digo que, se a vossa tsedakah (generosidade) não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus (tsedakah como salvação).”

Em outras palavras, Jesus está dizendo: Se vocês confiarem apenas na generosidade visível, na religiosidade exterior, como forma de obter aceitação diante de D-us, jamais entrarão no reino. A verdadeira justiça não nasce da performance, mas da confiança na salvação que vem do próprio Senhor.

Essa justiça que “excede” é aquela que vem da fé, e não das obras, como bem enfatizou o apóstolo Paulo:

“Porquanto, não conhecendo a justiça de D-us, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de D-us.”

(Romanos 10:3)

Outro elemento fundamental para compreender essa passagem é o que Jesus quer dizer por “reino dos céus”. Em Mateus, essa expressão é usada para designar o movimento iniciado por Jesus, composto por seus discípulos e seguidores, aqueles que vivem sob o reinado de D-us aqui e agora. Entrar no “reino dos céus”, portanto, não significa simplesmente “ir para o céu” após a morte, mas tornar-se parte do povo que vive sob os princípios e a autoridade do Messias.

Dessa forma, podemos parafrasear Mateus 5:20 da seguinte forma:

“Se a sua generosidade, se o seu modo de viver, não for mais profundo do que o exibido pelos fariseus, se não estiver fundamentado na confiança na salvação de D-us, vocês não poderão fazer parte do meu reino e experimentar a verdadeira justiça do Senhor.”Jesus não está pedindo mais religiosidade. Ele está convidando para um tipo completamente diferente de justiça: aquela que nasce da graça, se expressa na fé, e se manifesta em uma vida transformada.A justiça dos fariseus era visível, admirada, meticulosa, mas também era muitas vezes vazia de misericórdia e confiança real em D-us. Eles praticavam a tsedakah da generosidade, mas ignoravam a tsedakah que vem de D-us. A verdadeira justiça, segundo Jesus, é fruto de um coração rendido, humilde, que sabe que não pode se salvar, mas que é movido a amar e servir porque foi alcançado pela misericórdia divina. Essa mensagem continua relevante. Ainda hoje, é fácil cair na tentação de pensar que podemos “compensar” nossas falhas com boas obras, ou que merecemos o favor de D-us por sermos “bons cristãos”.

Mas o evangelho nos lembra: não somos salvos porque fazemos o bem. Fazemos o bem porque fomos salvos. A graça de D-us é o ponto de partida, e não a recompensa final. A justiça que excede é aquela que nasce do encontro com Jesus, que nos transforma de dentro para fora, e nos convida a confiar menos em nós mesmos e mais na bondade de D-us. Quando Jesus diz que nossa justiça deve exceder a dos fariseus, Ele não está propondo uma nova escada para o céu. Está nos chamando para descer do nosso orgulho, abandonar as aparências e confiar na justiça que só Ele pode nos dar.

Essa é a justiça que nos faz parte do reino. Essa é a justiça que salva. Essa é a justiça que transforma.

Adivalter Sfalsin