De Babel ao Sinai e a Jerusalém
Há momentos na história em que, se você fixar os olhos na direção do Céu, pode quase ver a mão do grande Autor virando uma página. Babel, Sinai e Jerusalém não são meramente pontos em um mapa, mas sinais de pontuação em uma narrativa divina. Nós nos encontramos, caro leitor, bem no meio desse conto.
Comecemos, como toda boa história começa, no início ou quase.
Em Babel, o homem conspirou para construir uma escada até as estrelas. Foi, ouso dizer, nosso primeiro comitê global. Em Gênesis 11:4, o plano ambicioso está registrado:
“Vamos construir uma cidade com uma torre que alcance os céus. Assim nosso nome será famoso.” Infelizmente, o orgulho é um péssimo arquiteto. Em vez do Céu, construímos confusão. Em vez de glória, ganhamos dispersão. “Por isso foi chamada Babel, porque ali o Senhor confundiu a linguagem de toda a terra.” (Gênesis 11:9)
É impossível não sentir certa tristeza nisso tudo. Há algo de inerentemente bom na união, na harmonia. Mas em Babel, buscamos a divindade não para conhecer a D-us, mas para substituí-lo, fazer um nome para nós mesmos. Uma unidade voltada para si mesma desaba. E assim, o mundo se fragmentou não com guerras, mas com sílabas.
Mas D-us não abandona. Como um mestre que permite que a criança tropece para que aprenda a andar, Ele deixa a poeira baixar, e então começa de novo. Surge Abraão, um único homem em um mundo confuso, chamado em Gênesis 12:1–3 para ser a semente de uma nova bênção: “Por meio de você, todas as famílias da terra serão abençoadas.”
Avançando alguns séculos seis ou nove, dependendo da sua ampulheta chegamos ao Sinai. A fumaça e o trovão de Êxodo 19 não significam apenas julgamento, mas intimidade. O Céu não precisa de torres; Ele desce por escolha. “O Senhor desceu sobre o monte Sinai.” (Êxodo 19:20) Esse não é um deus de estátuas de mármore ou ídolos mudos. Esse é um D-us que fala.
E fala com tanta clareza que a tradição judaica diz que cada palavra se dividiu em setenta línguas, representando todas as nações conhecidas. A mesma Voz que antes dividiu, agora divide de novo não para confundir, mas para revelar. “Então falou D-us todas estas palavras…” (Êxodo 20:1). E depois: “Vocês ouviram o som das palavras, mas não viram figura alguma; apenas uma voz.” (Deuteronômio 4:12) Aqui, a cacofonia de Babel encontra seu contraponto não no silêncio, mas na singularidade.
Israel, recém-liberto do Egito, recebe uma vocação: “Vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa.” (Êxodo 19:6) Foram escolhidos, sim, mas não para si mesmos. Um sacerdote não guarda a luz ele a reflete. Como Abraão antes deles, Israel foi chamado para ser canal de bênção divina, não seu reservatório.
Ah, mas a história não termina com trovões e tábuas.
Gire o globo e avance no tempo mais 1.300 anos ou mais, e nos encontramos em Jerusalém. O ar está carregado de expectativa; as ruas fervilham de peregrinos. É Shavuot, a Festa das Semanas, e mais uma vez D-us decide falar a esse mesmo povo.
“De repente veio do céu um som, como de um vento muito forte… e línguas como de fogo pousaram sobre cada um deles.” (Atos 2:2–3) É o Sinai novamente mas não exatamente. O fogo não cai sobre um monte, mas sobre homens. As palavras não trovejam do alto, mas jorram de dentro de cada um.
E que palavras!
“Os ouvimos declarar as maravilhas de D-us em nossa própria língua!” (Atos 2:11) Judeus de todas as partes do império romano estavam presentes para a festa partos, medos, elamitas… tantos nomes, cada um representando um antigo Babel. O milagre de Pentecostes não está no espetáculo, mas na síntese. O Espírito não apaga as distinções Ele as santifica. Um retorno à unidade, não à uniformidade.
Pedro, com a ousadia de quem acaba de ser soprado pelo Espírito, explica: “Nos últimos dias, diz D-us, derramarei do meu Espírito sobre toda a humanidade…” (Atos 2:17, citando Joel 2:28)
E assim, caro leitor, ficamos com três cenas:
Em Babel, o homem sobe em arrogância e é espalhado.
No Sinai, D-us desce em fogo e chama uma nação.
Em Jerusalém, o fogo desce novamente, Ele se espalha pelos cantos do mundo conhecido.
O que devemos fazer com tudo isso?
Primeiramente, aprendamos que a unidade não é alcançada erguendo torres, mas recebendo a verdade. O Evangelho fala todas as línguas não as achatando em uma só, mas enchendo cada uma com a fragrância do Céu. Em Babel, nossas línguas nos dividiram. Em Pentecostes, tornaram-se instrumentos de louvor.
Segundo, ser escolhido não é troféu é tarefa. Israel foi escolhido não para ser melhor, mas para abençoar. Como nos lembra Isaías 49:6: “Eu farei de vos luz para os gentios, para que levem a minha salvação até os confins da terra.” Nós, gentios enxertados, também partilhamos dessa vocação sacerdotal: reconciliar, abençoar, servir.
E por fim, talvez o mais importante estamos entre Shavout – Pentecostes e a Parúsia, entre o fogo e a glória final. “Tudo isso provém de D-us, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação.” (2 Coríntios 5:18) Babel ainda ecoa em nossa política, nosso orgulho, nossos púlpitos. Mas o Sinai ainda chama. E Jerusalém ainda proclama as boas novas.
Você anseia pelo fim dessa história? Eu anseio. João também. E ele viu:
“Depois disso olhei, e diante de mim estava uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono…” (Apocalipse 7:9)
As línguas ainda estão lá, percebe? D-us não desfaz Babel revertendo à mesmice. Ele a redime pela harmonia. E nesse lugar, na cidade não construída por mãos humanas, não haverá mais a necessidade de fazer um nome para nós.
“Ao que vencer… darei uma pedra branca, com um novo nome nela escrito.” (Apocalipse 2:17) Não o nome que tentamos construir. O nome que Ele sempre conheceu.
Então aqui estamos. A página ainda não virou. Mas a caneta está na mão do Autor. Não somos espectadores. Somos personagens. Melhor ainda somos filhos e filhas.
Quando o mundo divide, reconciliemos.
Quando constrói novos Babels, lembremos do fogo.
Quando esquece a Voz, sejamos seu eco.
Pois o Espírito não veio para nos tornar barulhentos. Ele veio para nos tornar claros.
Clareza na verdade. Clareza no amor. Clareza na missão.
Ânimo, caro leitor. As torres dos homens cairão, mas o monte do Senhor se elevará. E todas as nações fluirão para ele. (Isaías 2:2)
Adivalter Sfalsin
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