As Dimensões Perdidas da Moralidade
A moralidade moderna tornou-se uma cuidadosa curadora de duas virtudes muito estimadas, a bondade e a justiça. Se você ouvir como as pessoas discutem hoje sobre aquilo que é certo ou errado, especialmente no ocidente secular, perceberá que raramente escapam dessas duas perguntas. Isso causa dano a alguém, e isso é justo? Essas perguntas não são triviais, e o psicólogo moral Jonathan Haidt (1) mostrou o quanto moldam nossos instintos éticos. Mas logo você começa a se perguntar se apenas duas virtudes conseguem sustentar todo o peso da existência humana. É como tentar pintar um por do sol usando apenas duas cores e, ainda assim, convencer-se de que as cores ausentes nunca foram realmente necessárias.
Algo dentro de nós sabe que isso não é verdade. Intuímos que a moralidade é mais rica, mais profunda, mais complexa do que o par harmonia e justiça consegue expressar. A Bíblia certamente pensa assim. Para ela, o ser humano não é apenas um corpo que sente dor nem apenas uma mente que calcula equidade. Somos também alma e espírito, criaturas que habitam significado e mistério, desejo e fidelidade. Quando as Escrituras falam sobre o que é bom, elas usam um vocabulário muito mais profundo do que a linguagem enxuta da ética moderna.
Às vezes ajuda olhar para as próprias palavras hebraicas, porque elas revelam dimensões da vida moral que nossa cultura quase nunca considera.
Existe חֶסֶד (hesed, bondade amorosa), a generosidade ativa que vai muito além da simples justiça, como em Levítico 19:18, Miquéias 6:8.
Existe רַחֲמִים (rahamim, compaixão ou misericórdia), a sensibilidade que sente a dor do outro tão profundamente que se torna impossível virar o rosto. Salmo 103:13, Isaías 49:15.
Existe צֶדֶק (tzedek, retidão ou justiça divina), a insistência de que o mundo deve refletir não apenas o que os humanos consideram conveniente, mas o que D-us chama de justo, como em Deuteronômio 16:20, Provérbios 21:3.
Existe מִשְׁפָּט (mishpat, julgamento justo), a aplicação concreta da justiça no cotidiano e nos tribunais. Levítico 19:15, Deuteronômio 10:18.
Existe אֱמוּנָה (emunah, fidelidade ou lealdade), frequentemente traduzida como fé, mas muito mais próxima de firmeza de coração, a qualidade que sustenta relacionamentos de aliança, entre pessoas ou com o próprio D-us. Deuteronômio 7:9, Habacuque 2:4, Êxodo 17:12.
E sobre todas essas virtudes está קְדֻשָּׁה (kedushah, santidade), a percepção de que a vida carrega a presença do Criador, algo que permeia todo o livro de Levítico. Levítico 19:2, Êxodo 19:6, Isaías 6:3.
Quando você percebe essas dimensões, entende que a moral bíblica não tenta apenas minimizar o sofrimento nem maximizar a justiça. Ela tenta formar um certo tipo de pessoa, alguém cujo mundo interior é moldado por amor, compaixão, justiça, fidelidade e reverência. Ela fala ao corpo, mas também à alma e ao espírito. Reconhece que o ser humano não é uma criatura plana, que reage apenas ao dano e à justiça, mas um ser profundamente complexo, que anseia por sentido, pertencimento e presença sagrada.
Jonathan Haidt (1) observa que sociedades pré-modernas e religiosas preservam essas fundações morais adicionais. Elas valorizam fidelidade, respeito, santidade, compaixão e responsabilidade. Entendem que nenhuma comunidade sobrevive apenas com bondade e justiça.
Sem fidelidade, os relacionamentos se quebram.
Sem reverência, a vida perde profundidade.
Sem santidade, o mundo torna-se raso.
Como já comentou o rabino Jonathan Sacks, quando uma sociedade abandona sua percepção do sagrado, sua moralidade se reduz a preferências pessoais. O que parece justo para mim substitui aquilo que é correto diante de D-us.
É aqui que a visão bíblica mais profunda se torna um farol em meio à confusão contemporânea. A Escritura apresenta a moralidade através de três grandes vozes que moldam a condição humana. Uma nos chama a honrar o que é sagrado, outra nos chama a buscar a justiça, outra a buscar a sabedoria. Essas vozes não competem entre si, elas se completam. Formam uma ecologia moral que alcança todas as partes do nosso ser. Quando ouvimos apenas uma ou duas dessas vozes, nosso mundo interior encolhe.
C. S. Lewis alertava que o homem moderno vive como se o mundo tivesse sido esvaziado de encanto. Analisamos tudo, mas reverenciamos quase nada. Medimos dano e justiça, mas esquecemos da gratidão, da humildade, da fidelidade e da santa admiração. Temos medo de parecer antiquados ao usar palavras como retidão ou santidade, então as sussurramos ou as escondemos. Mas algo em nós permanece inquieto. O desejo pelo transcendente não desaparece quando substituímos a linguagem do sagrado pela linguagem da psicologia. Ele se intensifica.
Quando lemos as Escrituras devagar, o horizonte moral volta a se expandir. Percebemos quantas vezes o texto fala de חֶסֶד (hesed, bondade amorosa), uma generosidade que supera a equidade. Vemos a profundidade de רַחֲמִים (rahamim, compaixão), que suaviza o coração diante do sofrimento alheio. Reconhecemos a seriedade de צֶדֶק (tzedek, retidão), que afirma que nossas escolhas nunca são neutras. Sentimos o peso de מִשְׁפָּט (mishpat, julgamento justo), que protege o vulnerável. Experimentamos a firmeza de אֱמוּנָה (emunah, fidelidade), que sustenta compromissos mesmo quando eles custam caro. E aprendemos a permanecer em silêncio diante de קְדֻשָּׁה (kedushah, santidade), a consciência de que cada vida, cada momento e cada respiração carregam a marca de D-us.
Essa visão está muito distante da simples pergunta, “isso prejudica alguém?”. Ela pergunta, “isso honra o sagrado?”. “Isso reflete a fidelidade da aliança?”. “Isso cultiva a retidão ou a destrói?”. “Isso conduz minha alma à sabedoria ou a afasta dela?”. A moral bíblica não é um sistema para evitar erros, mas a formação paciente de uma pessoa que caminha com D-us.
Os discípulos de Yeshua sentem essa diferença entre a profundidade bíblica e a superficialidade moderna de forma muito clara. Yeshua nunca reduziu a moralidade aos limites do dano ou da justiça. Sua compaixão era mais profunda do que a prevenção do sofrimento. Sua justiça era mais rica do que a equidade. Ele acolhia o excluído não porque isso parecia equilibrado, mas porque Seu coração transbordava de חֶסֶד (hesed, bondade amorosa). Ele confrontava a hipocrisia não porque era injusta, mas porque violava צֶדֶק (tzedek, retidão). Ele curava com רַחֲמִים (rahamim, compaixão), ensinava com sabedoria, vivia com a fidelidade de אֱמוּנָה (emunah, lealdade) para com o Pai e caminhava constantemente na luz de קְדֻשָּׁה (kedushah, santidade).
Imitá-Lo é reencontrar a plenitude da vida moral. É lembrar que o espírito também precisa ser moldado, tanto quanto o corpo e a alma. Que a moralidade não pergunta apenas como evitar o mal, mas como tornar-se santo. Não apenas como ser justo, mas como ser fiel. Não apenas como evitar crueldade, mas como cultivar compaixão. Não apenas como equilibrar direitos, mas como honrar obrigações sagradas. É uma visão mais exigente, e também muito mais bela.
Se a ética moderna parece pequena, é porque perdeu seus pilares mais altos. Ela esqueceu קְדֻשָּׁה (kedushah, santidade) e אֱמוּנָה (emunah, fidelidade), e sem elas todo o edifício treme. Mas a Escritura não as esqueceu, nem os sábios de Israel, nem os discípulos de Yeshua que continuam ouvindo essas vozes mais profundas. Quando abrimos nossos ouvidos a esse vocabulário moral ampliado, algo dentro de nós se expande. Lembramos quem somos, criaturas feitas à imagem de D-us, chamadas não apenas a evitar o mal, mas a refletir a Sua santidade.
Talvez essa seja a tarefa dos crentes hoje, não atacar a moralidade moderna, mas ampliá-la suavemente, reintroduzindo ao nosso mundo a música mais rica de חֶסֶד (hesed), רַחֲמִים (rahamim), צֶדֶק (tzedek), מִשְׁפָּט (mishpat), אֱמוּנָה (emunah) e קְדֻשָּׁה (kedushah). Se permitirmos que essas palavras moldem nosso corpo, alma e espírito, talvez o mundo moral achatado volte a se erguer em três dimensões, amplo e vivo. E quem sabe descubramos que essa antiga arquitetura moral ainda está de pé, silenciosa e firme, esperando que entremos outra vez, não como estranhos, mas como filhos que voltam para casa.
Adivalter Sfalsin
(1) Jonathan Haidt, The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion (London, Allen Lane, 2012).