Hoje completo 55 anos. Não como quem apenas soma datas, mas como quem chega a um ponto da estrada de onde é possível enxergar o caminho percorrido com clareza e gratidão. O tempo não nos dá todas as respostas, mas nos oferece algo talvez mais precioso: perspectiva. E, com ela, a capacidade de reconhecer a fidelidade de D-us não apenas nos momentos de celebração, mas principalmente nos dias comuns, difíceis e até contraditórios. Ao olhar para trás, posso afirmar com alegria serena e sem romantizar a dor: o Senhor tem sido meu Pastor. E mesmo quando tudo parecia faltar, Ele nunca faltou.
Existe uma ideia persistente, e equivocada, de que a fé serve para nos blindar da vida. Como se confiar em D-us fosse um seguro contra fraturas emocionais, perdas irreversíveis e perguntas sem resposta. A experiência, no entanto, ensina exatamente o oposto. A fé não nos impede de cair; ela nos impede de permanecer no chão. Não elimina os impactos, mas nos dá algo melhor: resiliência, sentido e uma alegria que não depende da ausência de problemas.
Foi isso que aprendi quando recebi a notícia que mudou radicalmente minha maneira de crer. Minha primeira filha havia sido diagnosticada com uma condição irreversível, sem solução humana possível. Naquele momento, não foi apenas o futuro que ficou nebuloso. Foi a minha teologia. Aquilo que eu havia construído ao longo de décadas, com cuidado, coerência e convicção, mostrou-se frágil demais para sustentar o peso da realidade. Doutrinas bem organizadas, respostas prontas e explicações elegantes se despedaçaram como um vitral atingido por uma pedra inesperada.
E aqui surge o primeiro paradoxo: não foi D-us quem falhou. Foi a imagem simplificada que eu tinha d’Ele. Quando a teologia se quebrou, a presença permaneceu. Descobri que D-us não prometeu preservar nossos sistemas intactos, mas prometeu caminhar conosco quando eles ruem. A alegria do Senhor começou exatamente ali, não como euforia, mas como força. Não como riso constante, mas como sustentação diária.
Durante cinco anos vivi um silêncio que não escolhi. Um silêncio que não explicava, não resolvia, não respondia. Mas também não abandonava. Foi nesse período que perdi a capacidade de orar como antes. As palavras longas desapareceram. As frases elaboradas se tornaram inúteis. Restou apenas uma oração curta, repetida, quase infantil: “Me dê forças para continuar.” Sem introdução, sem justificativa, sem amém. Curiosamente, nunca orei tão pouco e nunca fui tão sustentado.
Esse é outro paradoxo profundamente libertador: D-us não exige orações sofisticadas para agir. Ele não se move pela eloquência, mas pela honestidade. Ele ouve o gemido inarticulado com a mesma atenção que ouve um salmo bem composto. A alegria do Senhor não nasce da perfeição espiritual, mas da dependência real.
Foi nesse vale que o Salmo 23 deixou de ser poesia decorativa e se tornou descrição exata da vida. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte…” O texto não diz “se eu entrar”, mas “quando eu andar”. O vale não é exceção, é parte do caminho. A promessa não é que ele será evitado, mas que não será atravessado sozinho. A alegria bíblica não é a negação do sofrimento; é a recusa em permitir que ele tenha a palavra final.
Pensei em José, vendido como escravo pelos próprios irmãos aos 17 anos. Treze longos anos se passaram antes que ele fosse exaltado aos 30 como governador do Egito. Treze anos de traição, prisão injusta e adversidade. Treze anos sem visões, sem vozes, sem sinais de que algo mudaria. Me lembrei de Abraão, que esperou treze anos no silêncio Divino entre a promessa e seu cumprimento, vivendo a tensão entre o que D-us havia dito e o que seus olhos viam.
Esses silêncios não foram vazios. Eram prelúdios de algo extraordinário. Esses homens não viveram uma fé ingênua, mas uma fé robusta, capaz de coexistir com o silêncio sem se tornar cínica.
Chesterton dizia que a alegria cristã é escandalosa porque insiste em existir mesmo quando tudo conspira contra ela. Não é alegria superficial, mas uma alegria profundamente realista. Ela olha o caos de frente e ainda assim escolhe confiar. Isso não é alienação; é coragem espiritual.
Quando minha teologia se despedaçou, percebi algo surpreendente: os cacos refletiam mais luz do que o vitral intacto. Porque agora minha confiança não estava mais na coerência das minhas ideias, mas na fidelidade d’Ele. A alegria do Senhor começou a se manifestar como força cotidiana. Não a força para resolver tudo de uma vez, mas a força suficiente para o próximo passo. E depois outro. E depois outro.
“O Senhor é meu pastor, nada me faltará.” Essa frase, tão repetida, muitas vezes é mal compreendida. No hebraico, a expressão usada é “יְהוָה רֹעִי לֹא אֶחְסָר” (Adonai ro’i, lo echsar). A palavra-chave aqui é “אֶחְסָר” (echsar), derivada da raiz חָסֵר (chaser), que significa “estar em falta”, “carecer do essencial”, “ficar incompleto”. Não se trata de abundância irrestrita ou de uma promessa de vida sem dor. O sentido é muito mais profundo: não estarei em estado de falta essencial. Nada que seja realmente necessário para cumprir o propósito de D-us me será negado.
Isso muda tudo. Durante aqueles anos, muitas coisas faltaram. Faltaram respostas. Faltou cura. Faltou compreensão. Mas o essencial nunca faltou. Não faltou presença. Não faltou sustento. Não faltou graça. Não faltou a alegria do Senhor como força diária. Essa alegria não elimina o cansaço, mas o torna suportável. Não remove a dor, mas impede que ela nos destrua.
Hoje, aos 55 anos, reconheço que há um testemunho poderoso no vale. Não apenas nas conquistas, mas nos dias em que tudo parecia quebrado. É ali que aprendemos quem D-us realmente é, não apenas quem imaginávamos que Ele fosse. Às vezes Ele nos conduz a pastos verdejantes. Outras vezes caminha conosco pelo vale. Em nenhum momento Ele se ausenta.
A verdadeira alegria de andar com D-us não está na ausência de problemas, mas na certeza da Sua presença. Não está em nunca quebrar, mas em descobrir que até os cacos podem ser redimidos. D-us não desperdiça dor. Ele a transforma. Não nos promete uma vida fácil, mas uma vida com sentido. E sentido é algo extraordinariamente poderoso. Ele transforma peso em profundidade e sofrimento em maturidade.
Se você atravessa seu próprio vale agora, saiba: você não está sozinho. Está tudo bem não estar tudo bem. Está tudo bem se sua oração for curta. Está tudo bem se alguns dias forem de riso e outros apenas de resistência. A alegria do Senhor não é frágil. Ela é firme, resiliente, insistente. Ela se recusa a ser derrotada pelas circunstâncias.
Hoje celebro 55 anos com gratidão genuína. Não porque tudo foi fácil, mas porque tudo foi sustentado. Não porque nunca quebrei, mas porque descobri que até os cacos podem ser redimidos. O Pastor continua presente. E isso basta. Isso sempre bastou.
O silêncio Divino não é o fim da história. É apenas o intervalo necessário antes de uma música mais profunda.
Adivalter Sfalsin
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