Tábuas Quebradas

Um Amor Mais Profundo que a Perfeição

Suponha, por um instante, que você está no topo de uma montanha. Literalmente. Vamos imaginar que você está ali, com o céu estalando azul acima de sua cabeça, trovões e relâmpagos ainda ecoando nas nuvens como ecos de um tambor celestial. E nas mãos, duas pedras pesadas, não qualquer pedra, mas esculpidas pelo dedo de D‑us. A Palavra viva, gravada em pedra. Um momento solene, sagrado. Agora imagine descer daquela montanha e encontrar, não um povo de olhos brilhando de expectativa, mas um povo dançando ao redor de um bezerro dourado, como se tivessem voltado para o Egito não com os pés, mas com o coração. E então, sem hesitar, você quebra as tábuas. Moisés o fez. E, honestamente, quem pode culpá-lo? As primeiras tábuas da Lei, o presente mais precioso que Israel já recebera, foram lançadas ao chão e despedaçadas aos pés da montanha. Um gesto teatral? Talvez. Um ato de desespero? Certamente. Mas acima de tudo, foi um ato profético. Porque aquelas tábuas quebradas, por mais que doa admitir, são também nossas. Elas são um espelho da alma humana: belamente feitas, divinamente escritas, e… partidas.

Agora, aqui está algo curioso. A Bíblia não nos diz explicitamente o que aconteceu com os pedaços quebrados. Poderiam ter sido varridos com o pó do deserto, esquecidos como tralha sagrada. Mas a tradição judaica preserva algo sublime: os rabinos dizem que os pedaços quebrados das primeiras tábuas foram guardados na Arca da Aliança, ao lado das tábuas novas. Baseiam-se principalmente nos seguintes textos: “Naquela ocasião o Senhor me disse: ‘Lave duas tábuas de pedra como as primeiras, e suba ao monte para encontrar-me. Faça também uma arca de madeira. Eu escreverei nas tábuas as palavras que estavam nas primeiras, que você quebrou, e você as (ambas) colocará dentro da arca’” (Deuteronômio 10:1–2)

E então Moisés diz: “Então virei e desci do monte e coloquei as tábuas na arca que havia feito, conforme o Senhor me ordenara, e ali estão até hoje.” (Deuteronômio 10:5) Aqui se refere ao segundo conjunto de tábuas, mas a tradição preserva a ideia de que ambas, as inteiras e as quebradas, estavam ali dentro.

Imagine isso. Dentro da Arca sagrada, símbolo máximo da presença de D‑us entre os homens, repousam não só o que foi restaurado, mas também o que foi despedaçado. É como se o próprio D‑us dissesse: “Eu não me esqueço das falhas. Eu redimo até os cacos.” E aqui está a chave. A fé não é construída sobre uma coleção de vitórias impecáveis, mas sobre um amor que se recusa a desistir mesmo diante dos fracassos mais humilhantes. A primeira aliança foi quebrada, o contrato de casamento rasgado na primeira noite. Literalmente. A aliança divina foi quebrada pelas mãos de um profeta indignado. E mesmo assim, ou talvez por causa disso, D‑us oferece uma segunda chance. Mas essa nova aliança não é como a primeira. As primeiras tábuas foram obra 100% divina, D‑us mesmo esculpiu e escreveu. Já as segundas, veja bem, foram esculpidas por Moisés, e apenas as palavras foram reescritas por D‑us. Um gesto sutil, mas significativo. Agora, a parceria requer mais esforço humano. A fé amadurece.

Você já percebeu isso nos relacionamentos? O primeiro amor pode ser impulsivo, idealista, ingênuo até. Mas o segundo, quando há reconciliação, costuma ser mais maduro, mais consciente, mais profundo. Não porque ignoramos os erros, mas porque os encaramos juntos. É muito tentador tentar esconder os destroços do passado. Tapamos os buracos da alma com verniz religioso, frases de efeito, promessas vazias. Mas as tábuas quebradas estão ali para nos lembrar: você já falhou. E, mais importante ainda, você foi amado mesmo assim. Aliás, D‑us não substitui as tábuas quebradas. Ele não diz “jogue fora isso”. Ele diz: “Guarde-as comigo”. Ele nos ensina que o quebrado tem valor. Que há beleza na restauração. Que há esperança no reconhecimento.

Há algo de extraordinariamente libertador em admitir nossas falhas diante de D‑us. Não para nos martirizarmos, mas para construir algo novo sobre a verdade, não sobre a ilusão. A memória dos cacos Porque precisamos nos lembrar de onde viemos. Precisamos olhar para trás e reconhecer que fomos idólatras, infiéis, egoístas, ingratos. Que fizemos nossos próprios bezerros dourados, feitos de carreira, vaidade, religião, controle, ou mesmo da imagem de um deus criado à nossa própria semelhança. Mas precisamos, também, olhar para frente. Não com arrogância, mas com reverência. Não com a ilusão de perfeição, mas com o temor santo de quem sabe que foi resgatado. Que o pacto não foi renovado por merecimento, mas por misericórdia. Somos chamado para recomeçar. As tábuas quebradas são um chamado. Um lembrete de que a presença de D‑us caminha conosco, não apesar dos nossos fracassos, mas através deles. O arrependimento verdadeiro não é um estado de auto-aversão, mas um movimento em direção ao amor. Um amor que não ignora a verdade, mas a redime.

Será que você precisa, como Moisés, descer da montanha, enfrentar os ídolos, e começar tudo de novo, desta vez com as mãos calejadas pela escultura das novas tábuas? Será que você precisa parar de esconder os cacos e colocá-los, com lágrimas e esperança, diante do Altíssimo? Amor, temor e reverência. A nova aliança não foi construída sobre o entusiasmo do êxodo, mas sobre o luto do bezerro de ouro. Não sobre milagres espetaculares, mas sobre um novo temor, uma reverência profunda, e um amor persistente. Talvez seja isso que D‑us sempre quis: não perfeição, mas uma aliança que nasce do arrependimento sincero. Uma relação que sobrevive às decepções. Um povo que caminha com as tábuas inteiras… e também com as quebradas.

Então, da próxima vez que você olhar para trás e enxergar só os estilhaços dos seus erros, lembre-se: eles não são o fim da história. Eles podem ser o começo de algo novo. Não esconda os cacos. Leve-os até a Presença Divina. Coloque-os na Arca. Eles pertencem lá. Pois aquele que nos deu as primeiras tábuas é o mesmo que escreve novamente, nas tábuas que nós esculpimos. E o faz com amor e espera que nós façamos o mesmo.

Adivalter Sfalsin

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