
Seguindo o tema abordado anteriormente sobre o filho pródigo, agora vamos explorar a parábola sob a perspectiva histórica e cultural, destacando nuances que frequentemente passam despercebidas. A análise através da lente hebraica revela detalhes valiosos que nos ajudam a desvendar camadas mais profundas dessa narrativa tão conhecida. Inspirados pelas reflexões do renomado Dr. Kenneth Bailey em seu livro “Poet and Peasant”, nosso objetivo hoje é aprofundar nossa compreensão dessa história cativante, contextualizando-a dentro de seu cenário histórico e cultural. Esta jornada de exploração promete enriquecer nossa visão sobre a essência e a mensagem subjacentes dessa parábola atemporal.
Lucas 15:11-12 cria o cenário: “Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe.’ O pai então dividiu os bens entre eles.” Este pedido, embora aparentemente normal para os leitores modernos, foi extraordinariamente ofensivo em seu contexto histórico. Dr. Bailey, um especialista em cultura do Oriente Médio, destaca a raridade e a gravidade de tal demanda. Em sua extensa pesquisa, ele encontrou apenas dois casos de um filho que pediu sua herança enquanto o pai ainda estava vivo. Este ato era equivalente a desejar a morte do pai, um insulto sem precedentes nas tradições judaicas e do Oriente Médio.
Na cultura judaica, a iniciativa do pai é essencial na distribuição da herança, e isso é tipicamente feito para evitar disputas futuras, nunca a pedido do filho. Além disso, o pai mantém o direito de viver dos produtos da terra, mesmo após transferir a propriedade. Ao pedir e depois dispor de sua herança, o filho mais jovem não só desrespeita seu pai, mas também põe em risco a estabilidade financeira futura do pai. Esta ação teria sido chocante e profundamente ofensiva para a audiência original de Jesus.
O que se segue é ainda mais notável do que o pedido do filho: a resposta do pai. Contrariamente às expectativas culturais de raiva e punição, o pai concede ao pedido em um ato profundo de amor e generosidade. Esta concessão é voluntária, apesar do comportamento ofensivo do filho, ela desafia todas as normas culturais. A resposta do pai ilustra um ato extraordinário de graça, destacando a profundidade de seu amor e o potencial para a reconciliação apesar da provocação severa.
A parábola também critica sutilmente o comportamento do filho mais velho. De acordo com as expectativas culturais, o filho mais velho deveria ter protestado contra a divisão da herança e agido como mediador para restaurar a harmonia familiar. Em vez disso, seu silêncio e aceitação de sua parte indicam uma cumplicidade passiva e uma violação do dever familiar. Segundo a lei judaica no século I, o filho mais velho tinha direito a dois terços da herança, enquanto o filho mais novo receberia um terço. Ao permanecer em silêncio, o filho mais velho não estava apenas negligenciando seu dever, mas também garantindo seu ganho financeiro. Esta omissão é tão nociva quanto a transgressão do filho mais novo, revelando uma forma diferente, mas igualmente prejudicial de desrespeito ao pai.
À medida que a história se desenrola (Lucas 15:13-16), o filho mais novo desperdiça sua riqueza em uma terra distante, eventualmente encontrando-se desamparado e trabalhando como cuidador de porcos. Este detalhe, particularmente ressonante na cultura judaica onde os porcos são animais impuros, o porco pela sua impureza vive alienado de tudo que é divino, assim como esse jovem, sublinha sua degradação total. A fome que se abate exacerba sua situação, levando-o a um estado de desespero onde ele inveja a comida dos porcos.
Desesperado e faminto, ele anseia comer as alfarrobas que os porcos comiam. As alfarrobas, bem conhecidas no Oriente Médio, vêm em duas variedades: cultivadas e selvagens. As alfarrobas cultivadas são doces e nutritivas, frequentemente vistas como um deleite. No entanto, durante um estado de fome, essas não seriam desperdiçadas com porcos. Em vez disso, os porcos vasculhariam arbustos de alfarroba selvagem, que produzem vagens amargas e nutricionalmente pobres. Este tipo de comida mostra a extrema degradação da situação do rapaz. Uma prática comum no Oriente Médio para livrar-se de uma pessoa indesejada é atribuir-lhe uma tarefa intolerável. Imagine o cenário, um jovem judeu vivendo em uma terra estrangeira junto aos gentios, indesejado e perdido. O cidadão que empregou o rapaz provavelmente esperava que ele rejeitasse esse trabalho humilhante. Oferecer esse tipo de trabalho a um judeu teria sido uma afronta e uma indicação de que ele não era bem-vindo nessa terra distante. No entanto, em seu desespero, ele aceita até mesmo isso. Sua associação com porcos e sua fome pelas vagens não comestíveis refletem sua profunda queda da graça e a extensão de sua alienação de sua cultura e família.
O termo hebraico “ele caiu em si” significa um momento de autoconscientização, despertar, frequentemente associado ao arrependimento na literatura rabínica. No entanto, o termo usado aqui não é o padrão “Teshuva” (arrependimento), o termo sugere que o arrependimento do filho é incompleto e seletivo. O filho reconhece sua situação desesperadora—fome e pobreza—mas não há remorso genuíno por ter ofendido o seu pai. Sua motivação para voltar é impulsionada pela necessidade física em vez de arrependimento sincero. A proposta do filho de se tornar um servo contratado é estratégica nos versículos 18-19.
“18 Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti; 19 Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros (servo contratado).”
No século I havia 3 tipos de servos:
1 – O governante da casa: Esse morava na propriedade por muitos anos e era íntimo do proprietário, fazia parte da casa, era tratado de forma semelhante a um membro da família.
2 – O trabalhador braçal: Era subordinado ao governante, realizava tarefas servis e repetitivas.
3 – O servo contratado: Era altamente valorizado com habilidades específicas em grande demanda como decoradores, pintores, pedreiros e artesãos, esses estariam socialmente par a par com o empregador, vivendo na mesma propriedade por longos períodos dependendo da extensão dos projetos a serem executados, mas independentemente, ganhando bons salários. Algumas traduções trazem a palavra “jornaleiro”, a palavra em grego é “misthios”, “μισθός” que se traduz como diarista. Como os projetos eram geralmente extensos, esses contratados acabavam vivendo próximo à propriedade do empregador por um longo tempo, geralmente em uma acomodação separada da principal.
O filho pródigo visa viver de forma independente, evitando interações diárias com seu pai e o irmão. Quer ganhar bons salários, potencialmente reembolsando seu pai e cumprindo sua obrigação moral de cuidar de seu pai na velhice. Quer manter seu orgulho e independência, evitando submissão ou humilhação completa. Essencialmente, ele buscava ganhar sua salvação através de boas ações, arrependendo-se superficialmente sem perder a dignidade. O arrependimento deve ser seguido por ação prática para ser verdadeiro. A determinação do filho de agir—levantando-se e retornando ao pai—demonstra sua disposição de tomar medidas em direção à reconciliação, mesmo que suas motivações sejam mistas.
No retorno do filho, as ações do pai são significativas: O ato do pai de correr é culturalmente indigno e humilhante para um homem mais velho. Tentar correr com uma vestimenta longa, parecida com as saias modernas, era bem difícil, além de ser vergonhoso mostrar as pernas em público, mas o pai faz isso por compaixão e amor para poupar seu filho do julgamento e ridículo da comunidade. Da forma aglomerada que as casas nas vilas eram construídas indica que a volta do filho foi um evento público, todos presenciaram. As ações do pai foram feitas para proteger seu filho do julgamento severo da comunidade. Os beijos repetidos indicavam a reconciliação e a cura da brecha entre pai e filho, mostrando relacionamentos restaurados.
No versículo 21, o filho começa seu discurso ensaiado, mas omite o pedido para ser um servo contratado.
“21 E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho.”
Esta omissão reflete uma mudança genuína de coração, provocada pelo ato de amor sem precedentes do pai. Aqui ele se arrepende de verdade. Aceita sua indignidade e está disposto a abraçar a filiação, implicando arrependimento completo.
As ordens do pai para vesti-lo com sua melhor roupa, colocar um anel em seu dedo e sandálias em seus pés significam restauração completa ao estado pleno, tanto na casa quanto na comunidade. Ao vesti-lo com suas melhores vestes e dar-lhe o anel de autoridade, o pai demonstra publicamente o estado restaurado do filho, garantindo que a comunidade também aceite a reconciliação.
O pedido do filho mais novo e ações subsequentes são uma verdadeira afronta quando vista dentro da perspectiva cultural. A resposta do pai mostra um ato de graça radical. O silêncio do filho mais velho é igualmente ofensivo e mostra o seu apego aos bens materiais. Essa mensagem é atemporal e nos ensina sobre o arrependimento, a graça e como o amor profundo pode superar até mesmo as mais profundas brechas nos relacionamentos.
Isso evidencia minuciosamente que a nossa salvação advém da submissão ao amor que Ele tem por nós, em vez de tentarmos obter graça por meio das nossas realizações. Uma lição que deve estar constantemente em nossas mentes porque, durante fases de nossas vidas, agimos exatamente como o filho pródigo, mas podemos estar certos de que o amor do Pai excede todas as nossas expectativas.
No próximo artigo, iremos explorar um pouco mais o papel do filho mais velho.
Adivalter Sfalsin
Nota: Sou profundamente grato àqueles que me ajudaram a entender as parábolas dentro de seu contexto adequado, incluindo Dr. Dwight Pryor, Dr. David Divin, Dr. Skip Moen entre outros.