O Mesmo D-us: Ontem, Hoje e Sempre

O Mesmo D-us: Ontem, Hoje e Sempre

Se você já pensou que o D-us do Velho Testamento e o D-us do Novo Testamento parecem personagens diferentes, saiba que isso é mais comum do que parece. A leitura fragmentada da Bíblia cria essa impressão, como se no início tivéssemos um D-us severo e no final um D-us gentil. Mas a Bíblia, quando lida com cuidado, revela algo muito diferente. Ela é, antes de tudo, um livro sobre a humanidade: suas falhas, quedas e tentativas de caminhar com o Criador. D-us age o tempo inteiro, desde Gênesis até Apocalipse, mas raramente descreve a Si mesmo diretamente. Ele se revela através de ações. E é justamente por isso que Êxodo 34 é tão extraordinário: pela primeira vez, D-us diz claramente quem Ele é.

Essa revelação acontece após o desastre espiritual do Bezerro de Ouro. Moisés está no Sinai recebendo instruções enquanto o povo fabrica um ídolo brilhante e o apresenta como o deus que os tirou do Egito. A resposta divina não surpreende: D-us declara que destruiria aquela geração. Mas Moisés intercede e o impossível acontece. D-us decide perdoar e, mais do que isso, revela Seus atributos essenciais.

O texto diz: “SENHOR, SENHOR, D-us compassivo, misericordioso e paciente, cheio de graça e verdade; que guarda a misericórdia por milhares de gerações, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado, mas não inocenta o culpado.” Ali está o coração de D-us, o mesmo coração percebido mais tarde nas palavras e ações de Jesus. A tradição judaica identifica nessa passagem os Treze Atributos de Misericórdia, que funcionam como o mapa interno do caráter divino. A seguir, eles aparecem listados com o hebraico original ao lado:

1. ADONAI, ADONAI (יהוה יהוה – misericordioso antes e depois do pecado)

D-us é misericordioso antes que a pessoa peque, mesmo sabendo das tendências interiores que ela carrega, e continua misericordioso depois que a pessoa cai, oferecendo oportunidade de retorno e restauração.

2. EL (אל – Todo-Poderoso)

A força absoluta que governa a natureza e a humanidade com justiça verdadeira, julgando cada pessoa de acordo com a realidade do seu coração e das suas escolhas.

3. Rachum (רחום – compassivo)

O D-us que se inclina ao sofrimento humano, especialmente o dos fracos, pobres e oprimidos. Ele não é indiferente às dores humanas, mas age para aliviar, resgatar e proteger.

4. VeChanun (וְחַנּוּן – gracioso)

O D-us que oferece graça mesmo a quem não merece, estendendo consolo, ajuda e presença aos que falharam, aos que não têm méritos e aos que estão quebrados.

5. Erech Appayim (אֶרֶךְ אַפַּיִם – paciente, lento para a ira)

D-us concede tempo para arrependimento e transformação. Ele não reage impulsivamente, mas espera, instrui, chama e oferece novas chances.

6. Rav Chesed (רַב חֶסֶד – abundante em bondade)

D-us oferece mais bondade do que pedimos e mais do que merecemos. Sua generosidade excede expectativas e ultrapassa nossos limites.

7. VeEmet (וֶאֱמֶת – verdadeiro e fiel)

D-us mantém Sua palavra e Sua aliança. Ele não promete o que não cumpre. Sua fidelidade atravessa circunstâncias e gerações.

8. Notzer Chesed Laalafim (נֹצֵר חֶסֶד לָאֲלָפִים – preserva bondade por milhares)

D-us lembra os atos dos justos e derrama bênçãos sobre seus descendentes, mesmo quando estes não são tão virtuosos. Sua memória da bondade humana é longa e profunda.

9. Nosei Avon (נֹשֵׂא עָוֹן – perdoa iniquidade consciente)

Iniquidade é o pecado cometido com intenção deliberada. D-us perdoa até o erro premeditado quando há arrependimento sincero.

10. Nosei Pesha (נֹשֵׂא פֶשַׁע – perdoa transgressão rebelde)

Pesha é a transgressão praticada em rebelião consciente. Mesmo nesse caso, D-us abre caminho para retorno e perdão quando a pessoa decide voltar.

11. Nosei Chata’ah (נֹשֵׂא חַטָּאָה – perdoa pecado involuntário)

Chéṭ é o erro cometido sem intenção. D-us leva em conta a fragilidade humana, o desconhecimento e a limitação, oferecendo perdão e restauração.

12. Venakeh (וְנַקֵּה – purifica)

D-us limpa e purifica aqueles que se arrependem de verdade. Ele remove a mancha, restaura a alma e reconstrói o que foi destruído. Mas não purifica quem se recusa a buscar arrependimento, pois justiça e misericórdia caminham juntas.

Aquele que purifica, limpando o pecador arrependido, mas sem ignorar a justiça.

São 12 Atributos de Misericórdia

Perdão, paciência, bondade, graça.

A essência dominante do caráter de D-us é misericordiosa. Ele é, em Sua maior parte, bondade, perdão, restauração e paciência. O VT inteiro confirma isso em cada página: alianças renovadas, profetas enviados, segundas chances constantes. Jesus não introduz misericórdia. Ele encarna a misericórdia antiga.

1 Atributo de Justiça

Sem arrependimento, não há purificação.

A justiça divina não anula a misericórdia, mas também não é anulada por ela. D-us não suprime a liberdade humana. Ele perdoa quem aceita o perdão. Ele purifica quem deseja ser purificado. Jesus ecoa esse princípio quando anuncia repetidamente: arrependam-se. É o mesmo fundamento espiritual, apenas mais visível.

3 Tipos de Pecado Perdoado

Premeditado, rebelde e inadvertido.

Essa tríade mostra o alcance da misericórdia divina. D-us não perdoa apenas o erro acidental. Ele alcança inclusive pecados intencionais e rebeldes. Pedro negou Jesus com plena consciência. Ainda assim, foi restaurado. Os perseguidores do Messias cometeram um ato coletivo de rebeldia e ignorância. Ainda assim, Jesus ora: Pai, perdoa-lhes. O VT ensina isso. O NT evidencia isso.

Quando lemos essa lista com atenção, a imagem de D-us que emerge não é a de um ser impaciente ou cruel, mas de um D-us profundamente comprometido com misericórdia, bondade, paciência e restauração. A justiça está presente, mas sempre acompanhada de graça. Esse é o D-us que se revela no Sinai, e é esse mesmo D-us que aparece em Jesus.

Jesus não introduz um novo D-us no cenário bíblico. Ele revela em carne o D-us antigo, o D-us de sempre. Quando toca um leproso, vemos Rachum. Quando perdoa Pedro antes e depois da negação, vemos ADONAI repetido duas vezes. Quando é paciente com os discípulos que não compreendem Suas parábolas, vemos Erech Appayim. Quando multiplica alimento para uma multidão sem que ninguém tenha pedido, vemos Rav Chesed. Quando diz que veio cumprir e não abolir a Torá, vemos VeEmet. Quando na cruz oferece perdão ao ladrão arrependido, vemos Nosei Avon, Nosei Pesha e Nosei Chata’ah atuando simultaneamente. E quando ressuscita, abrindo caminho para nossa purificação, vemos Venakeh em sua forma mais profunda.

João, ao dizer que Jesus era cheio de graça e verdade, está ecoando diretamente Êxodo 34. Um judeu do primeiro século reconheceria imediatamente o paralelo. João não está inventando teologia; está dizendo que aquele que caminhou com eles era a encarnação dos atributos revelados a Moisés. Não existe contradição entre o D-us do Velho e o D-us do Novo Testamento. Existe, sim, uma continuidade perfeita.

Essa compreensão nos desafia a revisar nosso próprio reflexo. Se D-us é paciente, por que somos tão impacientes? Se Ele preserva bondade por milhares de gerações, por que às vezes não conseguimos preservar por um único dia? Se Ele perdoa iniquidade, transgressão e pecado, por que tantas vezes não toleramos nem pequenos erros alheios? Talvez a dificuldade não esteja em entender o caráter de D-us, mas em aceitar que Ele não é como nós. Ele é infinitamente mais misericordioso do que supomos.

Os Treze Atributos mostram claramente que D-us não se cansa de seres humanos quebrados. Ele age, perdoa, recomeça, restaura e se revela. Jesus não inaugura um novo tipo de divindade; Ele manifesta o D-us que sempre esteve presente. O mesmo que caminhou no Éden, que falou no Sinai, que inspirou os profetas e que entrou na história humana através de Jesus. O D-us do início é o D-us do fim. O mesmo ontem, hoje e sempre.

Adivalter Sfalsin

Saiba Mais:

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