As Cinco Palavras para o Pecado: O Vocabulário da Queda
Há um ditado que ecoa nos bancos de muitas igrejas protestantes: “Não existe pecadinho nem pecadão, todos são iguais.”
Durante muito tempo, aceitei essa frase sem contestar, como quem repete um hino antigo sem pensar na letra. Mas quando abrimos o texto hebraico das Escrituras, o solo começa a se mover debaixo dos nossos pés. Descobrimos que o pecado não é um bloco uniforme, uma cor sólida pintada no coração humano, mas um espectro de sombras, cada uma com sua textura, seu peso e sua consequência. O hebraico bíblico, essa língua tão concreta e visceral, recusa-se a tratar o pecado como uma abstração. Ele o nomeia com precisão. Cinco palavras, em especial, erguem-se do Tanakh como colunas que sustentam nossa compreensão da condição humana. E cada uma revela não apenas um tipo de erro, mas um aspecto do mistério da separação entre o homem e D-us.
1. רָע (Ra) – O Mal que Corrói
A primeira palavra é Ra, e ela aparece mais de seiscentas vezes, como se o próprio texto quisesse nos lembrar de sua onipresença. Ra é o mal em estado bruto. É o caos moral que invade o jardim, a corrupção que se espalha pela terra como uma enchente silenciosa. Não se trata apenas de um ato errado, mas de uma atmosfera, um contágio. Em Gênesis 6:5, lemos: “O Senhor viu que a maldade (Ra) do homem se havia multiplicado sobre a terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era continuamente má.” Essa é talvez a sentença mais triste da humanidade. Ra não descreve um pecado isolado, mas um mundo inteiro afundando em sua própria decadência.
Ra é o inverso da criação. Enquanto D-us traz ordem do caos, o mal traz o caos de volta à ordem. É a ferrugem na alma, o veneno que transforma amor em egoísmo, compaixão em cálculo, verdade em manipulação. E quando Ra domina, a humanidade perde o rosto, pois a imagem divina se torna irreconhecível.
2. חֵטְא (Chet) – Errar o Alvo
Depois vem Chet, a palavra do arqueiro. Ela significa literalmente “errar o alvo”.
É o pecado que nasce não tanto da maldade, mas da distração, da fraqueza, da miopia espiritual. O arco foi tensionado, a flecha lançada, mas o alvo, a vontade de D-us, foi perdido de vista. Em Levítico 4:2, o texto diz: “Quando alguém pecar sem intenção, fazendo qualquer das coisas que o Senhor proíbe.” Há aqui algo de profundamente humano. Quem de nós nunca tropeçou sem querer? Chet é o pecado dos que queriam acertar, mas falharam. A palavra nos lembra que, mesmo o erro não intencional, ainda fere. Um golpe de espada, ainda que dado por engano, corta da mesma forma. A justiça divina é tão realista quanto misericordiosa: ela reconhece nossa intenção, mas não ignora o estrago. Chet é o lembrete de que viver é mirar, e que a alma precisa ser afinada constantemente, como o instrumento de um músico. Um pequeno desvio de direção, se não corrigido, nos leva a quilômetros de distância do caminho certo.
3. עָוֹן (Avon) – A Iniquidade que Distorce
A terceira palavra é Avon, e nela sentimos o peso da consciência.
Avon não é simplesmente errar, é escolher errar. É o pecado deliberado, aquele em que o coração sabe e mesmo assim consente. O termo carrega o sentido de distorção, como uma linha que se entorta de propósito. Isaías 53:5 usa essa palavra para descrever o fardo do Messias: “Ele foi traspassado por causa das nossas transgressões, esmagado por causa das nossas iniquidades (Avon).” É um versículo que arrepia a alma. Aqui, Avon não é apenas uma culpa, é um fardo que precisa ser levado, uma dívida que não pode ser paga com moedas humanas. Enquanto Chet é o erro do descuido, Avon é o erro da rebeldia. É quando a vontade humana se torna um pequeno trono e o coração declara independência do Criador. E como todo ato de revolta, Avon não termina no indivíduo: ele reverbera nas gerações, molda famílias, corrompe culturas. O eco de um pecado consciente costuma ser mais longo do que sua causa original.
4. רֶשַׁע (Resha) – A Injustiça que Destrói
Resha é a quarta palavra, e com ela entramos no campo da injustiça social.
Enquanto Avon fala da corrupção interna, Resha trata da corrupção externa, o mal que se institucionaliza. Resha aparece quando o pecado deixa de ser apenas pessoal e se torna um sistema, uma estrutura que oprime, explora e desumaniza. Em Provérbios 15:9, lemos: “O Senhor detesta o caminho do ímpio (Resha), mas ama aquele que busca a justiça.” Aqui, o pecado é relacional: ele se manifesta na maneira como tratamos os outros. Resha é o mercado que lucra com o sofrimento, o juiz que vende sentenças, o político que chama de bem o que é mal. É o tipo de pecado que não apenas fere o céu, mas também a terra. E talvez esse seja o ponto mais desconfortável de todos: D-us não mede nossa fé apenas pelo que cremos, mas pelo modo como vivemos entre os outros.
5. עָוֶל (Avel) – A Injustiça Pervertida
Por fim, temos Avel, uma palavra menos frequente, mas igualmente afiada. Avel é o pecado do tribunal. É a perversão da justiça, o uso da autoridade para torcer a verdade. Quando um juiz absolve o culpado e condena o inocente, Avel é pronunciado no céu. Levítico 19:15 adverte: “Não cometam injustiça (Avel) no julgamento; não favoreçam o pobre nem procurem agradar o grande, mas julguem o próximo com justiça.”
É uma frase que deveria estar gravada na entrada de todos os parlamentos e tribunais do mundo. Avel é o ápice da corrupção social, pois destrói o próprio alicerce da confiança humana. Quando a justiça é distorcida, o povo perde o senso do bem, e o mal se disfarça de virtude. É o pecado que transforma a lei em arma e a autoridade em instrumento de opressão.
O Vocabulário da Alma: Essas cinco palavras, Ra, Chet, Avon, Resha e Avel, formam juntas um vocabulário da queda humana. Elas revelam que o pecado não é uma mancha única, mas um tecido rasgado em muitos lugares. Às vezes é o descuido de quem tenta acertar, outras é a frieza calculada de quem já desistiu de tentar. Às vezes nasce no coração, outras se cristaliza em instituições.
O pecado, na visão hebraica, não é apenas o ato de desobedecer, mas o de distorcer: a vida, o amor, a justiça e a própria imagem de D-us em nós.
E o mais notável é que, para cada uma dessas palavras, há também uma resposta divina.
Para Ra, há a bondade que restaura.
Para Chet, há o perdão que corrige.
Para Avon, há o sacrifício que redime.
Para Resha, há a justiça que liberta.
E para Avel, há o Reino de D-us, onde o juiz é incorruptível e o trono é justo.
Talvez seja por isso que as Escrituras insistem tanto em nos fazer nomear o pecado, porque aquilo que é nomeado pode ser confessado, e o que é confessado pode ser curado.
No final, compreender essas palavras é compreender a si mesmo. É ver que o problema do mundo não está apenas “lá fora”, mas dentro do coração humano. E que o caminho de volta, como sempre, começa com uma palavra simples, mas difícil de dizer: teshuvá (arrependimento), o retorno.
Porque o pecado, afinal, não é apenas o ato de se afastar de D-us.
É o esquecimento de que ainda há um caminho de volta.
Adivalter Sfalsin