Entre o Cetro e o Martelo: Quando o Juiz Se Torna Hamã
Num tribunal ideal, a balança da justiça deve ser equilibrada, o juiz, imparcial, e a lei, um alicerce que não se curva ao gosto do momento nem ao humor do poderoso. Mas o que acontece quando o juiz abandona a lei e se torna o próprio padrão do que é certo ou errado? Quando a toga se transforma em capa de tirania e o tribunal vira trono pessoal? A história de Hamã, Ester e Mardoqueu nos fornece uma janela poderosa para explorar esse tema, revelando não apenas uma conspiração genocida, mas um retrato sombrio do que acontece quando o poder corrompe o julgamento e desfigura o humano.
A narrativa se desenrola no coração do império persa, onde o luxo e o autoritarismo convivem em harmonia aparente. Após a queda da rainha Vasti, por sua recusa em obedecer cegamente, Ester, uma jovem judia, é escolhida para ocupar seu lugar, escondendo sua identidade étnica. Seu primo, Mardoqueu, um homem íntegro, recusa-se a se curvar diante de Hamã, o novo alto oficial do rei. Esse gesto de integridade desperta a ira de Hamã, que, inflamado por orgulho, vê na resistência de um único homem a necessidade de destruir um povo inteiro. É o retrato de como o ego ferido pode se tornar motor de tragédias coletivas.
Hamã encarna aquilo que acontece quando um juiz abandona o ideal de justiça e se vê como origem e fim da moral. Seu comportamento reflete a antiga tentação do poder absoluto: não apenas exercer autoridade, mas ser adorado. O poder absoluto, dizia Lord Acton, tende a corromper absolutamente. E quando um juiz, ou qualquer autoridade, se deslumbra com o próprio reflexo, a justiça perde sua função pública e se torna instrumento privado de vingança, vaidade ou ideologia. O Estado de Direito dá lugar ao Estado de Exceção, e todo o dissenso é tratado como ameaça existencial.
O caso de Hamã não é apenas um exemplo de tirania, mas também um alerta sobre um fenômeno mais sutil e profundo: a banalidade do mal. Como definiu Hannah Arendt ao analisar o julgamento de Adolf Eichmann, o mal pode se manifestar de forma rotineira, sem paixão ou fúria, mas com uma assustadora normalidade burocrática. Hamã não age como um monstro mitológico, mas como um alto funcionário eficiente. Ele escreve cartas, carimba decretos, convoca escribas. Seus atos são executados por outros, em nome da ordem, da tradição e da estabilidade. O horror se esconde por trás da formalidade, da etiqueta, da linguagem jurídica. Não é o grito que assusta, é o silêncio protocolar.
Nesse processo, o primeiro passo do mal institucionalizado é a desumanização. Os judeus deixam de ser pessoas e se tornam “um povo disperso e rebelde”. A linguagem é cuidadosamente escolhida para apagar rostos, histórias e afetos. Eles passam a ser tratados como problema administrativo, obstáculo ao progresso, ameaça à ordem. Quando o ser humano é reduzido a um rótulo, a uma estatística ou categoria impessoal, o passo seguinte, sua eliminação, se torna apenas mais uma assinatura entre outras.
No centro dessa tempestade, Ester aparece como figura-chave. Diferente de Hamã, ela não se sente dona do destino de ninguém, mas sim responsável pelo seu próprio povo. Ela é o modelo da consciência desperta: alguém que compreende o poder que tem, mas escolhe usá-lo com temor, inteligência e compaixão. Ester jejua, ora, pensa, espera o momento certo, age com sabedoria. Ela não é apenas uma rainha, é uma intercessora, um canal entre o palácio e o povo, entre a injustiça iminente e a esperança silenciosa. Ester entende que omissão diante do mal é cumplicidade. Sua coragem reside não na força, mas no risco: arriscar o próprio privilégio para defender os vulneráveis.
Quando ela finalmente expõe Hamã, a narrativa revela uma virada profunda. Hamã, que havia construído uma forca para seu inimigo, é enforcado nela. É o símbolo da justiça divina, que não opera segundo as estratégias humanas, mas por princípios imutáveis. O juiz que havia se colocado acima da lei termina esmagado por ela. A justiça, nesse momento, se revela como um fio invisível que, embora pareça ausente, sempre aguarda o tempo certo para se manifestar.
Mas a história não é apenas sobre Hamã. Ela é um espelho. Em todas as gerações surgem novos “juízes”, não apenas nos tribunais, mas em qualquer espaço onde alguém se arrogue o direito de ditar a verdade sem prestar contas. São autoridades que perdem o senso de serviço público e passam a agir como se o poder fosse fim em si mesmo. A Constituição vira biombo. A toga, armadura. A caneta, arma. E o tribunal, extensão do ego. Esses juízes não escutam mais o povo, apenas ecoam suas próprias certezas. Já não protegem a verdade, a dobram até que ela se encaixe em seus desígnios.
Eles criam suas “forcas jurídicas” com sentenças seletivas, abusos interpretativos e perseguições disfarçadas de legalidade. Perigam não pelo grito, mas pela sutileza. Sabem citar artigos, adornam suas falas com erudição, usam o verniz da legalidade para encobrir decisões profundamente injustas. Mas por trás da retórica está a velha sede de domínio. Um império pode ser destruído com mais facilidade por um juiz corrupto do que por um exército inimigo.
Purim, a festa que celebra a salvação do povo judeu, é mais do que um alívio histórico, é um grito contra o esquecimento. Ela lembra que o mal não vencerá, mesmo que os decretos sejam selados, mesmo que os tribunais estejam capturados. Purim celebra o fato de que existe um Juiz acima de todos, que vê além dos processos manipulados, das sentenças injustas, dos pactos silenciosos. Um Rei que não se vende, que não se engana, que julga com verdade.
Hamã acreditava que era intocável, que podia dobrar a história à sua vontade. Mas a justiça não se dobra para sempre. Ela apenas se inclina para ganhar impulso. E quando volta, atinge com precisão aqueles que ousaram brincar com seu nome. A pergunta final, portanto, não é apenas sobre Hamã, mas sobre nós. Em um mundo cheio de tronos vazios e juízes cegos, como nos posicionamos? Vamos nos calar como Vasti, nos esconder como Ester, ou nos levantar como Mardoqueu?
Adivalter Sfalsin
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