E se os maiores dons de D‑us precisassem primeiro ser quebrados para que pudéssemos realmente recebê-los?
Essa pergunta ecoa por toda a Escritura, do Monte Sinai ao Gólgota, das tábuas estilhaçadas ao corpo transpassado do Messias. A história de Israel não é apenas um ciclo de desobediência e perdão, mas um testemunho vivo de que D‑us escreve histórias de redenção em meio aos escombros da fragilidade humana. Ele não abandona Seu povo em tempos de falha. Pelo contrário, Ele se aproxima no momento da queda e oferece algo ainda mais profundo: uma segunda chance. No Sinai, D‑us entregou a Israel uma aliança escrita por Sua própria mão. No entanto, antes que o povo estivesse preparado para carregar Suas palavras, aquelas tábuas de pedra foram quebradas. Moisés desceu do monte e viu a nação entregue à idolatria, dançando ao redor de um bezerro de ouro. A aliança foi rompida antes mesmo de ser plenamente recebida. Não foi quebrada por D‑us, mas pelo próprio homem. Séculos depois, quando Yeshua veio ao mundo, trazendo a oferta do Reino dos Céus, Ele também foi rejeitado e quebrado, não apenas por judeus, mas também por gentios. A história se repetia: a dádiva foi recusada, o portador da aliança foi transpassado.
Ambos os momentos revelam um padrão divino. As falhas humanas podem interromper os planos de D‑us, mas não os destroem. Elas abrem o caminho para algo ainda mais misterioso e belo, a segunda chance.
Isso revela quem somos: falhos. Revela quem D‑us é: misericordioso. Essa verdade vai além de uma ideia teológica. É um padrão espiritual. O D‑us de Israel não descarta o que foi quebrado. Ele restaura. Ele reescreve. Ele concede novamente aquilo que foi perdido ou rejeitado.
No livro de Deuteronômio, Moisés relembra que o pecado do bezerro de ouro, um dos momentos mais vergonhosos da história de Israel, não foi o fim. As primeiras tábuas foram destruídas no dia 17 de Tamuz do calendário hebraico, mas a misericórdia de D‑us não cessou ali. Após quarenta dias de intercessão e arrependimento, Moisés subiu novamente ao Sinai. E no dia de Yom Kipur (dia do perdão), ele desceu com um novo conjunto de tábuas, ainda contendo a Palavra de D‑us, mas agora entregues a um povo quebrantado. Esse é o movimento da disciplina divina. D‑us não ignora a rebeldia, mas tampouco encerra a história com julgamento. Ele permite que sejamos quebrados para que sejamos reconstruídos. Não mais frágeis, mas mais sábios. O relacionamento entre Israel e D‑us seguiu em frente, agora marcado não apenas pela revelação, mas também pelo arrependimento. Esse padrão se manifesta de forma ainda mais clara no Messias. Quando Yeshua veio pela primeira vez, trouxe consigo o convite ao Reino. Muitos líderes O rejeitaram, mas uma multidão de judeus O acolheu. Ainda assim, Sua missão encontrou resistência. Aos olhos humanos, tudo parecia terminar em fracasso. O dom precioso, o próprio Filho, foi zombado, transpassado e crucificado por gentios com a conivência de alguns judeus, por aqueles que igualmente não reconheceram o valor da dádiva. Mas o que parecia ser o fim foi, na verdade, o ponto de partida. Por meio da ressurreição, Yeshua não apenas garantiu o perdão, mas também selou a promessa de Sua volta. Assim como Israel recebeu a Torá pela segunda vez, o mundo receberá o Messias pela segunda vez. Sua missão não foi cancelada, ela foi aprofundada. Foi adiada, não por fraqueza, mas para que a redenção alcançasse mais corações. Aos olhos humanos, tudo parecia perdido, como as tábuas quebradas no Sinai. Mas a cruz se tornou o alicerce da restauração. Através da Sua entrega, recebemos reconciliação. E com Sua volta, receberemos a plenitude do Seu Reino.
Nos capítulos 7 a 11 de Deuteronômio, somos lembrados de que a vida não é sustentada apenas por comida ou bênçãos materiais. Moisés declara:
“O ser humano não vive só de pão, mas de toda palavra que procede da boca do Senhor” (Deuteronômio 8:3).
Yeshua também usou esse versículo ao ser tentado no deserto, afirmando que Sua força vinha da obediência e da Palavra, não de saciar o estômago. Mesmo em uma terra que mana leite e mel, a verdadeira fonte de vida é a voz de D‑us. As sete espécies da Terra: trigo, cevada, uvas, figos, romãs, azeitonas e mel, simbolizam abundância. Mas Moisés ensina que o alimento mais importante é espiritual. E até mesmo o ato de comer se torna um momento de comunhão com o Criador:
“Quando tiveres comido e estiveres satisfeito, bendize ao Senhor teu D‑us” (Deuteronômio 8:10).
Esse gesto simples, bendizer após comer, revela uma nova dimensão da segunda chance. Não apenas nas grandes narrativas, mas também nas rotinas diárias, o Eterno nos convida a recomeçar. Cada refeição pode se tornar uma oportunidade de bênção. Cada falha, uma chance de retorno. Até nos momentos mais comuns, a misericórdia de D‑us se renova.
Moisés faz uma pergunta profunda ao povo:
“E agora, Israel, que é que o Senhor teu D‑us exige de ti? Que temas o Senhor teu D‑us, que andes em todos os Seus caminhos, que O ames, que O sirvas de todo o teu coração e de toda a tua alma, e que guardes os mandamentos do Senhor, para o teu bem” (Deuteronômio 10:12–13).
Essa tensão entre amor e temor define a espiritualidade bíblica. Temor sem amor gera ritualismo frio. Amor sem temor gera frivolidade, descuido e atrevimento. Juntos, formam o solo fértil da obediência genuína. E mais uma vez, vemos a segunda chance se revelar.
Há quem pense que a Torá é apenas um código de regras e que a graça veio para eliminá-las. Mas Yeshua não veio para abolir a Torá. Ele veio para circuncidar os corações. Veio para que o Espírito escrevesse a Lei (Torá) por dentro. O problema nunca foi a Lei, como diz o salmista ela é Salmo 19:7. “A Torá do Senhor é perfeita, restaura a alma.” O problema sempre foi o coração. Mas corações podem ser transformados. Moisés clamou:
“Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não endureçais mais a vossa cerviz” (Deuteronômio 10:16).
A circuncisão do coração significa remover o orgulho, a resistência, o pecado. É um processo de esvaziamento, de santificação. Na economia divina menos (o remover do prepúcio) é mais. Para andar com D‑us, é preciso deixar para trás aquilo que impede a caminhada. E como profetizou Jeremias, chegará o tempo em que a Torá (Lei) será escrita nos corações do povo (Jeremias 31:33). Essa é a verdadeira segunda chance: não apenas perdão, mas transformação.
Depois da queda com o bezerro de ouro, Moisés subiu novamente ao monte. O povo, dessa vez, esperou. Não repetiu o erro. Entendeu que o tempo da espera também era sagrado. Nós também vivemos entre dois momentos: a primeira vinda de Yeshua e Sua prometida volta. Em Lucas 12, Ele conta uma parábola sobre um servo que pensa que seu senhor está demorando e começa a viver de forma irresponsável. Mas o senhor volta de surpresa. A questão não é se o Messias voltará. É como Ele nos encontrará. A segunda chance não é apenas uma memória do passado. É um chamado atual.
A segunda chance não é apenas doutrina. Ela é prática. Ela molda o modo como vivemos agora.
• Receba suas falhas como convites
Assim como Israel no Sinai, nossas falhas podem parecer definitivas. Mas nas mãos de D‑us, até o que foi quebrado pode se tornar base de uma aliança ainda mais profunda. Quando cair, levante-se com arrependimento.
• Pratique a gratidão todos os dias
A Torá nos ensina a abençoar depois de comer. Comece com pequenas atitudes de gratidão e logo seu coração perceberá os sinais da graça de D‑us nas coisas simples.
• Equilibre amor e reverência
Busque a D‑us como Pai que ama e como Rei que governa. Esse equilíbrio impede que a obediência se torne fardo ou descuido.
• Prepare-se durante a espera
Vivemos entre o que foi quebrado e o que será restaurado. Use esse tempo para crescer em santidade, vigilância e amor.
A história das segundas tábuas e a promessa da volta do Messias apontam para uma única verdade essencial:
Nosso D‑us é o D‑us das segundas chances. Suas dádivas podem ser quebradas. Seus planos podem parecer adiados. Mas Sua misericórdia jamais falha. Todos nós carregamos nossas tábuas partidas, episódios de culpa, rebelião ou tristeza. Mas D‑us não nos rejeita. Ele reescreve Sua aliança em tábuas novas. Ele escolhe corações quebrantados para revelar Sua fidelidade. A pergunta não é se Ele voltará, mas se estaremos prontos quando Ele retornar. Que sejamos encontrados fiéis, gratos e obedientes, andando não apenas na luz de Sua Palavra, mas no Espírito da Sua Lei.
Que esse dia venha logo, com rapidez, ainda em nossos dias. Amém.
Adivalter Sfalsin