A Janela de Overton e a Mente Coletiva: Como o Impensável Se Torna Norma
Você já refletiu sobre como certas ideias que, até pouco tempo atrás, seriam consideradas absurdas, hoje são celebradas e até exigidas como normas de comportamento? Como valores que por séculos sustentaram o tecido moral da sociedade passaram a ser ridicularizados e excluídos do espaço público? Esse processo não é fruto do acaso. Ele tem nome, método e estratégia. Chama-se Janela de Overton. O conceito foi desenvolvido por Joseph P. Overton e descreve o intervalo de ideias consideradas aceitáveis em uma sociedade em dado momento. Tudo que está dentro da janela pode ser debatido e promovido publicamente. O que está fora é impensável, tabu, proibido. No entanto, esta janela não é fixa. Ela pode ser deslocada gradualmente, até que aquilo que antes era inaceitável se torne obrigatório, e o que antes era norma seja banido como retrógrado ou ofensivo. A Janela de Overton é uma ferramenta da chamada engenharia social, que utiliza meios culturais e simbólicos para moldar o pensamento coletivo. Ao contrário da opressão direta, como a censura explícita ou a repressão estatal, essa estratégia atua de forma quase invisível. Ela transforma a cultura de dentro para fora, utilizando a linguagem da liberdade, do progresso e da tolerância como instrumento de reprogramação moral.
Curiosamente, a Bíblia já alertava sobre mecanismos semelhantes muito antes do surgimento do conceito moderno. No livro do profeta Isaías, há uma denúncia clara da inversão dos valores promovida por uma sociedade em decadência espiritual: “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridão luz, e da luz escuridão” (Isaías 5:20). O funcionamento da Janela de Overton segue uma progressão em cinco etapas. A primeira consiste em tornar o impensável em algo meramente pensável. A ideia absurda é introduzida por meio de piadas, memes, filmes ou sátiras. O objetivo não é convencer, mas plantar a semente. O cérebro humano registra a proposta como possibilidade, mesmo que envolta em humor. A segunda etapa transforma o pensável em discutível. O que era tabu começa a ser debatido em meios acadêmicos, programas de televisão, redes sociais. A argumentação usada costuma ser neutra, com frases como “vamos ouvir todos os lados”. Assim, a resistência inicial vai sendo desgastada. Na terceira etapa, o discutível torna-se aceitável. A pressão social começa a operar. Quem se opõe à nova ideia passa a ser estigmatizado como preconceituoso, intolerante ou retrógrado. Em nome da inclusão, instala-se o silenciamento. O profeta Amós viveu um tempo assim, em que a sinceridade era motivo de ódio: “Eles aborrecem na porta o que repreende, e abominam o que fala com sinceridade” (Amós 5:10). A quarta etapa transforma o aceitável em norma. A ideia antes marginal passa a ocupar o centro. É ensinada nas escolas, promovida pelas leis e exaltada pela mídia. A discordância é sufocada, não necessariamente por um governo autoritário, mas pelo próprio ambiente social. A cultura do cancelamento é um exemplo moderno dessa dinâmica. A última etapa é a mais perigosa. Ela torna o antigo impensável. Os valores que sustentaram a civilização passam a ser ridicularizados, os livros que os defendem são descartados, e as pessoas que os vivem são marginalizadas. O profeta Jeremias lamenta esse estado de endurecimento moral: “Acaso se envergonham de cometer abominação? Não. Nem sequer sabem o que é envergonhar-se” (Jeremias 6:15).
Esse padrão de dominação cultural já era conhecido no mundo bíblico. O livro de Daniel relata o caso dos jovens hebreus levados à Babilônia. Lá, receberam novos nomes, nova educação, nova dieta. A intenção era apagar sua identidade e substituir sua cosmovisão. “O rei designou-lhes uma porção diária das iguarias do rei e do vinho que ele bebia, e que fossem educados por três anos, para que ao fim deles pudessem estar diante do rei” (Daniel 1:5). Era uma reeducação sutil, mas total. No livro de Gênesis, observa-se o mesmo padrão de distorção por meio do diálogo: “É assim que D‑us disse…? Certamente não morrereis” (Gênesis 3:1–4). O inimigo não nega diretamente a verdade. Ele a relativiza. Ele propõe uma nova leitura. Ele planta dúvida, até que o erro pareça aceitável.
A Bíblia nos convida a resistir a esse tipo de manipulação. A resistência não virá por força política ou por nostalgia moralista. Ela precisa começar com a transformação pessoal e a renovação da mente. O apóstolo Paulo exorta os cristãos de Roma: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Romanos 12:2). Também somos instruídos a guardar o coração e os sentidos contra a influência cultural contaminada: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Provérbios 4:23). A proteção espiritual não é passiva. Ela exige vigilância, decisão e coragem.
Acima de tudo, é preciso falar. Denunciar em amor. Educar. Corrigir. Mesmo que isso custe o conforto, a popularidade ou a aceitação. Isaías clama: “Clama em alta voz, não te detenhas; levanta a tua voz como a trombeta, e anuncia ao meu povo a sua transgressão” (Isaías 58:1). O silêncio cúmplice de hoje pode se tornar a prisão ideológica de amanhã. Por fim, a orientação das Escrituras é clara: quando a cultura se desvia dos caminhos do Altíssimo, o povo de D‑us deve se separar do sistema dominante. No livro do Apocalipse, há um chamado urgente: “Sai dela, povo meu, para que não sejais participantes dos seus pecados” (Apocalipse 18:4).
A Janela de Overton é uma descrição moderna de um problema antigo. Um povo pode ser transformado por completo sem que um único tiro seja disparado. Basta que aceite calado o deslocamento lento e contínuo da verdade. Basta que se cale diante da mentira disfarçada de liberdade. O apóstolo Pedro alertou os crentes a respeito disso: “Sede sóbrios, vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (1 Pedro 5:8). Estar desperto e vigilante é mais que uma virtude. É uma necessidade vital.
Se existe uma chance de preservar a verdade, ela começa no que você decide ouvir, repetir ou silenciar. Começa na sua mente. E no que você permite que entre nela. Se uma sociedade inteira pode ser transformada pelo que aceita ouvir sem questionar, será que também não poderia ser restaurada pelo que ousa proclamar em alta voz?
Adivalter Sfalsin