Vazio e Plenitude?

No Silêncio das Estrelas, a Voz do Criador

Numa recente viagem de férias, tive o privilégio de sair ao ar livre numa noite de céu limpo e levantar meus olhos para o alto. Longe do barulho da cidade e do brilho intenso das luzes artificiais, os céus se abriram diante de mim de uma maneira rara. O firmamento era como uma tela resplandecente, incontáveis estrelas espalhadas como fagulhas suspensas no espaço. Uma névoa suave se estendia pelo horizonte, tênue mas inconfundível: a Via Láctea, nossa galáxia, erguia-se no silêncio da noite. O ar estava fresco, a terra repousava em quietude, e acima de mim reinava um silêncio mais profundo do que qualquer palavra poderia expressar. Permanecei ali por muito tempo, deixando meus olhos se ajustarem, permitindo que a imensidão me envolvesse. Havia beleza, sim, mas também algo inquietante. Um lembrete de como somos pequenos, passageiros e frágeis. Naquelas estrelas havia distâncias impossíveis de medir, mistérios que escapavam à minha compreensão, uma história que se estendia muito além da imaginação humana. E, no entanto, em toda aquela imensidão, naquele silêncio imenso, não senti vazio, mas presença.

A astronomia moderna nos mostra que o universo não é estático. As galáxias se afastam umas das outras, o espaço se estende como um tecido sem fim, e o cosmo continua a expandir-se rumo a um horizonte desconhecido. O que vemos ao olhar para o céu não são apenas estrelas como são agora, mas como eram há milhares ou até milhões de anos, quando a sua luz começou a viajar até chegar a nós. Cada noite estrelada é, portanto, uma janela para o passado, um vislumbre de uma história escrita em luz. Ainda assim, apesar de todo o conhecimento que a ciência nos oferece, há algo de estranhamente silencioso em tudo isso. O espaço não é preenchido por sons, mas por quietude. Entre as estrelas existe um vácuo quase perfeito, um vazio tão absoluto que desafia nossa experiência. Quanto mais aprendemos sobre o cosmo, mais avassalador se torna o seu silêncio. Não é de admirar que o salmista tenha escrito: “Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem para que dele te lembres? E o filho do homem, para que o visites?” (Salmo 8:3–4). Diante dos céus, ele sentiu o que muitos de nós ainda sentimos hoje: a tensão entre a grandeza do universo e a pequenez da vida humana.

Vazio ou Plenitude? Alguns diriam que o silêncio do universo é prova de vazio. Para eles, o céu noturno é indiferente, uma vastidão fria de matéria e energia, sem voz e sem sentido. No entanto, a tradição bíblica oferece outra leitura. O silêncio, nas Escrituras, não é sempre ausência. Muitas vezes, ele é justamente o meio pelo qual a presença de D-us se revela. Quando Elias fugiu para o deserto em busca da voz do Senhor, não a encontrou no vento impetuoso, nem no terremoto, nem no fogo. Mas, depois de tudo, veio um “sussurro suave” (1 Reis 19:11–12). No silêncio após o tumulto, na quietude além do ruído, o profeta encontrou a voz do Eterno. Assim também com o cosmo. O silêncio das estrelas não é vazio, mas plenitude. Plenitude de sentido, de assombro, de uma presença que nenhuma palavra pode conter. Os céus não falam em linguagem de som, mas proclamam mesmo assim. Como declara o Salmo 19:1: “Os céus proclamam a glória de D-us, e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.”

O Infinito e o Finito? Há aqui outro paradoxo. Por um lado, as estrelas nos lembram da nossa insignificância. Somos pó sobre um grão de pó, vidas passageiras em um universo com bilhões de anos. Nossas histórias, nossas lutas, até nossas maiores conquistas parecem frágeis diante de galáxias que giram em silêncio. Por outro lado, a Escritura afirma que o mesmo D-us que chama cada estrela pelo nome também conhece o nosso. Isaías 40:26 declara com ternura: “Levantai os olhos e olhai para as alturas: quem criou tudo isso? Aquele que faz sair o exército de estrelas uma a uma, e as chama pelo nome; por causa da grandeza do seu poder e da sua força, nenhuma delas faltará.” Se nenhuma estrela é esquecida, quanto mais nós não seremos lembrados? O Criador que ordena as galáxias inclina-se para ouvir a oração humana. O mesmo que sustenta a ordem cósmica se importa com os detalhes da nossa vida. Os céus podem nos fazer sentir pequenos, mas também nos fazem sentir vistos.

O Silêncio como Convite. Naquela noite de férias, debaixo da Via Láctea, passei a enxergar o silêncio de outro modo. Silêncio não é apenas ausência de som, é o espaço onde algo mais profundo pode ser ouvido. No silêncio das estrelas, comecei a perceber um sussurro de significado, um chamado à humildade, um convite ao assombro. Talvez por isso o silêncio seja tão associado à adoração. Habacuque 2:20 proclama: “O Senhor, porém, está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra.” A vastidão do cosmo nos cala não porque nos anula, mas porque nos aponta para alguém maior do que nós mesmos. No silêncio, o coração começa a escutar. E, ao escutar, descobrimos que o Criador não está ausente, mas intensamente presente. O vazio torna-se plenitude, a distância torna-se intimidade, o silêncio torna-se voz.

É fácil, no corre-corre da vida, esquecer as estrelas. A maioria de nós vive sob céus escondidos pelo brilho das cidades, noites cortadas pelo ruído do trânsito e pela luminosidade das telas. No entanto, as estrelas continuam lá, quer as vejamos ou não, proclamando a glória daquele que as colocou em seus lugares. Olhar para o céu é lembrar do nosso lugar na história da criação. Não somos o centro, mas não estamos esquecidos. Somos pequenos, mas amados. As estrelas falam de um universo vasto demais para nossa mente, e ainda assim moldado por mãos que cuidam até do pardal que cai ao chão. O próprio Jesus apontou para os céus como sinal do cuidado divino. Em Mateus 6:26, ele disse: “Olhai as aves do céu, que não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?” Se as aves e as estrelas estão guardadas em sua providência, nós também estamos.

A Voz no Silêncio. Naquela noite de viagem, tirei uma fotografia, a mesma que compartilho agora, um registro simples do céu estrelado com o brilho tênue da Via Láctea. A imagem é bela, mas não passa de uma sombra da realidade que presenciei. Nenhuma lente captura a imensidão, nenhuma foto traduz o silêncio, nenhum quadro revela a presença que preenche os céus.

E, ainda assim, a fotografia me lembra daquele instante de reverência, daquele momento em que o vazio se transformou em presença, e o silêncio se fez voz. Na vastidão do universo, fui atraído para aquele que o criou, o mesmo que fala não por meio do barulho, mas da quietude, o mesmo que sustenta galáxias e também corações humanos.

“Aquietai-vos, e sabei que eu sou D-us.” (Salmo 46:10).

No silêncio das estrelas, o Criador fala. A questão é se estaremos dispostos a silenciar o bastante para ouvir.

A. Sfalsin

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