Uma questão de perspectiva

Uma questão de perspectiva

Quando abrimos a Bíblia, muitas vezes não percebemos que estamos entrando em um mundo que pensa de maneira muito diferente da nossa. Não se trata apenas de língua ou de costumes antigos, mas de algo mais profundo: uma forma distinta de enxergar a realidade, o ser humano e o próprio D-us. Ao longo das Escrituras, duas grandes civilizações se encontram e, por vezes, entram em tensão. De um lado está a herança grego-romana, tão familiar ao pensamento ocidental. Do outro, a visão hebraica, que molda a própria linguagem da Bíblia.

A tradição grego-romana tende a olhar o mundo a partir da contemplação da forma, da beleza, da harmonia e das qualidades abstratas. O ideal grego busca compreender a realidade por meio de categorias, conceitos e atributos. O pensamento hebraico, em contraste, não começa com ideias, mas com vida. Ele observa o mundo como algo vivido, experimentado e atravessado pela ação. Para o hebreu, a verdade não é apenas algo que se define, mas algo que se pratica.

Essa diferença aparece também na forma como cada cultura encara o estudo. Para os gregos, estudar era acumular conhecimento, ordenar ideias e alcançar compreensão intelectual. Para os hebreus, estudar era um ato de reverência, uma maneira de aprender a viver diante de D-us. O conhecimento não tinha como fim a contemplação, mas a obediência. Aprende-se para viver corretamente.

É nesse ambiente que surgem os escritores do Novo Testamento. Embora escrevam majoritariamente em grego, eles pensam como judeus. Suas categorias mentais são hebraicas. Suas referências são o Tanakh. Eles não estão criando uma nova história desconectada da anterior, mas continuando a mesma narrativa, agora à luz da revelação do Messias. Ignorar isso é como tentar compreender uma peça musical observando apenas as notas finais, sem conhecer o tema que a sustenta desde o início.

Essa tensão entre perspectivas continua a nos influenciar até hoje, especialmente na forma como falamos sobre D-us. Somos frequentemente ensinados a descrevê-lo por meio de atributos. Dizemos que D-us é onipotente, onisciente, eterno, imutável. Dizemos também que Ele é amor, justiça, misericórdia, santidade. Essas descrições não são falsas. O problema surge quando imaginamos que elas esgotam a maneira como D-us se revela.

A teologia sistemática organiza esses atributos com grande precisão, mas ela parte de uma pergunta humana: como podemos definir D-us? A Bíblia, no entanto, parece partir de outra pergunta: como D-us age na história e na vida das pessoas? A diferença é sutil, mas decisiva.

O pensamento grego prefere adjetivos. O hebraico prefere verbos. O grego pergunta como algo é. O hebraico pergunta o que algo faz. Imagine um dia ensolarado. O grego o descreve como belo, luminoso, agradável. O hebreu o descreve como aquilo que aquece a pele, ilumina o caminho e faz a terra produzir. Um olha para a qualidade do sol. O outro para o efeito do sol.

Quando observamos como D-us fala de Si mesmo nas Escrituras, esse padrão se torna evidente. Ele raramente se apresenta com definições abstratas. Ele se apresenta por aquilo que fez e continua fazendo. “Eu sou o Senhor vosso D-us, que vos tirei da terra do Egito.” Não é uma definição filosófica, mas um ato histórico. “Eu mato e faço viver.” “Eu firo e eu saro.” “Eu fiz o mar e a terra seca.” “Eu sou o Senhor que vos santifica.” “Eu agito o mar.” “Eu falo.” “Eu guardo o estrangeiro e sustento o órfão e a viúva.”

D-us não diz apenas quem Ele é. Ele mostra quem Ele é por meio de ações. Mesmo quando atributos aparecem, eles nunca estão desligados da prática. Sua justiça se manifesta em fazer justiça. Sua misericórdia em cuidar. Sua santidade em separar, ordenar e restaurar.

Isso nos leva a uma pergunta inevitável. Como nos relacionamos com um D-us assim? Se D-us fosse apenas um conjunto de atributos perfeitos, nossa relação com Ele seria limitada à admiração distante. Não podemos imitar a onipotência. Não podemos reproduzir a eternidade. Mas se D-us se revela por meio de ações, então Ele nos convida a imitá-lo dentro dos limites da nossa condição humana.

É aqui que muitos tropeçam na palavra santidade. Quando leem “sede santos”, entendem automaticamente perfeição absoluta. Algo inalcançável. Algo que afasta em vez de aproximar. No entanto, no hebraico bíblico, santidade não começa como um adjetivo, mas como um verbo. Qadash significa separar para um propósito. Santidade não é primeiro o que alguém é, mas o que alguém faz com sua vida.

De repente, o chamado muda de tom. D-us não está exigindo que sejamos impecáveis. Ele está nos convidando a alinhar nossa vida com Seu propósito. A nos separar do caos moral para participar da ordem que Ele estabelece no mundo.

É verdade que não podemos repetir os grandes atos cósmicos de D-us. Não podemos libertar um povo inteiro da escravidão nem dividir mares. Mas podemos agir como Ele age dentro do alcance das nossas mãos. Podemos fazer justiça ao órfão e à viúva. Podemos amar o estrangeiro. Podemos dar pão a quem tem fome e dignidade a quem foi esquecido. Podemos viver honestamente, falar a verdade, ser fiéis, rejeitar a violência, cultivar a humildade e guardar a língua do mal.

É exatamente isso que a Escritura afirma quando resume a vontade de D-us de forma tão simples quanto profunda: praticar a justiça, amar a bondade e andar humildemente com o teu D-us. O que D-us faz, Ele nos chama a refletir. O que Ele pratica, Ele nos convida a praticar.

Tiago não inventa nada novo quando diz que a religião pura consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas. Ele apenas ecoa a voz antiga da Torá. A fé bíblica nunca foi uma fuga do mundo, mas um compromisso com sua restauração.

Nosso maior desafio, portanto, não é aprender novos conceitos, mas desaprender certas lentes. Precisamos resistir à tentação de impor à Bíblia uma cosmovisão que ela não assume. Quando permitimos que o texto fale a partir de sua própria lógica, descobrimos que D-us não nos chama para uma perfeição abstrata, mas para uma fidelidade concreta. E quando essa fidelidade se torna prática, D-us deixa de ser apenas objeto de crença e passa a ser reconhecido como presença viva atuando por meio das nossas ações.

Adivalter Sfalsin