Uma alianca eterna

Uma aliança eterna 

Há uma ideia curiosa, e perigosamente confortável, que muitos de nós carregamos sem jamais examiná-la com cuidado: a de que D-us ama enquanto somos razoavelmente fiéis, mas que, diante de falhas persistentes, Ele simplesmente se afasta. Não dizemos isso em voz alta; dizemos com o coração. Quando tropeçamos repetidas vezes, quando nossas orações se tornam mecânicas, quando a fé parece cansada, imaginamos que D-us, sendo perfeitamente justo, deve estar igualmente cansado de nós.

Essa ideia parece sensata porque é profundamente humana. Nós desistimos. Nós nos afastamos. Nós encerramos relações quando elas passam a custar demais. O erro começa quando supomos que D-us opera segundo a mesma lógica.

A Bíblia, no entanto, apresenta um D-us cuja fidelidade é tão radical que frequentemente nos constrange. Se quisermos entender esse ponto, precisamos abandonar abstrações e olhar para a história concreta. Poucos textos fazem isso de forma tão incisiva quanto o livro do profeta Book of Hosea. Ali, D-us não se limita a explicar Sua relação com Israel; Ele a encena. Ordena ao profeta que se case com uma mulher que será infiel. Não para romantizar a traição, mas para que o próprio profeta experimente o peso de amar alguém que não corresponde.

É difícil imaginar uma pedagogia mais desconcertante. D-us não escolhe uma metáfora elegante, mas uma vida marcada por dor real. O adultério de Gômer não é suavizado, assim como o pecado de Israel não é desculpado. Ainda assim, e aqui está o ponto decisivo, D-us não rompe a aliança. Ele se apresenta não como um juiz que cancela o contrato, mas como um marido ferido que se recusa a abandonar o vínculo.

Quando D-us diz: “Desposar-te-ei comigo para sempre” (Os 2:19), A expressão “para sempre” (לְעוֹלָם, le‘olam) não admite leitura provisória. A fidelidade Divina é apresentada como intrínseca ao próprio pacto, não como uma resposta condicional ao comportamento humano. Ele não está oferecendo uma promessa poética sujeita a revisão futura. Está afirmando algo sobre Si mesmo. O amor divino, em Oséias, não é uma reação ao bom comportamento humano; é uma decisão enraizada no caráter de D-us. Israel falha, repetidas vezes, mas a fidelidade divina não é colocada em votação.

Aqui somos forçados a distinguir duas coisas que frequentemente confundimos: contrato e aliança. Um contrato existe enquanto ambas as partes cumprem suas cláusulas. Uma aliança bíblica existe porque D-us decidiu permanecer fiel, mesmo quando a outra parte falha. Israel quebra sua parte do acordo; D-us, porém, não declara o pacto encerrado. Ele corrige, disciplina, afasta temporariamente, mas sempre com vistas à restauração. A própria Torá (Lei) já antecipava isso ao afirmar que, mesmo no exílio, D-us não rejeitaria Seu povo nem quebraria Sua aliança, “porque Eu sou o Senhor, vosso D-us” (Lv 26:44–45). Observe a lógica: a razão da fidelidade divina não está em Israel, mas em D-us.

É aqui que surge a pergunta que muitos evitam formular, talvez por medo de sua resposta. Se D-us tivesse abandonado Israel por causa de sua infidelidade, por que não faria o mesmo conosco? Se a repetição do pecado é suficiente para anular uma aliança, então nenhuma promessa divina é segura. A fé cristã se tornaria uma espécie de aposta espiritual, sustentada enquanto mantivermos um desempenho aceitável.

Paulo trata essa questão de forma direta e decisiva em Romanos 9–11, porque ela testa o próprio caráter de D-us e, portanto, a confiabilidade do evangelho. Em Romanos 11:1 ele formula a pergunta sem ambiguidades: “Teria D-us rejeitado o seu povo?” e responde: “De modo nenhum!” A expressão grega mē genoito é a negação mais enfática do Novo Testamento; não é um consolo pastoral vago, mas um princípio teológico: a hipótese de D-us ter abandonado Israel é inadmissível para a fé bíblica.

Mais adiante, Paulo fundamenta essa certeza em Romanos 11:29: “os dons e a vocação de D-us são irrevogáveis”. Esse versículo, no contexto, não se refere primariamente à Igreja, mas a Israel e à fidelidade de D-us às promessas históricas feitas aos patriarcas. O ponto de Paulo é que a permanência da aliança não depende da fidelidade de Israel, mas da fidelidade divina; não é recompensa por mérito humano, mas consequência do caráter imutável do D-us que promete e não volta atrás.

E isso não ameaça o evangelho, é exatamente o que o torna confiável para os gentios, eu e você. Se D-us pudesse revogar Sua promessa a Israel por causa da infidelidade humana, então o chamado cristão também estaria sujeito à revogação quando nós falhamos. Mas o Novo Testamento não permite essa conclusão: Paulo insiste que D-us não rejeitou Seu povo (Rm 11:1) justamente porque um D-us que desfaz Suas promessas diante da infidelidade não seria digno de confiança. Portanto, a continuidade da aliança com Israel funciona como garantia teológica de que o evangelho repousa na fidelidade de D-us, e não na constância humana.

A distinção entre disciplina e abandono também se torna crucial nesse ponto. Em Oséias, o deserto não é o lugar do esquecimento divino, mas o cenário do reencontro. D-us afasta para curar, não para descartar. O Novo Testamento retoma essa lógica ao afirmar que “o Senhor corrige a quem ama” (Hb 12:6). A correção é prova de relacionamento; o abandono seria a verdadeira condenação. Um D-us que ainda disciplina é um D-us que ainda se importa.

Essa coerência atravessa toda a Escritura. O mesmo D-us que permanece fiel a Israel é o D-us que, em Cristo, confirma Suas promessas. Paulo afirma que Jesus veio “por causa da fidelidade de D-us, para confirmar as promessas feitas aos patriarcas” (Rm 15:8). Cristo não aparece como o cancelador da antiga aliança, mas como sua revelação mais profunda. Aquilo que Oséias descreveu em termos conjugais, o evangelho revela em termos sacrificialmente concretos. Na cruz, D-us não abandona os infiéis; Ele assume o custo da infidelidade.

Negar a permanência da aliança com Israel pode parecer, à primeira vista, uma forma de exaltar a Igreja. Mas, na prática, enfraquece o próprio fundamento da fé cristã. Um D-us que descarta um povo por fracasso moral não oferece segurança alguma a outros povos igualmente falhos. A esperança cristã repousa precisamente no fato de que D-us não é como nós. Ele permanece quando falhamos, chama quando nos afastamos e restaura quando nos arrependemos.

A pergunta final, portanto, não é apenas teológica, mas existencial. Em que tipo de D-us estamos confiando? Em um que ama enquanto vale a pena, ou em um cuja fidelidade não depende do nosso desempenho? A Bíblia responde de forma consistente, do profeta Oséias ao apóstolo Paulo: confiamos em um D-us cuja fidelidade é unilateral, cuja aliança não é revogada e cujo amor não desiste. É essa fidelidade que sustenta Israel, que fundamenta a Igreja e que, em última instância, torna a fé cristã algo mais do que uma esperança frágil. É essa fidelidade que nos permite crer.

Adivalter Sfalsin

A Question of Perspective

A Question of Perspective

When we open the Bible, we often do not realise that we are entering a world that thinks in a very different way from our own. It is not merely a matter of language or ancient customs, but something deeper: a distinct way of seeing reality, the human being, and G-d Himself. Throughout the Scriptures, two great civilisations meet and, at times, come into tension. On one side stands the Greco-Roman heritage, so familiar to Western thought. On the other, the Hebrew worldview, which shapes the very language of the Bible.

The Greco-Roman tradition tends to look at the world through contemplation of form, beauty, harmony, and abstract qualities. The Greek ideal seeks to understand reality through categories, concepts, and attributes. Hebrew thought, by contrast, does not begin with ideas, but with life. It observes the world as something lived, experienced, and shaped by action. For the Hebrew mind, truth is not merely something to be defined, but something to be practised.

This difference also appears in the way each culture approaches study. For the Greeks, studying meant accumulating knowledge, organising ideas, and achieving intellectual understanding. For the Hebrews, studying was an act of reverence — a way of learning how to live before G-d. Knowledge did not have contemplation as its ultimate goal, but obedience. One learns in order to live rightly.

It is within this environment that the writers of the New Testament emerge. Although they wrote predominantly in Greek, they thought like Jews. Their mental categories were Hebrew. Their references were the Tanakh. They were not creating a new story disconnected from the previous one, but continuing the same narrative, now in the light of the revelation of the Messiah. Ignoring this is like trying to understand a musical piece by observing only its final notes, without knowing the theme that has sustained it from the beginning.

This tension between perspectives continues to influence us today, especially in the way we speak about G-d. We are often taught to describe Him through attributes. We say that G-d is omnipotent, omniscient, eternal, immutable. We also say that He is love, justice, mercy, holiness. These descriptions are not false. The problem arises when we imagine that they exhaust the way G-d reveals Himself.

Systematic theology organises these attributes with great precision, but it begins with a human question: how can we define G-d? The Bible, however, seems to begin with a different question: how does G-d act in history and in the lives of people? The difference is subtle, but decisive.

Greek thought prefers adjectives. Hebrew thought prefers verbs. The Greek asks what something is like. The Hebrew asks what something does. Imagine a sunny day. The Greek would describe it as beautiful, bright, pleasant. The Hebrew would describe it as that which warms the skin, lights the path, and makes the land produce. One looks at the quality of the sun. The other looks at the effect of the sun.

When we observe how G-d speaks about Himself in the Scriptures, this pattern becomes evident. He rarely presents Himself through abstract definitions. He presents Himself through what He has done and continues to do. “I am the Lord your G-d, who brought you out of the land of Egypt.” This is not a philosophical definition, but a historical act. “I kill and I make alive.” “I wound and I heal.” “I made the sea and the dry land.” “I am the Lord who sanctifies you.” “I stir up the sea.” “I speak.” “I protect the foreigner and sustain the orphan and the widow.”

G-d does not merely say who He is. He shows who He is through actions. Even when attributes appear, they are never detached from practice. His justice is manifested in doing justice. His mercy in caring. His holiness in separating, ordering, and restoring.

This leads us to an inevitable question: how do we relate to a G-d like this? If G-d were merely a collection of perfect attributes, our relationship with Him would be limited to distant admiration. We cannot imitate omnipotence. We cannot reproduce eternity. But if G-d reveals Himself through actions, then He invites us to imitate Him within the limits of our human condition.

This is where many people stumble over the word holiness. When they read “be holy”, they automatically understand absolute perfection — something unattainable, something that distances rather than draws near. Yet in biblical Hebrew, holiness does not begin as an adjective, but as a verb. Qadash means to separate for a purpose. Holiness is not first about what someone is, but about what someone does with their life.

Suddenly, the call changes tone. G-d is not demanding that we be flawless. He is inviting us to align our lives with His purpose — to separate ourselves from moral chaos in order to participate in the order He establishes in the world.

It is true that we cannot repeat G-d’s great cosmic acts. We cannot free an entire people from slavery, nor divide seas. But we can act as He acts within the reach of our own hands. We can do justice to the orphan and the widow. We can love the foreigner. We can give bread to the hungry and dignity to those who have been forgotten. We can live honestly, speak the truth, be faithful, reject violence, cultivate humility, and guard our tongues from evil.

This is precisely what Scripture affirms when it summarises G-d’s will in a way that is both simple and profound: to act justly, to love kindness, and to walk humbly with your G-d. What G-d does, He calls us to reflect. What He practises, He invites us to practise.

James introduces nothing new when he says that pure religion consists in caring for orphans and widows. He is merely echoing the ancient voice of the Torah. Biblical faith has never been an escape from the world, but a commitment to its restoration.

Our greatest challenge, therefore, is not learning new concepts, but unlearning certain lenses. We must resist the temptation to impose upon the Bible a worldview it does not assume. When we allow the text to speak from within its own logic, we discover that G-d does not call us to abstract perfection, but to concrete faithfulness. And when that faithfulness becomes practice, G-d ceases to be merely an object of belief and becomes recognised as a living presence acting through our actions.

Adivalter Sfalsin

Uma questão de perspectiva

Uma questão de perspectiva

Quando abrimos a Bíblia, muitas vezes não percebemos que estamos entrando em um mundo que pensa de maneira muito diferente da nossa. Não se trata apenas de língua ou de costumes antigos, mas de algo mais profundo: uma forma distinta de enxergar a realidade, o ser humano e o próprio D-us. Ao longo das Escrituras, duas grandes civilizações se encontram e, por vezes, entram em tensão. De um lado está a herança grego-romana, tão familiar ao pensamento ocidental. Do outro, a visão hebraica, que molda a própria linguagem da Bíblia.

A tradição grego-romana tende a olhar o mundo a partir da contemplação da forma, da beleza, da harmonia e das qualidades abstratas. O ideal grego busca compreender a realidade por meio de categorias, conceitos e atributos. O pensamento hebraico, em contraste, não começa com ideias, mas com vida. Ele observa o mundo como algo vivido, experimentado e atravessado pela ação. Para o hebreu, a verdade não é apenas algo que se define, mas algo que se pratica.

Essa diferença aparece também na forma como cada cultura encara o estudo. Para os gregos, estudar era acumular conhecimento, ordenar ideias e alcançar compreensão intelectual. Para os hebreus, estudar era um ato de reverência, uma maneira de aprender a viver diante de D-us. O conhecimento não tinha como fim a contemplação, mas a obediência. Aprende-se para viver corretamente.

É nesse ambiente que surgem os escritores do Novo Testamento. Embora escrevam majoritariamente em grego, eles pensam como judeus. Suas categorias mentais são hebraicas. Suas referências são o Tanakh. Eles não estão criando uma nova história desconectada da anterior, mas continuando a mesma narrativa, agora à luz da revelação do Messias. Ignorar isso é como tentar compreender uma peça musical observando apenas as notas finais, sem conhecer o tema que a sustenta desde o início.

Essa tensão entre perspectivas continua a nos influenciar até hoje, especialmente na forma como falamos sobre D-us. Somos frequentemente ensinados a descrevê-lo por meio de atributos. Dizemos que D-us é onipotente, onisciente, eterno, imutável. Dizemos também que Ele é amor, justiça, misericórdia, santidade. Essas descrições não são falsas. O problema surge quando imaginamos que elas esgotam a maneira como D-us se revela.

A teologia sistemática organiza esses atributos com grande precisão, mas ela parte de uma pergunta humana: como podemos definir D-us? A Bíblia, no entanto, parece partir de outra pergunta: como D-us age na história e na vida das pessoas? A diferença é sutil, mas decisiva.

O pensamento grego prefere adjetivos. O hebraico prefere verbos. O grego pergunta como algo é. O hebraico pergunta o que algo faz. Imagine um dia ensolarado. O grego o descreve como belo, luminoso, agradável. O hebreu o descreve como aquilo que aquece a pele, ilumina o caminho e faz a terra produzir. Um olha para a qualidade do sol. O outro para o efeito do sol.

Quando observamos como D-us fala de Si mesmo nas Escrituras, esse padrão se torna evidente. Ele raramente se apresenta com definições abstratas. Ele se apresenta por aquilo que fez e continua fazendo. “Eu sou o Senhor vosso D-us, que vos tirei da terra do Egito.” Não é uma definição filosófica, mas um ato histórico. “Eu mato e faço viver.” “Eu firo e eu saro.” “Eu fiz o mar e a terra seca.” “Eu sou o Senhor que vos santifica.” “Eu agito o mar.” “Eu falo.” “Eu guardo o estrangeiro e sustento o órfão e a viúva.”

D-us não diz apenas quem Ele é. Ele mostra quem Ele é por meio de ações. Mesmo quando atributos aparecem, eles nunca estão desligados da prática. Sua justiça se manifesta em fazer justiça. Sua misericórdia em cuidar. Sua santidade em separar, ordenar e restaurar.

Isso nos leva a uma pergunta inevitável. Como nos relacionamos com um D-us assim? Se D-us fosse apenas um conjunto de atributos perfeitos, nossa relação com Ele seria limitada à admiração distante. Não podemos imitar a onipotência. Não podemos reproduzir a eternidade. Mas se D-us se revela por meio de ações, então Ele nos convida a imitá-lo dentro dos limites da nossa condição humana.

É aqui que muitos tropeçam na palavra santidade. Quando leem “sede santos”, entendem automaticamente perfeição absoluta. Algo inalcançável. Algo que afasta em vez de aproximar. No entanto, no hebraico bíblico, santidade não começa como um adjetivo, mas como um verbo. Qadash significa separar para um propósito. Santidade não é primeiro o que alguém é, mas o que alguém faz com sua vida.

De repente, o chamado muda de tom. D-us não está exigindo que sejamos impecáveis. Ele está nos convidando a alinhar nossa vida com Seu propósito. A nos separar do caos moral para participar da ordem que Ele estabelece no mundo.

É verdade que não podemos repetir os grandes atos cósmicos de D-us. Não podemos libertar um povo inteiro da escravidão nem dividir mares. Mas podemos agir como Ele age dentro do alcance das nossas mãos. Podemos fazer justiça ao órfão e à viúva. Podemos amar o estrangeiro. Podemos dar pão a quem tem fome e dignidade a quem foi esquecido. Podemos viver honestamente, falar a verdade, ser fiéis, rejeitar a violência, cultivar a humildade e guardar a língua do mal.

É exatamente isso que a Escritura afirma quando resume a vontade de D-us de forma tão simples quanto profunda: praticar a justiça, amar a bondade e andar humildemente com o teu D-us. O que D-us faz, Ele nos chama a refletir. O que Ele pratica, Ele nos convida a praticar.

Tiago não inventa nada novo quando diz que a religião pura consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas. Ele apenas ecoa a voz antiga da Torá. A fé bíblica nunca foi uma fuga do mundo, mas um compromisso com sua restauração.

Nosso maior desafio, portanto, não é aprender novos conceitos, mas desaprender certas lentes. Precisamos resistir à tentação de impor à Bíblia uma cosmovisão que ela não assume. Quando permitimos que o texto fale a partir de sua própria lógica, descobrimos que D-us não nos chama para uma perfeição abstrata, mas para uma fidelidade concreta. E quando essa fidelidade se torna prática, D-us deixa de ser apenas objeto de crença e passa a ser reconhecido como presença viva atuando por meio das nossas ações.

Adivalter Sfalsin

Redeemed Shards

Redeemed Shards

Today I turn fifty five. Not as someone merely adding dates to a calendar, but as one who has reached a point on the road from which the journey behind can be seen with clarity and gratitude. Time does not give us all the answers, but it offers something perhaps more precious: perspective. And with it, the ability to recognise the faithfulness of D us not only in moments of celebration, but especially in ordinary, difficult and even contradictory days. Looking back, I can say with calm joy and without romanticising pain: the Lord has been my Shepherd. And even when everything seemed to be lacking, He always been there for me.

There is a persistent and mistaken idea that faith exists to shield us from life. As if trusting D us were an insurance policy against emotional fractures, irreversible loss and unanswered questions. Experience teaches exactly the opposite. Faith does not prevent us from falling. It prevents us from remaining on the ground. It does not remove the impact, but it gives something far better: resilience, meaning and a joy that does not depend on the absence of trouble.

I learned this when I received the news that radically changed the way I believed. My first daughter had been diagnosed with an irreversible condition, with no possible human solution. In that moment, it was not only the future that became uncertain. It was my theology. What I had built over decades with care, coherence and conviction proved too fragile to carry the weight of reality. Well organised doctrines, ready answers and elegant explanations shattered like a stained glass window struck by an unexpected stone.

And here the first paradox appears. It was not D us who failed. It was the simplified image of Him that I carried. When theology broke, presence remained. I discovered that D us never promised to preserve our systems intact, but He did promise to walk with us when they collapse. The joy of the Lord began precisely there. Not as excitement, but as strength. Not as constant laughter, but as daily sustenance.

For five years I lived a silence I did not choose. A silence that did not explain, did not solve, did not answer. But it did not abandon either. During that time I lost the ability to pray as I once had. Long prayers disappeared. Carefully constructed phrases became useless. All that remained was a short prayer, repeated and almost childlike: give me strength to continue. No introduction. No justification. No amen. Strangely enough, I had never prayed so little and never been so sustained.

This is another deeply liberating paradox. D us does not require sophisticated prayers in order to act. He is not moved by eloquence, but by honesty. He hears the inarticulate groan with the same attention as a beautifully crafted psalm. The joy of the Lord does not grow out of spiritual perfection, but out of real dependence.

It was in this valley that Psalm Twenty Three ceased to be decorative poetry and became an exact description of life. Even though I walk through the valley of the shadow of death. The text does not say if I enter, but when I walk. The valley is not an exception. It is part of the path. The promise is not that it will be avoided, but that it will not be crossed alone. Biblical joy is not the denial of suffering. It is the refusal to allow suffering the final word.

I thought of Joseph, sold into slavery by his own brothers at seventeen. Thirteen long years passed before he was raised at thirty as governor of Egypt. Thirteen years of betrayal, unjust imprisonment and adversity. Thirteen years without visions, without voices, without signs that anything would change. I also remembered Abraham, who waited thirteen years in divine silence between promise and fulfilment, living with the tension between what D us had spoken and what his eyes could see. These silences were not empty. They were preludes to something extraordinary. These men did not live a naive faith, but a robust one, capable of coexisting with silence without becoming cynical.

Chesterton once said that Christian joy is scandalous because it insists on existing even when everything conspires against it. It is not superficial joy, but profoundly realistic joy. It looks chaos in the face and still chooses to trust. This is not escapism. It is spiritual courage.

When my theology shattered, I noticed something surprising. The shards reflected more light than the intact window ever had. Because my trust was no longer placed in the coherence of my ideas, but in His faithfulness. The joy of the Lord began to show itself as everyday strength. Not the strength to resolve everything at once, but the strength sufficient for the next step. And then another. And then another.

The Lord is my Shepherd, I shall not be in want. This phrase, so often repeated, is frequently misunderstood. In Hebrew, the expression used is Adonai roi lo echsar. The key word is echsar, from the root chaser, meaning to be lacking, to be deficient, to be without what is essential. It is not a promise of unrestricted abundance or a life without pain. Its meaning is far deeper. I will not be in essential lack. Nothing truly necessary to fulfil the purpose of D us will be denied to me.

This changes everything. During those years, many things were missing. Answers were missing. Healing was missing. Understanding was missing. But the essential was never missing. Presence was not missing. Sustenance was not missing. Grace was not missing. The joy of the Lord as daily strength was not missing. This joy does not eliminate weariness, but it makes it bearable. It does not remove pain, but it prevents it from destroying us.

Today, at fifty five, I recognise that there is powerful testimony in the valley. Not only in achievements, but in days when everything seemed broken. It is there that we learn who D us truly is, not merely who we imagined Him to be. Sometimes He leads us to green pastures. At other times, He walks with us through the valley. At no point does He withdraw.

The true joy of walking with D us is not found in the absence of problems, but in the certainty of His presence. It is not found in never breaking, but in discovering that even shards can be redeemed. D us does not waste pain. He transforms it. He does not promise an easy life, but a meaningful one. And meaning is extraordinarily powerful. It turns weight into depth and suffering into maturity.

If you are walking through your own valley now, know this: you are not alone. It is all right not to be all right. It is all right if your prayer is short. It is all right if some days are filled with laughter and others only with endurance. The joy of the Lord is not fragile. It is firm, resilient and persistent. It refuses to be defeated by circumstances.

Today I celebrate fifty five years with genuine gratitude. Not because everything was easy, but because everything was sustained. Not because I never broke, but because I discovered that even shards can be redeemed. The Shepherd remains present. And that is enough. It has always been enough.

Divine silence is not the end of the story. It is simply the necessary pause before a deeper music.

Adivalter Sfalsin

Cacos Redimidos

Cacos Redimidos

Hoje completo 55 anos. Não como quem apenas soma datas, mas como quem chega a um ponto da estrada de onde é possível enxergar o caminho percorrido com clareza e gratidão. O tempo não nos dá todas as respostas, mas nos oferece algo talvez mais precioso: perspectiva. E, com ela, a capacidade de reconhecer a fidelidade de D-us não apenas nos momentos de celebração, mas principalmente nos dias comuns, difíceis e até contraditórios. Ao olhar para trás, posso afirmar com alegria serena e sem romantizar a dor: o Senhor tem sido meu Pastor. E mesmo quando tudo parecia faltar, Ele nunca faltou.

Existe uma ideia persistente, e equivocada, de que a fé serve para nos blindar da vida. Como se confiar em D-us fosse um seguro contra fraturas emocionais, perdas irreversíveis e perguntas sem resposta. A experiência, no entanto, ensina exatamente o oposto. A fé não nos impede de cair; ela nos impede de permanecer no chão. Não elimina os impactos, mas nos dá algo melhor: resiliência, sentido e uma alegria que não depende da ausência de problemas.

Foi isso que aprendi quando recebi a notícia que mudou radicalmente minha maneira de crer. Minha primeira filha havia sido diagnosticada com uma condição irreversível, sem solução humana possível. Naquele momento, não foi apenas o futuro que ficou nebuloso. Foi a minha teologia. Aquilo que eu havia construído ao longo de décadas, com cuidado, coerência e convicção, mostrou-se frágil demais para sustentar o peso da realidade. Doutrinas bem organizadas, respostas prontas e explicações elegantes se despedaçaram como um vitral atingido por uma pedra inesperada.

E aqui surge o primeiro paradoxo: não foi D-us quem falhou. Foi a imagem simplificada que eu tinha d’Ele. Quando a teologia se quebrou, a presença permaneceu. Descobri que D-us não prometeu preservar nossos sistemas intactos, mas prometeu caminhar conosco quando eles ruem. A alegria do Senhor começou exatamente ali, não como euforia, mas como força. Não como riso constante, mas como sustentação diária.

Durante cinco anos vivi um silêncio que não escolhi. Um silêncio que não explicava, não resolvia, não respondia. Mas também não abandonava. Foi nesse período que perdi a capacidade de orar como antes. As palavras longas desapareceram. As frases elaboradas se tornaram inúteis. Restou apenas uma oração curta, repetida, quase infantil: “Me dê forças para continuar.” Sem introdução, sem justificativa, sem amém. Curiosamente, nunca orei tão pouco e nunca fui tão sustentado.

Esse é outro paradoxo profundamente libertador: D-us não exige orações sofisticadas para agir. Ele não se move pela eloquência, mas pela honestidade. Ele ouve o gemido inarticulado com a mesma atenção que ouve um salmo bem composto. A alegria do Senhor não nasce da perfeição espiritual, mas da dependência real.

Foi nesse vale que o Salmo 23 deixou de ser poesia decorativa e se tornou descrição exata da vida. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte…” O texto não diz “se eu entrar”, mas “quando eu andar”. O vale não é exceção, é parte do caminho. A promessa não é que ele será evitado, mas que não será atravessado sozinho. A alegria bíblica não é a negação do sofrimento; é a recusa em permitir que ele tenha a palavra final.

Pensei em José, vendido como escravo pelos próprios irmãos aos 17 anos. Treze longos anos se passaram antes que ele fosse exaltado aos 30 como governador do Egito. Treze anos de traição, prisão injusta e adversidade. Treze anos sem visões, sem vozes, sem sinais de que algo mudaria. Me lembrei de Abraão, que esperou treze anos no silêncio Divino entre a promessa e seu cumprimento, vivendo a tensão entre o que D-us havia dito e o que seus olhos viam.

Esses silêncios não foram vazios. Eram prelúdios de algo extraordinário. Esses homens não viveram uma fé ingênua, mas uma fé robusta, capaz de coexistir com o silêncio sem se tornar cínica.

Chesterton dizia que a alegria cristã é escandalosa porque insiste em existir mesmo quando tudo conspira contra ela. Não é alegria superficial, mas uma alegria profundamente realista. Ela olha o caos de frente e ainda assim escolhe confiar. Isso não é alienação; é coragem espiritual.

Quando minha teologia se despedaçou, percebi algo surpreendente: os cacos refletiam mais luz do que o vitral intacto. Porque agora minha confiança não estava mais na coerência das minhas ideias, mas na fidelidade d’Ele. A alegria do Senhor começou a se manifestar como força cotidiana. Não a força para resolver tudo de uma vez, mas a força suficiente para o próximo passo. E depois outro. E depois outro.

“O Senhor é meu pastor, nada me faltará.” Essa frase, tão repetida, muitas vezes é mal compreendida. No hebraico, a expressão usada é “יְהוָה רֹעִי לֹא אֶחְסָר” (Adonai ro’i, lo echsar). A palavra-chave aqui é “אֶחְסָר” (echsar), derivada da raiz חָסֵר (chaser), que significa “estar em falta”, “carecer do essencial”, “ficar incompleto”. Não se trata de abundância irrestrita ou de uma promessa de vida sem dor. O sentido é muito mais profundo: não estarei em estado de falta essencial. Nada que seja realmente necessário para cumprir o propósito de D-us me será negado.

Isso muda tudo. Durante aqueles anos, muitas coisas faltaram. Faltaram respostas. Faltou cura. Faltou compreensão. Mas o essencial nunca faltou. Não faltou presença. Não faltou sustento. Não faltou graça. Não faltou a alegria do Senhor como força diária. Essa alegria não elimina o cansaço, mas o torna suportável. Não remove a dor, mas impede que ela nos destrua.

Hoje, aos 55 anos, reconheço que há um testemunho poderoso no vale. Não apenas nas conquistas, mas nos dias em que tudo parecia quebrado. É ali que aprendemos quem D-us realmente é, não apenas quem imaginávamos que Ele fosse. Às vezes Ele nos conduz a pastos verdejantes. Outras vezes caminha conosco pelo vale. Em nenhum momento Ele se ausenta.

A verdadeira alegria de andar com D-us não está na ausência de problemas, mas na certeza da Sua presença. Não está em nunca quebrar, mas em descobrir que até os cacos podem ser redimidos. D-us não desperdiça dor. Ele a transforma. Não nos promete uma vida fácil, mas uma vida com sentido. E sentido é algo extraordinariamente poderoso. Ele transforma peso em profundidade e sofrimento em maturidade.

Se você atravessa seu próprio vale agora, saiba: você não está sozinho. Está tudo bem não estar tudo bem. Está tudo bem se sua oração for curta. Está tudo bem se alguns dias forem de riso e outros apenas de resistência. A alegria do Senhor não é frágil. Ela é firme, resiliente, insistente. Ela se recusa a ser derrotada pelas circunstâncias.

Hoje celebro 55 anos com gratidão genuína. Não porque tudo foi fácil, mas porque tudo foi sustentado. Não porque nunca quebrei, mas porque descobri que até os cacos podem ser redimidos. O Pastor continua presente. E isso basta. Isso sempre bastou.

O silêncio Divino não é o fim da história. É apenas o intervalo necessário antes de uma música mais profunda.

Adivalter Sfalsin

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