Duas Árvores, Dois Destinos

Da Árvore da Morte à Árvore da vida: A Reversão Divina

O conceito de árvores desempenha um papel significativo na história bíblica, simbolizando tanto a queda quanto a redenção da humanidade. Do Jardim do Éden à cruz no Calvário, as árvores representam momentos decisivos onde escolhas foram feitas, levando a consequências que ecoam ao longo do tempo. Esta reflexão explora o profundo simbolismo e os paralelos entre essas duas “árvores” centrais — a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e a Árvore da Cruz — mostrando como D-us usou os próprios elementos do pecado e da morte para trazer salvação e vida.

No Jardim do Éden, D-us colocou a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. A queda da humanidade começou quando Adão e Eva desobedeceram a D-us ao comerem do seu fruto. Talvez não era o fruto em si que era inerentemente errado, mas o ato de desobediência que levou à morte espiritual e à separação de D-us. Este evento marcou a entrada do pecado no mundo — uma “transgressão” que desde então tem sido a raiz de todo pecado, frequentemente referida como “a grande transgressão”. Através dessa primeira árvore, a humanidade foi introduzida ao conhecimento do bem e do mal, mas ao custo de sua comunhão com D-us e o início de seu exílio do Paraíso.

Milhares de anos depois, outra árvore aparece no palco da humanidade — a Cruz. Essa não era uma árvore viva e florescente, mas um pedaço de madeira morto, transformado em um instrumento de tortura e execução. No entanto, tornou-se o símbolo supremo da redenção. Através dessa “árvore morta”, D-us trouxe vida. Assim como o pecado de Adão através da primeira árvore trouxe morte a todos, a obediência do Messias através da segunda árvore traz vida a todos que acreditam.

O apóstolo Paulo enfatiza esse contraste: por meio da desobediência de um homem, o pecado e a morte se espalharam para todos, mas pela obediência de outro, a justificação e a vida se tornaram disponíveis para todos. O Messias desfaz o que foi feito no Éden. Todos nós fomos ligados àquela árvore do pecado no Éden, herdando sua maldição, mas ao nos unirmos à árvore da Cruz, a maldição começa a ser desfeita. Esta é a reversão cósmica da queda — o Éden desfeito.

Em um belo ato de simetria, o Messias escolheu participar de um “cálice”, simbolizando fruto esmagado, durante a última ceia. Em contraste com Adão, que comeu o fruto que trouxe a morte, o messias bebeu o cálice do fruto esmagado do sofrimento, escolhendo voluntariamente suportar a cruz. Este ato desfez a desobediência do Éden, oferecendo um caminho para a redenção e a vida eterna.

Um aspecto profundo da crucificação é como o Messias tomou sobre Si a maldição destinada à humanidade. A Torá declara: “Maldito todo aquele que for pendurado num madeiro” (Deuteronômio 21:23), uma lei que apontava para a vergonha e a maldição associadas a tal morte. O apóstolo Paulo, refletindo sobre isso, escreveu: “Messias nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós, porque está escrito: ‘maldito todo aquele que for pendurado num madeiro'” (Gálatas 3:13). Ao ir voluntariamente para a cruz, o Messias tomou sobre Si a maldição que era nossa, quebrando o poder do pecado e oferecendo um novo começo.

A serpente, que levou a humanidade ao pecado no Éden, também aparece de forma simbólica durante a jornada dos israelitas no deserto. D-us instruiu Moisés a fazer uma serpente de bronze e levantá-la em um poste. Aqueles que olhassem para ela seriam curados das mordidas de serpente. Aqui, o objeto que representava a morte tornou-se uma fonte de cura. Isso prefigura a crucificação do Messias, onde Ele foi levantado, e por Suas feridas, a humanidade é curada.

Na tradição hebraica, a oferta pelo pecado ou transgressão é chamada “chatat”, que também significa “pecado ou transgressão”. Este duplo significado destaca uma verdade profunda: aquilo que é chamado pecado torna-se o próprio meio para tirar o pecado. O mesmo jogo de palavras aplica-se à oferta pela culpa, “asham”, que significa tanto “culpa” quanto “a oferta pela culpa”. De forma semelhante, o Messias tornou-se “pecado” e “culpa” em nosso lugar, embora Ele fosse sem pecado, para tirar nossos pecados e culpas. (*A1)

As conexões entre a queda no Éden e a redenção na cruz são profundas e numerosas:

  • Desobediência no Éden vs. Obediência no Calvário: No Éden, Adão e Eva escolheram a desobediência ao comerem o fruto. Na véspera de Sua crucificação, o Messias escolheu a obediência ao beber o cálice do sofrimento, mesmo podendo ter evitado.
  • A Nudez do Éden vs. A Nudez na Cruz: Adão e Eva, ao perceberem seu pecado, sentiram vergonha e buscaram cobrir sua nudez. O Messias, embora inocente, foi despido na cruz, carregando a vergonha da humanidade. Nesse ato, Ele ofereceu uma cobertura para nossos pecados. Embora esse aspecto de nudez seja pouco mencionado devido às sensibilidades culturais, é importante lembrar que a crucificação era projetada para ser uma forma de execução extremamente humilhante, expondo o condenado à vergonha pública e infligindo o máximo de sofrimento possível, desencorajando outros a desobedecer à autoridade de Roma.
  • A Árvore do Conhecimento vs. A Árvore da Cruz: A primeira árvore trouxe o conhecimento do bem e do mal, levando à morte espiritual. A cruz, como uma “árvore”, tornou-se o lugar onde o bem supremo (o amor e o sacrifício de D-us) triunfou sobre o mal supremo (o pecado e a morte).
  • A Decepção da Serpente vs. O Papel da Serpente na Redenção: A serpente enganou Adão e Eva, levando-os à árvore. Na história da redenção, a “serpente” (representando o pecado e forças malignas) teve um papel em trazer o Messias à cruz. No entanto, D-us foi soberano sobre tudo, usando o que era destinado para o mal para trazer o maior bem.

A Reversão Cósmica: A história da redenção é uma reversão cósmica da queda. No Éden, D-us colocou a humanidade em um jardim de vida, cercado por árvores que proporcionavam sustento. Após a queda, a humanidade foi amaldiçoada, e a morte reinou. Quando o Messias foi crucificado, Ele foi colocado em uma árvore morta, cercado por outras 2 cruzes, simbolizando a morte. Mas esse ato reverteu a maldição da morte, transformando a “árvore da morte” em uma “árvore da vida” para todos que creem.

  • Da Glória à Coroa de Espinhos: No Éden, a humanidade foi coroada com glória e honra. Na cruz, o Messias foi coroado com espinhos, um símbolo da maldição. Ele assumiu a maldição para restaurar a glória que foi perdida.
  • Do Jardim da Vida ao Jardim da Morte: D-us colocou o homem no Jardim do Éden, um lugar de vida. A humanidade então colocou D-us em um “túmulo no jardim”, um lugar de morte. No entanto, através de Sua ressurreição, aquele túmulo tornou-se a porta para a vida eterna.
  • Da Árvore Viva à Árvore Morta: A queda veio por meio de uma árvore viva, exuberante e cheia de vida. A redenção veio através de uma árvore morta, seca e sem vida, a cruz. Mas assim como D-us pode trazer vida da morte, a cruz tornou-se uma nova Árvore da vida, oferecendo salvação eterna a todos que a abraçam.

Por fim, a história do plano redentor de D-us está cheia de simbolismo, mostrando como Ele pode pegar o que foi destinado para o mal e transformá-lo em bem. A cruz, mais do que qualquer outro símbolo, encarna essa verdade. Ela representa a intersecção do bem e do mal — mal no sentido de que foi o local da execução injusta do Messias, e bem no sentido de que foi o ato supremo de amor, levando à salvação. Através da cruz, D-us transformou a Árvore da Morte em uma nova Árvore da vida, restaurando o que foi perdido no Éden e oferecendo à humanidade um caminho de volta ao paraíso.

A cruz não é apenas um evento; é um poder contínuo para transformar vidas. Como Paulo declarou: “Fui crucificado com o Messias; já não sou eu quem vive, mas o Messias vive em mim.” Quanto mais nos alinhamos com essa árvore, mais seu poder traz vida e liberdade do pecado. A Cruz, em essência, é uma árvore de vida, trazendo restauração, perdão e a promessa de um novo começo. No Éden, a humanidade foi exilada do Paraíso, mas através da Cruz, somos convidados de volta. As bênçãos do Paraíso — plenitude, paz e comunhão eterna com D-us — estão novamente disponíveis, não apenas em um sentido espiritual, mas eventualmente na restauração de toda a criação. A árvore que outrora marcou a separação da humanidade de D-us tornou-se agora o portal para a reunião, levando não apenas a um jardim de vida na Terra, mas ao Paraíso eterno no Céu.

Assim, a cruz é mais que um símbolo; é a revelação máxima do amor e do poder de D-us para fazer novas todas as coisas. É uma árvore que transforma luto em alegria, culpa em inocência e morte em vida. É um convite para que todos venham e partilhem de seu poder de cura, perdão e transformação. Não há tristeza, pecado ou escuridão que o poder dessa árvore não possa superar. O Messias nos chama a ir à Cruz, a experimentar Seu amor e o milagre de sermos feitos novos, redimidos e trazidos de volta aos braços de D-us.

Adivalter Sfalsin

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(*A1) Referências bíblicas de alguns tipos de pecado:

Chatat (Oferta pelo Pecado)

  • Levítico 4:1-35 – Este capítulo fornece instruções abrangentes sobre a oferta pelo pecado, exigida quando alguém comete um pecado não intencional. Inclui vários cenários, desde os pecados do sumo sacerdote até os de toda a comunidade, líderes ou membros individuais.
  • Levítico 5:1-13 – Detalhes adicionais são fornecidos sobre situações que requerem uma oferta pelo pecado, como deixar de testemunhar ou tocar em algo impuro.
  • Números 15:22-29 – Esses versículos descrevem ofertas pelo pecado para pecados não intencionais cometidos por indivíduos ou por toda a comunidade.

Asham (Oferta pela Culpa)

  • Levítico 5:14-19 – Instruções sobre a oferta pela culpa para ofensas que envolvem o uso indevido de coisas sagradas e para atos de engano contra D-us ou outros.
  • Levítico 6:1-7 – Diretrizes para ofertas pela culpa quando alguém prejudicou outra pessoa, como por meio de roubo ou engano.
  • Levítico 7:1-7 – Mais detalhes sobre a oferta pela culpa e seus procedimentos sacrificiais.

Messias como Oferta pelo Pecado e pela Culpa

  • Isaías 53:5-6, 10 – A profecia sobre o Servo Sofredor afirma que Ele foi “transpassado por nossas transgressões” e “moído por nossas iniquidades”. O versículo 10 menciona explicitamente que Sua vida foi feita como uma “oferta pela culpa” (asham).
  • 2 Coríntios 5:21 – “Aquele que não conheceu pecado, Ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de D-us.” Este versículo reflete a ideia de que o Messias assumiu o pecado, cumprindo o papel da oferta pelo pecado.
  • Hebreus 9:26-28 – Descreve como o sacrifício do Messias foi uma oferta única, removendo o pecado por meio de Seu auto-sacrifício.

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