
O artigo de hoje é baseado na análise do rabino David Fohrman sobre os paralelos entre os textos de Gênesis 22 e Números 22. As histórias de Balaão e Abraão na Bíblia oferecem paralelos notáveis que destacam diferenças significativas em seus papéis e destinos. Embora ambos os personagens sejam apresentados em momentos críticos, suas abordagens às instruções divinas e suas motivações revelam lições profundas sobre caráter e obediência. Este artigo explora essas diferenças e as lições que podemos extrair para nossas vidas.
Abraão e Balaão são descritos levantando-se cedo e preparando seus jumentos para cumprir missões que envolvem instruções divinas. Em Gênesis, Abraão “levantou-se cedo pela manhã e selou seu jumento” (Gênesis 22:3) para realizar o sacrifício de seu filho Isaac, enquanto, em Números, Balaão “levantou-se cedo pela manhã e selou sua jumenta” (Números 22:21) para amaldiçoar os israelitas. Ambos são acompanhados por dois jovens em suas jornadas, um detalhe que acentua a semelhança entre as duas histórias.
Apesar dessas semelhanças, os destinos dos dois personagens divergem drasticamente. A missão de Abraão é interrompida por um anjo que o testa em sua fé e obediência. O teste culmina na confirmação de sua lealdade a D-us, demonstrada pela disposição de sacrificar seu filho. A intervenção do anjo, nesse caso, serve para validar a fé inabalável de Abraão.
Por outro lado, Balaão também enfrenta uma intervenção divina quando um anjo aparece para impedir que ele amaldiçoe os israelitas. No entanto, essa intervenção destaca a resistência de Balaão em compreender e aceitar plenamente a vontade de D-us. Embora Balaão seja um profeta, suas ações revelam uma tentativa de manipular os comandos divinos para atender a seus próprios interesses, o que contrasta com a atitude de Abraão.
A obediência de Abraão a D-us é um exemplo de verdadeira submissão. Ele segue as instruções divinas sem questionar, mesmo quando isso implica um grande sacrifício pessoal. Abraão demonstra uma compreensão clara da vontade de D-us e age de acordo com ela, sem permitir que seus próprios desejos influenciem suas ações.
Em contraste, Balaão tenta manipular as instruções divinas. Embora afirme seguir a vontade de D-us, ele busca reinterpretar e ajustar as palavras divinas para satisfazer seus próprios interesses. Quando D-us lhe diz inicialmente para não ir com os mensageiros de Balaque, Balaão volta a perguntar, na esperança de obter permissão para agir conforme seus próprios desejos. Sua relutância em aceitar a vontade divina revela uma falta de humildade e uma tendência ao autoengano.
Abraão não é influenciado pelo ganho material. Sua principal preocupação é cumprir a vontade de D-us, sem buscar recompensas pessoais. Sua vida é marcada pelo altruísmo e pelo desejo de justiça, guiado por um senso de missão divina.
Balaão, por outro lado, demonstra um forte desejo de riqueza e reconhecimento. Ele expressa interesse por uma casa cheia de ouro e prata, revelando que suas verdadeiras motivações são guiadas pelo desejo de ganho pessoal. Esse foco em riquezas demonstra uma falha moral significativa e ofusca sua capacidade de agir de acordo com a vontade divina.
Lições dos Sábios: A Mishnah*, no tratado Avot 5:19, faz uma comparação entre Abraão e Balaão com base em suas características morais e espirituais. Os discípulos de Abraão são definidos por humildade e integridade, enquanto os discípulos de Balaão são marcados por arrogância e autoengano. O maior erro de Balaão é mentir para si mesmo sobre o verdadeiro significado das instruções divinas. Para ver e seguir a vontade de D-us claramente, é necessário retirar o ego da equação e agir com sinceridade.
A comparação entre Abraão e Balaão, oferece lições valiosas sobre caráter e obediência. Abraão é um exemplo de humildade, altruísmo e verdadeira obediência a D-us, enquanto Balaão representa arrogância, autoengano e a tendência de manipular comandos divinos para ganho pessoal. Ao refletirmos sobre essas histórias, somos incentivados a cultivar qualidades de humildade e integridade, buscando uma compreensão clara e honesta da vontade de D-us em nossas vidas. Essas lições são atemporais e oferecem um guia moral para enfrentar os desafios da vida com retidão e fé. Perguntamo-nos, então: que tipo de discípulo você deseja ser?
Adivalter Sfalsin
* A Mishnah é um dos textos centrais da lei e tradição judaica. É uma compilação de leis orais, tradições e ensinamentos que foram transmitidos de geração em geração e eventualmente escritos por volta do ano 200 d.C.