Entendendo as palavras difíceis de Jesus Parte 7 “Virar a outra face”

Entendedo as Palavras dificeis de Jesus - Virar a outra face

As palavras de Jesus em Mateus 5:39, “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;”, muitas vezes são interpretadas como uma ordem passiva para aceitar a agressão sem revidar. No entanto, essa interpretação superficial ignora o contexto cultural e histórico rico em que essa frase foi dita, levando a uma compreensão distorcida da mensagem de Jesus.

Para desvendar a verdadeira essência dessa passagem, é crucial mergulharmos no mundo antigo e na cultura da honra e da vergonha que permeava a sociedade da época. Essa cultura ditava as normas sociais e as expectativas de comportamento, moldando profundamente as interações entre as pessoas.

Ao analisar as palavras de Jesus através da lente da cultura da honra e da vergonha, podemos entender sua mensagem de forma mais profunda. Jesus não estava defendendo a submissão passiva à violência, mas sim desafiando as normas sociais arraigadas que perpetuavam a vingança e a hostilidade.

Frases idiomáticas podem se tornar um verdadeiro desafio para desvendar a mensagem subjacente. Jesus as utilizava frequentemente para elucidar verdades para seus ouvintes, porém, para o leitor moderno, elas podem causar confusão quando o contexto no qual foram ditas é ignorado. Uma frase idiomática é uma expressão ou conjunto de palavras que possuem um significado figurado específico, divergindo de sua interpretação literal. Essas expressões são características de uma língua ou cultura específica e, muitas vezes, não podem ser traduzidas diretamente para outras línguas sem que se perca seu significado original. As frases idiomáticas são frequentemente utilizadas para transmitir ideias de forma mais colorida, vívida ou expressiva.

Geralmente, esse texto é referido como se fosse uma proibição à autodefesa, mas esse texto não está falando de tomar um tapa literalmente. A palavra grega usada para “face direita” é DEXIA SIAGON (δεξιὰν σιαγόνα), ou seja, um lugar de honra ou autoridade, ou seja, alguém que tenta ferir a sua honra, a sua autoridade. Quando Jesus fala em oferecer a outra face, a palavra grega é STEPSON, que quer dizer virar as costas para alguém, ou seja, dar as costas. Então, traduzindo essa expressão idiomática de Jesus, se alguém tentar ferir a sua honra, a sua autoridade, vire as costas para ele, evite conflitos, evite disputas, e não alimente o sentimento de vingança quando alguém tentar desonrar você.

Compreendendo o Contexto Cultural: Honra, Vergonha e Agressão. Na sociedade da época de Jesus, a honra era um bem precioso, definindo a posição social e o respeito de um indivíduo. A vergonha, por outro lado, era vista como uma mancha na reputação, causando humilhação e ostracismo. Essa dinâmica social moldava as relações interpessoais, onde ofensas e agressões eram frequentemente respondidas com retaliação proporcional ou até mesmo excessiva, perpetuando um ciclo de violência e vingança.

O Insulto por Trás do Tapa na Face Direita. Um aspecto crucial para entender a profundidade da instrução de Jesus é o significado do gesto de “bater na face direita”. Na cultura da honra e da vergonha predominante, um tapa com o dorso da mão era considerado um insulto grave, especialmente se direcionado à bochecha direita. Essa era a face considerada mais honrosa, pois era o lado que um guerreiro usava para proteger seu coração. Levar um tapa na bochecha direita, portanto, era um ataque direto à honra e dignidade da pessoa, um ato de humilhação pública.

Ao usar essa imagem vívida, Jesus não apenas estava falando sobre a dor física de um tapa, mas sim sobre a profunda humilhação e vergonha que tal ato infligia. Oferecer a outra face, nesse contexto, representava um desafio radical às normas sociais da época. Era um ato de recusar a vergonha imposta pelo agressor, mantendo a própria honra e dignidade através da compaixão e do perdão.

Além da Não Resistência: Quebrando o Ciclo da Vingança. O trecho que menciona Jesus vai além da mera passividade em face da agressão. Ele não está apenas dizendo que os cristãos não devem revidar fisicamente, mas sim que devem evitar a busca por vingança em qualquer forma. Em uma cultura onde a honra era defendida com unhas e dentes, a ideia de não revidar era vista como fraqueza e submissão.

No entanto, Jesus propôs um caminho alternativo: o da compaixão, do amor e da quebra do ciclo de violência. Ao oferecer a outra face, o indivíduo demonstrava força interior, recusando-se a ser dominado pela raiva e pelo desejo de retaliação.

A Relevância Atual da Mensagem de Jesus. Embora o contexto cultural da época de Jesus seja muito diferente do nosso, sua mensagem central permanece atemporal: a superação da violência através da compaixão, do perdão e do amor. Em um mundo marcado por conflitos e hostilidades, o convite de Jesus para “virar a face” nos convida a refletir sobre nossas próprias respostas à agressão e buscar caminhos alternativos para a resolução de conflitos, construindo um mundo mais pacífico e justo.

Um Convite à Transformação Interior. Em última análise, a instrução de Jesus para “virar a face” não se limita a uma mera ação física. É um convite a uma transformação interior, a uma mudança de postura diante da ofensa e da agressão. Trata-se de cultivar a compaixão, o perdão e a capacidade de superar a raiva e o ressentimento.

Ao oferecer a outra face, o indivíduo demonstra a força interior de não ser dominado pela ira e pelo desejo de vingança. Essa atitude desafia as normas sociais baseadas na honra e na vergonha, abrindo caminho para a construção de relacionamentos mais pacíficos e compassivos.

Assim, ao compreendermos o contexto cultural e a profundidade da mensagem de Jesus em Mateus 5:39, somos convidados não apenas a refletir sobre nossas próprias atitudes em face da agressão, mas também a abraçar um caminho de compaixão, perdão e amor, construindo um mundo mais justo e pacífico para todos.

Autor: Adivalter Sfalsin

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