Entre o Céu e a Terra

Trazendo a Eternidade à Terra

Existe uma antiga tensão que ainda ressoa silenciosamente na alma humana, um contraste não entre o bem e o mal, mas entre duas maneiras de enxergar o mesmo mundo. Os gregos nos ensinaram a olhar para cima, a fugir da prisão da carne e subir em direção às estrelas. Os hebreus, porém, nos ensinaram a olhar ao redor, a santificar o chão sob os nossos pés. Ambos viram o mesmo nascer do sol, ambos sentiram o mesmo encanto, mas seus olhos estavam fixos em horizontes muito diferentes.

A mente grega adorava a transcendência. Para ela, a matéria era sombra e o espírito era luz. A tarefa do filósofo era subir a escada da abstração, deixando para trás o peso do pó e dos ossos, até finalmente tocar o eterno. A salvação, nessa visão, é fuga: libertação da matéria, da limitação, do tempo que corre lentamente. Platão imaginava a alma como um exilado, com saudade do céu. O místico sonhava em se dissolver na radiância divina. O que está embaixo ansiava pelo que está acima.

Mas a mente hebraica, a mente de Abraão, Moisés e dos profetas, contou uma história que segue na direção oposta. Aqui, o que está acima anseia pelo que está abaixo. D-us não permanece distante nos céus, esperando que a humanidade suba até Ele. Ele desce. Ele entra. Ele caminha no jardim à brisa do dia. Ele fala de uma sarça em chamas. Ele habita em uma tenda de peles no deserto. A Bíblia não é a história da busca do homem por D-us, mas da busca de D-us pelo homem.

Essa diferença muda tudo. O judaísmo nunca fez da fé uma religião de fuga. O coração hebraico nunca desprezou o pão nem o vinho, o casamento nem o riso. Sua santidade não está em abandonar o mundo, mas em transformá-lo. Cada lei, cada refeição, cada campo deixado para o pobre, cada amanhecer recebido com bênção, todos são momentos em que o céu se inclina para beijar a terra.

O rabino Joseph Soloveitchik escreveu sobre esse tipo de pessoa, a quem chamou de Homem Haláchico. Talvez devêssemos chamá-lo de Homem do Reino: um crente que constrói em vez de escapar, que santifica o comum em vez de rejeitá-lo. Soloveitchik descreve um homem já avançado em idade sentado à beira do Mar Báltico, ao amanhecer, observando o sol nascer sobre as águas, tomado por beleza e melancolia, refletindo sobre a brevidade da vida. Mas sua conclusão não foi o desespero. O mundo, justamente por ser passageiro, é sagrado. O Homem do Reino não foge da mortalidade; ele a preenche de sentido.

O rei Ezequias exclamou: “Pois a sepultura não pode louvar-Te, nem a morte celebrar-Te; os que descem à cova não esperam pela Tua verdade. Os vivos, os vivos, esses Te louvarão, como eu faço hoje” (Isaías 38:18–19). E Davi cantou: “Não morrerei, mas viverei, e contarei as obras do Senhor” (Salmos 118:17). Para eles, a própria vida era o templo. Respirar era servir. Praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente, esses eram os instrumentos do culto. A morte, longe de ser uma porta para a santidade, era a interrupção dela.

Isso pode soar quase escandaloso aos nossos ouvidos treinados por séculos de filosofia grega. Para muitos, a santidade começa apenas quando o véu da matéria é removido. Mas, para o profeta hebreu, o próprio véu era sagrado. “Tecê-loás”, ordenou o Senhor. “Colori-loás de azul e pendurá-lo no Tabernáculo.” O mundo material não era inimigo do divino; era o meio pelo qual o divino se expressava.

A mente grega busca a eternidade abandonando o temporal; a mente hebraica encontra a eternidade redimindo-o. O filósofo olha para o alto e pergunta: “Como posso elevar-me acima deste mundo?” O sábio de Israel se inclina, amarra a sandália e murmura: “Como posso servir a D-us aqui?”

Por isso a fé hebraica constrói, planta e legisla. Ela não se esconde em mosteiros, mas caminha entre campos, famílias e mercados. A Torá não é um tratado metafísico, mas um manual de vida: ensina como negociar com justiça, como tratar o estrangeiro, como celebrar as colheitas, como descansar. O “estudo da Torá” no céu não trata de mistérios distantes, mas do cotidiano. Os mandamentos não são teorias, mas planos para tornar o mundo santo.

Para o grego, a religião é uma ascensão, a escada da contemplação que sobe rumo à forma pura. Para o hebreu, é uma descida, a escada da revelação que toca o barro. O grego encontra o sagrado no afastamento; o hebreu o encontra no envolvimento. Um sonha em fugir; o outro em encarnar.

Talvez por isso a oração de Yeshua (Jesus) tenha soado tão familiar e, ao mesmo tempo, tão revolucionária: “Venha o Teu Reino; seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu.” Era a visão hebraica confirmada, o céu não como um reino distante, mas como algo que deve invadir o mundo do pão e do vinho, das lágrimas e do riso, dos pobres e da misericórdia de quem os alimenta.

O Homem do Reino vive entre o céu e a terra, não é um místico perdido em êxtase, nem um cético preso ao visível. Ele é um artesão da ordem divina. Constrói com mandamentos em vez de tijolos, mas o seu objetivo é o mesmo de qualquer construtor: criar uma morada para D-us entre os homens.

Ele entende o valor da obediência nas pequenas coisas. O filósofo grego ergue teorias; o discípulo hebreu amassa o pão. Um persegue abstrações; o outro abençoa o que está sobre a mesa. O Homem do Reino sabe que a eternidade não começa além das estrelas, mas no instante comum vivido com fidelidade. Ele toma o mundo como ele é, imperfeito, frágil, belo e o transforma em altar.

Talvez até sorria, com certa ironia, diante do paradoxo. Enquanto o filósofo sonha em escapar da matéria, o carpinteiro de Nazaré tomou madeira e pregos e, por meio deles, trouxe a salvação. O grego constrói templos de pensamento; o Messias hebreu edificou um Reino com as próprias mãos calejadas.

E assim o Homem do Reino diz: “Melhor uma hora estudando a Torá e de obediência aos mandamentos nela contidos, vivida neste mundo, do que toda uma vida no mundo vindouro.” Porque a eternidade não espera em algum céu distante; ela começa aqui, onde a misericórdia é praticada, onde a justiça é cumprida, onde o nascer do sol é recebido não como fuga, mas como chamado.

O grego sobe, perseguindo a luz. O hebreu se ajoelha, acendendo velas. Talvez a fé mais verdadeira faça as duas coisas: olha para cima com admiração e depois ao redor com responsabilidade. Sonha com o céu, mas constrói uma casa onde o céu e a terra possam se encontrar.

Talvez seja isso que Yeshua quis dizer ao partir o pão e declarar: “Isto é o Meu corpo.” Ele não nos convidava a abandonar o mundo, mas a perceber que o eterno já havia entrado nele. O infinito se fez carne, e de repente cada refeição, cada ato de misericórdia, cada escolha pela verdade se tornou um ponto de encontro entre o céu e a terra.

Os gregos queriam escalar as estrelas. Os hebreus queriam fazê-las brilhar sobre suas mesas. E o Homem do Reino, talvez, aprendeu a fazer as duas coisas. Olha para o alto com reverência, depois para baixo com amor, e assim descobre que a distância entre o céu e a terra nunca foi tão grande quanto parecia.

Pois, quando se ajoelha para acender sua vela, percebe algo que o filósofo jamais compreenderia: a mesma chama refletida em seus olhos é a luz que um dia disse “Haja luz”. E ela ainda queima, silenciosa, fiel, no coração de todo aquele que ousa trazer a eternidade à terra.

Adivalter Sfalsin

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.