A Reviravolta de Jó e o Segredo Esquecido da Restauração
Esta semana, uma amiga me enviou uma daquelas frases que pipocam nas redes sociais e fazem a alma da gente estremecer ou espirrar. Dizia assim:
“Sabe por que Jó recuperou tudo o que havia perdido? Porque ele perdeu tudo, menos a fé. Perdeu tudo, menos a confiança em D‑us.” Bonito, não? Digno de moldura, trilha sonora com harpas celestiais e talvez até um fundo em degradê pastel. Mas, como acontece com a maioria das frases que vestem roupa de sabedoria profunda, essa também começou a me coçar atrás da orelha. E coceiras, especialmente as teológicas, nunca vêm sozinhas. Elas vêm com perguntas, com espantos e, como diriam os hebreus, com muita cheshbon nefesh, ou seja, com exame da alma. Porque, veja bem, é mesmo verdade que Jó foi restaurado porque não perdeu a fé? Foi só isso? Fé inabalável, prêmio em dobro, créditos celestiais acumulados e voilà, tudo volta ao lugar?
Será que o livro mais inquietante da Bíblia pode ser resolvido com um pôster de Instagram?
A fé que sobrevive, mas não explica tudo. Sim, é verdade. Jó não perdeu a fé. Ou, pelo menos, não a fé como geralmente a definimos, essa confiança, mesmo trêmula, de que D‑us ainda está lá, ainda é bom, mesmo quando o mundo rui como um castelo de cartas em chamas. Ele não amaldiçoou D‑us, como sua esposa sugeriu (Jó 2:9). Ele não fugiu, embora tenha gritado. E como gritou!
Aliás, se você acha que orações devem ser suaves, educadas e compostas, não leia Jó. Ou leia, mas sente-se antes, com um copo de chá e sem expectativas de estabilidade emocional. Jó não apenas questiona, ele protesta. Ele não entende. Ele exige. Ele sangra em poesia. Mas há algo curioso. A história de Jó tem 42 capítulos. E a reviravolta acontece somente no finalzinho, no capítulo 42, verso 10:
“E o Senhor mudou a sorte de Jó quando ele orava pelos seus amigos.”
E aqui, meu caro leitor, entramos em território sagrado. E desconcertante.
O momento da virada: do pó ao perdão
Note o detalhe. D‑us não “mudou a sorte” de Jó quando ele resistiu à dor. Nem quando ele manteve sua integridade. Nem quando se calou para ouvir o Senhor falar do turbilhão. A virada, o hafach (הפך), a inversão, veio quando Jó orou por seus amigos, aqueles mesmos que o acusaram, julgaram, e fizeram da teologia uma arma para ferir.
E quem eram esses amigos?
• Elifaz, o temanita, foi o primeiro a falar. Apelou à experiência e à tradição. Em resumo: “Você está sofrendo? Deve ter pecado. D‑us é justo, e os justos não passam por isso à toa.”
• Bildade, o suíta, seguiu na mesma linha, mas com mais dureza. Falou sobre justiça divina como se fosse uma equação fria. “Se seus filhos morreram, foi porque mereceram.” Sim, ele disse isso.
• Zofar, o naamatita, foi ainda mais direto: “Você devia agradecer, porque D‑us está sendo até bondoso. Na verdade, você merece coisa pior.”
Esses homens, que deviam consolar, teologizaram a dor. Em vez de abraçar Jó, apontaram o dedo. Em vez de chorar com ele, ofereceram explicações rígidas, como se o sofrimento alheio fosse um quebra-cabeça moral a ser resolvido.
Jó, então, não orou por amigos “gentis”. Orar por eles foi um ato de misericórdia radical. Foi amar o injusto. Perdoar o imperdoável. Interceder por quem não só falhou no consolo, mas aumentou o sofrimento com palavras “em nome de D‑us”. E é nesse gesto tão humano, tão divino que o céu se moveu. Parece que a emunah (אמונה), a fé, foi necessária, sim mas não suficiente. A chave final não estava apenas em crer, mas em amar. Não apenas em suportar, mas em transformar. Não é difícil ter fé enquanto se espera que D‑us “resolva tudo”. Mas o que fazemos com essa fé é o que separa o sobrevivente do restaurado.
A fé que vira uma ponte. Jó, quebrado, sujo de cinzas, ainda ferido, ora por quem o feriu. Ele se torna um canal de rachamim (רחמים), de misericórdia. E, nesse instante, algo muda, não só em Jó, mas no próprio cenário espiritual da história. Porque ele não ora com tudo resolvido. Ele ora a partir da dor, não depois dela. É aqui que a fé de Jó floresce. Porque fé que se fecha, que se acorrenta ao “eu aguento firme porque vai valer a pena”, pode até resistir. Mas não cura. A fé que cura é a que se abre, mesmo sangrando, em intercessão. Jó se torna um shaliach, um intercessor, um embaixador de paz entre o céu e a terra. E não é isso o que sempre moveu D‑us? Quando o povo de Israel constrói o bezerro de ouro, é a intercessão de Moisés que impede a destruição (Êxodo 32:11-14). Quando Daniel quer entender o que virá sobre seu povo, é pela oração que os céus se movem (Daniel 9). Quando Yeshua está na cruz, é intercedendo pelos que o crucificam que ele sela o maior ato de redenção da história (Lucas 23:34).
O que fazemos com a fé importa mais do que dizemos crer. É fácil dizer que temos fé quando esperamos uma recompensa. É reconfortante pensar que, se não reclamarmos demais, se não perdermos a compostura, D‑us nos devolverá tudo em dobro. Mas isso seria tratar o Todo-Poderoso como uma espécie de gerente de recompensas espirituais. Fé, na Bíblia, não é moeda de troca. Fé é aliança. É emunah, palavra que carrega o sentido de fidelidade, firmeza, relação contínua. E, acima de tudo, é uma estrada que nos leva até os outros. Jó foi restaurado não porque creu, mas porque, mesmo tendo motivos para se fechar, ele se abriu.
E isso me faz perguntar: e nós? Será que temos usado nossa fé como um escudo de espera, ou como uma ponte de transformação? Será que estamos esperando a vida “voltar ao normal” só porque “não perdemos a fé”? Ou será que precisamos dar o próximo passo, aquele que perdoa, que intercede, que transforma dor em dom?
A escolha de amar depois do luto. A maior prova de fé de Jó talvez não tenha sido suportar sem amaldiçoar, mas orar por quem o machucou sem pedir nada em troca. Isso é o que chamo de fé madura. Ou talvez devêssemos chamá-la de amor em estado de fé. Jó não sabia que seria restaurado. Ele não fez uma oração estratégica para destravar bênçãos. Ele simplesmente orou. Escolheu amar. E isso o tornou curado, antes mesmo de estar curado.
A teshuvá (תשובה), o retorno, a restauração, veio quando ele virou o rosto para os outros. E essa talvez seja a lição mais negligenciada do livro: a verdadeira cura começa quando a fé deixa de ser um mecanismo de proteção e se torna um gesto de compaixão. E agora, o que faremos com isso?
Meu convite hoje não é que você tenha mais fé. Mas que faça algo com a fé que já tem. Ore por alguém que te feriu. Perdoe quem não pediu perdão. Torne-se ponte, mesmo quando você ainda está no vale. Lembre-se: o D‑us de Jó não estava em silêncio porque era indiferente. Ele esperava o momento em que o sofrimento deixasse de ser uma prisão e se tornasse uma estrada de misericórdia.
Afinal, a fé não é apenas aquilo que te sustenta, mas aquilo que, quando entregue, pode sustentar outros. E essa é a única fé que realmente cura.
Adivalter Sfalsin
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