“O sacerdote santifica a criação, o profeta santifica a história e o sábio santifica a vida cotidiana.”Rabbi Jonathan Sacks, livro: A Grande Parceria
Há momentos em que nossa fé se parece estar em uma encruzilhada entre três vozes interiores, cada uma puxando-nos para um caminho diferente. Uma sussurra sobre ordem e disciplina sagrada, outra clama por justiça e verdade, e a terceira convida ao silêncio e à compreensão. Juntas, formam a sinfonia humana, corpo, alma e espírito, todos ansiando por se harmonizar com a música do Céu.
Costumamos imaginar a santidade como um dom reservado a sacerdotes e estudiosos, a profetas que proclamam do alto das montanhas ou a sábios e intelectuais que caminham por templos antigos. No entanto, o mistério da fé é que essas três dimensões, a sacerdotal, a profética e a da sabedoria, não habitam apenas nas Escrituras, mas também nos recantos mais profundos do nosso ser. O sacerdote manifesta o sagrado através do corpo, no compasso e na estrutura da criação. O profeta se levanta na alma, onde a consciência desperta e o anseio por justiça ganha voz. O espírito, por sua vez, acolhe a sabedoria, buscando discernir o mistério que une o céu e a terra.
Rabbi Sacks escreveu que o sacerdote santifica a criação. Essa afirmação contém, por si só, toda uma teologia do corpo. Nunca fomos destinados a vagar pelo mundo como espíritos presos à carne, nem a tratar o material como inferior ao espiritual. O corpo humano, com seus limites e ritmos, ensina reverência. O descanso, como o sábado, não é um ritual imposto do alto, mas um chamado inscrito em nossa própria estrutura, para parar, descansar e lembrar que a vida não é uma engrenagem sem fim de produção, lucro acima de tudo. Até mesmo a respiração, alternando entre inspirar e expirar, é uma liturgia de dependência.
A parte sacerdotal em nós compreende a santidade dos limites. Quando honramos a criação, quando cuidamos da saúde, quando respeitamos a santidade da comida, do descanso e das relações, agimos como guardiões da ordem divina. A tragédia da vida moderna não é sermos físicos demais, mas termos esquecido o significado sagrado do físico. Usamos o corpo sem admiração, consumimos o mundo sem gratidão e corremos pelos dias como se o tempo fosse inimigo, e não um presente. Mas a santidade começa com a consciência, com o reconhecimento de que cada movimento do corpo, cada palavra pronunciada, cada respiração, é uma oportunidade de encontrar D-us no comum.
Se a voz sacerdotal fala por meio da ordem, a voz profética irrompe quando essa ordem se acomoda. Onde o corpo pede ritmo, a alma exige oxigénio. O profeta dentro de nós desperta quando vemos algo errado e não conseguimos permanecer em silêncio. É a voz que se recusa a transformar o culto em espetáculo, que insiste que nossas orações devem se derramar em compaixão, nossos rituais em justiça. A tarefa do profeta é santificar a história, lembrar ao mundo que o tempo não corre em vão, mas avança com propósito, e que cada gesto humano é visto por D-us.
O profeta é a consciência que interrompe o conforto. É incômodo, às vezes indesejado, mas absolutamente necessário. Cada geração precisa dessa voz, e cada coração também. Sabe aquele sentimento que temos quando vemos a injustiça sendo feita, quando os poderosos oprimem os vulneráveis, quando o inocente é condenado? Esse sentimento é o profeta dentro de nós. É a centelha que se recusa a aceitar o mal como normalidade, o clamor silencioso que exige retidão mesmo quando o mundo prefere o silêncio.
Há momentos em que precisamos dizer a verdade a nós mesmos, quando devemos nomear os ídolos que erguemos com orgulho ou medo, e lembrar que santidade não é apenas pureza, mas também justiça. D-us não nos chama a afastar-nos do mundo, mas a redimi-lo com o poder do amor, estendendo Sua compaixão às partes mais feridas da criação. Ignorar o profeta interior é permitir que a fé se transforme em mera aparência.
No entanto, se ouvíssemos apenas o profeta, nossos corações jamais encontrariam descanso. O fogo da indignação, sem direção, pode queimar em vez de aquecer. É então que a terceira voz se manifesta, suave, mas constante: a voz da sabedoria. O espírito ouve quando o corpo e a alma se cansam. Ele não grita nem ordena, apenas pergunta, reflete e interpreta. A sabedoria, como lembrou Rabbi Sacks, santifica o cotidiano. É a arte de enxergar sentido onde outros veem monotonia, de encontrar propósito até mesmo na dor.
A sabedoria não responde a todas as perguntas. Ela sabe viver dentro do silêncio, confiando que o entendimento virá quando o coração estiver pronto. Nas Escrituras, sabedoria não é apresentada como intelecto, mas como uma forma de caminhar, agir com justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com o teu D-us. Ser sábio é reconciliar-se com os limites do conhecimento sem abandonar a busca pela verdade.
O espírito aprende o que o corpo e a alma não podem ensinar sozinhos. Compreende que a santidade não é uma emoção a ser perseguida, nem um sistema a ser imposto, mas um relacionamento a ser vivido. Ela nasce quando reverência e retidão se encontram na reflexão, quando a ordem do sacerdote e a paixão do profeta encontram harmonia na compreensão.
Viver como seres humanos completos é permitir que essas três vozes conversem dentro de nós. O corpo sem a alma torna-se mecânico, a alma sem o espírito torna-se caótica, o espírito sem o corpo torna-se distante e frio. D-us nos formou não como fragmentos, mas como unidade, carne animada pelo sopro, consciência iluminada pela sabedoria. A plenitude da vida em Yeshua não está em negar nossa humanidade, mas em santificá-la.
Uma das verdades mais belas tanto da fé judaica quanto da cristã é que a santidade já não está confinada a templos de pedra. O mundo sacerdotal moveu-se do santuário para a cozinha, a oficina, a rua. A palavra profética ecoa não apenas através de visionários, mas também através de pessoas comuns que se recusam a desviar o olhar do sofrimento. E a voz da sabedoria fala por meio de quem se detém o bastante para escutar. O que antes era privilégio de poucos tornou-se o chamado de todos.
Nesse sentido, a visão de Rabbi Sacks é ao mesmo tempo antiga e revolucionária. Ele mostrou que o sacerdote, o profeta e o sábio não são profissões, mas dimensões do ser, não títulos a serem reivindicados, mas vozes a serem cultivadas. Seu livro A Grande Parceria convida o leitor a redescobrir o casamento entre fé e razão, lembrando que a ciência explica o mundo que existe, mas a religião revela o mundo que deveria existir. E a ponte entre os dois, como ele tão bem disse, é a sabedoria.
C. S. Lewis observou que o ser humano moderno perdeu o senso de eternidade. Olha para o temporário e o chama de real, esquece que o invisível é o que mais dura. Assim também a fé se fragmenta: o corpo sem alma, a alma sem espírito, quando D-us nos convida à unidade entre todos eles.
Estar plenamente vivo em Yeshua é tornar-se um ponto de encontro entre o Céu e a Terra. O corpo aprende reverência por meio da disciplina, a alma aprende coragem por meio da consciência, e o espírito aprende paz por meio da reflexão. Em cada um desses aspectos, santificamos algo diferente, criação, história e pensamento, e todos convergem em um mesmo propósito, tornar a presença de D-us visível em um mundo que esqueceu o Seu rosto.
Quando nos ajoelhamos para orar, santificamos o espaço. Quando servimos com compaixão, santificamos o tempo. Quando meditamos na verdade, santificamos a mente. Esses não são atos separados, mas faces de um mesmo chamado, o de transformar cada gesto de fé em um lugar habitado pelo Divino. Talvez esse seja o segredo da santidade, não a separação entre o sagrado e o secular, mas a sua reconciliação.
Se aprendermos a ouvir essas três vozes dentro de nós, a disciplina silenciosa do corpo, o clamor inquieto da alma e a percepção contemplativa do espírito, começaremos a viver não como seres divididos, mas inteiros. O mundo não precisa de mais brilho nem de poder, precisa de plenitude espiritual, aquela que transforma a fé em luz, e a luz em amor.
Pois, no fim, ser humano é tornar-se eco da voz d’Aquele que falou, e o mundo existiu, que chamou profetas do pó e que ainda hoje sussurra sabedoria aos corações dispostos a escutar. E quando essas três vozes, corpo, alma e espírito, voltarem a se unir em adoração e em verdade, talvez então o mundo desperte, e lembre que ser santo é simplesmente deixar que o Divino volte a habitar em nós.
Adivalter Sfalsin